![]() |
|
[Drive] Truth Happens [Talulah; Jack] - Printable Version +- Academia St. Clavier (http://academiastclavier.com.br) +-- Forum: Registro (http://academiastclavier.com.br/forumdisplay.php?fid=7) +--- Forum: Lixeira (http://academiastclavier.com.br/forumdisplay.php?fid=92) +--- Thread: [Drive] Truth Happens [Talulah; Jack] (/showthread.php?tid=105) |
[Drive] Truth Happens [Talulah; Jack] - Lil - 08-29-2021 Talulah
Suas férias em Cerise estavam sendo muito mais interessantes do que esperava. Tinha engordado já dois quilos por causa da quantidade de manteiga que os franceses usavam nos pratos deliciosos que tinha experimentado, tinha ido a um encontro, e reencontrado seus melhores amigos – todos eles – naquela cidadezinha. Gustav enfim tinha aparecido, muito mais quebrado que de costume. Jack enfim tinha desaparecido, mas isso não era novidade. E aliás, Leona estava trabalhando naquele interiorzinho, com um caso complicado nas mãos e lidando com uma esposa e, de acordo com sua última visita e conversa, um filho que não era um filho gato. Aparentemente Jack tinha a coragem mesmo de fazer um rebento em alguma pessoa na Europa e levar para a ex-namorada criar, e isso tudo parecia no mínimo revoltante. Ergueu as sobrancelhas enquanto tomava uma xícara de café e pensava nisso, sentada no exterior de uma cafeteria qualquer no centro da cidade, observando a paisagem interiorana. Não sabia onde ele tinha achado aquele pequeno chamado Adrian, mas para que Jack trouxesse uma criança para Leona ao invés de deixar largada com alguém do conselho tutelar, com certeza podia tecer mil conjecturas. Uma delas era que o pequeno era filho de uma namorada dele que não sabia que ele criava cinco famílias ao mesmo tempo, era plausível, afinal, havia algo de muito parecido em Adrian e Jack. Ou talvez fosse porque os dois eram loiros. É, talvez isso. E falando nele, como se invocado pelo poder da sua vontade de fazer perguntas, avistou o loiro dobrando a rua, e como provavelmente esperava que ele desse meia volta assim que lhe visse, era melhor chamar a atenção dele e de todo mundo, para que ele não tivesse a chance de correr sem suspeitas. - Jack Reinhardt!! – ela acenou, chamando-o de distante sem se importar, convidando-o com todos os dedos da mão rapidamente como quem estava animada para reencontrar um amigo de longa data. Mas se Jack era o mentalista que Talulah sabia que ele era, ele poderia ler no seus olhos púrpuras encarando-o diretamente sem perdê-lo de vista um instante que toda a postura gritava “se você fugir depois de me fazer passar a vergonha de lhe chamar, eu vou arrancar as unhas do seu pé uma por uma e colocar você para calçar sapatos de couro novos.” Jack
Jack estava muito acostumado a uma vida livre de amarras, a ponto de, inclusive, seus próprios amigos saberem muito pouco do que fazia ou por onde andava. Mas desde a última investigação de tráfico humano em Paris, ele tinha se deparado com uma situação inusitada, do tipo que jamais tinha cruzado na carreira. A situação tinha lhe rendido um garoto de não mais de seis anos de idade que ele não conseguiu abandonar num orfanato ou num conselho tutelar, simplesmente porque se identificava demais com a situação. Adrian estava sendo cuidado por Leona e Carissa em Cerise, e a situação com elas só não estava ideal por causa de outra investigação complicada na pequena cidade do interior. O conjunto da preocupação com a criança e o trabalho excessivo que tinha jogado nas mãos da amiga de longa data lhe fizeram ansiar para voltar a Cerise com mais frequência. Aos poucos, estava se adaptando ao trabalho na Interpol e podia visitar a cidade com mais frequência. Certamente ele não esperava visitar Cerise para encontrar Adrian e, na infelicidade do acaso, ou de uma leitura errada do seu horóscopo, avistou uma figura ao longe com quem não esperava ter a chance de conversar, não naquele momento. Mas nem teve chance de dar a volta nos calcanhares e encontrar outro caminho até o apartamento de Carissa, ouviu o seu nome tão alto que até algumas pessoas ao redor olharam em sua direção. Ele sorriu torto, seguindo o caminho até a mesa no café ocupada por Talulah Reyes. - Eu esperava mais discrição de uma pessoa com o trabalho como o seu, Sista. - Jack comentou, puxando uma cadeira para se sentar à mesa sem sequer ser convidado. - Sentindo tanta falta de mim que não consegue conter a empolgação? Talulah
Não era preciso ser um gênio da observação para notar os pés de Jack hesitando na hora de mudar de direção assim que lhe viu, porque ele lhe viu, de fato, mas o chamado pareceu resolver o problema, pois assim que os rosto viraram para o loiro, ele deu um sorriso amarelo frustrado de quem estava fadado a ter que falar com Talulah. Esperou com a mesma expressão enquanto ele se acomodava à mesa, um sorriso muito suave no rosto moreno e os olhos claros intensos completamente focados na figura do loiro. - Se eu fosse discreta, teria lhe dado a chance de fingir que não me viu. - ela respondeu calmamente, e então terminou de tomar um gole do café para se acomodar melhor na cadeira. - Oh, é empolgação, claro, Jack Reinhard. Afinal, eu não sabia quando teria a chance de lhe ver. Foi embora de Cerise antes que eu tivesse a chance de lhe parabenizar por ter se tornado pai. - a morena comentou com o rosto mais sério possível, não demonstrando um avo da empolgação ou felicidade que usualmente alguém demonstraria com a notícia de que um amigo se tornou pai. - Mas é surpreendentemente bom vê-lo de volta. Acreditei que ia demorar bem mais meses. Ou talvez nem voltaria. Talulah abriu um sorriso suave, encarando o loiro de volta longamente. Embora houvesse maldade em suas palavras, ela não parecia estar ralhando com o amigo de longa data. - O Adrian é um bom menino. O que deu em você para trazê-lo e deixá-lo com a Leona de todas as pessoas? Jack
A disposição de Talulah deixava bem evidente que ela estava num bom humor… do tipo para lhe atormentar de volta. E se ela estava tão bem disposta, tinha alguma coisa na manga para usar contra ele. Claro que Jack imaginava muitas coisas que a morena podia usar, então só fez um sinal para uma garçonete, lançando seu melhor sorriso para pedir por um café expresso. Foi bem em tempo de Talulah lhe responder e ainda adicionar que ele tinha ido embora da cidade antes de lhe parabenizar por ser pai. O loiro engoliu em seco com um sorriso torto, ainda bem que não estava bebendo nada para cuspir, e ficou com vontade de acender um cigarro, mas só impediu que a garçonete saísse no meio de anotar o pedido. - Mude pra um irlandês, sim? - ele pediu à atendente, que só sorriu corada e concordou com um aceno de cabeça antes de sair para fazer o pedido dele. Só então, o loiro se voltou para Talulah. - Eu não devia estar surpreso que fofocas correm rápido em cidades pequenas. Mas estou surpreso que você seja fofoqueira, Sis, isso não vai contra a sua religião? Ele manteve o sorriso sem graça por um instante, mas não havia exatamente algum tipo de represália nas palavras de Talulah. Jack certamente tinha mais habilidade em esconder aqueles tipos de micro-reações dos amigos de longa data, mas havia um pouco mais do que ter surgido do nada com um filho para Leona criar, então ao encarar a morena de volta com quê de sobriedade, ele só deu de ombros, devolvendo o sorriso mais suave finalmente. - Eu lá pareço uma pessoa capaz de cuidar de uma criança? Pelo menos a Kitty teve uma boa criação com o pai dela, eu tenho certeza que ela vai ser uma boa mãe. - Jack desviou a atenção para a atendente que voltou com o seu café impressionantemente rápido. Ele sorriu para a jovem que corou de novo e pegou o café. - Eu devia ter falado com você antes? Talulah
