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[Drive] A Penny for a Wrist [Julian; Natalia; Karen] - Printable Version

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[Drive] A Penny for a Wrist [Julian; Natalia; Karen] - Lil - 09-21-2021

Julian

Não havia muitos prazos pra cumprir desde o lançamento de seu mais recente livro. Mas ainda assim, parecia que a falta do que fazer lhe deixava ainda mais vulnerável às doenças. Tinha brincado com o cachorro de estimação a tarde toda no dia anterior, ainda tinha passado muito tempo conferindo uma série de livros e anotações no seu escritório do universo em que queria trabalhar. Estar sempre pensando em alguma coisa impedia que voltasse a pensar no ex-namorado que tinha lhe largado algum tempo atrás. Uma distração levou a outra e no dia seguinte, acordou mais pela dor de cabeça e uma crise alérgica que devia ter sido desencadeada pelo trabalho excessivo com livros e anotações antigas. Já estava espirrando o suficiente na noite anterior, de qualquer jeito, até imaginava onde aquilo ia dar.

- Por-atchim! Porcaria d-atchim! Que d-atchim! Minha cab-atchim! Cabeça....!! - esfregou o nariz já avermelhado, virando-se na cama com a cabeça doendo também. Não só o nariz, os olhos e o rosto estavam avermelhados e não demorou mais do que outra série de espirros e a cabeça abaixada para ter uma mancha de sangue no travesseiro. - Hmmmmm que merda!!!

Espirrou mais algumas vezes, sentindo o sangue escorrer pelos seus dedos e espirrar na cama. Levantou-se para trocar de roupa e enfiar pedaços de papel no nariz, para sair de casa e andar um pouco com as mãos intocadas nos bolsos de uma calça jeans e um cachecol em volta do pescoço para amenizar os espirros, embora não estivesse frio. Andou por dois quarteirões até pegar um táxi que o levou direto até o hospital geral de Cerise e seguiu para ser atendido pelas mesmas enfermeiras que já estavam acostumadas com sua presença.

Depois de ficar no soro apenas para receber o medicamento direto na veia, sentiu o sono lhe abater de imediato, mas ainda manteve a pouca disposição para seguir de volta pela ala de emergência e encontrar o caminho até sua casa, ou até o primeiro táxi. Só estava se sentindo, talvez, um pouquinho sob o efeito da medicação anti-alérgica. Só um pouco.

Natalia

Havia acabado de sair de um de seus plantões. Estava com o celular na mão, respondendo algumas mensagens depois de se arrumar para deixar o hospital. Estava sem maquiagem, o cabelo preso em um coque frouxo e o jaleco nos braços com a própria bolsa. Estava usando uma calça caqui de cintura alta, a blusa branca de tecido fino destacava a segunda peça por baixo, mais decotada. Estava cansada, mas não dispensava o salto alto ao deixar o trabalho, pensando se passaria em alguma loja de conveniência para comprar alguma refeição, pois não seu relógio biológico já não funcionava muito bem após longas horas em um ambiente fechado.

Segurou as chaves do próprio veículo para ir embora, rumando para o estacionamento quando, em um breve lançar de olhar para o corredor que levava à saída principal do lugar, notou a cabeleira escura conhecida, o corpo magro e molenga daquele homem, rapaz, do qual já havia cuidado algum tempo atrás.

- Julian? - chamou pelo rapaz, aproximando-se da figura masculina e menor apenas para confirmar sua suspeita. - Hey, Julian. - estendeu a mão, tocando-lhe o ombro de leve ao esboçar um sorriso gentil no rosto, mas logo arqueou a sobrancelha, estranhando os reflexos do moreno. - Ahn… tudo bem com você, querido? O que está fazendo por aqui?

Era curioso encontrar com Julian, pois sabia que ele era velho o bastante para ser seu irmão ou alguém com quem lidaria como um adulto, mas a aparência dele, mais baixo, magrinho e pálido, lhe dava sempre a impressão que ele precisava de ajuda e que era mais novo. Por isso, falava com ele como se estivesse falando com algum adolescente. Bem, tinha que admitir em sua memória que por muitas vezes nos momentos em que o encontrara, ele agira como um adolescente. Talvez não fosse tão inadequado assim dirigir-lhe a palavra naquele tom mais preocupado e atencioso. Era uma médica, afinal, ainda que estivesse fora do seu horário de trabalho já há meia hora.

Julian

Julian já não sabia mais por onde estava andando, esfregava os olhos a cada passo para ter certeza de que não estava no meio da pista ao invés da calçada, os bocejos vinham um atrás do outro e constantemente esfregava o nariz. Não conseguiu achar um táxi - na verdade, o sono lhe fez passar por alguns deles sem sequer perceber que podia tê-los chamado -, então apenas seguiu na direção que sabia ser a da sua casa - ao menos achava que sabia.

Só parou o caminho depois de sentir uma mão sobre seu ombro e se virou na direção da mulher conhecida. Piscou algumas vezes, tentando processar a figura nova em meio ao cansaço e ao efeito da medicação. Ouviu os questionamentos e demorou um pouco para assimilar, sorrindo logo depois.

- Ah! Doutora! O que você está fazendo aqui?! Eu to só… andando. Indo. Pra casa…? - olhou para o lado, apontando um tanto desnorteado e levando a mão até o queixo depois. - Estou com sono! Eu tava trabalhando e fiquei com dor de cabeça e dormi e acordei espirrando e aí eu vim pra cá e… eu to cansado.

Bocejou longamente, esfregando os olhos de novo antes de colocar as mãos dentro dos bolsos. Encolheu os ombros, piscando demoradamente.

- O que faz aqui? - perguntou de novo, olhando ao redor para encontrar o caminho que estava trilhando antes. - Ahn. Eu acho que é por aqui…

Começou a andar de novo na direção da própria casa, até mesmo ignorando as possíveis respostas de Natalia. Não era como se não pudesse assimilar, só estava com muita preguiça e sono para prestar atenção, no fim das contas.

