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[Drive] On the Edge [Vivien; Aleksei] - Lil - 09-01-2021 Aleksei
Fazia exatamente dois dias que tinha recebido a notícia de que Kyle estava morto, mas alguma coisa ainda parecia lhe perseguir incansavelmente, como se a sombra do psicopata ainda estivesse à espreita em cada canto, cada som, cada pessoa e especialmente cada momento em que fechava os olhos para tentar descansar. Embora o dia logo após a notícia da morte dele tivesse sido muito tranquilo e proveitoso na companhia de Vivien – que tinha deixado bem claro que não estava mais com a esposa e que lhe queria ao seu lado –, os momentos que se seguiram provaram a Aleksei que as coisas não voltariam ao normal tão fácil quanto ele tinha imaginado. A noite de sono de sábado para domingo não foi tranquila, mesmo com a companhia de Vivien ao seu lado. O domingo foi cansativo e acompanhado ainda de uma visita da oficial Blanche para atualizar sobre os andamentos do caso. Ainda havia uma série de assuntos mal resolvidos que tinha que dar conta, mas entre eles, o principal era que sequer conseguia descansar o suficiente para que as olheiras ficassem menos notáveis no rosto atualmente pálido e magro por conta do mês estressante. Sendo um médico formado, especializado em psiquiatria, sabia que não era sensato continuar tomando a medicação que tomava em altas dosagens para conseguir dormir. Não era sensato também se livrar delas de uma vez, mas era o que tinha feito desde a madrugada de sábado e por conta daquilo não tinha conseguido descansar sem os pesadelos lhe assombrando a cada piscar de olhos. A companhia de Vivien era em parte reconfortante, porque sabia que tinha em quem se apoiar, mas ao mesmo tempo, a cada abrir de olhos no meio da noite e a cada susto inesperado com o pânico que surgia da experiência passada, ficava preocupado em não incomodar o francês que dormia ao seu lado. A segunda não foi melhor: não dormiu mais, não comeu mais e não descansou melhor. Embora o dia fosse mais tranquilo e a companhia lhe desse mais conforto, as mãos eventualmente trêmulas que tentava esconder de Vivien, os batimentos acelerados, a tontura e a respiração descompassada denunciavam os efeitos colaterais de largar a medicação forte de uma vez. Vivien estava preparando algo leve para o jantar de novo, na esperança de que ele comesse sem passar mal, e depois de deixar um livro da prateleira do francês de lado, ao notar de novo os tremores que voltavam pela fraqueza e pela abstinência, Aleksei levantou-se do sofá da sala para seguir até a cozinha. – Eu vou tomar um banho enquanto termina, Vivi. – Aleksei avisou, parando no portal de entrada, com as mãos bem enfiadas nos bolsos da calça de tecido folgada e a camisa de gola alta que escondia as marcas inconvenientes no pescoço. – Posso ajudar em alguma coisa? Vivien
Alguns dias tinham se passado desde que Aleksei tinha chegado a sua casa com a notícia de que Kyle estava morto. Apesar de ainda terem assuntos a serem resolvidos em St. Clavier e de ocasionais encontros com a Oficial Blanche, o fato de que os dois estavam ali em seu apartamento e seguros já lhe tirava um imenso peso das costas. Porém, bem sabia que nem tudo estava tranquilo. As noites de sono que para Vivien deveriam ser mais calmas eram interrompidas por Aleksei, que ainda parecia ter pesadelos constantes. Também notava como ele ainda estava nervoso, mas não podia imaginar nenhuma situação diferente dados os traumas passados. Com o pouco tempo que tinha passado era difícil imaginar que o loiro se acalmaria de pronto. Resolveu que pelo menos poderia ajudar com o básico. O básico no momento era fazer uma refeição leve que Aleksei pudesse comer sem pensar que colocaria para fora eventualmente. Os momentos em que tentava fazer algo pelo loiro lhe tiravam da cabeça todos os problemas durante o dia, e embora estivesse longe de estar trabalhando normalmente, ainda precisava também desses momentos. E também entendia que tinha suas próprias limitações. Foi distraído de seus pensamentos quando Aleksei saiu da sala para ir até a cozinha lhe avisar sobre o banho. - Quando você sair a comida já deve estar pronta. - respondeu, terminando de cortar alguns legumes para assar, que seria mais fácil de digerir do que se os sauteasse. Negou a ajuda de Aleksei, abrindo um sorriso compreensivo. - Outro dia vou cobrar essa oferta. Mas não se preocupe agora. Já estou terminando. Pode ir. Esperou o grego seguir para o banheiro para continuar com o que estava fazendo. Colocou os legumes para assar e aproveitou para limpar a bancada e colocar os pratos na mesa. Foi mais ou menos o tempo da comida ficar pronta, porém, Aleksei continuava no banho. - Alek? - chamou, caminhando até o quarto - A comida está pronta. Aleksei
Aleksei apenas concordou com um aceno de cabeça e seguiu na direção do quarto, mais tranquilo com o fato de que Vivien não tinha se aproximado o suficiente para notar o suor frio ou os dedos trêmulos. Seguiu até o banheiro do quarto, fechando a porta, mas sem trancá-la, para andar até a banheira e ligar a água para preparar um banho mais relaxante. Quem sabe melhorasse o seu estado, junto à refeição? Embora fosse um verdadeiro narcisista, ainda era difícil para Aleksei tirar as peças de roupa e se encarar no espelho com as marcas avermelhadas no pescoço que ele mesmo tinha causado e o corpo mais magro e pálido. Não pela aparência em si, mas pelo que lhe fazia lembrar. O incômodo, os sintomas físicos e o fato das mãos continuarem tremendo foram o suficiente para que ele decidisse buscar, bem fundo nos seus pertences pessoais, a medicação que estava tomando antes da morte de Kyle para tentar reverter a situação de abstinência. Pegou um par de comprimidos e tomou, deixando a cartela de lado na pia do banheiro antes de tomar o banho. Vivien já estava terminando o jantar, então não precisava demorar muito ali. Tomou uma ducha rápida antes de entrar na banheira, deixou a toalha dobrada na borda da mesma para melhor apoio da cabeça e se deitou para poder descansar por um par de minutos. Um ou dois dias de volta à dosagem que estava tomando anteriormente seriam o suficiente para resolver parcialmente o seu problema – o problema de abstinência, ao menos. Mas talvez tivesse relaxado demais. Antes que pudesse perceber, os olhos pesaram diante do efeito da medicação e talvez fosse a necessidade de um bom descanso que fez com que ignorasse totalmente o fato de que ainda estava na banheira ao se render ao conforto e fechar os olhos para dormir, pelo menos alguns minutos antes de Vivien terminar o jantar. Era só alguns minutos… O sono relaxante só foi incomodado à distância, o corpo escorregou lentamente na banheira e sequer sentiu o nível da água alcançando a altura do rosto, ultrapassando o queixo, os lábios, até mesmo lentamente alcançando o nariz. Vivien
Franziu a testa ao não receber resposta alguma do loiro. Supôs que a fadiga de ter dormido mal as outras duas noites poderiam levá-lo a tirar um cochilo eventualmente, mas ao dar uma espiada no quarto, não encontrou ninguém na cama. Se Aleksei não estava ali descansando, não tinha passado pela cozinha para dar uma saída e não lhe respondia, algo lhe parecia errado. Engoliu em seco, a franzindo o cenho ainda mais, sem saber exatamente o que estava pensando naquele momento. Sabia sim que havia algo de errado com Aleksei, pois não era completamente cego. Porém, não tinha capacidade de pensar exatamente como ele. O máximo que conseguia imaginar era que o grego estava ainda estressado, ainda naquela sensação frenética dos dias anteriores, e que essa sensação desagradável não sairia da noite para o dia. Entretanto, não sabia como ele estava lidando com isso, e eventualmente imaginava que iria desaparescer, talvez após algumas consultas com um profissional ou quem sabe com a confirmação dos dias mais pacíficos. Que outro modo lhe era plausível? Apertou o passo até o banheiro, abrindo a porta do mesmo sem bater e dando uma olhada para dentro inicial na qual viu apenas a pia e a cartela de um remédio que não conhecia, deixada ali de qualquer jeito. Respirou fundo, um pouco mais afobado, enquanto entrava no cômodo. - Alek? – chamou, embora sentisse como se não fosse ser respondido novamente. Procurou o grego dentro do cômodo, então, encontrando-o na banheira como esperava encontrá-lo, submerso, mas com a água cobrindo parte do rosto, e os olhos fechados, como se ele estivesse desacordado. Sentiu o sangue sumir do rosto e no impulso, deu passos largos até a banheira, estendendo a mão para levantar nem que fosse o rosto de Aleksei da água. Assim que tinha os dois braços no alcance do corpo do outro, puxou-o para fora da água, prontamente verificando se o loiro ainda estava respirando. Esperava que ele não estivesse ali há muitos minutos, dado o tempo que tinha falado que iria tomar o banho e o tempo que Vivien demorou a ir até ali. Segurou-o com um pouco mais de firmeza do que deveria, provavelmente, por conta da afobação. – Alek...? Alek...! Aleksei
Mais alguns centímetros e ele estaria completamente submerso na água. Se o instinto natural e reação fisiológica fossem o suficiente para superar os efeitos da medicação, teria acordado sem problemas, mas mais do que a reação natural do corpo para a água entrando nos pulmões, o que lhe puxou bem à força do sono pesado foi o puxar intenso no corpo e os chamados insistentes de Vivien. Bom, aquela era a prova de que a medicação ainda não tinha surtido o efeito total, ou também não seria capaz de abrir os olhos pesados e responder ao chamado do francês. – Hm…? Vivi? – a voz saiu quase num sussurro, estava com o corpo mole e precisou fazer bastante esforço para estender as mãos até os braços dele. – O jantar… está pronto? Ainda é segunda? Levou uma das mãos até o rosto, virando-se para próximo de Vivien buscando algum apoio a mais, escondendo o rosto na altura do peito dele e fechando os olhos de novo. Se já era difícil reunir forças para se mover, era ainda mais difícil reunir energia para ficar acordado no estado relaxado que o medicamento tinha lhe garantido. Além do mais, para Aleksei, estava apenas saindo de um lugar confortável para outro – da banheira para o encosto em Vivien. Dormir sob o efeito da medicação não era o melhor repouso, mas era o que tinha para o próximo par de horas, provavelmente. Vivien
Sem notar ainda que estava pressionando os braços de Aleksei mais do que deveria, deu uma chacoalhada no loiro, com alguma expectativa que ele conseguisse acordar para lhe dar uma resposta sobre o que estava acontecendo ali. A cartela de comprimidos tomados lhe deixou mais preocupado do que só o suposto afogamento na banheira. Que aquela cartela fosse antiga e aquilo não passasse de um mal entendido causado pelo socorro rápido que teve que prestar. E ainda precisava verificar que comprimidos exatamente eram aqueles pois sabia que isso influenciava muito. Sentiu as mãos folgarem um pouco o aperto no braço de Aleksei do alívio em vê-lo acordado sem aparentemente ter engolido água, mas não o suficiente para lhe livrar da própria agonia. - Alek. Quantos comprimidos você tomou? – Vivien falou num tom firme, sem responder as perguntas confusas de Aleksei que deveria estar ainda aos poucos pensando suas respostas. – Preste atenção. Quantos comprimidos você tomou? – encarou o loiro, aproveitando o abraço para mantê-lo próximo e verificar se haviam sinais mais claros de que ele estaria se sentindo mal. Só esperava estar enganado com tudo isso e que Aleksei estivesse exausto e fraco pelas noites mal dormidas e alimentação difícil. Não que nenhum desses estados fosse bom, porém, a fadiga ao menos ainda estava dentro do alcance de seu conhecimento. Aleksei
Tudo que Aleksei queria era dormir, apagar e se deixar levar pelo efeito da medicação em cumprir com louvor o que seu corpo sozinho não estava conseguindo. Mas no início do efeito da medicação, com a presença de Vivien e a intensidade dos movimentos dele, parecia uma tarefa muito difícil, aquela de apenas descansar. O grego não tinha forças para devolver o aperto, mesmo que quisesse. Também não tinha forças para se colocar de pé, por isso a banheira tinha parecido tão atrativa. Não teve muita certeza se a primeira pergunta sobre os remédios tinha sido de Vivien ou da sua mente, mas fez um pequeno esforço para se manter consciente. A mão escorregou pela roupa alheia enquanto tentava se acomodar melhor quase sem se mover. - Hm... - o murmúrio quase saiu como um "um", mas ele se esforçou um pouco mais, sentindo a garganta seca. - Hm... dois. Sempre... Ele levou a mão à cabeça sem exatamente saber como o tinha feito. A medicação tinha surtido um efeito mais rápido e forte devido aos breves dias que tinha ficado sem tomar. - Estou... com sono, Vivi. Podemos jantar... depois? Mesmo com o frio que perpassava o corpo molhado e sem qualquer camada de roupa naquela posição, além da água que já tinha passado de morna para fria depois do tempo, Aleksei sequer podia se dar conta da pele fria e trêmula, ele só podia pensar em dormir de uma vez. Talvez Vivien parasse de lhe chacoalhar daquela vez. Vivien
Apesar de Aleksei estar consciente, se sentia preocupado pelas respostas lentas e a fraqueza do corpo dele. Se bem pensasse, talvez já devesse ter tirado ele da água e ligado para uma ambulância ou levado o loiro diretamente ao hospital ao invés de ainda insistir de saber dele o que estava acontecendo. Porém, algo no fundo da sua mente lhe dizia para tentar tratar daquilo com menos afobação: Aleksei não andava comendo bem, não andava dormindo bem e agora tinha tomado alguns remédios. Ele evidentemente seria mais afetado, estando debilitado. Só não sabia se era um caso de socorro médico ou não ainda. A mão vacilante e o jeito que ele tentava se acomodar lhe dizia que ele estava de fato tentando se fazer mais confortável que passando mal, e a resposta, mesmo incerta de “dois” comprimidos lhe deram um pouco de alívio imediato. Observou o loiro ainda preocupado, a testa franzida mesmo depois de um longo suspiro. - Está se sentindo mal, Alek? Algo além de sono? – questionou, ainda por insistência, esperando que ele ainda tivesse energia para lhe responder antes de apagar de novo. – Esqueça o jantar. Vou te levar pra cama. Curvou-se mais para dentro da banheira e agarrou o corpo de Aleksei com mais firmeza, tentando distribuir o peso para não machucar a coluna ou aí não seria de utilidade alguma mesmo. Tirou-o de dentro da banheira de uma vez, segurando-o em seu colo todo molhado, não se importando muito com a bagunça no banheiro ou em suas roupas de casa. Com calma, levou o grego até a cama e deitou-o ali. Levantou para pelo menos buscar uma toalha e enxugar os cabelos claros para que ele não ficasse ensopado. Não estava confiante de suas decisões, mas ficaria ali com Aleksei. Ao menor sinal de que algo estava errado, seu telefone estava a postos. Aleksei
Se Vivien esperava receber alguma resposta para mais questionamentos, todos se perderam entre o resto de consciência que tinha, o efeito da medicação e o cansaço. Aleksei apagou por completo no apoio dos braços do francês, num sono que parecia bem tranquilo e profundo, a respiração leve e compassada que devia acalmar ao menos um pouco o nervosismo de Vivien com o seu atual estado físico. Apagar sob o efeito de medicação não era exatamente o melhor remédio em sua condição, sabia que enquanto o efeito durasse, ficaria inconsciente, mas eventualmente o cansaço e os terrores lhe alcançariam e não havia droga que tornasse a sensação melhor. Com dois comprimidos e depois de dois dias sem tomar nada, devia ter dormido como uma pedra por pelo menos seis horas. Mas não foi o que aconteceu. O espaço entre a banheira e a cama ficou perdido em sua mente inconsciente e a única coisa que despertou seus instintos foi a sensação de medo, de nervosismo e desespero, particularmente de perseguição que persistia mesmo que tivesse plena consciência de que Kyle estava morto. Foi a sensação constante e renovada de que estava sob as mãos do psicopata em meio à escuridão do sonho que ajudou o corpo cansado a cortar o efeito do medicamento e despertar, contra a vontade, num susto intenso que fez com que prendesse o ar por uns segundos. Abriu os olhos e ergueu o corpo parcialmente, apoiando-se nos cotovelos apenas para confirmar que o quarto era o de Vivien e que não havia perseguição nenhuma. Mal notou Vivien sentado ao seu lado na cama até se deixar cair de novo sobre o colchão macio. Só então voltou o olhar para o francês que parecia ter reagido rápido ao seu movimento também. – Vivi…? Desculpe, eu o acordei? – Aleksei levou a mão ao rosto, um pouco frio provavelmente pela pressão baixa somada à anemia. Vivien
Suspirou longamente ao ver Aleksei apenas descansando num sono profundo, talvez o primeiro em muitos dias. Mas vendo-o daquela forma, não conseguiu deixar de pensar no quanto estava sendo relaxado com o loiro naqueles dias. Tinha tentado preparar comidas que ele pudesse comer, e havia aliviado Aleksei dos trabalhos de St. Clavier, algo que não teria nem cabimento ele fazer no estado psicológico em que estava. Porém, podia ter perguntado o que poderia fazer pelo sono dele antes que ele tomasse um remédio para dormir e afundasse na banheira, ou procurado a ajuda de um profissional para os problemas de insônia, alimentação e toda a transição de uma perseguição desafortunada para uma súbita parada em uma sensação de segurança. Talvez estivesse muito preso ao próprio alívio de ter Aleksei ali finalmente sem pensar no que o loiro precisava. Com Aleksei ainda dormindo profundamente, de modo cuidadoso, vestiu-o com uma das usuais calças folgadas e só então sentou ao lado dele na cama. Pretendia observar as reações de Aleksei durante o sono. Agora estava mais aliviado que ele tinha tomado apenas dois comprimidos e supunha que eram um remédio para dormir, mas que a situação em que ele havia se metido tinha sido perigosa, não podia negar. Acabou até esquecendo que tinha fome, e esquecendo que tinha feito o jantar, que ficou esfriando na mesa. O silêncio com a respiração mais tranquila dele e o cheiro de cigarros do quarto lhe deu vontade de fumar, mas privou-se, aproveitando para pensar o que mais poderia fazer. Era curioso como ainda se sentia de mãos atadas. Sequer percebeu a passagem do tempo enquanto observava os próprios pés sobre a cama e Aleksei dormindo, até notar alguma reação dele. Observou os movimentos sutis, mas ainda sim foi surpreso pelo despertar súbito de Aleksei, que voltou a se jogar na cama assim que percebeu onde estava. Aproximou-se um pouco mais, notando o semblante pálido e cansado, apertando os lábios sem esconder a expressão preocupada. Soltou um longo suspiro ao confirmar mais uma vez que ele estava só dormindo. - Não me acordou. Como você está...? – perguntou, estendendo a mão até o rosto de Aleksei, sentindo a temperatura dele para saber se não estava com febre, mas supunha que era bem o contrário. – Alek, você provavelmente não lembra, mas você dormiu na banheira. Foi... muito perigoso. – franziu mais a testa, mas não soava nem um pouco como se estivesse ralhando com o loiro, com a voz baixa e ainda “calma”. Aleksei
