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[Drive] Under Pressure [Aleksei; Emil; Dieter; Vivien; Leona] - Lil - 09-17-2021 Emil
Enfim o dia esperado chegou, segunda feira normalmente era um dia de tristeza já que significa o fim do final de semana e volta para aulas ou trabalho, mas não essa segunda, finalmente tinha chegado o dia de entregar o presente para Aleksei. Mal conseguiu pegar no sono noite passada pensando em como iria concretizar seu plano, depois de toda a conversa do dia anterior com Kurt não tinha dúvidas de que toda a surpresa estava em suas mãos, e não queria decepcionar. Depois de rapidamente colocar o uniforme e regar sua planta, o garoto gordinho guardou o precioso presente em um dos bolsos do uniforme parando e verificando se não estava muito à mostra, ao confirmar que não depois de muitas voltas ao espelho, pegou o resto das suas coisas e saiu para a rotina matinal de aulas, tinha tempo até se encontrar com Dr.Vlahos já que normalmente o via perto do horário de almoço, as primeiras aulas pareceram passar rápido, estava meio distraído com toda a situação. Depois das aulas, exatamente perto das 11 horas, Emil estava se dirigindo ao anexo administrativo, onde costumava ter as sessões com o psicólogo, respirou fundo e fez o caminho até o consultório, onde bateu a porta enquanto continha a animação. Esse seria um dia para se lembrar. Esperou o mais velho dar algum sinal de que iria abrir a porta ou que poderia entrar para enfim entregar o motivo de tanta animação. ‘‘Espero que ele goste’’ Aleksei
A rotina de Aleksei estava se tornando mais usual novamente, com as usuais mensagens e o terror psicológico com o qual já estava acostumado. Recebia as mesmas mensagens, via as mesmas notícias e exceto pelo fato de que a cara de Kyle estava agora estampada em todos os noticiários da cidade - o que, em sua opinião, não era de muita ajuda -, e os pacientes estavam lhe cansando além do esperado, já que estava ficando cada vez mais difícil descansar com a sombra do assassino à espreita, tudo estava seguindo a mesma rotina. A agente responsável pela investigação lhe mantinha a par de tudo e era bom passar algumas informações e saber que as coisas estavam andando. Mas ao mesmo tempo, lhe deixava com a mente cada vez mais pesada e cansada do excesso de informações e só de concordar, na semana anterior, que a morte da criança podia ter o dedo de Kyle, mesmo que apenas em questão de influência, lhe perturbou um pouco mais o curto descanso que já não tinha. Nem os remédios aos quais tinha acesso ilegal estavam conseguindo a dar cabo do seu cansaço no fim das noites. Uma maquiagem básica podia disfarçar suas olheiras e a expressão pálida para os alunos menos atentos. Mas só de olhar o reflexo no espelho ele conseguia perceber que a situação estava cada vez pior. Seguiu para o trabalho no horário de sempre em St. Clavier, começando as suas revisões e consultas tão logo as aulas começaram. Os alunos eram mais uma distração do que um problema àquela altura, assim não precisava pensar no que Kyle estava planejando. Teve apenas um paciente marcado naquela manhã e outro que procurou sua ajuda apenas por problemas românticos. Organizou as fichas dos próximos pacientes do dia e quando o relógio marcava pouco depois das 11h, ouviu as batidas na porta e já sabia que se tratava de um de seus pacientes mais tranquilos. Abriu a porta para dar passagem para o jovem primeiranista de rosto corado e visivelmente animado naquela manhã, até mesmo para a sua percepção reduzida. - Bom dia, Emil, já consigo perceber que está de bom humor hoje. - Aleksei respondeu, dando espaço para que ele entrasse na sala. - Fique à vontade. Emil
Não esperou por muito tempo e a porta abriu revelando o psicólogo, estava impecável como sempre, sua voz parecia meio diferente soava um pouco cansada, talvez ele tinha dormido mal noite passada. -Bom dia senhor Vlahos, está tão óbvio assim? - sorriu, sabia que uma hora ou outra ele ia notar que estava diferente, só não contava que tão cedo, tinha que dizer algo - Obrigado - entrando no consultório, sentou-se no lugar de sempre, levemente balançando as pernas- Eu finalmente fui na floricultura comprar o vaso da minha planta, não me lembrava se a floricultura ficava aberta meio período ou fechada totalmente aos domingos, mas tive sorte e o vaso é bonitinho- De fato, não tinha falado nenhuma mentira, apenas ocultava a parte importante do mais velho, arrumou a postura na poltrona e o esperou, olhando em volta do lugar como de costume. Não tinha como negar que as sessões com o psicólogo estava o ajudando muito, no começo se sentia nervoso demais para sequer pensar direito, mas agora já estava mais confortável com o lugar e o responsável, e estava começando a influenciar positivamente a rotina do garoto, Dr.Vlahos era amigável e agia sempre de maneira profissional, o garoto não conseguia imaginar o que ele faria num dia de folga, se fosse adivinhar, ele talvez ficaria sentado numa poltrona chique lendo um livro difícil num quarto silencioso ou algo parecido. Aleksei
A animação de Emil seria até contagiante, não estivesse em seu atual estado mental. Ainda assim, fechou a porta atrás do aluno e o acompanhou até a mesma poltrona de sempre, concordando com um aceno de cabeça quando ele perguntou se era tão óbvio. - Eu gosto da sua animação, Emil, deixa o meu dia mais animado também. E que bom que andou se aventurando no fim de semana, como está o seu Jacinto? Emil era um daqueles alunos muito fácil de lidar e o completo oposto do tipo de paciente com que tinha lidado a carreira inteira. Lembrava-lhe inclusive da época em que fazia apenas sessões de treinamento ao longo da especialização e tinha pacientes com situações menos perigosas, se é que podia colocar daquele jeito bem direto. A conversa seguiu naquela mesma animação do rapaz, e era bom que ele estivesse tão disposto porque as primeiras sessões dele tinham revelado bastante dificuldade em lidar com o cenário novo, com os colegas da academia, consigo mesmo até. Conseguia lidar numa conversa com Emil sem ter que anotar praticamente nada, e pela empolgação que ele tinha demonstrado ao longo daquela hora, parecia estar ansioso para algo, que Aleksei tentou não trazer a tona para que ele mesmo o dissesse. E antes que pudessem continuar com a conversa mais casual, o relógio já marcava quase meio-dia quando o psicólogo percebeu que já tinham se estendido um pouco mais do que o previsto na conversa. Estava mais leve, pelo menos. - Bom, eu não devia segurá-lo aqui no seu horário de almoço, Emil. - Aleksei respondeu, ao se erguer logo depois que o aluno tinha encerrado a cessão também, para sair da sala. - Espero que continue com essa empolgação nas próximas semanas também, nos vemos na segunda? Claro, se não precisar de mim para uma emergência, e espero que não seja o caso. Esperou a confirmação dele sobre a sessão da próxima semana, guiando-o até a entrada como fazia com todos os alunos. Emil
-Ele está indo bem, me descuidei um tiquinho essa semana pensando nas minhas notas e ele levou sol à mais, mas ele está indo melhor - comentou relaxado, prestando atenção no mais velho. A sessão tinha se passado de maneira tranquila, estava focado no seu objetivo de não deixar escapar nada sem querer. No começo evitava ao máximo olhar para o relógio já que os olhar de Aleksei provavelmente o atravessaria e ele iria começar a desconfiar de algo, mas com o passar da conversa acabou perdendo toda a noção de tempo, as conversas com o Dr. Vlahos eram sempre interessantes, nunca tinha imaginado que iria falar tanto de si para alguém até o momento, e que esse alguém iria ajudá-lo com os seus problemas. Apenas notou que tinha estendido seu tempo com o mais velho quando o mesmo o avisou sobre o horário de almoço, levantando para se despedir dele e já marcando a possível próxima sessão. Como um sinal, o presente clicou em sua mente, fazendo ele sorrir novamente enquanto acenava positivamente para a confirmação da próxima sessão. -Sim! Obrigado por sempre me ajudar Sr. Vlahos - sorriu e bagunçou os cabelos cacheados, sendo guiado até a saída e parando logo em frente à porta- Senhor Vlahos, eu meio que tenho uma surpresa para o senhor! - levou uma das mãos a um dos bolsos, pegando a caixinha que ainda estava intacta por todo esse tempo. Sentindo a animação fluir pelas veias, entregou o presente nas mãos do mais velho- Eu acabei encontrando com um amigo do senhor quando saí da floricultura, ele estava querendo fazer uma surpresa para o senhor mas tudo estava indo contra o plano dele, então... eu pedi para ajudar, já que o senhor me ajudou tanto eu queria pelo menos devolver o favor.. -sentia o rosto fervendo enquanto contada da jornada até o momento- espero que goste, ele parecia muito atencioso... Depois da entrega ficou esperando uma reação do mais velho, o plano foi cumprido com sucesso. Aleksei
Aleksei estava pronto a se despedir do garoto, mas a animação desde o início da sessão apenas aumentou quando ele revelou que tinha uma surpresa. Arqueou as sobrancelhas para o comentário, observando uma pequena caixinha com laço que o garoto lhe estendia. Não era nada incomum receber presentes de alunos, mas era menos comum ainda aceitá-los. Até estendeu a mão para receber a caixa, e estava prestes a explicar que não era muito de acordo com as normas da profissão aceitar o presente... até Emil especificar que tinha encontrado com um amigo seu. A expressão costumeiramente tranquila e sorridente de Aleksei sumiu instantaneamente. Se Emil ainda estivesse segurando a caixinha com a sua mão, teria sentido como a ponta de seus dedos ficou ainda mais gelada. A surpresa foi tão óbvia na expressão do psicólogo que ele não teve sequer como manter a pose diante do aluno que não sabia absolutamente nada do que estava lhe acontecendo. O maior esforço que fez foi para que a mão não tremesse e para que a expressão de pânico descongelasse de seu rosto e voltasse ao "usual". Meros segundos de uma expressão de surpresa pareceram uma eternidade para Aleksei. Não porque temia pelo presente que havia dentro da caixa, sabia que era só mais outro jogo de tortura psicológica de Kyle. Mas pelo fato de que ele tinha chegado ao ponto de entrar em contato diretamente com seus pacientes de St. Clavier, e que aquilo poderia ter causado muito mais consequências do que um mero presente numa caixinha. Ele podia ter machucado o garoto... ou quem sabe mais o que. Aleksei demorou mais do que pretendia para se recompor, mas forçou o sorriso de volta para o garoto, segurando a caixa com um pouco mais de firmeza do que pretendia. - Desculpe, eu me distraí por um instante. - finalmente respondeu. - Obrigado, Emil, você é muito atencioso. Vejo você semana que vem. Mal esperou a resposta do rapaz. Devia ter dito algo sobre não confiar tão facilmente em estranhos? Não conseguia pensar direito. Na verdade, pensou tão pouco que só teve tempo de fechar a porta, esquecendo-se de trancá-la, para olhar de novo a caixinha em sua mão. O tremor ainda estava lá, mas qualquer pensamento racional já tinha lhe deixado, tanto que a despeito do que haveria na caixa, que pudesse lhe machucar de algum modo, apenas desfez o laço e puxou a tampa. Já devia estar preparado para aquele tipo de situação, Kyle não devia ser capaz de lhe manipular daquele jeito, provavelmente foi o cansaço acumulado, a fraqueza, a falta de alimentação e o fato de que aquele par de olhos com íris azuis era pequeno demais para pertencerem a um adulto que contribuíram para a única reação possível. Não só a caixinha caiu da mão de Aleksei, mas ele mesmo viu tudo escurecer de súbito antes de desmaiar e cair pesadamente no chão do consultório. Dieter
