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[Drive] Awkward Advice [Isaac; Didier] - Lil - 09-01-2021 Isaac
Aquele tinha sido um mês difícil, tudo porque tinha discutido com Ethan e tinha se afastado do namorado. Mas depois de muitos dias sem ao menos conseguir se situar no trabalho ou nas atividades da Academia, Ethan finalmente tinha lhe procurado de volta, e tinham se entendido. Estavam bem de novo, e bem demais… a sua preocupação agora era se conseguiria fazer alguma coisa para desagradar o loirinho de novo e acabar no mesmo estado que tinham sido aquelas longas e torturantes semanas. Aquela ideia ficou em sua mente, afinal, sabia não ser a pessoa mais empática com relação aos sentimentos alheios, e foi por conta disso que depois de muito ponderar, chegou a conclusão que não poderia se prevenir de erros futuros sozinho. Talvez fosse melhor perguntar a alguém que estivesse acostumado a ajudar os outros, que entendesse de relacionamentos e de pessoas. Teria naturalmente procurado por Carbella, quem sabe, mas a ruiva cereja estava constantemente ocupada para lidar com suas situações cotidianas. Renaud estava fora de questão, primeiro porque o Blanco parecia ter tanto tato para sentimentos quanto ele mesmo, segundo porque o próprio Renaud fizera parte da sua briga com Ethan. A pessoa mais lógica que surgiu em sua mente depois de um pouco de ponderação foi provavelmente a segunda pessoa mais próxima na Academia masculina. E sabia muito bem que ele era um ótimo conselheiro para muitos alunos, afinal, não era a toa que os primeiranistas viviam buscando consolo no colo dele. Foi com aquele pensamento lógico em mente que, depois das aulas e dos afazeres diários na sexta-feira, seguiu até o quarto de Didier Callas, que inclusive não tinha aparecido no Conselho Estudantil por muito tempo. Levantou a mão machucada para bater à porta mais por instinto, corrigindo com a mão direita logo em seguida e esperando alguma resposta do presidente do Conselho Estudantil. - Didier? - chamou pelo outro antes mesmo que ele abrisse a porta. Didier
Didier mastigou devagar um quadradinho de chocolate enquanto estava jogado na cama, um dos livros de moda que tinha que ler para fazer um dos artigos finais da matéria que tinha atrasado por ter faltado aula a frente de seu rosto. Já tinha lido o mesmo parágrafo ao menos umas quatro vezes, mas não podia dizer que entendia o que estava escrito. Lembrava de palavras vagas como modelagem e cortes, mas sobre o que o homem estava falando, não entendia inteiramente se sabia, ou se queria saber. Estava desmotivado, e só por isso ganhou uma segunda chance de entrega. Respirou fundo e levantou da cama, largando o livro para o lado. Não ligava. Nesses últimos dias, não ligava mesmo. Sempre que olhava ao redor do quarto e para a pilha desorganizada de livros na mesinha, lembrava de como eles costumavam ser organizados. Sempre que olhava para os perfumes em cima da penteadeira, lembrava de um aroma agradável e masculino. Sempre que olhava para a própria cara no espelho, mesmo com aquele rabo de cavalo alto feito as pressas, a camiseta enorme e o short leve que não combinavam nada, desgraçado de descuidado como estava, lembrava de rir, ouvindo um elogio charmoso. Era tão idiota. Como conseguia ser tão idiota? Bem dizer, tinha organizado muitas coisas que remexiam no fundo de sua cabeça, se isolando um pouco das aulas, dos amigos, dos filhos. Lhe revirava o estômago lembrar do que tinha dito, mas lhe deixava verdadeiramente enjoado pensar que algumas delas eram falhas dolorosas. Que tipo de pessoa seria quando voltasse para casa? Estremecia sempre que pensava que estava cada vez mais perto de voltar para lá. E nunca pensou que tivesse medo de voltar sozinho. O que tinha de expectativas esse tempo todo, isso ainda não tinha conseguido entender. Mas se sentia mal. Ouviu o barulho na porta, mas a vontade foi de ignorar. Observou a mesma e respirou fundo, ponderando se seria algum colega de curso com atividades novas para fazer por conta de seus atrasos. Já ia abrir a porta quando a voz que lhe chamou por trás da mesma foi a de Isaac. Tocou a maçaneta e mordeu o próprio lábio inferior. Será que ele tinha vindo lhe falar alguma coisa sobre ele, ou será que estava ali só para lhe dar mais papéis? Mas estava tão sozinho que não podia negar nem mesmo a companhia que fosse pelo dever, podia? - Hm? – respondeu, abrindo a porta com hesitação, olhando no corredor para ver se não tinha nenhum pollito que precisava desviar. – Entre, Zac. Mais papéis para assinar? – perguntou, um tanto irritadiço, mas apenas por estar frustrado. Foi até a mesa para pegar uma caneta, mostrando-a para o moreno. Isaac
A resposta do outro lado demorou um pouco a vir, mas logo Didier abriu a porta, os cabelos amarrados de qualquer jeito, usando umas roupas mais largadas que geralmente não o via usar, mesmo nos dormitórios, mas ele estava no quarto e indo dormir, supunha, não precisava nem devia se importar com aqueles detalhes. E também não tinha ido ali para pedir ajuda comprando ternos, por exemplo. Pediu licença para entrar no quarto e ficou parado no meio do cômodo enquanto Didier fechava a porta para se voltar em sua direção. Não estava carregando nada, também não usava o uniforme da Academia, o que queria dizer que já estava um pouco distante dos afazeres do Conselho Estudantil. - Não. Eu já dei conta. - respondeu, sobre a possibilidade de ter levado papeis para o outro assinar. Evitava ao máximo procurar Didier e Renaud fora da Academia para tratar e assuntos do Conselho, mas como ele tornava aquela busca bem difícil, às vezes até ficava sem opções a não ser buscá-lo no quarto no fim da noite. Mas tirou os pensamentos burocráticos da cabeça, voltando para o seu problema inicial. - Você vive ajudando os primeiranistas, não é? Dá conselhos para eles. Pode me dar conselhos de relacionamentos também? Didier
