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[Drive] Holding On [Aleksei; Mathew] - Printable Version

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[Drive] Holding On [Aleksei; Mathew] - Lil - 09-12-2021

Aleksei

Por um tempo, Aleksei achou que conseguiria lidar com a situação em que tinha se metido. Que ela não duraria muito, que logo a polícia encontraria o suspeito que estava tão obviamente agindo em Cerise. Aquele não era o caso. Já tinha perdido a conta de há quantos dias tinha encontrado com Kyle e embora tivesse tido uma chance de se acostumar com a sensação de perseguição, a cada semana, havia uma nova surpresa para lhe lembrar que a despeito do fato de não tê-lo reencontrado de novo, ele estava lá. E naquela semana em particular… a surpresa tinha sido mais do que conseguia engolir.

Já era difícil dormir antes de receber, daquela vez, um par de olhos que pareciam pequenos demais para um adulto. Agora, a atividade de descanso era praticamente impossível. Passou um dia longe da Academia, mas não sabia o que era pior: ficar em St. Clavier ou ficar em casa, onde também já tinha recebido recados mais específicos. Voltou às atividades em St. Clavier depois de um dia de descanso, mas mesmo algumas camadas de corretivo eram incapazes de esconder completamente o cansaço óbvio em sua expressão.

Depois de uma manhã absurdamente longa, em que atendeu apenas dois pacientes regulares, decidiu seguir o caminho conhecido pelos corredores do Anexo Administrativo, na intenção de se distrair, ou de descansar como pudesse. Antes que percebesse, tinha parado diante da enfermaria e nem pensou duas vezes em entrar no local que parecia uma ótima opção para descanso.

- Muito ocupado, Sr. Morrison? - perguntou, ao entrar na enfermaria e dar uma olhada ao redor, para conferir se havia outros alunos nas macas ou algum caso realmente sério, considerando que já tinham passado por alguns maus bocados na enfermaria só naquele último mês.

Mathew

A vida estava organizada na medida do possível, ou ao menos esperava que ela fosse se estabilizar dessa vez. Contudo, ela mais parecia com uma balança desequilibrada, pois quando não era sua saúde ou seu relacionamento apresentando sintomas de problemas, era seu trabalho ou as confusões que podia ter com amigos. Alguns pacientes em especial naquela instituição lhe deixavam verdadeiramente preocupado, não porque não acreditasse que eles estavam em apuros devido a diversos problemas além de St. Clavier, mas por ter receio de não conseguir cuidar deles na ausência de Aleksei ou por não possuir o conhecimento adequado de um médico formado.

Estava terminando de fazer o pedido por email para a administração da reposição de medicamentos da enfermaria, assim como atualizar seu relatório pessoal do registro de alunos que passaram por ali no último mês. Foi então que ouviu a porta sendo aberta e tratou de ajustar os óculos antes de mover a cadeira com rodinhas para poder ver, além das divisórias brancas das macas, a figura do psicólogo de St. Clavier. Sorriu em reflexo, educado, mas ainda contente por receber o amigo ali. Ele não costumava fazer muitas visitas à enfermaria. Mas foi ao raciocinar essa última parte que diminuiu o sorriso, arqueando uma sobrancelha e baixando o olhar, procurando qualquer jovem aluno machucado que pudesse estar acompanhando o outro.

- Olá, Aleksei. - respondeu antes de se levantar da cadeira, arrumando o jaleco que era seu único uniforme de trabalho. - Não. Quase ninguém veio aqui hoje, estava aproveitando pra mexer em alguns formulários chatos no computador. - deu detalhes, como de costume, caminhando na direção do loiro com mais atenção, estreitando os olhos para o rosto do homem. - Tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

Levou as mãos aos bolsos do jaleco, pela primeira vez estranhando aquela situação. Não costumava perguntar diretamente ao grego se estava tudo bem. Era comum perguntar de terceiros ou pedir ajuda sobre si mesmo, mas nunca diretamente para ele. Talvez fosse só impressão sua e ele tivesse ido até ali para falar da atenção especial para um novo aluno ou coisa do tipo. Contudo, era difícil ignorar o semblante exausto do homem.

Aleksei

Era até relaxante encontrar com Mathew sem ter que se preocupar com algum aluno cheio de problemas ou com as situações complicadas dos últimos dias. Estivera tão preocupado nas últimas semanas com o que Kyle poderia fazer a qualquer pessoa com quem estivesse em contato, que não tinha se dado ao prazer de relaxar um pouco, de ter apenas uma conversa casual, de deixar a paranoia de lado. Mal conseguiu forçar o sorriso de volta para Mathew, mas com a carta verde dele, entrou na enfermaria, mais satisfeito que não havia nenhum aluno ali para lhe observar também.

- Está tudo bem, estava sentindo falta da sua companhia, Mathew. Como vão as coisas com o inglês? - Aleksei seguiu pela enfermaria, lançando olhares rápidos ao redor antes de encontrar uma cadeira em que se sentar, próximo à mesa de trabalho de Mathew, embora as macas livres parecessem bem mais confortáveis.

De qualquer jeito, sentou-se na cadeira de rodinhas, virando-a na direção de Mathew e esperando que o enfermeiro se acomodasse de novo. Uma conversa poderia lhe distrair e acalmar os ânimos. Era o que esperava, se conseguisse acompanhar uma conversa, por mais superficial que fosse, até o fim.

- É quase horário de almoço, vai almoçar com ele?