Talulah ficou obviamente entretida com a mudança de pedido de Jack de um café expresso para um café irlandês. Não queria motivar que o amigo bebesse álcool em plena luz do dia, mas talvez o ajudasse naquele momento. O tópico só não era fácil. - Não considero fofoca se estou falando diretamente com uma das partes envolvidas. – a morena comentou, observando Jack atentamente. – A não ser que sua paternidade recente seja um segredo, ou que eu esteja falando mal da lioness, o que não será o caso considerando seu papel nessa história, isso não é mais que uma conversa entre amigos. Esperava, claro, um tipo de reação diferente de Jack. Algo mais esquivo, ou uma provocação. Mas notou no rosto dele algum tipo de resignação a aceitar que aquele era mesmo o tema da conversa, e podia ver nele uma sobriedade que quase lhe causou um arrepio. Era difícil para a morena ler as reações como Jack, Gustav ou Leona faziam, mas tinha algo ali que não sabia ainda o que era. Talulah franziu a testa discretamente. - Você parece uma pessoa que não teria uma criança para cuidar, para começar, Jack Reinhardt. – ela respondeu muito simplesmente, aliviando a expressão em seguida. – E embora eu concorde que a lioness tem uma criação boa e que parece bem mais adaptável e responsável que você, ela não é exatamente a pessoa mais caseira. Não sei como ela se sairia sem a ajuda da Carissa, sinceramente. – Talulah suspirou discretamente, e então ajeitou a postura na cadeira. – Você não precisa me consultar para saber que trazer sua criança para sua ex-namorada que tem a própria carreira e a própria vida pessoal, por mais que ela seja sua melhor amiga, é mais que um favor. Jack
Jack se ocupou de tomar o café com uma dose de whisky para seguir com a conversa com Talulah que seria talvez mais sóbria do que ele gostaria de admitir. Sorriu um tanto sem graça por trás da xícara quando ela disse que não era fofoca se estava falando diretamente com os envolvidos. Naquele caso, um envolvido num caso muito específico e que já tinha lhe rendido uma conversa um pouco mais séria com Leona. - Eu pareço mesmo? - ele respondeu, tentando manter o tom mais descontraído convencional e as saídas costumeiras com piadas e insinuações pontuais. - Com o tanto de gente que eu encontro por aí e com quem durmo... não devia ser tanta surpresa, não é? Ele seguiu tomando o café, e talvez pelo fato de que sabia que Talulah não era muito boa em prestar atenção em micro-reações, deixou passar algumas deixas visuais que requeriam um pouco mais de concentração ou uma guarda mais alta, como o balançar discreto do pé com as pernas cruzadas ou o desviar de olhos eventual dependendo do que estava ouvindo. - Eu estava pensando mesmo na Cara quando dei a sugestão. - ele deu de ombros, deixando a xícara de volta no pires quando Talulah apontou que era mais do que um simples favor o que estava pedindo para Leona ao deixar uma criança com ela. Jack pegou a xícara de novo, mas não completou o caminho de levá-la até a boca. Na verdade, demorou alguns bons segundos a mais do que Talulah esperaria de uma resposta e devolveu a xícara antes de beber sequer um gole. - É sim, mais do que um favor. Ainda bem que eu tenho amigos que realmente se importam, não é mesmo? O que eu faria em outra situação? - a resposta foi mais sóbria de novo e ele voltou a tomar o café, encarando Talulah por cima da louça. Talulah
- Se um de seus casos lhe achou para lhe entregar seu filho, ela deve ser uma espiã internacional perigosa. – Talulah comentou, relevando o comentário de Jack sobre a própria situação. Não duvidava que Adrian poderia ser filho dele, mas tinha algo muito confuso nessa história toda, era toda a circunstância. E já que não sabia de mais do que Leona soubesse de fato, e que aquele pedido para cuidar do pequeno tinha sido vago e desesperado, só lhe restava teorizar. – Eu julgava até que toda célula do seu corpo era treinada para fugir de situações comprometedoras. Julgava que era incapaz de ter filhos por isso. – brincou em retorno, embora a expressão de Talulah fosse suave e não parecesse achar graça em nada. Encarou Jack por muitos segundos quando ele comentou que já estava pensando em Carissa quando trouxe a criança para as duas cuidarem. Pior do que depender de Leona para resolver os problemas dele, era depender da parceira dela. Entendia perfeitamente que ele não era uma pessoa conhecida por ser responsável, mas não sabia o que tinha causado aquela situação, e se sentia cada vez mais confusa quando ele falava. E quando Jack lhe deu uma resposta que pareceu muito direta, depois de parar com a xícara por longos segundos antes de beber, como se estivesse pensando, franziu a testa de modo evidente, sem entender se ele estava sendo irônico, sincero ou se ele entendia o que estava falando. - Sim, você tem amigos que se importam. Mas eu me importo igualmente com você e com a lioness. E embora ela não seja mais uma menininha, sei que ela se sacrificaria por você sem fazer muitas perguntas do tanto que ela te ama. Só que ela não está pegando um pacote para repassar para outra pessoa, nem guardando uma mensagem secreta. É uma criança. É uma pessoa pequena, Jack. – Talulah pontuou o óbvio, a testa levemente franzida enquanto encarava o amigo de longa data. – Ela não vai lhe perguntar, porque ela tem medo de te machucar. Mas eu não. O que aconteceu, Jack? Jack
Não era inteiramente verdade que se uma das ex-namoradas de Jack tivesse um filho, seria extremamente difícil encontrá-lo ou sequer entrar em contato com ele de alguma forma. Se já era difícil para os amigos próximos, mais ainda para pessoas irrelevantes em sua vida. O loiro até deu um sorriso um tanto amarelo quando ela disse que lhe julgava incapaz de ter filhos, e não era exatamente uma coisa que estava na sua lista de objetivos de vida. O café acabou mais rápido do que Jack gostaria, e ele fez um sinal para que a garçonete lhe trouxesse outro do mesmo, enquanto Talulah racionalizava a situação e o pouco que ela conseguia ver diretamente das suas atitudes. Não queria ter sentado ali para conversar com a morena porque sabia como ela podia ser direta. E pela primeira vez em muitos anos de amizade, sentia que não seria tão fácil desviar do assunto. Algo estava pesando um pouco mais. O engolir em seco do loiro foi discreto, e ele aproveitou a garçonete trazendo o seu outro café para evitar encarar Talulah diretamente depois que ela lhe perguntou o que tinha acontecido, deixando claro que mesmo que Leona não lhe perguntasse detalhes, ela perguntaria. - Bom, a Kitty não precisa exatamente me perguntar em palavras diretas, não é? Nem eu sou tão bom a ponto de esconder algumas coisas da capacidade de perfiladora dela. - Jack respondeu, tocando com a ponta do indicador na asa da xícara. - Ela pode não ter perguntado, mas ela entendeu. Ele tomou outro gole do café e demorou mais alguns longos segundos para erguer o olhar de volta para Talulah na expressão mais séria, como se precisasse de mais ponderação para falar alguma coisa mais calculada. - Mas nós sabemos que você não vai ver tanto quanto a Leona, por mais que esteja fácil. - seguiu Jack, dessa vez sem desviar a atenção da amiga. - O quanto você quer saber? Talulah