Depois de tratar Isaac como tratava Isaac, era até difícil acreditar que ele tinha ido lhe ver ali sem papéis na mão. Ele era bem mais próximo de Renaud, bem sabia, mas não sabia bem como eles dois tinham se tornado daquela forma. Respirou fundo sem perceber, só por lembrar que ele também estava lá no dia em que brigaram, mesmo que estivesse meio morto. Por que Isaac deixou que fizessem aquela bagunça na sala do conselho? Ele era tão eficiente. Decidiu colocar a caneta de volta na escrivaninha cheia de livros, mas assim que a deixou no local, ouviu o pedido de Isaac. O que ele queria mesmo? Conselhos? Permaneceu um instante com a mão sobre a caneta que havia acabado de deixar ali, em silêncio. Ele só poderia estar tirando com a sua cara, por mais que Isaac não fosse de fazer piadas. E ele não parecia tão morto quanto nos dias anteriores. Tinha superado Ethan? Que bom para ele. Ou tinham voltado? Que bom para ele também. Não queria saber da felicidade alheia. - Você está brincando comigo? – Didier falou num tom baixo e rosnado, voltando-se para o moreno com graça nenhuma nos olhos claros, a vontade verdadeira de voar no pescoço dele. – Si, eu ajudo os primeiranistas e si, eu também dou conselhos de relacionamentos. Mas não sei se posso ajudar no seu, Isaac Lemont. Por que não pergunta mais diretamente o que quer saber? Talvez eu tenha exatamente a resposta para seu problema. – respondeu com o tom ácido, esperando que Isaac pelo menos se tocasse um pouco do tipo de porcaria que tinha acabado de lhe dizer. Já não bastava estar se sentindo um lixo, ele tinha que esfregar em sua cara que estava falando de coisas que sequer conseguia fazer por si mesmo. Isaac
Observou Didier guardar a caneta que supostamente assinaria os documentos de volta e lhe encarar. Havia algo de diferente na expressão dele, mas não parou sequer para tentar entender o que era. Quando ele perguntou se estava brincando, apenas franziu um pouco o cenho, respondendo tão direto quanto sempre. - Não. - nem entendia porque ele estava perguntando aquilo, afinal, quando é que já tinha brincado com ele ou Renaud... ou qualquer outra pessoa, na verdade? Ouviu a resposta bem mais firme dele e mesmo para a sua pouca atenção, parecia haver algo de diferente do Didier costumeiro. Ele não devia estar todo feliz e falando em espanhol e lhe agarrando porque finalmente tinha ido pedir ajuda dele? Bom, talvez fosse só impressão sua, então manteve a mesma objetividade de sempre, focado no próprio problema, afinal, ele mesmo tinha questionado diretamente o que queria saber. - O que eu posso fazer pra o Ethan não me deixar de novo? - perguntou, muito simples como se a resposta para aquilo fosse alguma equação matemática. - Ele brigou comigo duas vezes. E eu não sei o que fazer pra não dar motivos pra ele ficar com raiva de mim de novo. Didier
Costumava achar a seriedade e a incapacidade de empatia de Isaac engraçadas, mas no presente momento, ele estava lhe irritando. Engoliu em seco porque sabia que sua resposta passaria por cima da cabeça dele e ele realmente lhe perguntaria o que quer que quisesse saber. Desviou os olhos para o canto de sua cama, querendo voltar a se enterrar ali, mas mesmo a presença ignorante de Isaac era melhor que dormir mais um dia com a sensação de que no dia seguinte, não veria nenhum rosto conhecido. Só não esperava aquela pergunta. Ou Isaac era muito estúpido, ou ele era um gênio que tinha se escondido o tempo todo, e estava apenas esperando seu maior momento de fraqueza para se vingar de todas as pequenas provocações na sala do conselho. Os olhos claros voltaram-se para ele com descrença, a sobrancelha clara franzida enquanto ouvia o resto da frase. Só pode sorrir, ou melhor, abrir os dentes, pois não tinha graça nenhuma. Graça nenhuma. - Tem certeza... que não veio aqui para me joder, Issac? – perguntou mais uma vez, esperando com os olhos claros captar qualquer sinal de que ele era um puta mentiroso e estava mesmo ali só rindo de sua cara. Mas não era esse o caso. Isaac era Isaac, e isso era uma verdade dolorosa. – Como...? Toda a graça saiu de seu rosto e a mão espalmou a mesinha com força, para dar uma dica para ele que não estava exatamente contente. - Não esteja com ele. – respondeu simplesmente, com a voz baixa, o corpo todo estremecendo por não saber se estava frio ou fervilhando. Didier respirou mais curto, exasperado, e então voltou o olhar levemente em pânico para o moreno. – Não esteja com ele, então. Porque... enquanto vocês estiverem juntos tem uma grande chance de vocês se machucarem. De que um dia você acorde e perceba que ele não vale... ou ele perceba que você... não vale... nada. – apertou as mãos, ficando levemente sem ar ao dizer aquelas coisas. – Parece doer menos así, não é? Isaac
De novo, Didier parecia descrente que tinha ido pedir pela ajuda dele? Talvez devesse ter ido procurar alguma outra pessoa, quem sabe conseguisse marcar um horário com Carbella? Só não queria demorar tanto para perguntar alguma coisa antes que fizesse outra besteira e o loirinho lhe deixasse sem aviso. - Tenho. - respondeu a pergunta incrédula dele com a mesma expressão sóbria de antes. Qual era o problema de ir pedir conselhos a ele se todos os primeiranistas faziam isso? Talvez o problema fosse que já era quartanista e que era maior que ele. Já estava prestes a desistir da ajuda e voltar para o seu quarto quando ouviu uma resposta bem direta de Didier. Bom, ela não se encaixava no que tinha pedido de conselho, mas ouviu as palavras do loiro até o fim, tentando colocar algum sentido mental no que ele dizia. Mas não adiantava, não com ele e com Ethan, pelo menos. Estava tão fixado no namorado que era impossível sequer pensar naquela possibilidade como plausível. - Não. - respondeu também objetivo como antes. - Eu não quero deixá-lo, ele é meu. - falou aquilo com uma categoria, como se fosse impossível considerar a possibilidade de ficar sem o namorado. - Quero saber o que posso fazer para ele não me deixar. - recolocou a mesma questão de antes, imaginando se Didier tinha distorcido alguma das suas palavras. - Mas se é esse o seu conselho, obrigado pela ajuda, mas eu não vou seguir. Imaginou que Didier podia lhe dar algum conselho mais específico, aqueles primeiranistas viviam se gabando de como ele era uma ótima "mama", preocupada com os seus filhotes. Bom, não era um dos "filhos" dele mesmo, então não dava para exigir muita coisa. Só seguiu na direção da porta para voltar ao seu quarto e mandar mensagem para Carbella daquela vez. - Desculpe o incômodo. Didier