Mathew

Deu passagem para Aleksei chegar até onde estava sentado, a cadeira com rodinhas bastante confortável e por isso gostava de trabalhar usando a mesma. Ainda que fosse acostumado com o interesse do loiro em sua relação com o namorado, era curioso que ele viesse diretamente lhe falar sobre o assunto e não o contrário. Buscou uma cadeira perto da janela, trazendo-a para próximo de onde o outro havia se acomodado e pegou seu celular no bolso da calça, destravando o mesmo para verificar a conversa com o namorado.

- As coisas vão bem. Eu acho que já te contei que concordamos em mudar para Paris quando eu passar na admissão para a universidade, não? Dá pra acreditar que eu ainda estou olhando sites de imóveis antes mesmo da prova? - comentou como de costume, aproveitando ao ser lembrado pelo outro, para enviar uma mensagem para o namorado, perguntando sobre o que ele queria comer no almoço do trabalho e que avisasse quando estivesse livre. - Talvez.

Respondeu enquanto olhava para a tela do celular, digitando com calma antes de voltar a observar o amigo. Arrumou os óculos de novo por ter baixado a cabeça e a armação ter escorregado pelo nariz.

- Você parece cansado. Quer vir almoçar com a gente? O trabalho está ficando complicado, mas logo mais melhorar. - sorriu, tentando ser mais otimista com tudo o que estava acontecendo em St. Clavier e que demandava a atenção do psicólogo. Sabia que Aleksei era um profissional respeitado pelos alunos e não imaginava que ele fosse deixar de ajudar os garotos. O pensamento até lhe deixou um tanto culpado a contemplar a realidade que ele costumava escutar suas lamúrias também com regularidade, sempre que acabava em alguma discussão com Benjamin. Deveria buscar um psicólogo no hospital e não ficar usando seu amigo tão cansado para isso.

Aleksei

Mathew puxou a cadeira para se sentar próximo e aproveitou para apoiar o braço na mesa e o queixo na mão. Ajustou os óculos falsos no rosto, encarando Mathew com a visão levemente embaçada, embora não houvesse grau no seu par de óculos e as lentes não estivessem sujas. Mas já sabia o que era, só não queria dar uma óbvia indicação de cansaço ao esfregar os olhos, então conteve o gesto. Riu leve com a empolgação dele com a notícia de que iria se mudar para Paris com o namorado, notícias que já tinha ouvido algumas poucas semanas atrás antes de toda a complicação na sua vida.

- Sim, você tinha me comentado. Se quiser outras decisões como aquela do seu namorado, me chame para um almoço a três de novo. Ou outra coisa, se estiver mais interessado. - respondeu, com o ar costumeiramente ousado. - Mas eu conteria a minha empolgação em procurar lugar pra morar. Se você não conseguir passar na prova, vai que o inglês resolve ir morar sozinho em Paris para continuar a formação acadêmica dele?

Sabia que a ideia nem tinha passado pela cabeça de Mathew, mas daria algo para ele pensa e se distrair enquanto ponderava ainda o cansaço de ficar apenas conversando com o enfermeiro. Era interessante que estivesse, geralmente, bem alerta ao lado de seus pacientes, mas com a conversa casual que tinha com Mathew, o cansaço só parecia pesar mais e mais, a ponto das piscadas serem mais longas. Acabou tirando o óculos quando ele comentou que parecia cansado. Era óbvio até para Mathew, e não estava fazendo muita questão de esconder. Esfregou os olhos debaixo do par de óculos, deixando-os sobre a mesa ao lado.

- Não vai me querer almoçando com o seu namorado de novo tão logo, Mathew. - passou a mão pelos cabelos, colocando-os para trás, contendo até a vontade de bocejar. - Desculpe, eu não dormi muito bem na noite passada. Se importa se eu usar uma das camas da enfermaria enquanto sai para almoçar?

Mathew

Crispou os lábios com a ideia que Benjamin poderia se mudar sem a sua companhia, mas logo suavizou a tensão sobre os próprios ombros. Depois das últimas conversas com o inglês, ainda que ele estivesse levemente embriagado, não imaginava que ele fosse lhe deixar por conta de uma prova. Talvez ele se mudasse para lhe dar um castigo. Sentia que muitas pessoas ali sentiam prazer em lhe atormentar e, em alguns casos, não os culpava por ser denso para certos cenários.

Aleksei não estava mais fazendo questão de esconder que estava cansado, na verdade, duvidava que, ao entrar ali, com aquele semblante, mesmo que ele quisesse, conseguiria esconder. Sorriu compreensivo quando ele ainda se desculpou sobre estar naquele estado. Não fazia ideia do que poderia ter deixado o homem sem dormir direito na noite anterior, mas imaginava que tivesse alguma ligação com o trabalho. Não era conhecedor da vida pessoal do grego, ele não falava muito sobre.

- Não precisa se desculpar por estar cansado. - respondeu, levantando-se da cadeira para se aproximar do lado do loiro, abrindo a gaveta da mesa para retirar as chaves reservas do recinto, colocando-as sobre a mão do homem, incerto de que, exausto como aparentava, ele acabaria não encontrando as chaves depois. - São as chaves da enfermaria. Feche a porta quando eu sair, assim ninguém vai te incomodar.

Explicou, mais tranquilo, controlando a própria curiosidade com a situação do grego devido a situação atual do mesmo. Depois do descanso, poderia lhe perguntar mais sobre os problemas que o incomodavam, mas por hora, não lhe faria mal nenhum deixar que ele dormisse um pouco nas macas da enfermaria. O lugar era até bem sereno quando nenhum aluno estava tendo uma crise nervosa ou sangrando pelo nariz quebrado.