Aleksei afastou a mão do rosto apenas para sentir o toque de Vivien e encarar mais diretamente a expressão preocupada. Demorou alguns segundos, mas concordou com um aceno de cabeça para o fato de que não o tinha acordado. A pergunta sobre como estava, entretanto, despertou a mesma resposta condicionada. – Estou… só cansado. E provavelmente com fome. Não estava bem, aquilo era óbvio pelo seu estado aparente, mas era uma reação tão natural responder daquele modo que nem pensou em ser mais específico ou simplesmente sincero. Não fez qualquer esforço para se levantar, só virou o rosto na direção de Vivien, percebendo com mais clareza a preocupação no rosto alheio com o comentário sobre ele ter dormido na banheira e como aquilo teria sido perigoso. Mais uma vez, a mente e o corpo cansados demoraram a associar a importância do que ele tinha dito, e só então sentiu um frio incômodo descendo pela espinha, ao se dar conta de que nem lembrava de ter dormido na banheira ou de ter saído de lá, embora estivesse enxuto e de roupa limpa e o que exatamente aquilo podia significar. – Desculpe, eu não achei que o remédio faria efeito tão rápido. – Aleksei respondeu, percebendo que o fato de não ser mover muito na cama era especificamente por não ter forças para tal. – E ainda assim não teve efeito por tempo suficiente, ainda é noite, que horas são? O grego tentou descontrair um pouco, o que foi completamente falho. A expressão de Vivien ainda era de preocupação e só podia imaginar o que ele tinha pensado ao lhe encontrar na banheira dormindo sob efeito de medicamentos fortes. – Não precisa se preocupar, Vivi, eu vou ficar bem. – tentou reforçar aquele detalhe que não soava nada convincente em seu estado, levando uma mão à dele. – Como você está? Você jantou? Vivien
Apesar de Aleksei ter lhe respondido até rápido, sentia como se a mente dele ainda estivesse lenta. Apesar do remédio não ter feito ele dormir o suficiente para recuperar parte das energias, ainda deveria estar fazendo efeito. Isso somado ao cansaço físico e a fome, que era só o que Aleksei lhe dizia, deveria ser uma receita para só piorar as condições dele. Supunha que o remédio tinha feito efeito rápido por conta também daquelas condições, mas o loiro parecia não entender completamente o que estava dizendo. - Não sei exatamente. Deve ser por volta das dez. – respondeu, embora tivesse respondido essa pergunta com um pouco mais de descaso. Aleksei dormiu pouco, agora que pensava bem. Da hora em que estava preparando o jantar até a hora que o tirou da banheira e o tempo que ficou ali sentado ao lado dele dificilmente ele podia ter um sono revigorante. Esfregou entre os olhos, pensando em como falar com Aleksei de modo mais claro quando ele estava tão cansado. Porém quase prendeu a respiração ao sentir a mão gelada dele sobre a sua, lhe dizendo palavras reconfortantes, perguntando sobre SEU estado ao invés de se preocupar com o cansaço do próprio corpo. Supunha que precisava soletrar. - Estou preocupado. Com você, Alek. – respondeu claramente, até soando um pouco rude, já que aquilo respondia a pergunta de Aleksei mas que satisfatoriamente. A mão que estava por baixo da dele colocou por cima, segurando a do loiro, apertando-lhe os dedos com cuidado. – Eu sei que você vai ficar bem. Eu sei. E também sei que está cansado, e com fome. Mas não sei o que está te acordando no meio da noite, nem porque está com dificuldades para comer, nem porque você achou uma boa ideia, no estado em que está, tomar remédios para dormir e entrar na banheira. Eu não sei, e porque eu não sei, eu não consigo cuidar de você... e vejo que isso... pode ser assustador. – respirou fundo e crispou os lábios, franzindo a testa mais uma vez. Estalou a língua, sabendo que mais uma vez estava escolhendo um péssimo momento para falar qualquer coisa. – Desculpe, Alek. Sei que está cansado. – supunha que desabafar não lhe adiantava agora, já que Aleksei estava ainda sonolento. Mas estava sentindo a tensão no próprio corpo. Apertou um pouco mais os dedos do loiro sem perceber. Pensou em dizer algo, mas outros pensamentos invadiram sua mente, daquelas horas esperando ele acordar. Puxou a mão do loiro para próximo aos lábios, beijando-lhe o pulso suavemente, sentindo o peito apertar ao lembrar que Aleksei já tinha lhe dito uma vez que não esperava nada de si. Engoliu em seco, supondo que não era um homem exatamente confiável nos olhos do grego, e se parasse para pensar, não eram três dias que mudariam isso. Engoliu em seco, colocando a mão de Aleksei de volta sobre o colchão. Então suspirou longamente resignado e sorriu com o canto dos lábios, sem muito o que fazer. – Só me diga, qualquer coisa que precisar, ou mesmo que não precisar... quando quiser. Você... é meu companheiro, Alek. Até você ficar bem é meu privilégio cuidar de você. – desfez o sorriso devagar, então curvando-se sobre o loiro e roubando-lhe um selinho dos lábios antes de fazer menção de se afastar. – Vou lhe trazer algo. Aleksei
Aleksei conhecia bem a sensação no corpo de querer se render ao efeito da medicação, mas ao mesmo tempo acordar por conta dos terrores noturnos que lhe acompanhavam devido ao estresse do último mês. Tinha passado pela mesma situação mais de uma vez em sua casa naquele tempo, mas Vivien não sabia daquilo. Com o estado um pouco disperso em que estava, tentando acordar, demorou a notar o estado mais consternado de Vivien. Teria fechado os olhos de novo para descansar um pouco mais, mas ficou mais atento com a resposta dele, sobre estar preocupado. Sentiu o aperto em sua mão e manteve o olhar fixo na expressão alheia, parecendo só então perceber as implicações bem óbvias de estar com Vivien. Estar de verdade com ele. Era verdade que o francês estava completamente no escuro quanto ao que tinha lhe acontecido naquele tempo, e que Vivien estava exatamente no estado em que não podia lhe ajudar como queria. Conhecia o francês o suficiente para saber que ele precisava ter o controle de tudo ao seu redor, mas talvez tivesse se deixado levar pelo próprio instinto em não ter em quem depender por muito tempo. Não era mais o caso, podia depender de Vivien do mesmo jeito que tinha proposto quando ligou para ele usando uma palavra de segurança que nunca tinham dito em voz alta. Era assustador estar em sua posição. E devia ser igualmente assustador para Vivien que estava completamente no escuro sobre o seu estado, ainda mais chocante ao lhe encontrar dormindo na banheira depois de tomar remédios que ele não conhecia. Vivien com certeza queria falar mais coisa, mas dado o seu estado semiacordado, ainda conseguiu perceber a necessidade dele de tentar conter o ímpeto e a preocupação ao lhe dizer o que estava lhe incomodando. Só percebeu que ele pretendia sair do quarto para pegar comida quando ele lhe beijou rapidamente e se ergueu, avisando da saída. Estendeu a mão e segurou o pulso dele com pouca força. – Espere. Sente aqui comigo... – Aleksei ajustou a postura para se sentar, encostado aos travesseiros, indicando o espaço logo ao seu lado para que Vivien se sentasse também. – Eu sinto muito, Vivi... por lhe deixar “no escuro”. Eu estou muito acostumado a lidar com tudo sozinho, do meu trabalho a minha vida pessoal. E eu sei que você está aqui por mim... eu só... já é tão comum agir desse jeito, que eu não percebi. Ele levantou a mão até o rosto de novo, pressionando os olhos com a visão um pouco turva e baixando a mão até o pescoço, onde pressionou um pouco antes de afastar o toque das marcas vermelhas. – Eu sei, racionalmente, que o Kyle está morto. Mas a minha mente e meu corpo ainda não conseguiram... processar isso. – explicou com calma, não porque estava tratando Vivien como um de seus pacientes, mas porque o próprio raciocínio estava lento. – No mês em que ele esteve rondando a cidade foram muitas informações de uma vez. O trabalho da polícia não parecia eficaz, eu me senti encurralado o tempo todo, e mais de uma vez ele esteve na minha casa... ou ao menos alguém que ele conseguiu enganar. E descobri que ele matou outras pessoas por minha causa, antes mesmo dele aparecer em Cerise. O próprio comentário fez com que um tremor desconfortável passasse pelo corpo ao lembrar das situações. Respirou fundo, voltando a encarar o francês. – Foi estressante. Eu não conseguia dormir ou descansar, e precisei tomar remédios para isso. Foram os comprimidos que você viu no banheiro. – continuou explicando. – Eu achei que conseguiria lidar com as coisas agora que ele morreu, que não precisava de remédios. Eu não tomei nada desde que cheguei aqui, mas não foi a minha melhor ideia, eu já devia saber disso, sendo psiquiatra. – tentou sorrir em vão de novo e desviou a atenção para as mãos, estendendo-as com as palmas para cima para conferir que não havia tremores notáveis daquela vez. – Além dos estresses da perseguição, agora são sintomas de abstinência. Ele fechou as mãos, pousando sobre o colo. – Eu não estou bem, Vivi. Mas estou tentando descobrir o que fazer para melhorar. – inclinou o corpo na direção de Vivien, apoiando a testa na altura do ombro dele. – Desculpe deixá-lo fora disso. Eu preciso de você. Vivien
Já estava pronto para ir embora para a cozinha, quem sabe requentar algo para Aleksei, porém, sentiu o toque em seu pulso, lhe impedindo de ir com aquele resquício de força que lhe segurava mais pelas palavras que seguiram. Olhou sobre o ombro para Aleksei, voltando-se na direção da cama e se perguntando se não havia feito errado de impedir o loiro de dormir para que pudesse conversar ao invés disso. Uma conversa que sabia que não resolveria nada de imediato. Apenas servia para lhe acalmar os nervos tensos. O corpo dele precisava de descanso, a mente também, mas discutir aquelas circunstâncias que bem sabia eram óbvias privava Aleksei de mais alguns minutos de descanso e ainda adicionava mais um peso. Sentou-se do lado de Aleksei, ouvindo dele o que já imaginava. Ele sempre foi completamente independente, e o fato de ter enfrentado aquele problema todo sozinho duas vezes deveria despertar nele ainda mais aquele instinto de se virar por conta própria. Mas não esperava que ele dissesse que “não percebeu” que estava lhe excluindo daquele processo. Apenas não percebeu, o que para Vivien era muito melhor do que ouvir que desde o início, Aleksei não tinha intenção de contar com sua ajuda. Sabia que todos aqueles sintomas eram consequências de ter vivido uma perseguição por um mês inteiro. Aquela insegurança constante, ainda mais coroada pelas visitas de Kyle, da incompetência da polícia (que bem queria culpar inteiramente, mas que agradecia já que Aleksei estava ali afinal)... as coisas faziam mais sentido quando ouvia o loiro dizer todas as perdas que teve por conta de Kyle. Foi bem lembrado que poderia ter sido uma vítima apenas por estar perto do loiro. Foi um tempo inquietante e solitário. Provavelmente não teria lidado tão bem quanto ele, quando pensava em tudo que ele passou. Afirmou com a cabeça silenciosamente que entendia, lembrando a imagem dos comprimidos no banheiro, aliviado também que eram um remédio para dormir e que ele tinha tomado regularmente, e que agora estava sofrendo com a abstinência. Levaria um tempo para se livrar daqueles sintomas. Só esperava que fosse um pouco menos desesperador que aquela noite. Aproximou-se de Aleksei na mesma medida que ele se reclinou em direção ao seus ombros. Embora soubesse que esse era um peso diferente para carregar, o peso de Aleksei recostado a si, confiando em seu apoio era um alívio também. Sabia que ele estava cansado e com sono, e que só deveria querer dormir, mas abraçou o corpo dele, acariciando os cabelos claros, e suspirou longamente. - Eu não posso imaginar como foi passar por tudo isso, mesmo que eu veja como lhe afeta, e mesmo que eu saiba que você se afastou pra me proteger também. Então obrigado por me contar, mesmo sendo doloroso, e obrigado por se preocupar mesmo quando era você que estava sob perigo. – respondeu mais suave, encostando a cabeça na dele de leve. – Mas já chega dessa distância. Descobriremos juntos como você pode melhorar, Alek. Eu também preciso de você. - fechou os olhos por um instante para aproveitar a companhia do loiro. Havia muitos modos mais racionais de ajudá-lo. Primeiramente poderia buscar um profissional, afinal, Aleksei não podia lidar com os próprios pesadelos para sempre. E também poderia buscar um médico que avaliasse o desgaste físico dele. Se ele podia sair para resolver detalhes com a polícia, podia dar a mesma atenção a própria saúde física e mental. – Não queria lhe privar mais de descansar, Alek. Trago algo para você comer ou prefere dormir? Aleksei
Sentiu os braços de Vivien em volta de si e ajustou melhor a posição para ficar de frente para ele. O calor alheio era confortável, os braços em volta de si e a companhia com a qual estava completamente desacostumado. Não tinha suporte de ninguém quando estava doente ou quando estava sozinho, e aquela sensação de ter que depender só de si mesmo era angustiante. Mas era tão real que não conseguia se desprender daquilo, da conformidade de estar sozinho. E ao mesmo tempo, não estava. Ele não tinha que descobrir sozinho como resolver aquilo, eles poderiam descobrir juntos, como Vivien tinha acabado de explicar. Parecia que um peso tinha sido tirado das suas costas e um nó desatado no topo da garganta. Os braços que estavam quase sem energia se ergueram em volta do corpo de Vivien e pressionou a roupa dele como era possível, pressionando o rosto contra o corpo dele. Sentiu os soluços acumularem na garganta e fechou os olhos com o pouco de força que tinha, sentindo as lágrimas escaparem a ponto de chorar como se fosse uma criança. - Eu não quero mais... ficar sozinho, Vivi... - os dedos estremeceram contra as costas alheias. Sentia o frio no topo do estômago, o desconforto físico junto ao desconforto mental e ao mesmo tempo o alívio de poder simplesmente chorar porque estava cansado, exausto, estressado e com medo. - Eu estou tão... cansado... de tudo...! Por que é... por que eu ainda tenho que lembrar de tudo?! - os soluços se acumularam no topo da garganta, escapando junto ao choro copioso e o corpo todo tremeu pelo choro e pela fraqueza. Parecia estar de volta ao estado de uma criança assustada. - Eu não consigo parar... de sentir medo. Queria pressionar as costas dele com mais força, mas não havia força nos dedos e as mãos só tremeram nas costas alheias, assim como o corpo que não tinha condições de sequer continuar sentado, ou ao menos de aguentar a dor do choro copioso. RE: [Drive] On the Edge [Vivien; Aleksei] - Lil - 09-01-2021 Vivien
Apesar de ter notado o tom mais pesado da voz de Aleksei a medida que ele explicava tudo que estava acontecendo, nada lhe parecia muito fora do que esperaria de um homem que estava tão cansado. Porém, na resolução que haviam encontrado, que para Vivien parecia ter resolvido por ora o dilema dos dois, sentiu as mãos do grego lhe buscando com aquela fragilidade cansada e o rosto dele afundar em seu ombro. E soluços. E lágrimas. Sentia lágrimas molharem sua roupa. Sentiu como se algo sumisse dentro de si. Tinha visto Aleksei chorar de dor em uma sessão, tinha visto uma expressão quase chorosa em seu casamento, mas não tinha visto nada como aquilo, e isso lhe deixou momentaneamente em pânico. Aleksei chorava com a liberdade de uma criança, mas as primeiras palavras na voz trêmula muito lhe lembrava que ele era um adulto. Um adulto que passou por momentos muito difíceis. Pressionou os lábios e tal como ele tentava lhe segurar, envolveu Aleksei com ambos os braços, puxando-o para si e esperando que o seu abraço firme fosse mais seguro. Ele reclamava do quanto era injusto ter que estar sozinho aquele tempo todo e ainda lembrar de cada momento, com os pesadelos. Por que o corpo não deixava ele esquecer? Por que é que Aleksei ainda tinha que sentir tanto medo de uma pessoa que estava morta? Por que ele tinha que passar por tudo aquilo para começar? Quando sentiu as mãos dele tentarem lhe apertar mais, puxou-o mais para perto com um movimento rápido, apertando um pouco mais o abraço em volta de Aleksei. Não era o suficiente para machucá-lo, mas certamente Vivien estava ali por ele, ou pelo menos esperava que ele sentisse essa sua presença, mesmo que fosse nas mãos um pouco trêmulas, incertas se era aquilo que Aleksei precisava, mesmo que fosse apenas o que pudesse dar para ele. - Tudo isso vai passar, Alek. A fadiga... o medo... as memórias todas, vamos trocá-las por momentos melhores. - falou num tom de quem tentava de fato acalmar uma criança, mas a diferença era que enganaria uma criança, enquanto queria mesmo fazer tudo aquilo pelo loiro. E estava otimista que tudo passaria. Mesmo que aquelas memórias ruins permanecessem sempre com Aleksei, eventualmente ele teria memórias melhores para recordar. E tal como queria confortá-lo, supôs que também podia ser confortado pela ideia de que não estava mais sozinho depois de tanto tempo. - Nenhum de nós vai ficar sozinho. Aleksei