Natalia

Ficou confusa com as respostas e as reações de Julian até que ele descreveu o que havia acontecido. Riu de antemão, seguindo o mais novo como se ele fosse algum tipo de bicho preguiça desnorteado. Aproximou-se, colocando um dos pés a frente dos dele, obrigando-o a tropeçar para que pudesse pegá-lo no ato, rindo de novo.

- Céus, Julian! Hahahaha! Querido, por que só nos encontramos quando você está assim, drogado? Hahahaha! - segurou-o pelos braços, mantendo-o de pé a sua frente. Levou uma das mãos até o rosto do mais baixo, apertando-o na bochecha de leve antes de afastar o cabelo escuro do rosto dele. - Vamos. Eu estou saindo agora. Vou te deixar em casa. Quer que eu te carregue de novo?

Riu sem esperar resposta, pegando-o nos braços como se ele não pesasse lá muita coisa - o que de fato era verdade. Sabia que ele gostava do apoio macio ao ser carregado em seus braços e isso também lhe dava vontade de rir. Exceto pela teimosia alheia, Julian era um de seus pacientes mais divertidos.

Levou-o até seu veículo, abrindo a porta do passageiro primeiro para acomodá-lo no assento. Puxou o cinto de segurança, deixando que ele, enquanto estivesse grogue, continuasse balbuciando o que quer que quisesse lhe dizer. Ele estava indo para casa, não era? Não custava nada dar a ele uma breve carona, ao menos não correria o risco de ser chamada de volta ao hospital tão cedo para atender a um novo caso na emergência com atropelamento.

- Se quiser dormir um pouco, fique à vontade, querido. - ligou a rádio do veículo, ouvindo as notícias locais antes de colocar alguma música no áudio, bem recordando o trajeto que precisava seguir para levá-lo para casa. Começou a tocar alguma música local de uma banda pop francesa que não se importou em deixar ao fundo, dirigindo para a residência do senhor Julian Holt.

Dirigiu tranquilamente até parar próxima do bairro onde o escritor morava. Dirigiu até a dúvida lhe atingir a cabeça. Parou para poder cutucar o escritor, afastando-lhe os cabelos escuros da face com cuidado.

- Oi, Julian. Já comeu alguma coisa? Você parece exausto. Pelo visto precisa dormir, mas já comeu alguma coisa, querido? - questionou, sentindo-se mais uma vez tomando conta de um de seus pacientes adolescentes. O que podia fazer? Gostava de ser atenciosa com seus pacientes, até mesmo os infelizes mal agradecidos e mimados, bastardos, cheiradores de coca, que se divertiam apontando uma arma para sua cabeça enquanto tentava arrumar o diabo do curativo na pele deles.

Julian

Mal conseguiu seguir na direção da própria casa, quando bateu o pé num obstáculo que lhe era invisível e então pendeu facilmente para frente. A médica foi mais rápida em lhe segurar e riu do gesto rápido dela para lhe levantar com facilidade.

- Hahaha! Eu não estou sentindo o chão, doutora... eu acho que não devia ficar de cabeça baixa... - comentou, coçando um pouco o nariz. - Eu acho... que eu sou muito fácil de carregar, né. Eu devia ser mais forte, tipo um homem de trinta anos de verdade. Doutora, o que eu tenho que tomar pra crescer? Leite??

Antes que pudesse perceber, já estava no carro de Natalia. Olhou ao redor, enquanto ela mesma colocava o cinto. Riu e encostou a cabeça no banco do carona, sendo acometido pela vontade de dormir ali mesmo, a despeito do conselho dela. Mas o movimento do carro não facilitou muito e a cada curva, quebra-mola e sinal, ele abria os olhos de novo, parecendo um pouco mais atordoado. Só acordou um pouco mais quando ela ofereceu comida.

Ah! Eu não comi! Eu não tenho mais um namorado pra fazer comida pra mim, doutora. Eu to com fome. - falou, esperando que ela parasse o carro para descer numa área menos movimentada entre o centro e o distrito residencial onde ficava sua casa.

Desceu sem esperar resposta da médica, andando um pouco desalinhado enquanto ela ainda tinha que trancar o carro e lhe acompanhar. Olhou ao redor, procurando alguma lanchonete ou restaurante em que pudesse comer algo, mas o olhar foi e voltou algumas vezes entre os passos incertos até parar numa figura que lhe chamou a atenção. Primeiro, porque era um homem muito alto, segundo, porque ele tinha uma cicatriz enorme no rosto que cobria o olho direito.

- Woooowww!! - nem pensou duas vezes, só andou a passos largos na direção do homem de cicatriz e praticamente se colocou no caminho dele, percebendo como ele era ainda maior de perto. - Nossa!! Você parece um vilão de filme de ação, moço! Você veio matar alguém?

O homem o encarou de cima para baixo sem sequer abrir a boca, o cenho franzido entre algo que parecia confusão ou irritação.

- É uma cicatriz enorme! Como é que o senhor conseguiu?! Não dói?! - Julian estendeu a mão para tocar no rosto do outro, a despeito de qualquer bom-senso, mas antes de tocá-lo, sentiu o aperto forte no pulso e a expressão alheia estava então mais irritada do que confusa. - Ai, ai, ai, ai...!

Natalia

Pensou em dizer que ele precisava tomar ainda muita vergonha na cara pra crescer de uma vez. Respirou profundamente com o comentário dele sobre o ex namorado que cozinhava bem. Imaginava que um homem deveria cozinhar maravilhas para causar aquele efeito no moreno mais baixo. Estava com fome também e comer fora lhe economizava o trabalho de pedir comida para comer no apartamento. Trancou o próprio carro e buscou a própria bolsa, passando a mão pela própria nuca, relaxando um pouco mais com a ideia de poder fazer uma refeição mais interessante.