Por que é que Isaac lhe ouvia mesmo assim? Estava claramente dizendo para ele terminar com o namorado, para doer menos. Era um conselho de fato, mas nunca era o conselho que ninguém queria escutar. Mordeu os dentes esperando ele lhe dizer qualquer coisa em resposta ao seu conselho claramente pensado para qualquer outro caso que não o dele. Um caso bem conhecido diria. Mas a primeira resposta que ouviu foi um sucinto e direto “não”. Franziu a testa e apertou os punhos, pondo uma expressão muito irritada de repente. Para que ele tinha ido ali, se não era para ouvir o que acreditava ser um conselho, mesmo que não fosse bom? Para mostrar o quanto estava feliz ao lado de Ethan porque ele era seu? Por que ele tinha absoluta certeza que aquilo não iria mudar em nenhum momento? Oh, bem, ele tinha a dúvida, afinal, aquela pergunta se devia exatamente a isso. - Não sou uma merda de vidente, como espera que eu saiba o que ele sente...!? – rosnou mais para si mesmo do que para o outro, erguendo os olhos claros na direção de Issac. Mas quando deu por si, a conversa entre os dois tinha “terminado”. Tinha dado seu conselho, e Isaac tinha ouvido. Ele não tinha nada para fazer ali. Porém, se ele saísse... bom, que ele saísse. Não era como se esse tempo todo Isaac tivesse feito alguma diferença em sua vida, fora ser um companheiro de trabalho atarefado sobre o qual jogava todas as suas tarefas para ter tempo livre. Ouviu a maçaneta, já pronto para deixá-lo ir. Mas se deixasse, estaria sozinho de novo. Antes que percebesse, seus dedos estavam agarrando as pontas da camisa do moreno, segurando-o dentro do quarto para que ele não acabasse de sair. Os dedos moveram-se apertando ainda mais o tecido, nervoso. O rosto encheu-se de uma expressão desgostosa, tanto da vergonha de depender dele quanto da vergonha de expor a ele seu comportamento contraditório. Não teve coragem sequer de levantar a cabeça para encarar o conhecido de longa data, tentando apenas trazê-lo para que permanecesse no quarto bagunçado. - Seu... ele é seu...!! Y tú? Se soubesse que ele iria lhe deixar no fim... o que você faria, Isaac...? Isaac
Definitivamente havia algo de errado com Didier, em geral ele não seria tão agressivo lhe respondendo aquelas coisas. Esperava que ele risse, debochasse, fizesse piada, mas não aquela atitude tão agressiva. Não que não soubesse que o outro era agressivo, afinal, o tinha conhecido quando ele e Renaud ainda tinham rumores sobre fazerem parte de gangue e ainda tinham arrumado briga dentro do seu antigo trabalho, mas provavelmente naquela noite havia algum motivo a mais para o mau humor que não conseguiria adivinhar em um milhão de anos. Não esperava que ele soubesse o que Ethan sentia, mas para quem dava conselhos sobre relacionamentos, ainda tinha esperado algo diferente do "termine com ele". Parou o movimento de sair do quarto só quando sentiu o agarrado na sua roupa e se voltou para o loiro, com as sobrancelhas arqueadas em confusão. Se ele estava tão irritado, deixá-lo sozinho seria melhor, não era? Antes de sugerir aquilo, ouviu a pergunta sobre o próprio relacionamento. - Continuaria com ele. - respondeu, como se aquilo fosse a resposta mais óbvia. - Queria poder trancá-lo no quarto com uma corrente no pé, mas... se ele me deixasse, eu ia ter que deixá-lo ir, não é? Não muda o fato de que eu o amo. Por isso quero saber o que fazer pra ele não querer me deixar. Claro que era uma tarefa difícil para alguém que não sabia lidar muito bem com sentimentos. E se não conseguia entender o que se passava com Ethan que era tão próximo, quem dirá com Didier? Melhor ser mais objetivo. Desistiu de abrir a porta, ficando de frente para Didier de novo. - Eu não sou bom em entender o que os outros estão sentindo, Didier. - explicou, novamente, o óbvio. - O que tem de errado com você? - ao menos sabia que havia alguma coisa errada ali. Didier
Seu gênio era muito forte, e embora não pudesse se comparar com Isaac, sabia que nas palavras calmas e pontuais, ele também demonstrava ter uma personalidade muito forte. Porém, diferente dele que conseguia juntar tudo em argumentos lógicos e funcionais, Didier só conseguia sentir. E talvez por sentir era que sua cabeça estava uma bagunça. Parecia tão óbvio nas palavras dele, como se no fim, não importasse se ele seria abandonado, como se fosse ficar bem se Ethan o deixasse para trás para perseguir outros interesses ou pessoas. Queria jogar na cara dele que aquela resposta, por mais cheia de paixão que fosse, era muito fria, mas nem podia. Sabia como Isaac tinha ficado quando ele e o garoto brigaram. Ele ficava mal. Ele só não ficava mal antes do fim acontecer. Nunca conseguiria ter a objetividade dele. Embora aquelas palavras talvez valessem para si, não eram as suas. - Você fala como não fosse doer nada, deixá-lo ir! – rosnou de volta, agarrando a camisa de Isaac pelo peito, puxando-o com a usual agressividade. Estava visivelmente possesso. A outra mão agarrou ele em seguida, fazendo com que o secretário lhe encarasse diretamente. – Você SABE o quanto dói, não sabe, ser jogado fora!? Se você quisesse passar por eso de novo, você não tinha vindo aqui, me perguntar o que hacer para evitar que ele se vá...! A angústia vai estar sempre lá, Isaac! Sienpre! Un día, cansarás de juntar los pedazos de tu corazón y dolerá a alguien en su lugar! Pero... esto no hace que duela menos...! A voz foi ficando cada vez mais desesperada, embora não conseguisse soltar uma lágrima sequer. Não chorava. E não choraria por isso, porque tinha sido o culpado por terminar de jogar a merda no ventilador, já que em suas palavras, era impossível não exibir a própria carga emocional e ser racional como Isaac. Pensava no pior, e agia pensando assim, embora lembrasse de tudo que era bom depois, na imensidão silenciosa de seu quarto ou no tédio do dia a dia. Foi desarmado pela questão de Isaac, finalmente notando que não havia algo de normal com seu comportamento. Folgou o aperto na camisa dele, ao invés disso, levando os punhos fechados até o próprio rosto, cobrindo a vergonha de permitir que até Isaac enxergasse seu comportamento ridículo. Fechou bem a mordida, frustrado o suficiente para que seus ombros caírem da posição tensa, lhe deixando com uma aparência muito mais vulnerável do que a agressividade que tinha mostrado até então. - Você não precisa entender, estúpido... é só olhar... – respondeu num suspiro longo. – ...eu estou sozinho... Isaac