A força nos braços se tornou tão desnecessária quando Vivien lhe envolveu de volta, com mais energia do que ele teria até mesmo num bom estado de saúde. A agonia não diminuiu de imediato, nem as lágrimas, mas poder se dar ao luxo de estar tão fraco ao lado de alguém em quem confiava era algo que não experimentava havia tanto tempo que nem lembrava da sensação. Era bom, pura e simplesmente. Foi fácil para Vivien lhe puxar para mais perto, não ofereceu qualquer resistência e só se deixou render ao abraço mais intenso. Folgou as mãos, não porque queria se afastar, mas porque podia deixar para Vivien o uso da energia que ele não tinha naquele momento. Queria só continuar ali, dependente dos braços, das palavras e do conforto alheio, mesmo que por uns breves instantes. Sabia que Vivien não podia fazer muita coisa para aumentar a sua segurança ou melhorar o seu estado de imediato, mas as palavras consideradas dele lhe deixaram com uma sensação maior de tranquilidade. Aleksei ainda continuou com o rosto escondido ali por uns instantes, internamente aliviado com a confirmação de que não estariam mais sozinhos. Respirou fundo, lentamente retomando o controle do próprio corpo, os soluços cessando assim como o choro, para lhe trazer uma sensação de leveza que não esperava sentir nos últimos dias. Algo que podia ter sido resolvido bem antes também, tão simples como numa conversa como aquela que lhe fez perceber como estava encarando a situação de um jeito errado. - Obrigado, Vivi. - teria pensado em se desculpar de novo, mas qual o motivo de fazer aquilo? Não havia pelo que se desculpar, no fim das contas. - Nós vamos resolver. Você só vai ter que ser um pouco paciente. Vivien
Estava pouco preocupado com o tempo que levaria para Aleksei se acalmar. Tinha o resto da noite se ele quisesse expulsar todas as lágrimas. Na verdade, muito mais que isso até. Mesmo que a intenção do grego fosse apenas desabafar e eliminar toda a negatividade dos dias de segurança incerta quando estava sendo perseguido por Kyle, sentia como se tivesse ganho um voto de confiança, de que ele se sentia confortável o suficiente para expor toda aquela vulnerabilidade que nunca tinha visto Para Vivien que tinha construído uma boa parte de seus relacionamentos em interações superficiais, ter um momento como esse significava o início do que era a intimidade entre os dois. Isso era apenas mais prova que estavam juntos. Apesar de não poder fazer muito a exceção do abraço e o carinho singelo nas costas, percebeu que aos poucos o choro ficava mais baixo, até que cessou, afinal. O loiro estava fraco, especialmente aninhado ao seu corpo e já sem sentar lhe segurar deixava isso bem óbvio para Vivien. Talvez fosse mesmo hora de deixá-lo dormir para aproveitar o efeito do remédio, e se ainda estivesse muito fraco para comer sozinho, levá-lo a um profissional quando ele despertasse. Quando finalmente ele ergueu o rosto, levou uma mão até mesmo, limpando os rastros de lágrimas nas bochechas e embaixo dos olhos. Abriu um sorriso aliviado com o agradecimento e a lembrança de que ainda tinham um caminho a frente. - Espero que eu possa cobrar o mesmo em outra ocasião. – tentou brincar, embora soubesse que a cabeça de Aleksei e nem o momento pediam isso. – E agora, Alek? Como está? – perguntou, embora já estivesse cansado de martelar na mesma tecla. Aleksei
Aleksei respirou fundo, fechando os olhos com o toque dos dedos ásperos no rosto. Sentia a dor no peito e no estômago pela pouca alimentação, mas sentia ainda mais o efeito do remédio e a necessidade de voltar a dormir. Não fazia ideia se estava em condições apenas de continuar dormindo ou se precisava tentar se alimentar de novo. Só a ideia de comer algo e ter que se levantar para vomitar era pouco convidativa. O corpo estava pesado e a pele fria por conta do próprio estado. Mas manteve o apoio em Vivien naquele momento, aproveitando o calor alheio. - Leve. - respondeu, roçando o rosto contra o peito alheio ao se deixar escorregar para deitar melhor ao lado do moreno, dessa vez procurando suporte para a cabeça no travesseiro, mas ainda mantendo a cabeça próxima ao corpo alheio e uma das mãos sobre a cintura dele. - Meu estômago dói... acho que minha pressão está baixa. Mas eu ainda preciso dormir... talvez eu ainda consiga algumas horas de sono, do remédio... Os comentários foram baixos mais pela indisposição e pela sensação de sono, mesmo que leve, remanescente a medicação. Ele não se esforçou muito para continuar acordado, agora que tinha conversado com Vivien e explicado tudo, agora que tinha chorado tudo, sentia-se mais tranquilo, e esperava que não fosse só uma sensação passageira. Quando dormiu, foi um sono bem mais leve e calmo. Não durou tanto quanto queria e ainda se pegou acordando aos sustos breves na madrugada. Mas foi mais fácil voltar a dormir, e o descanso pareceu bem mais prolongado. Somado o efeito do remédio com o da conversa, sua mente parecia num caminho mais certo de melhorar. E no primeiro dia depois da morte de Kyle, conseguiu acordar normalmente na manhã seguinte, sem surpresas, sem sustos e sem medo. Vivien
Supunha que Aleksei precisava mesmo daquela conversa, há alguns dias, de ter certeza que havia uma pessoa disposta a cuidar dele apesar dos problemas pelos quais ele ainda passaria apesar de tudo agora estar mais calmo. Talvez fosse mesmo sua vez de ligar para algum profissional que pudesse acompanhá-lo nisso, e outro que pudesse cuidar da alimentação delicada dele antes que o corpo ficasse mais fraco de tanto rejeitar a comida e a bebida, antes mesmo que o loiro estivesse no estado de ir a algum hospital. Deixou que ele se aninhasse perto de seu corpo, ouvindo todos os sintomas que ele sentia por se alimentar e dormir mal esses dias. - Vou ficar por aqui caso precise. E quando acordar pode comer e tomar algo. – falou calmamente, vendo aos poucos o loiro retomar o sono. Não tinha intenção de sair dali por ora, e demorou pelo menos uma hora para criar qualquer sensação de segurança para soltar Aleksei e sair para jantar e guardar a comida para que não estragasse. Preparou também algo para que ele comesse de manhã e que pudesse esquentar assim que Aleksei acordasse. Seria melhor se ele fosse até a mesa para comer, mas caso se sentisse fraco, contaria com bandejas. Notou como Aleksei ainda acordava no meio da noite, mas diferente de sentí-lo inquieto como antes, talvez pelo efeito do remédio, em pouco tempo ele voltou a dormir todas as vezes, até que enfim conseguiu descansar o fim da madrugada e acordou apenas cedo de manhã. Como Vivien tinha o costume de acordar muito cedo, já estava desperto quando Aleksei acordou, sentado com o computador no colo, aproveitando para dar uma olhada nos e-mails que tinha ignorado no dia anterior. Estendeu a mão para a cabeça do grego, afastando-lhe os fios claros do rosto em um carinho singelo, vendo se ele estava menos gelado que no dia anterior. - Bom dia, Alek. – cumprimentou-o, fechando a tampa do notebook e colocando-o de lado por um instante. Voltou preguiçosamente para a cama e abraçou o corpo de Aleksei, puxando-o para perto de si. - Vamos comer? Aleksei
Aleksei se virou na cama para encarar Vivien e constatar que ele estava com o computador no colo. A cama ainda estava quente, a proximidade foi apenas reforçada quando ele deixou o computador de lado para se virar em sua direção. Até abriu a boca para responder ao "bom dia", mas desistiu no caminho, sentindo a garganta seca. Aproveitou mais do calor do corpo alheio, só concordando com um aceno de cabeça quando ele chamou para que fossem comer. Não olhou a hora e não estava de fato interessado, mas ainda se demorou alguns minutos preguiçosos na cama para terminar de acordar, preguiça que era em muito contribuída pelo estado físico já debilitado. - Eu vou só lavar o rosto. - respondeu finalmente, a voz um tanto rouca, para se levantar da cama com um pouco mais de disposição e esforço também. Aleksei seguiu até o banheiro, enquanto Vivien ia até a cozinha para preparar mais uma refeição leve que, ainda assim, ele provavelmente teria dificuldade em digerir. Deixou a porta aberta, apenas para que Vivien não tivesse que lidar com a mesma situação da noite anterior. Não que pretendesse entrar na banheira, mas pegou a cartela de remédios que tinha deixado ali e arrumou em suas coisas outros frascos com medicações diferentes. Não tomou nenhum, voltou até a cozinha a passos quase arrastados, sentindo a pouca força que tinha nos músculos. Chegou no cômodo para se sentar à mesa, já sentindo o cheiro do café invadindo o ambiente e da comida que Vivien estava terminando de esquentar. Colocou os remédios sobre a mesa, chamando a atenção do francês. - Esse aqui foi o que tomei ontem de noite. - Aleksei apontou a cartela, explicando de um modo bem prático. - É para ajudar a dormir, é forte. E esses são para tomar três vezes ao dia, ou em algum momento de pânico, me ajuda a... manter as emoções em ordem. - ele deixou os remédios de lado, cruzando as pernas e se recostando à cadeira. - Eu estive aumentando as doses para conseguir dormir e trabalhar no último mês. Mas agora que as coisas se resolveram, parcialmente… eu preciso de tratamento. Vivien
Concordou silenciosamente que Aleksei fosse lavar o rosto, levantando preguiçoso enquanto assistia ele entrar no banheiro sem trancar a porta para seu alívio. Só depois seguiu em direção a cozinha, indo requentar a comida que tinha deixado pronta no dia anterior e fazer um pouco de café para si mesmo, pois com Aleksei ainda acordando no meio da noite, não pode dizer exatamente que teve uma noite tranquila. Deixou servido para ele uma torrada pequena e uma tigela igualmente reduzida com um mingau e algumas frutas. Embora soubesse que não era a melhor comida do mundo, bastava um pouco daquilo para encher e precisava que Aleksei comesse nem que fosse um pouco. Quando Aleksei chegou, um tanto arrastado por estar debilitado, observou-o enquanto ele ainda se sentava a mesa se segurando para poder lhe mostrar um pouco sobre os remédios que estava tomando. Sentou-se junto dele à mesa com seu café e um pedaço de pão apenas, observando-o a cartela conhecida do dia anterior e outros que pelo visto era de algum remédio psicoativo. Até podia imaginar que ele tomava algo para poder suportar estar sendo perseguido por Kyle, mas ouvir diretamente do loiro era bem mais real. Apertou os lábios, tomando mais um gole de café para terminar de despertar. - Estava pensando o mesmo quando acordei hoje pela manhã, mas você está mais ciente do que precisa que eu, Alek. Mas eu posso procurar alguém. Só que Cerise não é exatamente cheia de bons psiquiatras. – respondeu, puxando então um pedaço de pão para comer, esperando se Aleksei tentaria também comer o que tinha servido. Aleksei
Aleksei começou se servindo das frutas, apenas para tentar abrir mais o apetite. Sabia que não era fácil para Vivien saber o que ele tinha passado e o motivo daqueles remédios, mas assim como tinha detalhado a situação para ele na noite anterior, não queria deixar as explicações pela metade. Além do mais, o fato de ter se aberto para Vivien, o que devia ter feito há mais tempo, lhe fez perceber que era exatamente o que precisava: compartilhar com alguém, e um profissional exatamente da sua alçada era a melhor alternativa. O grego ainda sorriu para o comentário dele de que não havia bons psiquiatras em Cerise. Precisaria de um, de um terapeuta, provavelmente um nutricionista, mas aquilo era mais fácil de arrumar com seus contatos. De todo modo, o pensamento mais breve lhe levava até Paris. Cerise não era o melhor lugar para estar, dado todo o cenário da perseguição e a falta de profissionais adequados. Mas Aleksei ainda pensou nas alternativas e imaginou que seria um problema se deslocar constantemente para Paris e como aquilo poderia ser inconveniente para Vivien também, que precisava resolver a situação em St. Clavier. – Eu agradeço, mas tenho alguns contatos também a quem posso recorrer. De qualquer modo, eu imagino que o lugar mais próximo para atender às minhas necessidades atuais seja Paris. – ele explicou, pegando o mingau para se servir, mas desistiu no meio do caminho, voltando a atenção para Vivien. – Eu sei que você tem coisas a resolver em St. Clavier e eu tenho pacientes a encaminhar. Mas no estado em que eu estou, não acho que seria muito prudente viajar para Paris regularmente. Na verdade… mesmo que Cerise seja uma bela cidade, eu não sou completamente avesso à ideia de me mudar para Paris. – ele adicionou. O fato de não comer não era tanto pela falta de vontade, mas pela inquietação do assunto. – Eu não quero continuar em Cerise, Vivi. – daquela vez, expressou o desejo bem mais direto. – E eu não quero ir sozinho pra Paris. Vivien
Supunha que sendo um médico formado e um sujeito de muitos contatos, Aleksei saberia que profissionais procurar. Deveria ter algumas pessoas de confiança no meio, algumas que teriam mais experiência com situações de traumáticas como a dele e que fossem bons profissionais. Pensando bem, os nomes que ele indicasse seria muito mais bem vindos que as recomendações de pessoas de seu meio social. Assistiu enquanto ele pegava o mingau e desistia antes de comer, fazendo uma nota mental para fazer algo que fosse menos nutritivo mas mais apetitoso, afinal, Aleksei precisava comer, e não necessariamente comer algo bom para a saúde. A vontade de comer já era necessária. A segunda coisa que lhe chamou atenção foi ele mencionar Paris. Encarou-o mais atentamente quando ele mencionou a cidade, ouvindo todas os pontos levantados por Aleksei. Não era avesso a ideia de mudar para Paris também, embora isso não tivesse passado em sua mente antes. Estava tão focado no estado dos dois que não tinha parado para pensar que não só Kyle, mas a cidade toda deveria ser bem desagradável para Aleksei agora. E enquanto não compartilhava o mesmo sentimento, sabia como era estar desagradado com o lugar onde estava. Até sua casa tinha sido invadida por Kyle, por exemplo. Claro, notou o desconforto de Aleksei de admitir que não queria ficar em Cerise, e que isso significava que Vivien teria que acompanhá-lo. Assentiu silenciosamente com a cabeça assim que ele terminou, rapidamente pensando possibilidades lógicas e estáveis pra a proposta de Aleksei, embora não fosse recusar caso essa estabilidade fosse complicada. - Então vamos os dois para Paris. – afirmou com segurança, talvez porque essa fosse a única certeza que tinha na mente então. – Não tenho intenção alguma de lhe deixar sozinho, ainda mais se você vai passar por tratamento. Caso esteja preocupado com o que tenho para resolver em Cerise, não é nada que precise de mim todos os dias aqui, e mesmo que precisasse, eu comutaria entre lá e cá até tudo se resolver. Não vai levar tanto tempo assim. – adicionou, embora não tivesse detalhado tudo. Os dois eventualmente lidariam com sua situação sem St. Clavier. Aleksei
Aleksei notou o breve tremor da mão segurando a colher e movendo-a dentro do mingau. Sabia que não haveria uma negativa de Vivien, mas a mera possibilidade de resposta lhe deixou ansioso. Pareceu até mais fácil respirar e soltar o ar quando ele respondeu bem diretamente para os dois irem a Paris juntos. A sensação de ouvir a resposta e ainda de escutar que não ficaria sozinho foi de alívio, como tinha sentido ao confessar o que estava passando na noite anterior. - Ainda bem que os assuntos inacabados aqui não vão demandar tanto tempo então. - ele respondeu, com um sorriso breve, finalmente começando a se servir do mingau. - Ao menos não preciso pensar na alternativa de você não poder ir. Ele continuou o café da manhã até terminar pouco mais da metade do mingau. Era uma comida leve e mais uma tentativa de não lhe fazer vomitar, mas adicionou ao final do prato um dos comprimidos que tinha mostrado para Vivien antes. - Eu acho que vou ocupar meu tempo e fazer algumas ligações agora. Posso encontrar logo alguém com quem falar em Paris. - Aleksei avisou, levantando-se apenas para levar o prato à pia e parando encostado ali para se virar para Vivien. – Espero que não se importe de fazermos uma mudança um pouco rápida, dependendo das respostas que eu conseguir. Indicações de onde podemos ficar lá, Vivi? Vivien
O tremor de Aleksei na mão foi notável. Não sabia se ainda eram efeitos dos remédios ou a fraqueza do dia anterior, mas quando deu uma resposta positiva e o mesmo cessou um pouco, entendeu que talvez sua resposta, por mais certa que fosse, ainda deixava Aleksei em dúvida. Essa dúvida sobre suas escolhas – e principalmente aquelas que priorizam o grego – provavelmente só desapareceriam depois de um tempo morando juntos, quando deixassem um pouco mais as incertezas de estarem separados até alguns dias antes e do relacionamento incerto que agora era favorável aos dois enfim. Sorriu de volta quando ele falou dos assuntos de St. Clavier. Sobre eles, ainda teriam que discutir um pouco. Especialmente porque sabia que isso implicava em uma série de consequências para Vivien, incluindo ficar desempregado. Mas resolveria esses problemas quando chegassem. - Se surgir algum contratempo dessa mudança, resolveremos quando chegar. Mas tenho confiança de que causariam mais problemas para as pessoas de Cerise que para nós dois. – adicionou com ar de quem tentava se divertir com aquelas possibilidades. Talvez o alívio da conversa e do rumo mais certo do que fariam deixou Aleksei aliviado o suficiente para que conseguisse comer um pouco. Ainda tinham os remédios, mas não podia fazer nada quanto a isso. Mas era bom vê-lo animado para colocar o plano em prática. Pelo visto quão mais rápido ele saísse de Cerise, melhor. E não teria problemas de fazer essa mudança por ele rápido como quisesse. - Eu só não gostaria de morar perto de onde morei quando era mestrando. Posso me dar o luxo de alugar um bom apartamento. – franziu a testa, terminando seu café também e levando a caneca a pia, colocando-a do lado de Aleksei. – Vou aproveitar e ligar para meus contatos em Paris também. E avisar a uma amiga que estaremos indo até lá. Confio que ela pode achar um bom lugar para nós dois enquanto nos organizamos em Cerise. Aleksei