Seguiu o trajeto do escritor, buscando seu próprio celular para conferir suas mensagens quando, tal como o ser humano inconsequente que ele era, acabou por se dar conta da localização do escritor apenas a tempo o bastante para resetar seus músculos novamente, tensionando-os quase que instantaneamente.

- … - praguejou mentalmente contra a própria falta de sorte ao se dar conta da presença do velho conhecido no estabelecimento. O que diabos ele estava fazendo ali?! Por que continuava encontrando com aquele homem em seu caminho? Pressionou os lábios, apertando a alça de sua bolsa, pronta para dar a volta para seu veículo e sumir dali quando ouviu os gemidos de dor do mais novo.

Começou a amaldiçoar sua profissão mentalmente também por lhe fazer se importar tanto com feridos, principalmente aqueles que já conhecia. Quando se deu conta, já havia apressado o próprio passo, colocando-se entre os dois para puxar Julian, apoiando rapidamente sua mão contra o tronco do maior, assassino profissional. Durante meros segundos, repensou as escolhas da sua vida, temendo por acabar tomando algum golpe desnecessário por sua invasão abrupta.

- Julian! - disse, exasperada, temendo pela segurança do mais novo. Segurou o menor contra si, mantendo-lhe firme pelo ombro. Ergueu o olhar para o mais alto, arrependendo-se no processo e engolindo em seco antes de entreabrir os lábios, receosa. - … - entreabriu a boca como se fosse lhe dizer algo, mas a verdade era que mais uma vez havia agido bruscamente. - Desculpe.

Foi só o que conseguiu pedir diante do cenário momentâneo com o escritor em seus braços de novo e a mão ainda estendida para se afastar do maior. Não se importava que ele segurasse ou apertasse seu braço, não era como se ele não tivesse feito isso antes. Mas se importava com o escritor inconsequente o bastante para socorrê-lo diante do perigo que ele não fazia sequer ideia que existia.

Julian

Julian contorceu a expressão numa de dor que não durou tanto tempo, já que sentiu o puxão certeiro nos ombros quando Natalia apareceu para lhe afastar do homem de expressão mal-encarada. Mas ele não prestou tanta atenção no gesto da médica ou sequer a expressão irritadiça do homem enorme à sua frente, apenas sacudiu a mão e encarou o pulso avermelhado apenas do aperto firme dele. A dor que tinha sentido do aperto, entretanto não foi tão chamativa quanto o fato de que ele podia ter quebrado o seu pulso com apenas uma mão. E o que deveria ser uma sensação de medo e precaução ficou bem escondida por uma sensação de curiosidade e interesse renovados.

- Você quase torceu meu pulso! - acusou o maior, mas não num tom irritado, e sim num tom animado. - Nossa! Você é muito forte mesmo!!! O que o senhor é?! Militar? Mafioso?! Me conta alguma coisa!!

Antes que pudesse perceber, já tinha se desvencilhado do braço de Natalia, estendendo as mãos para estendê-las e tocar no braço forte do outro. De novo, não prestou atenção na expressão que ficou ainda mais irritada e não conseguiu completar o gesto impetuoso, o que veio a seguir foi apenas a sensação de dor intensa na altura da curva do pescoço e no instante seguinte, tinha desmaiado.

Karen olhou para o adolescente que estava tentando lhe irritar propositalmente, só podia ser. Olhou dele para a médica que já tinha lhe ajudado mais de uma vez e encarou-a com a expressão de poucos amigos. Ela não teria pedido pra ele lhe irritar daquele jeito, certo? Não pensou duas vezes com o segundo avanço do rapaz em deixá-lo desacordado, com um golpe rápido no pescoço. Ele pendeu imediatamente para trás e como Natalia já estava lá, ele teve a sorte de não cair duro no chão.

- Posso dar conta dele. - avisou a médica, mais pelo fato de que ela já tinha lhe ajudado algumas vezes e podia fazer aquela gentileza de se livrar de um alvo tão fácil.

Natalia

Às vezes se perguntava porque sempre tinha aquela “sorte” de se compadecer de pacientes como Julian Holt. O homem não tinha noção nenhuma do perigo? Pressionou os lábios, apreensiva ao vê-lo se desvencilhar de seus braços, já estava preparada para segurá-lo novamente quando o maior, mais alto e mal encarado, foi mais rápido, deixando-a boquiaberta.

- J-Julian! - estendeu os braços para poder segurar o menor, sentindo então o peso dele contra seu tronco. - Droga, Julian. - falou mais baixo, praguejando mentalmente pela falta de cuidado do menor consigo mesmo. Tratou de verificar logo os sinais vitais do escritor, preocupada com o estado físico do outro. Chegou a se abaixar, ficando de joelhos e mantendo-o mais seguro em seus braços.

E logo depois acabou por ouvir aquele aviso vindo do profissional. Franziu o cenho, irritadiça com o que ele havia acabado de fazer. Todos aqueles homens que eram seus pacientes alternativos tinham um perfil parecido com aquele, quando não eram muito piores e ainda tendiam para o assédio e a tortura psicológica. Aquele tipo de atitude lhe irritava e não era desde o presente momento - o maior parecia não ter a mínima noção da própria força ou das intenções alheias de pessoas que apenas estavam curiosas ou tinham que ocasionalmente tomar conta dele - como era seu papel.

- Conta dele?! Ele é meu paciente e só ficou curioso, seu idiota! Ele está assim por conta dos medicamentos, até eu consigo dar conta dele! - não sabia o que diabos havia lhe dado na cabeça para falar com o outro daquela maneira. Talvez fosse o longo plantão do qual havia saído antes de estar ali ou a irritabilidade devido a inconsequência de Julian, ou talvez a inconsequência dele fosse contagiosa.

Respirou fundo e segurou o corpo do menor com cuidado antes de erguê-lo em seus braços. Tinha que sempre se lembrar de agradecer a Julian por ser tão leve para que pudesse carregá-lo. Evitou encarar o mais alto, ciente do que havia acabado de fazer.

