Academia St. Clavier
[Drive] Atrito [Renaud; Didier] - Printable Version

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[Drive] Atrito [Renaud; Didier] - Lil - 09-01-2021

Renaud

Com certeza aquele dia estava escalando rapidamente para o rank de dias mais longos de sua vida, não bastasse ter voltado do Hospital no meio da madrugada quase de manhã, dormido pouco, recebido uma ligação pouco convencional de seu pai, ainda tinha posto na conta uma conversa com o Dr. Vlahos. O jovem Blanco, já tinha saído de seu refúgio no chão e estava sentado na cama, com as pernas dobradas, encarando o celular que estava na mesa do lado de sua cama. Nem precisava que ele tocasse, ou vibrasse, a constância da luz da tela acendendo e apagando só mostrava a quantidade de mensagens que chegavam em seu aparelho.

Tinha coisas pra pensar, talvez devesse ir comer algo, mas não tinha nenhuma fome, tinha apenas aquela sensação latente de cansaço e dormência como se o corpo todo fosse pesado, a queimação na palma das mãos, lhe deixava levemente febril, como se todo o seu corpo estivesse muito mais quente do que o costumeiro. E estava sozinho de novo, e verdadeiramente pensando sobre o que o Dr. Vlahos tinha lhe dito, não queria estar passando por aquilo sozinho. Depois de alguns minutos ponderando o rapaz finalmente se moveu na cama, para puxar o aparelho, puxou o mesmo com dificuldade e usou do apoio do travesseiro, para poder digitar com o canto dos dedos midinhos que não estavam nem machucados e nem enfaixados, o que rendia mensagens mal digitadas e curtas:

“estou acordad ja. Remedios ok. Faxias ok tbn
Att. Renaud.”

Enviou a mensagem para Didier, a quem tinha pedido para não ir lhe ver no hospital, mas que deveria ter tido uma noite péssima sem poder ir lhe ver e saber como estava diretamente. Queria que ele fosse lá lhe ver, mas como já tinha pedido pra ele não ir no hospital, não sabia se podia pedir pra ele ir em seu quarto, na dúvida, acabou naõ acrescentando o pedido na mensagem de texto. Imaginava que sua tia Dia tinha dado apenas as informações necessários e nada mais.

Mandou mensagem para Sasha, embora soubesse que ele deveria estar dormindo e descansando as costas, e para Isaac, fez apenas o esforço de digitar sem erros, a frase mais curta que podia, já que seria bem capaz do amigo lhe dar um sermão sobre sua digitação mal feita. Acrescentou uma mensagem para sua tia, que embora fosse estranho de pensar ela muito provavelmente iria querer saber como tinha acordado. Lembrou de mandar mensagem para Jonah que lhe carregou noite adentro e era isso, muitas pessoas pra avisar e muitas pessoas avisadas.

O jovem Blanco se deitou na própria cama, encolhido, e ficou encarando a telinha do celular, esperando alguma mensagem de volta vinda do seu então namorado. Enquanto ignorava tantas outras de trabalho e da família Blanco.

Didier

Didier não sabia quem era Dia Blanco, mas sabia que não gostava de nenhum Blanco além de Renaud, e não gostava de modo algum dessa Dia. A verdade é que sua preocupação com Renaud quase tinha lhe feito voar de St. Clavier para o hospital assim que os pollitos, vulgo Adam, chegou com a notícia de que Renaud tinha se machucado feio na aula de Funske. Sim, tinha que agradecer Dia Blanco pelas informações mais verdadeiras, porque o que chegou ao seu ouvido foi desde Renaud ter queimado as mãos a ponto dos ossos aparecerem quanto as mãos dele terem sido derretidas com óleo quente e ele ter que ficar no hospital por semanas, porque NADA é mais fértil do que a imaginação de um monte de adolescentes trancafiados em um colégio interno.

Com a paciência que não tinha, Didier esperou por notícias de quem quer que fosse, e passou muito muito perto de ir atrás delas nas fontes mais confiáveis. Isso quer dizer que até falou com Isaac, mas não teve a mesma coragem para bater na porta de Sasha, porque esse era todo um progresso que ainda não tinha feito.

Esperou pela noite, e esperou o começo do dia, e sem dormir muito bem virando e embolando os lençóis a noite toda, acordou cedo e muito mau humorado, e fez comida para seu café da manhã e inconscientemente fez também para Renaud, que acabou alimentando Emil porque não era nada que consumido frio seria gostoso. Não muito tempo depois, recebeu finalmente uma mensagem de Renaud que estava acordado, e ficou revoltado, não apenas por conta da demora e da preocupação, mas porque agora não tinha nada para levar para o moreno. Em um ímpeto, fez torradas rápidas na frigideira já que ainda estava na cozinha, alguns ovos e uma batida de frutas, supondo que se ele estava acordando agora e não tinha saído, deveria estar precisando comer.

Com uma bandeja em mãos, foi em direção aos quartos, ouvindo no corredor que o Dr. Vlahos tinha saído do quarto do Blanco e sentindo o sangue subir. Quando finalmente chegou à porta de Renaud, deu um par de chutinhos na porta porque a mão estava ocupada.

- Renaud, é Didier, e eu vou entrar, lo quieras o no. – a voz parecia levemente carregada de uma irritação que Renaud já conhecia. Didier equilibrou a bandeja em uma mão para abrir a porta do quarto, e então fechou-a atrás de si. – Trouxe desayuno caso você no tengas tido tiempo de comer. Vim perguntar como estás, e depois que me responder, pode começar explicando porque a tal da Dia Blanco não me deixou ir até o hospital te ver. – certamente não estava contendo o tom ríspido, embora bem no fundo estivesse tentando ser compreensivo. Era provavelmente a primeira vez que o nome de Dia Blanco era pronunciado com tanta ênfase hispânica.

Renaud

O jovem Blanco estava deitado na própria cama, e como não houve resposta imediata para sua mensagem, julgou que Didier tinha seguido sua rotina de ir pra aula como qualquer outro aluno, o que muito provavelmente queria dizer que só lhe responderia na hora do almoço. O moreno mais novo, se encolheu na cama, sendo facilmente confundido com um bolinho, e deixou o celular escapar das mãos machucadas e repousar sobre as cobertas. Até dormiria se não fosse a sensação latente e febril nas mãos, porém, mesmo assim fechou os olhos e permaneceu ali encolhido por longos minutos, até perder noção de quanto tempo tinha se passado de sua mensagem.

Mas não teve tempo de apreciar o silêncio do cômodo, quando a porta foi aberta num baque sonoro, reconheceu a voz de Didier, e ergueu o corpo usando a lateral das mãos para se sentar na cama. E demorou alguns segundos olhando do loiro para a bandeja e depois para o loiro novamente, assimilando que ele tinha preparado comida para si, embora ele parecesse putamente irritado: -- obrigado pela comida Didier… -- foi a primeira coisa que lhe ocorreu em responder, deu espaço na cama para que o loiro sentasse ou botasse a bandeja ou o que achasse melhor: -- Eu não como nada desde ontem, antes da prova, só fiquei no soro por horas… -- comentou a voz num muxoxo:

-- Eu que pedi pra ela falar com você, eu… -- fez uma pausa esticando a mão na direção de Didier, como se quisesse que ele se aproximasse de si, e mesmo sem pedir permissão, envolveu o corpo do loiro num abraço, a cabeça baixa: -- eu não gosto de hospitais… não gosto de ficar lá, não queria ter ido, não queria que você tivesse de ficar lá também… desculpe.

Didier

Renaud estava tão encolhido em uma bolinha triste que quase ficava com pena de ralhar com ele, considerando o quão irritado estava. Mas ao mesmo tempo, convivia com alunos de primeiro ano muito manipuladores com olhinhos de cachorro pidão, e sabia que as vezes uma bronca era mais efetiva que puro carinho. E quanto mais Renaud falava sobre se negligenciar no dia anterior, mais lhe dava vontade de dar uma bronca. Até fechou os lábios firmemente e respirou fundo, bufando.

Sentiu o abraço de Renaud em volta de si, e todo aquele sentimento de raiva até poderia passar em um instante, mas era um pouco teimoso, e tinha ficado magoado e preocupado. Por isso colocou as duas mãos na cintura, mas não tirou o moreno dali. Só precisava tirar um pouco da raiva de dentro de si.

- É, você não queria ter ido, pero ocurió, e eu tive que ficar aqui, ouvir as notícias por terceiros, que llegaran para mi como aqueles rumores absurdos que a gente ouve por aí! Eu liguei muriendo de preocupación e uma pessoa que ni siquiera conocía ficou me dizendo para não ir, e lo peor, tudo isso porque no te gustas los hospitales e não queria que eu tivesse que ficar lá?? Gracias a preocupação, Renaud, pero se me gustan o no os hospitales, eu gosto de você, e queria ver você e saber que sus manos não tinham derretido em óleo quente, e não ficar batendo meu pé no quarto esperando alguém chegar com novas notícias! – resmungou, mas não gritou com o moreno, porque sabia que ele não precisava ficar ouvindo reclamações aquela hora, antes do café. – ¡Me diste permiso para preocuparme por ti! E lo sé... sé que não sou confiável como as pessoas que estavam com você allí, pero... será que precisava mesmo me impedir de ir lá te ver??

Didier bufou, sentindo que tinha aliviado um pouco da raiva, mesmo com o pedido de desculpas de Renaud sendo bem anterior a toda sua reclamação. Torceu os lábios e franziu a testa, levando então uma das mãos aos cabelos escuros de Renaud, fazendo um carinho singelo.

- Lo sé que usted no estaba sozinho lá no hospital... e que tinha gente com você e lhe ajudando... pero yo queria poder fazer algo por você também. – Didier confessou, embora naquele ponto não fazia muita diferença ser mais claro. – Por isso eu fiz o desayuno... e é bom que você coma!

Renaud

Mesmo sem olhar para o rosto de Didier sabia que ele estava plenamente irritado pela tensão que sentia vinda do corpo dele, quando o mesmo puxou o ar para lhe dar a bronca que merecia, ouviu cada palavra e concordava em parte com tudo também. Embora não tivesse chamado ninguém para lhe fazer companhia já que Sasha só surgiu e Dia foi uma surpresa ainda maior. Acenou positivamente a cada trecho da bronca e depois que o loiro terminou se afastou o suficiente pra erguer o rosto e encarar o mais velho:

-- eu fui egoísta, eu entendi... -- comentou a voz mais baixa e a cara refletia o cansaço da noite ruim no hospital: -- e não é que as pessoas que estavam lá eram mais confiáveis que você, elas só estavam lá quando eu fui transferido da emergência pra um leito comum, eu nem sei quantas pessoas o prof. Funske avisou ou como ficou toda a situação da escola com o caso, eu não sei…

O Blanco foi bem honesto naquele ponto, ele não escolheu as pessoas que estavam lá e nem a ordem dos fatos, seu único ato egoísta foi pedir pro Didier não ir lá, porque não queria que ele o visse naquele estado e ficasse ainda mais preocupado: -- eu pensei que se você me visse lá ia ficar mal, muito mal, e eu não queria isso, no fim não ter ido também deixou você mal, e eu não tinha pensado nisso, desculpe…!

Encostou a testa na cintura do loiro e esfregou o rosto ali, como se estivesse materializando em gestos seu pedido de desculpas, para logo em seguida se afastar, estava notoriamente cansado, e murcho por ter feito uma escolha ruim. Mas logo se ajustou na cama pra poder comer o que Didier tinha lhe preparado, com as palmas das mãos queimadas restavam poucas áreas dos dedos úteis para segurar coisas, então Renaud parecia desengonçado comendo, embora depois de provar a primeira torrada, formou um sorriso simples:

-- estava com saudades da sua comida... Tem gosto bom…! -- e fazia muito tempo desde a última vez que de forma natural tinha sentido gosto de alguma comida.

Didier

Renaud parecia ter entendido bem claramente o que queria dizer. Até bufou em resposta quando ele disse que tinha sido egoísta. Resumia muito bem o que estava pensando. Encarou ele de volta, ouvindo toda a história de como ele não sabia quem iria aparecer no hospital (e supunha que de fato ele tinha zero controle sobre isso) e nem como isso tinha se resolvido em St. Clavier (que também não era nada haver com suas responsabilidades).

- Si, fueras egoísta si. No lo haga de novo. Prefiro me preocupar perto de você que lejos, entendeu? – Didier falou muito claramente, franzindo a testa mais uma vez. – Aliás, pensando bem, no deseo que isso aconteça de novo. Então... cuídate.

Didier deixou que Renaud esfregasse o rosto e o mimou apenas o suficiente para não dar a impressão que ainda estava completamente irritado. A atitude seguinte dele foi a de procurar a comida que tinha trazido, e só agora que tinha visto a extensão das queimaduras que podia perceber que ele teria dificuldade para comer algumas das coisas que tinha preparado. Ao menos a batida de frutas ele poderia tomar com um canudo sem muita dificuldade, e tinha certeza que encheria o moreno.

- Solo és tostadas. – falou, sentando-se na cama com ele e suspirando longamente, estendendo a mão até a torrada para pelo menos ajudar Renaud a deixá-la estável nos dedos do moreno, para que ele comesse com mais calma. – Pero se quieras puedo preparar alguma coisa melhor em outro momento... ou pode provar essa bebida... essa fui eu que preparei. – foi relaxando aos poucos, vendo pelo menos o que Renaud estava disposto a comer depois de passar horas de fome. – Que pasó, Renaud?