Embora a prioridade renovada de Aleksei fosse iniciar os tratamentos que precisava para lidar com a situação de estresse do último mês, assim como Vivien tinha assuntos para resolver em Cerise, ele tinha algumas pendências. O que era complicado de lidar, já que não estava num estado mental para tratar dos seus pacientes. A maioria dos alunos em St. Clavier só receberia a notificação de que o psicólogo mudaria. O único caso que lhe restava prestar atenção era o de Renaud Blanco, já que o caso de Stefan tinha tomado um rumo completamente fora de suas mãos e nem se quisesse, teria como cuidar do rapaz. – Eu bem gostaria de ver onde você morou em Paris, Vivi. Mas podemos passar lá só de visita. – Aleksei respondeu, voltando-se na direção de Vivien ao seu lado. – Posso aproveitar e procurar algum lugar para alugar. Eu não acho que precise mudar imediatamente, talvez ainda tenha alguma coisa para resolver na polícia, mas posso marcar as coisas para a próxima semana. Se for preciso, posso reservar um hotel pra nós. Aleksei se aproximou o curto espaço entre os dois passando um dos braços em volta da cintura alheia e inclinando o rosto até beijar levemente a face esquerda dele, próximo ao canto dos lábios. Embora Vivien já tivesse tirado aquele limite entre os dois, não era a sua reação mais natural. – Me avise se precisar de ajuda com mais revisões. – sorriu ao se afastar do francês para seguir até o quarto e fazer as ligações que precisava. Vivien
- Visitar aquele lugar só deve valer a pena se o restaurante indiano da outra quadra ainda estiver aberto. – Vivien respondeu com uma expressão pensativa, embora não fosse admitir que achava divertido que Aleksei tinha algum interesse em conhecer seu passado de estudante pobre. Havia, claro, alguns empecilhos até que pudessem mudar completamente para Paris, mas enquanto visitassem locais para morar, talvez fosse um passeio interessante. Era só ter certeza que não dormiria em uma cama de solteiro de tábuas no fim do dia. – Reserve um hotel então. Até semana que vem, devo ter olhado alguns locais promissores. Sentiu os braços em sua cintura e não hesitou de voltar-se na direção de Aleksei. Esperou ele se aproximar como ele preferia, porém, ao sentir o beijo no rosto, não conseguiu segurar o sorriso mais largo que surgiu em seu rosto. O hábito que tinha imposto aos dois podia ser terrível, e só percebia isso agora. Mas de certo modo, era adorável que ele ainda respeitava aquela distância. Concordou silenciosamente com a ida de Aleksei até o quarto para lidar com as ligações, notando que talvez ele parecesse um pouco menos indisposto agora que tinha um objetivo a cumprir. Porém Vivien tinha ficado um pouco incomodado. Coçou a nuca e caminhou atrás de Aleksei, observando-o com o celular em mãos para fazer as ligações. Estendeu o braço para segurar o pulso dele antes que levasse o celular até a orelha e, sem deixar tempo para que ele pensasse demais, beijou o loiro sobre os lábios, um pouco mais longamente que o beijo em seu rosto, propositalmente deixando outro beijo breve em seguida antes de se afastar com um sorriso mais satisfeito no rosto. - Reserve sua tarde para os artigos. – respondeu, indo terminar de arrumar a cozinha como deveria ter feito. Aleksei
Aleksei chegou logo ao quarto, pegando o celular que estava na mesa de cabeceira ao lado da cama. Deu uma olhada em algumas mensagens e deixou-as de lado para procurar números de contatos conhecidos ali mesmo na França. Ainda tinha alguns colegas de profissão da época que tinha passado um tempo na Holanda e aquele pensamento lhe deu uma sensação breve de que estava esquecendo alguma coisa. Já estava discando o primeiro número e levou o celular ao ouvido quando o ato foi interrompido por Vivien para lhe beijar os lábios bem mais diretamente. Não teve tempo de perguntar nada e só se deixou levar pelo gesto que era bem mais completo do que o beijo breve que tinha dado nele antes. Ouviu a resposta do outro lado do celular, afastado do ouvido, e foi bem em tempo de Vivien se afastar e dizer que reservasse a tarde. Só sorriu de leve e concordou com um aceno de cabeça, voltando à ligação para falar com alguém em holandês. O resto da manhã foi bem mais prático do que Aleksei tinha calculado mentalmente. Conseguiu falar com alguns conhecidos antigos e foi fácil marcar uma sessão com um psiquiatra e um terapeuta logo na semana seguinte, em Paris, como tinha planejado. Aproveitou para reservar um hotel que fosse próximo do consultório pela comodidade, ao menos até arrumarem um apartamento, o que deixaria completamente a cargo de Vivien. Ainda sentiu mal-estar durante a manhã, mas conseguiu não vomitar o café da manhã e assim seguiu ao longo do dia, com refeições leves e agora com o auxílio renovado dos medicamentos que já estava tomando. O almoço não foi tão feliz quanto o café da manhã e acabou vomitando mais uma vez, e os artigos que tinha prometido revisar, deixou de lado para descansar um pouco durante a tarde. Só levantou para comer algumas frutas quando Vivien lhe chamou perto do fim da tarde, e ainda avisou ao moreno sobre ir tomar banho apenas para que ele tivesse certeza que não ia acabar dormindo na banheira de novo. No curto tempo em que Aleksei entrou no banho, entretanto, foi o suficiente para o som do interfone chamar a atenção de Vivien na sala. Aleksei não teve como ouvir o interfone e ao atender, o dono da casa só ouviu a mensagem embolada do porteiro do outro lado avisando apenas sobre uma mulher bonita e loira que estava pedindo para subir. Vivien
Assim como Aleksei teve uma manhã produtiva, parou um pouco os artigos que estava escrevendo para pesquisar propriedades em Paris que pudesse alugar. Admitia que não era sua intenção morar em Paris para começar, mas vendo os apartamentos, até sentia falta do clima de uma cidade grande, estando há 12 anos de volta em Cerise. Ligou para sua prima que morava em Paris e pediu que ela reservasse um dia ainda aquela semana para visitar alguns locais e verificar a veracidade das fotos dos corretores de imóveis. Sua aliada na busca por um apartamento, claro, fez questão de lhe lembrar porque raramente ligava para ela; mas supunha que ela estava feliz em saber que não mudaria de Cerise sozinho. Aleksei parecia ter melhorado. Ao menos o café da manhã conseguiu segurar no estômago com ajuda dos remédios que ele em breve faria tratamento para deixar, mas o almoço foi outro caso. Sabendo o que esperar, deixou que ele descansasse na expectativa de, depois de um banho (sem surpresas), o loiro conseguisse comer mais um pouco para que o corpo conseguisse se reabilitar. Quando Alekse entrou no banho, foi atender o interfone com o porteiro e mal falava francês e ele lhe avisou de uma visita loira e bonita. E mulher. Franziu a testa, supondo que se fosse Leona Blanche, ele teria lhe avisado apenas que era “hmdfbs –Leoahsiad-Blaajshaunche”, já que ela tinha aparecido ali mais de uma vez. Porém, o nome que surgiu no interfone foi mais claro do que aquele homem jamais tinha falado. Vivien sentiu os lábios se curvarem em um sorriso automaticamente e deu permissão para que ela subisse. Abriu a porta do apartamento e como se fosse uma reação automática, ergueu o queixo de leve, observando a figura feminina sair do elevador. - Boa tarde, madame Jansen. – cumprimentou-a, esperando que ela se aproximasse então. – É uma satisfação conhecê-la. Maud
Maud Jansen era uma pessoa de muitos contatos, muitos colegas, muitos favores e poucos amigos. Dada a carreira e a vida que tivera, num mundo cheio de pessoas que vestiam máscaras confortáveis, ela tinha aprendido a distinguir desde cedo em quem confiar. E pelos poucos amigos que conhecia bem e que podia contar nos dedos de uma mão, faria muito sem pensar duas vezes. Foi por aquele motivo que não se importou de sair de Amsterdã num voo marcado de última hora para Paris, para de lá pegar outro carro que lhe levaria até uma pequena cidade do interior, Cerise, que estava no mapa pela famosa academia St. Clavier e onde tinha posto os olhos uma vez há algum tempo para justamente indicar uma mudança de ares para um velho amigo. O mesmo velho amigo, Aleksei Vlahos, que tinha lhe ligado num sábado à noite apenas dois dias antes para lhe atualizar da vida pessoal e dos transtornos que tinha passado durante o longo mês e que retomavam um acontecimento de anos atrás. Aleksei não colocou em palavras, mas era óbvio pelo tom dele e pelo que conhecia do homem que as coisas não estavam bem. Não fez questão de oferecer sua ajuda, porque a despeito das coisas “não estarem bem”, ele não estava “sozinho”, o que era uma novidade boa e interessante. Mas ele explicou bem onde estava e como estava e por isso, fez questão de ir pessoalmente até lá, mesmo que sozinha, mesmo que desavisada. Não foi difícil conseguir passagem com o porteiro de língua complicada e imaginou que o próprio Aleksei teria atendido a chamada para lhe mandar subir. Mas a reação também não foi de surpresa quando as portas do elevador se abriram e antes que pudesse procurar o número do apartamento, um homem moreno lhe esperava à porta, de queixo erguido, com uma expressão bem satisfeita, ao que parecia. Observou-o além da aba do pequeno chapéu lateral branco por uns instantes enquanto os passos em saltos scarpin brancos alcançavam a entrada do apartamento. Ergueu o queixo não tanto numa reação, mas pelo simples fato de que ele era mais alto. Estendeu a mão livre da pequena bolsa carteira azul escura que carregava. – Eu peço desculpas por aparecer sem avisar, Sr. St. Clavier. – ela esperou que ele lhe cumprimentasse de volta. Assim como ele sabia o seu nome, não era segredo que soubesse o dele, considerando a pessoa em comum entre os dois. Quando os nomes tinham surgindo, bom, era um ponto irrelevante naquele instante. – É um prazer conhecê-lo também. Aleksei está aqui? Ou cheguei numa hora inoportuna? RE: [Drive] On the Edge [Vivien; Aleksei] - Lil - 09-01-2021 Vivien
Aquela era uma mulher elegante. Do salto ao chapéu, ela lhe lembrava as amigas de sua mãe, só que um pouco menos espalhafatosas... e velhas. Podia ver que ela tinha uma presença do momento em que saiu do elevador, no modo de andar e na delicadeza de lhe tratar. Ao menos sabia que Aleksei estava morando consigo. Supôs, entretanto, que ela não tinha avisado a ele que viria, pois se havia pedido desculpas por aparecer desavisada e o grego de fato não tinha dito nada, era o mais lógico a se pensar. Estendeu a mão de volta, cumprimentando-a por um instante ainda à porta. Mas como o conhecido dela era Aleksei, logo foi ao ponto. - Não tem problema. – respondeu sobre o pedido de desculpas breve. Se tivesse problema, teria deixado ela na porta. Na verdade sua curiosidade sobre a mulher era até bem grande, dado o que Aleksei tinha dito; e e ele precisava de visitas para distraí-lo dos infortúnios diários. – Entre. Sente-se por um instante. O Alek está no banho, mas vou avisar que veio. Ele não deve demorar. – respondeu, estendendo a mão em direção a sala e indicando o sofá enquanto saía do caminho para que ela entrasse. – Com licença um minuto. Andou até o quarto calmamente, parando à porta e colocando a cabeça pela mesma de modo indelicado, procurando por Aleksei. - Alek, você tem visita. Maud Jenssen. – anunciou, tentando manter a compostura, embora não tivesse conseguido conter inteiramente o sorriso nos lábios ao falar o nome dela, entretido com a ideia toda de uma visita surpresa. Andou até o quarto e deu uma olhada breve no espelho, só imaginando que ela poderia ter vindo em um dia em que estivesse menos vestido com a aparência de “casa”. Se sentia praticamente de pijamas com as calças folgadas e a camiseta casual. Tirou os cabelos da posição de quem andava fazendo trabalhos domésticos e andou de volta até a sala, dirigindo-se então a Maud. – Ele está avisado. Deve sair em breve. Quer algo para beber enquanto espera? Café? Chá? Suponho que tenha vindo de longe. Só Cerise para a capital é uma boa distância. – ofereceu um pouco de conversa casual enquanto ela esperava. Não sabia se ela era o tipo quieto ou se apreciava uma conversa vazia, e sequer imaginava se Aleksei havia falado sobre os eventos passados. Mas supunha que se ela estava ali, alguma coisa sabia. Maud/Aleksei
Ele lhe devolveu o cumprimento rapidamente e abriu espaço para que ela entrasse no apartamento. Com um aceno de cabeça, ainda pediu licença e seguiu a passos curtos apenas o suficiente para que ele pudesse fechar a porta e guiar o caminho. – Obrigada. – só respondeu à disposição dele de ir chamar Aleksei e parou a alguns passos de distância dos sofás da sala. Não chegou a se acomodar, parou de pé observando a sala, segurando a bolsa numa das mãos diante do corpo. Quando Vivien desapareceu por um breve instante no corredor, tirou o chapéu e ajustou os fios de cabelo loiros, segurando o chapéu junto à bolsa pequena. Teve tempo apenas de dar uma olhada na decoração geral ao redor antes do dono do apartamento voltar. – Não, obrigada. Não pretendo tomar muito de seu tempo. – ela não fez questão de se acomodar, e não se importou também se o fato de estar ali, de pé, de frente para o único corredor do apartamento que levava aos quartos, incomodaria o dono da casa. Não estendeu a conversa e não demorou tanto tempo para que a atenção se voltasse para Aleksei, que surgiu no fim do corredor apenas poucos instantes depois do aviso de Vivien. O grego não estava no seu melhor estado físico e depois de ouvir o aviso de Vivien na porta do quarto sobre a visita que tinha, a surpresa era impossível de se disfarçar em sua expressão. Aleksei surgiu na sala a passos um tanto apressados, num conjunto de linho cinza casual com uma gola alta o suficiente para esconder o estrago que ainda estava em seu pescoço. Os cabelos jogados para trás ainda pingavam um pouco e assim que ele colocou os olhos sobre a mulher parada na entrada da sala, deteve os passos automático. Maud apenas o encarou de volta, avaliando a aparência abatida e arrumada às pressas e deixou um sorriso discreto surgir nos lábios ao erguer o rosto para Aleksei. – Maud...? Eu não estava... esperando. – Aleksei apenas a encarou daquela distância, parecendo ineditamente deslocado. – [Está melhor do que eu esperava, Aleksei.] – a resposta da mulher foi em holandês, ao estender a mão livre na direção do loiro como se esperasse para cumprimentá-lo. Só então que o grego pareceu sair do estado de surpresa para cruzar o resto do caminho, e precisou apenas se aproximar o suficiente para que a mão dela seguisse até o seu rosto, e ela mesma se curvou para beijá-lo na testa. – Depois do que me contou, não esperava que eu ficasse longe, não era? – ela completou de volta ao francês, baixando a mão que estava no rosto alheio para se virar para Vivien. – O Sr. St. Clavier foi muito gentil em me receber a despeito da intrusão. – Eu agradeço a visita, mesmo inesperada. – Aleksei se recompôs finalmente, mantendo a curta distância da mulher. Vivien
O fato de que ela não tinha se sentado lhe incomodou um pouco. Pelo visto ela não estava muito interessada em uma conversa casual. Estava incomodada por ter vindo sem avisar? Sorriu suavemente quando ela afirmou que não pretendia tomar o tempo de Vivien. - Então tome um pouco o tempo do Alek. Creio que ele vai ficar feliz com sua presença. – respondeu numa voz mais suave, supondo que a visita dela ser para Aleksei era mais que lógica e mais necessária também. Ainda que estivesse entretido e curioso, sua própria diversão não era exatamente prioridade. E a expressão de surpresa de Aleksei lhe deixou bem interessado. Afastou-se um pouco dos dois quando Aleksei entrou na sala, dando algum espaço já que ela já havia dispensado sua companhia. Porém, sentiu que mudou de expressão no momento em que Maud falou em outro idioma. Ergueu o queixo um pouco mais e voltou o olhar para os dois, que trocaram cumprimentos próximos. Silenciosamente, respirou fundo notando que Aleksei, apesar de surpreso com a presença dela ali, não estranhava a aproximação. Na verdade, como ele estranharia, eles sendo íntimos? Sorriu com o canto dos lábios quando Maud falou que Vivien tinha sido gentil em permitir a visita, fazendo um sinal breve com a cabeça de que estava tudo bem. - E você, Alek? Precisa de alguma coisa? Vou terminar de organizar umas coisas e deixar vocês livres para conversar. Aleksei