A explicação de Jack fazia sentido. Leona não era a mais emocionalmente centrada do grupo deles, mas tinha habilidades incríveis como perfiladora. Se Talulah podia ver que Jack estava fugindo de seu padrão corriqueiro, Leona deveria conseguir lê-lo como um livro aberto. Mas o fato de que sabiam tão pouco um do outro levava apenas a um monte de suposições. Não que saber a verdade importasse na hora de proteger os amigos. Ficaria ao lado de Jack independente do que tivesse acontecido. Mas era uma situação que parecia ter se acalmado agora, e lá estava ele pedindo seu segundo café irlandês para segurar a conversa, e o que ela pensava era que por mais que confiasse e gostasse de Jack, não poderiam passar a vida toda seguindo fantasmas. Em algum momento ele precisava confiar alguma verdade. E o mínimo que pedia era a história do menino. - Ela não entendeu. Ela teceu suas conclusões baseadas em evidências. Inferir é diferente de saber. A verdade pode sempre surpreender mais do que nossa imaginação. – Talulah respondeu, notando como ele ficava desconfortável perto dela em uma situação como aquela, em que era confrontado. Talulah não lia pessoas como Jack, Gustav e Leona liam. Restava-lhe ser a pessoa que questionava diretamente. – “O diabo está nos detalhes”, é o que dizem. Jack parecia medir suas palavras, e até para lhe responder, preferiu tomar uma rota esquiva, lhe deixando perguntar ao invés de simplesmente contar o que interessava. - Já seria bom se você decidisse ser honesto para variar. – ela respondeu, então curvando-se em direção a mesa, apoiando os cotovelos e cruzando os dedos da mão delicadamente, a postura firme encarando Jack mais de perto. – Quero saber o que está mexendo com você, Jack. Lhe ouvi pedir um milagre, e depois de um tempo, veio de Deus sabe onde com uma criança cheia de traumas. Salvou o menino? Ótimo, você cumpriu seu papel de anjo da guarda. Mas ao invés de deixá-lo com o Estado, que seria o correto, você impulsivamente resgata Adrian e entrega ele para Leona pedindo muito mais que um favor. Você conhece ele? Ele está em perigo sob tutela do Estado? Essas coisas são importantes, mesmo que as cuidadoras agora sejam duas policiais. Se você fez isso em um impulso, por que Adrian? E por que você está de volta aqui ao invés de fugir de novo, como você sempre faz? Me faça entender. Porque estou preocupada com você, Jack Reinhardt. E não é uma preocupação que vá embora quando você fizer sua próxima piada ou der sua próxima sumida. Não faça isso comigo. Não faça isso com você mesmo. Jack
Talulah podia não ter a mesma habilidade que ele, Leona ou Gustav de ler pessoas e micro-reações, mas ela sabia ser muito incisiva e ir direto ao ponto quando precisava. Por isso que ela fazia o que fazia no afeganistão a mando do governo dos EUA. E era muito boa naquilo, o que colocava Jack numa posição bem comprometedora. O desconforto que subiu pela garganta do loiro quando ela começou a listar a série de perguntas e ponderações sobre o que implicava ele ter trazido Adrian para ser cuidado por Leona foi apenas esperado. Não que ele não confiasse em Talulah para compartilhar algumas coisas do que realmente tinha acontecido em sua vida, mas porque estava tão acostumado a ser esquivo que ser direto lhe causava estranhamento. - É mais difícil do que você faz parecer. - Jack respondeu com um sorriso breve quando ela pediu para que ele começasse sendo honesto. Mas o bombardeio de perguntas seguiu e Jack só teve como opção tomar mais um gole breve do café, se demorando mais nele. No meio das perguntas, ele fez um aceno negativo em resposta a uma delas, mas acabou deixando um sorriso discreto surgir quando Talulah disse que não era para fugir de novo e que estava preocupada com ele independente de sua reação. - Eu não o conhecia. Eu o encontrei escondido num armário de um apartamento com o corpo de uma mulher que pode ou não ter sido a mãe dele apodrecendo há dois dias, de acordo com os legistas. - Jack respondeu as informações que não seriam demais para comprometer o caso em que estivera trabalhando. Apoiou o cotovelo na mesa e o queixo nas costas da mão enquanto continuava encarando Talulah, repassando mentalmente a série de perguntas que ela lhe fez para pensar por onde responder ou como fazê-lo de um jeito mais direto. - Ele não está em perigo... o estado nem sabe que ele existe. Eu podia tê-lo deixado sob a tutela do estado, teria sido uma escolha sensata, podia ter deixado que a polícia o descobrisse antes de tirá-lo do apartamento sem que o resto da equipe sequer descobrisse que havia uma criança numa cena de tráfico humano. Jack finalmente parou para tomar outro gole do café irlandês e deu uma olhada ao redor, de um modo quase instintivo, como se esperasse que houvesse alguém por perto para lhe ouvir falando sobre detalhes de um caso de investigação internacional que ele estava casualmente comentando com uma velha amiga numa cafeteria em Cerise. - Eu o tirei de lá porque estava me vendo nele. - a resposta foi bem mais direta daquela vez, e ele voltou a apoiar o queixo na mão e encarar Talulah diretamente. - Acho que eu queria que alguém tivesse feito o mesmo por mim. Não faz muito sentido vindo de mim, não é? - Jack deixou um sorriso discreto surgir no canto dos lábios e ignorou o café com whisky. Talulah
Tinha que ser compreensiva ao menos no ponto de que se Jack tinha fugido a vida toda, certamente ser honesto era uma dificuldade. Mas cedo ou tarde ele teria que ser honesto. Ainda mais se ele esperava agir de forma responsável e agir pelo menos com responsabilidade com Adrian. Ele não mentiria para uma criança a vida toda, mentiria? Mas Jack até decidiu tomar alguma atitude e começar a contar tudo de um modo mais direto. Mesmo Talulah, que estava muito bem acostumada a viver situações desagradáveis em serviço, não evitou de franzir a testa e respirar discretamente quando o amigo falou que tinha encontrado Adrian junto com o corpo de uma mulher – podendo ser sua mãe ou não – já apodrecendo há dias. A situação lhe deixava desagradada pois tinha visto Adrian e era horrível imaginar que aquela criança tinha passado por isso. Pelo visto, o loiro tinha resgatado o garotinho sem o conhecimento da equipe de investigação, e não tinha interesse em saber porque chegaram ao apartamento para começar, podia deduzir isso, e não lhe ajudaria em nada a entender. Queria mesmo saber porque Jack tinha escolhido “roubar” o garoto de viver sob a tutela do Estado. Não teria a vida mais confortável em um orfanato, certamente não seria a vida que levaria cheia de amor com Leona e Carissa, mas não era uma opção tão horrível. Mas então após a inquietação de Jack, paranoico com os arredores como se lhe contar aquilo fosse de repente atingi-lo com uma onda de carma negativo, ele revelou que “se via” em Adrian. Talulah encarou Jack, tentando aliviar a conversa com um sorrisinho cansado, e apertou a mandíbula, os olhos claríssimos completamente focados nos dele. Ela aliviou suavemente o franzido da testa, erguendo as sobrancelhas de leve como se processasse devagar as palavras dele. - Oh, Jack... – ela soltou com um longo suspiro, fechou os olhos longamente e levou a mão até o queixo, tocando os lábios de leve. Essa era provavelmente uma das raras vezes em que Jack tinha visto Talulah sem uma reação imediata, embora ela parecesse ainda muito calma. – Eu gostaria de dizer que faz sentido, mas não faz. Porque você chegou até mim já como um adulto malandro e esquivo. E enquanto sei que você tem história, eu não sei se o seu receio era que Adrian ficasse lá, em uma situação cruel e passasse o medo de ser arrastado pela polícia descuidada, se temia maus tratos no Estado, se é uma soma de tudo isso... eu entendo que tem algo que liga vocês dois, e que isso é o suficiente para que você tivesse o impulso de levá-lo. Mas o que aconteceu com você que você não queria que ele vivesse... ou o que prova que seu julgamento de trazê-lo até aqui foi mais que um impulso... Talulah então ajeitou a postura, ficando centrada de novo. - Se não quiser falar aqui, podemos ir para outro lugar. Já estou demandando de você que seja sincero. Não quero que ache que vou pedir também que se sinta à vontade para falar a céu aberto. Jack