Renaud

O jovem Blanco ainda teria de se acostumar ao fato de não ter a coordenação motora plena das mãos, principalmente para comer. Espiou Didier quando ele reforçou que preferia estar próximo que longe, independente da situação, e acenou positivamente em resposta. Ao ser ajudado a segurar a torrada, falou um “merci” baixinho, apenas porque sabia que ficar ajudando nessas coisas básicas deveria ser no mínimo irritante, e se o outro estava fazendo, tinha de pelo menos agradecer adequadamente. Estava com mais fome do que tinha suposto no começo daquela conversa, e comer as torradas vagarosamente só lhe deixou com mais vontade de comer, o que devia ser bom? Já que seu apetite estava péssimo nos últimos dias. Observou a batida de frutas, mas antes de fato de tomar, Didier lhe perguntou o que tinha acontecido consigo, parou de comer, limpou o rosto com as costas da mão:

-- O acidente ocorreu depois da prova do prof. Funske ter acabado, estávamos limpando a cozinha, e o Tristan do terceiro ano que estava responsável por fritar os frangos foi descartar o óleo e desequilibrou a panela. -- O Blanco olhou pras próprias mãos um momento, lembrando da sua percepção de que conseguiria pegar a panela pela alça, mas o fato é que não tinha conseguido, e agora sabia porque: -- Embora a panela já estivesse fora do fogo a alguns minutos o óleo demora a esfriar, e ia cair por cima de mim e de outro aluno que estava do meu lado responsável por lavar a louça, eu fui pegar a panela no intuito de chegar nas alças, porém, eu não consegui, peguei mais ou menos no meio da panela, um palmo de distância de onde eu pretendia.

O Blanco gesticulou no ar a distância de onde pegou e onde queria pegar, e depois suspirou, os ombros murchando um pouco, e torcendo a expressão em desgosto: -- doeu tanto que eu senti frio, empurrei a panela pra pia, e levei as mãos até a torneira mais próxima, mas o frio não foi só pela queimadura, foi pq minha pressão caiu, eu quase desmaiei, e por isso o prof. Funske me levou pro Hospital, eu acho que ele entrou em pânico quando me viu cambaleando e achou que a queimadura tinha sido mais séria.

Renaud tentou voltar a atenção a comida, com uma expressão que ia entre desgosto de lembrar do ocorrido, e um aborrecimento claro nas sobrancelhas franzidas. Tentou pegar o copo de vitamina com a lateral das mãos e quase derrubou o mesmo em cima da bandeja. O moreno mais novo torceu a expressão e pegou o canudo e pós na batida de frutas, pra conseguir se alimentar sem causar mais nenhum acidente, depois de dois fartos goles, acenou positivamente:

-- Têm gosto bom também, obrigado Didier! -- Renaud usou um tom mais suave, e foi notório que a expressão aliviou um pouco também.

Didier

Só depois que perguntou a Renaud sobre o que tinha acontecido é que pensou que talvez não fosse a melhor coisa para se conversar enquanto o outro estava comendo, afinal, tinha sido uma experiência bem desgostosa. Porém, a medida que ele contava, só conseguia sentir que aquilo era apenas um infeliz incidente, e que poderia ter acontecido com Renaud ou o tal do animal do Tristan, só que Renaud decidiu interferir e foi a vítima maior.

- ¡Qué chico torpe! – Didier franziu a testa, mas não podia culpar inteiramente o garoto. – Pelo menos la quemadura não foi tão séria cuanto se veía. Pero es obvio que sua pressão ia cair! Imagina levar uma quemadura numa panela caliente y con aceite, só você sabe o quanto duele, e claro que deve ter sido un susto! Pero no nececesitas ficar pra abatido com isso. No eras tu, ia ser o Tristan no hospital, embora honestamente eu preferisse que fosse ele, porque ele que fue torpe. – Didier bufou, talvez com um pouco de vontade de dar um tapa na cabeça de Tristan da próxima vez que o visse.

Notou como pelo menos pegar as coisas estava difícil para Renaud, e até tentaria ajudar, mas ele se virou bem antes que sequer tentasse. Também aliviou a expressão irritada quando ele aprovou a vitamina.

- Se você está aqui, e com apetite, así es mejor. – Didier levou uma mão até os fios escuros, acariciando-os por um instante. – Se precisar de ajuda, pode falar comigo. Y si quieres que tuerza algunos de los dedos de Tristan para hacerlo realmente torpe, solo di. – Obviamente não faria isso. Mas não podia deixar de oferecer.

Renaud

Para o jovem Blanco era apenas natural que Didier se mostrasse irritado diante dos fatos, não guardava necessariamente rancor de Tristan, porque aquele tipo de acidente poderia acontecer com qualquer um. E principalmente com um monte de garotos que sequer tinham entrado numa cozinha de verdade na vida, sempre no internato onde tudo estava sob controle, a infelicidade era que o próprio Blanco tinha se metido naquilo e tinha saído sequelado. O bom, e agora conseguia enxergar nem que fosse um vislumbre de bom, era que o susto tinha passado, e estava de volta aos dormitórios, onde preferia estar. Tinha monte de coisas na cabeça pra pensar, tinha sim, mas não estava sozinho e isso lhe deixava com uma sensação mais leve do que antes.

Terminou a vitamina, e tentou mover a bandeja sem sucesso, então apenas esperou que Didier tirasse a mesma da cama e pusesse sobre a mesa pra liberar o espaço na cama. Negou com a cabeça quando o loiro ofereceu torcer os dedos de Tristan depois do ocorrido: -- Não precisa fazer nada com o Tristan, eu aposto que se ele me vir no corredor vai ficar pálido e achar que vai morrer, eu tenho uma fama ruim o suficiente que me precede pra ele querer me evitar até se formar. -- Deu de ombros, parecendo fazer pouco do garoto:

-- Mas de verdade mesmo, o que você pode fazer por mim Didier, você já tá fazendo, me trouxe comida, veio me fazer companhia, e eu já fico feliz por isso, sabe… eu…. eu não gosto de ficar sozinho quando fico doente ou machucado… embora eu tenha me acostumado a ficar sempre sozinho e resolver tudo sozinho, não quer dizer que eu goste de viver assim…! -- o moreno mais novo falou, esperando que Didier voltasse a ocupar um espaço na cama, para se aproximar do loiro e farejar o mesmo na altura do rosto:

-- Eu posso te beijar? Ou você ainda está muito bravo comigo? -- Renaud perguntou de forma honesta e direta, dava pra ver que o moreno mais novo estava muito cansado, até pra fazer joguinhos de sedução, e estava apenas sendo direto, pra receber respostas diretas. E com o adicional, de que a despeito do comportamento de sempre, Renaud estava mais aberto, e fácil de ler, e até um pouco “carente” de atenção, falando tão diretamente como se sentia ou não se sentia sobre algo.

Didier

Era estranhamente confortável ouvir Renaud falar de sua má fama pelos corredores, por causa de suas delinquências e ar intimidador. Isso porque talvez tivesse visto o moreno em um jeito mais amuado e frágil nos últimos tempos. Era bom saber que ele lembrava de sua fama de mau. Gostava dele dos dois jeitos, era inevitável.

Ajudou com a bandeja, tirando-a da cama e colocando na mesinha, ouvindo o tom meio desesperado enquanto voltava, sobre ele não gostar de se sentir sozinho quando estava machucado ou doente. Torceu de leve o lábio, lembrando de ter testemunhado Renaud se isolando no próprio quarto várias vezes depois de se machucar, enquanto o moreno já tinha cuidado dele enfermo, fosse lhe dando mimos breves ou fazendo comida para se recuperar mais rápido. Era fácil lembrar o quão desigual era a relação deles assim. Mas era dali em diante que tinha que fazer algo certo.

Por isso sentou de volta ao lado do moreno na cama, notando a proximidade com o rosto dele e a vontade que ele tinha de sentir sua presença ali. Embora estivesse bravo antes, ele já tinha pedido desculpas. Podia entender bem aquele sentimento do moreno de não gostar de estar sozinho, apesar de ser independente. Mas tinha ido lá para o que, senão ceder aos pedidos de Renaud e ajudá-lo?

Didier não respondeu verbalmente, mas ao invés disso, terminou de cruzar a pouca distância entre ele e Renaud e beijou-o suavemente, depois batendo de leve a testa na dele sem força.

- Estaba más preocupado do que enojado. – respondeu diretamente, em resposta a Renaud, que estava sendo bem honesto e não fazendo rodeios sobre o que queria. – E ahora estou feliz que você está alimentado e mais mimado. Porque vim correndo aqui para cuidar de você, então pode pedirme que quieras. – Didier deu outro selinho breve no moreno, em seguida, afastando os fios escuros da testa dele para beijar ali. – Pero, ficaré enojado se você não pegar esta oportunidad de ter meus mimos, Renaud.

Renaud

Era fato que o jovem Blanco não estava em seus melhores dias, mas nem de longe estava em um dos piores. Sentia-se cansado obviamente de estar doente, mas tinha uma parcela de si, que até aceitava aquela condição, afinal desde que começará a se mostrar "não tão forte quanto o esperado", foi que começou a perceber ações de pessoas próximas - as vezes nem tão próximas - preocupadas com seu bem estar. E para alguém que tinha simplesmente se habituado a não se enxergar como pessoa, perceber que essas pessoas estavam ao seu redor e que esse sentimento de cuidado já existia só não era externado, era algo novo com o qual o moreno mais novo estava tentando se acostumar.

A resposta de Didier veio num encurtar de distância e um beijo carinhoso, Renaud fechou os olhos brevemente para apreciar do beijo, mas logo sentiu o toque do encontro de testa com testa, e encarou um loiro bem menos irritado. Se permitiu receber todas aquelas carícias que vieram em seguida, e era estranho como tudo aquilo era e não era novo para si, mas queria evitar pensar demais e refletir demais sobre tudo e cada gesto que trocavam. Queria em verdade apenas fazer como o outro lhe disse e aproveitar da companhia do loiro junto a si:

-- talvez eu mostre meu lado mimado de menino rico, será que você vai me aguentar? Hun…! -- a fala soou mais leve e com um tom claro de que era uma gracinha, a despeito do cansaço existia realmente tentativas do moreno mais novo ficar mais relaxado. E se tinha recebido permissão para ficar mais próximo do loiro, então faria aquilo, porque se segurar tanto? Também precisava daquela proximidade e de contato físico. Pediu espaço para sentar mais perto do loiro, deixou que ele apoiasse as costas contra a parede e se aninhou ali entre as pernas dele com a cabeça apoiada no peito, quase numa posição de bolinho novamente. O lado bom dos dois terem praticamente a mesma altura era que nessas situações podia aproveitar e se encolher e ser completamente abraçado:

-- eu… quero um abraço…! E que você fique aqui comigo um pouco… ouvindo alguma bobagem qualquer que me venha a cabeça falar… faz tempo que a gente não conversa sobre qualquer coisa que não sejam problemas… -- Renaud não era exatamente exigente, nem sabia como ser mimado naquele aspecto afetivo da coisa, só falou o que veio a sua cabeça. E mesmo que o loiro não fosse a pessoa mais perceptível do mundo, Renaud não estava sendo a pessoa esquiva e evasiva de sempre. havia muito mais coisas acontecendo ali além do acidente, e embora o moreno mais novo, estivesse menos desesperado e mais notoriamente cansado, ele realmente parecia de cabeça cheia, e o fato de não querer falar de problemas só ressalta que muito provavelmente era só nisso que ele estava pensando.

Didier

Durante um tempo, e especialmente depois que percebeu o tipo de negligência com que tratava Renaud, tinha se questionado de sua habilidade para se aproximar das pessoas. Se o que sabia dar era apenas um carinho vazio, ou se nutria algum sentimento que era seu¬, e não uma falsa maternidade, para com as pessoas de que se cercava todo dia. Mas vendo Renaud depender de si daquela forma, nem que por um breve momento, fazia Didier pensar que embora bem compreendesse seu lado falso, gostava genuinamente de poder fazer algo pelas pessoas a quem tinha apreço. Assim como seu namorado, era só confuso, e precisava que tudo se encaixasse em seu lugar aos poucos.

Abraçou o Renaud aninhado em seu corpo, envolvendo-o com braços e apertando-o entre suas pernas como conseguia, beijando-o sobre a cabeça, pescoço, nuca, rosto.
- Só para lhe lembrar, eu cuido de muitos niños ricos y muy mimados dos primeiros anos. – respondeu, sorrindo ao pensar que os cuidados que as vezes tinha com os pollitos tinham lhe ensinado a importância de só um abraço. – E ya vi seu lado rico y mimado algumas vezes... Recuerdo especialmente que a veces gritabas "¡Didier, Didier!" quando precisava de alguma coisa. Mas gosto de você desse tamanho... cabe certinho en mi abrazo.

Suspirou longamente, fornecendo mais uma rodada inteira de carinhos para Renaud, encolhendo-o ainda mais em seu abraço, subindo uma mão para os cabelos escuros para fazer um cafuné suave.