Aleksei voltou a atenção para Vivien tão logo Maud o mencionou. Se estivesse um pouco mais disposto, teria lembrado de uma situação em que tinha suposto que Vivien e Maud se dariam bem, ou não tão bem porque era ele que estava entre eles. Mas a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi o fato de que tinha conversado sobre a situação com Maud e inclusive tinha passado o endereço do apartamento sem prévio aviso. – Desculpe, eu passei o endereço a ela e não lhe avisei. – Aleksei passou uma mão pelos cabelos, parado ao lado de Maud ainda sem raciocinar direito se devia chamá-la para se sentar, ou para ir para algum lugar, ou se deveria oferecer alguma coisa. Mas antes de pensar na resposta, Vivien que perguntou do que precisava e sugeriu lhes dar espaço. – Não, não preciso, está tudo bem. Obrigado, Vivi. Acenou com a cabeça para o francês, acompanhando-o ainda com o olhar por um longo tempo até que ele deixasse o cômodo. Foi o suficiente para que Maud observasse a interação breve e estendesse a mão de volta até segurar a do grego, só então conseguindo a atenção dele de volta. – [Gostaria de ter sido apresentada ao seu "ele" numa situação melhor. Mas estou feliz que a despeito dos transtornos, você parece bem.] – ela avisou, levantando a mão para ajustar a roupa dele, passar os dedos pelos fios molhados e colocá-los para trás. – [Você é muito bonito para se negligenciar desse jeito, Aleksei.] Aleksei a encarou de volta por uns instantes, assimilando as palavras, como se prendesse o ar até soltá-lo num longo suspiro. Segurou a mão dela que estava em sua nuca e cobriu o resto da distância entre os dois, apoiando a testa no ombro alheio e passando a mão pela cintura feminina num abraço fraco. – [Foi péssimo... o mês inteiro. Eu estava completamente sozinho… eu estou tão cansado, Maud.] – ele deixou as palavras saírem num sussurro breve. – [Ao menos você não está mais sozinho, não é? Eu vejo que vocês finalmente se entenderam? Digo, mais do que você me disse no sábado.] – Maud respondeu. – [Eu que deveria ler os outros com essa facilidade, Maud.] – Aleksei riu, afastando o rosto do ombro dela. – [Eu aprendi com o melhor.] – ela respondeu. – [Eu fiquei muito preocupada com você quando me ligou, Aleksei. E eu sabia que se sugerisse vir até aqui, você não aceitaria. Você demorou bem mais do que um par de dias para me dizer o que tinha acontecido três anos atrás, bom saber que você está mudado. E bom saber que seu entendimento com o Sr. St. Clavier é mais extenso agora.] – [Desculpe] – ele levou uma mão ao rosto, esfregando os olhos, ainda parecendo pouco ciente do fato de que não tinham sequer se movido de onde estava. – [Foi pior dessa vez… mas quando acabou, Vivien estava aqui por mim. E eu não tinha percebido o que significava, até ontem.] – [Bom, eu não sei a história toda, mas depois de sua última visita, acho que era o mínimo que ele deveria fazer, não? Estar aí por você.] – Maud respondeu. – [Você precisa se cuidar, Aleksei. E eu sei que você tem sérias tendências a não fazê-lo.] – [Eu sei. E eu estou me cuidando.] – Aleksei respondeu. – [Nós vamos para Paris. Eu procurei alguns profissionais, para fazer tratamento. Eu sei de verdade que não consigo resolver as coisas sozinho agora, e Vivien também não vai me deixar fazer isso sozinho.] Maud apenas o encarou com um quê de surpresa daquela vez. – [Bom, então minha presença não era tão necessária quanto pensei.] – ela sorriu mais largamente daquela vez, levantando a mão livre para pousar no peito dele. – [Isso é mentira, eu sempre preciso de você, Maud.] – [Não precisa, não, Aleksei. Mas estou feliz que pense assim, porque eu penso o mesmo.] – a mulher respondeu, recebendo apenas um sorriso breve de Aleksei que lhe segurou a mão e levou-a até os lábios, beijando-lhe as costas. – [Desculpe, eu não ofereci nada, nem mesmo um lugar pra sentar. Onde estão meus modos?] – riu do próprio comentário, considerando que ela mesma tinha lhe ensinado etiqueta. – [Posso fazer um chá?] – [Eu não sei onde o Sr. St. Clavier está, mas imagino que depois de ter negado a oferta dele, se aceitar a sua, o descontentamento dele não ficará só na expressão.] – ela comentou, dando uma olhada breve ao redor como se esperasse encontrar o dono da casa avaliando a conversa dos dois. – [E eu compartilharia do descontentamento. Você não está em condições de fazer essas coisas, Aleksei.] – [Isso não é verdade. Mas por que não sentamos, então?] – [Eu fiz uma longa viagem e vim direto até aqui, meu motorista está esperando e eu gostaria de descansar um pouco. Mas eu pretendo ficar em Cerise por uns dias, precise você ou não. Então, por que não marcamos um jantar? Eu gostaria de conhecer melhor o Sr. St. Clavier, e acredito que seria muito deselegante continuarmos uma longa conversa sem a presença do dono da casa, sim?] – ela sugeriu. – [Parece bom.] – Aleksei concordou com um aceno de cabeça. – [Eu preciso de uma mudança de ares.] – [Estarei aguardando sua resposta então.] – ela respondeu. – [Ofereça meus agradecimentos a ele pela hospitalidade. Eu estou voltando para o hotel agora, estou hospedada no Sur de la Mer.] – [Certo. Obrigado pela surpresa…] – ele sorriu, acompanhando-a até a entrada do apartamento. Despediu-se com um beijo no rosto e Maud apenas recolocou o chapéu, para seguir até o elevador. Aleksei ainda observou até as portas se fecharem e só então voltou para dentro do apartamento. Vivien
Aleksei deveria saber que também não se importava dele ter dado seu endereço para uma amiga próxima, tanto quanto não se incomodava com a visita surpresa, especialmente porque ele precisava daquela companhia. Até o dia anterior, ainda não tinha conseguido sequer se abrir para Vivien, e não fosse a situação de estresse, talvez nem tivesse. Vê-lo mostrar outra expressão além do cansaço lhe deixava mais satisfeito. Foi até a cozinha, talvez inconscientemente pensando em ouvir trechos da conversa dos dois, porém, mal lavou o primeiro prato ainda restante do almoço, notou que iria conversar no idioma estrangeiro. Se pegou coçando a nuca, um tanto frustrado com aquela situação e depois de rapidamente lavar o outro prato e talheres ainda do almoço, deixou os dois conversarem em paz enquanto se escondia um pouco na área de serviço. Esticou a mão para uma prateleira onde costumava colocar produtos de limpeza e agarrou uma cartela de cigarros que havia escondido de si mesmo no meio do conturbado mês anterior, tirando um cigarro e levando a boca enquanto abria a pequena janela daquele espaço. Rolou o cigarro entre os lábios por um instante, considerando acender ou não. Supôs que se tivesse que ver Maud novamente na sala, depois de toda a conversa entre Aleksei e ela, seria melhor não retornar com o cheiro de cigarros. Já não bastava que fumava constantemente? Talvez acabasse ficando bem mais óbvio que o que disse não incomodar – ou o que achava que não incomodava – na verdade acabou incomodando, sim. Não porque desgostava da presença dela ali, ou porque ela estava de pé ao invés de sentar como havia pedido. Tinha recepcionado Maud com um entusiasmo quase infantil, num orgulho de estar com Aleksei, certamente... mas tão rápido quanto sentiu tudo isso, ver o grego desarmar com a presença dela quase que imediatamente também desfez seu entusiasmo. Colocou o cigarro de volta na carteira e a mesma foi para o bolso da calça que usava. Aleksei precisava daquele conforto, claro. Mas foi estranhamente desgostoso lembrar que aquela reação e aquela proximidade tinha sido conquistada pelos dois em um relacionamento, que eles eram próximos e que diferente da fronte forte de Aleksei para si; para ela, ele não precisava aparecer tanto. Estava tão confortável em ter sempre a atenção do grego só para si... suspirou longamente. Levou a mão até a nuca mais uma vez. Para que super complicar aquele sentimento? Não esperava sentir ciúmes. Era só isso. - Você ainda sabe ser patético, Vivien Hector St. Clavier... - riu baixo para si mesmo, preferindo o silêncio em seguida, especialmente por ter ouvido o ruído da porta abrindo ou fechando. Caminhou de volta para a cozinha devagar, encontrando com Aleksei no caminho. – Ela já foi? Achei que ficaria mais tempo. Espero que não tenha sido minha culpa. – ergueu as sobrancelhas, levemente surpreso que ela realmente não tinha demorado para ir embora. Aleksei
Aleksei fechou a porta do apartamento e seguiu de volta para procurar por Vivien. Teria passado direto para o quarto, sem saber exatamente onde ele tinha ficado naquele meio tempo, mas o avistou voltando para a cozinha da área de serviço e o acompanhou. Entrou na cozinha parando a alguns passos de distância do francês, literalmente observando-o com os braços cruzados diante do corpo e demorando alguns longos instantes para responder aos comentários sobre Maud ter ido embora. – Hm. – negou com um aceno discreto, mantendo a distância de alguns passos ainda o observando de um modo um pouco diferente. – Ela fez a viagem direto de Amsterdã para cá, disse que precisava descansar. Pediu para lhe agradecer pela hospitalidade. O olhar intenso sobre Vivien não diminuiu. Estava pensando ainda como tinha sido fácil para Maud distinguir o seu estado mental apenas da conversa que tinham tido no sábado por telefone para o encontro pessoal. Era bem verdade que a conversa que tivera com Vivien no dia anterior tinha esclarecido mais coisas, tinha aproximado os dois de um jeito que não se permitira até então. Aleksei não tinha parado para se analisar a fundo, mas tinha consciência de que era muito difícil mostrar para Vivien o seu lado mais abalado apenas porque não queria que ele lhe visse como algo "menos" do que parceiro "perfeito" que tinha reencontrado em Paris depois de tantos anos. Mas o fato de que aquela confiança entre os dois poderia ser tão óbvia em seu próprio estado era uma novidade e Maud tinha sido bem feliz em apontar aquilo. Aleksei saiu do estado de observação silenciosa para se aproximar de Vivien, mais assertivo daquela vez, passando os braços em volta do corpo dele e o abraçando próximo para se dar à liberdade também de unir os lábios aos dele num beijo mais intenso do que os breves selinhos que tinha compartilhado com ele nos últimos dias. Afastou os lábios, os dedos fracos pressionados contra as costas de Vivien e mantendo a proximidade a despeito de ter cessado o beijo. – Agora está certo. – Aleksei sorriu, apoiando o rosto no peito dele e respirando fundo, mantendo-se naquela proximidade confortável. – Maud vai ficar alguns dias na cidade. Ela sugeriu um jantar, gostaria de conhecê-lo melhor. O que você acha? Vivien
Franziu a testa ao ver a pose de Aleksei, os braços cruzados e a resposta curta e de pouca informação. Tentou entender por um instante o que aquilo significava, mas sorriu por um breve instante, sem entender porque estava sendo encarado daquela forma. Porém logo ele decidiu falar mais de Maud e supôs que era apenas cansaço da parte de Aleksei. - Bom saber. – respondeu, sabendo que de Amsterdã até Cerise podia ser uma viagem bem cansativa. Só de Cerise para Paris já conseguia cansar, mesmo não sendo o motorista. Esperava então que seguissem seu caminho, mas o olhar de Aleksei não saiu de sua direção. Observou-o de volta, inconscientemente realinhando o queixo como se manter a pose fosse sua segunda natureza. Não lhe incomodava ser observado, claro. Mas que o olhar do outro atiçava a sua curiosidade, se atiçava. Talvez não se incomodaria com o olhar e o silêncio não fosse a presença de Maud ali anteriormente, o que fazia sua cabeça dar voltas no que a conversa dos dois tinha sido. Já ia rir naquela troca meio que um concurso de encarar quando Aleksei decidiu cortar o espaço entre os dois e lhe abraçar firmemente pela cintura. Sentiu um alívio imediato ao vê-lo lhe procurar por carinho. Talvez não aparentasse estar tão relaxado que quando com Maud, mas o fato de que ele tinha se aproximado e queria sua companhia fez com que Vivien parasse de pensar por um instante no encontro dele com a mulher. Abraçou o corpo mais magro de volta, porém, foi pego de surpresa pelo beijo, que até então, tinha sido iniciado por Vivien as outras vezes. Incentivou a proximidade, apreciando o toque mais longo dos lábios do loiro, uma das mãos subindo até a nuca e apertando-o ali carinhosamente. Sorriu em retorno quando ele lhe disse que agora estava certo, o que fez com que Vivien não conseguisse conter o impulso de beijar Aleksei sobre a testa também, desapegando por um instante do orgulho. Apertou o corpo do grego contra o seu, satisfeito que aquele era o certo. Não existia outra possibilidade. Afundou parcialmente a cabeça nos cabelos loiros em direção ao pescoço de Aleksei, entretido com o abraço. - Podemos jantar então. Ela parece uma mulher fascinante. – respondeu, então rindo baixo. – E eu gostaria de sentar e conversar com ela, claro. Mas um pouco mais apresentável da próxima vez. Aleksei
Aleksei só concordou com a colocação de Vivien e seguiram o resto do dia com uma rotina muito mais tranquila, a despeito de todas as pequenas reações de uma pessoa que estava voltando à rotina casual. Mas a visita de Maud, mesmo que inesperada, acabou lhe colocando um ânimo diferente. Não que “ânimo” pudesse ser uma palavra que definisse o seu estado atual, considerando as coisas que estava passando, mas além de ter conversado com a mulher que lhe era importante, tinha se entendido bem mais com Vivien desde a conversa dos dois e a proximidade reafirmada. Tinham marcado um jantar para encontrar com Maud no dia seguinte e para que ela e Vivien se conhecessem também, mas só quando trocou de roupa, numa de suas camisas de gola alta de tecido leve, blazer e calça social, foi que percebeu que era o primeiro dia que saía do apartamento desde a morte de Kyle. O pensamento lhe trouxe uma sensação de inquietação que ele tentou controlar com a respiração compassada e com o remédio que tomava regularmente durante o dia nas refeições. Arrumou os cabelos jogando-os para trás, mas alguns fios insistiram em cair sobre o rosto. As olheiras estavam um pouco mais discretas desde que conseguira dormir algumas horas a mais com o efeito da medicação. Estava esperando na sala enquanto Vivien terminava de se arrumar também, notando os próprios gestos de inquietude e ansiedade à medida que o horário marcado se aproximava. Não pelo jantar, mas pelo nervosismo recém-descoberto de ter que sair do apartamento. Respirou fundo, fechando os olhos por um instante, mantendo a racionalidade a despeito de entender muito bem o que seu corpo e sua mente estava passando. Abriu os olhos só quando ouviu os passos no corredor com a proximidade de Vivien. Vivien
A visita de Maud no dia anterior tinha lhe tirado momentaneamente do eixo. Estava desacostumado a encontrar pessoas que eram mais próximas de Aleksei e havia se mimado de ter toda a atenção dele. Porém, a despeito de suas falhas de caráter, compreendia a importância dela estar ali: ele precisava de pessoas que se preocupavam ao lado dele agora que tinha terminado a ameaça de Kyle, ainda mais pelo fato de que tudo era muito recente e os eventos perturbavam ele no sono ainda, mesmo com remédios. Já que foram convidados para conversar com a boa amiga de Aleksei, tomou essa oportunidade para que também saíssem da prisão do apartamento, ainda que não tivesse certeza se o grego estaria bem para isso. Se ele estava tão ansioso pra sair de Cerise, supunha que não queria mais reviver as memórias de perseguição na cidade. Apesar de não perceber por estar focado em Aleksei, não negligenciou a própria aparência. Vivien se pegou vestindo uma calça social cinza claro e uma camisa de botões azul, o cabelo impecável como sempre. Embora não fosse trabalhar, estava sentindo-se em dívida por ter atendido a porta ainda de pijama no dia anterior. Quando terminou de colocar sapatos, cinto e um relógio no pulso, caminhou em direção a sala, onde Aleksei estava. Apesar de saber que ele não estava perfeitamente bem, vê-lo arrumado para sair e tentando manter a compostura lhe deixava um tanto satisfeito. Se bem que imaginava que o processo todo de saírem para comer envolvia questões mais profundas. Aproximou-se, colocando uma mão sobre o ombro do loiro. – Estou pronto, Alek. – anunciou, afinal, era quem mais tinha demorado naquele processo todo. – E você, como está? – brincou, num tom compreensivo. Aleksei
Aleksei se voltou na direção de Vivien respirando um pouco mais relaxado quando ele se aproximou e lhe tocou o ombro. Colocou-se de pé, abotoando o blazer e concordando primeiro com um aceno de cabeça. – Bem, espero. – respondeu mais direto daquela vez. Levou as mãos até a gola da camisa, mas apenas para ajustá-la, puxando como se quisesse se certificar de que estava alta o suficiente para cobrir o pescoço inteiro. – Vamos? Estamos na hora. Seguiu com Vivien para saírem do apartamento até o estacionamento do prédio. As coisas ainda pareciam bem normais até lá, e só quando entrou no carro foi que teve uma sensação de frio na barriga, fazendo questão de conferir pelo retrovisor central se não havia nada nem ninguém no banco de trás. Sentiu até o sangue sumir da ponta dos dedos por um instante e fechou a mão sobre a perna depois de colocar o cinto de segurança. Suspirou longamente e passou uma mão no cabelo, ajustando-o de novo antes de voltar a atenção para Vivien. – Estarei melhor quando chegarmos no restaurante. – fez questão de comentar com o francês, que não sabia se tinha ou não notado a sua hesitação bem óbvia dentro do carro. E exatamente como tinha previsto, a curta viagem no carro foi talvez mais estressante do que a estadia no apartamento ou o fato de ter que sair de lá. As idas para St. Clavier não tinham lhe deixado tão incomodado no período em que estava sendo perseguido, talvez por uma consciência diferente do estado, sempre acompanhado pela polícia ou por estar sozinho nas idas e vindas. Com Vivien ao seu lado no banco do motorista, se pegou olhando mais de uma vez para conferir que ninguém apareceria ali para estragar a sua vida de novo. Quando chegaram ao estacionamento do restaurante, Aleksei só não saltou mais rápido do carro porque ainda queria se certificar de que Vivien sairia primeiro. Vivien
