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[Drive] Pedido Sabor Cereja [Carbella; Natalia] - Lil - 09-17-2021

Natalia

Parou no setor de armários dentro da área de convívio do hospital, entre os setores de atendimento clínico e as alas de internações. Não costumava chegar naquela sala devido ao número de pessoas que costumavam frequentar o ambiente em horário de trabalho, sempre trocando de roupa para saírem e entrarem, trocando turnos de trabalho. Parou para conversar com uma das enfermeiras que costumava ser designada no seu horário de trabalho e teve de fingir demência mais uma vez sobre o motivo de estar ali. Justificou como sempre por seu interesse depravado de dar em cima das outras mulheres que trabalhavam ao seu redor, no que a mulher apenas riu e lhe disse para ter cuidado e não receber outra advertência do chefe do hospital. Teve de revirar os olhos com o comentário, balbuciando coisas como “velho gagá” e “múmia hospitalar” antes de alcançar seu destino.

Escolheu o horário de almoço por sua falta de interesse nas refeições que hospital fornecia e pela facilidade de encontrar aquele setor sem tantas pessoas entrando e saindo o tempo todo. Como estava em seu horário de atendimento clínico, estava com uma calça de linho cinza, a modelagem rente às suas curvas, o salto alto de um scarpin nude e uma blusa de mangas curtas perolada. Encarou a série de armários do setor de enfermeiras e respirou fundo, uma discreta caixinha em suas mãos que o jaleco sobre o antebraço ajudava a esconder.

Olhou para os lados, pensativa antes de sacar o objeto, recordando da tortinha repleta de cerejas e bem decorada pela padaria que havia visitado logo cedo naquela manhã para conseguir aquela deliciosa oferenda. Era pequena, mas imaginava que para o tamanho da ruiva cereja, era adequada. Chegou a sorrir sozinha com a comparação mental do tamanho da mulher, mais baixa que sua figura, comendo algo tão “petit” quanto ela.

- Ah… eu gostaria de me… desculpar? Por te mostrar… a verdade? - começou ensaiando o que diria, encarando o próprio reflexo fosco no armário de aço. Franziu o cenho, levemente frustrada em como as pessoas conseguiam fazer aquilo parecer tão simples. - Argh… desculpe? Isso não foi nenhum pouco sincero. Mas o que pode parecer sincero pra ela? - ergueu o olhar para o teto, segurando a caixa ainda em mãos enquanto refletia sobre como poderia convencê-la que não tinha interesse algum em prejudicá-la e de fato queria se desculpar. - Desculpas… desculpas… se eu continuar falando, vai sair natural? Hmmm… - estreitou o olhar, alheia ao tempo e espaço e presa na própria realidade de ser uma mulher capaz de realizar uma neurocirurgia de 12 horas intermitentes, mas conseguir expressar sinceridade em um pedido de desculpas.

Carbella

Estava cansada, essa era a definição de Carbella, nos últimos dias, estivera tão estressada, que tinha chegado ao ponto de brigar no trabalho, e brigar em casa, não queria especificamente lembrar dessa parte, mas era inegável que as coisas tinham saído um pouco do seu controle, por isso andava dormindo mal, tentando aos poucos por ordem de novo na rotina. Talvez por isso tivesse passado por seu radar de preocupação com a saúde o estado de sua irmã mais nova.

Tinha recebido a notícia por Fleur que tinha lhe ligado na hora do almoço, a menor tinha voltado da escola mais cedo e estava em sua casa. Era infinitamente grata a mulher que ajudou a lhe criar, e lhe ajudava a criar sua irmã mais nova, claro que tinha recebido uma leve repreensão da mulher, para ficar mais atenta, e que isso só seria possível se estivesse bem. Não retrucava nunca, mesmo que não achasse que estava se desgastando tanto, naquele dia, sentiu que tinha de concordar. Mas para a sua surpresa as coisas não acabaram ali, enquanto estava na padaria, a menor tinha encontrado com uma colega e trabalho de Carbella e tinham ficado conversando por muito tempo. Era só o que faltava, algum funcionário do hospital se achar íntimo porque tinha conhecido sua irmã mais nova, e pela descrição conseguia saber de quem se tratava.

Ao conversar com Clementine a menor logo se desculpou por ter mentido, queria poder ficar brava com ela, mas ela estava doente, e o motivo dela não ter lhe contado batia na mesma tecla: “você parecia tão cansada”. Estava começando a ficar irritada com a repetição mas respirou fundo, apenas concordando com a menor. Que logo desatou a falar da “amiga” que tinha encontrado e como estava feliz de Carbella ter boas amigas no Hospital. A ruiva cereja ficou sem ter como retrucar a menor, então apenas concordou e pediu para que ela descansasse.

O dia de trabalho seguiu para tarde, com a ruiva carregando aquela desgostosa sensação de que todos estavam dando opiniões não requisitadas em sua vida. Sabia que estava cansada, mas tinha assumido aquelas responsabilidades e por isso tinha de cumprir, não sabia ser de outra forma. Ao final de seu horário, recusou estender e cobrir algum colega, naquela noite queria só ir pra casa e dar um pouco de atenção a sua irmã, quem sabe até roubar um pouco do chá que Fleur deve ter feito para ela, estava precisando igualmente relaxar. Mas para sua surpresa se deparou com uma voz conhecida, falando coisas que jamais tinha esperado ouvir da mulher:

– está desculpada Doutora. -- respondeu simplesmente aos comentários repetitivos, que ela parecia estar fazendo sozinha, que mulher estranha era Dr. Arlovskaya.

Natalia

Estava tão absorvida pelos pensamentos e as ideias de como de fato se desculpar pelo próprio comportamento com Carbella que sequer se deu conta pelo reflexo do aço do armário dos funcionários que a mulher já estava ali, próxima o bastante para ouvir suas palavras.

- Talvez… se eu me desculpar fora do tr-- fez uma pausa em seus próprios devaneios ao ouvir a voz da ruiva atrás de si, os ombros tensionando com a ideia de que não havia percebido ela ali antes. Franziu o cenho por um instante, virando-se parcialmente para notar que era ela de fato antes de dar um passo para longe, surpresa. - Ah… o-oi. - esboçou um sorriso por reflexo, só então prestando mais atenção na figura da ruiva.

Ela parecia cansada, mas não cansada do tipo ela quando estava exausta com o trabalho e precisava de um bom banho, uma comida gostosa e horas de sono. Não sabia dizer ao certo o que lhe causava aquela impressão, ou talvez fosse apenas o sentimento de que ela ainda estava realmente chateada com a situação da discussão que haviam tido ainda recente.

- Ah, bem, é isso sim. Eu queria me desculpar com você pela nossa discussão do outro dia. Eu… acho que não deveria ter falado com você daquele jeito no trabalho… ainda mais sendo uma médica. - adicionou aquela última parte por se recordar que teoricamente a enfermeira deveria lhe responder no trabalho e que havia se tornado, possivelmente, para ela uma superiora bem insuportável. Gostava de fazer comentários e piadas casuais, chamar enfermeiras para sair, mas não queria chegar aquele ponto de ser o tipo de superiora que deixava funcionários dedicados naquela situação de desconforto. No cenário do Hospital, sempre precisava se comportar mais que quando estava em seu outro trabalho. - Desculpe por isso.