- Sabe o eu nunca mais ouvi de você...? Una historia. – Didier comentou, com um ar curioso. – Você conhece muitas historias... eu leio mucho menos, e las historias que você lê são ou muito tontas, ou interessantes. Como a das valises.

Renaud

O moreno mais novo tinha pedido um abraço, mas nem sabia do efeito que aquilo teria em si, por um momento prendeu a respiração, e a medida que foi envolvido pelo calor e o carinho vindo do loiro, soltou o ar em um suspiro, e parece que todo o corpo amoleceu e relaxou prontamente, naquele ponto, até conseguiu desviar a atenção da sensação de formigamento e febre que vinha de suas mãos danificadas. Farejou o loiro e tragou o aroma das roupas de Didier já que estavam próximos e abraçados, e quando ouviu sua imitação de um garoto jovem falando exasperado pedindo por ajuda, aquilo lhe arrancou um riso simples, mas bem audível. Descansou a cabeça na curva do ombro do namorado, aproveitando do afago e do carinho, que não sabia que precisava tanto, mas agora tinha plena certeza que queria todos os dias de sua vida.

Ergueu a cabeça brevemente, depositando beijos na altura do ombro e pescoço do loiro enquanto Didier lhe falava que nunca mais tinha contado qualquer história sobre os livros que lia. Aquilo lhe jogou em uma sensação de nostalgia boa sobre o momento em que tinha contado aquela história em específico: -- Verdade…! Se bem que nas últimas semanas nem eu tive como ler muita coisa, a minha pilha de livros no canto da cama é a prova. -- Comentou de forma despretensiosa, se arrumando entre os braços de Didier para poder olhar para o rosto do loiro, mas ainda ficar bem acomodado ali com a cabeça apoiada no ombro do namorado, derreteu um pouco mais na cama, mas deixando as mãos em posição com a palma para cima:

-- Eu podia te dar um resumo de toda a alta literatura francesa, mas eu tenho quase certeza que você vai dormir. -- O Blanco fez uma piada, em um tom mais leve: -- Mas já aconteceu algumas coisas comigo que eu certamente deveria estar registrando em livro. Eu lembro especificamente de 2010, na época que eu tinha meu canil de rua, como o povo chamava meu “bando”, tinha chovido e a maioria dos desgraçados era de açúcar porque sempre que caía dois pingos de água a maioria dos moleques preferia ficar em casa. Nesse dia eu e Richard que ficamos vadiando a procura de alguém pra encrencar. -- O Blanco fez uma pausa breve considerando que Didier não devia saber de quem estava falando: -- Richard é um ruivo mais baixo que o Law, e mais educado também, ele deve tá com 21 agora… mas enfim, depois eu apresento vocês, no dia que a gente foi espancado pelo seu bando ele tava lá. coitado… -- Renaud deu um risinho fraco antes de seguir com a narrativa.

-- O Richard sempre foi esperto, bom em convencer pessoas, ele e o Lizerg até se dão bem por isso, e aí enquanto a gente andava pelo distrito Pourpre, passando por uns prédios velhos tipo casa de jogos essas coisas, ainda não tinham criado a tal da ARJEL, então as casas de jogo tinham fechado há bastante tempo, sendo que o infeliz tinha ouvido de um dos outros meninos que ainda devia ter alguma coisa boa no prédio pra levar. Eu tava entediado, e não tinha ninguém na rua pra encrencar além de mendigos e prostitutas, então pensei porque não? O que poderia acontecer com dois adolescentes pulando o muro de um prédio velho fechado, entrando em propriedade privada que nem os mendigos tinham invadindo ainda?

O Blanco parou a narrativa especificamente onde parecia que as coisas ficariam interessantes, apenas para testar o nível de atenção que Didier estava dando a sua fala, e pra saber se ele estava muito entediado ou não com o que estava conversando.

Didier

Estranhamente, a risada de Renaud para sua imitação muito ruim lhe lembrou quanto tempo fazia desde a última vez que ouviu o outro fazer uma imitação enquanto contava uma história boba.Era uma habilidade muito singular, e tinha lhe entretido várias vezes. A imitação dele de Isaac era impecável, provavelmente porque conviviam muito.

Aceitou muito contente os carinhos de Renaud, deixando-o se aninhar confortável em seus braços como queria, e até derreter sobre a cama e se esparramar, se assim se sentisse melhor, mas certamente não deixou o abraço, e até o aconchego de suas pernas apertando-o junto de si, devolvendo o carinho com um beijo breve no topo do nariz para não impedi-lo de conversar.

- Deixei o professor Van Houten para trás no segundo año. No me hagas escuchar de novo sobre Madame Bovary. – falou com a testa franzida, feliz que pelo menos o moreno estava ciente que não tinha interesse em ouvir toda a literatura francesa de novo. Ao invés disso, ele lhe contou uma história sobre o tempo em que brigavam nas ruas, o que prontamente colocou um meio sorriso no seu rosto. Apesar de saber que não tinha mais a energia para gastar como naquela época, pensava naqueles dias como saudosos. Brigar era interessante, as pessoas que encontravam eram interessantes, e embora pudesse ter conhecido Renaud dentro de St. Clavier, fez uma imensa diferença entender logo de cara que os dois tinham mais temperamento forte que a maior parte dos garotos largados ali na instituição.

Só que pensava já ter ouvido sobre tudo. E de repente, Renaud lhe trouxe um novo nome, que fez Didier arquear uma sobrancelha. Não tinha ideia de quem era Richard, mas ficou atento a história, o suficiente para franzir a testa prontamente dando um tapinha muito fraco no ombro de Renaud quando ele decidiu parar a história.

- Muchas cosas! Você não deveria ter energia para fazer charminho! - Didier bufou, falsamente irritado. – Que pasó?

Renaud

As reações de Didier lhe divertiram, e até se esqueceu momentaneamente da desgraça que estava sua vida e suas mãos, e pensar nesses pedaços do seu passado quando estava mais despreocupado, era um ponto pra aliviar a cabeça carregada e o cansaço que lhe perseguia. Desenhou um sorriso no rosto de traços comuns, e riu parecendo bem mais tranquilo do que a alguns minutos atrás.

-- “Vamos! eu ouvi que tem uma máquina velha de pebolin!”, era tudo que Richard precisava dizer pra me convencer, provavelmente ele ficou sabendo que eu gosto de pebolin desde sempre e daí usou a informação contra mim -- o moreno mais novo deu de ombros sobre aquele ponto, tinha boas recordações do jogo: -- Só depois de pular o muro, que deu pra olhar como o prédio era diferente, o muro alto foi posto pra fechar o local, ele tinha um pátio amplo coberto de mato e uns vãos que deviam ser portas de vidro, mas estavam tapadas com uns compensado mofado, um chute depois, a gente tinha espaço suficiente pra passar. Eu lembro que estava meio gripado, e por isso não sei exatamente que cheiro o lugar tinha, mas devia ser umidade e mofo, o primeiro andar estava meio alagado, mas dava pra ver as paredes coloridas, e os lugares onde deveriam ser as luminárias das mesas de jogo, mas dava pra ver pouca coisa porque era de noite e não tinha energia, ou era o que eu pensava. -- Renaud movia pouco as mãos, conduzindo a narrativa e tentando passar a ideia do local que tinha visto na época, fazia pausas pontuais apenas para dar tempero ao que contava -- Richard tinha mexido na caixa de disjuntores, e acendeu as luzes do local, não todas, algumas já não estavam mais lá, uma ou outra queimada, e uma que piscava insistentemente… sabe Didier eu nunca fui muito de acreditar nessas bobagens de fantasmas e coisas sobrenaturais, mas naquela hora eu pensei que aquilo seria um cenário ideal pra filme de suspense, daqueles filmes classe B que a gente encontra na feira. -- O moreno desenhou um sorrisinho e trouxe a mão de Didier para perto de seu rosto para depositar um beijinho, antes de seguir com sua história:

-- “Quem te disse que tinha algo aqui?” eu perguntei só pra confirmar de onde vinha aquela história, e o Richard seguiu caminhando até as escadas circulares, mostrando como ele já aparentemente conhecia o espaço, e me respondeu sem olhar pra mim “Ah, você sabe, foi um dos meninos, eu não lembro o nome de todos!”, aquilo foi o suficiente pra eu começar a suspeitar de que não tinha nenhum Pebolin ali, e que ele provavelmente queria aprontar alguma coisa comigo. Não que tivéssemos algum problema declarado entre nós, mas eu sempre fui desconfiado, e principalmente naquela época, é quando eu estava mais desconfiado do que de costume… e quando chegamos no segundo andar, do prédio, a luz que vinha do salão de baixo, já não era tão forte, e dava só pra ouvir aquele “bzzz, bzzz, bzzz” de energia falhando num fio podre, e ali, sem o meu nariz bom, eu ouvir alguma coisa.

Riu sabendo que era o pior momento pra pausar sua narrativa, principalmente com um sorrisinho cínico no rosto de quem talvez estivesse inventando, ou talvez só maquiando o que de fato aconteceu, não dava pra saber o quanto era verdade ou não daquilo. Mas pelo menos Renaud achava que sabia contar bem uma história.

Didier

Foi preenchido por um sentimento de nostalgia boa quando ouviu Renaud imitar a voz do que deveria ser Richard, mas só saberia se um dia o encontrasse. A única coisa que tinha certeza era que ao contar a história, o moreno se sentia cada vez mais relaxado, como se estivesse tirando todos os problemas recentes da cabeça. Então não era algo só que lhe fazia bem em ouvir, mas também fazia bem a Renaud, e foi tomado por uma sensação de satisfação.

Renaud era simplesmente muito bom em contar histórias, porque o tanto que ele sabia enfeitar a narrativa com detalhes lhe levava rápido para o lugar e a situação. Também era fácil de imaginar porque esse tipo de travessura de menino era algo que tinha feito quando chegou em St. Clavier. A única coisa que achou engraçada era Renaud pontuar que gostava de pebolim. Apesar de saber que tinham certas coisas do moreno que eram quase contrastantes, a imagem dele moleque jogando pebolim lhe pareceu muito natural, mesmo que ele fosse um menino rico que deveria estar jogando cricket ou sabe-se lá que outro esporte.

Devolveu o beijo em sua mão com um toque carinhoso no pescoço e peito de Renaud, colocando os dedos por dentro da camisa dele para tocar os ossos enquanto beijava os cabelos escuros ao seu alcance. Mas de repente parou e ergueu a sobrancelha de modo expressivo quando ele falou sobre “fantasmas”. Ficou atento ao resto da história, concordando mentalmente com a suposição que o tal garoto só estava querendo pregar uma peça no moreno, mas quando esperava descobrir o que estava por trás do barulho e o que tinha no prédio, Renaud lhe deu um risinho e parou a narrativa, o que fez com que Didier estreitasse os olhos.

- ¿Terminarás la historia?! – falou, impaciente, agarrando o moreno com firmeza e descontando sua raiva com mordidinhas de leve na orelha, pescoço e ombro de Renaud, para se impedir de enchê-lo de tapas. Pôs uma expressão emburrada, a testa franzida. – Aposto que no hay nada de fantasma en la historia! Com certeza esse menino solo queria jugar una broma! Porque era sua cara naquela época, dava vontade de ver se você tinha outra cara senão a cara atada! – bufou, então movendo a mão em círculos. – Entonces, ¿qué escuchaste? E se fizer mais suspense, eu vou morder sua barriga.

Renaud

Estar ali trocando carinho e histórias com seu namorado, era algo surreal, e ao mesmo tempo tão palpável, que parecia apenas natural entre os dois, como se eles sempre soubessem fazer aquilo. Riu das ameaças de Didier, não porque não estivesse levando a sério, mas porque receber mordidas lhe parecia bem agradável, e ficou tentado a fazer charminho:

-- Admito que fiquei um pouco tentado a fazer suspense pra receber umas mordidas na barriga, mas não vou lhe deixar sem o fim da história. -- Esperou para receber algum tapinha do outro por causa de suas ousadias, isso porque não estava com ânimo antes pra estar fazendo esse tipo de brincadeira, e agora elas vinham naturalmente, imaginava que quando estivesse melhor desses dias ruins, seria uma pessoa mais bem humorada talvez?