Definitivamente havia algo de errado com Didier, a agressividade dele só aumentava consigo, mas não reagiu nem se esquivou do aperto na camisa e da mão puxando seu rosto. Ele parecia muito revoltado com a sua dúvida e com o fato de que queria ficar com Ethan a despeito das "desvantagens". Não sabia como responder aquilo sem ser de um jeito lógico de novo. Nem que tentasse procurar todas as referências de literatura romântica que houvesse em sua mente, não teria como responder de um jeito que Didier entendesse, provavelmente. Ainda assim, suavizou a expressão, colocando a resposta do jeito que sabia. - Eu sei que é ruim. Mas eu gosto mais dele do que de ficar sem ele. - ainda era difícil colocar em um sentido mais passional do que lógico, então se rendeu àquela colocação simples. Suspirou um tanto resignado com a incapacidade de entender onde aquela conversa estava indo, ao menos até ele folgar o aperto em sua camisa e baixar os ombros, explicando que o que “havia de errado” com ele, era que estava sozinho. Ainda reagiu automaticamente olhando ao redor, como se esperasse que alguma companhia mágica surgisse no quarto, ou apenas para confirmar logicamente que não tinha deixado passar ninguém despercebido. - E por que não arruma companhia então? - perguntou, de novo, atendo-se ao sentimento mais lógico mesmo que aquilo fosse fazer Didier lhe bater. - Você sempre está com o Renaud ou com os primeiranistas. O que tem de diferente agora? Didier
O fato de Isaac ser o exato oposto de sua personalidade lhe deixava frustrado. Tentava conversar com ele e fazê-lo entender, mas ele tinha uma saída lógica para tudo que dizia. Ele fazia parecer muito fácil fazer tudo aquilo, ignorando todo o processo de sentir a angústia que havia sentido quando começou a notar que seu tempo estava diminuindo junto de quem queria estar. Ele sabia sentir, então porque não entendia que haviam implicações muito pesadas nas próprias palavras? Mas era exatamente como ele dizia. Se fosse para ser fácil, ele diria que era fácil. Ao invés disso ele disse que era “ruim”. Porque era horrível pensar que estava se afastando de alguém que queria aos poucos, ou mesmo de uma vez. Mas no fim, compensava. Estar com ele por todos os momentos bons superava toda a dor disso se partir, não superava? Mesmo que não parecesse que iria parar de doer, um dia iria, não iria? Engoliu em seco. Se não fosse esse o caso, não teria feito o que fez, não estaria tão confuso assim por no fim, estar mais preocupado com as palavras horríveis que disse ao invés do fato que teria que sair de St. Clavier em breve. A porta que era Isaac parecia não entender o que estava acontecendo a não ser que explicasse. Até queria que fosse o tipo de situação em que queria rir, mas não sentia vontade alguma disso. Na verdade, já tinha perdido toda a vontade de brigar com ele, tão idiota que ele conseguia ser, sem identificar a nuance de uma colocação tão simples. Sacudiu a cabeça negativamente e abaixou o olhar, já cansado de tentar fazer Isaac entender do seu modo. Quem sabe, podia aprender a se comunicar como ele? - Tonto de culo. – respondeu para a colocação que mais lhe pareceria de uma criança sem a habilidade de identificar discurso subjetivo. – Eu não quero estar com os primeiranistas. Não estou com paciência para eles. – andou até a própria cama, voltando a se sentar. Colocou os cotovelos nos joelhos e afundou o rosto nas mãos, arranhando a pele com as unhas longas. – Você estava lá quando eu briguei com o Renaud. Eu joguei ele fora, Isaac. O que tem de diferente é que eu machuquei ele... eu estou sozinho, porque quiero estar... quiero estar con ello... mas não posso. Eu não tenho mais ninguém... – suspirou longamente, as mãos suando por por aquilo de modo tão direto. Isaac
Ouviu o insulto em espanhol, ainda sem saber o que fazer. Tinha ido ali para procurar algum conselho, mas pelo visto a situação estava bem diferente. Era péssimo em ajudar pessoas naquele sentido, mas também não ia sair do quarto e deixá-lo sozinho depois do loiro ter dito que não queria ficar sozinho. Podia ter muita raiva de Didier no dia-a-dia por conta do trabalho que ele lhe dava no Conselho Estudantil, mas até preferia o loiro lhe jogando as usuais tiradas debochadas e matando trabalho do que daquele jeito estressado - porque era a única palavra que conseguia usar para definir o estado alheio. Até entendia que ele não tivesse paciência para os primeiranistas, já era difícil ter paciência com Yure e os amigos tendo aulas de reforço, além de ficar repreendendo os primeiranistas que saíam das regras, como Didier conseguia passar horas falando com aqueles meninos e não conseguia passar cinco minutos organizando papeis era um mistério. Ele seguiu para sentar de novo na cama e Isaac se manteve ali, parado, sem saber o que fazer, até ouvir a explicação dele que tinha presenciado a briga dos dois. Mas franziu o cenho em confusão com aquela definição tão... simples de que tinha “jogado” Renaud fora. Parecia um dilema extremamente complicado para Didier, querer estar com Renaud e não "poder", até podia pensar entender mais ou menos aquilo, afinal, tinha passado um mês longe de Ethan por conta daquilo. Aproximou-se da cama mesmo sem ser convidado e se sentou ao lado do outro, já que não ia sair mesmo, melhor procurar um lugar para sentar. - Você não pode jogar pessoas fora, Didier, pessoas não são coisas. Você e Renaud são muito estranhos, falando como se fossem coisas. - respondeu, quase rodando os olhos. - Pessoas se afastam quando brigam, até eu sei disso. Mas vocês se importam um com o outro, então, vocês não deviam se entender eventualmente? Didier