Foi o mais sincero que conseguiu chegar de um pedido de desculpas naquele hospital que não envolvesse sua própria frustração ao perder um paciente. Afastou o jaleco do antebraço para estender até a ruiva a embalagem decorativa da tortinha de chocolate e cerejas que havia sido indicada pela irmã mais nova da enfermeira como a preferida dela. Na caixa, era possível ler o registro da Padaria Antique em baixo relevo.

- Achei que fosse… te animar. - explicou, rindo nervosa. Poderia ser o doce favorito da ruiva cereja, mas não sabia se ela gostava tanto de comidas gostosas que qualquer coisa caseira ou naquele tipo de preparo a deixaria animada tanto quanto poderia lhe deixar animada. Certamente, se estivesse no lugar da ruiva, ficaria animada em comer algo com sabor além do que saía da cozinha daquele hospital.

Carbella

A ruiva cereja estava na defensiva, como geralmente era quando tinha qualquer atrito com alguma pessoa, embora não tivesse deixado de dar atenção ao que a mulher falava, Carbella se dirigiu até seu armário, onde tinha suas coisas, e começou a trocar de roupa ali mesmo, tirando a bata verde que usava dentro do espaço de trabalho. tinha acabado de tirar a parte de cima para revelar uma blusa regata típica de quem fazia exercícios e tinha pouco busto, quando ouviu a mulher se desculpar sobre ter exagerado sendo médica e por seguinte sua superiora no serviço. Carbella a encarou por entre as lentes de grau, e torceu a expressão um pouco, e não dava pra discernir se ela estava chateada com o pedido em si, ou com alguma outra coisa, mas a ruiva não parecia confortável.

Carbella não acrescentou nenhum comentário, e deixou que ela prosseguisse seu raciocínio, enquanto se livrava da calça do uniforme, revelando uma legging que ia até o meio da batata da perna. Dobrou as peças de forma metódica e com agilidade de quem fazia aquilo mais vezes do que se lembrava, E voltou a encarar a médica quando ela concluiu tudo com um: “desculpe por isso”. Suspirou como se estivesse lidando com algo que lhe cansava de alguma forma:

-- É, não menti quando disse que estava desculpada, mas duas pessoas só brigam quando ambas se exaltam e isso quer dizer no mínimo que eu também exagerei e saí da minha razão. -- Tinha terminado de guardar as próprias coisas e puxou um vestido branco, de rendas com detalhes florais coloridos, bem delicado e feminino, trocando os calçados de EPI, por sapatilhas sem salto confortáveis. Fechando o próprio armário depois de ter organizado todas as suas coisas e terminado de se trocar para de fato encarar a mulher mais alta a sua frente: -- Então, eu também lhe devo um pedido de desculpas formal. -- Olhou através das lentes de grau, diretamente nos olhos da mais velha: -- desculpe por isso.

Repetiu as mesmas palavras para não soar superior, e nem inferior, apenas como duas pessoas que percebem que se exaltaram de alguma forma, e querem amenizar os ânimos. Mas foi pega de surpresa quando ela lhe mostrou o que tinha escondido debaixo do próprio Jaleco, nem precisaria ler no selo da embalagem, pela decoração da torta já sabia que era algo da Antique, e não qualquer uma, era o seu tipo de torta preferida. O tipo que Clementine lhe entregava quando aprontava, ou que Arman lhe trazia quando sabia que estava mal humorada e chateada, e que Fleur lhe preparava em seu aniversário para lembrar que sua mãe quando viva também fazia tortas com cerejas, muito embora não tão bem decoradas.

No mesmo momento, toda a disposição para manter a formalidade da conversa foi deixada de lado, e a ruiva cereja sorriu, arrumando o par de lentes no rosto, como se tivesse desistido de ficar com raiva de Natália, se ela queria uma trégua podia dar aquele voto de confiança, ninguém nasce ruim ou inconveniente, e pode mudar sim, se tiver disposição para tal:

-- ok! tudo bem! Eu sei que você teve ajuda pra saber o que exatamente trazer. Mas a minha irmã esqueceu de lhe avisar que eu não como uma fatia desse tamanho sozinha. -- apontou aquele fato com um ar de acusação, mas logo deixou o ar sério, erguendo um sorriso simples: -- vai me animar sim, mas não vamos comer aqui no meio dos armários, vamos lá fora, pedimos um café e dividimos a torta. -- comentou simplesmente, aceitando a embalagem com as duas mãos de forma educada: -- obrigada!

Então começou a fazer caminho para fora do espaço entre os armários, esperando que a Dr. Arlovskaya lhe acompanhasse, era o mínimo que podia fazer, dividir aquele pedaço de torta de trégua.

Natalia

Assim que a ruiva começou a se trocar na sua frente, prendeu a respiração por um instante enquanto arqueava a sobrancelha. Era normal ver outras mulheres se trocando naquela ala, principalmente quando o espaço pequeno entre os armários era justamente para dar esse tipo de privacidade. Estava acostumada a observá-la nas vestes de trabalho, mas ainda não havia parado para de fato se dar conta das proporções anatômicas da mulher. Contudo, não conseguiu pensar muito a respeito do físico feminino ao se deparar com o discurso diplomático da outra. Certo que imaginava que aquilo era o melhor que conseguiria, dada a discussão acalorada que havia tido com Benedict. Assentiu com a cabeça, pronta para aguardar que ela aceitasse a torta e se despedisse para voltar ao trabalho. Seria uma boa sobremesa para quando ela encontrasse a irmãzinha, de certo.

O que não esperava era o sorriso animado e o tom de voz diferente na voz da mulher assim que ela pareceu se dar conta do doce que havia lhe oferecido.

- Ãhn? Vamos? - repetiu, logo assistindo a ruiva cereja com a torta que havia entregue a ela seguindo para saírem dali após lhe acusar de ter recebido ajuda para resolver aquele problema. - Ah, claro, claro. Vamos sim. - só concordou, temendo que a mulher mudasse de ideia tão rápido quanto a comida preferida dela parecia ter um efeito positivo no humor. Sorriu discretamente. Lembraria de enviar uma mensagem depois para a pequena Clementine sobre como aquele doce era mágico sobre o mau humor da irmã dela.

Arrumou o jaleco sobre o antebraço e seguiu a ruiva cereja até a cafeteria do hospital, evitando puxar assunto ou comentar sobre qualquer coisa durante o trajeto. Observou alguns outros funcionários que passavam por ambas e cumprimentou a quem lhe cumprimentava primeiro, sendo educada e discreta enquanto desviava o olhar, evitando dar de cara com o semblante curioso e intrigado de alguns colegas de trabalho que certamente já sabiam da discussão que havia ocorrido entre a médica neurocirurgiã e a enfermeira da pediatria.