-- O fato de ter ouvido alguma coisa, podia ser apenas minha imaginação, paranoia talvez porque estava sem olfato, mas eu não fui o único, porque seria muita coincidência se Richard também tivesse ouvido e parasse exatamente no mesmo momento, e claro que a reação seguinte dele ia delatar tudo, se ele fingisse que não ouviu ele ia me confirmar que estava tramando algo, e se admitisse que tinha ouvido, iriamos atrás do barulho. -- Renaud fez uma breve pausa, respirou fundo, e ajustou um pouco o tom de voz novamente: -- “Você ouviu isso?” ele falou, mas eu notei que ele teve uma demora pra responder, então fui eu que menti, “não, que foi? Tá com medo de ratos?” eu fiz pouco caso, e ele me olhou desconfiado, seguimos pelo corredor agora já com pouca luz, subimos outro lance de escadas e elas rangia enquanto a gente subia, o não tinha como alguém ter passado ali sem que tivesse feito muito barulho, logo tinha alguém me esperando lá no terceiro andar, deixei que Richard fosse na minha frente, pelo que dava pra ver, ainda tinha outra escada, mas naquele andar diferente do de baixo que era amplo, esse tinha corredores e salas, devia ser a parte administrativa do prédio, ou seja, muitos lugares pra alguém se esconder. -- Renaud encarou um lugar no vazio e indicou com a mão, quantos corredores e quantas salas eram: -- E então eu contei de vista quantas salas eram, quatro até onde seria a escada que daria na cobertura do prédio, primeira nada, na segunda nada, Richard olhava pra dentro de cada sala, mas ignorou a terceira, naquela hora quando eu estava decidido a chutar a porta, POW! -- o Blanco falou excessivamente alto, sabendo que levaria uns tapas no processo: -- a porta se abriu antes que eu chutasse e eu acertei a pessoa do outro lado da mesma, Richard tem um irmão mais novo, da minha idade, ele estava lá, estatelado no chão, com o que seria um saco de estopa, e ele xingou muito “eu disse que era uma porcaria de ideia Richard!!” e o claro que o ruivo concordou “também você fez barulho! Ele percebeu, você vai sobreviver? Quebrou algo?” ele ajudou o irmão a levantar e eu fiquei ali no escuro só encarando os dois esperando eles me admitirem que não tinha nada de pebolin e que merda de trote era aquele.

Renaud amansou a voz e se acomodou mais no colo de Didier fechando os olhos brevemente: -- “A questão é que primeiro, a gente queria lhe dar um susto, pela diversão mesmo” Richard admitiu, e Paul logo completou “Eu disse que ia dar errado!”, mas daí eles continuaram “Segundo, a gente disse que ia lhe pagar quando tudo estivesse resolvido, e a gente veio pagar” e eu não entendi do que se tratava até o irmão dele avisar que “ele foi embora”, e bem o ele, era um favor que eles tinham me pedido pra dar um jeito de afugentar uma pessoa da cidade, e demorou, mas deu certo, e eles tinham ficado de me pagar algo em troca, claro que aquela altura eu nem acreditava que aquele pagamento iria vir. -- Renaud riu da recordação que agora parecia bem boba na sua “finalização”: -- A gente subiu até a sacada e eles tinham levado cerveja, eu tinha quinze anos e nunca tinha tomado antes, foi uma experiência horrível, porque tinha gosto de água suja e eu fiz várias caretas, não acreditei que as pessoas tomavam aquilo por vontade própria. E sim, tinha um pebolin que eles tinham arrastado pro topo do prédio, e a gente até ficaria jogando a madrugada toda se a os fios não tivessem dado curto, e rolado um pequeno incêndio, a gente ficou com medo do prédio se acabar e fugimos tão rápido quanto a gente podia… mas foi só a caixa de energia e ficou por isso mesmo, usamos o lugar de esconderijo por umas semanas até a gente enjoar;

Não era exatamente literatura francesa, mas era uma história até decente, até se prestaria a mostrar o prédio para o outro quando estivesse de passeio pelo centro novamente.


RE: [Drive] Atrito [Renaud; Didier] - Lil - 09-01-2021

Didier

Didier franziu a testa para a ameaça de Renaud de fazer charminho.
- Entonces revoco mi decisión. Si haces charminho vai ficar sem mordidas na barriga! – resmungou, esperando que ele logo continuasse a narrativa, ou acabaria perdendo a paciência.

Quando ele recomeçou a história, ficou tentando imaginar o tipo de buraco velho e caído que eles tinham se metido, ainda mais quando Renaud tentou lhe fazer visualizar o tal do andar e as quatro salas pelas quais os dois garotos exploravam. Porém, quando ele fez um pouco de mistério sobre a sala, e do nada levantou a voz, Didier não pode evitar de tomar um susto leve, o que prontamente fez com que o loiro levantasse a mão e desse um tapinha na cabeça de Renaud.

- Ridículo. – reclamou baixo, deixando o moreno se acomodar como quisesse para terminar de contar a narrativa.

A figura dos irmãos querendo aprontar com o moreno era bem engraçada, talvez porque o Renaud que conheceu ainda muito moleque era alguém usualmente menos infantil do que a idade dele permitia. Era um cachorrinho de briga, e mesmo que o moreno quisesse não podia negar o fato. Mas ouví-lo contar sobre os amigos pregando uma peça nele, discutindo e afins, e o fim todos se reunindo para tomar cerveja escondidos lhe fazia pensar se durante tanto tempo, não tinha sido o próprio Didier que tinha imposto esse estigma em Renaud, e na verdade, apesar de brigar com raiva e com força, a ponto de lhe assustar, ele era um garoto arruaceiro como outros que encontrava na rua. Exceto que era seu.

Riu da experiência dele com cerveja, lembrando bem que teve a mesma impressão a primeira vez que bebeu. Mas era engraçado como eles se acostumaram ao gosto, mesmo que não gostassem de cara. Também não achou estar em lugar de questionar o favor que Renaud tinha feito para os dois irmãos, quem era a pessoa. Não que não tivesse curiosidade. Mas os casos dos moleques com quem andava eram sempre tensos. Não era o tipo de coisa que se contava para todo mundo.

- Seu amigo merecia levar esse chute mesmo, pra criar juízo. Pero fue una buena historia. Mesmo que você estivesse tentando me dejar enojado durante ela toda. – Didier comentou, afundando o rosto nos cabelos de Renaud, beijando o topo da cabeça dele, olhando para a parede do quarto por um instante. – Me dá vontade de marcar una cita com você... pra jogarmos pebolim. Creo que ha pasado mucho tiempo desde a última vez que joguei. E mira... eu bebo cerveja, mas cambiaria por vinho em qualquer proposta, porque cerveja tem mesmo gosto de água suja. – propositalmente ignorou que tinha dito que morderia a barriga dele, para ver se Renaud lhe jogava charme, ou se ele mesmo lhe cobrava sobre as mordidas.

Renaud

O jovem Blanco se pegou rindo mais tranquilo do que podia imaginar em dias, e era curioso como Didier era capaz de alterar drasticamente seu humor, ou talvez o próprio Renaud estivesse se percebendo capaz de mudar de humor, e não ficar preso a tragédia que era a sua vida. Tinha de deixar de lado o vício de ficar se lamentando da sua vida o tempo todo, mesmo que de fato estivesse se sentindo mal, assim como agora, nem tudo era apenas ruim. Como também não podia se enganar que teria aquela sensação leve todo o tempo, em algum momento ela iria embora, mas ficaria tudo bem não é? Mais cedo ou mais tarde voltaria também.

Se deixou abraçar, e aproveitou que o rosto de Didier estava perto para farejar a pele alva, e dar-lhe mordidinhas na linha do maxilar. e foi bem em tempo de ouvir a proposta de tirarem um dia pra jogar pebolin, e aquilo abriu uma expressão de surpresa e até leve empolgação no rosto normalmente neutro do Blanco. Acenou positivamente, para a proposta de saírem pra jogar e que vinho era de longe um acompanhamento melhor que cerveja no geral, embora vinho fosse muito classudo pra pebolin:

-- Eu sei de uns bares que tem pebolin onde a gente pode ir jogar, só não garanto que tenha vinho.-- o jovem Blanco comentou de um jeito bem tranquilo mas ainda bem empolgado com a ideia: -- Vem cá, deita aqui comigo. -- Renaud chamou o outro, para que se deitasse junto consigo, e a despeito das mãos queimadas, ainda se aninhou junto ao corpo do outro, e enlaçou as pernas, fazendo questão de manter proximidade entre os dois:

-- Eu sei que está cedo, ainda tenho de almoçar e o Sasha quando acordar vai passar aqui mais tarde pra saber como é que eu estou… mas queria saber se você não quer dormir comigo hoje? -- a pergunta do Blanco foi exatamente aquilo, se podiam dividir cama juntos e dormir, como um casal que eram: -- da última vez que eu pedi isso, lá no seu quarto depois do nosso joguinho, eu nem consegui dormir. -- Admitiu com uma voz mais baixa e confidente.

Didier

Fazia tempo que não sentia Renaud lhe farejar, e apreciava bastante aquela sensação das mordidas leves. Se pegou sorrindo quando ele aceitou sua sugestão de encontro. Certamente não haveria um pebolim em nenhum lugar que servia vinho, mas também imaginava não haver nenhum lugar tão ridículo onde não pudesse contrabandear uma boa bebida sem o dono do bar perceber.

- También bebo tequila. – brincou, e tinha certeza que haveria algum bar por aí com uma tequila que cheirava a álcool de posto que poderiam descer sempre que um fizesse um gol no outro. Parecia um encontro muito bom para Didier.

O loiro deitou devagar na cama junto com Renaud ao ser convidado daquele jeito animado, tirando os cabelos do caminho para se aninhar junto do moreno. Pegou as mãos dele com cuidado e deixou que ele enlaçasse as pernas nas suas, aproximando-se o suficiente para roçar a ponta do nariz na dele e até morder de leve a pontinha, só porque parecia divertido.

Ouvir falar de Sasha fez com que Didier entortasse os lábios, e se concentrou para não transparecer demais aborrecimento com o cadeirante, quando afinal, ele tinha ajudado bastante Renaud nesse tempo. Porém foi pego de surpresa pelo pedido do moreno, que fez seu coração acelerar um pouquinho. Tinham vivido muito tempo com a restrição de não dormir, e talvez da última vez tinham feito tudo de um modo muito errado. Mas agora tinham conversado apropriadamente, e honestamente, dividir a cama com Renaud lhe parecia muito bom.

- Lo quiero. Eu volto mais tarde pra dormir com você. – Didier respondeu, respirando fundo e deixando um beijo na testa de Renaud, antes de deixar outro breve nos lábios e se aninhar perto dele.

Infelizmente não pode ficar tanto mais tempo lá, pois eventualmente os dois tinham vários afazeres em St. Clavier. Almoçou e deu conta dos pollitos, além de questionar Isaac se ele tinha pego anotações de aula pra Renaud ou se deveria ajudar com essa tarefa. Só claramente não entrou em contato com Sasha, porque podia se privar de estresses. Mandou uma mensagem apenas para confirmar que Renaud já tinha jantado, se precisava de ajuda e se podia ir até o quarto dele antes de aparecer quando os dormitórios começaram a encher de alunos retornando para seus devidos quartos.

- Como estás? – perguntou enquanto entrava no quarto do moreno após umas batidas na porta, vestindo uma blusa folgada e um short confortável estilo esportivo, porque por mais que estivesse acostumado a andar pelos dormitórios muito calmamente usando shortdolls de seda, sentia que se fizesse isso indo até o quarto de Renaud, podia também pegar pepinos para pôr nos olhos, um filme e pipoca, para uma festa de pijama, e não um momento agradável com o namorado. Simplesmente nem sabia como agir naquelas situações, e era engraçado como ficava consciente de tudo que estava fazendo.

Renaud

Renaud estava precisando do conforto da companhia de Didier e da conveniência de estarem com os rostos tão próximos a ponto de receber uma mordida amistosa no nariz. Ficou feliz do loiro aceitar dormir consigo, não sabia se daria certo dessa vez, mas queria muito que desse certo, queria muito que seu corpo lhe obedecesse pelo menos naquela noite. Aproveitou do aconchego do corpo do outro junto ao seu por mais uns minutos até se despedir do mesmo com um beijinho e deixá-lo seguir para sua rotina.

Ainda ficou deitado na cama um tempo com preguiça de levantar e aproveitando o calor latente que Didier tinha deixado ali. Mas foi lembrado por Isaac que precisava almoçar, e foi praticamente arrastado para o refeitório onde teve o prazer de ser o protagonista de mais uma cena ridiculamente engraçada com o secretário impaciente porque não tinha coordenação motora para comer sozinho, então o seu bom amigo decidi que seria mais prático lhe dar comida na boca que vê-lo bagunçar todo o prato. Seria fofoca da academia por uns bons dias, até tinha curiosidade de saber qual o nível da cara azeda de Ethan para essas fofocas.

Na volta ao dormitório passou no quarto de Sasha, ele tinha separado assuntos de aula que tinha perdido, então não precisava se preocupar com aquilo pelo menos. Conversaram bastante, e o principal assunto era como Jonah parecia que ia botar um ovo de preocupação na noite anterior. Ficou sabendo de algumas coisas sobre o desdobramento do acidente da cozinha e que o professor Funske provavelmente seria afastado de St. Clavier. Renaud jantou na companhia de seus Frater e se despediu apenas porque precisava se medicar pra descansar, afinal aquela hora os analgésicos já não estavam mais fazendo efeito, Sasha se ofereceu pra fazer os curativos mas o moreno mais novo disse que teria um enfermeiro naquela noite de companhia que fez o mais velho bufar, diferente de Didier, seu irmão não era tão bom - ou não fazia questão - de esconder que não gostava de Didier.

Renaud mandou mensagem para o loiro avisando que estava de volta ao quarto e que precisaria de ajuda com os curativos das mãos. Tomar banho era complicado sem poder pegar as coisas e se enxugar apropriadamente, mas fez o melhor que podia sem magoar muito as queimaduras. Vestiu uma calça folgada, e usava uma blusa regata, estava com a toalha no pescoço porque não tinha conseguido secar bem os cabelos curtos quando Didier entrou no quarto. Renaud se levantou se aproximando do outro um sorriso simples desenhado nos lábios finos: -- gostei do pijama…! -- destacou as roupas não usuais, e passou os braços sobre os ombros de Didier porque era um jeito de garantir que não magoaria as mãos e reduziu a distância dos rostos para beijar o loiro, unindo os lábios, em uma carícias mais demorada do que os beijos que já tinham trocado depois de terem começado a namorar.