- Desculpe! - pediu novamente, dessa vez tentando transparecer mais calma enquanto tentava acomodar Julian melhor em seus braços. Ainda estava com fome e imaginava que precisava alimentar o escritor assim que ele acordasse, ou ele provavelmente ficaria com fome ou se lamentaria pelo ex que não cozinha mais nada para ele. Todavia, não se moveu, consciente do campo de ameaça do mais alto. Era mais sensato aguardar que ele saísse dali ou lhe dissesse para ir embora. Só esperava não ter encontrado com ele em algum dia ruim. Pensou até no agente fúnebre - talvez, se ele estivesse ali, o gigante ficasse mais tranquilo.

Karen

A médica foi rápida em segurar o garoto desacordado. Era apenas aquilo que tinha feito, deixá-lo desacordado para evitar que lhe incomodasse mais e atrapalhasse o resto do seu caminho. A última coisa que precisava era alguém no meio da rua chamando a atenção para si mais do que já chamava sozinho. Não dava para trabalhar bem de dia, nunca. Já ia se desviar do caminho quando ouviu o tom irritado da mulher em sua direção com aquela expressão cansada e tão comum que já tinha visto em mais de um de seus alvos. Estreitou o olhar quando ouviu especificamente a reclamação e o insulto, mas diante das situações em que ela já tinha lhe servido, resolveu dar apenas um passo na direção da mulher, ainda encarando-a de cima.

- A curiosidade matou o gato, doutora. Talvez devesse colocar uma coleira no seu. - respondeu, inclinando o rosto então na direção do dela, para encará-la mais de perto quando ouviu o pedido de desculpa repentino. - Quando uma pessoa como eu lhe oferece um favor, você agradece.

Afastou-se da dupla inusitada e deu a volta pela médica, continuando o caminho para o seu merecido descanso naquele início de dia. Depois do trabalho noturno, precisava mesmo de um lugar em que pudesse ao menos fechar os olhos. Em algumas passadas longas, já tinha até desaparecido do campo de visão da médica com o adolescente intrometido.

Natalia

Não poderia se desvencilhar do outro sem acabar derrubando Julian, então apenas arqueou os ombros com a aproximação repentina. Podia ouvir o próprio coração quase lhe saindo pela garganta com aquela proximidade. Não que achasse que o homem fosse do tipo impulsivo que se incomodava com um insulto tão bobo, mas não queria alimentar aquela desavença. Segurou Julian mais firme contra si antes de abaixar a cabeça, concordando sobre “agradecer” antes dele partir dali e seguir o próprio rumo.

Voltou sua atenção para o caminho que ele havia tomado apenas após ter a certeza que ele não estava mais por ali. Suspirou aliviada, mas apenas por alguns instantes, pois ainda tinha outro problema mais sério em seus braços para cuidar naquele exato momento. Não havia muita escolha ali, então voltou para seu veículo, acomodando Julian novamente no banco do passageiro para que pudesse retornar ao assento de motorista. Pegou o próprio celular e buscou o número de um restaurante chinês de entregas rápidas. Pediu algumas porções de macarrão com noodles, porções de carne e alguns pasteizinhos. Pensou em pedir alguma bebida, mas estava dirigindo, então deixou para outra ocasião.

Mais aliviada por não estar na companhia do conhecido assassino, dirigiu para a residência de Julian Holt, pedindo que o pedido fosse entregue por lá. Carregou o escritor para a própria residência dele, tendo que tateá-lo pelas chaves antes de adentrar no recinto. O cãozinho dele era adorável e não tinha problemas em cuidar dele também enquanto estivesse ali. Julian era o que mais lhe preocupava.

- Por que você só me causa problemas? - perguntou ao corpo desacordado do moreno mais jovem antes de lhe remover algumas das peças de roupas, incluindo os sapatos, deixando o homem descansar na própria cama dele, coberto e aconchegado. - Tcs.

Estalou a língua no céu da boca antes de remover o par de saltos de seus pés, caminhando até a sala para dar atenção ao cãozinho dele. Ficou na sala, entretendo-se com o próprio celular e com o animal até a comida chegar. Colocou um pouco de comida para o animal e lavou as mãos para arrumar a mesa, abrindo as caixas para escolher o que comeriam. Assim que tudo estava arrumado, subiu novamente para o quarto,

- Julian. - chamou pelo escritor, aproximando-se da cama até se sentar, levando a mão livre para a face do outro, puxando-o pela bochecha. - Juu-li-ããããn. - chamou de novo, sibilada, praticamente cantando o nome do paciente inconsequente e extremamente curioso.

Julian

O golpe rápido unido ao efeito da medicação fizeram com que o sono de Julian fosse profundo e bem duradouro. Mais tranquilo do que tinha tido na noite anterior com dor de cabeça também. O sono foi tão tranquilo que só acordou quando ouviu o chamado insistente, virando-se na cama algumas vezes antes de sentir o puxão na bochecha e ser forçado a acordar.

- Aihhhhh - reclamou, levantando-se com zero disposição, massageando a bochecha, os cabelos assanhados do sono longo. Abriu a boca num bocejo longo, o corpo todo relaxado e mole do sono e do efeito da medicação. - O que foi...?

Bocejou de novo, piscando algumas vezes ao encarar a mulher de volta, para só então processar lentamente o que tinha acontecido mais cedo: fora ao hospital por conta do mal estar, tinha recebido medicação e encontrado com Natalia para voltar para casa. No meio do caminho, entretanto, tinha encontrado uma pessoa muito interessante no meio da rua... ou tinha sido só parte do seu sonho? Moveu o pescoço para um lado e para o outro, sentindo uma pontada forte e desconfortável do lado esquerdo para perceber que não tinha sido só parte de seu sono.