Não era fácil colocar em palavras as coisas que tinha passado na infância e que todos os seus amigos desconheciam. Talvez por aquilo tivesse sido mais simples esperar que Leona tecesse as conclusões dela a partir das habilidades de perfiladora. Jack nunca tinha sido sincero de um jeito tão natural e direto como estava sendo com Talulah, mas sentia que devia aquela sinceridade, depois de todos os anos de amizade, depois de tudo o que tinha feito e de tudo que sabia e, principalmente, depois de tomar uma decisão tão impulsiva quanto cuidar de Adrian como seu filho. O que ele não esperava, entretanto, entre a gama de hipóteses e possibilidades de tratar daquilo, era que fosse simplesmente confortável confessar aquelas coisas à morena a sua frente. Jack podia ter uma inclinação crônica de querer saber tudo das pessoas ao redor e cuidar deles mais do que se deixava cuidar, mas isso não diminuía o fato de que também podia depender das pessoas próximas, com mais consistência do que tinha calculado em seu jeito naturalmente esquivo. Agora que já tinha começado, as perguntas de Talulah seriam mais pontuais. E daquela vez, ele não queria necessariamente voltar atrás ou se esquivar de responder. Ele tocou a alça da xícara, desviando a atenção de Talulah e olhando o café por um instante até beber o resto de uma vez e fazendo um sinal para que a garçonete trouxesse a conta. No meio tempo, puxou uma cartela de cigarros pela metade do bolso da calça para tirar um deles. - Bom, não é como se eu estivesse compartilhando algum segredo de estado, não é? - ele tentou descontrair o tom, mas um lugar fechado lhe daria alguma segurança a mais do que iria falar e de como Talulah iria reagir. Levou o cigarro à boca e pegou o isqueiro em outro bolso, fazendo antes um sinal para Talulah. - Se importa? - esperou só uma confirmação dela para acender o cigarro, já que estavam em lugar aberto. - A pousada em que estou hospedado fica perto pra ir andando. Ele pagou a conta do café para se levantar acompanhado de Talulah e seguiram o trajeto guiado pelo loiro num clima estranhamente silencioso. Ao menos ele ocupou a boca com o cigarro que tragou excepcionalmente rápido naquele curto trajeto até chegar à pousada e ao quarto simples em que estava hospedado. Apagou o cigarro antes de entrar na pousada e deixou que Talulah passasse antes de fechar a porta. - Não é uma mansão, mas pode ficar à vontade, Sis. - Jack falou, seguindo até o frigobar com algumas poucas coisas para oferecer e tirando água de lá. - Aceita alguma coisa? Não tem muito aqui além de mim. Mesmo com as insinuações jocosas, Jack abriu uma garrafa de água e puxou uma cadeira da única mesa que tinha no pequeno quarto, deixando o espaço da cama para Talulah se acomodar se achasse melhor. - Sabe aquele milagre que você me ouviu pedindo na Igreja? - ele retomou o assunto que ela mesma tinha comentado antes de entrar nas milhares de perguntas sobre Adrian. - Eu estava pedindo para encontrar qualquer coisa sobre a minha mãe. - Jack completou de uma forma bem direta, apertando a garrafa de água talvez com um pouco mais de força do que precisava enquanto mantinha a expressão mais sóbria encarando Talulah de volta. - O que deve ser irônico para uma pessoa como eu, capaz de descobrir as informações mais sigilosas de qualquer um no mundo. Mas a única pessoa que eu quero encontrar, nem que seja um nome numa certidão de óbito... é impossível. Há mais de vinte anos. Talulah
- Para o dono do segredo, certamente não. Mas para mim... você é um grande mistério, sabia? – ela respondeu com um sorriso muito suave no rosto, de certa forma conformada com aquele pouco de sinceridade. Sacudiu a cabeça negativamente, deixando-o livre para fumar, e então estendeu dinheiro na mesa para pagar seu café e comida a garçonete. E depois os dois decidiram silenciosamente seguirem para a pousada onde Jack estava hospedado. Não era de seu feitio andar atrás de alguém, por isso caminhou lado a lado com Jack, percebendo a necessidade francesa de caminhar juntos sem trocar palavras o tempo inteiro. Podia assim notar a inquietude do loiro com cada tragada do cigarro, e como era estranho para Talulah vê-lo tão quieto. A pousada não era grande coisa, mas era um palco discreto para uma conversa importante, o fato de que não havia quase nada no quarto lhe deixava ainda mais centrada em Jack. - Essa é a primeira e última vez que vou dizer isso, mas... você é o suficiente, Jack Reinhardt. – ela respondeu com um olhar de esguelha antes de se acomodar sentada na cama com a postura tensa de sempre levemente desmontada, quase como se não quisesse dar atenção inteira a si mesma. O loiro não deu nenhuma pausa além daquela do caminho e de ambos se acomodarem para retomar a conversa que estavam tendo, quase como se o tempo que passou tivesse sido o tempo de organizar os pensamentos. Ouviu com atenção quando ele falou sobre o milagre, e então que estava procurando a própria mãe. Notou como o assunto o abalava pelo barulho de plástico sendo amassado na garrafa na mão do loiro, e não foi ele prosseguir, dizendo que era irônico como ele sabia tantas informações, mas não sabia o paradeiro da própria mãe há 20 anos. Talulah abaixou o olhar por um instante, e então o ergueu de volta para Jack. Se havia alguma ironia ali, é que dos três melhores amigos que tinha, justo ela seria a primeira a ouvir essa história. - 20 anos é um tempo longo, Jack... – Talulah murmurou, supondo que para um menino que tenha perdido a mãe muito jovem, e com a habilidade de Jack, não havia algo como deixá-la ir, esquecer, ainda mais quando ele tinha tantos problemas para confiar nas pessoas. O quanto essa busca provavelmente tinha machucado Jack esse tempo todo? – Sua situação foi como a do Adrian? Acredita que foi tráfico? Quantos anos você tinha quando ela desapareceu? – talvez fossem perguntas diretas demais, mas aquela conversa só tinha começado porque Talulah era direta demais. Jack
Não tinha como ser pouco direto com Talulah, e talvez aquilo fosse bem melhor. Jack não precisava se preocupar que ela visse algo em suas reações que não queria mostrar, mas também tinha que se preocupar em ser muito pontual. A conversa lhe deixava incomodado, e todos os pequenos gestos em reação natural do corpo se acumulavam, do pé movendo, da tensão nos dedos em volta da garrafa, do olhar que divagava aqui e ali no quarto antes de voltar a atenção para a morena. Mas o ar saía mais fácil do que esperava. - Eu não posso acreditar que é longo ainda. Ou já vou ter perdido anos demais. - Jack respondeu, tomando um gole generoso da água para deixar a garrafa de lado antes que acabasse amassando-a demais. Talulah foi mais direta nas perguntas que o relacionavam a Adrian e ao que tinha visto no garoto para querer salvá-lo, então, Jack percebeu que era um pouco mais simples ter o que responder ao invés de pensar em como montar a narrativa do que lembrava da sua infância que tinha lhe transformado no adulto esquivo e desconfiado que os amigos conheciam. - A minha mãe foi traficada da Alemanha para os EUA antes mesmo que eu nascesse. Eu nasci na América, não sei qual dos clientes ou cafetões dela foi meu pai, ela tinha 17 anos quando me teve e o quarto acabado em que ela era mantida cativa foi o meu mundo inteiro pelos próximos sete ou oito anos de vida. Eu não tenho certeza. - o tom de voz dele certamente tinha perdido um pouco da firmeza. Se não houvesse tanto silêncio no quarto, talvez Talulah tivesse dificuldade em ouvir a história nos detalhes. Mas foi incrivelmente mais fácil para Jack colocar os fatos em voz alta do que ele tinha imaginado. Os olhos claros estavam voltados para as mãos que ele notou estarem frias apoiadas sobre um dos tornozelos cruzado sobre a outra perna. - Ela tentou me proteger em segredo, mas os cafetões descobriram. Ela conseguiu me manter com ela, com ajuda de outras prostitutas e mulheres que eram traficadas. Mas não foi muito fácil... ou seguro. - só no meio das palavras foi que Jack notou a própria necessidade de massagear os próprios pulsos, a mão direita em volta do pulso esquerdo como se houvesse algo ali lhe incomodando. - Ela sempre era levada por um ou dois dias, eu tinha que ficar escondido... às vezes demorava mais tempo. Uma dessas vezes, ela não voltou. Ele pressionou o pulso esquerdo com um pouco mais de força, até se dar conta do que estava fazendo com a dor que irradiava pelo braço. Afrouxou o aperto para notar que o pulso estava avermelhado. Talulah