Se afastou depois de alguns instantes encostando testa com testa: -- não queria te beijar com gosto de remédio… então vim garantir que você estaria bem beijado pela noite toda…!-- o moreno falou num tom de brincadeira, muito mais consciente de que tinha uma intimidade real com o loiro, e talvez por isso não tivesse feito qualquer esforço de se afastar para ir tomar suas medicações.

Didier

Apesar de ser uma figura muito ousada, Didier se pegava pensando no quão intimidador era finalmente considerar Renaud como um namorado, ainda mais quando o viu com os cabelos pingando precisando de uma toalha com urgência. A mão foi até um cacho que caía por seu peito, e enrolou ele no dedo de modo inconsciente enquanto olhava o moreno, lembrando quase que imediatamente que se ele não tinha enxugado os cabelos era por conta das mãos machucadas, e deveria parar de ficar admirando o outro como uma virgem dormindo a primeira noite na casa do namorado.

Afastou os pensamentos com uma sacudida discreta da cabeça, retornando a realidade e menos aos devaneios de sua ansiedade por aquele momento um pouco diferente para os dois.

- Podrías ter esperado mi ayuda. – resmungou, ouvindo logo em seguida do sorriso, o elogio aos pijamas que tinha escolhido não tinha ideia do porquê, mas imaginava que seriam menos chamativos dos que usava usualmente. O fato de Renaud ter pontuado especificamente o pijama lhe fez as orelhas queimarem, mas deu sorte dele não ver tanto assim a expressão que tomou seu rosto, pois não demorou para que ele viesse lhe roubar um beijo mais longo.

Demorou ainda alguns instantes para reagir aquela aproximação, mas deixou-se levar pela carícia passando as mãos pelas costas de Renaud, estranhamente satisfeito que aquele beijo não era só uma carícia singela, e um pouco triste que não tinha durado mais.

- Chama isso de garantia...? Hah. Quiero doble o nada. – brincou de volta, um pouco mais confortável com a proximidade, aproveitando que Renaud estava ali ainda perto demais para beijá-lo novamente, deixando a carícia se prolongar enquanto levava as mãos ao rosto do moreno, descendo até a toalha para puxá-la aos cabelos escuros, mordendo de leve o lábio dele enquanto começava a enxugar os fios muito molhados. – Pronto. Ahora vá tomar su remédio. – murmurou, um pouco mais confortável do que quando tinha entrado. – Mas só para avisar, eu realmente no me importa se quiser me beijar mas tarde también.

Renaud

Trocar carícias com Didier tinha um gosto e uma sensação completamente diferente, antes sentia a mente ficar branca e ser tomada apenas pela tensão sexual, e agora, sentia que a cada beijo, abraço, ou carícia, dava um passo a mais para conhecer um Didier que sabia que estava lá, mas que nunca tivera acesso de verdade. E esperava que do seu lado, estivesse deixando espaço para ser conhecido, embora não tivesse muita noção o quanto disso o loiro iria gostar de conhecer. Mas era certo, que gostava de sentir a textura da boca dele na sua, o fôlego se perdendo, o paladar ser tomado pelo sabor da boca do outro; e o moreno mais novo cedeu fácil as carícias, retribuindo o beijo até ter o lábio inferior mordido, respondendo com um risinho diante da gracinha:

-- Não se preocupe, eu arco com os juros e as taxas, não vai faltar carinho pra você. -- deixou que seu namorado mexesse em seus fios molhados, era certamente mais fácil pro outro fazer aquilo, que para o Blanco estando com as palmas das mãos danificadas. Seguiu para o banheiro tomar seu coquetel de remédios, que incluem os antiinflamatórios, analgésicos, e ansiolíticos pra dormir, tudo aquilo mais um remédio pra proteger o estômago do impacto dos remédios mais pesados que tomaria enquanto estava com as mãos em recuperação. Devia ser uma cena no mínimo curiosa ver o Blanco puxar vários remédios diferentes da farmácia na parede do banheiro, medir e tomar, mas era sua realidade para aqueles dias, e embora isso fosse algo que lhe irritava, era um aborrecimento menor, que lidar com todas as sensações adversas que vinham da ausência dos fármacos. Escovou os dentes como dava, pra tirar o gosto amargo da boca, antes de voltar para o quarto em si:

-- vou precisar de ajuda com a pomada e os curativos das mãos, nenhuma novidade pra quem já enfaixou uma gangue inteira de moleques, conto com sua experiência em bandagens. -- o moreno falou em tom notório de brincadeira, erguendo as mãos queimadas e balançando os dedos das mãos, incluso seu mindinho que sempre se mexia com atraso em relação aos demais; Renaud parecia muito relaxado de estar ali na companhia do outro, e para além disso, aparentava estar confortável com a ideia de deixar Didier cuidar de si.

Sentou-se na cama e esperou que o loiro trouxesse a caixa de primeiro socorros que já deixava em cima da mesa de estudo, para fazer o processo mais fácil, e enquanto o outro cuidava de suas mãos, o moreno mais novo decidiu puxar conversa: -- você viu os primeiranistas hoje? Como eles estão? -- parecia a coisa mais absurda possível para o moreno perguntar, mas era verdade que lidar com os pirralhos do primeiro ano até certo ponto também fazia parte de sua rotina antes de brigarem, e era algo que eles meio que faziam juntos, então porque não perguntar?

Didier

Didier se pegou sorrindo satisfeito com a promessa de Renaud de fazer o balanço patrimonial do que lhe devia de carinho, e na verdade, devia a ele também. Não estava muito acostumado aqueles tipos de interação, especialmente porque desde que mal se entendia por pessoa, sempre que pensava em se envolver com alguém, pensava em sexo. Mas se sentia estranhamente preenchido pela proximidade com Renaud, e por descobrir que ele era não só um cafajeste charmoso, como um namorado estranhamente romântico.

Não sabia dizer, porém, se estranhava a visão de Renaud tomando tantos remédios. Lembrava bem das surras que tomaram, e sabia que muitas noites sobreviveram na base de analgésicos tomados de qualquer jeito. Mas ver tantos remédios de uma vez, talvez tivesse atiçado um pouco da sua curiosidade. Seria rude perguntar o que eram todos eles?

Acomodou-se enquanto esperava ele terminar de escovar os dentes, vendo ele chegar com a ideia de que Didier lhe faria os curativos daquela vez, o que lhe deu um leve alívio de pensar que ele confiava em si para cuidar dele, pelo menos um pouco.

- Pode contar com minha experiência, só não conte com a minha delicadeza. Pero yo haré todo lo possible. – Didier respondeu, se perguntando onde Renaud teria escondido as bandagens, ou se ainda deixava elas em um lugar que lembrava. Só então viu a caixa de primeiros socorros em cima da mesa, e trouxe para a cama, acomodando-se novamente para começar a fazer as bandagens, ainda pensando como perguntar sobre os remédios.

Mas antes que pudesse questionar qualquer coisa, ouviu a pergunta sobre os pollitos enquanto desenfaixava as mãos dele, o que lhe levou prontamente a parar, levar uma mão até a testa de Renaud e uma até a sua própria.

- Hm, no parece fiebre. – falou mais consigo mesmo, então esquecendo por um instante os remédios. Não era estranho que conversassem sobre os primeiranistas, mas era muito estranho Renaud perguntar ativamente sobre eles, e não só esperar que contasse suas aventuras casuais com as crianças, para as quais ele geralmente responderia resmungando. Acabou rindo. – Si, los vi. Estão todos bem, e estranhamente preocupados com você. Sabia que foi o Adam que veio me contar sobre lo que había pasado? Bom, como não pensar que foi o Adam, para falar a verdade? Me alegro que eles ainda pensam em mim... eu fui horrível com todos quando tivemos nossa pelea. E por mais que você tenha metido muito medo neles, acho que todos sabem que a mama sin ti é um loiro muito ranzinza. – Didier brincou, embora tudo isso fosse bem verdade. Mas também sabia que os primeiranistas também já tinham corrido atrás de Renaud por ele, com medo ou não. Eram boas crianças. – Está pronto para assumir ser o papá deles? – Didier falou com uma voz aterrorizante, rindo baixo em seguida.

Renaud

Sabia que o loiro não era exatamente delicado, embora a aparência enganasse qualquer desavisado, bem sabia que existia uma pessoa cheia de características marcantes e “delicadeza” não era uma delas, mas isso não incomodava o moreno mais novo nem um pouco. Enquanto Didier se ocupava com os curativos para as mãos queimadas de Renaud, a pergunta sobre os primeiranistas trouxe uma reação de surpresa ao rosto do loiro mais velho, ao ponto de que ele seguiu com a mão livre para tirar a temperatura do moreno mais novo, não o culpava por tirar piada daquela pergunta. Logo mais veio a narrativa sobre como os mais novos estavam e mesmo que em dias usuais não quisesse saber, não era como se fosse completamente indiferente, agora começava a perceber melhor esses nuances em torno de suas relações com os outros, mesmo que não fosse exatamente próximo dos alunos menores.

Ouvir naquela história que os primeiranistas nutriam algum grau de "preocupação" por sua pessoa, lhe soava estranho, afinal Renaud não tinha dado qualquer motivo para que eles sentissem admiração por sua pessoa. Diferente do que tinha acontecido com o próprio moreno mais novo e Sasha no passado de brigas de rua, onde um Renaud jovem de doze anos achava na figura de seu Frater alguém pra admirar, seguir e se espelhar. No entanto, antes que Renaud pudesse chegar a uma conclusão dos próprios pensamentos Didier lhe lançou aquela pergunta se estava pronto pra assumir a “paternidade” dos mais novos:

-- Quê? -- o loiro tinha conseguido tirar uma expressão de leve surpresa do rosto neutro do moreno mais novo: -- Ah não, não mesmo! -- Renaud negou enquanto movia de leve os dedos, avaliando os curativos que o loiro tinha recém feito em suas mãos, assistindo enquanto ele se ocupava em guardar o restante dos utensílios de volta a caixa de primeiros socorros para devolvê-la à mesa da escrivaninha:

-- Eu não contribuí com nada na formação deles nesse tempo todo aqui em St. Clavier, aí eu não vou assumir ser Pai, pra ser um bosta de um "pai ausente", de jeito nenhum! -- tão logo estavam livres da obrigação dos curativos, podiam dar atenção um ao outro e Renaud podia ficar próximo de Didier sem qualquer ressalva; e foi o que ele fez se aproximando mais do corpo do namorado abraçando-o pela cintura, tomando cuidado para não magoar as mãos, o moreno curvou o rosto e farejou toda a extensão do pescoço até o rosto do outro, e depositou um beijo breve sobre os lábios de Didier em um selinho carinhoso, se afastando apenas o suficiente para encará-lo de perto: -- Se fosse pra ser pai, eu teria de ser um que presta pelo menos.

Didier

Renaud claramente tinha estranhado que os primeiranistas se importavam minimamente com ele. Mas se fosse colocar as coisas bem claras para ele, poderia justificar facilmente. Afinal, Renaud era seu namorado, mesmo que os dois não se vissem assim, e eles se importavam de verdade com a figura da mama e as pessoas que ele gostava, por mais absurdo que fosse. Outra coisa era que, por mais que eles tivessem medo de Renaud pelas muitas coisas que ele tinha aprontado com os meninos, ele era mais um bicho papão do que uma figura cruel de verdade. Como o monstro ranzinza para quem eles poderiam pedir ajuda se Didier insistisse muito. E ver o monstro do armário perdendo forças e sendo muito humano de repente, claramente isso ia despertar algum sentimento nos meninos. Nem que fosse só a sensação de “ele também é uma pessoa que merece nossa atenção”. De uma coisa podia assentir quanto a sua criação, todos os pollitos eram muito bem criados.

Didier riu da reação de negação de Renaud, deixando-o sacudir as mãos cobertas como quisesse enquanto ia guardar o kit de primeiros socorros de volta. Porém, ainda de costas pro moreno, quase sentiu o pescoço fazer 180º de curva para trás quando ele falou que não queria ser um “pai ausente”. Didier franziu a testa, encarando Renaud com os olhos claros quase que não acreditando no que ele tinha dito, andando de volta cautelosamente até a cama e Renaud, sentindo os apertos carinhosos sem as mãos, e devolvendo o beijo carinhoso no lábio, até ele dizer na sua cara que teria que ser um pai que presta.

Didier nem fez questão de esconder quando juntou os lábios e fez um sonoro “pffff” antes de cair na gargalhada na cara de Renaud, notando que ele nem tinha percebido as próprias palavras.