- Quer que traga alguma coisa para comer depois? - perguntou com o celular na mão, apitando pelas respostas de Benjamin. Se iria almoçar com o namorado, não custava nada levar algo de volta para a enfermaria. Fez a pergunta, esperando a resposta para poder partir para o restaurante da instituição a fim de encontrar o namorado. Era melhor que Aleksei tivesse um pouco de paz pela exaustão que aparentava ter o arrastado até ali no trabalho.

Aleksei

Imaginou que viriam algumas perguntas depois do comentário sobre não ter dormido à noite, mas Mathew foi mais direto em concordar que descansasse e ainda lhe entregar as chaves da enfermaria. Até imaginou que ele ficaria ali… provavelmente queria um pouco de companhia também, considerando a situação nos últimos dias. Mas ele sair da enfermaria e lhe deixar descansar era extremamente conveniente. Assim, teria certeza que seria a única pessoa ali e Kyle não teria motivos para, mais uma vez, descontar em alguma outra pessoa com quem tivesse proximidade.

- Se vai deixar as chaves comigo, é melhor ter uma cópia para abrir a porta quando voltar também. - aceitou as chaves que ele lhe estendeu e ficou de pé, para acompanhá-lo na direção da saída. Parou apenas na porta, quando Mathew parou para ver o celular e lhe sugerir trazer alguma coisa para almoçar também. Não que conseguisse manter muita coisa no estômago, mas quem sabe depois de uma hora de sono, conseguisse se alimentar também. - Eu não recusaria uma salada. Mande lembranças para o seu namorado por mim.

Acenou e esperou apenas que ele saísse da enfermaria para fechar a porta como tinha sugerido. Virou-se para observar o lugar amplo e bem iluminado, com uns pares de janelas também cobertas apenas por cortinas de tecido leve. Lugares vazios já não lhe incomodavam mais, depois de seu consultório e de sua própria casa, mas uma companhia com certeza era mais bem-vinda do que aquele silêncio assustador.

De qualquer modo, o desconforto com o local quieto não superou o cansaço que tinha acumulado dos últimos acontecimentos. Apenas tirou os sapatos e folgou o colarinho antes de deitar numa das camas e fechar as cortinas em volta da mesma, o óculos ainda descansando sobre a mesa de Mathew para poder dormir finalmente. Não foi tão fácil adormecer, como não tinha sido fácil em sua casa nem com remédios, mas conseguiu cochilar depois de quase meia hora de sustos imprevistos, causados pela própria mente.

Mathew

Após deixar o psicólogo sozinho na enfermaria, destacando que possuía sua própria chave para a enfermaria. O almoço com Benjamin foi tranquilo até comentar sobre sua preocupação mais recente com o estado de Aleksei. Sabia que o inglês não gostava de seu amigo, mas não pode deixar de comentar sobre o caso. Ainda ouviu comentários sobre não ser o nutricionista do outro enquanto comprava uma salada caesar para Aleksei. Resolveu parar de comentar sobre sua preocupação com o grego para questionar sobre os acontecimentos recentes no trabalho do namorado. Desde a última briga mais séria entre ambos, havia se convencido que deveria conversar mais com o homem sobre os planos dele ou sobre os acontecimentos diários ao invés de apenas falar sobre seus próprios problemas. Se fosse comparar sua vida a das pessoas próximas ao seu círculo de convivência, tinha uma vida bem confortável na verdade.

Despediu-se de Benjamin com um segurar de mãos discreto, ciente de que não podiam agir tão afetuosamente nas dependências do trabalho - o que era bem justo, visto que tinham que dar exemplo para muitos alunos com hormônios a flor da pele. Ao alcançar o corredor da enfermaria, tentou não fazer muito ruído, principalmente ao abrir a porta da enfermaria. Se Aleksei ainda estivesse adormecido, não queria acordá-lo. Adentrou no recinto mais quieto e fechou a porta atrás de si. Caminhou para sua mesa com tranquilidade, procurando por onde Aleksei poderia estar dormindo e apesar de seus esforços, ele havia despertado.

- Ah, desculpe. Acordei você? - perguntou, colocando a salada da caixinha de plástico com tampa transparente sobre a mesinha vazia ao lado da cama antes de voltar sua atenção para o amigo de mau estado. Notou as cortinas fechadas e arqueou a sobrancelha, desconfiado. - Está com frio? - questionou, estranhando pela temperatura agradável que estava fazendo lá fora, por isso deixou as janelas e cortinas abertas e se poupou do ar condicionado. Contudo, não esperou uma resposta, estendendo a mão para tocar a testa do amigo que não parecia ter conseguido descansar de fato. Talvez ele estivesse doente, com febre. Não se lembrava dele ter adoecido desde que o conhecera.

Aleksei

Aleksei queria ter descansado mais, mas o seu sono já estava inconstante há algum tempo e num local aberto como a Enfermaria em St. Clavier, não tinha como sequer passar perto de relaxar de verdade. Cada barulho do vento na janela, das cortinas se movendo, às vezes pareciam mais altos do que realmente eram, embora os minutos de descanso tenham sido mais proveitosos do que em sua casa num dos quartos de hóspedes que não tinha função até então.

O som da porta da enfermaria se abrindo não o despertou do sono leve, mas o fechar da porta foi mais eficaz para lhe deixar alerta de novo. Acordou quase num sobressalto, até Mathew se aproximar e a voz conhecida lhe deixar mais tranquilo. Mathew deixou a caixa com salada de lado na mesa e se aproximou da cama a tempo de Aleksei se sentar, talvez com uma expressão um pouco mais cansada do que tivera antes, apenas pela incapacidade de dormir bem.