Esperava que ao longo da noite, caso Aleksei ficasse mais agitado, pudesse fazer algo por ele. Embora ele também já tivesse lhe visto em um estado deplorável na ocasião em que terminaram indo até a casa do loiro, sabia que sua fobia nada se comparava com a sensação dele naquele momento. Sabia disso porque já tinha se passado um longo tempo desde que aprendera a lidar com suas crises de pânico, mas para ele ainda era bem recente. Curiosamente não deixou de notar a gola alta sendo puxada, lembrando do mês inteiro que ele passou com a cicatriz a mostra. Aquilo parecia um tipo de segurança. Saíram para o carro e o pânico de Aleksei pareceu intensificar um pouco. Lembrava que ele tinha sido pego por Kyle no estacionamento, então provavelmente era uma das memórias que as saídas iriam ocasionar. Levou uma mão até a dele, apertando-a por um breve momento antes de seguir para o restaurante. – Diga se precisar de alguma coisa. – avisou enquanto saíam, mantendo a firmeza. Não levaria Aleksei de volta aquela noite até o fim da noite. Sabia que seria um pouco duro para ele, mas supunha que ele tinha que enfrentar a realidade sem Kyle do lado de fora também. Podia não ser um psiquiatra, ou mesmo um psicólogo, mas queria ajudá-lo, e trancando-o dentro de seu apartamento não conseguiria fazer isso. Além do que, eventualmente iriam para Paris. Dirigiu para o Sautée como tinham combinado, um tanto satisfeito que não terminariam a noite no restaurante em que Kyle havia lhe encurralado com Louise, que era outro bistrô famoso o qual estava evitando desde então. Quando estacionou, ainda demorou um pouco a sair do carro, mas notou a pressa de Aleksei de sair do mesmo assim que deixou o veículo. Trancou o carro e aproximou-se do loiro. – Vamos? – convidou-o, esperando-o um pouco para irem lado a lado, caminhando a direção a mesa no restaurante quando atendidos pelo maître. – Eu quase esqueci de dizer que está muito elegante, Alek. Eu iria me sentir estranho se não lhe fizesse os devidos elogios em uma de nossas saídas. É quase um código de conduta, mas um muito prazeroso. – falou em um tom divertido, cumprimentando a distância um conhecido em outra mesa, supondo que Aleksei estivesse com a cabeça muito cheia para suas particularidades. Mas podia lidar com aquilo por ora como se fosse um dia normal. Aleksei
Aleksei desceu do carro tão logo Vivien o fez e pareceu até mais fácil respirar do lado de fora. Ainda houve algumas olhadas de soslaio para os arredores e principalmente para o banco de trás do carro que eles tinham deixado, mas os passos até o restaurante foram mais assertivos daquela vez. Ao alcançarem a mesa reservada, foram ainda atendidos pelo maître e pegou o cardápio e a carta de vinhos. Foi preciso apenas que o funcionário se retirasse para que Vivien se curvasse em sua direção, ressaltando como estava elegante num dos comentários com os quais estava bem acostumado. – Eu estou sempre muito elegante, Vivi. – respondeu com a descontração que a situação lhe permitia. O local reservado lhe deixava mais calmo em contraste com os espaços públicos ou especialmente carros. – E eu lhe desafio a atestar o contrário, mesmo quando estou apenas nas suas roupas folgadas. A troca de cumprimentos não foi mais que um par de palavras e um sorriso discreto, e antes que Aleksei pudesse conferir o horário no relógio, avistou Maud se aproximando guiada por um dos atendentes do lugar. A resposta quase automática de Aleksei foi se levantar enquanto ela alcançava a mesa. Os cabelos loiros estavam bem assentados, amarrados num coque baixo, sem acessórios dessa vez. A maquiagem era leve e discreta e usava um conjunto rosa salmão, com um par de scarpins pretos discretos à primeira vista, mas com um salto detalhado em flores douradas. A primeira reação dela foi sorrir para Aleksei assim que ele se colocou de pé, e se aproximou o suficiente para cumprimentá-lo primeiro com um beijo no rosto. – Boa noite, Maud. – Boa noite, Aleksei. – ela devolveu o cumprimento, voltando-se para Vivien daquela vez e observando-o com um olhar analítico ao estender a mão para cumprimentá-lo também. – Boa noite, Sr. St. Clavier. Espero não estar atrasada. Vivien
Trocou aquele sorriso com Aleksei, mais satisfeito que o lugar mais reservado no restaurante tinha acalmado um pouco o loiro em comparação com o passeio de carro. – Difícil. Acho ainda mais charmoso quando está nas minhas roupas. – respondeu Aleksei com um ar divertido enquanto tirava das mãos dele a carta de vinhos. Nenhum dos dois iria beber, supunha, exceto talvez por Maud. Ela, por sinal, chegou pouco depois dessa troca de comentários, se fazendo presente com a graciosidade de todos as damas da sociedade que conhecia de sua vida em Cerise. A diferença era que ela tinha presença, e o olhar em sua direção certamente atestava que estava sendo medido. Como se fosse automático, ergueu mais o queixo e como pedia a boa educação, levantou-se para cumprimentar a mulher também com um aperto de mão cordial. – Boa noite, madame Jansen. Não está atrasada. Na verdade, não poderia ser mais pontual. – respondeu, indicando brevemente com a mão para que ela se sentasse, o maître esperando apenas para ajudá-la com a cadeira. – Aceita a carta de vinhos? Aleksei
A necessidade de erguer o queixo ao encarar a mulher era um trejeito que Maud notou com facilidade, enquanto Aleksei deixava aquilo passar com muita naturalidade, dada a pouca atenção que estava no momento e que se focava mais nos arredores do que nas companhias bem conhecidas. Ela acenou em agradecimento ao maître para se sentar e deixou a pequena carteira de lado, cruzando as pernas e mantendo as mãos sobre o colo numa postura impecável. Levantou uma das mãos apenas para negar a carta de vinho quando Vivien lhe estendeu. – Não, obrigada. Não seria muito elegante beber sozinha. Podemos deixar para outra ocasião, quem sabe quando visitarem Amsterdã. – ela respondeu, escolhendo apenas uma água para beber antes de serem deixados sozinhos pelo maître. – Não sei se o seu marido ficaria muito feliz com essa visita. A não ser que ele não esteja presente. – Aleksei que respondeu, as mãos apoiadas sobre o colo com os dedos entrelaçados e os polegares se movendo repetidamente. – De modo algum. Hendrik adoraria conhecê-lo melhor, Aleksei. E agora que estão juntos, o convite certamente se estende ao senhor também, Sr. St. Clavier. – ela se dirigiu a Vivien e foi a oportunidade de Aleksei sorrir discretamente e negar aquela afirmação para Vivien com um aceno de cabeça discreto. Só tinha visto o marido de Maud uma vez e tinha sido suficiente para saber que o homem não ficava nada feliz de conversar com ele. – Espero que não tenha se incomodado com o meu convite. Eu disse ao Aleksei que gostaria de conhecê-lo melhor, por isso a sugestão do jantar. – ela aproveitou o comentário sobre Aleksei para estender a mão até a dele, pousando os dedos levemente sobre a inquietação dos polegares, gesto que fez com que o próprio grego percebesse o que estava fazendo. Vivien
Maud finalmente sentou-se a mesa em uma pose digna de uma mulher da sociedade, exceto talvez por não ser francesa, e por isso, permitir as mãos ficarem no colo e não na mesa, desacostumada com a etiqueta que o país pedia. Aleksei fez o mesmo, mas imaginava que isso devia-se ao fato dele estar tentando esconder os tiques causados pelo nervosismo de sair de casa. Uma vez que não estava ali no papel de vigilante de etiqueta, apenas ignorou ambos os casos, exceto por visivelmente dar mais atenção as mãos de Aleksei, analisando-o por um breve momento. O marido dela então foi mencionado, e pela forma que os dois falavam, especialmente Aleksei, ele não parecia o tipo mais simpático. Acabou sorrindo quando Aleksei insistiu, discretamente, que conhecer o sujeito era uma má ideia. Ele deveria saber melhor que Maud. Ela tinha no rosto a expressão de quem se entretinha deixando o marido chateado. Acenou negativamente com a cabeça quando finalmente se dirigiu a Vivien mais diretamente. – De forma alguma. Admito que também estava curioso para lhe conhecer. O Alek falou sobre você em algumas ocasiões, e devo dizer, é ainda mais interessante que imaginei, madame Janssen. – respondeu calmamente, o sorriso comercial no rosto e a tranquilidade de quem estava acostumado a trocar elogios. – Seria um desperdício não jantarmos juntos enquanto está em Cerise. Não deixou de notar as mãos dela indo até as de Aleksei e embora entendesse que era um modo amigo dela acalmá-lo, foi inevitável lançar um olhar longo sobre o movimento sutil dela e então, sobre Maud, encarando-a por um instante com um ar menos suave que anteriormente. Mas logo se recompôs. – Soube que foi você que sugeriu que Alek tentasse vir para St. Clavier... suponho que devo lhe agradecer por isso. – comentou brevemente enquanto o garçom servia água para os três. Aleksei
Aleksei pareceu soltar o ar mais compassado quando sentiu o toque direto de Maud e não conseguiu perceber tão atentamente o olhar longo de Vivien para o gesto. Maud, por outro lado, observou curiosa a atenção que o francês deu ao gesto e o olhar em sua direção que não foi nada suave. Não foi motivo para tirar a expressão composta e analítica que devolvia ao homem que tinha sido capaz de fazer Aleksei chorar em sua frente, menos ainda motivo para tirar a mão sobre a do grego que naturalmente desenlaçou os dedos para dar espaço para segurar a mão dela com a sua, as pontas dos dedos um tanto frias. – Ah sim, Aleksei me falou sobre o senhor em algumas ocasiões também. – ela respondeu, olhando do grego para Vivien, concordando com um aceno de cabeça sobre a sugestão de emprego em St. Clavier. – Eu descobri sobre a vaga de emprego por alguns contatos. Além do que, St. Clavier é uma academia bem conhecida na Europa, não foi difícil achar as informações. E depois da situação de estresse que ele passou nos EUA, eu percebi que mudar o ambiente de trabalho talvez fosse uma boa opção, não foi, Aleksei? – ela pressionou um pouco a mão na dele e aproveitou a oportunidade para afastar o toque. – Eu não teria pensado sozinho em ir trabalhar como conselheiro numa academia com adolescentes. – Aleksei adicionou, reajustando a posição das mãos com as palmas para baixo sobre as pernas. – Acho que a última vez que trabalhei com pacientes não-militares foi... no doutorado em Amsterdã? – Precisamente. – Maud concordou, tomando um gole de água e voltando a atenção para Vivien. – Mas a minha surpresa foi maior ao descobrir que vocês se conheciam há muito mais tempo do que o emprego em Cerise. Sei que se conheceram no Japão, deve ter sido fascinante conhecer o Aleksei naquela idade. – Você não vai falar sobre mim como se eu não estivesse aqui, não é, Maud? – Aleksei fez questão de apontar. – Claro que não, Aleksei. Mas não posso perder a oportunidade de ter mais detalhes de alguém que, como eu, deve fazer questão de exaltá-lo. – ela respondeu. – Além do que, é parcialmente sua culpa por não falar mais sobre si mesmo. RE: [Drive] On the Edge [Vivien; Aleksei] - Lil - 09-01-2021 Vivien
Novamente, sabia que Aleksei precisava daquela companhia e daquele apoio ali. A presença de Maud tinha feito muita diferença apenas por ser uma visita surpresa e lembrá-lo que haviam pessoas preocupadas com ele, e que ele não precisava estar isolado em seu apartamento para sempre. A saída certamente estava tirando ele da zona de conforto, e apertar a mão caridosa da loira parecia um jeito de lidar com isso. Só que por um instante se pegou desejando fazer o mesmo por ele; de estender a mão esperar que ele apertasse como se fosse alguma segurança. Mas bem sabia que assim como tinha pensado antes de estender a mão até ele e acalmá-lo, ainda estava hesitante em ser tão público. Isso fez com que franzisse a testa para si mesmo em reprovação por um instante. Depois de uma troca de conversas interessantes entre Aleksei e Maud, em que o evento similar pelo qual ele passou foi tratado com uma estranha delicadeza, percebeu a atenção voltando-se mais uma vez para si e o relacionamento breve com Aleksei no Japão, lhe obrigando a observar o loiro de esguelha, em dúvida sobre falar exatamente suas impressões. – Eu agradeço então por ser uma agente do nosso reencontro em Cerise. – falou a mulher com uma estranha honestidade, recostando por um breve instante na cadeira mais confortavelmente. – Embora... desde aquela época, o Alek já não falava tanto de si mesmo, e eu, como sou terrivelmente egocêntrico, também não ajudei muito o caso. – riu baixo, tomando um gole de água também. – Mas ele me causou uma grande impressão desde aqueles tempos. Primeiro porque ele era assustadoramente bonito de um modo muito natural, e ainda é, só que está mais refinado; segundo por conta do intelecto. Apesar de ainda estar se adaptando ao país, ele já falava parte do idioma, estava em uma universidade renomada, conseguia articular todos os assuntos banais e profundos em nossas conversas e ser indômito o suficiente para me atiçar. – se havia algo que não tinha vergonha era encher as pessoas que gostava de elogios. Era apenas o tratamento que ele merecia, sendo de fato alguém tão singular. Sorriu mais amplamente, ainda relaxado na cadeira. – E, por fim, ele me deu apoio em um momento que eu precisava muito. Eu devo a ele muitas conquistas. E por trazer de volta parte do meu espírito quando veio para St. Clavier, apesar de minhas falhas. Todas. – sorriu com o canto dos lábios, engolindo um riso que apenas denunciava que estava bem ciente que não tinha sido tão recíproco ao sentimento que Aleksei lhe despertava. Observou o loiro por um instante, em seguida, voltando-se para Maud com interesse. – E como ele era quando o conheceu? Soube que dormia em Óperas. – perguntou com um ar leve de curiosidade, então voltando-se para o loiro. – Estou curioso para ouvir a versão dela também. Aleksei
Aleksei tomou mais da água e pareceu relaxar com mais facilidade à medida que a conversa prosseguia e que eles não eram interrompidos sequer pelo garçom que viria buscar os pedidos. A área reservada era mais tranquila e embora ele ainda olhasse ao redor e pelas janelas do estabelecimento, estar passando tempo fora do apartamento confirmava que Kyle não estava mais ali. Mas ele precisou parar ao levar a água aos lábios com a série de comentários de Vivien sobre si no Japão, e embora Maud parecesse bem entretida com as definições e ele mesmo devesse estar apenas concordando com todos os elogios naturalmente, havia um desconforto estranho em ser comentado entre Maud e Vivien especificamente. – Não há muito a falar sobre mim, para uma pessoa com meus modos e minha aparência, eu não deveria sequer precisar abrir a boca. – aproveitou para adicionar o comentário entre os breves intervalos de Vivien. Mas atentou mais para o francês quando ele falou sobre ter recebido apoio num momento em que precisava. Aquilo lhe lembrava do fato de que Vivien também tinha convenientemente lhe ajudado em um momento importante. Ironicamente, tinham se encontrado em Amsterdã para seguir até a Grécia. Embora a convivência dos dois não se estendesse de fato por dez anos, os poucos meses e dias que tinham interagido antes de Cerise pareciam ter sido bem decisivos no desfecho do relacionamento atual dos dois. – Minha diversão é apontar suas falhas, Vivi, não tire isso de mim. – Aleksei respondeu, sob o olhar atento e bem curioso de Maud para tudo o que tinha feito pelo francês. Mais curioso ainda que Vivien falasse dele com tanta propriedade, mas que ainda tivesse causado o desconforto de um casamento e uma decepção a ponto de abandonar o loiro. Mas não era o melhor momento para apontar aquilo, não para Aleksei, claro. – Ah sim, ele dormia em Óperas. Não pedia licença para entrar em residências alheias. Apoiava os cotovelos na mesa e sentava demasiadamente relaxado só por estar confortável. – Maud adicionou com um sorriso bem satisfeito. – Mas eu imagino que tendo conhecido-o no Japão, você teve bem mais chance de ver esses atos mais "crus". – Certo, o jantar era para que vocês se conhecessem melhor. – Aleksei interferiu. – Não será produtivo se vocês só falarem sobre mim. E os dois já me conhecem o suficiente para não precisarmos estender os comentários sobre minhas habilidades e beleza. O próprio rumo da conversa deixou Aleksei mais tranquilo, mas aquela mesma tranquilidade foi deixada de lado num mero segundo quando o garçom se aproximou para pegar os pedidos. Perceber apenas pela visão periférica a aproximação do homem fez com que todo o seu corpo se retesasse e a respiração descompassasse. O grego chegou até mesmo a pressionar a própria perna com um pouco mais de força pela presença discreta do atendente, discrição que teria elogiado em outras oportunidades. O momento de surpresa foi breve e longo ao mesmo tempo e sequer ouviu quando os pedidos foram feitos. Vivien
Vivien riu ao ouvir de Aleksei que ele se entretia apontando suas falhas. Se fosse verdade, se divertiria por muito tempo ainda, pois bem sabia que tinha muito mais que algumas poucas falhas de caráter. Podia preencher um dossiê, e de Aleksei não fazia muita questão de esconder a maioria delas. Ainda mais agora. Supunha que teriam muito tempo ainda para compreender detalhes pequenos e grandes um sobre o outro, mais do que 12 anos e apenas alguns poucos dias de convivência coabitando poderiam mostrar. Maud pelo visto tinha implicado com todos os detalhes da falta de refinamento de Aleksei, e embora gostasse que ele fosse mais elegante agora, não eram detalhes que lhe incomodavam completamente. Mas achou divertido lembrar dos maneirismos mais relaxados dele. Enquanto isso o “assunto” da conversa parecia cada vez mais incomodado com o rumo das lembranças de Maud. Acabou desviando o assunto eventualmente. – Tem razão. Porém admito que é bem agradável ouvir a impressão de outra pessoa sobre você. É uma oportunidade rara. Fora que sempre há um elogio novo a ser feito. – comentou de volta a Aleksei, conformado com o fato de ter de mudar o assunto. – Então, madame Janssen, podemos falar sobre seu trabalho ou estaria sendo rude? Tentou até focar um pouco em Maud, mas pegou, com o canto de olho, a reação discreta de Aleksei para a aproximação do garçom. Embora ele tivesse sido bem controlado até então e os assuntos lhe distraíssem em meio a conversa, não deixava de observá-lo, afinal, tinha saído do apartamento já sabendo que aquilo poderia desencadear reações adversas ao loiro. Estendeu a mão então até ele devagar para não assustá-lo ainda mais, apertando-lhe brevemente o pulso com suavidade, supondo que também devia um pouco a ele aquele suporte mais quieto por um instante. – Alek, vou fazer o pedido. – avisou o loiro, tentando não deixá-lo mais alerta sobre o próprio estado ao perguntar como estava. Mas ainda o observava um pouco. O garçom se aproximou devagar. – Madame, suponho que você queira olhar o cardápio? Recomendaria os bifes nesse restaurante, ou pato. Mas estaremos evitando por cairem um pouco pesado no estômago. – comentou, dando atenção ao garçom para pedir uma sopa leve de entrada e um prato principal com frango sem nenhum molho muito complexo. Talvez não fosse a típica culinária elegante, mas eram alimentos reconfortantes para dar alguma energia ao loiro, caso ele conseguisse comer melhor ali do que em sua casa. Aleksei