- Ahhhhhhhhh! - pareceu despertar de vez, batendo uma mão fechada na palma da outra. - Eu lembrei!!! Eu encontrei aquele cara na rua! Eu achei que era um sonho... au, meu pescoço está doendo! Cadê ele? Droga, eu nem consegui falar com ele direito... acho que ele não gostou muito das minhas perguntas. Você o viu também, doutora?! Ele não era legal?!

Natalia

Torceu os lábios com a memória do escritor que havia retornado daquela maneira tão inoportuna. “Sonho.” - repetiu em sua cabeça, suspirando e levando a palma da mão até o espaço entre as sobrancelhas, massageando a testa. Levantou-se ao ser questionada sobre o sujeito perigoso, mas continuou andando até a saída do cômodo.

- Você acha que ele não gostou? - enfatizou o “acha”, deixando um novo suspiro escapar pelos lábios antes de parar no portal de entrada do quarto do escritor. - Vamos comer, Julian. Eu pedi chinesa. Espero que não tenha problemas com o macarrão deles. - fez uma breve pausa. - E não demore ou a comida vai esfriar!

Alertou, partindo para descer as escadas, pensando em quantas vezes havia tido aquele tipo de conversa anteriormente. Já estava acostumada a cuidar de tantas pessoas que muitas vezes aquele tipo de cenário mais lhe parecia um deja vu. Assim que alcançou a cozinha, foi lavar as mãos, os pés descalços cumprimentando o cachorro de Julian que já parecia ter enchido o bastante a própria barriga.

Com sua porção separada, abriu a caixa de entrega e os molhos, jogando-os dentro do pedido para desgrudar os pauzinhos um do outro e começar a comer. Pelo menos o tempo que havia passado na Ásia havia sido o bastante para aprender a usar aqueles utensílios rápido o bastante para satisfazer sua fome. Sentia falta de alguns pratos exóticos, é claro, mas isso não deveria ser mencionado ali, tinha receio que Julian fosse ter alguma indigestão.

Aguardou pelo escritor enquanto comia inicialmente sozinha, também habituada aquele tipo de rotina em que fazia suas refeições no hospital ou em seu apartamento, mais sozinha. Eram pequenos momentos aos quais havia se acostumado a lidar dia após dia. Não significava que eram ruins, só estava bem acostumada a eles.

Julian

Natalia não parecia muito feliz por sua animação com aquele estranho que tinha abordado no meio da rua, mas não lembrava de muita coisa por conta da medicação que estava fazendo efeito naquela hora e não sabia se Natalia tinha visto muito.

- Você não o conhece, doutora? Ele tem uma cicatriz enorme no rosto, ele não foi no hospital pra ver isso não? Ele não é de Cerise, eu nunca o vi aqui-- atropelou todos os comentários de Natalia e só parou de falar quando ela seguiu para a porta, reclamando que se ele demorasse, a comida esfriaria. - Que comida?

Piscou algumas vezes, tentando entender as informações que tinha perdido ao bombardear a mulher com perguntas. Mas ela já tinha descido do primeiro andar, então só lhe restava acompanhá-la também. Desceu do mesmo jeito que estava, sem se ocupar nem em calçar sandálias no caminho. A sua presença foi o suficiente para chamar atenção de July também, alisou o cachorro e foi acompanhado por ele de volta até a cozinha, sentando-se à mesa diante de Natalia que já estava se servindo.

- Hmmm, eu estava mesmo com fome, que bom que tem comida! Está cheirando bem... - pegou uma porção para si, usando também o par de hashis descartáveis para começar a comer, mas mal colocou uma porção de macarrão na boca, voltou a expressão curiosa para Natalia. - Você tava me ouvindo, doutora? Aquele cara lá na rua, você falou com ele? Eu apaguei, queria ter falado mais com ele porque ele parece um personagem de filme tão legal. O que você acha??

Natalia

Tudo o que menos precisava naquele momento era de alguém curioso em demasia pela figura do assassino profissional. Revirou os olhos diante das inúmeras perguntas de Julian sobre o homem perigoso, as mesmas que a seguiram até a cozinha. Estava ocupando seu tempo, mastigando o macarrão despreocupada quando ele retornou com as perguntas, ainda perguntando sua opinião sobre o assunto. Queria que ele tivesse algum problema de memória e não se lembrasse do sujeito, mas causar aquele tipo de dado cerebral ao menor certamente lhe incriminaria de uma forma muito pior do que esperava poder lidar.

- Acho que tem de parar de abordar estranhos na rua tocando neles. - estendeu a mão, segurando o menor pelo queixo após pegar um dos bolinhos de massa frita do pedido que havia feito. Pressionou o maxilar de leve com os dedos para abrir a boca do outro, colocando o bolinho na boca dele com os pauzinhos. - Agora coma. Você não tem noção de como pode adoecer e comer aquela comida horrível do hospital.

Afastou-se, comendo um dos bolinhos dessa vez. Deveria estar aproveitando aquela refeição, mas se sentia esgotada pelo trabalho de plantão e pela cena anterior em que tentara proteger o menor que ainda parecia preocupado demais em saber sobre o moreno de cicatriz.

- Você nunca encontrou ninguém com uma cicatriz no rosto? - perguntou, imaginando que mudar de assunto gradualmente seria mais eficaz que simplesmente realizar uma mudança brusca. Não queria também causar um clima desagradável para o escritor. Não havia tentado ajudá-lo e proteger a vida que ele não fazia ideia de como sempre colocava em risco porque desgostava do homem. Ele era uma companhia agradável quando não estava se comportando como um adolescente mimado. Ao menos ele ainda não havia mencionado o ex namorado dele. Mal conhecia o sujeito e já sentia raiva pela existência dele e por ter causado todo aquele problema na cabeça do escritor.