- Não acordou, eu estava só cochilando. - respondeu à preocupação alheia, negando ainda com a cabeça baixa quando ele perguntou se estava com frio. Ficou mais surpreso com o toque súbito em sua testa e numa reação instintiva, afastou-se da mão do enfermeiro. - Eu não estou doente, se é a sua preocupação, Mathew, não se preocupe.

Sorriu para tentar descontrair da situação exagerada ao se afastar do cuidado dele. Pegou os sapatos que estavam de lado e os calçou para sair da cama até a mesa onde estava o seu suposto almoço, mas esqueceu de reabotoar o colarinho da camisa, uma sensação um pouco mais confortável com a camisa daquele jeito sem lhe apertar demais o pescoço.

Mathew

Afastou a mão da testa do amigo, confirmando que de fato ele não estava doente. Todavia, se ele não estava doente, por que estava com uma expressão tão exausta? Colocou a mão no bolso do jaleco do uniforme, baixando o olhar com a reação assustada do outro por um mero toque, não era como se fosse fazer algo indecente ou que fosse machucá-lo.

- Tem um garfo junto com a salada. É caesar. Eu não sabia qual tipo de salada gosta, eu também não sou muito fã de saladas, mas essa parecia gostosa. - comentou, só então se dando conta de que havia algo peculiar no grego. Ele sempre usava aquelas roupas de golas compridas ou mais justas. Era sempre fácil de notar aquele costume por conviver com Benjamin, o homem que sempre lhe reclamava sobre peças de roupa ou sensações sufocantes com golas como aquela. Já chegou até a cogitar a possibilidade que aquele hábito fosse apenas mais um dos detalhes sobre os quais o inglês não gostava de seu amigo. - Deveria descansar mais um pouco. Talvez nenhum aluno apareça hoje por aqui e eu não me incomodo se continuar seu cochilo. Ou tem algum paciente hoje a tarde?

Acompanhou o semblante do homem, incerto quando ele dizia para não se preocupar com ele. Estava acostumado com um Aleksei mais desperto e bem humorado, ainda que fosse com as desgraças de sua vida ou sua incapacidade de conseguir se expressar corretamente com os pais dos alunos ou até mesmo com seu namorado. Aproximou-se da maca, ainda que do lado oposto ao que o loiro se encontrava, dando-lhe mais espaço. Apoiou-se na cama, esperando alguma nova informação de Aleksei.

Aleksei

Aleksei parou ao lado da mesa, pegando a salada que Mathew tinha lhe trazido. Não estava exatamente com vontade de comer, mas se não o fizesse, não teria condições de atender outros pacientes no período da tarde também. Sentou-se de novo na cadeira de rodinhas, para abrir a salada e começar a se servir, apenas bagunçando um pouco o prato inicialmente.

- Contanto que não tenha frutos do mar, está bom pra mim. - respondeu quanto à salada, levando apenas pequenas porções à boca, para se distrair com a comida também enquanto Mathew procurava um lugar para se acomodar, parando encostado à maca onde tinha cochilado até então.

Até queria seguir o conselho dele e descansar um pouco mais, mas precisava estar na sala de Aconselhamento para as eventuais emergências emocionais dos alunos. Não era um lugar totalmente desconfortável, afinal, até tinha um divã. O problema era lembrar do que já tinha recebido de presente naquela sala para se sentir confortável lá. O pensamento lhe fez se distrair com a comida e demorar um pouco mais a responder a sugestão do enfermeiro.

- A salada está boa, mas eu não esperava menos da comida aqui em St. Clavier. - comentou, tentando manter a casualidade e esconder o fato de que mesmo com uma pequena porção de salada, estava comendo menos ainda. - Eu não tenho pacientes agendados para a tarde, mas é comum aparecerem alguns alunos desavisados e perdidos. Mas agora que a manhã já passou, a tarde deve passar mais rápido, não é? E as aulas terminam cedo, não preciso ficar mais do que o horário dos clubes aqui.

Mathew

Riu com o comentário sobre frutos do mar. Ainda se lembrava muito bem que ele não gostava de frutos do mar, ainda que apreciasse os restaurantes litorais dali pela vista. Notou que Aleksei estava comendo devagar e pouco. Imaginou, portanto, que ele estava fazendo aquilo por estar cansado demais até mesmo para se alimentar corretamente.

- Passe na administração, diga que não está se sentindo bem e vá para casa. Você é médico, não é? Essa privação de sono não está te fazendo nada bem. - aconselhou, ciente de que um dia sem dormir poderia deixar o indivíduo indisposto, mas o estado de Aleksei denunciava muito mais que uma noite mal dormida. - E você é um profissional bem competente, um dia de descanso do trabalho não vai arruinar sua carreira.

Comentou de maneira mais tranquila, atentando aos movimentos do grego para se alimentar. Respirou profundamente e acabou rindo baixo novamente com o cenário do homem sentado em sua cadeira, mastigando aquela salada que havia julgado apetitosa.

- É esquisito te ver assim “desarrumado”. - ergueu os dedos, fazendo o sinal com as mãos. - Dá pra dizer que tem alguma coisa te incomodando. - fez uma breve pausa, cruzando os braços ao lembrar de todas as vezes que foi aconselhado pelo psicólogo e como era complicado tentar não falar o que não deveria. - Quer falar sobre o assunto? - perguntou, mais atento à situação do amigo.