Podia tentar se convencer todos os dias que sua rotina estava intacta e que nada incomodava seus experimentos sociais. Mas era ciente demais dos próprios incômodos para simplesmentes ignorá-los, e as últimas semanas estavam se tornando excepcionalmente preocupantes. Obviamente Fleur já tinha notado sua preocupação excessiva, e por mais que seu jeito animado e extrovertido servisse como persona para lidar com seus alunos adolescentes, estava começando a ficar clara essa preocupação nos trejeitos do professor de biologia. A presença contínua da polícia na academia, as notícias no jornal, embora não fosse segredo para ninguém na cidade que havia alguém perigoso rondando, ainda era segredo para o restante dos cerisienses o motivo daquela pessoa perigosa estar na cidade. E a sensação de incapacidade sobre a resolução desse problema apenas deixava Dieter ainda mais incomodado. Sabia que estava prestando algum auxílio para o amigo, ao conseguir com contato no hospital os remédios que o outro precisava para ao menos conseguir dormir e apaziguar os terrores noturnos advindos da caçada constante e dos jogos que o psicótico propunha para atormentá-lo. Porém, apesar de todas essas sensações e pensamentos que lhe corriam, o australiano tinha se proposto a manter a rotina, nada mais conveniente do que ter na sua rotina, por hábito desde que chegara em St. Clavier, ir almoçar com os colegas de trabalho, o que eventualmente envolvia Aleksei. Muito embora, pelas últimas semanas mais estressantes para o amigo, tinha tornado as idas para chamá-lo para almoçar parte da sua rotina também. Ao menos daquela forma se certificava de que ele estava comendo, apesar de notoriamente os sinais de cansaço começarem a aparecer de forma mais nítida na aparência do grego. Queria poder distraí-lo com qualquer assunto, e estava pensando sobre algum experimento escabroso do passado que poderia servir de breve alívio para os pensamento do outro, tinha até buscado fitas que tinha gravado durante o período de graduação, sabia que não chegava nem perto, mas se havia a possibilidade, o australiano como cientista tinha de tentar. Estava com a expressão alegre costumeira, e vestido em tons terrosos como de costume, a fita no bolso interno do terno, enquanto se encaminhava para o prédio administrativo. Chegou a sala de aconselhamento estudantil e bateu na porta uma vez, pelo horário não deveria estar em atendimento de qualquer um dos estudantes, esperou ouvir o barulho da cadeira o que indicaria que o outro estava se levantando para atender a porta, mas ao invés disso, houve apenas silêncio. Dieter estranhou e se aproximou mais um pouco da porta, batendo sobre a mesma com um pouco mais de força, seguido do chamado em tom normal: -- Dr. Vlahos? -- a falta de resposta que se seguiu, fez com que Dieter fosse tomado por um desconforto, pensou em seguida que o outro podia estar apenas fora de sua sala, embora soubesse que ele não estava andando a esmo pela academia como costumava fazer. A reação imediata foi ir até a maçaneta e girar, se a porta estivesse trancada isso indicaria que o outro tinha saído, mas para a surpresa do australiano a porta estava destrancada. O pensamento foi mais rápido que o ímpeto de abrir, não havia qualquer possibilidade do amigo na situação em que estava sair e deixar a sala destrancada, então tinha algo de muito errado ali, abriu a porta devagar sem alarde, varrendo o espaço da sala, até seu olhar ser guiado ao chão vendo o corpo do psicólogo prostrado sem qualquer movimento. Dieter entrou na sala e fechou a porta atrás de sí, sequer se dando conta, que poderia haver mais alguém dentro da sala, a reação majoritária foi se abaixar iniciar os procedimentos para checar os sinais de vida de Aleksei. Embora houvesse um bom par de anos desde a última vez que o australiano tinha estudado e executado procedimentos médicos de atendimento durante as aulas, tudo que precisava lembrar veio a sua mente naquele instante. Checou o pulso e a respiração, conferiu se havia qualquer sinal de corte ou machucado que indicasse que ele precisava ser levado para a enfermaria ou Hospital, após alguns instantes, concluiu que o outro estava em choque: -- Aleksei! Reaja! -- não gritou para não causar alarde e nem chamar atenção desnecessária do lado de fora da sala, seguindo com os procedimentos a fim de tirar o grego do estado de desmaio. Dieter tinha ignorado completamente a caixa pequena que também estava no chão, mas tinha se colocado exatamente entre o psicólogo e o objeto. Aleksei
Aleksei não soube quanto tempo se passou naquele estado de inconsciência e talvez a única vantagem dele era que não precisava ser atormentado pelos pesadelos costumeiros, o que muito se assemelhava às noites de sono sob o efeito de medicação. Quando ele voltou aos sentidos foi mais por um impulso externo e uma voz familiar lhe chamando, o que lhe fez hesitar um pouco antes de abrir os olhos de novo, percebendo apenas parcialmente o que tinha acontecido. Piscou os olhos apenas uma vez até a situação inteira voltar à sua mente como uma pancada desagradável. A reação imediata foi arregalar os olhos e prender o ar, sentando-se num impulso que quase empurrou a pessoa ao seu lado para longe. O movimento foi rápido demais para o seu físico abalado e só sentiu a sala rodar e a sensação de náusea subir pelo pescoço. Apoiou uma mão trêmula no chão e a outra levou até o pescoço, puxando a gola da camisa como se aquilo tornasse difícil a respiração. Conseguiu soltar o ar de uma vez e ainda teve a sensação de hiperventilar por uns instantes antes de situar que não estava sozinho na sala e felizmente, a companhia não era de Kyle. - Eu... o que... que horas são? - olhou ao redor, com a visão um pouco turva ainda, encontrando logo Dieter bem ao seu lado. Mas ainda olhou ao redor para se certificar que não havia nada na sala além dos dois e da caixinha caída de lado, com os olhos que tinham rolado para lados diferentes. Sentiu a ânsia de vômito de novo e a necessidade de olhar mais de uma vez ao redor para confirmar que era seu consultório, e que não havia mais nada. - O que aconteceu? Ele não está aqui, está...? Dieter
Para sorte dos dois ali, não havia mais ninguém na sala além deles, afinal, se houvesse mais alguém a espreita certamente já teria se pronunciado, e apenas quando o grego tomou consciência novamente, e assistiu a sequência de reações dele, teve de auxiliá-lo com receito de que ele tornasse a desmaiar. No entanto, o que lhe chamou mais atenção foi a forma como Aleksei olhou ao redor aterrorizado, supondo que haveria outra pessoa naquela sala a espreita, e naquele momento o australiano se deu conta, que podia ter sido pego ali de guarda baixa, e isso lhe causou um arrepio, que não foi externado em sua expressão. A mente de Dieter saiu momentaneamente do estado de pensamento para se atentar ao estado físico e emocional do loiro, estalou os dedos a frente do rosto do outro, chamando a atenção, e indicou para que o outro olhasse em direção ao seu rosto: – Aleksei, estamos só nós dois aqui. Respire devagar e tente se acalmar. Estamos na sua sala, é horário do almoço, eu vim lhe chamar como faço todos os dias. Você não respondeu, eu entrei na sala e encontrei você no chão. Agora se concentre em respirar fundo e tente se recompor um pouco. – o professor de biologia falou pausadamente e não reforçou que ele poderia desmaiar de novo se continuasse agitado, porque aquela informação certamente não o ajudaria a se acalmar. Aproveitou o tempo que o amigo o observou, para avaliar o estado dele, a respiração acelerada, e a possibilidade iminente de outro mal estar, tinha de acalmá-lo e entender o que houve. Mas antes que pudesse perguntar, agora que o outro estava consciente, seus olhos captaram o objeto pequeno arredondado que estava no chão da sala. A reação do professor não foi tão contida quando gostaria, ao perceber que se tratava de um olho humano, a reação ficou bem evidente no olhar surpreso, principalmente por já ter estudado anatomia o suficiente pra saber a proporção de um olho humano, e mesmo aquela distância podia julgar que era “pequeno demais” para ser de um adulto. Dieter engoliu em seco a expressão tensa, e tornou a olhar para o amigo: – Preciso saber se tem condições de sair desta sala, ela precisa ser fechada e precisamos chamar a polícia e peritos para avaliar. – Não comentou que teria de avisar a Vivien também, porque sabia que aquilo despertaria uma nova sequência de reações de terror no amigo, e esperava que ele se recompusesse ao menos um pouco, para poder tirá-lo dali. Mas era fato, que não tinha como chamar peritos de polícia sem ter de avisar ao diretor da instituição, esperava que o abalo atrasasse um pouco o pensamento do amigo sobre aquele fato. Aleksei