- Ah, com licença. - pediu ao chegarem na cafeteria para realizarem o pedido dos cafés. Ao invés de um café, seguiu uma garrafa de água gelada, afastando-se então para que a enfermeira fizesse o pedido do próprio café. - Eu não… gosto de café… - avisou para a ruiva antes que ela interpretasse aquilo de qualquer outra forma possível. Bebia café sim, quando precisava ficar acordada ou quando era necessário, mas não era nem de longe sua bebida preferida.

Esperou pela enfermeira para escolherem uma mesa e sentarem. Não sabia ao certo porque ela havia lhe convidado afinal para dividir a tal torta. A mulher parecia tão feliz com o doce que lhe causava uma sensação estranha por ter sido justamente a sua pessoa a lhe entregar a torta, sentindo-se parcialmente responsável pela alegria alheia.

Carbella

A ruiva cereja ainda estava cansada, mas ao menos, a perspectiva de uma conversa mais leve, regada ao seu doce preferido lhe parecia ao menos relaxante. E esse era um tipo de pensamento novo para se ter levando em consideração que estava saindo justamente com uma das pessoas que era motivo de seu estresse naquela semana infeliz. Chegou ao quiosque que não chegava a ser uma cafeteria de fato, mas era o suficiente para que vários funcionários e parentes de pacientes do hospital se amontoassem nas mesas de plástico pequenas, em busca de café e uma refeição em valor acessível.
Até certo ponto estranhou que a mais velha não bebia café, mas não podia julgá-la, ao menos se pensar, aquele era um hábito saudável. Muito embora, particularmente a ruiva cereja achasse o contraste do sabor amargo do café uma boa combinação com o doce da torta de cerejas. Pediu ao atendente local faca para dividir a torta e dois talheres para que pudesse dividir com a mulher. Sentou-se em uma mesa mais no canto lateral, distante da maior densidade de pessoas que ficavam próximas do balcão, como se ficar de pé ali, apressasse o pedido a sair:

-- Relaxe, o termo “café” se referia mais ao momento de conversa do que de fato “tomar café”, eu sei que estamos na França, mas não somos parisienses, somos mais amistosos aqui em Cerise. -- comentou de forma mais natural, porque realmente acreditava ser mais amistosa do que as pessoas da Capital francesa pareciam se portar as vezes, sendo deveras impacientes com estrangeiros e pessoas com hábitos diferentes.

A atendente logo trouxe o copo térmico com o café passado, ainda fumaçando, e Carbella agradeceu com um breve “merci”, a água foi igualmente entregue junto a um copo plástico descartável. A ruiva partiu a torta em duas partes afastando um pouco os dois pedaços para deixar claro, qual parte era de cada uma, e em seguida estendeu um dos talheres descartáveis na direção da mais velha, esperando que ela tomasse em mãos, para poder dar atenção a sua parte da torta, partindo uma parte pequena para si, e levando a boca, saboreando lentamente, ficando corada no processo, e a despeito das sutis olheiras embaixo dos olhos, o ar de cansaço de Carbella tinha se dissipado em boa parte. Depois de alguns segundos a ruiva descansou o talher ao lado do doce, levando a mão livre para cobrir os lábios brevemente enquanto terminava de mastigar e engolir:

-- eu realmente estava precisando disso, obrigada Doutora. -- agradeceu com um sorriso sutil nos lábios, logo dando atenção ao café ainda fumegante, a ponto do vapor deixar turva suas lentes de grau, trazendo outro sorriso meio besta no rosto da ruiva cereja: -- isso sempre acontece. -- a ruiva devolveu o copo de café a mesa, tirando o par de lentes e deixando de lado, já que não adiantava limpar e por de volta, pois o processo tornaria a se repetir.

Natalia

Acompanhou a ruiva assim que ela escolheu a mesa e fez as honras de cortar a torta que havia trazido. Arqueou a sobrancelha sobre o comentário dela das pessoas em Cerise serem mais amistosas. Ergueu o olhar como se procurasse a resposta dos céus, pensativa por um breve instante. Algumas pessoas sim, poderia dizer que eram, mas não todas. Se bem que se contasse que algumas das pessoas que conhecia sequer eram de fato dali, a ruiva cereja estava bem correta em afirmar aquela sentença. Só esperava que aquele ponto de vista não fosse mais tanto sobre os colegas de trabalho dela que gostavam de se aproveitar da boa vontade da mulher.

Quando voltou o olhar para a ruiva, ela já estava lhe oferecendo um garfo para comer de sua fatia da torta, o que aceitou de bom grado. Contudo, antes que pudesse terminar de arrancar um pedaço com o garfo e levar até a boca, fez uma pausa, notando o corar no rosto da enfermeira e o ar de cansaço que diminuía sobre ela. Aquela cena sim lhe deixava satisfeita, principalmente por não desejar que a mulher se sobrecarregasse com o trabalho que não cabia a ela fazer. Já havia notado que ela se dedicava muito ao trabalho - tal como ela própria - mas havia cenários distintos ali. Ela ainda tinha uma irmãzinha pequena para cuidar. Agradeceu com um breve aceno positivo da cabeça pelo outro agradecimento dela, conseguindo saborear a torta finalmente.

- Hm… Pft! - segurou o riso, notando que a mulher havia ficasse parcialmente cega pela neblina de fumaça que vinha do café. Ao menos sobre isso tinha que agradecer aos próprios pais pela boa genética e mesmo trabalhando bastante usando a visão, nunca havia necessitado de um par daqueles itens de lentes. - Consegue enxergar mesmo sem eles? Parece mais nova assim. Desse jeito, os pais das crianças na pediatria vão pensar que é uma adolescente cuidando dos filhos deles. - comentou enquanto se servia de um novo pequeno pedaço da torta, fazendo uma pausa para dar atenção de novo a reação da ruiva, esperando não tê-la irritado de novo. - Sabe, por parecer ser muito jovem, entendeu? Não que você faça um trabalho ruim. Se contar o jeito que dá um sermão, eles podem até te confundir com uma velha.

Fez uma nova pausa, pegando um pedaço maior da torta antes de respirar fundo novamente, enchendo a boca antes de baixar o olhar para a mesa, apoiando o cotovelo sobre ela e o queixo na palma da mão, entendo novamente porque seus colegas não gostavam quando ficava responsável por lidar com familiares na sala de espera. Precisava de um filtro social melhor.

Carbella

A ruiva cereja sem óculos enxergava muito mal, mas não o suficiente para não conseguir comer uma fatia de torta a menos de um metro de distância de si. Mas de certo que não conseguia ter qualquer definição do rosto da doutora a sua frente, e tudo ao redor era apenas um borrão entre iluminado e escuro. Partiu mais um pedaço de torta com o garfo e usou da outra mão como uma proteção abaixo do garfo para poder levá-lo a boca sem cometer qualquer acidente no meio do caminho, apreciando o gosto doce e característico dos doces com os quais tinha crescido provando:

-- Enxergar eu não enxergo, não posso trabalhar sem óculos, porque não tenho definição nenhuma de rostos, por exemplo, a essa distância o seu rosto é um borrão. Mas eu consigo comer porque estou acostumada a comer coisas quentes sem óculos por motivos óbvios. -- riu do fato, voltando a tomar do café ainda quente, sem se incomodar tanto com a temperatura do mesmo, tinha a língua bem calejada de refeições rápidas entre serviços: -- E sim, eu sei que eu tenho um rosto bem jovem, as pessoas me perguntam se eu tenho idade pra trabalhar quando eu estou de óculos, quem dirá sem eles. Mas é algo com o qual eu já estou acostumada a lidar, e como você bem pontuou, como eu falo como uma “velha” fica mais convincente de que eu tenho ao menos noção do que eu estou fazendo.