Aleksei

A solução de Mathew parecia bem simples para que pudesse se recuperar da noite de sono mal dormida, não houvesse o detalhe de que não conseguiria dormir bem em casa de qualquer jeito. A enfermaria até tinha sido uma ótima opção para descansar e talvez, na companhia de Mathew, conseguisse tirar mais do que um cochilo.

- Não é lá uma privação de sono, foi apenas uma noite muito ruim. Eu não seria um profissional tão competente se deixasse o meu trabalho de lado só por conta disso. - respondeu, continuando a comer algumas partes da salada, mas já tinha percebido que ia ficar pela metade eventualmente.

Mathew não era exatamente a pessoa mais discreta que conhecia, então foi bem fácil notar o olhar intenso dele em seus movimentos e seu estado. Não que ele fosse uma pessoa super atenta maior parte do tempo, mas tinha que dar o braço a torcer que estava numa situação bem obviamente abalada, especialmente perto de pessoas que não precisava manter a guarda alta, como a maioria dos alunos. Até se surpreendeu quando ele comentou sobre estar desarrumado e haver algo lhe incomodando. Sorriu para o enfermeiro, tomando o tempo mastigando a salada antes de responder qualquer coisa.

- Só por que eu me dei ao luxo de tirar os sapatos para deitar? Seria deselegante dormir de sapatos, Mathew. - respondeu com um tom mais jocoso, obviamente ignorando o colarinho aberto, detalhe que tinha inclusive esquecido. - Não tem nada me incomodando, exceto o fato de que você ainda não me convidou para um ménage com o inglês. O que acharia da experiência de voyer, Mathew? Posso ter uma chance com o seu namorado? Acho que isso estreitaria ainda mais a nossa amizade.

Sorriu um tanto pretensioso, deixando então metade da salada de lado apenas para beber água.

Mathew

Ficou surpreso com o comentário do amigo sobre um ménage e sobre voyerismo. Acabou franzindo o cenho logo em seguida com a pergunta sobre “ter uma chance” com Benjamin. Sabia que o inglês não gostava do grego, mas ainda assim a ideia dele com outro homem, ainda que fosse seu amigo, lhe deixava um tanto chateado.

- Você é meu amigo, Aleksei, mas não tenho interesse em dividir a atenção do meu namorado nesse tipo de situação. Muito obrigado. - respondeu, ainda que sorrindo, achando a predisposição do outro bastante distinta de como ele geralmente costumava se comportar, mais sóbrio. Afinal de contas, era a primeira vez que ele falava sobre algo daquele tipo sobre seu namoro e a amizade de ambos. - Além disso, dá pra ver que não está bem. Nem comendo direito você está. E eu sei que é um bom profissional e que não deixa sua vida interferir no seu trabalho, ainda que eu não saiba muito da sua vida, é claro.

Suspirou, buscando uma cadeira para poder se sentar a frente do grego, observando-o enquanto bebia água.

- E não são só os sapatos, você não costuma afrouxar suas roupas. Eu notei porque o Benjamin odeia usar roupas como as suas, apertadas. Tem certeza qu--

Fez uma nova pausa, ajustando o par de óculos, estreitando os olhos para a imagem daquele machucado ainda em cicatrização no pescoço do loiro. Antes mesmo que pudesse falar, estendeu a mão, apontando para o machucado na pele do outro, pouco antes de lhe tocar a pele de fato com a ponta dos dedos.

- O que é isso? - indagou, curioso e preocupado com a ideia de que aquele tipo de machucado ter sido ocasionado por algo além de acidental.

Aleksei

Mathew parecia até mais focado naquele dia do que de costume. Se ameaçasse querer ficar com o namorado dele, como costumeiramente fazia, ele geralmente ficava mais irritado. Mas talvez fosse sua culpa por estar mais desatento aos arredores, às pessoas mais próximas e às próprias reações.

- Eu já disse que estou bem, Mathew. É só cansaço acumulado e muitos alunos-problemas para lidar. Mas nada que uma viagem de um fim de semana a um SPA em Paris não resolva. - respondeu, dessa vez um pouco mais interessado em conseguir desviar a atenção de Mathew do seu estado. Talvez já estivesse na hora de voltar para o consultório.

Só voltou a atenção para o colarinho da roupa desabotoado quando ele mesmo falou daquele detalhe. Os sapatos eram de se esperar, afinal, não deitaria ainda calçado neles.

- Ninguém gosta de dormir com o colarinho da camisa apertando, Mathew. - falou, desviando a atenção para colocar o copo de água de volta à mesa, quando sentiu o toque desavisado do enfermeiro no machucado.

A reação foi imediata, afastou o rosto e o pescoço do alcance dele e até levantou uma mão como se fosse se defender. Não teve como esconder a expressão surpresa daquela vez, mas tentou disfarçar com um sorriso um tanto nervoso.

- Não devia invadir a zona pessoal dos outros se não vai dar conta do recado depois, Mathew. - avisou, fechando o botão da camisa de novo e levantando-se num movimento até rápido para o próprio estado físico. - Obrigado pela salada, e pelos minutos de descanso na enfermaria. Mas é melhor voltar para o consultório antes que outro aluno desavisado apareça.

Mathew

Ainda que fosse o tipo desatento aos detalhes das personalidades dos outros, já havia convivido com o psicólogo o bastante para que, até sua figura distraída, conseguisse reconhecer que o homem não estava bem. Crispou os lábios com o que parecia ser um monte de desculpas para fugir do assunto que tentava novamente trazer a tona. Porém, o que mais lhe chamou a atenção foi a reação do loiro a sua aproximação. Ignorou a provocação do sujeito, levantando-se com o homem, notando o movimento rápido que não era comum para um ser humano com privação de sono, aquilo só pioraria a situação.