As breves indicações e instruções de Dieter fizeram com que Aleksei voltasse lentamente aos sentidos. Estava se sentindo mal, saber o que tinha acontecido, em seu estado fisicamente e psicologicamente fragilizado, fazia com que sua reação estivesse totalmente fora da curva do esperado para alguém em sua linha de atuação. Ele se manteve bem apoiado no chão, mesmo que as mãos estivessem trêmulas, e com a cabeça um pouco inclinada, respirou fundo, em intervalos mais longos de tempo. Saber que só os dois estavam lá era mais reconfortante, saber que ainda era horário de almoço, também. Não tinha perdido muito tempo e não tinha colocado mais alguém em risco… supunha. Aleksei não voltou a olhar ao redor, mas a mão que puxava a gola da camisa se manteve ali, não apenas mantendo o caminho livre, mas com as unhas coçando a cicatriz a ponto de arranhar. Dieter provavelmente não atentou logo ao fato pois estava mais preocupado com o objeto viscoso que estava no chão, ao menos um dos dois estava mais próximo no campo de visão. Aleksei tirou o par de óculos que ainda lhe incomodava e sentiu os músculos um pouco mais firmes. Passou uma mão pelos cabelos e pressionou o espaço entre os olhos, quando Dieter voltou o foco para o quadro geral da situação. Parou de coçar a cicatriz, o pescoço bem vermelho com alguns pequenos arranhões na área já marcada. Certamente o que mais queria fazer naquele momento era fugir dali, sair daquela maldita sala que já tinha sido uma prisão desconfortável desde o primeiro presente. Poderia fugir até para mais longe, mas por enquanto, as colocações de Dieter eram mais precisas. Logicamente, precisavam da polícia, trancar o local, mas não conseguia pensar racionalmente, tanto que a primeira reação foi só concordar com um aceno de cabeça. - Eu consigo ir. - respondeu, envolvendo o pescoço com ambas as mãos, agora mais firmes. - Eu… está bem. Está tudo bem… Não estava, e era mais que óbvio que o reforço positivo não ajudava muito. Aleksei se apoiou no chão e buscou ajuda de Dieter para levantar, evitando olhar para os pontos em que sabia estarem os olhos. Estava tão desnorteado que até esqueceu do celular que geralmente deixava em sua mesa ao longo das sessões. - Vamos sair daqui. A chave está na porta… Apenas ao se colocar de pé, sentiu a vista escurecer de novo e voltou a se apoiar em Dieter, a sensação de náusea surgindo novamente no topo da garganta. RE: Under Pressure [Aleksei; Emil; Dieter; Vivien; Leona] - Lil - 09-17-2021 Dieter
Obviamente não tinha como Aleksei estar bem dado o quadro geral de situação, não estava se perguntando ainda como estava bem, provavelmente a adrenalina despertada ao encontrar o amigo desmaiado estava mantendo o australiano funcionando e sendo lógico e reativo diante dos fatos. Ajudou o grego a ficar de pé, notando como ele estava fraco apenas quando o mesmo, não conseguiu de fato equilibrar-se só, então, passou o braço de Aleksei pelo próprio ombro, mesmo sendo mais alto, imaginava que o apoio extra seria o suficiente, e ofereceu-lhe um melhor apoio com uma mão em torno da cintura: – Assim, devagar, não tente caminhar e se equilibrar tudo de uma vez. Foque em respirar, puxe o ar, e solte o mesmo devagar. Estou lhe segurando, você não vai cair. – o australiano falou com toda seriedade e firmeza que dispunha no momento, sabia que falar devagar e assertivamente auxiliava naquelas situações. Apenas naquela distância que tinha notado o estado em que o outro tinha deixado o próprio pescoço, completamente arranhado e vermelho: – Venha, vamos sair daqui o quanto antes. – Guiou o loiro para fora da sala, e se atentou em pegar a chave e trancar o local, foi inevitável encarar os orbes no chão, lhe encarando de volta enquanto saia da sala, e após trancar a porta, ainda se certificou de que ela estava de fato fechada. Guardou a chave no bolso e puxou o próprio celular, discando para o número do diretor: – Aqui é Dieter Rupert. Temos uma situação de emergência em St. Clavier nesse exato momento, estou bem, e acompanhando o Dr. Vlahos que também está bem, apenas muito abalado. É necessário chamar a polícia especializada e um grupo de perícia, para averiguar a sala de aconselhamento estudantil. – O australiano fez uma breve pausa, esperando qualquer reação do outro lado da linha, enquanto fazia caminho para a sala do próprio Vivien, torcendo para que a conversa mais técnica tenha servido para não chamar a atenção do amigo ao fato de que estavam indo justamente para sala do diretor. Se manteve na linha telefônica ouvindo qualquer que fosse os comentários do diretor, e apenas quando estava praticamente de frente a porta da sala do mesmo, que o australiano tornou a falar: – Poderia vir abrir a porta, por favor. Vivien
O trabalho em St. Clavier estava ficando cada vez mais complicado. E não porque tinha aumentado, mas sua concentração certamente tinha caído. As desistências após o início do plano seu e da polícia de dar mais segurança a academia foram menores do que esperado, porém, graças a quantidade de delinquentes que gostavam de escapulir a noite, o número de questionamentos sobre todo aquele programa tinha aumentado. A polícia em si não fazia rondas dentro da escola, o que evitava que professores e funcionários fizesse muitas perguntas sobre a necessidade daquilo, mas certamente notou desconforto com a instalação de mais câmeras de segurança. Isso impedia muitas coisas, inclusive, lhe impedia de se sentir livre para sair e fumar no meio do expediente, com receio de que alguém lhe pegasse numa postura bastante estressada dentro daquele ambiente. O importante, supunha, é que julgava que todos estivessem mais seguros agora. Estava distraído com revisando algumas reclamações trazidas a si pelo Conselho Estudantil quando sentiu o celular vibrar sobre a mesa. Olhou o nome na tela, franzindo a testa ao ler “Rupert”. Primeiro ponderou se era alguma reclamação com as novas burocracias da escola, mas não demorou para que viesse a sua mente que o australiano fosse próximo a Aleksei, e embora quisesse imaginar que no horário de almoço, nada estaria acontecendo na escola, atendeu o telefone com urgência. - Vivien St. Clavier. – respondeu prontamente, identificando-se prontamente no interesse de ouvir o que o outro tinha a dizer. A mensagem que seguiu, entretanto, não era uma reclamação, e aos poucos, sentiu o sangue se esvair da ponta dos dedos, ficando completamente gelado. Levantou-se da cadeira depois de apoiar-se sobre o birô de sua sala, respirando fundo para tentar controlar qualquer impulso de sair da sala e chamar atenção de mais alguém que supostamente não teria nada haver com aquele caso. Talvez – em uma opção muito remota – fosse um problema do doutor com algum aluno. – Monsieur Rupert, tem alguém machucado? Chamarei a polícia, porém, primeiro, tire o Dr. Vlahos da sala e deixe-a trancada, para a perícia. – ordenou prontamente num tom firme, levando a mão até a testa e se perguntando se Aleksei deveria ter recebido outra ameaça de Kyle naquela sala. Como, se perguntava, sem ser visto pela segurança? – Se ambos estão bem, por favor, venham até minha sala. Conversaremos aqui enquanto a polícia não chega. Engoliu em seco, sabendo que se Aleksei estava abalado por conta de alguma situação em St. Clavier, a última pessoa que gostaria de estar perto era Vivien. Lembrava da conversa dos dois na cobertura. Porém Dieter já tinha sido ágil o suficiente para trazê-lo até ali. E era melhor. Sua sala era conectada a sala de reuniões, que era mais espaçosa e segura, caso Aleksei não se sentisse confortável estando na sua sala. Mas não deixou de descer a persiana de sua sala, evitando a exposição do interior da sala. Andou rapidamente até a porta da sala e abriu para os dois, notando a palidez no rosto tanto de Dieter quanto de Aleksei, e desligando prontamente a ligação. Saiu do caminho enquanto buscava o número da oficial Blanche. - Sentem aqui ou na outra sala. – apontou para a outra porta, enquanto fechava a porta depois da passagem dos dois. Levou o telefone ao ouvido, esperando que a mulher atendesse logo. – Qual a situação, monsieur Rupert? Aleksei
Com o suporte de Dieter, foi mais fácil se sustentar, e a despeito de não querer chamar atenção, não tinha condições de dispensar o apoio alheio. Ao menos era horário de almoço, estavam no anexo administrativo e a única probabilidade de chamarem atenção era de algum professor ou funcionário. Concentrou-se nas instruções do australiano para manter a respiração e lentamente, com os segundos que passavam desde ter recebido o novo presente, inúmeras possibilidades cruzavam sua mente. Coisas que poderiam ter lhe acontecido, coisas que poderiam acontecer com seus pacientes, com as pessoas que conhecia, com seus amigos próximos, distantes, qualquer um a quem Kyle tivesse o mínimo acesso. Da primeira vez, todo o contato dos dois tinha se resumido a uma sala de aconselhamento psicológico dentro de uma instituição segura. Ele tinha quase morrido mesmo daquele jeito e depois do incidente, só tinha recebido aquele presente a distância. O cenário era bem diferente agora, Kyle estava solto, sabia da sua rotina, dos seus contatos, seus pacientes, suas relações. Emil poderia ter se machucado, a sala poderia não ter estado vazia, Dieter poderia ter se machucado. As várias possibilidades lhe faziam começar a reconsiderar tudo o que tinha concordado até então. A mente cheia lhe causou uma dor de cabeça incômoda e impediu inclusive de prestar atenção no que Dieter falava ao celular ou com quem falava. Antes de perceber a situação, já haviam parado diante de uma sala e a voz masculina fez com que Aleksei congelasse no lugar a ponto de tensionar os músculos e dificultar a entrada, mesmo ainda sustentado por Dieter. Não devolveu o olhar de Vivien, entraram na sala e seguiu direto até a sala de reuniões. Ouviu o questionamento que foi direcionado a Dieter, mas mesmo sem encarar o francês de volta, foi ele que respondeu. - Os olhos da menina… estão na minha sala. - respondeu, afastando-se finalmente do apoio de Dieter com um breve agradecimento, para se sentar numa das cadeiras à mesa grande. - Foi um aluno que trouxe. Ele não sabia o que era… e eu não devia ter aberto. Mais uma vez, Aleksei respirou fundo, passando ambas as mãos pelo rosto pálido. As respostas lhe trouxeram de volta a breve sensação de pânico e voltou aos intervalos longos de respiração profunda. Ainda naquele estado, não ergueu o olhar para Vivien uma vez sequer. Dieter /LeonaAgradecia estar em horário de almoço e a maioria dos professores preferir ou ficar trancado na sala dos professores ou estar no refeitório. Ao chegar na sala do diretor, ele mesmo abriu a porta sem demora, parecendo notoriamente alarmado, quem dirá quando escutasse o que tinha visto na sala de aconselhamento estudantil, aquilo fez com que uma gota de suor escorresse de sua testa. Percebeu como o próprio Aleksei ficou tenso ao se dar conta de onde estava, guiou o amigo até a sala de reuniões onde tinha mais espaço para que ele se sentisse menos “confinado” se é que isso era possível. Ouviu os questionamentos de Vivien e antes mesmo que pudesse explicar o próprio Aleksei resumiu a situação, tinham olhos humanos de uma criança, que ele especificamente destacou que eram de uma menina. E que foram levados até a sala dele por um aluno, isso queria dizer que o maníaco sabia quais eram os pacientes do psicólogo? Aquilo fez com que Dieter franzisse a testa em leve estranheza: -- É como o próprio Aleksei disse, há olhos humanos no chão, não encostei neles, assim que cheguei na sala de aconselhamento, estranhei a falta de resposta e entrei, pra dar de cara com Aleksei desmaiado no chão. – Não precisava destacar que tinha ajudado o grego a recobrar a consciência e o tinha levado até ali: -- Tentei ser o mais discreto que dava, não acho que algum outro professor ou funcionário tenha nos visto chegar aqui. – o