- Hahahahaha! Renaud...! Os pollitos vão ficar muito aliviados de saber disso...! Hahaha! Afinal na melhor das hipóteses, eles deben piensar que você daria coscorróns em todos para tirá-los de perto de mim e monopolizar meu tempo! – Didier falou com um ar muito divertido, quase chorando de tanto rir. – Al contrario, posso contar não só que você não quer ser papá deles... mas que não quer ser papá deles porque se importa o suficiente com eles para não se dar o título de padre que esse tempo todo foi ausente! – Didier tentou colocar para o moreno de novo o que ele tinha dito, para deixar mais claro o que ele tinha acabado de dizer. – O Emil vai ficar comovido com seus sentimentos...!

Didier achou que poderia andar zoar Renaud pela noite inteira com isso, mas sabia pela reação avessa dele a ser pai dos meninos que seria melhor controlar um pouco o quanto poderia fazer piada com ele. Afagou os cabelos escuros, enchendo-o de beijos pelo rosto e apertando-o em um abraço porque ele simplesmente tinha sido surpreendentemente adorável. E então, ainda abraçando o moreno, abriu um sorriso largo.

- Se lhe alivia, pienso que usted hice alguns trabalhos de padre sem perceber. Você certamente disciplinou bem los niños... e poucas vezes foi mais maldoso que o necessário, por isso eles não te odeiam. – Didier então parou, aninhado a Renaud e aninhando o moreno a si. – Bom, talvez o Noa tenha mesmo muy miedo de você... – adicionou, convidando Renaud a se aninhar na cama. – Pero... se não precisa ser papá deles, tão seriamente. Se quer saber... acho que do jeito que você pensa seriamente sobre eles... se der a chance deles serem menos irritantes, podem ser amigos. – então Didier riu, dando mais um tapinha discreto no ombro de Renaud. – Pensar que eu viveria para dizer que você e os pollitos poderiam ser amigos! Há!


RE: [Drive] Atrito [Renaud; Didier] - Lil - 09-01-2021

Renaud

Renaud estava muito relaxado naquela noite, e estar com seu namorado entre os braços os dois prestes a deitar e descansar um com o outro, parecia até um sonho se concretizando, ou talvez tivesse sonhos muito pequenos, naquele ponto podia dizer até que era humilde. E depois dos seus comentários sobre os alunos mais novos, pensava que o assunto acabaria naquele ponto, não esperava que Didier começasse a gargalhar. Muito menos que ele usaria as próprias palavras de Renaud contra ele, e principalmente destacando uma narrativa que não tinha dito, ou será que tinha?

A reação imediata de Renaud foi fazer uma careta exagerada aquela explicação, seguido de um: - Como é que é? - logo em seguida recebeu diversos beijos e carícias, que não fez qualquer sinal de resistência, apreciava cada gesto, mas a expressão contrariada não fugiu de seu rosto, que normalmente não demonstrava muita coisa, mas naquele momento foi muito fácil de ler: - Eu não disse isso! Disse? - A surpresa do próprio Renaud diante da cena era tamanha, que mesmo que estivesse claro que Didier estava lhe zoando um pouco, o fato das coisas que ele tinha dito fazerem sentido, era que deixava o moreno mais novo contrariado de não ter percebido aquilo na própria fala. Retribuiu o abraço e o moreno mais novo franziu as sobrancelhas num nível próximo do que o secretário amigo dos dois costumava fazer.

Seguiu conforme o loiro mais velho lhe guiava para se deitar na cama, embora ainda estivesse naquele modo contemplativo das próprias palavras, como se a ficha não tivesse caído. Deitou com as costas contra o colchão e deixou que o namorado se acomodasse em cima de si, era até mais fácil mexer os braços e mantê-lo ali bem abraçado junto do seu corpo. E até passaria mais tempo com aquela expressão no rosto se o próprio Didier não tivesse sugerido que Renaud e os primeiranistas pudessem ser amigos. A surpresa foi tão clara, que Renaud encarou o loiro naquela pouca distância: - Você tá de brincadeira comigo? - O moreno começou falando de um jeito que era até cômico porque ele não parecia com raiva, apenas muito contrariado com a proposta: - Não é como se eu me importasse isso tudo com eles não- …! - Renaud parou no meio do caminho, e ficou pensativo novamente, porque de fato, não era como se odiasse os mais novos, apenas os achava “molengas”:

- Se considerar que eu tenho vontade sim de dar uns bons cascudos em cada um deles, talvez não seja “tanta preocupação” não, porém, se você me dissesse que alguém mexeu, machucou ou fez algum tipo de mal sério com qualquer um deles, eu sei que ficaria muito irritado, então talvez, só talvez eu me importe um pouco com eles. - Chegar naquela conclusão tinha gastado seu acervo de expressões de surpresa. Renaud firmou o abraço em torno do corpo de Didier, apenas evitando de encostar as palmas das mãos, e então encostou as pontas dos narizes: - Você fica brincando com a minha cara por causa disso, mas eu nunca disse que era bom lidando com pré-adolescentes, veja só, eles tem a idade do Robespierre meu irmão caçula, e você pode imaginar como eu sou um ótimo irmão mais velho. - Rodou os olhos sem se levar a sério, beijando Didier uma vez, depois uma segunda e terceira vez em selinhos amistosos.

- Eu até aturo crianças bem pequenas, eu tenho um acervo enorme de canções de ninar e contos de fada pra me ajudar, mas chegou na adolescência pra mim a pessoa deixa de existir e só volta depois de adulto. Você tem paciência demais. - Admitiu fechando os olhos brevemente fazendo uma falsa expressão de cansaço e derrota, pra logo em seguida dar um risinho da própria atuação de má qualidade.

Didier

Já tinha visto Renaud fazer muitas caras. Porém obviamente não tinha visto ele fazer a expressão do Isaac nenhuma vez na vida, ainda que já tivesse visto ele imitar a voz do secretário do conselho algumas vezes. Foi no mínimo engraçado como Renaud não tinha ideia de como as palavras dele poderiam ser interpretadas. Supunha que aquilo era um deslize; sua boca foi mais rápida que seu cérebro, e aí ficou claro para Didier que ele até gostava sim dos adolescentes dos primeiros anos. Nem que fosse algo de mera convivência.

Deitado por cima de Renaud, ficava ainda mais fácil observar o abuso e a reclamação. Ele não parecia muito bravo, mas certamente não engolia a ideia de ser amigo dos pollitos. Sem perceber, abriu um sorriso largo quando ele disse que ficaria puto se alguém fizesse algum mal sério contra eles.

- Renaud, não é porque você quer dar coscorróns neles que você gosta menos. Eu sou acolhedor, pero los regaño quando eles merecem ser regañados. Essa también é uma forma de cuidar, ainda mais porque eles são muito estúpidos quando querem. – Didier riu, cruzando os braços por cima do peito de Renaud e encostando o queixo sobre os mesmos, confortável em cima do moreno, mas tentando não esmaga-lo com seu peso.

Se ajeitou para encostar melhor o nariz no dele e receber mais beijinhos em seguida, depois de comentar sobre o relacionamento com o irmão mais novo. Realmente nunca via Renaud comentar sobre Robespierre, e isso lhe fez erguer as sobrancelhas para pensar.

- Bom, se seu hermano más chico for tão gomelo quanto parece nas fotos do jornal de Cerise, não me surpreende que você não tenha paciência para ele. E é difícil ser o hermano mayor de um hermano más chico chato. Eu acho, né, sou filho único. Mas vai que você seria um bom irmão se quisesse ser... – Didier comentou, e devolveu alguns selinhos em Renaud, disfarçando uma expressão desagradada porque lembrou de Sasha, que com Renaud, tinha esse relacionamento de irmandade desagradável. Só acabou se surpreendendo quando ele falou que sabia lidar com criancinhas, o que lhe fez arquear uma sobrancelha. E achou no mínimo engraçado que ele pensava que adolescentes não eram pessoas. – Está aí algo que eu queria ver. Tu y un bebe. Mas seria só você, porque é fácil conversar com os adolescentes. Crianças pequenas não fazem nada bien, nem conversam. – riu então da atuação ruim de Renaud. – Eu tenho tanta paciência quanto você é bom ator. As vezes dá muito certo, pero na maioria das vezes é ruim assim.

Beijou longamente Renaud, os dedos colocando os cabelos escuros para trás e fazendo um carinho suave.

- Ao menos ahora lo se que se abandonarem um bebe com a gente, posso lhe deixar criar até os 13 e depois só preciso ter a responsabilidade até os 18. – brincou, colocando uma cara convencida de que sua ideia era sensacional.

Renaud

Estar acompanhado de Didier em seu quarto, e não estarem envolvidos em uma cena de sexo era bem uma novidade para si, mas estava tão imerso nas novas sensações de conforto e intimidade que dividia com o namorado, que sequer pensava na parte sexual da coisa. Em verdade, se percebia muito mais carente de atenção, contato e carinho, do que antes, e tinha sim que admitir que desejava ter aquele tipo de proximidade a bem mais tempo com o outro. Esperava não se transformar num namorado grudento, mas pelo menos naquela noite estava se dando uma folga, e aproveitando que podia manter os braços bem juntos a corpo de Didier. E embora não quisesse dar tanto crédito a narrativa de Didier sobre “gostar dos pollitos” também não achava argumentos para negar, então por cansaço de pensar no assunto, resolveu só aceitar que gostava um pouco dos menores sim.

Em contrapartida quando começaram a falar de seu irmão mais novo, não foi surpresa que a única imagem mental que o loiro tivesse do mesmo fosse as fotos do jornal de Cerise. E não podia negar aquilo, afinal Robespierre não tinha só a cara de enjoado, ele ERA a personificação do garoto rico enjoado, era um clichê pronto, que o próprio garoto de catorze anos gostava de sustenta: - Tudo costuma ser pior ao vivo. - Renaud acrescentou brevemente apenas reforçando que seu irmão mais novo era chato, mas que isso não lhe isentava de ser um irmão mais velho ausente. Porém estava num internato e não tinha como estar em Paris e em Cerise ao mesmo tempo apenas para satisfazer os desejos de seu irmão caçula;

E devia passar uma imagem muito ruim mesmo com crianças porque o loiro sequer podia imaginar que por ser o filho mais velho do filho mais velho dos Blanco, isso queria dizer que todos os seus primos eram mais novos. Bem mais novos. Concordou que estava se saindo um péssimo ator ali, assim como Didier também não era necessariamente o sinônimo de paciência, mas deixou os pensamentos de lado quando foi beijado, retribuindo o gesto e deixando-se levar com muita facilidade. Deslizou a ponta dos dedos contra as costas de Didier de um jeito suave em uma carícia, tomando cuidado para não magoar as mãos no processo.

Após se afastar da carícia, o jovem Blanco riu abertamente, muito mais descontraído e relaxado, diante do projeto de plano do namorado da criação dividida de um suposto bebê perdido deixado sob os cuidados dos dois:

- Se meu celular não estivesse longe, eu poderia provar minha experiência com crianças pequenas com fotos, mas vou lhe dar uma imagem mental pra lhe ajudar a imaginar as cenas da minha infância. - o moreno mais novo riu sem se levar muito a sério, levando uma das mãos aos fios claros de Didier e colocando-nos atrás da orelha do mesmo, expondo mais do rosto do namorado: - Minha avó teve quatro filhos, Deodatos meu pai, Denise, Dorian e Dia, essa última sendo a que falou com você no Hospital, ela é só uns três anos mais velha que eu, e só a Dia não tem filhos ainda. - A medida que ia explicando ia dando toquinhos com as pontas dos dedos nas costas do loiro, com a outra mão que repousava lá, para ajudar na contagem: - Eu tinha cinco anos quando o Robespierre nasceu e no mesmo ano a Denise, teve uma filha, dois anos depois vieram mais três primos pelo lado da família do esposo dela, dois anos depois, Denise teve outro filho, e vieram mais dois primos pela família da esposa do Dorian, que teve um filho no ano passado. Já perdeu as contas? Então eu resumo. - Renaud riu e continuou contando com a ponta dos dedos sobre as costas do Didier, porque aquilo também lhe parecia divertido em cutucar o namorado em pequenas cócegas: - Quando eu tinha nove anos, eu tomava conta do meu irmão com quatro anos, e mais seis primos menores, respectivamente com quatro anos, dois anos, e recém nascidos, só o Dorian me deu folga. Denise sempre dizia, “Renaud é tão comportado pra idade dele”, então eu era a miniatura de adulto pra qual eles empurravam as crianças pra tomar conta.

Nem se incomodava com aquilo, e em verdade era bem capaz que apenas fomentasse mais ranço de sua família no namorado, mas nem negava porque o próprio Renaud não aguentava as interações. Nem tinha nada contra cuidar dos primos pequenos, mas não era como se fosse obrigação dele fazer isso:

- Não que eu tivesse de estar sempre com todos, no geral eu só tinha de aturar o Robespierre me usando de escudo quando a Francine da mesma idade o incomodava, ele sempre foi um chorão, talvez daí que venha meu desgosto por pessoas molengas. - O jovem Blanco chegou aquela epifania sozinho no meio do seu longo discurso sobre sua família, e até que fazia sentido, não querer que os primeiranistas fossem um monte de versões coloridas do seu irmão caçula: - enfim, quando eu já estava com meus doze anos e tinha várias aulas particulares que ocupavam praticamente todo o meu dia, eu passei a ter cada vez menos contato com o Robespierre, até que minha mãe se mudou pra Paris na mesma época que eu entrei aqui em St. Clavier já com catorze, daí eu só o vejo muito raramente.