- Aleksei.

Chamou pelo amigo, estendendo as mãos para segurá-lo pelos braços, sem apertar o homem, mas parando a sua frente para encará-lo diretamente nos olhos. Podia notar as olheiras mais claras daquela distância no rosto do homem que sempre se mostrava muito bem apresentável. Respirou fundo, ciente de que havia algo acontecendo que o outro não parecia se sentir confortável em lhe falar. E isso lhe deixava mais inquieto, pois considerava o homem como um bom amigo, um dos poucos que havia feito ali em Cerise.

Antes mesmo que o sujeito pudesse pensar em se desvencilhar e ir embora de uma vez, aproximou-se de novo, intencionalmente invadindo o espaço pessoal do outro ao abraçá-lo. Não sabia qual era a situação de fato pela qual ele estava passando e não sabia como ajudá-lo naquele cenário, o que lhe frustrava.

- Se eu puder fazer algo… é só pedir. - afastou-se para encará-lo de novo, preocupado. - Eu sou seu amigo, certo? Vai ficar tudo bem.

Não sabia se tudo ficaria bem, muito menos sabia a gravidade dos eventos pelos quais o homem estava passando. Se envolvia o trabalho dele, sabia que não deveria ser nada fácil e que talvez os pacientes estivessem deixando-o naquele estado, mas tentou ser otimista pelo amigo, visto que ele parecia conformado com a própria situação.

Aleksei

Já estava pronto para sair da enfermaria, quando foi impedido pelas mãos de Mathew lhe segurando os braços. Não entendeu exatamente o que ele estava fazendo, até receber um abraço para o qual nem sabia como reagir. Mil coisas passaram pela sua mente, mas a primeira delas foi que aquilo faria do enfermeiro um alvo muito fácil, caso Kyle pudesse ver aquilo. Empurrou-o com facilidade, afastando-se do abraço que lhe seria estranho mesmo em uma situação em que não estivesse sendo perseguido por um psicopata. Manteve uma mão entre os dois, ignorando a oferta de ajuda alheia.

- Primeiro, eu não preciso de ajuda, Mathew. Segundo, você está exagerando demais para uma noite de sono mal dormida. - respondeu ao outro, mantendo a distância entre os dois. - Imagine a expressão do seu inglês se nos visse com toda essa intimidade. Como eu disse, me chame quando tiver certeza que pode lidar comigo. Na cama, pra ser muito específico, já que você parece muito ruim em lidar com mensagens subliminares.

Aleksei apenas ajustou a roupa e passou a mão pelos cabelos, desviando do caminho de Mathew finalmente para seguir até a entrada da enfermaria. Ainda parou antes de sair para se voltar ao canadense.

- Obrigado pela cama, já ajudou na minha disposição. Tenha uma boa tarde, Mathew. - respondeu, para só então continuar o caminho para fora da enfermaria.

Mathew

Encarou o homem ao ser afastado. Nas palavras dele, estava exagerando, mas simplesmente não sabia como ajudá-lo de fato. Era notório que o grego não estava bem, mas também não esperava que ele entrasse em detalhes do motivo da falta de sono ali, afinal de contas, poderia ter relação com os pacientes dele e o trabalho era levado a sério pelo homem. Crispou os lábios quando ele voltou aos comentários sugestivos. Não enxergava o amigo daquela forma, mesmo que seu namorado pensasse o contrário.

Acompanhou o outro com o olhar de quem não estava incomodado com o que fossem pensar daquele gesto, mas sim preocupado com a situação do amigo. Acenou com um breve aceno de cabeça quando ele se despediu e arrumou seus óculos no rosto. Andou até a porta pela qual o psicólogo havia passado e observou por um instante a maçaneta e o corredor, refletindo sobre o que poderia estar fazendo tão mal ao outro.

Voltou para sua mesa em seguida, buscando o celular para contar a Benjamin sobre sua preocupação com o grego e sobre sua disposição em ficar até o final do experiente para poder tentar conversar com ele novamente. Talvez longe do trabalho, se o chamasse para tomarem um café, Aleksei se sentisse mais à vontade para falar sobre o que de fato estava lhe incomodando. Era a favor da dedicação ao trabalho, mas um homem também precisava viver e pelo visto, algo estava tendo reflexos na saúde do doutor.

Esperava que Benjamin não ficasse tão irritado com a situação, ainda mais quando já havia deixado bem claro que não tinha nenhum interesse além da boa amizade com o sujeito de aparência sempre tão alinhada. Esperava, na verdade, sem muita esperança, pois bem sabia o quanto o inglês ainda desgostava de seu amigo.

Aleksei

Era bem fácil desviar a atenção de Mathew das perguntas sobre o seu estado quando o deixava desconsertado com algumas insinuações. Mas até o enfermeiro desavisado parecia estar bem ciente do seu estado, considerando que não estava tentando manter a guarda alta ao lado dele. Precisava de pessoas ao lado de quem pudesse relaxar também, ou a sua cabeça iria explodir, mesmo que não quisesse a perspectiva de meter mais alguém nos seus problemas muito complicados.
O resto da tarde passou sem maiores complicações, exceto o fato de que estava bem mais desatento aos assuntos irrelevantes dos alunos que vinham reclamar de saudades de casa ou de implicância com professores e outros colegas de turma. Teve que dar algumas indicações aqui e ali do que eles poderiam fazer e não houve qualquer comentário até o fim do seu expediente sobre o seu estado ou a sua disposição.