A reação de Aleksei à presença sutil do garçom não foi tão imediata a Maud quanto o tique que ele tinha nos dedos no início da conversa. O tempo de aceitar o cardápio do atendente foi o suficiente para que Vivien se adiantasse em segurar o pulso de Aleksei daquela vez. O grego soltou o ar entre os lábios levemente entreabertos, retomando o controle do próprio corpo aos poucos, e Maud optou por se atentar ao cardápio para dar mais espaço para o grego se recompor. A atitude de Vivien em se adiantar para fazer o pedido pelos dois não foi surpresa alguma para a mulher e Aleksei, no seu breve momento de se tranquilizar, apenas concordou silenciosamente com a atitude de Vivien. – Estava prestes a pedir recomendações, mas o senhor foi mais rápido, Sr. St. Clavier. – ela disse, dispensando o cardápio depois de uma olhada rápida. – Vou aproveitar para provar o pato, então. Ela fez o pedido com salada na entrada e pato no prato principal, seguindo as recomendações da casa e do anfitrião. Voltou a atenção para Aleksei que pareceu finalmente sair do estado de transe quando o garçom se afastou e se recostou mais relaxado à poltrona de novo. – Iríamos falar sobre o seu trabalho, Maud? – Aleksei retomou a proposta anterior de Vivien, disposto a voltar ao rumo mais casual da conversa, ainda sentindo o toque familiar e confortável sobre o pulso. – Isso mesmo. Eu deveria falar sobre meu trabalho atual então? – ela tomou um gole da água, voltando a taça até a mesa depois de dar uma olhada de lado para Aleksei. – Eu sou professora de balé. Na verdade, eu tenho uma companhia de dança e fazemos turnês e espetáculos além das aulas. Não é algo tão conhecido como o Balé Nacional, mas estamos atuando no cenário há mais de dez anos, o que é um tempo considerável para companhias de balé na Holanda. A companhia estava no início quando conheci Aleksei. Vivien
Ficou um tanto satisfeito que pelo menos por ora o toque que indicava sua presença pudesse aliviar um pouco Aleksei da ansiedade ocasional que lhe tomava com aquela saída. O loiro pareceu concordar com seu pedido, e Maud também aceitou a sugestão sem problemas. Fosse outra ocasião, teria sugerido a produção de frutos do mar da cidade de Cerise, mas bem sabia que a última coisa que Aleksei precisava era o cheiro de peixe à mesa. Feitos os pedidos, Aleksei decidiu retomar o assunto anterior, sobre a profissão da mulher. Não sabia exatamente o que ela fazia, ou sequer se continuava no ramo como Dominatrix profissional, mas supunha que não faria mal perguntar de modo bem indireto. Ela lhe responderia caso quisesse. Ela bem ressaltou que falaria sobre o trabalho atual, que não lhe incomodava. Tinha mesmo que saber um pouco mais sobre ela até o fim daquele jantar, supunha. – É um tempo bastante considerável para uma companhia de dança. Imagino que tenham feito muitos espetáculos de sucesso, se até saíram em turnês. Não sei se é o caso na Holanda, mas o balé nacional costuma se prender a espetáculos muito tradicionais. São as companhias de dança, como a sua, que trazem novidades interessantes para os teatros. Suponho que nunca vieram até Cerise. Qual o nome da sua companhia? – perguntou, alongando a conversa sobre a dança, apesar que Vivien não era um frequentador habitual de balés. Só tinha visto os espetáculos nos quais sua prima dançou, mas ela não era lá grande bailarina. Aleksei
Aleksei não afastou a mão da de Vivien e ficou mais entretido com o rumo da conversa, sem outra interrupção do garçom, ele ainda olhou ao redor discretamente para se certificar que não haveria outra aproximação desagradável. Maud se adiantou para responder sobre o balé e ele voltou a atenção para a loira. – Como o senhor mesmo colocou, o balé nacional de fato costuma se prender ao tradicionalismo. Já eu gosto de algo mais não-convencional. Nosso tema principal é o balé contemporâneo e temos outras vertentes de dança no mesmo estilo. Assim, enquanto o Balé Nacional nos agracia com os espetáculos consagrados, nós tendemos a um espírito mais… _avant gard_, se me cabe a colocação do termo. – ela explicou. – Nunca viemos a Cerise, tivemos alguns espetáculos que passaram a Europa, Ásia e América, mas como toda companhia, tivemos muitos momentos de altos e baixos. Diria que estamos num momento mais estável agora, e nossa programação está fechada até o ano novo apenas em alcance local e regional. Teremos espetáculos na Alemanha, estão convidados a nos assistir onde for mais conveniente para os dois. Nossa companhia é o Balé Leer, caso já tenha ouvido em algum lugar. A menção do nome da companhia fez com que um sorriso discreto surgisse nos lábios de Aleksei. Ele voltou a mão livre até a de Vivien, que estava com os dedos ainda sobre seu pulso, chamando-lhe a atenção. – Se eu fosse você, aproveitaria para perguntar mais sobre o significado do nome. – Aleksei comentou, ao que Maud também deixou uma breve risada escapar. – Desse jeito você acaba com minha discrição, Aleksei. – ela respondeu, tomando mais um pouco da água para retornar a taça à mesa. – _Leer_ é uma palavra em holandês para doutrina, ensino, aprendizado. – ela se adiantou na explicação, antes mesmo que Vivien tivesse a oportunidade de questionar. – Mas também é uma palavra para _couro_. – Eu não acho que você estava pretendendo ser discreta ao escolher esse nome, Maud. – Aleksei respondeu, afastando-se do toque de Vivien para se levantar. – Podem continuar, eu volto logo. Está tudo bem, só vou lavar o rosto. – adiantou a explicação antes mesmo de ouvir alguma pergunta sobre seu estado, que sabia que viria dos dois lados, provavelmente. Vivien
A mulher estava completamente pronta para fazer a propaganda de sua companhia de balé, e até apreciava uma pessoa ávida por expor suas qualificações, considerando que fazia o mesmo o tempo todo. Certamente a companhia de balé dela deveria ser bem diferente, afinal, se ela era a professora em uma escola já não tão tradicional, pelo jeito que se apresentava, deveria sim aceitar o termo avant gard. Infelizmente teve que negar quando ela perguntou se conhecia o nome, afinal, não entendia mesmo de balé. Porém, como Aleksei fez bem questão de se inclinar para lhe dizer, havia uma peculiaridade na escolha do nome. Abriu um sorriso largo quando Maud se adiantou e explicou como o nome se ligava a profissão anterior dela por um tema em comum, embora não a visse usando couro. Aleksei tinha dito que ela gostava de branco, não? – Teria passado desapercebido por mim, já que não falo o idioma. Mas... sinto muito, madame, certamente não é um nome discreto. – brincou com um ar divertido, até perceber que Aleksei se afastou um pouco, o que fez com que perdesse o foco um instante. Porém ele se adiantou em dizer que iria apenas lavar o rosto e que estava bem. – Está bem, Alek. – estendeu a mão para apertar a dele reafirmando a presença ali, mas também não podia prendê-lo a mesa. Cerrou os dentes lembrando da ida de Louise ao banheiro, que tinha sido breve mas crítica, mas não deixou transparecer o desconforto com a ida dele, ou provavelmente não lhe faria bem. Sorriu conformado para Maud assim que deixado a sós com ela, descansando os punhos sobre a mesa. – “Doutrina, aprendizado e couro”, não é? – repetiu com um ar mais suave e discreto. – Creio que carregando um nome forte como esse, os espetáculos sejam de fato bem marcantes. – tentou descontrair um pouco, então recostando na cadeira por um instante e voltando o olhar direto para a mulher. – Quanto a ser marcante... talvez seja uma mudança súbita de tópicos, mas obrigado por vir vê-lo, madame Janssen. Acredito que ele precise de apoio e preocupação de pessoas em quem confia. E pelo modo como sua presença aqui “desarmou” o Alek, vocês têm uma confiança e intimidade muito peculiar a vocês. Esse conforto eu não posso suprir, por mais que me incomode admitir o fato. Aleksei
Aleksei recebeu a confirmação direta dos dois sobre a saída e seguiu até o banheiro. O local aberto ainda lhe deixava levemente incomodado e saber que o corpo reagia exageradamente a situações tão simples como a aproximação de uma pessoa discretamente era o que mais lhe afetava. A sensação de não ter controle das próprias reações parecia mais assustadora do que a sombra agora inexistente do psicopata. Maud observou ainda com o olhar enquanto Aleksei se afastava, a mão dele subindo rapidamente até o pescoço que era coberto pela gola alta num gesto de proteção estranhamente característico. Voltou-se para Vivien com o comentário dele sobre o nome de sua companhia de balé. – Eu gostaria de ter usado látex, mas a palavra seria mais óbvia. – respondeu com a mesma descontração do francês, até ele mesmo se propor a mudar de assunto agora que os dois estavam a sós. Observou-o com a expressão analítica de antes, avaliando as palavras de agradecimento dele em relação ao que podia fazer por Aleksei. Era verdade que os dois tinham um tipo de intimidade diferente, mas o impacto que causava em Aleksei já não era mais o mesmo, como aquele que Vivien causava. E talvez não tivesse chegado a ser, agora que sabia que os dois se conheciam antes mesmo dela. – Não precisa me agradecer, Sr. Sr. Clavier. Eu faria qualquer coisa para ver o Aleksei bem, e dada a conversa breve que tivemos no sábado quando ele me contou o que tinha acontecido, eu realmente achei que ele precisava de uma companhia mais _íntima_. – respondeu, sabendo que aquela inferência poderia provavelmente incomodar Vivien por se colocar numa posição de mais proximidade com Aleksei. Em outras situações, teria exaltado muito mais aquela proximidade e alfinetado o outro ao bel prazer, mas dada a condição de Aleksei e a posição dos dois em relação a ele, não era a melhor ocasião para as brincadeiras. – Não duvido da proximidade dos dois e me incomoda que tenha surgido na vida dele antes de mim a ponto de causar uma impressão tão forte. Mas eu estou muito acostumada a um Aleksei que tem tendências a se fechar até para as pessoas mais próximas, talvez um reflexo do que ele já ouviu na profissão dele? E foi esse tom que ouvi na ligação dele do sábado, como se ele estivesse na defensiva. Por isso eu não hesitei em vir visitá-lo pessoalmente a despeito da surpresa. Ela ainda olhou discretamente para o lado, como se quisesse confirmar que Aleksei não estava retornando. – Eu não sei se está ciente, mas Aleksei só me falou sobre o senhor dois meses atrás. – continuou. – E eu tenho inveja do impacto que causou nele, de um jeito que eu ainda não tinha visto, embora não tenha inveja nenhuma do motivo que causou aquele impacto negativo. Então, não vou me desculpar pela sinceridade em admitir o quanto não gostei do senhor. Mas então eu cheguei aqui e o Aleksei estava diferente do que eu esperava, para melhor… não sei o que aconteceu de sábado para cá, e não sei se agradeço à sua presença ou à confiança que ele tem no senhor, mas eu estou feliz que o Aleksei não está mais sozinho, no sentido de que ele “lhe deixou se aproximar”. Vivien
A resposta pronta de Maud para seu agradecimento foi alfinetar Vivien sobre a proximidade dela e de Aleksei. Não estava ignorando aquele fato, tanto que era exatamente por isso que a agradecia, mas confirmava ali que a mulher, com a finesse de alguém que nasceu com dinheiro, tinha apontado que não estava muito contente com Vivien. E ela apenas continuou seguindo nessa direção, exceto por prestar atenção no detalhe em que ela disse que o tempo em que ele e Aleksei se conheciam também incomodava ela. Ergueu o queixo um pouco, mas não como antes, que havia feito em reação ao incômodo que sentia com ela ali. Estava atento, apenas atento ao que ela dizia. Vivien apertou os lábios ao ouvir que Aleksei só falou a Maud sobre ele no que supunha, foi a ocasião do casamento. Sentiu o impulso de desviar o olhar dela, mas não era como se pudesse negar que havia optado por seguir seus planos e carreira a custo de qualquer definição de fato de um relacionamento com Aleksei na época. Na verdade tinha feito isso de modo muito cruel, e embora fosse apenas natural para Vivien tratar algumas pessoas com aquele quê insensível, foi difícil ver Aleksei deixar a recepção com uma expressão que certamente não cabia nele. Não lhe surpreendia que ela não ia com a sua cara. Observou-a por alguns segundos, absorvendo todas aquelas informações. Então suspirou, e falou mais calmamente, o tom mais baixo e suave. – Não foi fácil, madame, até que ele dissesse o que estava passando. Mesmo para mim. Especialmente para mim, pelo que eu fiz e pelo que não fiz por ele também. E mesmo sabendo que ele põe algo de confiança em mim agora, admito que também sinto inveja da proximidade de vocês dois. Seu cuidado é importante para ele, de um jeito diferente do meu. – não ousou abrir um sorriso, embora estivesse conformado com as próprias palavras. – Mas não quero perder mais essa confiança. Não vou deixá-lo sozinho, madame. E se não fosse pretensioso demais, o que combina comigo, diria que quero fazê-lo feliz. – sorriu com o canto dos lábios, com um ar suave, então notando que Aleksei estava retornando de sua breve ida ao banheiro. Recostou mais uma vez na cadeira, dando uma breve olhada no loiro para averiguar como ele estava, então voltando-se para Maud em seguida. – Látex? Queria saber qual a justificativa para uma companhia de dança com esse nome. Aleksei
Supunha que só uma situação como aquela de extremo estresse que Aleksei tinha passado seria suficiente para fazer com que ele se abrisse com Vivien. Tão especificamente porque ele mesmo tinha lhe dito, dois meses atrás, que não se atrevia a se colocar entre o francês e a ambição dele, supunha que a estima que Aleksei ainda tinha pelo outro era grande o suficiente para que não quisesse ser visto como menos do que se portava. Ouvir do moreno atestadamente que havia coisas que não tinha feito por Aleksei também era até reconfortante, porque sabia que, em seu estado, já tinha feito bastante pelo grego, quando dada a oportunidade. Até sorriu diante do comentário conformado dele de que o cuidado que tinha com Aleksei era importante e de um jeito diferente. Mais especificamente porque podia definir aquilo muito melhor depois de tantos anos de convivência. – É triste ter que admitir agora que meu cuidado com Aleksei é mais de uma mãe do que de um amante, como já fomos uma vez. – ela disse, com um tom conformado com aquela colocação também. – Bom, tão melhor porque não precisamos estar em conflito pela mesma posição, e nem é algo que quero para meu relacionamento com Aleksei ou com o senhor, Sr. St. Clavier. – ela completou. – Eu disse ao Aleksei uma vez que a pessoa que o abandonou devia ser muito idiota. Abandoná-lo de novo seria atestar essa idiotice, e o senhor não me parece um homem que gosta desse tipo de reconhecimento. Além do que, eu sei caçar. – o último comentário foi num tom que passeou entre uma ameaça e uma piada com uma pontada de realidade, mais ainda tomado pelo pequeno sorriso no canto dos lábios. O que foi convenientemente colocado antes da chegada de Aleksei. A mudança de assunto de Vivien de volta para o nome da companhia foi óbvio até mesmo para Aleksei que estava retornando à conversa depois dos breves minutos. Ele acabou sorrindo ao se sentar em seu lugar à mesa. – Sua tentativa de disfarçar o assunto foi bastante óbvia, Vivi, até para minha mente cansada. – Aleksei comentou, olhando ao redor para notar que o garçom estava se aproximando com os pedidos, dessa vez menos discreto para a sua tranquilidade. – Mas não se preocupem, não ouvi nada demais, e contanto que vocês não queiram se matar, eu sempre aceito disputas pela minha atenção. Vivien
Estava longe de ser o tipo de pessoa que admitia as próprias falhas, mas talvez a vulnerabilidade da situação em que Aleksei e ele estiveram, muito mais o loiro, tivesse lhe feito repensar um pouco seu orgulho em algumas situações. E agora podia dizer, partindo do momento em que estava frente a frente com uma pessoa que se importava de verdade com o grego, que era um idiota. Tinha cometido o erro de deixá-lo duas vezes – a segunda muito mais grave que a primeira – e apenas agora, mesmo com todos os problemas enfrentados pelos dois, compreendia que era mais feliz sendo honesto; até sobre suas falhas. E a resposta de Maud, mesmo que espirituosa, também não vinha cheia do perdão por ter mudado um pouco que fosse. Sorriu conformado com o fato. Aleksei, que chegou em seguida, pareceu não cair na conversa fiada da mudança de assunto, e até Vivien teve que rir de sua incapacidade de enganar o loiro naquele momento. – Qualquer um teria mudado o assunto. Sua adorável amiga estava me dizendo que caça. Não me senti seguro do jeito que ela abordou o assunto. – riu com um ar mais leve, e também mais satisfeito que Aleksei não parecia estar tão mal mesmo depois da volta breve por conta própria. – Sua atenção está bem disputada, sim. – falou, notando que o garçom começava a trazer os pedidos. A conversa ao longo do jantar foi mais moderada e mais casual, girando muito em torno da comida que tinham pedido, deliciosa como esperado, e um ou outro comentários ocasionais acerca do ambiente e Cerise em geral, como mandava a impessoalidade. Fosse qualquer outro caso, estaria morrendo de tédio, mas bem sabia lidar com a banalidade daqueles assuntos. Aleksei