Australiano puxou a chave da sala do outro do bolso deixando sobre a mesa da sala de reuniões. Enquanto as horas corriam, mais e mais informações chegavam a delegacia, inclusive novos dados que encorpavam o caso da fuga de Julliette, como aquilo podia ter influenciado de alguma forma a morte de sua única filha. Tinham por onde começar a fazer ligações de possíveis pessoas que odiassem a criança. E pelos dados obtidos pelo legista, já tinham um perfil de pessoa que tinha espancado a criança, mas os dados não batiam com nada que estivesse no banco de dados da polícia, o que indicava uma pessoa não fichada. Oficial Garret estava pressionando os marginais na rua e estava conseguindo algumas informações relevantes, e Carissa estava exaustivamente trabalhando montando aquele quebra-cabeças gigante de informações. Mas de uma coisa a leoa estava certa, podia ser quase impossível rastrear um ex-seal, mas certamente o novo companheiro com o qual Kyle estava se divertindo não era experiente o suficiente para ser tão cuidadoso. E não ia deixar isso por menos, se ele achava que a polícia não tinha como achar ou triangular quem é a pessoa, ele estava enganado de novo. Mas não era um dia para ficar somente na delegacia, tinha recebido uma ligação de St. Clavier, e já conseguia até imaginar o que estava acontecendo, se estavam faltando os olhos da criança, eles não estavam lá por um motivo. O requerimento de um perito, apenas condizia com a suspeita de Leona. A questão era, que se a Academia masculina estava fortemente sob vigilância da polícia, então ele tinha de ter dado um bom pulo do gato pra fazer essa entrega, qual seria o pequeno deslize do dia? Precisava saber, talvez isso a levasse ao segundo assassino também. Leona avisou a toda equipe que estava de saída com o perito, foram em um carro convencional, para não causar alarde na instituição e também, porque imaginava dois cenários: ou Kyle estaria vigiando para saber a repercussão de seu presente, o que podia ser estendido ao seu pequeno marionete, ou estaria ocupando-se com um próximo presente. Leona apenas fez questão de deixar avisado para Carissa considerar a lista de desaparecidos dos dois últimos dias, se alguém dentro do perfil do segundo assassino sumir, é possível que precise ser investigado também simultaneamente. Não demoraram para chegar a academia masculina, alguns poucos minutos de trânsito, e com a entrada já liberada e avisada, seguiu pelo caminho conhecido até a sala do diretor da instituição, sabendo que a portaria devia ter anunciado sua chegada assim que passaram o portão. Leona usava roupa de ação em campo, com calça, coturnos, jaqueta e boné, carregava consigo luvas e outros equipamentos caso precisasse ajudar o perito, que vinham igualmente vestido. Bateu a porta e esperou que ela fosse aberta para só então adentrar na sala e cumprimentar o diretor da instituição: -- Diretor St. Clavier. Este é o oficial e perito, Jean Marlon, está me acompanhando na ação de hoje. Onde está o Dr. Vlahos? – comentou no mesmo tom sério costumeiro, embora estivesse aparentando estar calma, a despeito de ser uma chamada de urgênc Ia. Vivien
Foi fácil notar o desconforto de Aleksei que ia além do fato dele ter se envolvido em provavelmente outra situação perigosa. Sua sala, sua presença incomodava o loiro. Mas era o melhor lugar que tinha no momento, e não podiam estar chamando atenção em salas menos discretas na escola. Se ele conseguisse pelo menos ficar ali, tinha cumprido parte do seu papel. Não lhe surpreendeu muito quando Aleksei optou pela sala de reuniões, e permaneceu sem lhe lançar um único olhar, a despeito de decidir responder sua pergunta dirigida ao professor Rupert. Franziu a testa aos poucos ao ouvir o relato do que tinha acontecido. Não tinha informação alguma sobre os olhos de que menina, mas o caso tinha sido tão comentado que era difícil não adivinhar que eram os do corpo da pequena que tinha sido encontrada na semana anterior. Tinha lido sobre no jornal de sexta, e surpreendentemente, tinha conhecidos que tinham proximidade com ela, como Tamotsu. Era apenas sobre o que se falava em Cerise. Sentiu um arrepio na nuca de pensar que naquele ponto, mesmo que não soubesse da relação dela com Aleksei, Kyle tinha machucado até mesmo uma criança pequena. Não era surpreendente, mas ao mesmo tempo, era algo que não tinha como esperar. Levou a mão até a boca e tomou um fôlego grande, sem saber exatamente o que sentir. O pior era que um aluno de fato tinha entrado em contato com Kyle. Sorte a sua, ou a de todos, que, se foram entregues em algum recipiente, o aluno não tinha tido a curiosidade de abrir. O que não podia dizer de Aleksei. Mas não o culpava. Sabia que não era uma reação de curiosidade, e sim de pânico. E Dieter completou o resto da narrativa com a reação dos dois aquela situação. Era difícil lidar com a sensação de impotência diante de toda aquela situação dentro da escola, há poucos metros da sua sala, envolvendo cada vez mais pessoas, e com o fato de que não podia fazer nada sequer por Aleksei. Estava com a cabeça cheia. Queria desesperadamente um cigarro. - Estou chamando a polícia. Vai ficar tudo bem. – assentiu com uma voz firme para os dois, embora soubesse que seria mais difícil acalmar o loiro depois daquele segundo choque. Ergueu a mão até o ombro de Dieter e pressionou de leve. – Tem água na sala de reuniões. Sirva um copo para o dr. Vlahos e para você também, e sente-se. Obrigado pela ajuda. – Vivien adicionou, num tom menos comandante, e respirou fundo, pedindo licença baixo por um instante para falar diretamente com a oficial Blanche e solicitar que ela fosse até St. Clavier. Agora que sabia o que estava na sala de aconselhamento estudantil, a espera foi um pouco fatigante. Dieter não podia sair dali, e por mais que fosse irritante tê-lo envolvido nisso tudo, assim Aleksei não precisava ficar completamente desconfortável consigo. E nem sozinho também. Evitou andar de um lado para o outro da sala e deixar os dois ainda mais impacientes, e apenas aguardou a chegada dos oficiais de pé em sua própria sala, pois não conseguiria sentar nem que quisesse. As batidas na porta foram um alívio para tirar o ruído de seus pensamentos enquanto esperavam. Deixou Leona Blanche e o outro homem entrarem, e fechou logo a sala atrás dos dois. O fato de que Leona pelo menos tinha que manter uma fronte calma lhe deixou um pouco mais assegurado. - Ele está na sala de reuniões. Junto dele está o professor Dieter Rupert. Ele que ajudou o Dr. Vlahos na sala de aconselhamento estudantil. Está trancada, nada foi mexido desde então. Vou entregar a chave aos dois. – falou, fazendo um sinal com a mão para que Leona e o perito fossem até a outra sala anexa. Aleksei
Estar na sala de reuniões ao lado da sala da diretoria não ajudava em muita coisa, mas era melhor do que ficar na sua sala com os olhos acusadores no chão. Apenas ouvir a voz de Vivien lhe incomodava, como ele mesmo tinha dito alguns dias atrás, especificamente pelo fato de que sentia uma necessidade crescente de depender de alguém e aquele alguém, não tão surpreendente, era o francês. A enxaqueca só aumentou e ficou perdido entre continuar sua linha de pensamento e ouvir as vozes conhecidas. Quase levantou a mão de novo até o pescoço, no transtorno compulsivo mais recente de arranhar o pescoço, mas a reação automática foi segurar o braço da cadeira com uma força que deixou as juntas dos dedos brancas, numa lembrança bem vívida para “ir com calma”. Manteve uma mão segurando o braço da cadeira, enquanto a outra usava para apoiar o rosto. Só se moveu de onde estava quando Dieter apareceu em seu campo de visão para lhe oferecer água. Bebeu apenas um gole, certo de que mais do que aquilo lhe faria vomitar. Os segundos de espera se tornaram minutos, os minutos pareceram horas, e todo aquele tempo só lhe colocou mais ideias na cabeça, e nenhuma delas era boa. Do mesmo modo que ao chegar, não procurou o olhar de Vivien uma vez sequer, mesmo ouvindo a voz dele esporadicamente. Depois de um tempo que lhe pareceu muito longo para chegar a algumas conclusões não muito boas, ouviu a voz da oficial responsável pelo caso, que estava lhe deixando a par de toda a investigação até então. Seria mais um interrogatório, mais suposições, poucas conclusões. Aleksei estava cansado, verdadeiramente cansado como não se sentia há muito tempo. Logo a oficial surgiu na sala acompanhada de um perito e finalmente Aleksei arriscou levantar o olhar, focado apenas na mulher. - Official. - foi aquele apenas o breve cumprimento para a chegada dela. Já não era difícil notar como Aleksei estava desgastado naquele ponto. - Eu já devia ter esperado… - referiu-se ao fato de ter recebido os olhos, e sabia que não precisava adicionar mais para que Leona entendesse. Leona
O professor de Biologia se sentia muito deslocado naquela situação, porque nada podia fazer além de esperar. Conversar com Aleksei apenas o deixaria ainda mais indisposto, e não iria deixa-lo sozinho para conversar com o diretor, que apesar de ser mais cordial do que de costume, estava notoriamente transtornado. Pegou água e trouxe, tomando um pouco para si, sabia que deveria ficar ali, pelo amigo, e também porque invariavelmente seria interrogado, sobre o que tinha encontrado na sala. A oficial observou o diretor apenas o suficiente para ter noção de que ele estava muito transtornado, e dada a ligação, já sabia o que iria encontrar ali, arqueou a sobrancelha apenas para a indicação de que tinha outro professor envolvido. Seguiu para a sala de reuniões acompanhada de Marlon que não acrescentou nenhuma palavra, se ocupando em carregar a mala com material de perícia: -- Senhor Vlahos. -- devolveu o cumprimento breve, depois olhou para a figura nova na sala: -- Prof. Rupert, eu sou Oficial Leona Blanche, responsável por esse caso, este é o perito Jean Marlon. -- Seguido de apresentação para a nova figura que estava na sala. E observando os trejeitos do psicólogo notando que mesmo mediante ao aviso prévio, nada supera o choque do momento, principalmente dado a constante sensação de perseguição que o outro vinha experimentando ao longo dos dias: -- Mesmo esperando, uma coisa é: saber que pode acontecer, outra é: vivenciar de fato. Mas vamos prosseguir a investigação, até pegá-lo. -- reafirmou que daria continuidade a investigação, tudo num tom calmo e seguro, embora a fala parecesse condescendente com o sentimento do psicólogo diante do choque recente, a expressão e linguagem corporal da loira ia contramão, não parecendo nem um pouco surpresa diante da progressão dos fatos. Leona em seguida, se voltou na direção do outro homem na sala: -- Prof. Rupert, como foi o senhor que encontrou o Senhor Vlahos vou pedir que acompanhe o perito Marlon de volta a sala de aconselhamento estudantil, ele vai lhe interrogar sobre o ocorrido. Pode fazer isso? -- Posso sim, oficial Blanche. -- dito isto o australiano se levantou, lançou um olhar para Aleksei antes de fato de acompanhar o perito. Não queria ter de voltar aquela sala, porém se sentia impelido a ir, se isso ajudasse em algo dentro da investigação, ajudava a diminuir a sensação de inutilidade diante dos fatos que ocorriam. -- Obrigada pela cooperação prof. Rupert. -- Leona fez um meneio de cabeça, e em seguida se virou na direção do perito, o mesmo já sabia o tipo de fotografia que Leona precisava para além do registro criminal de evidências para o caso. Após a saída dos dois, estavam apenas o diretor, o psicólogo e a oficial na sala de reuniões. A loira se sentou a frente de Aleksei, para que ele não tivesse de tornar a olhar para cima, manteve toda a linguagem corporal mais firme e sóbria, embora o semblante fosse calmo, afinal, já esperava aquela progressão de caso, mas tinha suas próprias dúvidas e era justamente o que iria perguntar: -- Pode me falar como o objeto chegou em suas mãos Senhor Vlahos? -- o pode, indicava justamente, que Leona já estava considerando o cansaço aparente do psicólogo diante de mais um choque. Aleksei