Quando o último aluno saiu, o relógio marcava pouco mais de quatro e meia e o dia ainda estava claro para voltar para casa na expectativa de que não encontraria nada daquela vez. Arrumou as coisas, dispensou o jaleco e manteve os óculos falsos, apenas porque eles conseguiam disfarçar um pouco mais das olheiras de cansaço. Considerando o horário avançado em que os alunos já tinham retornado aos dormitórios e estavam encerrando atividades de clube, os corredores do Anexo estavam incomodamente vazios quando passou para seguir até o estacionamento onde deixara o carro.

Mathew

Havia deixado o jaleco na enfermaria e saiu com uma camisa de mangas compridas de algodão por cima da camisa comum que usava com a calça jeans. Estava no corredor em cruzamento com o que dava acesso à sala de Aleksei, ocupando-se em responder algumas mensagens com seus familiares no celular, contando sobre o caso de seu amigo que não parecia estar muito bem, provavelmente exausto de tanto trabalho. Leu algumas dicas de combinações de chás naturais de sua mãe enquanto sua irmã pedia fotos do tal sujeito. Naquele momento, percebeu que de fato não possuía fotos do psicólogo, mesmo ele sendo seu amigo. Despertou de seu devaneio ao ouvir passos próximos, dirigindo-se ao estacionamento no ambiente silencioso. Não era difícil imaginar quem seria e tal como não estava preocupado em se esconder, seguiu o loiro, os passos sonoros no corredor.

- Aleksei! - chamou, um sorriso se formando em seus lábios, animado por poder reencontrar o outro tão cedo. Não queria parecer excessivamente preocupado, mas, sincero como de costume, estava animado em poder conversar com ele de novo. - Já está indo embora? Vamos tomar um café!

Convidou o loiro, ajustando os óculos no próprio rosto. Estava um pouco cansado também, não tanto do trabalho, mas do estudo que sempre se dedicava a realizar no tempo livre do trabalho, mas queria acompanhar o outro em um ambiente distante daquele ar mais formal de onde eram também colegas de trabalho. Não se aproximou demais, dando espaço para o outro, principalmente porque já havia notado que os reflexos dele não estão tão vívidos como de costume.

Aleksei

Os passos que ele imaginou serem altos o suficiente naquele lugar muito calmo que era o Anexo ao fim do expediente foram tomados pelos passos acelerados mais atrás no corredor. Virou-se para ter a surpresa de encontrar Mathew, que já devia ter saído do local, para encará-lo num misto de surpresa e alívio. A última coisa que precisava era da companhia alheia logo num horário tão vulnerável em St. Clavier.

Sorriu forçado como conseguiu e manteve os passos para sair da academia, mas diminuiu consideravelmente o ritmo, na esperança de dispensar o enfermeiro antes que chegassem ao estacionamento.

- Você já não devia estar em casa com o inglês, Mathew? - insinuou para o outro, passando os dedos de leve no colarinho da camisa, de novo, fechado como estava mais cedo antes do seu descanso. - Vou ter que dispensar o convite hoje, mas mande um oi para o seu namorado por mim. Preciso adiantar algumas coisas do trabalho.

Acenou discreto para Mathew, esperando que ele se afastasse ao chegarem ao fim do corredor, mas ainda deu um tempo antes de sair do prédio, pegando o celular para olhar algumas mensagens e contatos só para dar tempo para que ele fosse na frente. Sair dali acompanhado de Mathew era a última das suas opções.

Mathew

Ficou um pouco mais animado quando ele pareceu que de fato iria lhe esperar antes de ir embora. Notou a resposta vaga como se quisesse ir embora sozinho e apenas ignorou a provocação sobre estar com o “inglês”. Observou apreensivo ele seguir a frente e apertou a alça de sua bolsa, ignorando a despedida e seguindo o médico tal como um cachorro apegado ao amigo. Ao contrário do que talvez ele esperasse que fizesse, manteve o passo onde estava mesmo após ele acenar na despedida.

- Você ainda vai continuar trabalhando, Aleksei? – perguntou, notando que ele parecia continuar dando atenção ao telefone. – Aleksei. Eu estou preocupado com você. Você não parece nada bem. – apontou, respirando fundo no processo diante da tensão em ser a pessoa que parecia mais preocupada com a saúde do homem naquele momento. – Não está trabalhando demais? Vamos lá em casa, a gente come alguma coisa e você esquece um pouco do seu trabalho.

Pensou que poderia avisar a Benjamin que já sabia que estava preocupado com o comportamento estranho de Aleksei. Além de estar estranhando o estado de saúde do amigo. Sabia que o namorado não simpatizava muito bem com o grego, mas como amigo do outro, não conseguia simplesmente ignorar o fato que Aleksei parecia precisar de ajuda, ainda que ele não colocasse aquilo em palavras. Não fazia ideia da gravidade da situação, só queria que ele se visse fora de todo aquele ambiente que parecia não lhe ajudar em nada.

- E o seu horário de trabalho já acabou, não? Você nunca me fez uma visita. – sorriu discreto, tentando aliviar a tensão que o outro parecia carregar e se recusar a revelar os motivos para tê-la. Era um homem curioso, mas não estava interessado necessariamente com os motivos do ar exausto do grego, só ansiava que ele pudesse de fato se ver longe do problema daquela vez.

Aleksei

Aleksei conteve a vontade de suspirar resignado quando Mathew insistiu na conversa. Geralmente não se importaria com a insistência do enfermeiro, mas naquele caso... ele estava sendo excessivamente inconveniente. Forçou outro sorriso ao levantar o rosto e encará-lo de volta, ajustando os óculos falsos.