Aleksei tomou o lugar mais relaxado de novo, sentindo-se mais seguro com o local e com a companhia, mais ainda com a perspectiva de que Kyle não apareceria. Ainda havia o nervosismo com o fator surpresa de que ele não estava morto, mas aos poucos estava se forçando a entender que era só o seu estresse com a situação, como teria explicado a qualquer paciente seu, se fosse o caso. Teve que rir, talvez de nervoso, quando Vivien disse que Maud entrou no assunto de caça e ainda lançou um olhar para a loira antes de se voltar ao francês. – Maud não faria mal a uma mosca. – Aleksei atestou, embora não fosse muito credível, considerando que ela tinha sido uma dominatrix bem versada em algumas vertentes sádicas. – Mas tente ouvir o mesmo comentário do marido dela, eu acho que o impacto é maior. – Você exagera demais com relação a Hendrik, Aleksei. Ele é muito gentil, e foi ele que me ensinou a caçar. Por sinal, eu acho que ele poderia estender a oferta a você, quem sabe gosta do esporte? Interessado, Sr. St. Clavier? – Maud lançou a pergunta ao francês e mais uma vez, Aleksei aproveitou a oportunidade para tentar negar em discrição a Vivien aquela ideia absurda. Maud nem precisou olhá-lo de esguelha. – Eu estou vendo isso, Aleksei. O grego acabou rindo de novo da própria reação e a conversa se estendeu mais tranquilamente. Era estranho e preocupante estar numa mesa de jantar com Vivien e Maud, duas pessoas importantes na sua vida e que seriam um prato cheio para Kyle caçar e atormentar para lhe atingir – o que ele conseguiria com louvor, naquele cenário. Mas ao mesmo tempo, era reconfortante ao ponto de que a conversa casual que se estendeu com as pequenas indiretas e alfinetadas que envolviam Maud e Hendrik deixassem o grego muito mais confortável consigo mesmo, seguro de que nada lhe aconteceria e aproveitando do jantar e da comida leve que seu estômago estava reacostumado a aceitar. O medo de deixar o apartamento pareceu ter sido abandonado em volta daquela mesa reservada e até ignorou que estavam em público... por uns bons vinte ou trinta minutos de refeição e conversa. Toda a calmaria foi abandonada quando, em meio à conversa dos três, um baque alto foi ouvido vindo do salão principal do restaurante. Embora a mente de Aleksei tivesse plena certeza de que alguém teria derrubado um prato ou uma travessa, a sua reação automática foi tensionar todos os músculos do corpo a ponto de pressionar a taça de água que estava levando à boca e os dedos ficarem esbranquiçados com a força. Toda a sensação de calma foi deixada de lado, o som que devia ser ordinário e motivo de um susto breve soou só em sua cabeça como uma arma sendo disparada e ele sentiu o sangue esvair da ponta de seus dedos. A sensação de mal estar subiu pela boca do estômago, o coração acelerou assim como a respiração que descompassou, um calafrio tomando todo o corpo e depois dos segundos iniciais de reação em que ficou completamente tenso, a força que havia no corpo sumiu e deixou a taça escorregar pelos dedos, provocando outro som alto quando a peça quebrou ao chão. Aleksei saiu do estado de transe apenas para sentir toda a comida querendo subir de volta pelo estômago, numa sensação de náusea desconfortável. – Aleksei? – Maud se atentou para o seu estado, estendendo uma mão na direção de seu ombro com cautela, sem chegar a tocá-lo. A reação do loiro foi estremecer com a ideia de proximidade. Vivien
Nem imaginava quem Aleksei queria convencer que Maud não faria mal a uma mosca considerando que ela tinha sido Dominatrix por um longo tempo. Porém, o fato de que Aleksei parecia seriamente considerar que o marido dela não era um homem tão “gentil” atiçou um pouco sua curiosidade. Acreditava nele que não deveriam ver o tal Hendrik nunca, mas bem queria ter pelo menos mais alguns detalhes sobre o sujeito. Supunha que se ele gostasse muito de Maud, ameaçar o ex-namorado seria apenas natural e inevitável. Acabou rindo do fato que Maud pegou Aleksei negando futuros encontros com o casal. O jantar estava bom, nos padrões que esperava do Sautée, sendo um bistrô francês muito tradicional em Cerise. Agradecia o fato, já que estava tentando deixar uma boa impressão, mesmo que agora os dois tivessem ciência que se gostavam pouco e que estavam ali mesmo apenas por Aleksei. Comeu calmamente, mas não deixou de observar o loiro por saber que ele ainda tinha ocasionais problemas para se alimentar, o que não pareceu ser um problema ali. Acabou apenas relaxando ao ver que pelo menos por parte, ele estava interagindo e parecia muito mais calmo que o nervosismo no apartamento, no carro ou no início do jantar. Porém, um ruído alto chamou a atenção de todos no restaurante. Vivien imaginou que alguém tinha derrubado um prato, porém, sentiu que havia algo de errado naquilo, e isso apenas se confirmou quando olhou para Aleksei tenso, e antes que sequer pudesse reagir, a taça caiu no chão chamando a atenção brevemente das pessoas ao redor, que não demoraram para retomar aos seus jantares como costumavam agir ali naquele local. Porém o grego ainda parecia em um estado de estresse intenso, e estava pálido. Maud até tentou se aproximar, porém, em um movimento súbito, foi rejeitada por Aleksei, cujo corpo tremeu com a ideia de alguém chegar perto. – Alek. Olhe pra mim. – chamou em um tom firme, mas baixo. Não sabia exatamente como lidar com o que imaginava ser um breve ataque de pânico causado pelo ruído alto, mas tal como focar em Aleksei tinha lhe ajudado na outra ocasião do restaurante, quem sabe pudesse ajudá-lo um pouco também? Não era um psicólogo, mas prendia pessoas em cordas. Podia não lidar com isso com Aleksei, mas não foi uma vez que tentou acalmar alguém. – Respire. Você está tenso, mas aqui é seguro. Você está seguro. Como se sente? – manteve o tom firme mas calmo, talvez porque a situação fosse muito menos desesperadora do que a que passou na banheira. Estendeu devagar a mão sobre a mesa. – Pegue minha mão, se quiser. O que precisa? Aleksei
Maud deteve o movimento tão logo notou a hesitação do grego, mas foi Vivien que chamou a atenção dele de volta para a situação em que estavam e que aquilo não era um caso de perigo iminente como deveria soar. Só ao observar a expressão pálida e o rosto assustado foi que a loira pareceu perceber a gravidade da situação de Aleksei, e ia bem além do que ela tinha suposto. Aleksei pareceu ouvir o chamado de Vivien e embora não tivesse voltado o olhar para ele, atendeu a instrução de respirar. Soltou o ar todo de uma vez, sentindo a náusea apenas aumentar com o desconforto do ar passando pelos pulmões. Estava tão acostumado com as reações limitadas diante dos pacientes perigosos que o susto diante do som alto fez com que o corpo todo doesse. A lembrança de Kyle no banco de trás do carro foi suficiente para não querer levantar o olhar e a voz de Vivien só lhe atentou quando viu a mão dele sobre a mesa. A reação demorou a vir, mas estendeu a mão de volta para segurar a dele com o resto de força que tinha, os dedos gélidos. – Vamos voltar… – ele respondeu finalmente, num fio de voz. Não levantou o olhar para encarar os dois ao seu lado. – Eu não estou… desculpe, Maud, podemos terminar a conversa depois? – Está tudo bem, Aleksei. Vocês deveriam ir, eu encerro aqui no restaurante. – ela respondeu. – Eu vou visitá-lo amanhã, tudo bem? – Sim, por favor. – ele respondeu, colocando-se de pé apenas para sentir o corpo completamente frio, a fraqueza nas pernas. Não soltou a mão de Vivien, ao contrário, esperou que ele lhe acompanhasse de uma vez. A náusea apenas aumentava e a única coisa que queria era estar em casa de uma vez. – Podemos, Vivi? Vivien
Embora Aleksei não tivesse lhe encarado como esperava que fizesse, provavelmente tomado pelo medo de que aquela situação não fosse tão segura quanto era agora, ao menos ele fez o esforço de alcançar sua mão. Os dedos dele estavam frios, o que não era tão surpreendente considerando a palidez no rosto do loiro. Fechou os dedos em volta da mão dele devagar, lhe reafirmando que estava tudo bem ali e que ele tinha algum apoio. Mas pelo visto a ideia mais sábia seria voltar para casa. Se tivessem iniciado o tratamento e Aleksei tivesse acompanhamento psicológico, talvez a escolha mais certa seria esperar ele se acalmar e tentar ficar mais um pouco, mas era apenas a primeira vez que ele saía de casa depois de todo o incidente, e bem dizer, ele tinha conseguido o bastante. Acompanhou Aleksei ao ficar de pé, mas não soltou a mão dele, tal como ele não tinha soltado a sua naquele dia na corrida. – Podemos, Alek. – respondeu, fazendo um cumprimento breve a Maud. – Obrigado pela companhia, madame Janssen. Nos vemos em breve então. – despediu-se, e então se pôs apenas um pouco mais próximo de Aleksei para ajudá-lo a sair do restaurante. – Se se sentir mal, avise. Mas logo estaremos em casa. – respirou fundo, indicando silenciosamente para Aleksei que ele deveria acalmar um pouco o ritmo da própria respiração, talvez para evitar se sentir ainda pior. Ainda teriam que pegar o carro e voltar. – ”Há algo bom nessa situação. Significa que alguns gestos podem passar despercebidos”. – repetiu para o loiro com um tom mais suave que o anterior, mesmo sabendo que em meio ao pânico dele, dificilmente ele notaria o que estava dizendo. Guiou Aleksei até a entrada do restaurante sem soltá-lo, e falou com o maître na saída por um breve instante, avisando que o convidado não estava se sentindo bem e que a madame logo iria embora, porém, a conta toda deveria ficar sob a responsabilidade de Vivien. Usou um pouco de sua influência (ou o que restava dela) ao falar que conhecia a dona, madame Dupont, e que em breve acertaria o pagamento. Conhecia gente naquele restaurante que tinha a conta pendurada há anos, mas não faria o mesmo, certamente. Apenas tratou de retornar ao carro, assegurando a Aleksei que estava tudo bem, e de fato, em breve estariam de volta em casa. Aleksei
Aleksei ficou mais tranquilo de poder sair do restaurante com Vivien, mesmo que a companhia de Maud lhe fosse reconfortante também, ainda queria estar de volta ao apartamento, à segurança que sentia que tinha lá diferente do que sua casa tinha passado no último mês. Só concordou com um aceno de cabeça breve para indicar que tinha ouvido a recomendação. Não ligou e não se importou de ainda estar segurando a mão do francês ao passarem pelo salão principal do restaurante até chegarem à entrada. Ouviu ainda o comentário familiar sobre os gestos despercebidos e queria estar menos nervoso para responder, mas apenas continuou em silêncio até o carro. E foi exatamente naquele momento que sentiu o estômago revirar ainda mais. Voltariam de carro para o apartamento e a viagem que seria curta e sem muitos problemas já parecia, em sua mente estressada, longa e cansativa. Sentiu o coração acelerar ao ponto de que parecia prestes a ter uma taquicardia. Até prendeu o ar antes de entrar no veículo e não ter muita coragem de olhar para o banco de trás. Só conseguiu entrar talvez pela reafirmação de Vivien de que estava tudo bem. Colocou o cinto de segurança e em nenhum momento se encostou ao banco. Manteve o corpo inclinado para frente, os cotovelos apoiados nas pernas e as mãos dando suporte na altura do pescoço, mais como um ato de segurança como se aquilo lhe impedisse de ser agarrado por trás. Era frustrante reagir daquele jeito de um modo automático e instintivo, mais frustrante ainda ter consciência de que tudo era apenas uma peça pregada por sua mente e não poder fazer nada de imediato para combater o desconforto. Tão logo o carro ligou e Vivien saiu do estacionamento do Sautée, a primeira coisa que lembrou foi dos minutos longos da direção ao sair de St. Clavier pouco mais de um mês atrás em que estava em paz até ouvir a voz que quase lhe fez sair da estrada. E mesmo que fosse em sua cabeça, a voz soou real o suficiente para que, depois de meros cinco minutos de direção, ele estendesse a mão até a perna de Vivien, pressionando-a inquieto. – Pare o carro, Vivien. – pediu num tom de urgência e até se atrapalhou para destravar o cinto de segurança quando Vivien encostou o carro no meio do caminho e ele saiu às pressas para vomitar o pouco que tinha comido no restaurante. Sentiu a garganta e o estômago doerem, o corpo que estava frio e trêmulo, a respiração saindo pesada e mais fácil apenas por ter saído do carro. Buscou Vivien por perto estendendo a mão até segurar ao menos a roupa dele. – Desculpe… Vivien
O carro deveria ser um grande trauma para Aleksei, pois instantaneamente, ao entrar no mesmo, sentiu que ele ficou muito mais tenso. Antes de partir, deu uma olhava breve para ele e enquanto saíam, não se deu a ousadia de tocar nele tão pronto, pois pensava que pela posição encolhida que o loiro estava, qualquer toque poderia deixá-lo ainda mais assustado. O carro não parecia um bom ambiente para isso. Os primeiros cinco minutos foram tranquilos, porém, até um pouco subitamente para Vivien que estava apenas tentando chegar lá o quão rápido conseguia, sentiu a mão de Aleksei em sua perna e o pedido urgente para que parasse o carro. Sem hesitar, olhou rápido a estrada e encostou para a calçada com o alerta ligado, deixando que o grego saísse do carro para vomitar. Saiu do carro em seguida, apenas em tempo de sentir a mão dele agarrar sua camisa. Com cuidado, tocou as costas de Aleksei, acariciando-as de leve, em um movimento quão reconfortante conseguia. Tirou do bolso um lenço e estendeu ao loiro, esperando que ele pelo menos utilizasse para enxugar a boca. – Não tem problema. – respondeu prontamente ao pedido de desculpas, permanecendo lado a lado com o loiro, aproximando-se devagar por não saber se ele ainda queria espaço para vomitar mais uma vez. – Como está agora? Menos enjoado? Podemos ficar aqui um pouco mais, até o enjoo passar. – falou com a voz tranquila, supondo que não podia fazer muito por ele até chegarem no apartamento. – E não precisa pedir desculpas. Pra sua primeira saída depois de tudo, foi muito bem. Aos poucos, essa sensação ruim vai passar. – reafirmou, porque pelo menos disso tinha certeza. E mesmo se não fosse o caso, estaria com ele de toda forma. Aleksei
Aleksei se manteve curvado, apoiado nas pernas na altura do joelho. Sentia mais a dor do esforço para vomitar do que a náusea em si. Respirou fundo, o peito subindo e descendo com a mão de Vivien lhe acariciando as costas. Fora do carro, mesmo que num lugar aberto, era melhor do que ter a sensação de uma sombra às costas que poderia lhe fazer mal a qualquer instante como tinha feito da primeira vez ali em Cerise. Não sabia onde tinham parado e se qualquer olhar curioso estava voltado para os dois, mas depois de sentir o corpo totalmente frio com a situação, ainda olhou brevemente ao redor como se buscasse o fantasma que não estava ali. Não soltou a roupa de Vivien, mesmo que em algum lugar também soubesse que, na impossibilidade de Kyle estar vivo, seria pior ser visto com outra pessoa. Colocou-se de pé, ajustando a postura e erguendo a cabeça, o que era bem melhor para qualquer ânsia de vômito. Aceitou o lenço de Vivien, limpando o rosto e deixando o lenço no próprio bolso. – Eu não achei que seria tão… difícil. Eu devia ser mais racional que isso, Vivi. – comentou com o francês, deixando os dedos escorregarem finalmente pelo tecido da camisa dele. – Eu estou um pouco melhor, podemos continuar. – ele voltou a atenção para o carro e olhou através dos vidros das janelas. – Não se importa se eu for no banco de trás, não é…? Esperou apenas a confirmação do francês para voltarem ao carro. A experiência não era confortável e era quase um tratamento de choque. Era até estranho imaginar como tinha passado aquele mês inteiro fazendo o mesmo trajeto até St. Clavier de carro, apenas para manter as aparências na esperança de que Kyle não aparecesse. Mas ao menos no banco de trás do carro, a sensação de estar sendo observado seria bem menor. Não foi a solução perfeita, mas lhe fez chegar ao apartamento sem passar mal de novo. O estresse da situação fez com que sentisse o corpo todo dolorido e de um jeito ruim, provavelmente pela tensão com o susto. A única coisa que fez foi se livrar das roupas fechadas, tomar os remédios para dormir e se jogar na cama, garantindo que Vivien estava no alcance de seu braço. Vivien
Mesmo que Aleksei estivesse numa situação muito complicada, o fato de que se permitia ser cuidado daquela forma era um grande progresso. Como tinha conversado com Maud durante aquela noite, ele não era de se abrir. Mas estava ali, sem se importar em ser vulnerável a sua frente, algo que dois dias atrás teria sido completamente diferente. Aos poucos ele retomou um pouco da postura, e o ajudou um pouco a se reerguer. Para os poucos transeuntes ali, mesmo que ainda fosse cedo, não era como se perto de restaurantes e bares mais finos, mesmo os mais finos, uma pessoa pudesse estar passando mal. Além do quê, mesmo que interioranos, os Cerisienses não costumavam prestar tanta atenção as pessoas na rua. Nisso tinham um espírito bem francês. – Pode ir no banco de trás. – respondeu com tranquilidade, envolvendo parcialmente o ombro de Aleksei para guiá-lo até o carro. – E Alek. É difícil. Mas vai melhorar. – falou com plena certeza, deixando que ele entrasse no banco de trás e fazendo mesmo em seguida no banco da frente, esperando para ver se ele se sentiria incomodado antes de sair. – Além do que... se medos fossem racionais, um homem egocêntrico como eu nunca teria medo de multidões, sim? – brincou levemente, tentando fazer ele pensar em outra coisa, embora soubesse que no estado que o loiro estava, rir não era sua primeira opção. O caminho foi penoso para Aleksei, mas ao menos chegaram sem mais complicações. Tal como o loiro, não teve muita paciência para todo um ritual antes de dormir. Ele parecia precisar mais de sua companhia do que Vivien precisava passar longos minutos no banho. Apenas tirou as roupas e trocou por pijamas e tão cedo quanto Aleksei estava na cama, também decidiu acompanhá-lo. Abraçou o corpo dele com um pouco mais de firmeza inicialmente, dando-lhe certeza que estava ali para cuidar dele pelo menos por ora, mas deixou-o com um pouco mais de folga na medida que os remédios para dormir fizeram efeito. Se ele tivesse outro pesadelo ou precisasse ir ao banheiro para vomitar, tinha espaço para isso. A única coisa que garantia era que aquela noite toda faria companhia a Aleksei, e nas noites seguintes também. [thread encerrada] |