Didier

Inevitavelmente riu quando Renaud colocou que o irmão poderia ser bem pior ao vivo. Se ele já passava a péssima imagem de menino engomadinho pelas fotos, aceitava o que o namorado dizia que ele deveria ser terrivelmente mauricinho de verdade.

Estava apreciando aquela proximidade dos dois no momento. Fechou os olhos para apreciar a sensação dos dedos de Renaud tirando seus cabelos do rosto, estranhando um pouco toda a interação sem malícia dos dois, e as conversas que eram apenas conversas bobas sobre bebês abandonados na porta de St. Clavier, ou a família de Renaud, mas não era ruim. Só era algo a qual Didier certamente não estava habituado. Mas a cumplicidade do momento não era ruim, de modo algum.

Renaud começou a explicar sobre a família Blanco, o que para um garoto que tinha crescido basicamente com a mãe e uma série de padrastos e namorados da mãe como parentes, era um tanto fascinante, porque eles eram muitos. Só não segurou a careta quando ele mencionou a tal Dia, que tinha lhe impedido de ir ao hospital como uma atitude brusca. Era irritante pesar ainda mais que tinha atendido ao pedido de ficar em St. Clavier esperando. Mas não demorou na leve irritação pelo evento do hospital, quando Renaud começou a calcular seus primos, e dizer a ordem em que eles nasceram, como se fosse um problema de lógica matemática que Didier precisasse resolver. Não demorou, a expressão do loiro franziu em muitos cálculos que ele não conseguia acompanhar, e obviamente ainda tentando fazê-los até Renaud notar que tinha perdido as contas.

- Eu não lembraria de todos ellos nem que fosse mi familia! São muitas pessoas. – Didier falou com um ar irritadiço, como se fosse óbvio que não teria memória para lembrar tanta gente. Ele sentiu as carícias a medida que Renaud contava aquela narrativa dos Blanco, e devolveu em toques carinhosos sobre o peito e pescoço, e também nos cabelos escuros, deslizando as mãos suavemente em um cafuné. – Pero mesmo você sendo bem comportado, eles não deveriam deixar os treze mil hijos deles para uma criança cuidar. Vocês são ricos, deveriam ter una institutriz ou niñera para esses encontros de família. Eu sempre achei que gente com dinheiro tinha até mais niñeras do que madres y padres presentes. – Didier fez um leve bico. Também tinha crescido com dinheiro, mas diferentemente de Renaud, era a família mal falada onde estivesse, sua mãe era “a outra” e ela tinha um senso de proximidade muito maior que muitas mães, apesar de tudo.

Sorriu com o canto da boca quando Renaud pareceu compreender de onde vinha sua irritação com gente molenga, nesse caso, com o irmão mais novo que apanhava de alguma garotinha forte de quem ele cuidava.

- Você queria vê-lo mas veces ou ele continua sendo irritante e molenga demais pra isso? – Didier perguntou, relaxando completamente naquela situação. – No lo sé como é ter um irmão mais novo distante, já que sou filho único... deve ser um laço diferente. - então lembrou que Peyrac também era um “irmão” para Renaud e fez uma careta breve.

Renaud

Aquele ponto da noite sentia o corpo todo bem relaxado na posição em que estava com o namorado bem deitado sobre seu corpo, as mãos sequer incomodavam além da sensação de calor latente de saber que elas estavam queimadas. Imaginava que devia ser a mistura de medicação com um momento de paz e conversa casual em muito tempo. Concordou com um aceno de cabeça quando Didier destacou que famílias ricas deveriam ter várias governantas ou babás para cuidar de tantas crianças, e elas até estavam lá só não eram levadas a sério nem pelo próprio Renaud e muito menos por qualquer um de seus primos.

Apreciou o carinho nas madeixas curtas, se aproximando para depositar beijos no rosto do namorado, tragando o aroma da pele e envolvendo o loiro em um abraço carinhoso por alguns longos segundos. Em verdade não tinha parado pra pensar se sentia falta do irmão, sabia que em algum momento do passado o mais novo dependia dele como um “escudo”, já que era o mais velho, era mais respeitado pelos outros menores, mas sabia que hoje em dia não havia qualquer resquício desse tipo de relação. Sequer sabia o que Robespierre gostava ou não gostava, o que queria ou sonhava, então como podia dizer que sentia falta de uma pessoa que era praticamente um desconhecido?

Se afastou um pouco do abraço quando percebeu que tinha ficado tempo demais calado, observando o loiro naquela curta distância, nem sabia direito que expressão estava fazendo, mas devia ser algo entre pensativo e desconcertado:

-- pra falar a verdade nunca pensei se sinto falto do Robespierre, eu já pensei muito sobre “ser um Blanco” mas se eu sinto falta de convivência pessoal com meus familiares de sangue, não é algo que eu cheguei a refletir... -- admitiu com uma voz confidente: -- meu conceito de família é dividido de duas formas: a família que você “nasce nela”, por isso você não tem decisão sobre, afinal, eu não escolhi ser um Blanco, mas eu carrego o nome e as muitas coisas que vem junto com ele. - comentou sobre aquilo, com um aspecto até conformado na fala: -- e a segunda forma, a família que você “escolhe pra passar a vida ao seu lado”, talvez você não vá gostar e ouvir, mas foi Sasha quem me ensinou, afinal eu posso escolher que pessoas quero que me acompanhem e que me conheçam de forma íntima.

Fez uma breve pausa, porque sabia que falar de Sasha iria deixar o loiro irritado, e talvez por isso tivesse desenhado um sorrisinho nos lábios, tornando a abraçar Didier, demoradamente, acariciando toda a extensão das costas dele:

-- Daí o que eu consigo pensar agora é que eu não posso dizer que sinto falta do meu irmão de sangue, porque nós somos muito “estranhos” um pro outro, eu sei que ele me tem como um rival, por causa das comparações vindas da família, mas sendo bem sincero, eu não sei o que ele quer alcançar, o que gosta, não saberia dizer nem a comida preferida, nada disso… -- pausou a fala deixando implícito que conseguiria falar aquelas coisas sobre Sasha, já que era o outro conceito de irmão que tinha: -- desculpe se entrou num assunto que lhe chateia. Sei que você não gosta quando eu falo do Frater.

Renaud depositou um beijo breve sobre os lábios de Didier como um pedido de desculpas, embora bem soubesse que invariavelmente o loiro teria de se acostumar com a presença frequente de Sasha na vida dos dois. Afinal, dentro do que tinha acabado de falar, era claro pro namorado que a presença do “irmão” tinha sido uma escolha consciente de trazê-lo como um familiar pra vida do jovem Blanco.

Didier

Os beijos carinhosos no rosto eram todos bem vindos. Até fechou os olhos para apreciar o carinho e sentir o envolvimento do abraço. Mas sua pergunta colocou alguma pulga atrás da orelha de Renaud, pois ele pareceu colocar uma expressão pensativa, e apesar do momento confortável em que estavam, ele demorou a lhe responder, como se estivesse averiguando se sentia saudades ou não do irmão. E na conclusão ou não de seus pensamentos, viu seu corpo ser solto por um instante, talvez porque estava desconcentrando Renaud. Acabou arqueando uma sobrancelha, esperando-o concluir o que pensava.

Para Didier, que só tinha a mãe como família de verdade e não tinha esse vínculo de família rica, entender as pressões de Renaud era um pouco complicado, mas estava fazendo seu melhor para ouvir. Até entendia no que ele dizia que nunca tinha pensado se sentia falta da família de sangue, porque eram pessoas das quais ele não podia se livrar, enquanto a família “adotiva” dele – e obviamente o nome de Sasha lhe pôs de testa franzida – eram pessoas em quem ele tinha aprendido a confiar. Mas uma coisa era clara para Didier naquela conversa: os amigos que Renaud tinha escolhido como “família” tinham um laço forte, talvez forte como o dele e de sua mãe, e assim como o relacionamento conturbado dos dois, eram pessoas de quem ele ficaria ao lado mesmo que em algum momento eles o machucassem. Afinal, a despeito de tudo, ali estavam os dois, muito bem, iniciando um relacionamento depois de tanto tempo em um relacionamento atribulado diferente.

– Lo só diria que tem também a família que não é sua e você não quer... como o mi padrasto e los novios de mamá. - adicionou, lembrando dos sujeitos péssimos da sua juventude.

Não deixou de notar aquele sorrisinho no rosto de Renaud, e até estreitou os olhos e cerrou os lábios de modo delicado, sentindo o abraço em seguida, que quase lhe lembrava o Renaud charmoso tentando lhe comprar para não ficar com raiva. O fato dele falar que não sabia nada sobre o irmão de verdade, mas provavelmente sabia tudo sobre Sasha não lhe ajudou muito com o mau humor que lhe tomou o rosto, e podia até sentir o próprio bico ficando maior. Nem apreciou também Renaud lhe pedir desculpas por simplesmente ter falado de Sasha. Isso lhe fazia se sentir mais irritado, porque era um livro aberto, e isso só lhe lembrava mais Sasha, inclusive.

- Não gosto. – respondeu depois do beijo, abraçando o corpo de Renaud um pouco mais, soltando um suspiro frustrado. – Pero... não é culpa sua. Não se desculpe. – Didier franziu ainda mais a testa e se agarrou ainda mais ao corpo do moreno. – Eu não sei como é ser rival de su hermano... já que só tenho mamá como família de verdade... mas não acho que está errado em querer um irmão... como um irmão deveria ser. Incluso si es Peyrac. – o loiro até colocou a língua para fora em uma careta, e então continuou como os lábios tortos.

Se parasse para pensar, seu relacionamento muito pobre com o Sasha tinha começado por parte de um grande desentendimento entre os dois. Sasha por não querer lhe entender, e Didier por não querer ouvir algumas verdades. Se questionou se deveria ser honesto com Renaud sobre como se sentia quanto ao presidente do Conselho Disciplinar, mas enquanto estava pronto para admitir seus erros para Renaud, não sabia inteiramente se estava pronto para admitir suas falhas para Sasha, até porque imaginava que ele se achava um santo imaculado.

- Sabes, Renaud... talvez no quieras escuchar isso, pero... eu acho o Peyrac... incrivelmente insensível. Ele fala tudo na cara... e não se importa como isso afecta a los demás. Ele assume que sabe o que está acontecendo, que é tudo simples, que é só mudar... no és solo así. Eu... - Abriu a boca e tomou ar, e depois fechou a boca de novo, hesitando em falar o que queria falar. Mas o próprio Renaud tinha lhe dito que tinha que deixar de abaixar a cabeça e se esconder para deixar de ser covarde. E queria aprender a se abrir, de verdade. Mesmo que fosse um pouco inconveniente para Renaud ouvir aquilo. – Eu não gosto dele porque ele foi o primeiro a dizer na minha cara que eu estava errado em lhe tratar... como lo traté... e ele lhe conhecer há tanto tempo, e melhor do que eu... me deixou com miedo de cambiar... e ficar sozinho por isso, de perder você para ele. E ele... estoy seguro que ele me ressente porque eu tive a chance de ser melhor pra você... e eu demorei tanto assim para deixar de ser cobarde. – a expressão irritada do loiro deu espaço a um olhar mais pensativo, os lábios crispados movendo-se de leve enquanto Didier pensava no que estava dizendo. – Pero agora que sei o quanto estava errado... no puedo odiar a Peyrac. Porque... tudo que ele me disse foi porque queria seu bem. E eu não posso odiar alguém por gostar e cuidar tanto assim de você. – Didier concluiu aquela frase quase entre dentes, achando difícil admitir que parte da raiva que tinha de Sasha poderia se dissipar, embora ainda achasse o cadeirante sem noção. – Desculpa falar dele... só não quero que se desculpe mais por falar dele... me cabrea, pero... se eu puder ser do grupo que “passa a vida ao seu lado”... então acho que posso fazer tanta raiva de volta para o Peyrac quanto ele me faz quando você fala nele. É uma forma de equilibrarnos. – Didier sorriu com o canto da boca, numa expressão injuriada. Claramente era uma brincadeira, mas podia ser verdade também.

Renaud

Da mesma forma que as perguntas de Didier despertavam em Renaud um lado contemplativo e pensador, era bem fácil de notar que os comentários vindos do jovem Blanco, trouxeram não somente pensamentos, mas algumas boas caretas ao rosto do loiro. Permaneceu abraçado ao corpo do namorado, a dor nas mãos distante por causa da medicação, então podia acariciar de leve as costas do outro enquanto ele seguia narrando toda a opinião dele sobre Sasha. O moreno mais novo sabia que Didier não era do tipo de se abrir e falar abertamente as coisas que pensava - mesmo que fosse pra reclamar como era o caso - então imaginava que ele deveria estar fazendo um esforço adicional para colocar todas aquelas palavras para fora.