Apontou o garfo plástico na direção da mais velha estreitando os olhos azuis que normalmente pareciam enormes atrás das lentes de grau, mas que sem os óculos, a ruiva cereja tinha de constantemente estreitar os olhos, na tentativa pífia de conseguir focar a imagem da mulher mais velha a sua frente:

-- Mas já aconteceu deu danificar meu óculos no trabalho e ter de passar o restante da tarde sem ele, e foi meio irritante porque os outros enfermeiros ficaram trocando os nomes, achando que eu não podia identificá-los pela voz. Nem as crianças tentam me passar a perna desse jeito. -- A ruiva acenou negativamente, com uma expressão de contragosto pra atitude dos colegas de trabalho diante das brincadeiras desnecessárias.

Natalia

A ruiva parecia adepta de um clima frio se conseguia tomar uma bebida quente como aquela, soltando ainda vapor, sem queimar a própria língua. Arqueou uma sobrancelha diante da cena, sorrindo discreta para a explicação dela sobre seu rosto ser apenas um borrão quando ela estava sem os óculos. Ficou surpresa que ela não pareceu tão ofendida quanto esperava que ela ficasse por compará-la a uma “velha”. Torceu os lábios, discordando que ela apenas fazia ideia do que estava fazendo na pediatria. Na verdade, pensava que ela era uma das poucas pessoas que fazia com que o lugar realmente funcionasse como deveria.

- Hmmpff-Hahaha! Oh, céus! Hahaha! - não suportou, rindo de novo com a narrativa dela sobre o que os outros enfermeiros fizeram com ela quando estava sem os óculos. Sabia que a situação deveria ter sido desagradável, mas não conseguia não rir e imaginar como teria feito justamente o mesmo com a mulher. - D-Desculpa! Ah… - buscou ar, abrindo a garrafa de água para tomar um breve gole, rindo aqui e ali para recuperar o fôlego. - Deve ter sido horrível para você. É muito… engraçado você estreitando os olhos para enxergar… parece que comeu algo azedo… - comentou, buscando o ar de novo. - Ah… quando eu ainda estava na faculdade, os veteranos não deixavam a gente dormir no hospital. Todo momento havia um velho para limpar, um exame para fazer, uma sutura para cumprir. Daí quando você era pego no sono, os veteranos marcavam você de caneta marcador, sabe? - riu mais tranquila, escolhendo uma garfada da torta de chocolate com cereja para saborear em seguida. - E foi assim que eu aprendi a receita química para tirar marcas de marcador da pele. E a perder o sono no trabalho. - admitiu como se fosse a coisa mais natural do mundo e não guardasse nenhum remorso de seus veteranos. Não podia culpá-los, pois havia feito o mesmo com os próximos novatos.

Pegou mais uma duas garfadas para saborear, fazendo uma pausa para lamber o utensílio, evitando que o chocolate se perdesse entre o plástico.

- Você… me disse que queria ser médica. - comentou, observando a ruiva de olhinhos estreitos, tendo vontade de rir de novo, mas se controlando. - Por que quer ser uma médica? Não era mais fácil apenas estudar para fazer o vestibular ao invés de trabalhar como enfermeira? - perguntou, interessada na motivação da mulher. Imaginava que havia problemas na família dela, a julgar que Clementine não falara sobre a mãe ou sobre o pai quando estava doente, apenas mencionava a irmã e a tal dona da padaria em que havia acabado por entrar. Não queria entrar abruptamente no assunto, mas imaginava que falar sobre a motivação dela já era um assunto pessoal o bastante para a conversa.

Carbella

A ruiva apenas observou, mas não enxergou, então apenas acompanhou escutando as risadas da doutora enquanto ela se desmanchava em risos. Deu de ombros rindo também, porque no fim das contas aquela recordação era apenas aquilo, minimamente engraçada. Pegou mais da torta de cereja, tomando cuidado com a mão livre de guarda para não causar nenhum acidente no meio do percurso. Escutou com atenção enquanto a mais velha narrava sobre o que seus veteranos faziam com ela na época de faculdade, e até podia imaginar que ela não os julgava, porque deve ter feito o mesmo com seus calouros anos depois. Acenou negativamente contra aquele tipo de prática, mas sabia que aquilo existia muito antes dela, e continuaria existindo muito depois.

Voltou a encarar a mais velha, mesmo sem de fato foca-la quando ela lhe perguntou porque queria ser médica, e ainda destacou se não seria mais proveitoso se apenas estudasse ao invés de trabalhar. Carbella voltou a dar atenção ao seu café tomando um gole breve, e depois pegou o par de lentes para limpar com o lencinho que levava no bolso da bolsa: -- que bom que você não precisou trabalhar na época em que estudava, infelizmente isso não é privilégio para todos Natalia. -- chamou-a pelo primeiro nome, porque estavam em uma conversa casual, e não via necessidade de trazer a profissão ou o sobrenome estrangeiro a conversa, ou isso tornaria todo o diálogo muito formal. Recolocou o par de lentes de grau no rosto agora encarando a mulher a sua frente:

-- Sempre quis ser médica, desde pequena, minha mãe foi pediatra no mesmo hospital que trabalhamos hoje em dia. E eu sempre a admirei demais, queria algum dia ter tido a oportunidade de trabalhar junto a ela, infelizmente isso não foi possível e nem será. -- Explicou seu ponto de vista, imaginando que fosse o suficiente para sanar a curiosidade da mulher, muito embora, imaginasse que a mesma não fizesse ideia de como era sua vida, dado ao fato de que poucos funcionários eram tão antigos da época em que sua mãe era viva:

-- Minha mãe quando viva, se dedicava muito ao trabalho, e era muito amável também, há poucas pessoas no hospital da época em que ela trabalhava. A assistente social Margaretha e o Senhor Vincent do almoxarifado, que eu me lembre. -- Carbella arrumou as lentes no rosto, e em seguida apoiou um dos cotovelos sobre a mesa e repousou o queixo na palma da mão: -- ela saiu do trabalho por questões de saúde, e depois do falecimento dela, eu e minha irmã ficamos ao cuidado de nossa vizinha Madame Fleur Jonhson, eu estava no segundo ano de Limoges-Collet, comecei a trabalhar já na mesma época, e desde então nunca parei. -- Deu de ombros como se aquilo fosse parte completamente natural de sua realidade e de sua vida, não reclamava de nada, apenas seguia fazendo seu melhor, era sua forma de lidar com sua vida e seus problemas:

-- E eu nunca disse que não estudo, eu faço cursinho, e estou bem colocada nos simulados, mas não tenho como largar o trabalho para me dedicar apenas aos estudos, tenho uma casa e uma criança para sustentar. -- completou voltando a dar atenção a sua torta, que pena que ela logo acabaria.