A resposta de Jack para sua colocação sobre o tempo que estava buscando a mãe foi peculiar. Podia entender que ele já tinha buscado 20 anos, e que muitos desaparecimentos jamais eram resolvidos, simplesmente porque as pessoas conseguiam sumir ou morrer sem nunca serem encontradas, sem que todas as testemunhas deixassem a terra antes de deixar novas testemunhas... Jack sabia disso, ele tinha sido formado na mesma academia que ela, mas ele não queria desistir. Pelas reações dele, que agora conseguia ver na agonia de contar aquilo para ela, a busca da mãe não era só uma questão de fechar um evento do passado. Era parte da força motriz dele. E isso foi mais preocupante do que saber que a situação dele e de Adrian era parecida. Entendia agora do que exatamente Jack estava tentando salvar o pequeno. Respirou fundo e suspirou discretamente quando ele seguiu com a narração, contando o quão nova sua mãe tinha sido levada, que ele era o filho de circunstâncias bastante adversas, e que tinha sido mantido em um quarto por sete, oito anos. Apesar de ser exatamente quem era, havia algo naquela narrativa que lhe dava um nó no estômago, e até a morena teve que fechar o punho sobre o colchão para manter a firmeza de sempre. Era revoltante. Conseguia imaginar facilmente todas as dificuldades que Jack passou, escondido em lugares de um quarto minúsculo esperando a mãe dele voltar. A fome, a necessidade de carinho, a desconfiança de cada um que entrava no quarto, podendo separar ele de sua mãe ou vice e versa. E aconteceu, foi isso que aconteceu. A história lhe deixou tão centrada que quase não reparou no aperto dele em torno do pulso, e levantou devagar, notando a necessidade do loiro de apertar alguma coisa, a força que ele fazia para exprimir aquelas palavras em voz baixa. - Jack, vou me sentar ao seu lado. – ela falou, aproximando-se devagar, puxando outra cadeira para ficar próximo a ele, estendendo a mão devagar para aquela que ele tinha usado para apertar o pulso, tocando-a suavemente, envolvendo-a na sua. Não queria ser cruel com ele, mas algumas perguntas que faria seriam dolorosas, pelo simples fato de que se ninguém as fizesse, ele guardaria tudo para si mesmo o resto da vida. – Como você saiu de lá? Com ajuda das outras moças traficadas, ou foi achado? Por quanto tempo você esperou pelo retorno dela...? – Talulah suavizou o tom da voz, já que estava próxima dele. Jack
Talvez Jack estivesse imerso demais nos próprios pensamentos ou nas memórias que a dor no pulso lhe trazia, mas não notou quando Talulah se levantou, só quando ela disse muito diretamente que ia sentar ao seu lado. Levantou o rosto para a morena num sobressalto discreto, concordando então com um aceno de cabeça. Engoliu em seco porque sentiu a garganta arranhar como se estivesse prendendo a respiração por muito tempo, todas as pequenas reações que ele tinha treinado para esconder facilmente, agora tão óbvias que ele nem sabia por onde começar a escondê-las. Se é que precisava escondê-las. Ele deixou que Talulah segurasse sua mão, e acabou sorrindo do toque porque lembrou de se deixar esconder nos braços de Leona numa posição ainda mais vulnerável. Evitou fechar os dedos para que não colocasse ali a mesma pressão que tinha colocado no outro pulso e encarou a morena ao seu lado. As demais perguntas direcionaram melhor o que ele iria responder, começando por um aceno negativo de cabeça. - Eu não saí. - ele respondeu, desviando o olhar para frente daquela vez e recostando no encosto da cadeira, deixando a mão estendida sobre a perna, a palma pra cima, com a mão de Talulah sobre a sua. - Se eu saísse de lá, eu não teria como encontrá-la de novo, não era? Eu fiquei escondido por muito tempo... não sei mais quanto tempo eu fiquei entrando e saindo do armário quando não tinha ninguém por perto, pra pegar restos de comida ou de água. Mas ela não voltou, foram semanas? Meses? Eu não faço ideia. Jack deu de ombros, levantando a mão livre até o queixo e os lábios, como se forçasse um pouco a memória para lembrar exatamente a quantidade de tempo. Fechou a mão em volta da de Talulah sem perceber e passou a mão livre pelos cabelos, jogando a cabeça para trás para encarar o teto. - O traficante que a levou voltou para o quarto. Ele me achou lá, não sabia que eu ainda estava lá e que estava vivo. Ele não gostava de mim. Sempre quis se livrar do estorvo. - Jack continuou a explicação. - Ele disse que ela não ia voltar mais... e que eu nem devia estar vivo. Eu insisti para saber onde ela estava, quando ia voltar... insisti e insisti... e insisti... Ele se distraiu nas próprias palavras e a mão que pressionava a de Talulah folgou o aperto. Com o olhar um tanto perdido no teto, o tom de voz se tornou distante. - Ele não me queria vivo mesmo. - ele seguiu encarando o teto, como se imerso demais nos próprios pensamentos. - Eu realmente... eu nunca tinha visto tanto sangue. Talulah
Jack estava concentrado na própria história, tanto que quase se assustou com sua aproximação que foi tudo menos repentina. Ele tinha muitos tiques, muitas pequenas demonstrações da agonia evidente de contar aquela história que Talulah jamais esperaria ver na figura contida e expansiva que o loiro demonstrava ser usualmente. Mas ainda tinha algo de gentil nele, mesmo em meio a tanta demonstração da dor do trauma, com o cuidado para não apertar seus dedos como tinha feito com o pulso. Era melhor assim, que ele tivesse algo que cuidar, para não se machucar. A história de Jack genuinamente lhe causava dor. A miséria de uma criança indefesa vivendo de restos e esperando ansiosamente o sinal de retorno da mãe – que ele esperava encontrar até hoje – fez com que Talulah abaixasse o olhar para os dedos dele sobre a perna, sentindo que a expressão já não demonstrava só a atenção e a seriedade, mas o pesar de ouvir aquilo, mesmo que discreto. Sentia poucas coisas intensamente, e eram poucas pessoas que podiam lhe mover daquela forma. Ele conseguia, porque finalmente se sentia acolhida no espaço cruel que havia criado Jack. Imaginava se o traficante não tivesse aparecido ali, o menino esperaria pela mãe até morrer de desnutrição. Talvez isso acontecesse com Adrian. Talvez por isso ele e Jack se sentissem tão ligados, era mais que uma questão de quem o resgatou. E a explicação do loiro até poderia ter soado como um dos muitos eventos em que quase foi descoberto, mas aquela parecia com uma única ocasião. E o jeito como ele contou de sua insistência lhe deu arrepios. Nesse momento nem tinha notado o aperto na mão até Jack soltar, porque já estava se sentindo fria. Talulah sentiu os dedos fecharem discretamente em torno da mão de Jack. Era a história dele, mas o pensamento lhe parecia muito familiar. E até poderia ter inferido que ele tinha se machucado por causa do cafetão, mas aquele padrão de comportamento e o modo de narrar lhe dizia o contrário. - ... Você o matou, não foi...? – Talulah questionou em um fio de voz confidente, respirando fundo e tentando manter o olhar em Jack, mas o leve franzir de testa e o modo como ela desviava o olhar para as mãos dos dois unidas denunciavam facilmente seu incômodo. – Você era uma criança... só uma criança... indefeso... vivendo no lixo... escondido, tentando proteger o que lhe era precioso, tentando proteger sua vida. Não tem culpa do que aconteceu. Você não tem culpa. Não tem. – ela falou com a respiração mais pesada, tentando manter a mesma tranquilidade de antes, mas o tom das palavras era bem mais incisivo, ainda que muito suave. Em seguida, ela fechou os olhos por um instante, e retomou o que lhe restava de postura. – Se... se tivesse ficado lá, esperando, sempre... não teria chegado até nós. Duvido que estaria até vivo, por conta própria. E depois...? Jack