Renaud não o interrompeu nenhuma vez apenas fazendo meneios de cabeça em concordância durante a fala, e quando o outro finalmente encerrou seu ponto com aquela brincadeira sobre poder “devolver toda a chateação” que seu Frater já o tinha feito passar, o jovem Blanco sorriu, um pouco mais descontraído diante dos fatos:

-- Muita coisa do que você disse está certa, Sasha é “sem noção” pra muita coisa, ele geralmente fala como se soubesse de tudo, e quando não sabe ele “finge” muito bem saber. Não vou defender ele nesse ponto, porque ele sabe ser chato e desagradável quando quer. - E talvez Didier não esperasse que Renaud concordasse com ele naqueles pontos, mas até o próprio Blanco já tinha sido alvo do lado provocador de seu Frater quando mais novo, hoje em dia, ambos sabem que esse jeito fanfarrão para além de um estilo de vida, é a forma que outro escolheu pra lidar com os próprios problemas: -- Você talvez esteja enganado em achar que ele sabe mais sobre mim do que você. -- E sabia que aquilo também causaria alguma estranheza para Didier, mas era bom deixar claro em números pelo menos:

-- Vadiei ao lado do Sasha por dois anos, e em compensação eu estou com você a quase cinco. O que acontece é que, você não sabe o que eu vivi ao lado dele, da mesma forma que ele sabe pouco do que eu passei ao seu lado. -- Renaud falou aquelas palavras com um tom suave, baixo e pausado encarando o namorado diretamente nos olhos, esperando que ele compreendesse que aquilo não era uma competição por atenção, eram apenas partes da sua vida. E enquanto observava o namorado demoradamente levou uma das mãos ao rosto do loiro acariciando a extensão do mesmo até a base do queixo, e respirou fundo, pondo uma expressão mais sóbria e menos sorridente, que antecipava que falaria vinte centavos mais sério:

-- Sobre o meu relacionamento com o Frater, ele é cheio de altos e baixos, mas a parte mais delicada, é que ele salvou minha vida. Sem ele, não teria “Renaud” pra estar aqui agora, e se pensar que ele acabou ficando aleijado e não tem nada que eu possa fazer pra “salvar ele de volta”, é um sentimento amargo não poder devolver o que ele já fez por mim antes. Esse é o motivo principal da gente ter passado tantos anos sem se falar, agora parece bobagem, mas ele se culpa por tudo que aconteceu comigo e com ele mesmo, da mesma forma que eu me culpei por muito tempo também, por não ter estado “lá pra fazer nada”.

Nem sabia quando tinha se tornado tão “conversador”, não se lembrava de falarem tanto sobre pessoalidades e assuntos que machucavam, mas não estava achando ruim aquela inovação dentro o relacionamento dos dois. Era em verdade como tirar um peso das costas finalmente poder se abrir de forma mais ampla sobre sua vida: o que pensava, o que já tinha passado e todas essas coisas que permeavam quem era. Queria que Didier lhe amasse por completo sabendo tudo que poderia saber sobre si, das coisas boas, as coisas ruins, porque sabia, que o amava intensamente, independente das facetas ruins que o loiro pudesse mostrar. Imaginava que depois de tantos desentendimentos e estresses finalmente tinham chegado num ponto onde podiam se resolver sem precisar dos punhos, afinal, seus punhos atualmente não serviam pra muita coisa.

Didier

Sabia que Renaud era honesto o suficiente para entender sua opinião, mas esperava que ele fosse defender Sasha mais ativamente. Ouvir ele concordar facilmente com suas opiniões sobre o sujeito que considerava um “irmão” foi no mínimo curioso. Isso lhe deu alguma validação pros próprios sentimentos, afinal, não era só que estivesse com vontade de ser propositalmente babaca com Sasha por ciúmes. Realmente sabia que ele despertava em si uma gama de sentimentos complicados, que iam desde simpatia até desgosto. Possivelmente não foi surpresa para Renaud que a medida que ele concordasse com a opinião de Didier, o cenho do loiro fosse franzindo ainda mais, pior quando ele apontou que não era necessariamente verdade que entre ele e Sasha, quem conhecia melhor Renaud era o tal frater.

Didier não se considerava tolo o suficiente para não saber que tinha mais tempo convivendo com Renaud do que Sasha, mas era inevitável que pensasse que nos dois anos que o cadeirante conviveu com ele, tinha buscado conhecer o garoto mais a fundo do que Didier nos cinco que tinha estado com Renaud. Não tinha noção, por exemplo, que ele conseguia ser tão emocional, mesmo que soubesse dos problemas que ele tinha com a família. Estava descobrindo muitos lados de um Renaud que não era seu ¬perro ou capacho aos poucos. Mas como o moreno estava convicto de que eram duas situações diferentes, duas convivências diferentes, ele mesmo deveria saber melhor quem tinha visto mais de fato no tempo de convivência.

Apesar de não deixar de franzir a testa, Didier fechou os olhos por um instante para apreciar o carinho no rosto, quase como um gato sendo mimado. Mas até ele teve que mudar as sobrancelhas quando o namorado usou o tom mais sério, encarando-o seriamente de volta quando ele mencionou como era complicado seu relacionamento com Sasha.

- Ah... – Didier não sabia dessa questão de Renaud “dever” a vida a Sasha e se sentir culpado por não estar lá para ajuda-lo quando ele ficou aleijado. Apertou os lábios para evitar interromper ou fazer qualquer comentário insensível, porque não seria difícil para Didier dizer que não era responsabilidade de Renaud, mas seria hipócrita de sua parte dizer aquilo sem pensar o quanto também já tinha se metido na vida de outras pessoas também. Didier acabou apertando a boca e as sobrancelhas para aquele resumo da culpa de um e outro e negou discretamente com a cabeça. – No lo sé o que houve... pero... no fim, aposto que se culpam por coisas que nem tem controle... se não são hermanos de sangre, são hermanos de estupidez.

Levou a mão até os cabelos escuros, acariciando-os próximos a orelha de Renaud, puxando a mesma de leve de provocação, abrindo um sorriso breve antes de dar um selinho no moreno.

- Eu me sinto menos mal que você não tem problema de ofender Peyrac conmigo... e de dizer que vivemos momentos diferentes... porque assim pienso que teremos tempo para aprender sobre esse lado que no conocemos um do outro. – arqueou a sobrancelha, buscando se aproximar mais de Renaud, até estar completamente aninhado nele.

Renaud

As expressões que o loiro demonstrava a medida que falava, revelavam que ao menos ele estava tentando absorver o que tinha falando. E levando em consideração que Didier realmente desgostava de seu Frater vê-lo fazer esse esforço era algo bom, queria dizer que com o tempo eles podiam chegar num estado de “trégua” mas talvez isso fosse ser muito otimista. Ouviu o loiro dizer que eram “irmãos de estupidez” e não conseguiu esconder o riso diante do comentário direto, porque era bem verdade, fechou os olhos por um momento apreciando o carinho recebido nas madeixas escuras, até ter a orelha puxada, sorrindo a provocação suave feita pelo namorado. Retribuiu o selinho, gostando da sensação do calor deixado pela boca do loiro na sua, envolvendo o corpo do namorado em um abraço enquanto se deixava levar fácil pela troca de carinhos e afeto.

Tornou a encarar Didier quando ele lhe falou que estava satisfeito em poder reclamar de Sasha sem restrições, e aquilo lhe arrancou um risinho, afinal se fosse puxar o histórico de provocações de sua infância o moreno mais novo com certeza tinha uma longa lista de reclamações. Mas deixou o pensamento fugir quando sentiu o corpo do loiro aninhado ao seu e o abraçou em retorno, sequer lembrando das mãos machucadas aquela altura da conversa. Beijou o topo da cabeça do namorado, e seguiu distribuindo beijos pelos fios dourados, buscando o rosto e o pescoço do namorado, num amontoado de beijos e risinhos divertidos, como se quisesse provocar cócegas no outro. Ao ponto de se virar sobre o corpo de Didier e inverter as posições na cama, ficando sobre o namorado, apoiando o corpo com os cotovelos sobre o colchão já que não podia usar as palmas das mãos propriamente ditas:

-- psiu… -- o moreno falou baixinho, observando o loiro de cima, os olhos escuros estreitos, o sorriso num misto de felicidade e vinte centavos de charme: -- eu já disse que te amo hoje? -- Renaud se aproximou do rosto do namorado farejando: -- te amo Didier…! -- dito isto o moreno mordiscou o lábio superior do loiro: -- te amo um monte…! -- deu atenção ao lábio inferior em outra mordiscada mais longa: --¡te quiero tanto…! -- e uniu os lábios em uma carícia mais longa, e se perdeu naquele beijo, deixando-se ser o rapaz apaixonado que era, queria muito beijar Didier como se não houvesse um amanhã.

Didier

Não sabia quando tinha sido a última vez – ou se era a primeira – em que tinha se permitido ficar tanto tempo só aproveitando o calor do corpo de Renaud contra o seu, e observar o semblante cansado dele, mas que tinha um charme frustrante no riso suave de quem concordava com cumplicidade que Sasha Peyrac era estúpido. E até queria permanecer com o cenho franzido de quem deixava o assunto remoer na mente, mas não conseguia, percebendo talvez pela primeira vez nuances do rosto de Renaud enquanto ele se aproximava para lhe dar um beijo na testa, e depois mais beijos pelos cabelos, indo até o pescoço e rindo como uma criança aprontando.

- Tonto...!!

Foi inevitável rir junto depois de cada beijo, ao mesmo tempo que franziu as sobrancelhas. Queria os beijos, mas também queria apertar aquelas bochechas e boca como se ele fosse um peixinho, porque pondo sua situação em sinceridade, Renaud sendo aquela coisa romântica que ele estava demonstrando ser estava lhe deixando ao mesmo tempo preenchido de um frio novo na barriga que não sabia se era falta de sexo, vergonha ou se aquela era a sensação do seu coração roubando todo sangue do seu corpo pra gerar energia pra conter aquele... amor? Como se sentia piegas!

Eventualmente, Renaud também tinha perdido todo o juízo e cuidado com as mãos, e acabou ficando por cima do seu corpo, apoiado nos cotovelos de um jeito que supunha ser preocupante, mas naquela situação, o total de preocupação sua e de Renaud somadas era zero. Mas quase puxa a ponta do nariz dele por ser chamado por “psiu”.

Renaud foi salvo pelas palavras a seguir, que não só fizeram Didier abrir mais os olhos claros como sentir o rosto cada vez mais quente, de um jeito que nem podia esconder pela posição que estava. Mas sinceramente, precisava esconder? Esconder que apreciava o sorriso feliz de Renaud, ou que gostava de ser farejado? Fechou os olhos um instante para apreciar o beijo breve em seu lábio superior, e a sensação longa dos dentes roçando pelo inferior, e as palavras que fluíam tão fáceis de Renaud.

- Si, lo dijiste... – respondeu no meio do beijo longo, levando as mãos até o rosto de Renaud, acariciando-o, pescoço e nuca, e os cabelos. – Pero no te lo dije. – respondeu, segurando o rosto do moreno a pouco de distância de si, o suficiente apenas para que os lábios roçassem nos dele suavemente enquanto falava. – Te quiero, Renaud... – murmurou com um sorriso breve no rosto mais corado do que deveria para um homem da sua idade e com sua experiência. – Te amo, tanto... – desceu as mãos até os ombros dele, e encaixou o corpo completamente no dele, erguendo de leve uma das pernas e de súbito, empurrando Renaud para virar o corpo dele na cama, se colocando por cima do moreno. - ... Mas você tem que cuidar de sus manos. – Didier sorriu com orgulho, e então curvou-se para beijar o moreno longamente mais uma vez, aproveitando cada instante daquele sentimento quente e puro que certamente apreciaria conhecer cada vez mais ao lado do moreno.

Renaud

Para Renaud todas aquelas trocas de carinhos, olhares e toques por mais que não fossem completamente inéditos tinham um valor especial. Afinal eles já tinham se beijado, se abraçado e se desejado muito, em outras ocasiões, porém sentia que tudo que faziam agora de alguma forma era completamente diferente. E mesmo estando cansado de todos os acontecimentos recentes de sua vida, ainda achava energia em si para trocar beijos, ensaiar um sorriso e esquecer momentaneamente que todo o resto de sua vida estava uma completa desordem.

Era curioso como no passado tinha engolindo tantas palavras, tantos sentimentos, tinha mantido os dentes cerrados com força senão já teria se deixado derramar sobre o outro como o rapaz apaixonado que era. Chegava ser ridículo que fosse tão ambivalente, mas quem estava em posição de julga-lo? Sentia aquela pequena bolha de felicidade como uma pequena e frágil centelha que era, como uma bolinha brilhante de calor luminescente no escuro, como um vagalume perdido. Que se fechasse a mãos com força talvez esmagasse e destruísse aquele delicado momento de felicidade.

Que bom então que estava com as mãos machucadas, porque daquele jeito mesmo que quisesse não poderia pegar em nada com força, podia simplesmente se deixar ser levado de volta com as costas contra o colchão enquanto seu namorado ficava sobre seu corpo lhe sussurrando palavras apaixonadas com a timidez de quem as dizia pela primeira vez. Didier era apaixonante e quanto mais percebia aquilo, mais tempo queria ficar ali, ouvindo aquelas bobageiras que lhe deixavam tão preenchido e feliz. Feliz de verdade e não apenas satisfeito.

-- ainda bem que tenho você pra me vigiar não é? --o moreno respondeu com um gracejo na medida do seu possível a meia bronca sobre cuidar das próprias mãos que tinha recebido do loiro. Então ao ser beijado, retribuiu com igual carinho, se deixando tomar completamente pela sensação nova que dividiam ali.

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