Natalia

Manteve o sorriso por ao menos conseguir ouvir as risadas da ruiva cereja também. Era a primeira vez que conseguia ouvi-la rindo enquanto estavam juntas. Diminuiu o sorriso, arqueando os ombros e rindo mais baixo com o aceno negativo de Carbella. A enfermeira certamente teria um tempo difícil adaptando-se aquele tipo de cenário, imaginava que era justamente por ela carregar responsabilidade demais para alguém da idade dela. E isso apenas se confirmou com o resto da conversa e a narrativa sobre o motivo dela precisar trabalhar como enfermeira.

Pegou mais uma garfada de seu pedaço da torta, mantendo o garfo na boca enquanto apoiava os cotovelos sobre a mesa e o rosto na palma das mãos unidas, ouvindo a história da ruiva cereja. Sorriu discreta com o comentário dela sobre ser uma pessoa privilegiada, tinha que concordar com aquilo. Porém, também havia conseguido muito dinheiro para se bancar fora de casa com investimentos de bolsas de estudo, financiamento para pesquisa e, é claro, alguns montantes ilegais que não valiam a pena serem apontados ali.

Ficou em silêncio enquanto ela narrava a história sobre ter trabalhado desde muito cedo e o motivo pelo qual quis ser médica. A assistente social Margaretha e o Senhor Vincent do almoxarifado deveriam ser pessoas pelas quais a ruiva cereja tinha mais carinho naquele lugar, talvez pela nostalgia pela memória da mãe dela. Bem, não sabia o que era perder uma mãe, mas sabia como era perder uma pessoa amada e importante. Fez uma pequena nota mental, pois talvez valesse a pena procurar sobre o registro da mulher já que ela foi pediatra ali. Retirou o garfo plástico da boca, apontando-o para Carbella no segundo em que o nome da mulher responsável por cuidar dela e de Clementine havia sido mencionado. Lembrava muito bem daquele nome e o associou imediatamente a mulher na padaria Antique. Sorriu quando os olhos dela se tornaram grandes de novo pelo uso dos óculos e terminou soltando mais uma breve risada quando ela mencionou sustentar a irmãzinha.

- Agora você falou como uma velha. - balançou o garfo na direção da ruiva, denunciando o comportamento dela. - Bom, me parece que tem tudo planejado… Carbella. - arriscou chamá-la pelo primeiro nome já que ela havia feito primeiro ao lhe repreender. - Mas qual é o plano? Já escolheu as universidades para onde vai pleitear uma vaga? A universidade de Sorbonne é muito popular, mas eu não sei afirmar muita coisa sobre as oportunidades de bolsas para estudantes na graduação. Passei por lá depois disso e o meu financiamento foi para pesquisadora internacional. Ah, tem algumas professores que adorariam te orientar, com certeza, dado a sua experiência no ramo. - fez uma pausa, imaginando que, organizada e comprometida como era, a ruiva deveria já ter planejado desde o transporte até onde iria viver em Paris no caso de uma aprovação. - Não foi… - fez uma nova pausa, tentando escolher as palavras que usaria. - … não foi pelo seu… comprometimento… com a profissão… que eu te disse que nunca seria uma médica. - tentou se expressar melhor, pousando o garfo ao lado de sua fatia de torta. Uniu as mãos sobre a mesa, associando agora a raiva da garota com a revelação sobre o motivo dela querer ser uma pediatra também pela memória da mãe falecida. - Ah… como eu posso explicar isso? - baixou o olhar para as próprias mãos antes de voltar a encarar a ruiva cereja. - Olhe, eu sei que você está focada nesse objetivo ao mesmo tempo que sustenta uma casa e a sua irmãzinha, como bem disse, mas a impressão que eu tive é que era uma mulher muito boazinha e bobinha que deixava os outros tirarem vantagem de você no trabalho. - ergueu a mão para a ruiva cereja em sinal de pausa para que ela lhe deixasse terminar antes de qualquer coisa. - Mas! Mas então você parece ter tudo arquitetado e eu não faço ideia de qual é o seu plano. - suspirou, desejando não iniciar uma nova discussão ali. - Eu só não quero que você se perca nesse meio e acabe esquecendo do que realmente é importante.

Talvez aquelas palavras ditas fossem para Carbella, mas no fundo se sentia como uma hipócrita por dedicar toda a sua existência ao próprio trabalho. Sem pessoas próximas, com uma família ausente, repleta de pessoas que, por algum interesse em comum, acabariam com sua vida, trabalhar era seu vício e o motivo pelo qual acordava todos os dias. Certo que qualquer psicólogo que visitasse saberia diagnosticar o problema, mas não queria parar. Ao menos, se pessoas jovens e promissoras a uma boa carreira como Carbella Benedict pudessem entender isso também, ficaria mais aliviada por não vê-la repetir os mesmos passos de tantos outros naquela área.


Carbella

A ruiva cereja nunca percebia quando falava como uma velha, talvez porque se sentisse uma velha as vezes quando estava atolada de responsabilidades para lidar e tinha de negar convites para festas e outras saídas, nem se lembrava da última vez que tinha ido em um happy hour por exemplo. No máximo tinha conseguido encaixar uma saída aqui e ali com Max, e lembrar da ruiva mais velha, lhe deixava meio irritada e amarga. Ouviu com atenção o que a doutora lhe falava, ressaltando como parecia já ter tudo traçado, e de fato, não era mentira, detestava a sensação de estar navegando sem rumo, apenas seguindo no automático da própria vida. No entanto, a expressão mudou quando ela retornou ao assunto que tinha feito com que as duas discutissem no outro dia, e a ruiva se afastou um pouco da mesa, encostando as costas na cadeira plastica e cruzando os braços, em uma postura claramente defensiva, como se esperasse que a conversa fosse desandar dali pra baixo.

No entanto, o que se seguiu foi um comentário que não esperava, não de alguém que tinha acabado de conhecer, e que pela primeira vez tinha sentado para ter uma conversa que não fosse sobre dosagem de remédios para pacientes na ala hospitalar. Carbella observou longamente a mulher mais velha, como se quisesse sondar qualquer sinal que indicasse que ela estava mentindo ou tirando uma com sua cara, mas sabia que não era tão fácil ler os outros como faria ao seu amigo Arman. Então apenas se resignou a suspirar, descruzando os braços e pondo uma expressão mais cansada no rosto de traços joviais, que agora parecia assumir uma aparência mais condizente de fato com a idade que a moça tinha:

– Olhe eu tenho exatamente xx horas e xx minutos pendurados de horas extras que eu posso cobrar de outras pessoas, eu posso listar o nome de cada um dos enfermeiros, médicos, assistentes administrativos, que eu já cobri e que me devem algum favor. – a ruiva arrumou os óculos no próprio rosto e depois tornou a encarar a mais velha: – E sim, eu sou uma pessoa “boazinha”, porque eu geralmente coloco na balança quem precisa mais do meu serviço, e geralmente os pacientes vencem nesse pensamento de “custo-benefício”, eu nunca, jamais, iria deixar de atender uma senhora de idade, porque algum dos enfermeiros quer sair mais cedo, ou deixaria alguém sem remédio na farmácia, porque a farmacêutica tinha um encontro e disse a todos que iria fechar o local mais cedo. Parece idiota, eu sei, mas sempre vou por o atendimento dessas pessoas como prioridade, porque eu sei, eu sei! O que é precisar de atendimento médico rápido, com urgência, e nem sempre conseguir.