Jack não percebeu quando Talulah devolveu o aperto em sua mão, estava tão imerso no próprio pensamento e vendo um teto que não era exatamente aquele acima da sua cabeça que ele só saiu da própria narrativa quando a voz de Talulah lhe alcançou com os ouvidos, com a pergunta que era só para confirmar o que tinha acontecido no seu passado. Ele finalmente tirou o olhar do teto e virou o rosto na direção de Talulah por uns instantes, uma expressão abalada, mas distante. Podia ver o incômodo na expressão da morena, mas podia também sentir o frio na própria mão. Ele observou a mão dela ainda sobre a sua, ouvindo a sequência de justificativas que ele tinha se reservado também por muito tempo. - Eu matei a única pessoa que poderia saber o paradeiro da minha mãe. - ele confessou, numa voz muito baixa, com o olhar ainda na mão dela. - É o meu carma, é por isso que eu nunca vou poder encontrá-la, porque eu matei uma pessoa. - Jack engoliu em seco, e queria ter a água, ou o café irlandês, ou até mesmo o cigarro para ocupar a garganta. Mas ele não conseguiu soltar a mão de Talulah sobre a sua, e seguiu encarando-a como se fosse um ponto de foco. - Eu sei, racionalmente, que não foi minha culpa, que eu precisava me defender, que precisava sair vivo dali pra encontrá-la, e se não tivesse pegado aquela faca no meio do desespero, eu nunca teria chegado aqui. Mas o universo tem que me devolver de algum jeito, não é? Ele forçou um sorriso conformado. Não encarou Talulah de volta, e levou a mão livre ao rosto, massageando o espaço entre os olhos antes de descer a mão sobre a boca. - Eu não consigo lidar com o fato de que está fora do meu alcance, que está fora do meu controle... eu devia ter protegido ela. Mas eu era tão novo, tão fraco... eu nem sei como saí vivo. - respondeu Jack, com um suspiro resignado. Talulah
Conhecia bem aquela expressão abalada e distante, mas nunca esperava vê-la em Jack. Em tantos anos, nunca tinha pensado se colocar em uma situação em que não sabia o que dizer a alguém, mas sabia que independente do que, seu julgamento estava sendo afetado pelo fato de que conhecia o loiro. Não podia só dizer que era “um caminho escolhido por Deus” quando ele falava de carma e acreditava na própria sorte, e não podia forçar suas visões e o que sabia considerando o quão diferentes eram as vidas dos dois. Era extremamente frustrante ouvir um amigo falar daquela forma desesperada, encurralada, dando voltas em torno dele mesmo para confessar que teve uma vida horrível e que, embora agora tivesse o conforto físico, permanecia no mesmo estado perpétuo de busca, e pior, se culpando pelo fato de não conseguir encontrar um caminho diferente. Talulah entreabriu os lábios, mas não sabia o que dizer, não enquanto ele encarava suas mãos. Então ela levou a mão livre até a dele, que cobria a boca, passando-a para o rosto e voltando o rosto dele para si. A expressão da morena podia ser até sufocada, os olhos fechados por um instante demonstrando a dor que ela sentia por ele também, mas ela respirou fundo e encarou Jack diretamente. - Pare de dizer que isso é carma, Jack! Ninguém, nem o universo, está tentando te punir por tentar ficar vivo. Você mesmo sabe, racionalmente, como seja, que você estava impotente, subjugado e desesperado...! Essa é sua história, e quem está transformando ela numa penitência é você. – Talulah falou num tom muito firme, embora não tenha levantado a voz em nenhum momento, mesmo que o tom e o silêncio do quarto da pousada deixassem com que sua voz se sobressaísse. – Todos temos nossos demônios. Mas você tem carregado os seus completamente sozinho por esse tempo todo. Até eu, Jack, consigo me ajoelhar em uma igreja e depositar minha confiança em Deus quando não me resta saída. Mas você está cansado e encurralado, e agora, porque eu estou lhe obrigando a isso, é que você está sendo confidente. E só agora eu posso lhe dizer, com confiança, que não é culpa sua. Não é culpa sua. E eu vou lhe dizer quantas vezes precisar, até que você passe a acreditar mais em mim do que em você mesmo. Talulah encarou Jack com a mesma expressão séria e preocupada, assumindo uma postura mais tensa e maternal que ele provavelmente já deveria ter visto mil vezes com Gustav. Ela então acariciou o rosto dele, mantendo a mão apertada sobre a do loiro. - Não acho que ela te protegeu tanto tempo pra que veja só o caminho frustrante de não encontrá-la. Ou para que se culpe por ser uma criança indefesa que precisava sobreviver. Eu não acredito em carma, mas se preferir nesses termos, o seu carma... a sua busca... ela lhe levou a uma vida dura, mas melhor que a de antes. Ela lhe levou ao John Jay, e lá, você encontrou todos nós. Ela lhe levou ao Adrian, e ele pode ter uma segunda chance. Ela lhe guiou até esse momento aqui, em que eu posso finalmente dizer que eu estou ao seu lado para tudo, Jack. – Talulah pontuou cada coisa devagar, a respiração curta e as sobrancelhas expressando a dificuldade da morena de falar tudo aquilo. Ela sentia a cabeça doer. Ela sentia que encarava Jack há tanto tempo sem piscar que seus olhos estavam embaçados. Mas ela permanecia séria e calma no exterior, com a firmeza e certeza que só Talulah podia demonstrar. – Eu não posso mudar sua visão de tudo. Mas eu bem posso tentar. Bem posso tentar mostrar a você o bem que você fez pra mim, Leona, Gustav, Adrian... você é nosso melhor carma, Jack, nos seus termos. Nos meus, Deus entrelaçou nossos caminhos porque Ele sabe que podemos trazer o bem um para o outro. É nisso que eu acredito. Jack
Jack foi obrigado a tirar a mão do rosto ao sentir o toque de Talulah e voltou a expressão vaga para a morena. O que ele não tinha no próprio rosto, conseguia quase sentir só de olhar nos olhos violeta preocupados da amiga de longa data. E embora fosse uma expressão severa, mas tranquilizadora, Jack só sentiu um nó se formar no topo da garganta, porque sabia que não mereceria encontrar a mãe, menos ainda merecia o cuidado e a preocupação de Talulah porque tinha finalmente sido sincero. Ainda devia mais que aquela sinceridade. Ele não esperava diferente da insistência dela de que não era carma, sabia que as crenças eram diferentes e talvez ela pudesse ter lhe convencido daquilo em uma outra época, em outra situação. Ele reconheceu facilmente o olhar que ela costumeiramente despendida para Gustav, naquele espírito maternal que Jack só imaginou que sabia muito bem de onde vinha. E não era porque ele tinha dado alguma chance a morena de lhe retribuir a confidencia. Aquela expressão e aquele tom certamente lhe atingiram com mais força do que qualquer má lembrança do seu passado. Foi difícil encarar Talulah de volta, e ainda mais difícil ouvir as palavras reconfortantes. Mais até do que sentir que jamais teria um fim para a sua busca. Jack desviou o olhar de novo, baixando a cabeça e fechando os olhos. Fechou a mão em volta da dela com firmeza e levou-a até o rosto, sentindo a garganta seca, os olhos ardendo, a mão fria e trêmula da necessidade de conter a força no aperto. - Eu não- ele perdeu as palavras no meio do caminho e apertou um pouco mais a mão dela na sua, talvez pela certeza de que logo meu teria mais o apoio. Engoliu em seco, não conseguia sequer admitir que não merecia as palavras dela, porque queria ter ouvido aquela segurança. Foi outra resposta que se fez ouvir no silêncio do quarto. - Eu sinto muito, Talulah… eu realmente… me perdoe, eu sinto muito mesmo… Talulah