- Eu sempre estou trabalhando, Mathew, inclusive quando conversamos. Você que trabalha demais, caso não lembre, está sempre com olheiras, cansado e doente. Devia ter mais cuidado com a própria saúde antes de falar dos outros, Mathew. - respondeu, colocando as mãos nos bolsos sem se afastar um passo do lugar.

Só queria que ele seguisse o caminho e nem se deu ao trabalho de responder ao segundo convite do canadense para que fosse jantar com ele. Passou a mão no pescoço, respirando fundo quando ele insistiu no seu horário de trabalho, e que nunca o tinha visitado. Nem se preocupou em sorrir de volta, cansado demais para lidar com a inconveniência de Mathew.

- Meu horário de trabalho nunca acaba. Como eu disse, e repito, dispenso o convite para hoje, Mathew. E caso sua insistência lhe impeça de perceber, eu só quero ficar sozinho. - respondeu, bem mais direto daquela vez. - Estamos entendidos agora? Por favor, vá para casa. Conversamos amanhã no trabalho.

Talvez a resposta direta finalmente bastasse para que Mathew o deixasse sozinho. E ficasse bem longe de Kyle também.

Mathew

Encarou o amigo grego dessa vez em silêncio quando ele acabou por deixar bem claro que só queria ficar sozinho. Estava apreensivo com a situação do homem que não parecia dormir o bastante nos últimos dias. Não prestou atenção no detalhe sobre ele estar constantemente trabalhando como um psicólogo, pois era difícil dissociar a ideia de que Aleksei era seu amigo e psicólogo também, pois sempre aceitava seus conselhos por lhe considerar um amigo próximo e não pela profissão que ele possuía.

Baixou o olhar, concordando brevemente com a cabeça sobre as decisões do homem de ar cansado. Afastou as mãos para as próprias costas, indicando que não iria mais segurá-lo ali. Contudo, antes que o homem pudesse partir ou dizer mais alguma coisa que pudesse lhe afastar, completou:

- V-Você… ah… você pode ir dormir na enfermaria… quando quiser. - declarou, erguendo o olhar para observar Aleksei, apreensivo. - Não precisa me explicar nada. Só… não esqueça de se cuidar, tá bem? - pediu, genuinamente preocupado com o estado do homem que tentara constantemente evitar suas perguntas naquele dia. Talvez ele pensasse que não possuía capacidade de ajudá-lo com o problema e preferia pensar dessa forma a cogitar a possibilidade de que não poderia ser reconhecido como um amigo para o outro.

Esperaria que ele lhe respondesse e fosse até o estacionamento para segui-lo em silêncio pelo trajeto que o levaria para sua casa onde Benjamin já deveria estar lhe esperando. Sabia que no estacionamento se separaria de Aleksei, mas ainda assim queria poder acompanhá-lo pelo caminho e ter a certeza que ele não correria o risco de ter um colapso.

Aleksei

Mesmo cansado como estava do estresse da perseguição e do dia de trabalho, era bem fácil perceber a hesitação de Mathew e o jeito como ele tinha ficado desapontado por não poder lhe ajudar. Mas não podia evitar também de fazer pouco daquele incômodo, contanto que ele se mantivesse afastado. Nem evitou de suspirar longamente quando ele insistiu na conversa. Só queria ir para casa longe dos olhares alheios e talvez, se demorasse demais a sair da escola, recebesse outra mensagem inconveniente.

- Como eu disse, você devia ouvir os próprios conselhos também, e se cuidar melhor. - respondeu, parado ainda no mesmo local. - Eu apareço na enfermaria se precisar descansar.

Sentiu o celular vibrar na mão e até hesitou por um momento. Apertou mais o celular, imaginando que era mais uma daquelas mensagens anônimas que só lhe deixavam mais cansado. Quase suspirou em alívio ao olhar a tela e ver apenas uma notificação de e-mail convencional, mas usou a mensagem como uma desculpa para se afastar de Mathew finalmente.

- Pode ir na frente. Eu vou voltar no consultório, esqueci uma coisa. - nem esperou resposta do enfermeiro, voltou o caminho pelo corredor já vazio do Anexo Administrativo para se trancar no consultório até ficar sozinho, de vez.

Mathew

Ponderou ainda sobre seguir ou não o amigo, mas acabou permanecendo no mesmo lugar, deixando que ele voltasse para o tal escritório. Permaneceu com o olhar apreensivo pouco antes de buscar o celular, ligando para o namorado para avisar que já estava retornando para casa, o tom de voz de quem era bastante transparente quanto à própria preocupação.

Saiu das instalações de St. Clavier e pegou o transporte para chegar em casa. Durante o caminho, não conseguia deixar de pensar que algo sério estava acontecendo que o psicólogo não queria relevar, mas o que poderia ser de fato tão desagradável que ele não podia lhe contar? Ou talvez ele apenas achasse que não tinha capacidade de ajudá-lo. A ideia de impotência diante da situação apenas lhe deixava mais frustrado com o próprio papel naquele cenário.

Talvez pudesse discutir sobre o assunto com Dieter no futuro e talvez fosse mesmo procurá-lo no intervalo das aulas. Não tinha certeza se seria adequado conversar com Benjamin sobre o problema, mas resolveu contar a ele o que pensava justamente por desejar a opinião do namorado diante do que estava fazendo, a julgar que tinha dificuldade em se dar conta de quando estava sendo de fato invasivo. Só esperava que as coisas se organizassem e que seu amigo ao menos recuperasse as horas de sono logo.

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