A ruiva respirou fundo, como se estivesse se repetindo em um assunto que é muito sério pra si, mas que dada a briga que já tinham tido, se sentia na mínima obrigação de explicar algumas coisas a doutora: – Eu agradeço a sua preocupação, não sei exatamente de onde ela veio, ou porque você se importa com o meu bem estar Natalia. Mas eu faço essas coisas consciente de que as pessoas estão abusando da minha “boa vontade” para satisfazer suas próprias necessidades, mas eu geralmente cubro, porque é mais rápido, e ágil que eu mesma faça, do que eu delegue para alguém, ou brigue com a pessoa para que ela tenha um pouco mais de moral e ética. Não é minha função ensinar as pessoas a terem bom caráter.

A ruiva deu de ombros diante da própria situação, sabia que estava até certo ponto em um ciclo dentro daquilo, mas acreditava que por fazer aquilo de forma consciente, era diferente de ser uma pessoa simplesmente ingênua que só seguia a maré: – Esse meu jeito, já salvou o namorado do Arman, e já ajudou outras pessoas que precisavam de atendimento urgente, e eu cobrei os favores de volta, não gosto de fazer isso, mas se for necessário pra ajudar alguém que eu amo, e considero importante, eu vou fazer. Estou bem longe de ser completamente “boazinha” no fim eu ainda faço coisas egoístas, mas é só de vez em quando.

Natalia

Voltou a beber de sua água, surpresa quando a ruiva cereja parecia ter um profundo conhecimento do tempo que havia gasto ajudando terceiros com tarefas cobertas. Arqueou uma sobrancelha quando ela ainda afirmou que podia listar o nome dos devedores do tempo dela. Pela primeira vez talvez a enfermeira que julgava ser assim tão “bobinha” estivesse colocando as cartas da mesa? Ainda não podia afirmar, então resolveu continuar prestando atenção na narrativa alheia.

Concordava com a forma de pensamento da enfermeira, justamente por fazer a mesma coisa. Por que confiaria um trabalho como o seu que era tão mais adequado para os pacientes para um outro médico ou profissional da saúde sem metade da sua experiência? Contudo, não tinha responsabilidades como as de Carbella. Não precisava se preocupar com o aluguel de uma casa ou apartamento de uma forma tão severa quanto ela. Mantinha um apartamento sim, mas era muito mais como fachada, pois passava boa parte de sua vida dentro de um hospital trabalhando que em seu apartamento de fato. Também não precisava se preocupar com limpeza ou coisa parecida no lugar onde morava, pois já dividia o lugar com alguém que definitivamente passava mais tempo lá que a sua figura. Não tinha filhos ou menores dependentes de sua responsabilidade. Sua vida era resumida ao atendimento que dava aos seus pacientes. Sua família estava distante e indiferente. Seus amigos, bem, não tinha muitos. Diferente de Carbella que parecia ser bem querida por muitas pessoas ali.

Após toda a explicação dela, ainda julgava a ruiva cereja como ingênua. Não tanto quanto antes, mas ela ainda parecia bem alheia ao que o trabalho de uma médica realmente significava para uma unidade. Por outro lado, ela mantinha uma comportamento esporadicamente egoísta, como se quando a situação saísse de seu controle, ela pudesse apertar um botão de emergência e deixar tudo para socorrer as pessoas que amava. Talvez ela não precisasse socorrer ninguém se pudesse equilibrar o desejo pelo sonho em ser médica, as responsabilidades em cuidar da irmã mais nova e a própria vida fora do hospital.

- Como eu já disse, a minha preocupação nunca foi com a sua competência como enfermeira. A minha preocupação é que, se deseja se tornar uma médica algum dia, vai precisar se desprender dessa ideia de controle. - encarou a mais nova, deixando a garrafa de água quase vazia de lado. - Eu pessoalmente também detesto ter de delegar tarefas para os outros que eu sei que eu faria muito melhor. Principalmente quando eu sei que o paciente estaria muito melhor aos meus cuidados que aos de outros médicos, mas… - respirou fundo, esticando os dedos antes de fechar os punhos e suspirar resignada. - Mas você não pode atender todos os pacientes de um hospital sozinha, não é mesmo? Argh.

Fez uma breve pausa, bebendo um pouco da água que ainda havia em sua garrafa antes de apontar o objeto para a ruiva a sua frente.

- É uma relação de confiança. Eu preciso confiar no trabalho da minha equipe quando eu entro em uma sala para cirurgia. E eles precisam confiar em mim no caso da situação sair do controle. Os seus colegas já confiam que você vai fazer um bom trabalho, que você é essencial para a unidade de pediatria funcionar adequadamente. Mas você confia no trabalho deles? Às vezes, ensinar os outros como fazer o seu trabalho é a melhor forma de ganhar a confiança das pessoas e de aprender também. - sacudiu a garrafa, espirrando algumas gotas restantes de água na direção da ruiva antes de parar, encarando-a de novo. - Foi mal.

Deixou a garrafa de água vazia de lado, procurando um guardanapos para oferecer a ruiva cereja para secar as gotas de água que havia espirrado no rosto dela.

- Tente relaxar um pouco mais. Você tem uma irmãzinha bem esperta. Ela sabe que você trabalha demais. - baixou o olhar por um instante, recordando de suas impressões sobre Clementine não ser uma criança tão comum assim. - Você já deve saber que eu conheci ela. - riu baixo, apoiando o cotovelo na mesa e o queixo na palma da mão, pensativa. - Sabe o que ela me disse quando descobri que ela era sua irmãzinha? Ela me disse para não te contar que eu vi ela doente. Ela disse ´ela vai ficar uma fera comigo quando chegar em casa, não precisa ficar com raiva logo cedo, ela trabalha um monte e é só uma gripe.´ - riu baixo, lembrando de como a menina parecia preocupada com o humor de Carbella. - Disse que… não queria te atrapalhar…

Carbella

Se fosse em outro dia, muito provavelmente a ruiva cereja já teria acabado aquela conversa por julgar que não iria pra lugar nenhum. Não gostava de admitir, mas era uma pessoa até certo ponto teimosa, e bem cabeça dura quando acreditava estar certa sobre as coisas que fazia, principalmente quando isso diz respeito seu trabalho, que era algo para qual se dedicava com vontade. Mas de certa forma, como tinha sido grosseira com a doutora da vez anterior se sentia impelida a ouvir o que ela tinha a lhe dizer, mesmo que fosse desagradável de ouvir no todo.