A expressão perdida de Jack só lhe deixava mais agoniada com aquela situação toda. Era doloroso ver o amigo assim. Mais doloroso porque não importava o que falasse, só ele podia decidir o que fazer com suas palavras, e ele podia bem decidir que eram apenas palavras. E o fato dele esboçar reações muito pequenas era triste, pelo menos de início, porque ela, diferente de Gustav ou Leona, não sabia interpretar o que elas queriam dizer. Se estava falando algo bom ou ruim para ele. Bom, tinha certeza que não era algo inteiramente bom também, porque estava lembrando da longa vida buscando um fantasma da mãe, e ao mesmo tempo, não inteiramente ruim, porque ele precisava ouvir que estavam ali por ele, e ele estava ali por eles. Mas aos poucos notou como suas palavras afetavam sim, Jack, e a mão fria e trêmula dele segurou a sua, levantando-a em direção ao rosto. Não hesitou um instante em segurá-lo com carinho, em contraste com a mão dele, que parecia conter toda a vontade de apertar a sua firmemente com a força que ele tinha usado para até marcar o pulso poucos minutos atrás. Só que as palavras fugiram a Jack, fugiram, e retornaram de um jeito que Talulah não sabia bem como interpretar. - Não precisa se desculpar... – ela falou prontamente, porque não sabia bem o que falar. Até franziu a testa, e o pedido de desculpas ficou ainda mais presente. E embora em qualquer outra situação teria desconfiado de um pedido de desculpas vindo do loiro, naquele momento, nem a sombra do pensamento de culpá-lo por algo tinha vindo à sua mente. Porque aquele não era o momento em que Jack precisava ouvir “o que você fez?”. Pelo contrário, na mesma seriedade, acariciando o rosto dele com os polegares enquanto ele desviava o olhar do seu, crispou os lábios de modo compreensivo. – Por que está pedindo desculpas? Jack
Não foi surpreendente pra Jack que as palavras de Talulah pesassem em sua consciência. Mas foi surpresa que fosse muito mais difícil assumir o que tinha feito do que revelar tudo o que tinha escondido da sua vida pessoal para os amigos. Ele queria poder aproveitar o conforto e se render ao toque e ao tom compreensivo, mas era impossível quando ele sabia de onde o instinto protetor de Talulah vinha, sem ter definido apenas por perfilar os gestos e atitudes dela. Jack segurou a mão dela com as duas e, com o rosto abaixado, ele trouxe a mão dela até a própria testa, os cotovelos buscando apoio nas pernas. Ele engoliu em seco, ficando momentaneamente sem palavras para responder a pergunta direta da morena. Nunca imaginou que seria mais fácil só admitir que seu eu de oito anos de idade tinha matado uma pessoa ao se defender. - Me desculpe… por saber… porque você cuida tão bem de nós. - ele finalmente respondeu, num fio de voz. Talulah não precisava mais do que aquilo para ligar os pontos, mas ainda sem encará-la de volta e se segurando a mão dela como se a vida dependesse daquilo, ele buscou as palavras para esclarecer. - Eu fiz com você, com a Leona, com o Gustav… eu precisava saber… eu… - ele engoliu em seco de novo, sem saber que palavras usar, ou se ainda teria chance de completar a sentença. Não queria erguer a cabeça para ver a expressão de decepção. - Eu não mereço que se preocupe comigo, que me ouça, que acredite em mim… eu sinto muito. Eu sinto muito mesmo. Eu… não posso mudar… As mãos em volta da de Talulah folgaram o aperto, porque ele não poderia impedir que ela se afastasse, e certamente seria mais difícil sentir a mão sendo puxada. Era mais fácil só deixá-la ir. Ainda assim, ele não levantou o rosto, especialmente por perceber a visão embaçada e o calor no rosto. Naquele momento, era uma expressão que não podia se permitir mostrar a Talulah. Talulah
A morena estava tentando desvendar o que mais Jack tinha na mente, pois depois do que tinha falado sobre si mesmo, pelo visto todas as verdades estavam mais fáceis de sair. Só não sabia por que ele precisava pedir desculpas por coisas do passado. E quanto mais o silêncio corria no quarto, mais se sentia confusa. As suas mãos estavam com Jack, e queria abraçá-lo, mas algo naquela postura que tentava não lhe encarar de frente depois de pedir desculpa lhe dizia que era melhor ouvi-lo primeiro. E ouviu. Ouviu outro pedido de desculpas, por ele saber por que ela cuidava tão bem deles. E Talulah franziu a testa, sem entender aquelas palavras. Até supunha que deveria ter entendido logo, pelo jeito que Jack segurava sua mão desesperado, e porque ele evitava encará-la, mas nunca passou a sombra do pensamento do que ele tinha feito, até ele dizer que tinha feito o mesmo com Leona e Gustav porque “precisava saber”. Os dedos de Talulah estremeceram e ficaram frios colados a pele de Jack. Ela parou de respirar por um instante, olhando para o corpo abaixado dele com as sobrancelhas levantadas. As mãos da morena quase fecharam, as unhas roçando de leve no rosto de Jack, mas sem força, porque não tinha força para nada. Não tinha força nem para segurar a expressão austera. Se sentia em choque e os olhos divagavam buscando algo onde repousar que não fosse Jack. Ela cerrou os dentes em dor, e os olhos, e um som abafado ficou preso na garganta. Não sabia se doía mais ouvir a verdade ou se doía mais ouvir de Jack que ele não podia mudar. - Pela misericórdia de Jesus Cristo, dai-me forças para essa provação... – a voz dela exprimiu em um sussurro engasgado, e o aperto nas mãos se foi. Seu impulso era de se afastar, mas como quem fisicamente resistia a dor, os dedos rijos permaneciam ali com Jack, mesmo que não o segurassem. – C-... como p... – ela enrolou a língua para não abrir a boca, e então respirou muito fundo, tanto que poderia roubar o ar dele. A morena engoliu em seco, os olhos lilás marejados. - Você não precisava saber. Era mais fácil saber, por isso você fez. Era mais fácil saber nossos segredos e nos ler por inteiro do que aprender a confiar aos poucos. Assim como é mais fácil pra você me contar tudo isso olhando pro chão, ao invés de olhar nos meus olhos. – ela sibilou num tom frio, tentando controlar a respiração, mas sem se mover um único milímetro de onde estava. – É por isso que você decidiu ser honesto enfim, comigo? Por que quem lhe confrontou foi uma assassina, assim como você? E Deus sabe que eu não posso lhe julgar, meus pecados são tão pesados quanto os seus. Ela deslizou a língua pelos lábios e fechou os olhos por mais um instante, sentindo uma lágrima rolar pelo rosto. Mas foi o que precisava para recobrar a compostura, mesmo que a respiração curta e os dedos gelados denunciassem seu nervosismo. - Você é um covarde, Jack Reinhardt. – ela falou pausadamente, erguendo o queixo na postura rija e encarando-o de cima. – Você é um covarde, mas não por esconder isso de mim tantos anos, mas por usar saber do meu passado como desculpa para negar o meu carinho. Por justificar minha amizade com você e Leona e Gustav como se eu estivesse tentando tratá-los como a família que eu destruí. Porque eu estou lhe estendendo a minha mão e dizendo que podemos achar outros caminhos, mas você está dizendo que não pode mudar. Você pode mudar, você não quer mudar. Talulah soltou as mãos de Jack devagar, mas ao invés de sair dali, ela levou a mão até o queixo dele, forçando-o para cima, apertando as bochechas dele. - Depois de tantos anos, olhe pra mim, Jack. Olhe de verdade. Eu sou o passado que você leu em alguma ficha de um reformatório? – Talulah respirou fundo e engoliu em seco, sentindo os olhos encherem de água de novo. – E você? Você é só o garoto assustado que não confia em ninguém, cujo único propósito na vida é habitar o passado mal resolvido? O que você vê? Olhe pra mim e seja honesto dessa vez. Não fuja de mim. Não fuja de você. Você não pode mudar? De verdade? Jack