A chegada de Leona à sala não lhe fez manter a atenção completamente focada nela enquanto ela estava de pé, apresentando o perito no qual não tinha muito interesse e avaliando a situação, como já era comum da oficial. Aleksei sabia, em algum lugar agora um pouco distante em sua própria cabeça que esperar algo e vivenciar era diferente, mas a confusão de sentimentos não foi capaz de se sobressair ao comentário da oficial de que “prosseguiriam com a investigação, até pegá-lo”. Fechou a mão com um pouco mais de força em volta do braço da cadeira, respirando fundo de novo e fechando os olhos por um instante para manter a sobriedade, se é que era possível naquele estado. Sabia que a investigação estava prosseguindo, a parte de pegar Kyle é que parecia torturantemente distante. A oficial Blanche voltou a atenção então para Dieter que era a pessoa nova no caso inteiro e deu instruções para que ele ajudasse na investigação. Aleksei apenas pegou o copo de água para beber mais um gole pequeno e organizar as memórias recentes para poder descrever, eventualmente, o que tinha acontecido de fato para estarem reunidos ali, de novo. Dieter deixou a sala com o perito e logo estavam só ele, a oficial e Vivien, levando-lhe de volta ao primeiro olho em sua sala. A diferença era só que Vivien não estava ao seu lado para lhe atentar para seu próprio estado e isso lhe fez, de novo, segurar o braço da cadeira com mais firmeza para se impedir de machucar o pescoço. Foi mais fácil encarar a policial quando ela se sentou a sua frente e mais fácil evitar olhar para o diretor também. O cansaço e a exaustão podiam ser até confundidos com calma naquele ponto em que sua respiração já tinha voltado ao normal, mas todos sabiam que a situação era bem diferente daquilo. Não esperava diferente da pergunta dela e não se moveu muito, apenas abaixando a outra mão que apoiava o queixo para descansar sobre o braço da cadeira também e encarar a oficial de volta. - Foi um dos meus pacientes, aluno da Academia, Emil Allard. - Aleksei começou a relatar a situação. - Ele veio para uma sessão de rotina, é um rapaz quieto, introvertido, ingênuo. Ele estava particularmente animado quando chegou para a sessão hoje e eu sabia que algo interessante tinha acontecido com ele. Mas ao longo da sessão, não houve relatos que se destacaram. Quando terminamos a sessão, ele finalmente revelou que estava animado por poder ajudar um amigo meu a me fazer uma surpresa... e me entregou o presente. Eu só agradeci e o dispensei... abri a caixinha quando fechei a porta. Eu sabia que era dele, eu sabia que não devia ter aberto. A respiração ficou um tanto descompassada naquele ponto, ao lembrar de encarar o que tinha dentro da caixa e desmaiar. A reação tinha sido automática, como Leona mesmo disse. Num caso de menos estresse, talvez tivesse pensado duas vezes em ligar logo para a polícia antes de abrir o pequeno presente. Leona
Para a oficial era fácil enxergar os sinais de exaustão no homem a sua frente, por mais que ele parecesse muito tranquilo em um primeiro olhar. A forma como ele se segurava firmemente a cadeira lhe dava a dica de que ele precisava se “segurar” em algo, ou talvez se “sustentar” seria a palavra mais apropriada para ser utilizada ali. E o outro sinal claro de estresse era notar a área do pescoço vermelha e arranhada, já tinha identificado aquilo como sinal de estresse do psicólogo, se ele tinha chegado ao ponto de desmaiar, e em seguida começou a repetir o tique ao ponto de se machucar, agora podia julgar que ele estava atordoado e absorvendo o que ocorreu. -- Emil Allard... -- A loira repetiu apenas a critério de guardar o nome na memória, em seguida virou-se na direção do diretor da instituição, que parecia notoriamente transtornado de estar ali, mais uma vez, apenas ouvindo um interrogatório sem ter muito mais que pudesse fazer: -- Senhor St. Clavier, poderia chamar o jovem Allard e outros alunos de anos variados, vou conversar diretamente com eles e coletar informações, acerca dos arredores da instituição. Pense em qualquer desculpa para chamá-los, assim que terminar de recolher as informações com o senhor Vlahos, eu passo para conversar com os alunos. -- dito isto, esperou apenas uma confirmação do diretor para que pudesse voltar sua atenção para o psicólogo novamente: -- Certamente se Kyle está se utilizando de alunos para se aproximar do senhor, Dr. Vlahos, é justamente porque ele está ciente, que na situação atual, não é tão simples fazer um contato direto. E bem, isso apenas comprova que a segurança extra, está surtindo algum efeito sobre as decisões que ele está tomando. -- Para Leona era um pensamento até certo ponto simples, para o psicótico seria um desgaste muito grande de energia, tempo e recursos para que ele fizesse essa entrega diretamente, dada a segurança extra, isso força ele a sair do plano original e buscar outras saídas. A questão a ser observada e pontuada é que a escolha de aluno foi deveras conveniente, isso quer dizer no mínimo que Kyle não somente foi deixar presentes na sala do seu alvo, como também foi estudar tudo que ele está fazendo no trabalho: -- O que eu posso supor dessa situação, é que as duas primeiras invasões feitas a sua sala, não foram somente para entregar-lhe os objetos. -- Não usou o termo “presentes”, porque sabia que a palavra já era usada exaustivamente pelo psicótico nas mensagens enviadas ao celular do Dr. Vlahos: -- Ele já tinha planejado que precisaria ter acesso aos seus pacientes, porém, eu não creio que a única motivação tenha sido, apenas para entregar novos objetos, sei que ele poderia antecipar que faríamos uma vigilância reforçada, mas são muitos pacientes, com perfis completamente distintos, não seria um motivo forte o suficiente. Nesse tipo de situação, acredito que isso vá além até, da sensação de ter controle sobre sua vida, Senhor Vlahos. E Leona não estava desconsiderando que estava lidando com uma pessoa treinada, sabia sim, que ele estava confiante, mas ele tinha antecipado muitas ações da polícia até agora não a toa obviamente. Porém, não acreditava que duas invasões para avaliar arquivos, seria apenas para mapear pacientes ingênuos para transformá-los em garotos de entrega. Havia uma motivação maior ali, que era fruto, muito provavelmente do pensamento obsessivo psicótico de Kyle, somado ao treinamento e capacidade de planejamento que um ex-SEAL pode ter, provavelmente, está mais relacionado ao objetivo central de Kyle com todo esse jogo de tormento constante. RE: Under Pressure [Aleksei; Emil; Dieter; Vivien; Leona] - Lil - 09-17-2021 Aleksei
Com a informação do aluno que tinha levado o presente para Aleksei, Leona se adiantou logo em pedir para que Vivien tomasse as providências para chamar o rapaz ali. Claro, deveria chamar também outros alunos para que não despertasse qualquer tipo de suspeita sobre a investigação e o que estava de fato acontecendo dentro de St. Clavier. Emil tinha encontrado com Kyle e não sabia quem ele era, a despeito das informações sobre ele e do seu rosto estar rondando os noticiários da cidade. Ele já devia ter mudado ao menos um pouco de aparência, o que lhes causaria ainda mais problemas. Mesmo que Aleksei estivesse evitando encarar Vivien, ouviu a confirmação de que providenciaria o que a oficial tinha pedido e aquilo lhe deixou sozinho na sala de reuniões com Leona. Embora fosse, a certo ponto, "reconfortante" que Kyle não pudesse se aproximar de si por conta da segurança extra, dos policiais e do reforço em sua casa e em St. Clavier, não diminuía em nada o fato de que ele estava, lentamente, se aproximando. Podia até sentir aquilo na precisão das mensagens dele, que lhe faziam pensar que ele estava lhe observando de muito perto, mesmo que seu lado racional soubesse que eram todas técnicas de abordagem e de terrorismo psicológico. Com o presente vindo de Emil, agora tinha certeza, assim como Leona, que as primeiras visitas à sua sala para deixar as rosas e o olho não tinham sido apenas para aquilo, mas para investigar algo a mais do seu trabalho. As anotações de Leona apenas se juntavam aos seus próprios pensamentos e isso lhe deixava cada vez mais impaciente. Especialmente quando ela disse que a intenção dele era ter controle sobre a sua vida. - E ele já não tem? - respondeu, depois de um longo suspiro resignado. - Eu não posso fazer nada. Não posso ter contato com ninguém, ele sabe cada passo que eu dou, ele espera cada reação e cada situação, minha, da polícia. Ele sabe as roupas que uso, os horários que saio de casa, os pacientes que eu cuido, as pessoas que tenho contato dentro da Academia. E ele só está brincando... esse tempo todo. E eu estou sendo um ótimo brinquedo, só esperando que ele se canse pra me quebrar e jogar fora também. As colocações foram um pouco mais incisivas do que o tom cansado anterior. A sensação de impotência, de ser observado e de ter uma pessoa como Kyle Bailey à espreita lhe deixava ainda mais consternado e o cansaço não era suficiente para disfarçar aquilo. Leona