A ruiva arqueou a sobrancelha diante do relato de Natalia sobre trabalho em equipe, embora ela fosse a pessoa mais autoconfiante que conhecia naquele hospital a ponto de ser completamente irritante. Não dava pra tirar o mérito do trabalho que a mulher executava, e que sim, em praticamente todas as vezes dependia de outras pessoas, ela não tinha como anestesiar, operar, checar sinais de vida, passar as ferramentas cirúrgicas tudo sozinha. Isso queria dizer que ela delegava funções para outras pessoas, mesmo que no fundo ela soubesse que se estivesse no lugar faria melhor. Era insuportavelmente irritante quando o que ela dizia fazia tanto sentido, e principalmente por ter de admitir pra si mesma que em parte ela estava certa. Carbella tinha consciência que era perfeccionista, mas geralmente preferia associar a característica como uma qualidade, e não como um demérito.

No entanto, teve de mudar a expressão quando a mulher tocou no nome de sua irmã mais nova, sabia que elas tinham conversado, embora não soubesse da extensão do que tinha sido discutido. Aquilo fez com que a ruiva cereja desviasse o olhar justo no momento em que tinha água espirrada em sua cara. Tirou os óculos e pegou guardanapos para enxugar as gotas de água e respirou fundo, encarando o borrão que devia ser o rosto de Natalia, até dar atenção ao par de lentes, puxando um lencinho da bolsa para limpar a peça:

-- Você está certa Natalia. -- E aquela frase curta e objetiva talvez deixasse a mulher momentaneamente sem chão, até porque, em todas as conversas que tinham tido, Carbella insistentemente criticava posturas de Natalia como médica, embora jamais tivesse criticado o trabalho diretamente, o que incomodava Carbella era a postura que lhe parecia despojada e pouco profissional: -- Seguindo a sua lógica eu não posso exigir de você o mesmo tipo de postura e comprometimento que eu tenho com a minha profissão. -- Fez uma breve pausa, recolocando as lentes de grau novamente: -- Entenda, não estou dizendo que você é uma médica ruim, longe disso, seria absurdo se eu falasse uma coisa dessas, mas eu questiono algumas posturas suas, e não é somente com você, poderia separar ⅔ das equipes do hospital, com condutas que não acho pertinentes para alguém da área de saúde. Lidamos com vidas, o tempo todo, precisamos dar nosso melhor pra fazer da vida dessas pessoas melhores. Mas eu realmente não estou em posição de cobrar nada dos outros, ao menos em relação a isso.

Carbella suspirou resignada, já tinha terminado sua torta e seu café, e não tinha mais qualquer desculpas para se manter ali, além de querer manter a conversa com a médica, e quem sabe chegar em um ponto em comum: -- E claro, eu tenho de dizer que me incomoda enormemente que outras pessoas falem ou se envolvam com a minha vida, eu me julgo capaz de dar conta de mim, da minha irmã e do meu trabalho, porque se eu começar a duvidar disso agora, eu sinto que vou acabar “caíndo”.-- Carbella encarou Natalia com um olhar sério, talvez o mais sério que já sustentou em uma conversa com a mulher: -- Eu sei que Clementine se preocupa comigo, e eu obviamente faço qualquer coisa por ela, pra que ela fique bem. Mas as vezes é difícil desacelerar o ritmo, é porque eu me mantenho constantemente em movimento que eu sinto que não paro e que vou dar conta de tudo que eu tenho pra fazer... Embora eu admita que as vezes... só as vezes... bate um cansaço.

A ruiva cereja riu, cansada, mas pra quebrar o excesso de seriedade que aquela conversa tinha tomado: -- Talvez eu precise cobrar algumas horas de folga, espero que você não bote fogo no hospital se eu pegar dois dias de folga Natalia.

Natalia

Encarou a seriedade da ruiva cereja, já esperando as palavras mais baixas e irritadiças da mulher, lhe mandando parar de se meter na vida dela. Apenas conseguia sustentar o sorriso sem graça, crente de que a enfermeira estava furiosa com aquela sua invasão de privacidade. Enfim, não seria a primeira ou última vez que estava sendo julgada como invasiva. As reações faciais de Carbella denunciavam o quanto ela parecia discordar de sua forma de pensar, mas encarava que o restante dos profissionais em sua posição estava confortável demais com a enfermeira obediente para tomar alguma atitude sobre o assunto.

De fato, esperava qualquer tipo de acusação ou discordância, mas não esperava que ela concordasse com seu ponto de vista - ou ao menos não tão cedo. Arqueou as sobrancelhas, surpresa por um breve instante, até ela continuar a lhe explicar o que estava pensando. Sorriu sem graça de novo, conformada com a ideia de que a ruiva cereja não conseguia colocar de lado a posição de trabalho das duas para uma conversa amistosa. No final, sempre seria a superiora dela no trabalho. Contudo, ficou contente o bastante apenas por ser chamada por seu nome e não Arlovskaya, como ela geralmente fazia.

Concordou com um aceno positivo de sua cabeça sobre dois terços do hospital ter condutas que a ruiva cereja não considerava adequadas para pessoas comprometidas com a área da saúde. Desviou o olhar por um instante, arqueando uma sobrancelha, naquele aspecto concordavam plenamente. Não havia muita gente ali que parecia estar preparado para situações agravantes de uma área médica, do ponto de vista profissional. Contudo, teve de considerar que boa parte do ponto de vista da enfermeira também estava relacionado a aspectos éticos e não só de competência profissional.

- Hahahahahaha! Mas que ideia, Carbella! - riu com gosto do comentário dela sobre se ausentar do hospital e o receio da mesma sobre acabar incendiando o lugar. - Eu teria que desativar o sistema de controle de incêndio na sala à direita do corredor do gerador, derrubar o sinal de conexão com o corpo de bombeiros e daí, só daí eu poderia fumar e-- espera! Você não está dizendo isso por que sabe que eu fumo no hospital, não é?! - olhou para a ruiva cereja, falsamente indignada com aquelas acusações. - Mas eu só faço isso perto do necrotério! Não se pode dar câncer de pulmão para quem já está morto, não é mesmo? Hahahaha! - riu de novo com a própria piada cretina, batendo as mãos unidas, animada.

Na verdade, tinha plena consciência de estar sendo desnecessária com a conversa informal, mas sentia que a tensão da conversa estava começando a deixar a ruiva cereja mais desconfortável por ser confrontada sobre a própria teimosia e perfeccionismo. Não se importava que ela lhe desse sermões sobre sua conduta ou escolhas, talvez isso ajudasse a jovem enfermeira a não perder completamente a ilusão de controle que ambas possuíam. Diminuiu o riso até sobrar seu sorriso descomprometido de sempre. Baixou o olhar, batendo o indicador sobre a mesa que dividia com a enfermeira, voltando a apoiar o cotovelo sobre o móvel e o queixo sobre a palma da mão, escondendo parcialmente os lábios com os dedos, em silêncio por breves segundos.