Isaac se acomodou ao seu lado na cama, pelo que sentiu, com o mover do colchão. De certa forma, estava aliviado que ele não tinha simplesmente escolhido sair. Porém isso significava que teriam que conversar, e se já estava difícil por tudo em palavras de sangue quente, agora que já tinha desistido de se irritar com o jeito direto dele, supunha que ficaria ainda mais desconfortável. As primeiras palavras de Isaac foram mais inesperadas que ele não sair. Pela segunda vez, ouvia aquela conversa de que ele e Renaud com aquele modo de se coisificarem eram estranhos. Entendia aquilo, mas também sabia que era ainda pior se não fossem coisas. - LO SÉ! – levantou a voz, ainda com o rosto abaixado nas mãos. Mas não demorou para agarrar a perna de Isaac com as unhas grandes, fechando-as com firmeza em volta da coxa dele, ainda incapaz de olhar o moreno nos olhos. – Lo sé que ele não é um perro, e lo sé que não sou dono dele! Mas se ele não for uma coisa... isso significa que fiz algo muito pior com ele...! Eu abandonei ele, Isaac...! Aquilo não tinha sido uma simples briga. Podia não ter a habilidade precisa de Renaud de lembrar cheiros, vozes, palavras, mas sabia que era ácido e irritadiço. Sabia que conhecia o moreno até certo ponto, para saber precisamente onde machucá-lo com sua raiva. Se arrependia do que tinha dito, porque podia ter escolhido qualquer modo de estar irritado com ele, mas escolheu o mais doloroso, e o mais difícil de voltar atrás. Se tinha abandonado ele, tinha feito exatamente aquilo que tinha medo que fizessem consigo. Fosse qualquer outra pessoa, supunha que juntar os cacos seria mais simples, mas havia algo em suas feridas e de Renaud que eram muito parecidas. Sabia que doia muito mais nele, ser abandonado. - Quando é eventualmente, Isaac...? Isso não foi uma peleja qualquer... eu... disse a ele... tantas coisas ruins... eu disse que não precisava dele... e ele fez... aquela cara... el tiempo se está acabando para nosotros... como vou saber se não adiantei o fim...? – os dedos que seguravam a coxa de Isaac estremeceram ao lembrar da sensação de ser colocado em St. Clavier. Não tinha como definir aquela dor, que só conseguiu superar passando por mais dor. Então veio o Hellhound, e de repente, um dia, não sentia a dor tão presente. Mas tinha feito ele passar pelo mesmo, e agora ele tinha outra pessoa para lhe fazer esquecer também. Será que havia algo para si, além de voltar para casa e esperar que não fosse tão doloroso quanto tinha sido antes? Tinha sido idiota para abandonar Renaud. Talvez o karma lhe pegasse lá na frente. A voz foi ficando mais uma vez cheia de peso, embora suave, e fugiu com o forte sotaque espanhol, embora as pausas longas tivessem deixado o francês claro.– Ele nunca... tinha falado comigo daquele jeito... eu perdi a cabeça... eu fiquei com medo... e fui ainda pior. Por que ele se preocuparia com alguém que fez tanto mal a ele...? Eu nunca fiz... nada por ele... a não ser magoá-lo... Isaac
O problema de Didier pelo visto era enorme, e tinha plena consciência de que ele não era a melhor pessoa com quem o loiro poderia conversar. Estava longe de entender tudo o que ele lhe falava e a coisa que mais fez sentido foi o aperto em sua perna e o desespero que até ele conseguiu perceber. Bom, ao menos Didier bem sabia que Renaud não era um cachorro, o que era um pouco contraditório, já que o vice-presidente tinha lhe dito uma vez que precisava ser o cachorro dele para que não fosse abandonado nem que Didier o considerasse "entediante". Queria mesmo entender todo o sofrimento de Didier, mas quanto mais ele falava sobre o que estava sentindo, mais as respostas pareciam mais óbvias em sua mente. Não era mais fácil ele ir conversar diretamente com Renaud? E dizer tudo aquilo a ele? Suspirou um pouco perdido, a verdade era que não lembrava de quase nada do que os dois tinham discutido na sala do Conselho porque estava num péssimo estado físico e mental por estar afastado de Ethan. Lembrava dos dois discutindo por não terem tempo um para o outro, de vozes altas... mas eles sempre se entendiam. Aparentemente, não era o caso daquela vez. Numa reação quase instintiva, levou uma mão até o topo da cabeça de Didier, afagando brevemente os cabelos loiros, porque ele realmente lhe pareceu uma criança irritada - igual a Clementine quando estava com raiva por causa da falta de tempo de Carbella com ela. - Primeiro: o Renaud se preocupa com você. - até podia dizer aquilo com mais categoria, depois daquela longa conversa que tinham tido algum tempo atrás. Ele até tinha se preocupado em pensar num presente para Didier só porque tinha passado a manhã longe do loiro. Afastou a mão dos cabelos dele, continuando o raciocínio mais lógico. - Segundo: as pessoas dizem o que não querem quando estão com raiva. - daquilo também sabia, Carbella fazia aquilo, Ethan com certeza fazia aquilo, até ele tinha seus momentos de explosão de raiva descontando nos outros. - Terceiro: por que ainda não foi lá pedir desculpas a ele? Eu posso não ser bom com sentimentos, mas você parece no mínimo arrependido de ter falado isso pra ele. Didier