A medida que a conversa seguia, todos os sinais de cansaço e exaustão ficavam mais e mais evidentes, mas até que ponto o cansaço do psicólogo tinha chegado, era algo que iria se mostrar conforme seguissem com a conversa. Não que esperasse que ele estivesse em perfeito estado mental e com uma postura otimista, principalmente diante dos fatos de que agora em diante, mais e mais pessoas iriam se envolver no caso diretamente. Principalmente, porque medir o nível de estresse do outro, determinaria se a oficial continuaria passando informações ao mesmo do caso, afinal, se ele estivesse tão cansado, mas tão cansado da perseguição, saber mais detalhes do andamento do caso apenas o deixaria pior. Diante das colocações do outro, a oficial teve de manter a postura mais neutra, e a expressão tranquila. Em outros dias, talvez ficasse irritada, mas diante da situação mental em que ele se encontrava, sabia que aquilo era apenas uma reação natural: -- Não. -- respondeu simples e diretamente, enquanto observava o psicólogo a sua frente, transparecendo a mesma calma e assertividade que carregava durante todo o processo: -- Ele não tem controle das suas ações, ele restringe o seu espaço, e o senhor é quem escolhe Dr. Vlahos, se vai seguir no jogo que ele está fazendo, se vai se expor, ou se vai para um programa de proteção a testemunhas. -- Leona ressaltou que sim, ele ainda tinha opções, embora elas não fossem de fato as melhores: -- É óbvio que dentro dessas opções, tem escolhas e escolhas. E o senhor tomou algumas decisões e está lidando com elas, nós dois sabíamos que não seria fácil pegá-lo, muito menos rápido. E o senhor está sendo informado de todos os detalhes enquanto a investigação transcorre, e nós dois também sabemos, que isso não é convencional em uma investigação. -- não chegou a pontuar se eram boas ou ruins, apenas destacou o fato de que sim, ele ainda tem escolhas, apesar de parecerem todas péssimas: -- Pelo perfil dele, e o senhor sabe, que ele tem noção completa do seu guarda-roupa, dos seus trejeitos e dos mínimos detalhes da sua personalidade, porque isso faz parte do comportamento obsessivo dele. Não à toa, que as mensagens parecem muito precisas, é tudo tática de perseguição e terrorismo psicológico que ele aprendeu no treinamento de SEAL. As ações seguem uma lógica que parece sempre partir de algo minimamente planejado, e muitas até são, mas não tudo. E dentro das coisas que nós já conversamos e percebemos ao longo desses dias, os níveis dele de excitação podem fazer com que ele tome decisões menos precisas. -- E dentro daquela lógica de pensamento lhe ocorreu o pensamento de que talvez não seja o Kyle que iria cansar do jogo, mas sim o próprio psicólogo, mas o que exatamente ele alcançaria deixando o Dr. Vlahos tão, mas tão cansado a ponto de que ele desistisse? Qual seria o ganho para um predador diante da desistência de sua presa de lutar. Era no mínimo algo irritante chegar para um psicólogo formado, que tratou o próprio Kyle, e explicar por menores do desenvolvimento do perfil dele ao longo da investigação, porém, acreditava que reforçar aquelas informações seria mais benéfico que negativo. Aleksei
Aleksei ficava cada vez mas impaciente e sabia que aquela impaciência era por conta de todo o estresse que estava passando. Pressionou mais as mãos nos braços da cadeira, mas agora sem Vivien na sala, acabou levando uma das mãos até a camisa de gola alta, puxando-a para baixo e arranhando o pescoço na área que já havia a cicatriz, a área ficando ainda mais vermelha do que já estava anteriormente. Baixou a mão de novo quando Leona reforçou que ele tinha escolhas que poderia seguir e desviou a atenção dela por um instante. - É, são ótimas escolhas que eu tenho, não acha? Em todas elas, mais gente morre, ou eu morro primeiro. - suspirou longamente de novo, agora batendo o pé no chão ritmado. Era verdade que estava recebendo todos os detalhes da investigação, o que não deveria acontecer em hipótese alguma. Mas assim como Leona tinha uma quantidade limitada de especialistas para perfilar Kyle, ele era a pessoa que o conhecia mais a fundo. Ouvir da policial tudo o que ele já sabia, mas em que não conseguia de fato acreditar só lhe deixava mais impaciente. Sabia tanto quanto ela que Kyle lhe conhecia bem, sabia tudo o que usava, podia lhe mandar mensagens precisas o tempo inteiro. Mas o quanto daquilo era treinamento e o quanto era observação pura e diretamente, era uma linha que começou a achar que estava muito tênue. Havia mensagens excessivamente precisas, havia a possibilidade dele estar lhe observando, de ter alguém que estava passando as informações para ele e todas aquelas inconstâncias lhe deixavam muito mais perturbado. - Eu já não tenho certeza se tudo é treinamento ou se ele não está mesmo ao meu lado, atrás da porta, ou no banco de trás do carro. - Aleksei se levantou, incapaz de continuar sentado com a sensação de impotência. Andou de um lado para outro da sala, agora com as duas mãos em volta do pescoço, puxando o tecido da camisa e machucando ainda mais a área já avermelhada com as unhas curtas num gesto tão natural que nem sentia mais o incômodo. - Nós não estamos nem no rastro dele, enquanto ele já até está treinando outra pessoa pra matar por ele. Nós não vamos conseguir pegá-lo. Queria não ter dito aquela sentença com tamanha certeza, mas o seu tom já era de quem estava bem conformado com a situação. Leona
Não tinha como evitar olhar para o homem a sua frente, e não enxergar uma pessoa em desespero, por mais que o senhor Aleksei Dimitri Vlahos fosse um psicólogo brilhante, ainda assim, era uma pessoa. E como tal, estava passível a ser levado por todo o estresse que a situação causava, principalmente porque saber como a investigação caminha, faz parecer que tem muita informação sendo levantada pra pouco andamento. E por mais que o outro fosse acostumado a lidar com ex-militares em reabilitação, de fato, acreditava que Aleksei jamais tinha se envolvido em uma investigação como perfilador propriamente dito, então o mesmo não tinha parâmetros pra julgar se estavam agindo rápido ou devagar. Era fato, que pra uma cidade pequena como Cerise, supostamente haveriam poucos locais para se esconder, no entanto, era justamente por ser uma cidade pequena, que o local não estava acostumado a ser ágil em suas burocracias e andamentos de processos, não na velocidade que uma investigação dessa pedia: -- O senhor não vai morrer Dr. Vlahos. -- Afirmou aquele ponto, sem qualquer dúvida, mantendo o tom calmo, porém assertivo. Muito embora não pudesse garantir com 100% de certeza que não haveriam outros assassinatos no meio do processo. Leona assistiu todo o conjunto de gestos que apenas indicava que o outro estava no início de uma crise nervosa, o bater de pernas, seguido da agitação para se levantar e o gesto característico de coçar a região do pescoço. Mas ainda assim persistiu na explicação acerca da situação atual do caso: -- E Kyle não está próximo porque o policiamento não permite, por isso está usando outras pessoas para chegar ao senhor. Se ele quiser chegar perto, vai ter de se expor em algum nível, e se o fizer, nós vamos pegá-lo no ato. Mas não é isso que estamos procurando neste momento, o foco é justamente evitar sua exposição e o senhor sabe disso. Por isso a investigação está caminhando justamente para achá-lo antes que ele chegue ao ponto de vir atrás do senhor diretamente. Leona se levantou também, já que não era adequado conversar com uma pessoa transtornada em pé e agitada estando sentada e calma. Até porque tinha de impedir que ele continuasse se auto flagelando como estava fazendo. Se aproximou do psicólogo de forma bem clara para que ele pudesse vê-la, e levou a mão até a dele que estava flagelando o próprio pescoço, para pausar o gesto. Talvez fosse o ponto da investigação de deixar Aleksei apenas na posição de pessoa protegida, ao invés de deixá-lo fazer parte ativa da investigação. Aleksei
Ouvir que não ia morrer não era de muito consolo na situação em que estava. Podia estar arranhando o próprio pescoço, mas sentia como se fossem as mãos de Kyle de novo, do mesmo jeito que quando estivera sozinho com ele no carro, sendo puxado pelas mãos fortes contra o encosto do banco. Ouvir também que se Kyle quisesse chegar perto teria de se expor não lhe deixou mais tranquilo, porque afinal, havia a possibilidade dele fazer aquilo e sabia, tanto quanto Leona, que as pessoas que estavam lhe protegendo não tinham o menor treinamento para impedir que ele chegasse perto demais. - Eu devia ficar menos preocupado com menos exposição? Com o policiamento que estou tendo? - perguntou, de um jeito mais incisivo, a respiração começando a ficar um pouco descompassada de novo e a voz subindo um pouco com as suposições que surgiam em sua cabeça. - Se Kyle quiser, pode matá-los no caminho e resolver o problema muito fácil. Eu não preciso me expor, eu já estou completamente exposto! Ele já está vindo atrás de mim, mesmo que indiretamente. Os restos na minha cama, os olhos da menina, a próxima coisa que chegar em mim vai ser pelas mãos dele e vai ser de um adulto! E queria até dizer que se ele não fosse o próprio adulto, seria alguém muito parecido, mas não teve tempo de pensar naquele detalhe quando se virou e notou que Leona estava se aproximando, mesmo que pudesse ver cada passo dela, sentiu a respiração ainda mais inquieta e quando ela levantou a mão até a sua, que mal percebia ainda estar em volta do pescoço, reagiu automaticamente ao bater na mão dela para afastar de si. - Não me toque! - a voz foi bem mais alta daquela vez e ele manteve a distância. Não voltou a arranhar o pescoço, mas a respiração ficou mais intensa e a perturbação óbvia no tom que continuava alto demais. - Essa investigação não está dando em nada, ele está pior do que estava nos EUA e lá ele ainda teve liberdade de matar quem ele queria sem que investigassem a fundo! Ele mudou de assinatura, mudou de aparência, mudou tudo, menos o alvo principal dele! Foi loucura concordar em ficar aqui, no meio de todos os alunos e professores, eu já devia ter respondido as mensagens dele, já devia ter aceitado ir com ele, porque vocês sequer conseguiram pegar um assassino, não vão conseguir pegar dois!! Leona