Julian

Não estava muito interessado em comer tanto quanto estava em perguntar mais sobre o estranho que tinha encontrado. Mas tinha que admitir que algumas de suas reações mais impulsivas tinham sido mais culpa do efeito da medicação. Em geral, não teria se aproximado daquele jeito do gigante mal encarado de cicatriz.

- Mas não foi de propósito, foi culpa do rem-- ahhh - não teve tempo de tentar explicar porque tinha tentado tocar no estranho, a boca preenchida por um dos bolinhos dela, o que teve que mastigar forçadamente para engolir sentindo a garganta arranhar. - Hmmm... gostoso. Eu tenho noção sim de como é comida de hospital, passei muito tempo comendo lá.

Daquela vez começou a comer de fato o macarrão, só então percebendo como estava com fome depois de passar a noite toda mal dormindo por causa da dor de cabeça e da alergia. Nem sabia que horas eram, mas com certeza muito tempo tinha se passado para ficar com tanta fome daquele jeito. Acabou lembrando do namorado e de como ele sempre preparava comida exatamente para quando acordava e a quantidade que precisava para matar a fome. Mas o pensamento foi logo deixado de lado quando Natalia trouxe o estranho de volta à conversa, falando sobre ter encontrado alguém com cicatriz no rosto.

- Não daquele jeito. As pessoas que já vi com cicatriz no rosto não são legais assim, é só uma cicatriz na sobrancelha ou na testa ou no queixo por causa de alguma queda estúpida quando eram criança. Ou porque estavam bêbados. - reclamou. - Mas você viu aquele cara? Parecia queimadura, e ele é assim grande e com aquela expressão fechada, ele deve ter uma história muito mais legal pra contar, não é?!

Natalia

Sorriu discreta quando ele pareceu finalmente mais empolgado com a refeição. Era importante para que a recuperação dele fosse eficiente, que ele se alimentasse bem. Pegou alguns dos legumes cozidos de sua porção, comendo-os com maior felicidade que a massa em si. Gostava daqueles preparados com molho e tempero muito mais que a massa do macarrão que nem de perto tinha o sabor de um verdadeiro prato asiático, mas ao menos servia para enganar o estômago.

- Então coma. E coma bem. - disse em resposta ao comentário dele sobre o hospital. Buscou um dos copos da casa, enchendo-o de água para trazer de volta a mesa enquanto ele voltava a falar do homem perigoso, respondendo sua pergunta sobre pessoas com cicatrizes. Se ele não tomasse cuidado, poderia ganhar uma cicatriz de graça de pessoas como o sujeito.

Bebeu alguns goles de água enquanto ouvia sobre a curiosidade alheia acerca da cicatriz do sujeito. Sim, a cicatriz dele era de queimadura e certamente deveria ter danificado alguma coisa da visão do sujeito, nada que anos de treinamento não pudessem arrumar, e ele tinha bons reflexos. Imaginou que uma cirurgia plástica seria bem eficiente ali, mas duvidava que ele tivesse aquele tipo de vaidade.

- Que tipo de “história legal” você imagina que ele tenha só por conta daquela cicatriz de queimadura? Porque para ter tanto interesse assim, você deve ter pensado em algo. - questionou, escolhendo entrar na brincadeira do mais novo. Talvez se ele pensasse em alguma história interessante para o sujeito sozinho, deixasse de achar necessário todo aquele interesse pelo homem suspeito que não parecia deixar Cerise.

Julian

Julian continuou se servindo na espera de que Natalia lhe dissesse algo mais de interessante. Mas a médica parecia bem insistente em esconder o que sabia sobre o homem, e ela sabia de alguma coisa, ou já teria lhe negado que sequer já tinha visto aquele homem na rua. Era até bem óbvio como ela sabia de alguma coisa e não queria lhe contar e aquilo só lhe deixava mais empolgado. Riu com a hipótese dela de que tinha pensado em algum tipo de "história legal" para a cicatriz.

- Eu pensei num monte de coisa! Alguém teria pensado que foi de queimadura por acidente, mas a cicatriz é muito específica, se fosse num incêndio, por exemplo, ele teria mais lugares machucados, não especificamente uma cicatriz no olho. Mas pode ter sido de alguma briga, isso é mais interessante. E ele tem aquela cara fechada e é grandão e tem uns reflexos rápidos, então parece alguma coisa assim. Tipo alguém que o prendeu e tentou tirar o olho dele, ou uma queimadura de ácido, tem ácido que queima, não é? Ou uma sessão de tortura! Uma sessão de tortura sim seria muito legal! E daí ele deve ter mais cicatrizes no corpo da sessão. Mas pra ter participado de uma sessão de tortura, ele deve ser daqueles caras tipo vilões de filme norte-americano ou deve ser militar bem do mal! Mas se ele falasse comigo, seria mais fácil escrever uma história dele ou fazer um personagem baseado nele! - respondeu, para só então voltar a se servir. - E você ainda não me disse o que sabe dele, doutora, não seja má. Não é como se eu fosse encontrar com ele de novo no meio da rua casualmente, né? E eu nem ia chegar perto dele, só foi culpa do remédio, do remédio.

Balançou os hashis na mão como se fosse para mostrar como a situação toda tinha sido bem irrelevante.

Natalia

Apoiou o cotovelo sobre a mesa e o queixo na palma da mão, cruzando as pernas sobre a cadeira enquanto ouvia as ideias do moreno sobre como o homem de aparência suspeita teria adquirido aquele tipo de cicatriz. Pressionou os lábios com as ideias dele sobre como de fato o maior teria obtido aquele tipo de marca permanente. A ideia de que ele tivesse ficado preso em um incêndio a ponto de se machucar não preenchia sua própria suposição, pois imaginava que para ser pego daquela forma, ele ainda teria de ser muito jovem. E se fosse jovem, o machucado teria ficado bem menor com a capacidade de cicatrização maior em uma criança.