Foi pego de surpresa pela mão em seus cabelos. Honestamente já não sabia onde Isaac tinha deixado de se aconselhar e tinha se tornado o conselheiro, mas conversar com alguém movido a lógica como ele fazia com que levantasse novas questões em sua cabeça. Já tinha pensado muito consigo mesmo, mas seus pensamentos eram sempre os mesmos vai e vem tristes em que nunca conseguia resolver nada. Isaac até lhe dizia que conseguiria, bem do modo dele, mas dizia. Mordeu o próprio lábio inferior quando ele colocou muito diretamente que Renaud se preocupava. Sabia que ele se preocupava. Ele tinha lhe dito isso no dia em que brigaram. Ele tinha provado aquilo por todos os anos que estiveram na Academia. Se Isaac tinha certeza disso, então era porque estava escrito em pedra. Não podia contrariar aquilo. Ainda sim, sabia que aquela preocupação podia mudar. Ninguém se doava para sempre. Ele também podia cansar de si. As outras colocações de Isaac também foram mais que pontuais. Tão pontuais que a primeira coisa que ouviu foi aquela voz rosnada conhecida: “covarde”. Era só o que ela precisava dizer. Tomou um leve susto ao lembrar disso, abrindo os olhos azuis e observando Isaac por um instante, só para garantir que não era ele que estava ali lhe assombrando. Mas não teria como ser ele. - Estou... estou... pero... não garanto que não vamos brigar de novo... – falou, temendo a ideia de ir tentar falar com Renaud e terminar mais uma vez tendo a mesma reação esquentada. – Sou “covarde”, como me dijó... sou fraco, tenho medo de ser abandonado, não sei... se sou mejor do que ele tem agora... – era estranho como pensava tão negativamente das coisas que poderia dizer a Renaud, mas estava dizendo a Isaac ao invés disso. Se fosse com meias ideias até Renaud, certamente terminariam em mais uma briga, e no fim, seria jogado fora dessa vez. – Ele não sabe que sou assim... eu sempre fui tão... cheio de vontade... mas eu sou assim... ansioso e medroso... eu sou decepcionante demais para estar com ele. Tinha sua acidez, mas sempre tinha visto tudo com os olhos de alguém no comando. Se tivesse merecido aquilo, não por um capricho do próprio Renaud, quem sabe, teria mais assertividade. - Bastou ele me dizer um não... e veja o que fiz... – adicionou, então fechando o punho e esmurrando a cama ao seu lado, frustrado. – Renaud necesita ter confiança... y yo nunca podria darlo eso, no como Peyrac lo hace. Isaac
Bom, tinham chegado a algum lugar, certo? Ele tinha admitido que estava arrependido do que tinha dito, se estava arrependido, o mínimo que devia fazer era se desculpar, como até os professores ensinavam em escolas de primário. Mas pareceram chegar logo noutro entrave. Ele falar com Renaud podia levar ao fato de brigarem de novo, Deus sabe como, porque na sua mente parecia muito simples: briga, pedido de desculpa, fazer as pazes - como uma criança no primário. - Eu não acho que você seja covarde. Se fosse, não teria metido medo na escola toda pra votarem em você pra presidente do Conselho. - e era bem o que tinha acontecido. A fama de Didier e de Renaud era bem conhecida em St. Clavier a ponto do carisma junto ao histórico de brigas e supostas punições que os estudantes não viram muita escolha senão votar nos dois com medo de qualquer retaliação. Estranhamente, tinha funcionado até ali. Mas entender a covardia da qual ele falava, de sentimentos, era um pouco mais complicado. Podia ser parecido com o que tinha sentido longe de Ethan, incapaz de ir falar com o loirinho... embora no seu caso, não tivesse feito aquilo porque Ethan tinha dito estritamente que voltaria para falar com ele quando a raiva passasse. Não era o caso dos dois, e tinha demorado muito. Queria ajudar o loiro, realmente queria, mas não sabia o que mais dizer além do que já era óbvio. Coçou a nuca, um tanto perdido no discurso sentimental. - Você devia mostrar a ele como é e deixar que ele decida. Eu não acho que você é covarde. Nem decepcionante. E você é a pessoa que mais me dá trabalho no Conselho Estudantil, eu que deveria achar isso. - retrucou de novo na linha de pensamento lógico que tinha. Mas foi pego um tanto de surpresa quando ele citou o presidente do Conselho Disciplinar, como se Sasha Peyrac fosse capaz de dar a Renaud o que Didier não conseguia. Franziu o cenho, um tanto confuso. Pela conversa com Renaud outros dias, os tipos de relações dos dois eram bem diferentes. Quem sabe fosse aquele o problema? - Você quer ser irmão do Renaud? - a pergunta saiu até um pouco descrente. Se ele estava se comparando a Sasha, aquele era o pensamento mais lógico. - Eu achei que fossem amantes. Didier
Botava muito mais banca do que era corajoso, até mesmo nas brigas. Aprendeu a brigar porque quando saía para vadiar, tinha menos chance de voltar apanhado para St. Clavier e ouvir dos professores. Aprendeu a brigar porque sempre estavam lhe provocando sobre sua mãe. Mas isso tinha mudado, porque Renaud sempre esteve lá para comprar as suas brigas. Ele pelo menos tinha um método para a própria loucura, enquanto sua estratégia era bater até cair, mesmo que precisasse usar truques sujos. Nunca tinha sido forte nesse aspecto também, exceto por ter mais carisma e mais simpatia. Mas até Isaac sabia que sua habilidade de briga não tinha nada haver com a sua de se expressar. De demonstrar sentimentos. De se importar. Era muito fútil e superficial com todos, exceto, o que julgava ser sua família. Até isso não sabia sobre si mesmo. As palavras de Isaac, que pela primeira vez se arriscava a falar de sentimentos, foram bem diretas. Não sabia se os sentimentos dele compartilhavam qualquer coisa de Renaud, mas sabia que tinha aprontado o suficiente com ele para saber que ele poderia lhe detestar facilmente. Mas singelo e sem jeito como ele estava tentando lhe dizer que não era assim uma pessoa tão horrível, se sentiu um pouco aliviado. Será que podia mesmo mostrar aquele seu lado para Renaud? Não se importava muito se ele lhe chamaria de “musa”, se ele lhe quisesse, supunha que era mais do que tinha naquele momento. Porém, parou para observar Isaac quando ele questionou se queria ser irmão de Renaud. Franziu a testa, sem entender o que ele queria dizer. Porém ficou ainda mais tenso quando ele mencionou que achava que eles eram amantes. Os olhos azuis até prenderam-se ao rosto do moreno, girando no mesmo lugar. - Nosotros... nunca... – franziu a testa ainda mais, tentando fazer sentido do que ele queria dizer, os olhos claros divagando pelo quarto. – É assim... que parecia...? Que éramos amantes...? – sabia que era difícil compreender a ideia do mestre e do cão, mais