A reação do psicólogo foi mais rápida do que tinha suposto dado ao estado dele, batendo contra sua mão dizendo para se afastar dele, a sequência de palavras que se seguiram, foi apenas pânico generalizado. Se ele continuasse gritando, além de chamar atenção desnecessária, ainda tinha a chance de que ele desmaiasse por esta muito exaltado. A loira fechou a expressão e em um instante muito rápido, levantou a mão e desceu contra a face esquerda de Aleksei. Não aliviou a força, sabendo que para tirá-lo do estado eufórico que se encontrava ele precisava de uma boa injeção de adrenalina, e um tapa suave não lhe serviria para despertar. O som do tapa foi seco, mas ecoou na sala de reuniões, e foi pesado o suficiente para que ficasse a marca evidente de todos os dedos da mão da oficial no rosto do loiro: --Se gritar comigo de novo eu vou lhe prender por desacato a autoridade. -- Leona usou um tom de ordem claro, em bom som, mas sem de fato gritar: -- Se você dá tão pouco valor a sua vida, isso é uma escolha que você também pode ter, posso lhe prender em uma cela, e esperar que ele venha lhe buscar. Mas VOCÊ sabe, que isso não ajuda em nada na investigação e é uma péssima decisão. VOCÊ está desistindo porque acha que o Kyle não é possível de ser pego, mas ele é, tão vivo quanto eu você, e se está vivo pode ser morto também, e é o final que ele vai ter, acredite você nisso ou não. -- Leona continuou falando no mesmo tom de ordem e assertivo, e se ele estava absorvendo suas palavras ou não, era uma questão diferente, mas falaria mesmo assim: -- A investigação está caminhando sim, triangulamos os bairros em que ele deve está escondido, as vias principais são vigiadas, e é por isso que para fazer qualquer coisa ele precisa de terceiros. E eu já tinha levantado no perfil dele, que ele começaria a machucar pessoas assim que ansiedade dele estivesse alta, e eu sei que a próxima vítima vai ser um adulto, e a lista de desaparecidos é checada todos os dias, filtrados pelo perfil, biótipo e classe social das pessoas que moram nos arredores do bairro onde ele está, porque se tudo está vigiado ele não tem como caçar longe de onde está escondido. E sim, temos um segundo assassino, que não é treinado como um militar, que é alguém jovem, inexperiente, e que diferente do Kyle vai cometer erros e vamos pegá-lo antes mesmo do Kyle ou simultaneamente a ele. -- A oficial respirou fundo buscando aliviar o tom de ordem, mas mantendo a assertividade: -- Nos EUA ninguém sabia que ele era um assassino em potencial, a diferença é que agora o senhor, Aleksei Dimitri Vlahos, não está sozinho, e mesmo que dê tão pouco valor a sua própria vida a ponto de querer desistir dela, tem outras pessoas que se preocupam com você, e eu não vou desistir de mantê-lo vivo. Goste você disso ou não. Vivien
O trabalho que tinha era de sair de sua sala com uma lista escolhida a dedo com nomes de alunos para serem chamados. Entregou ao coordenador pedagógico para que fizesse o chamado pelos alto falantes, e explicou que era para prestarem um favor a St. Clavier, para dar-lhe a impressão de falsa importância. A mensagem não demorou a ser passada pelos alto falantes, seguidas de uma série de sobrenomes franceses pomposos. Vivien retornou para a sala em seguida, ou certamente se renderia a fumar um cigarro, dado o nível de estresse que lhe consumia naquele dia, de antes mesmo do evento todo com Aleksei, mas que agora parecia lhe roer pensando que não fosse Dieter ajudar o loiro e ser muito discreto, todas as suas tentativas de deixar a escola mais segura poderiam ter sido estragadas. Isso a poucos metros de sua sala. Estava tudo muito próximo a si, mas fora do seu controle. Isso incluía Aleksei. Não que pudesse ajudá-lo a se sentir mais seguro, mas até sua presença perto dele o deixava nervoso, e tinha que se manter afastado a pedido do próprio grego. Como isso podia ajudá-lo ainda não tinha certeza, mas supunha que assim não seria um alvo direto de Kyle, e esse tipo de sacrifício era o que o outro estava disposto a fazer. Ficar sozinho, para proteger as pessoas ao redor. Aproximou-se de sua sala e ouviu uma voz mais exaltada que parecia ser de Aleksei. Franziu a testa, ainda sem conseguir discernir as palavras, em seguida notando que os ânimos estavam um pouco mais exaltados do que quando tinha saído. Por reflexo, fechou a sala atrás de si, chegando em tempo apenas de ouvir o som da voz de Aleksei disparar suas frustrações contra a policial sobre a investigação na América, sobre como Kyle se tornava impossível de capturar, como tinha sido um erro ficar ali em Cerise... e como ele já deveria ter se rendido, porque pelo visto ele não acreditava que estava mais seguro. Não conseguiu se mover um passo além depois de ouvir aquelas palavras, não sabendo exatamente o que sentir daquelas palavras disparadas em pura frustração, medo e desespero de Aleksei, o corpo todo tremendo, as mãos fechando-se em punhos ao lado do próprio corpo, porque sabia que em parte, se não tinha simplesmente enviado o loiro para um programa de proteção tinha sido parte sua responsabilidade. Se a polícia que tinha chamado não estava dando conta daquele trabalho, tinha sido parte sua responsabilidade também. Se St. Clavier não estava segura, a despeito de todos os seus esforços, era culpa sua. Sentiu os lábios tremerem, já nem sentindo mais a ponta dos dedos, porque mesmo depois de tudo isso, não podia culpá-lo por desistir, mas tinha dito a ele que ele não podia. Ele não podia desistir, porque se já não tinha o controle de nada que estava acontecendo, e se de nada servia estar ali, então também preferia ignorar a merda do pedido do loiro se isso fosse pelo menos provar a ele que não estava enfrentando aquilo sozinho. Encheu a mão e enfiou na parede próxima, batendo de palma aberta, querendo de fato bater com a cabeça para retomar o pensamento normal. Mas o som foi abafado por outro som de tapa, que lhe acordou no mesmo instante do fluxo de consciência em que tinha se metido, e que sequer tinha percebido que eram os mesmos pensamentos de dias que apenas retornaram por um instante. Sem entender o que estava acontecendo, saiu da inércia e andou até a porta da sala, encontrando Leona claramente irritada com a postura de Aleksei, pelo que assumia serem as marcas da mão dela. O corpo ainda não tinha parado de tremer, sentia um incômodo na boca do estômago ouvindo aquelas palavras, não porque eram ruins. Pelo contrário. Mas porque eram muito similares as suas, só que mais pontuais, e mais lógicas, e porque se não acreditasse nelas, a única alternativa que tinha era acreditar que Aleksei ia morrer. Mas preferia acreditar – e queria que não estivesse com tanta coisa na cabeça para usar sua autoconfiança pra afirmar aquilo com certeza – que se Kyle estava vivo, então podia morrer. E se morresse, finalmente teriam paz. Sentiu a cabeça doer, o corpo na porta da sala de reuniões, a respiração lenta mas alta. Passou a mão pelo próprio rosto, o cenho franzido porque não conseguia estar outra coisa senão transtornado, mas com a mão lhe segurando ali na madeira ao redor do portal, tentou manter a postura, e a despeito de todos os sentimentos de que não devia abrir a boca naquele momento, encarou o loiro diretamente. - Acredite nela. Só... acredite nela. – disse de maneira firme, e aquelas palavras eram tanto para Aleksei quanto pra si. Porque era só o que lhe restava. Aleksei
Aleksei poderia ter esperado uma série de reações que ditavam o protocolo para uma oficial altamente treinada como Leona, mas certamente não esperava sentir o peso da mão dela em seu rosto, fazendo com que cambaleasse no local a ponto de precisar se apoiar na parede atrás de si para ficar de pé. A respiração que já estava descompassada pareceu intensificar, mas ao mesmo tempo, sentiu o sangue esquentar nas veias e arregalou os olhos em raiva para a mulher que tinha lhe acertado um tapa no rosto. Puxou o ar todo de uma vez, um milhão e meio de coisas passando sua cabeça e parando só no tapa que tinha recebido, até ouvir a ordem bem incisiva dela. A sua primeira reação mental foi pedir para que ela lhe prendesse de uma vez, resolveria o problema dos dois e Kyle facilmente iria até a delegacia, mas não respondeu de pronto, sentindo o calor no rosto e no resto do corpo, para ouvir o resto do relato num tom bem mais comedido mas ainda assim, assertivo. Sabia, num lugar ainda bem distante na própria mente, que suas reações eram apenas resposta ao estresse e à falta de descanso. O fato de Leona pontuar muito intensamente que ele sabia as consequências daquela escolha lhe fizeram retomar um pouco do sentido lentamente. A respiração intensa gradualmente voltou ao ritmo comum e todos os músculos estremeceram. Todas as coisas que Leona pontuava eram coisas que eles já tinham discutido antes, sobre o progresso da investigação e sobre o perfil de Kyle e que pareciam ter sido apenas jogadas fora em sua mente cansada. Todos os pontos levantados pouco a pouco lhe faziam só perceber o quanto estava se deixando levar pela influência de Kyle, pelo treinamento que sabia que ele tinha e pela demora numa investigação que, no fim das contas, ainda não tinha sido longa o suficiente comparada a outras situações que enfrentara nos EUA. Não fazia sequer um mês que tinha encontrado Kyle e ele já estava lhe deixando naquele estado deplorável. Ouvir particularmente que não estava sozinho e que havia pessoas que se preocupavam com ele, principalmente que a oficial não ia desistir de lhe ajudar, lhe deixaram ainda mais ciente de toda a cena que tinha provocado ali dentro. O apoio na parede apenas com o braço se tornou em um encosto e no momento seguinte, tinha se sentado no chão, levando uma mão ao rosto, escondendo os olhos fechados e pressionando os dedos na altura das têmporas. - Desculpe... - pediu, numa voz tão fraca quanto o seu estado físico àquela altura. - Desculpe, eu só... Só estava cansado. E Leona sabia bem daquilo. Levantou a mão para passar pelos cabelos e foi bem a tempo de encarar Vivien de volta, mesmo sentado no chão, pedindo para que acreditasse na policial. Abriu e fechou a boca, pressionando os lábios sem responder ao francês diretamente, mas encará-lo e deixar que ele lhe visse naquele estado depois de tanto tempo também pareceu lhe deixar incomodado. Engoliu em seco e, também encarando Vivien de volta, só concordou com um aceno de cabeça. Leona