Jack não tinha coragem de levantar o rosto e encarar Talulah depois do que tinha confessado. Primeiro, porque sabia a gravidade do que tinha feito, segundo, porque sabia que mesmo no estado em que estava, veria mais do que queria, mais do que ela mesma pretendia lhe mostrar, e não queria fazer aquilo, ao menos não daquela vez. Ele só sentiu a hesitação nas mãos da morena, e o sangue todo pareceu gelar no corpo. Parecia mais intenso do que realizar, a cada ano que se passava, que seria mais e mais impossível encontrar a única pessoa que movia cada um dos seus passos e suas decisões de carreira e até de vida. As palavras dela foram duras, como ele sabia que seria, e as palavras tão ágeis demoraram a vir. Mas embora fossem duras, não eram inteiramente verdade, porque ele não tinha confidenciado em Talulah porque sabia do que ela tinha feito no passado, era mais do que aquilo. Ela só não sabia, e nem tinha como saber porque ele não falava, nunca. Os dedos dela estavam frios contra os seus e ele não sabia qual das mãos tinha menos temperatura, ou menos firmeza. Era verdade que ele era um covarde, que não queria mudar, mas especialmente que não sabia como. Quando as mãos dela deslizaram para longe das suas, ele sentiu como se não tivesse um chão em que pisar, e não ergueu o rosto, até sentir a mão em seu queixo, obrigando-o a encarar a expressão severa de volta, que em nada era amenizada pelo rastro de lágrimas. Ele sentiu os próprios olhos marejados, mas não se permitiu deixar que alguma lágrima escorresse, encarando-a com a expressão mais perdida que Talulah deveria ter visto até então. - Eu não fui honesto por isso. Eu sei que não dá pra confiar no que eu digo, mas eu não faria isso com você. Com nenhum de vocês. - Jack respondeu com um pouco mais de firmeza do que as mãos dormentes denunciavam, do que as batidas descompassadas e a respiração curta representavam. - Você não é o que eu li, Talulah, já não era quando eu a conheci. Mas eu ainda sou o mesmo garoto com um passado mal resolvido. Eu não consigo... deixar para trás. Se eu deixá-la para trás... A tentativa de conter as lágrimas não foi eficaz. Ele tentou manter a expressão, mas uma lágrima escapou pelo canto dos olhos enquanto mantinha o olhar na morena. - Eu já não sei mais o que fazer, eu não sei como mudar. Talulah
Jack era bom com as palavras, e mais que ninguém no seu grupo de amigos, ele sabia como manipular as situações a seu favor. Mas nem pensava que isso era remotamente manipulação da parte dele, era só Jack, confuso, atrapalhado, perdido e finalmente escolhendo ser honesto em sua vida tentando saber se podia ter os pecados perdoados. Tinha certeza de que suas palavras foram cruéis. As disse pelo calor do momento, pela decepção e raiva que estava sentindo. Estava frustrada porque não podia ajudá-lo, e ele também não parecia ter motivação para ser ajudado. E além de ter que lidar com o passado de Jack, estava ali revivendo o seu, suas experiências, seus demônios pessoais, suas mentiras também. Podia não ter a expressão tão perdida quanto a que via no rosto de Jack, mas refletia aquele mesmo caos. Quando o amigo falava daquela forma desesperada que não sabia o que fazer e não sabia como mudar, podia acreditar que ele era mesmo uma criança pequena completamente perdida sem a mãe. E era o que lhe parecia. Folgou o aperto no rosto dele, e então, com a outra mão, limpou o canto dos olhos de Jack, sem delicadeza alguma, afastando as mãos em seguida e esperando que ele seguisse encarando-a como tinha deixado. - Eu também não sei, Jack. – ela respondeu simplesmente, e então tomou o ar por um instante, olhando o loiro diretamente. – Mas eu não vou te abandonar perdido assim. Porque se você não foi honesto comigo para me afastar, foi honesto comigo porque me queria aqui, para o que fosse. É nisso que eu quero acreditar. Eu só preferiria que você fosse mais claro sobre tudo. Ela soltou um longo suspiro e então levou a mão ao próprio rosto, limpando também o rastro de lágrima, com a mesma grosseria que tinha feito isso com o loiro. Recomposta, a morena estendeu a mão até a dele, mas esperou que ele tocasse sua mão, e não o contrário. Já tinha corrido atrás dele demais. - Dito isso, você não pode mais dizer que não merece minha preocupação ou meu cuidado. Quem decide sou eu. E eu estou decidida que você merece tudo isso. A única coisa que você ainda precisa conquistar é meu perdão. Porque foi uma puta mancada, Jack Reinhardt. – a morena pontuou duramente, porque embora tivesse bastante espírito cristão em si, ainda precisava de um longo caminho para trabalhar seu rancor. – Não vou mais pedir que deixe nada para trás por agora. Só peço que conte comigo quando seu passado tentar te puxar para baixo. E se aos poucos a mudança vier ou não, eu já te amava antes de você confiar em mim, suas cagadas não iriam mudar isso. Isso você pode aceitar? Jack
Não tinha outro jeito de colocar o fato de que mesmo que quisesse mudar, não saberia como. Não tinha como ser mais honesto do que aquilo com Talulah também, e pela primeira vez em muito tempo, sentiu o quase desespero de imaginar que ela só se levantaria e iria embora, e se teria coragem de pelo menos tentar impedir. Mas Talulah não se levantou, e exceto por limpar o seu rosto sem muita delicadeza, ela resolveu ficar ao seu lado, de um modo muito direto. - Eu preciso de você. Eu sempre precisei de vocês, eu só me convenci de que se não estivessem mais aqui, não importaria. Se não estivessem aqui, pelo menos eu saberia onde... - Jack respondeu, detendo as palavras antes mesmo de retomar o mesmo trajeto sobre o que já tinha passado na infância. Mas ele manteve a sobriedade, assim como a distância que ela tinha imposto entre os dois. Mas o gesto de Talulah lhe estender a mão foi mais significativo, ela não lhe tocou diretamente, mas esperou que ele o fizesse, e depois de um tempo e das palavras muito pontuais, ele conteve a vontade de desviar o olhar de novo, mas estendeu a mão para segurar a dela, devolvendo a firmeza de antes, como se fosse o suficiente para que ela não se afastasse. Jack sempre fora muito bom com as palavras, e para cada um dos comentários dela, podia pensar em outros vários, em palavras bonitas, em palavras cheias de significado ou vazias. Ele não desviou o olhar do dela, e manteve a expressão sóbria, deixando o ar escapar numa sensação de que não estivera respirando até então. - Se eu não confiasse em você, não teria entrado na Igreja naquele dia. - ele apertou a mão dela com os dedos frios, a respiração retomando o ritmo normal. - Obrigado. Talulah
As palavras dele eram contraditórias, também auto-acusativas, mas ele provavelmente já sabia disso. Mesmo que Jack tentasse se convencer que não precisava dos amigos, que não se importaria se eles fossem embora, o fato dele precisar varrer os arquivos de cada um e saber onde cada um deles estavam era o reflexo do medo dele de ser deixado. E ao mesmo tempo, da tentativa dele de se redimir por não proteger a mãe. Talvez pudessem falar mais disso outro dia. E aí Talulah poderia pedir licença a ele para contar como via toda sua relação com o passado. Mas naquele momento era Jack quem precisava se entender. Ao menos agora ele lhe olhava nos olhos, direto, mesmo que parecesse sem vontade alguma de fazer isso. A mão também ficou bem firme em torno da sua, e a morena soltou um longo suspiro, porque sabia que ainda rezaria muito aquela noite para conseguir achar em seu coração como perdoar Jack. Ao menos ele não tentou nenhum gracejo ou escapulida, apenas se entregando aos próprios sentimentos naquele instante e deixando com que ela tivesse tempo de absorver tudo que tinham conversado. Então, com o agradecimento singelo e sincero, ela se aproximou mais, levando a mão livre à cabeça de Jack, aproximando-se para beijar a testa do loiro por um breve instante. - Não há de que. – ela respondeu, então acariciando o rosto dele com o polegar um instante. – Eu não sei aonde você estava indo, mas... se ainda pretende sair, lave o rosto. Está horrível. – ela falou de um jeito bastante seco, abrindo um resto de sorriso compreensivo para Jack. Talvez não fizesse mal aliviar um pouco da tensão. [Thread encerrada] |