do que pensar que duas pessoas eram amantes apenas, porém ouvir isso de Isaac, que convivia com os dois de perto era um tanto... confuso. Tinha alguma vez se portado como alguém que dava carinho a Renaud, alguém que se preocupava? Renaud tinha, certamente, lhe dado o que precisava. Mas não podia dizer o mesmo de si. – Pero... eu não era fiel... nem ele precisava ser... e se eu chamasse ele vinha, como um perro... mas eu nunca me preocupei em hacerlo también... e ele não podia dormir aqui... eu não permitia... e ele só podia ser caprichoso... quando eu... – respirou profundamente, pois não sabia contar o número de coisas que havia de errado com toda a estrutura do relacionamento dos dois. – No sé que significa ser um amante, Isaac... Agarrou a camisa larga que estava usando, firmando as unhas na fibra. Alargou-a para frente, torcendo o tecido enquanto pensava, inquieto, sem saber exatamente o que dizer para ele. Isaac
A confusão ficou estampada na expressão de Didier quando disse que os imaginava como amantes. Aquela reação lhe dava uma sensação de nostalgia... já tinha falado sobre aquilo com Renaud uma vez... ele também tinha usado as mesmas palavras de Didier, que os dois tinham outros parceiros, e Renaud tinha lhe reforçado que eles não eram namorados, mas que sentia falta de ficar com o loiro? Estava maluco ou era muito óbvio que os dois agiam como namorados? Se tivesse a chance, perguntaria para alguém que entendesse do assunto, até mesmo Ethan devia saber identificar melhor os problemas de relacionamentos entre Didier e Renaud... mas não ia perguntar ao namorado sobre outros rapazes, só o pensamento lhe deixou levemente irritado. Ficou mais curioso sobre todos os pormenores daquele relacionamento coisificado dos dois, apenas porque não tinha outra definição mental para ele. Didier estava ainda mais inquieto do que quando tinha chegado e sua conversa não devia estar ajudando em nada. Ainda pensava a mesma coisa: ele devia falar diretamente com Renaud, devia se desculpar e aí os dois podiam explicar um para o outro que não queriam transar com outras pessoas. Parecia excessivamente fácil. - Se você não gosta tanto dele assim, por que está sentindo falta? Eu sei que não sinto falta de gente que não gosto. - de novo, tentou puxar as linhas de pensamento mais racionais. - Você sente falta dele como sente dos primeiranistas? Se fosse assim, então Renaud é só mais um, não é? Estava começando a ficar muito frustrado por ser incapaz de entender o que estava se passando com o outro, mas ainda estava forçando a mente a pensar nas respostas. - Se vocês não eram amantes... então você não quer ser? Amante do Renaud? Didier
Supunha que se não entendia o que era ser um amante, era porque ninguém nunca tinha lhe ensinado. Nunca teve um relacionamento como as pessoas definiam relacionamento. Viveu uma vida de sexo com homens mais velhos, de levar surras, de bater nos outros, de causar medo, de tentar ser remotamente uma figura a ser admirada e buscada por conselhos, como uma verdadeira mãe, tinha sido um dono, ruim como fosse. Mas se Isaac podia colocar aquela palavra amante com tanta propriedade nos lábios era porque alguém tinha ensinado isso a ele, pois sozinho ele não perceberia o que isso envolvia, certamente. Isso queria dizer que alguém tinha que lhe ensinar também. Ironicamente, era Isaac? Franziu a testa quando ele colocou que estava sentindo falta de Renaud, não porque não sentisse, mas porque ele fazia parecer como se fosse muito difícil acreditar que estava sentindo mesmo falta do moreno. - Nunca he dicho que não gosto dele! – respondeu prontamente para Isaac, mas em seguida, segurou a respiração, pois tinha dito sim, de forma indireta, para Renaud. Tinha dito que ele não servia, mas pelo contrário... quem não servia era o próprio Didier cheio de suas inseguranças covardes. Lembrar da briga com Renaud era o suficiente para por uma pedra em qualquer intenção de se exaltar no sangue quente do loiro. – Lo he dicho para ello, pero, é mentira... quiero Renaud. Lo quiero mucho. – dizer aquelas palavras deixou a sensação de vazio dentro de si ainda maior. Sabia que aquelas palavras não chegavam a definir o seu desejo de verdade, da mesma forma que também não queriam dizer que ele partilhava do mesmo sentimento depois de ser tão machucado. Mordeu o próprio lábio, ponderando sobre o que Isaac dizia sobre os primeiranistas, e a diferença que sentia entre eles e Renaud afinal. - Eu passei esse tempo todo... tentando ser parecido com mi mama... y soy exatamente igual a ela. – não queria pensar demais nas implicações do que estava dizendo, mas bem sabia, que aquilo era uma afronta a tudo que acreditava de sua mãe. Mas assim como Isaac dizia, queria acreditar que talvez, com ela, também fosse um mal entendido, assim como ele dizia ser com Renaud. Se fosse assim, tudo poderia se encaixar de novo, e quem sabe, não se sentisse tão mal. – Eu deveria estar ansioso para voltar pra casa... mas não estou... eu deveria deixar ele para trás tão fácil... mas eu não quero. – abaixou a cabeça, um longo suspiro escapando de seus lábios. Já estava cansando de pensar e repensar e sempre chegar a mesma conclusão. – Eu quero estar com ele, Isaac. Eu quero... ser dele. – não sabia exatamente dizer se essa era a definição certa, mas não sentia que era o mesmo, não se sentia uma “coisa”. Se sentia uma pessoa que queria estar intimamente ligada a outra. Só talvez suas palavras fossem as piores. Isaac