Para a oficial, estava muito claro em sua mente o que precisava ser feito naquele caso, era basicamente uma cruzada para matar Kyle. Por mais que nos relatórios e inquéritos estivesse escrito que o objetivo era pegar o culpado por tudo aqui, sabia, tinha plena certeza que nada faria com que Kyle Baile fosse reabilitado. Uma das mentes mais brilhantes da psicologia tinha despendido de tempo e tratamento para que ele apenas ignorasse tudo isso. Leona podia até ser uma oficial justa e honesta, mas naquela situação, não havia qualquer chance de deixar Kyle sair vivo, por mais que admitir isso fosse tratar suas decisões acima da lei. Queria que o homem à sua frente pudesse depois de tudo isso, voltar a ter uma vida normal depois de todo esse terror. Leona tomou ciência de que o diretor estava ali, um pouco antes dele de fato falar, mas tinha sua atenção toda voltada para o psicólogo a sua frente. E quando ele começou a se desculpar, a oficial se abaixou sobre um dos joelhos dobrados e completou a frase dele: -- Está cansado. E eu entendo, mas como lhe disse, não vou lhe deixar desistir de você mesmo, por isso vamos matar o Kyle definitivamente. -- Encarou o loiro e ofereceu suporte para que ele se levantasse, puxando uma cadeira para que ele se sentasse em uma das cadeiras novamente. O tom era mais calmo e pausado, mas ainda mantinha a assertividade que tinha sustentado durante toda a tarde: -- Senhor Vlahos, eu sei que está usando seu trabalho como válvula de escape, para não ter de pensar na investigação, porém, eu sugiro que considere reduzir suas horas de trabalho aqui na instituição, principalmente nos casos mais densos que requerem uma atenção e foco especial. Em seu atual estado de cansaço, o senhor não estará prestando o devido apoio que seus pacientes mais complexos precisam. Sei que se preocupa com estas pessoas a quem presta tratamento na instituição, porém considere também, que o senhor precisa de algum descanso. A nossa conversa de hoje é a maior prova disso. Sabia que era negativo falar para Aleksei que ele deveria trabalhar menos por não estar em condições de prestar um tratamento adequado a seus pacientes. Porém, se falasse qualquer outra coisa seria mentira, preferia ser transparente e falar diretamente qual era a problemática da situação. Seria muito pior perder a confiança de pacientes densos por causa do cansaço decorrente da investigação. Não muito depois o perito retornou para a sala, observando com cautela a situação, mas tão logo encontrou a expressão severa de Leona, mudou de postura, focando apenas na mulher: -- Terminei de recolher o material, e o prof. Rupert seguiu para as aulas do horário da tarde. -- Muito bem, o senhor pode retornar para a delegacia, quero os resultados das análises no mais tardar amanhã de manhã, repasse tudo para oficial Riviere. -- O perito acenou positivamente, mesmo sabendo que teria de fazer uma boa leva de horas extras pra estar com tudo pronto de manhã. Leona tornou a observar para Aleksei e depois em seguida para o diretor da instituição: -- Senhor St. Clavier, ainda vou me manter na instituição para a conversa com os alunos. Em seguida, vou precisar conferir as gravações das câmeras dos arredores da instituição. Assim que tivermos mais informações os senhores serão devidamente informados. Leona falou com a mesma calma e convicção com que tinha entrado naquela sala, embora estivesse em parte inquieta com o andamento do caso, aquele sentimento não era negativo. Em algum lugar de sua mente, tinha plena certeza que pegariam Kyle, custasse o que custasse, ele seria pego e morto. E por acreditar nisso com tanta certeza, conseguia passar aquilo em sua postura e palavras. Aleksei
A policial se aproximou para se abaixar também a sua altura e completar o que tinha deixado de lado. Concordou com um aceno de cabeça quando ela disse que não o deixaria desistir e ainda mataria Kyle. E ela deixou aquela decisão bem clara, que ele seria morto e não preso. Aceitou a ajuda para se levantar e sentou-se de novo numa das cadeiras à mesa, daquela vez mais ciente da presença de Vivien na sala a ponto de buscar o outro algumas vezes com o olhar enquanto Leona explicava a situação geral e o fato de que não estava em condições de tratar dos pacientes em St. Clavier. - Eu pensei... se eu não estiver trabalhando, ele vai estranhar a minha rotina. - embora estivesse de fato usando o trabalho para ignorar a presença de Kyle, sabia que se ele não estivesse fazendo o que o psicopata sabia que ele fazia, podia causar mais problemas e deixá-lo desestabilizado. Tinha medo que ele viesse lhe abordar de novo, perguntar por que estava cansado, como tinha feito da primeira vez, mesmo que fosse mais difícil lhe alcançar agora que estava escoltado. - Mas como você disse, eu não tenho condições de trabalhar agora. Vou ver o que fazer para adiar os tratamentos mais complexos. Eu vou para casa, tentar descansar... “Tentar descansar” porque mesmo com os remédios que tomava era difícil se manter adormecido por muito tempo quando até nos pesadelos Kyle lhe atormentava, superando o efeito dos medicamentos. Logo o perito surgiu na sala para informar que tinha avaliado seu escritório e Dieter também tinha retomado o trabalho. Ele deixou o celular sobre a mesa de reuniões e Aleksei apenas observou as inúmeras notificações de mensagens na tela de bloqueio. Ignorou as mensagens e pegou o aparelho, devolvendo-o ao bolso antes de se levantar. - Eu envio as mensagens depois. - informou a Leona, já que ela estava a par de todas as mensagens que recebia também. Só não queria ter que desbloquear o celular e se deparar com a confiança exagerada do outro por saber que tinha recebido os olhos. Observou enquanto ela falava com Vivien também e olhou de um para outro, suspirando pesadamente antes de dar a volta na mesa e seguir para a saída da sala de reuniões. Inevitavelmente, teria que passar por Vivien e encará-lo diretamente, mas diferente de mais cedo, não evitou devolver o olhar preocupado ao francês. Ao contrário do que ele mesmo esperava, parou bem de frente para o diretor da academia depois que Leona lhe passou as instruções. - Desculpe. - o pedido foi direcionado a Vivien daquela vez, e sem pensar muito, inclinou a cabeça até encostar a testa no ombro dele, suspirando longamente e usando o apoio breve como um modo rápido de recarregar as energias que já não tinha. - Eu não esqueci. Falou mais a última sentença só para Vivien, referindo-se ao fato de que tinha prometido também que não ia desistir, mas o seu discurso de alguns minutos atrás estava bem óbvio que era o que queria fazer. Como o próprio Vivien tinha reforçado, lhe restava acreditar em Leona. Afastou-se de novo do diretor, sem devolver o olhar outra vez para poder sair finalmente da sala e seguir para casa. Seriam mais longos dias incapaz de descansar e na espera de uma boa notícia sobre a morte de Kyle. Tinha que se manter sensato, de algum jeito. Vivien
O tapa e as palavras de Leona provavelmente despertaram Aleksei para as mesmas coisas que fizeram à Vivien. A diferença era que o loiro estava esgotado, e pode ver isso no modo como ele achou um lugar no chão para esconder o rosto e refletir sobre a enxurrada de palavras duras anteriores, até tudo recair em um pedido de desculpas. Era até difícil ver o grego daquele modo, porque sabia o quão controlado ele conseguia ser, mas sabia e entendia que havia limites para o quanto de incerteza uma pessoa conseguia aguentar, ainda mais nas circunstâncias daquele caso. Seguiu observando atentamente Aleksei, até finalmente sentir ele lhe devolver o olhar. E não importava que não lhe devolvesse a palavra. Aquele momento em que assentiu com a cabeça fez com que a testa de Vivien deixasse de a tensão e a expressão aliviasse, junto com um longo suspiro que escapou dos seus lábios. Leona podia dar mais segurança a Aleksei do que era em sua capacidade, e ouví-la dizer, com todas as letras, que Kyle seria morto – não preso, não detido, morto – lhe fortaleceu nem que fosse um pouco. Porque queria aquele maníaco morto. E se ele não morresse, que garantia havia que teriam paz? Se a polícia estava passando por cima do protocolo para isso, então nem que fosse apenas Leona, alguém se importava com os efeitos que a existência daquele desgraçado tinha em Aleksei. Assumiria que a oficial sabia o que estava fazendo demandando que Aleksei tirasse um pouco mais a cabeça do trabalho. Um arrepio percorreu seu corpo ao se lembrar que aquela era uma demanda de Kyle, e a lembrança da invasão em sua casa lhe deixava irritado, mas se era isso que o psiquiatra precisava, não negaria. Concordou silenciosamente com Leona. O perito chegou em seguida, mas logo foi dispensado. Queria ter dado a mesma chance ao professor Rupert, que além de ter ajudado com tudo aquilo, ainda tinha retornado as aulas depois de auxiliar guiando o perito para a sala onde tinham encontrado os olhos. Julgava que o homem era um profissional em sua área, mas isso não o tornava pouco empático. Acharia tempo assim que terminasse as conversas com Leona para dispensá-lo propriamente do trabalho por aquele dia, se ele assim julgasse conveniente. Restava ainda dar atenção aos alunos, ou melhor, ao jovem Emil, que tinha encontrado com Kyle. E foi essa a próxima demanda de Leona. - Terá acesso a tudo, oficial. Os alunos, nesse momento, devem estar a caminho desse prédio. – comentou, ocasionalmente ainda prestando atenção a Aleksei, como quando ele pegou o celular ou lhe devolveu o olhar antes de dar a volta na mesa. Porém, ao invés de se desviar ou lhe ignorar, como havia feito o resto dos momentos em que esteve na sala, o loiro parou bem a sua frente, o que fez com que Vivien não se impedisse de observá-lo de volta, igualmente direto. O pedido de desculpas, direcionado a si, fez com que prontamente a tensão do seu corpo se esvaísse. Respirou fundo, suspirando longamente em seguida, os ombros pesando um pouco para baixo enquanto mostrava muito mais da preocupação no rosto do que tinha até então. Queria não passar aquela impressão de preocupação nem todas as emoções confusas em sua cabeça para o loiro, mas foi inevitável, no momento em que ele encostou a testa em seu ombro e lhe disse que não tinha esquecido. Fechou os olhos por um breve instante, e ergueu o braço mais próximo a Aleksei, acariciando-lhe os cabelos loiros por um breve instante, apesar de também lembrar, daquele mesmo dia, daquela mesma conversa, que ele não queria aquela proximidade, justamente por precisar dela. Infelizmente, estava percebendo não saber obedecer em um caso como aquele. - Eu não ia deixar... – respondeu igualmente baixo, a voz bem menos firme que no desespero que as palavras da policial tinha lhe tirado, ao mesmo tempo deixando Aleksei sair daquela proximidade. Porém, não era mentira, se dizia que não deixaria ele esquecer. Porque era insuportavelmente teimoso. E se já estava se agarrando a um fio fino que não lhe sustentava, se apegaria a ele até o fim. Aleksei saiu sem lhe lançar mais o olhar, supondo que aquele era o limite de proximidade que podiam ter diante do que o loiro tinha limitado. Andou até a mesa da sala de reuniões e apoiou ambas as mãos na superfície, observando que já tinha parado mais de tremer depois de todas aquelas idas e voltas de seus pensamentos. Mas ainda lhe pesava certa culpa de ter pensado primeiro em si mesmo, ao invés de como Aleksei ficaria melhor. Agora já não tinha como voltar atrás nessa decisão, e lhe restava crer que aquela era melhor saída, afinal, quando tudo terminasse, não seria por uma fuga, e sim, porque o mal seria encerrado e enterrado, e só poderia atormentar o grego em pesadelos. - Os meninos já devem ter chegado no prédio. Eu vou lhe levar para a coordenação pedagógica, oficial Blanche... – Vivien afirmou para a mulher, ainda permanecendo com as mãos sobre a mesa de reuniões, encarando a superfície da mesa e suas mãos, antes abertas que agora tinham se fechado e não tinha forças para abrir. – Só... me dê um minuto. Precisava se recompor, afinal, ainda encontraria com outros membros da escola. E estava transparecendo seu nervosismo. Talvez precisasse se render, de fato, a caminhar até a cobertura do prédio principal e se dar ao luxo de fumar um cigarro. Ou dois. [Thread encerrada] |