Arqueou uma sobrancelha pela ideia de uma sessão de tortura. Ele não parecia ter mutilações no corpo recorrentes de tortura e não era do tipo que poderia ser pego facilmente para uma sessão daquelas. Não se lembrava do outro ter mencionado alguma coisa sobre o próprio treinamento, mas pela habilidade dele com armas, tanto de fogo como brancas, além da disciplina em ação, ele deveria ter no mínimo algum tipo de treinamento mais rígido.

- Se você comer direito, tomar um banho quente e se vestir direito para não ficar doente de novo, eu posso pensar em lhe contar alguma coisa. - encarou o mais novo, séria. Bem, não poderia dizer que estava mentindo, pois o que sabia sobre o moreno era apenas parte de suposições de sua cabeça baseadas nos diagnósticos médicos das poucas vezes que tinha encontrado com ele. Respirou fundo, suspirando nervosa com a ideia de que ele poderia muito bem estar errado sobre encontrar o homem de novo. Ela mesma já havia encontrado com ele ali muito mais do que deveria. E em algumas vezes, teve a confirmação de que ele estava pela região a trabalho.

Levantou-se após se alimentar, satisfeita. Prendeu o cabelo em um coque frouxo antes de buscar a louça suja para ser lavada, segurando um bocejo na garganta ao coçar a perna esquerda com o pé direito, sentindo o cãozinho passando ao seu lado.

- Quando terminar aí, vá tomar um banho. Consegue tomar banho sozinho ou quer ajuda de novo? - ofereceu sem tirar os olhos da louça, esboçando um sorriso divertido de quem se lembrava do constrangimento dele da primeira vez.

Julian

À medida que comia, sentia mais necessidade de comer, provavelmente por perceber há quanto tempo não colocava nada na boca. Serviu-se do macarrão, das verduras, do bolinho, de tudo que havia na mesa mesmo diante da empolgação da conversa com Natalia. E ficou ainda mais empolgado quando ela disse que se comesse direito e se cuidasse, poderia lhe contar alguma coisa.

A empolgação foi tão evidente que ele engasgou com o macarrão, mostrando um sorriso enorme e quase infantil. Concordou com vários acenos de cabeça já que a boca estava cheia, até se forçar a engolir tudo de uma vez.

- Então você sabe de alguma coisa!! Me conte, eu prometo que vou me cuidar! - até fez um sinal de prece com as duas mãos juntas diante do corpo para implorar que ela lhe contasse o que sabia. Tudo o que descobria com as pessoas ao redor era relevante para quando queria fazer alguma história nova. Adiantou a comida, quase engasgando outras vezes para terminar de se alimentar o mais rápido possível.

Quando a comida na sua porção tinha chegado à metade, deixou o prato de lado, colocando-se de pé quase como se fosse bater continência para a médica. Mas nem se ligou na brincadeira dela, mais empolgado com o fato de que poderia ouvir mais da história do gigante.

- Eu vou tomar banho e já volto! Não preciso de ajuda! - respondeu, exasperado, subindo as escadas correndo como se fosse uma criança, que de fato se mostrava ser mentalmente.

Não demorou muito no banho, passando pouco mais de cinco minutos para se lavar e lavar os cabelos. Colocou uma bermuda de elástico e uma camisa regata, os cabelos molhados pingando sobre a toalha no pescoço quando desceu os degraus correndo de novo para encontrar Natalia.

- Pronto! - levantou a mão como se tivesse executado uma tarefa passada por uma professora de escola. - Então, o que você sabe? Tem o número dele? Posso falar com ele de novo?

Natalia

Ficou surpresa com a empolgação do mais novo, observando-o por sobre o ombro antes de rir mais baixo, dando atenção a louça. Se dar algo para acalmar a curiosidade dele fosse colocá-lo com toda aquela disposição, lembraria de usar aquele tipo de artifício depois se fosse necessário. Julian Holt era um escritor muito peculiar para aquela geração. Estava mais acostumada com a figura do imaginário comum de velhos de grandes universidades, sentados em seus escritórios, vendendo bestsellers, aposentados. O rapaz certamente deveria ser colocado como uma figura pública de Cerise pelo modo peculiar como mantinha a profissão de escritor reconhecido.

Terminou com a louça e cuidou da mesa, jogando fora o que ele não havia comido. Limpou tudo, deixando um longo bocejo escapar por fim ao se espreguiçar para estalar as costas. Rumou para a sala de estar onde se acomodou melhor no sofá, pensando na primeira vez que estivera ali e havia tirado um cochilo no móvel. Claro que não conseguia dormir bem longe da segurança de um ambiente conhecido, mas um cochilo era melhor que nada.

Ergueu o olhar ao se deparar com a figura do escritor novamente. Já havia previsto a aproximação dele pelo ruído dos passos apressados. Apenas suspirou, conformada com a imagem irresponsável do outro que nem conseguia secar os próprios cabelos adequadamente. Voltou a se sentar no sofá, com as pernas cruzadas sobre ele antes de dar espaço para o moreno, estendendo a mão para segurá-lo pelo braço, guiando-o para que se acomodasse, sentado ao seu lado.

- Ah… um homem com aquele não tem número, Julian. - respondeu, sorrindo com o canto dos lábios ao segurar a toalha em mãos, usando o objeto para secar o cabelo ainda molhado do moreno. Era bem cuidadosa no processo, secando o pescoço do mais novo. - Ele não tem nome, nem endereço. E você não encontra ele, ele que encontra você. Se não fosse assim, que tipo de mistério haveria por trás? Só um homem alto com uma cicatriz peculiar? - explicou, esperando o bombardeio de questões que se seguiriam.

Julian

Julian não se preocupou em se enxugar direito, mas ao se aproximar de Natalia, quando ela se sentou no sofá, a médica foi que lhe puxou pelo pulso para se sentar também e começar a secar seus cabelos, já explicando o que ele queria saber e que lhe deixava ainda mais curioso e interessado no estranho. A mulher parecia uma mãe, igual a Fleur ou Katrina quando estava nos seus piores dias e as duas passavam ali para lhe ajudar a manter a vida inteira em ordem - Adrian só não fazia aquilo por estar longe demais, mas gostava de lhe dar muitas broncas.