Conseguia entender muito bem o espanhol de Didier, e se não tinha ouvido errado, ele tinha admitido que queria muito Renaud. Finalmente tinham chegado a um ponto que entendia e se aquela era a questão, qual era todo o problema das voltas e voltas? Até ele sabia que os dois queriam estar juntos, e era bem difícil perceber aquele tipo de nuances nas pessoas. Mas Renaud já tinha admitido que sentia falta do loiro, Didier também tinha admitido aquilo, qual era o problema com aquela discussão, no fim das contas? Queria ter interrompido Didier no meio do discurso, mas ele estava muito imerso no que quer que estivesse racionalizando para lhe explicar. Não conhecia a mãe dele e não fazia ideia do que queria dizer que ele era igual a ela, mas ignorou o comentário sobre a mulher para se ater ao problema com Renaud que parecia bem mais imediato. E pela segunda vez, ele admitiu que queria estar com Renaud, ou ao menos “ser dele”, o que Isaac entendia muito bem. - Fale com ele. Não vai ajudar em nada ficar dizendo essas coisas a mim. - falou finalmente como se fosse a coisa mais sensata a se fazer. E era. - Vá se desculpar pela briga e dizer que quer ficar com ele. Didier
Tinha mesmo que dizer aquelas coisas para Renaud, não era? Não era como se quisesse Isaac como seu... o que quer que fosse. Se aquelas palavras tinham que ser ditas para alguém, que fossem ditas para Renaud, afinal, era ele quem tinha magoado. Afirmou com a cabeça em resposta para Isaac, por um instante tentando ser positivo que aquela era sua alternativa mais sensata. Se alguém entendia de sensatez era o homem ao seu lado, então ele deveria saber. Engoliu em seco e respirou fundo, levando então a mão até o celular. Porém, que tipo de pessoa tinha sido para ele esse tempo todo? Tinha visto toda aquela confusão na enfermaria, ainda não tinha ideia do que tinha acontecido com Renaud exceto pelos rumores e o que o doutor Vlahos tinha lhe dito. E como um covarde, assim como Peyrac tinha lhe apontado aquele dia, ao invés de dar a cara a tapa e dizer que estava morto de preocupação, tinha preferido que ninguém dissesse ao moreno que esteve lá. Conhecendo o presidente do Conselho Disciplinar, ele não diria mesmo que soubesse. Apertou o aparelho entre os dedos com muita firmeza ao pensar que esse tempo todo, Renaud provavelmente estava com Sasha. Sabia que o outro iria cuidar melhor do mais novo do que a si próprio, mas quem sabe ele era o apoio que Renaud precisava para perceber o tipo de pessoa fútil, insegura e vazia que era de verdade? Com aqueles olhinhos pequenos, o outro conseguia enxergar cada buraco em seu ego. - E se... ele não quiser me ver...? – Didier estremeceu, pensando que talvez nem chegasse a ter a chance de desculpar depois de tudo aquilo. – Eu não... eu não iria querer... depois de tudo que eu disse... Respirou fundo, então olhando para o moreno por suporte, estendendo a outra mão para segurá-lo pela camisa. - Se não der certo, Isaac... me haces companía otra vez...? Isaac
Então ele tinha entendido? Finalmente? Isaac apenas reprimiu um suspiro aliviado por educação, mas ao menos a conversa parecia ter surtido algum efeito em Didier. Não entendia como tinha chegado lá, mas tinha chegado e era aquilo que importava. Era realmente cansativo tentar entender os sentimentos alheios, tinha que dar um desconto para o namorado e todos os problemas que tinham passado por conta da sua incapacidade de compreender aquilo. Mas tão logo Didier pareceu aceitar aquela solução, a ponto até de pegar o celular, as dúvidas retornaram de novo e a sua resposta saiu mais rápida do que conseguiu segurar, provavelmente por causa do cansaço mental de entender aquilo tudo. - Se ele não quiser, eu mesmo o arrasto. - quase bateu com a mão na testa ao responder aquilo. Não tinha nada que se meter na situação alheia, menos ainda com a possibilidade de arrastar Renaud. - Eu não vou conseguir arrastá-lo, então dê um jeito de falar com ele mesmo assim. Didier ainda estava incomodado, a situação com Renaud tinha o deixado mais abatido do que já lembrava de ter visto, até mesmo em todos aqueles pequenos gestos ao segurar sua perna e agora a sua camisa. De novo, o impulso foi mais forte e afagou os cabelos loiros de novo. - Sim. - respondeu, até estava mais relaxado depois de terem chegado a uma conclusão. - Se resolvam, é muito estranho ver você desse jeito. Didier
A resposta pronta de Isaac lhe deixou muito surpreso. O moreno não era exatamente de ser agressivo, então se ele estava propondo aquilo, provavelmente seu lado auto-depreciativo estava já começando a dar nos nervos dele. Não fazia de propósito, claro, apenas era daquele jeito, preocupado, pensava demais, agia de menos, e não sabia por onde começar a resolver os problemas na sua vida. Mas ao menos agora tinha uma sugestão, uma luz, por mais que sua luz tivesse uma expressão muito dura no rosto. Mas bem, independentemente, estava tudo em suas mãos. Apertou os lábios, preocupado, até ser mais uma vez distraído de seus pensamentos pela mão em sua cabeleira já bagunçada. Olhou para o outro, sentindo em um instante, o imenso conforto de saber que teria alguém, mesmo que esse alguém fosse Isaac e que na verdade, nunca tivesse dado a ele aquele crédito todo. Fechou os olhos para apreciar o carinho, muito embora as palavras seguintes dele fossem bem duras, supondo que era estranho mesmo lhe ver daquela forma. Mas era daquele jeito, e não podia mudar. Se ele achava esquisito e ficava irritado, não tinha opção senão aceitar, mas esperava que não fosse mesmo tão decepcionante para Renaud. - Gracias, Zac. – respondeu, embora não conseguisse se forçar a sorrir para ele. Porém poderia dizer que estava legitimamente agradecido ao estudante da máscara de ferro e suas tiradas lógicas. Engoliu em seco, pegando então o celular. O que poderia digitar, senão o óbvio? Só esperava que tudo desse certo dali, embora soubesse que dando certo ou não, já estava muito mal. “Tem algum tempo nesse fim de semana para conversar? Preciso falar com você. Ass.: Didier.” Então apagou a mensagem toda. “Posso ir lhe ver? Precisamos conversar. Ass. Didier”. Então apagou mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez. E no final, acabou mandando algo muito semelhante a primeira mensagem, sem tempos limitantes, ainda que nem lembrasse as palavras da primeira ou da segunda ou da última. Não queria nem olhar. Até largou o celular de lado. Ele apitaria se tivesse resposta. Nunca um ringtone lhe deixou tão nervoso. E provavelmente, ficaria ainda mais se ele dissesse sim, mas isso, pelo bem do seu coração, esperaria para ver. [Thread encerrada] |