- Sabe o que me incomoda enormemente? - ergueu o olhar para encarar a ruiva cereja, certa de que havia sido tão difícil para ela admitir suas próprias frustrações como estava sendo para ela responder a própria indagação. - Perder um paciente. - admitiu, voltando a observar a mesa e a própria mão sobre ela. - Eu sei que isso pode parecer clichê e que nenhum médico gosta de perder um paciente. Mas… quando você dedica toda a sua vida para isso, para aquele momento, sabe? A morte de um paciente não é só “a morte de um paciente”. - respirou fundo, fechando a mão sobre a mesa antes de erguer o próprio punho a sua frente, encarando os próprios dedos, as unhas bem feitas e algumas marcas aqui e ali das práticas médicas ao longo da própria vida. - Significa fracasso. Significa que tudo o que eu já sacrifiquei na minha vida para poder estar aqui não significou nada.

Fechou os olhos por um instante, tentando amenizar a própria ótima memória para todos os pacientes que já havia perdido em uma mesa de cirurgia ou em algum atendimento emergencial realizado. Suspirou logo depois, conformada, entreabrindo os olhos claros para poder baixar as mãos e uni-las sobre a mesa, voltando a encarar a ruiva cereja.

- Às vezes, você precisa se acostumar a sensação de “cair” para conseguir levantar de novo. Todo mundo passa por incertezas e todo mundo tem medo de alguma coisa. - sorriu mais amena. - E você não está sozinha, não é mesmo? Você tem uma família. Não fique… nervosa só porque uma médica idiota e metida a besta disse que o maior sonho da sua vida não iria se realizar… - deu de ombros, fazendo uma breve careta irônica ao recordar das próprias palavras inconsequentes com a jovem enfermeira. A conversa mais séria lhe deixava desconfortável e vez ou outra precisava amenizar a própria tensão com algum comentário cretino ou piadinha. Também não gostava de falar sobre algo tão pessoal, mas já que estava sendo difícil para a ruiva cereja lhe falar sobre os próprios desconfortos, não achava justo mascarar a própria falta de honestidade com a natural demência descarada.

Carbella

Havia certamente muitas coisas sobre a médica a sua frente que não sabia, e por isso, talvez por ter consciência que era ignorante sobre as experiências de vida da mulher a sua frente, afora a carreira médica que ela sustentava no currículo, que a ruiva cereja se prestava a escutá-la. Carbella não gostava de ser subestimada, ou mesmo julgada fora dos critérios em que vivia, detestava a ideia das pessoas terem um pré-conceito sobre si a ponto de desconsiderar a realidade em que a mesma vivia. E por isso, principalmente por isso na verdade, que a ruiva tinha se predisposto a ouvir. Não que concordasse com tudo, em verdade concordava com poucas coisas no humor da mais velha, mas concordavam na parte que interessava: Que era difícil trabalhar em equipe, era difícil admitir que o seu trabalho não era o suficiente em algumas vezes, e principalmente, que perder pessoas, vê seres humanos sucumbirem a doença e a morte sem ter poder para mudar aquilo era e provavelmente sempre seria um incômodo recorrente.

E não esperava o complemento da própria Natália relembrando que a própria Carbella tinha família e amigos em quem se apoiar e que não havia necessidade de se deixar abalar por comentários externos. Acabou rindo por não ter qualquer outra reação para o momento que fosse adequada:

-- Se você mesmo está se chamando de “metida a besta” eu tenho liberdade pra chamá-la assim daqui por diante? -- a ruiva brincou, arrumando o par de lentes com grau no rosto, e buscando uma postura menos retraída e mais confortável na cadeira de plástico:

-- Não se preocupe tanto Natália, eu sei bem o que é cair, e ficar caída, achando que não tem força pra levantar, é justamente porque eu sei, que eu quero ser a pessoa que ajuda os outros a levantar também. -- sorriu amistosa para a mais velha, afinal tinham conseguido chegar incrivelmente num consenso, era uma noite muito boa pra ser de verdade:

-- mas eu sei que vou cair outras vezes, e que isso é recorrente, a vida é feita de altos e baixos, quando chegamos numa linha reta, quer dizer que acabou. Mas vou me lembrar dos seus conselhos. -- pontuou, sabendo que aquele era o ponto que mais deixava a mais velha incomodada, era não ser ouvida pela ruiva cereja: -- mas também me dê crédito, eu não sou tão idiota quanto pareço.

A ruiva organizou as próprias coisas, juntando os materiais descartáveis para joga-los devidamente no lixo, em seguida voltou a atenção para a mais velha: -- Por hoje, acho que conversamos tudo que tinha pra conversar não? Me pediu desculpas, eu aceitei, ouvi seus conselhos, e agora você sabe que eu não estou tão desatenta ao que me rodeia. -- numerou na ponta dos dedos as questões que tinham conversado, mas fazendo uma expressão de quem tinha se lembrado de algo:


-- e antes que eu esqueça, minha folga da semana que vem cai no fim de semana, se quiser sair pra algum lugar, eu tenho agenda livre. Daí podemos conversar sobre coisas que não sejam trabalho, que tal?

Natalia

Sentiu-se mais leve ao ouvir a risada da ruiva cereja, lhe questionando sobre ter o direito agora de chamá-la de “metida a besta”. Não se importaria se ela o fizesse. Estava acostumada com terceiros tentando lhe ofender de uma forma muito melhor. Além disso, vindo da ruiva cereja, tinha a confiança de olhar para ela e admitir que era mesmo metida a besta. Ao menos a enfermeira parecia mais aliviada acomodada na cadeira. Admirava a aura mais juvenil da mulher que acreditava ser capaz de ajudar os outros a levantar, que tinha fé no próprio trabalho e só queria garantir o bem estar de seus pacientes.

- Não, você não é. - concordou com ela quando ela pediu crédito, anunciando-se como não sendo tão idiota assim. Tinha que admitir que a figura feminina não era tão ingênua quanto esperava. Ela na verdade parecia ter uma dedicação especial com o próprio trabalho que lhe lembrava bastante de sua própria figura quando começou a estagiar como médica.

Acompanhou a mulher com o olhar, pronta para se levantar também e arrumar as vestes, verificando em seu aparelho celular se havia alguma chamada ou alerta para sua presença na ala cirúrgica. Aparentemente estava tudo bem, então arqueou os ombros em um curto alongamento preguiçoso.

Sorriu quando ela começou a contar os pontos daquele pequeno encontro para lancharem. Ela parecia ter um pouco de secretária também em si, como se estivesse organizando o que haviam conseguido resolver dos problemas entre as duas. Já estava pronta para se despedir quando ela pareceu lembrar de algo importante, então apenas se aproximou para segui-la de volta ao centro de trabalho.

- Sua folga? - repetiu para si mesma, fazendo uma pausa no trajeto para observar melhor a ruiva cereja, processando a informação. Ela havia mesmo lhe convidado para sair na folga dela? - Ah… sim, claro… - fez uma pausa, ainda observando a ruiva cereja, ainda processando o convite. Deixou ela seguir em frente, acenando ao se despedir da mulher que precisava ir para a pediatria. Voltou sua atenção para um dos funcionários do hospital mais próximo, apontando para a mulher que havia lhe deixado boquiaberta. - Vem cá, ela acabou de me chamar para sair?

[to be continued… thread encerrada]