Ficou concentrado nas palavras dela como se fosse uma criança muito interessada numa história de contos de fadas. Mais do que aquilo, e só faltava ter os olhos brilhando e estar sendo colocado para dormir.

- Então quer dizer que você encontrou com ele também! Ele que te encontrou, então? Por que? Pra cuidar daquela cicatriz? Foi coisa de ácido mesmo? De alguma tortura? Você é médica, você deve saber do que são essas coisas, né? Ele é grande e forte, será que consegue me quebrar no meio com uma mão só? - riu com a ideia, até porque já tinha apagado por conta de um golpe bem direto no pescoço que ainda estava incomodando e que provavelmente pioraria até mais tarde. Mas estava mais interessado no resto da história. - Será que eu consigo encontrar com ele de novo em Cerise? E por que é que um homem assim está em Cerise? Ele veio falar com você, doutora?

Virou-se no sofá para encarar Natalia com aquela ideia empolgante. Parecia estar realmente dentro de um thriller policial para se sentir tão interessado em nada mais do que uma história pela metade.

Natalia

- Não, Julian. Ele que me encontrou, é claro. Assim como ele encontrou você hoje. Eu não faço parte do setor de acidentes com queimaduras, Julian. - respondeu, massageando o couro cabeludo dele com a ponta dos dedos abaixo da toalha. - Não, pessoas como ele são espertas demais para serem pegos por torturadores. Torturadores procuram pessoas que possuem muito o que perder, além da própria vida. - sussurrou mais perto do ouvido do menor como se estivesse contando uma história baseada em fatos reais de investigação. Se contasse aquilo para qualquer criança, certamente os pais lhe mandariam prender.

Terminou de secar os fios escuros do cabelo do mais novo e lhe afastou as mechas com os dedos, notando como o cabelo dele era fácil de pentear mesmo sem possuir nenhuma escova ali no momento.

- Certamente pode ter sido feito por algum objeto em alguma explosão, quente o bastante para deixá-lo marcado, menos afiado para não lhe estragar demais a visão. - ponderou, considerando as hipóteses. - Ele mesmo pode ter se marcado daquela forma como marca em pagamento por alguém que ele perdeu, alguém importante, ou por alguma coisa que fez contra seu empregador.

Ajustou-se no sofá, encarando Julian de volta, esboçando um sorriso casual. Queria que ele parasse de perguntar tanto sobre o caso do homem perigoso, mas tal como uma criança curiosa, ele não parecia descansar a língua.

- Talvez. Eu posso ter perdido um dos conhecidos dele na mesa de cirurgia do hospital. O que é muito raro de acontecer, porque eu sou uma médica excepcional. - sorriu mais abertamente, convencida da própria capacidade. - E eu não encontro com ele, querido. Eu já te disse, ele que encontra as pessoas. E se eu fosse você, não sairia por aí me arriscando tentando achá-lo. - estendeu a mão, prendendo o nariz de Julian entre seus dedos. - Já considerou que ele talvez possa ser uma criatura sobrenatural? - sugeriu, curiosa com a própria ideia que lhe ocorria. Não acreditava naquele tipo de coisa, é claro, mas às vezes era difícil não se assustar com algumas coisas que aquele tipo de homem conseguia fazer.

Julian

Era engraçado perguntar aquelas coisas para Natalia porque ela parecia incorporar uma contadora de histórias tanto quanto ele quando tinha paciência para ler para crianças - o que era bem raro. Riu das interpretações da médica e as suposições tão fantasiosas quanto as dele, mas tudo o que ela lhe dizia servia de base para pensar em outras histórias e personagens.

- Eu não vou sair por aí tentando encontrá-lo, mas se eu esbarrar com ele de n-- au au au!!! - reclamou com os dedos pressionando seu nariz, e assim que ela soltou, espirrou uma série de vezes. - Dão pegue do beu dariz, doutora-- atchim! Atchim!!

Esfregou o nariz com as duas mãos, tirando os cabelos molhados da frente do rosto. Àquela altura, depois de tanto tempo sem sua irmã voltar para casa, eles já estavam compridos o suficiente para conseguir prender pelo menos a parte da frente.

- Você é uma boa contadora de histórias, doutora, não pensou em ser escritora? Eu posso usar essas ideias quando precisar no livro novo. Quem sabe eu faça um drama com um pouco de romance policial? Seria legal, não é? Mas eu sou péssimo com investigações intrincadas, talvez devesse ir na delegacia ver se alguém quer me ajudar com isso. - comentou, esfregando de novo o nariz vermelho, espirrando mais duas vezes por conta da pressão que ela tinha feito ali antes. Não se preocupou com o limite de proximidade, nem em pedir licença, só curvou o rosto para frente, apoiando-o nos seios fartos da mulher e passando as mãos em volta da cintura dela, como um gato se aninhando para dormir de novo. - Você vai ficar aqui o resto do dia, doutora? Eu acho que vou dormir só mais um pouquinho... a gente podia ir comprar uma torta na Antique depois, né?

Natalia

Gostou de assistir o menor inquieto com a pressão no nariz, mas logo se arrependeu com a sequência de espirros que ele dava. Tentou adverti-lo para que não espirrasse com tanta força, mas acabou por apenas puxar a toalha, impedindo-o de se molhar com os espirros. Riu surpresa com o comentário dele sobre ser contadora de histórias, é, talvez fosse mesmo se contasse todas as vezes que tivera de omitir muitos detalhes sórdidos da polícia nas vezes que havia sido interrogada. Se fosse para escrever um livro, certamente acabaria sendo morta antes dele mesmo ser publicado se fosse uma autobiografia. E se fosse um livro simples de romance, poderia usar todos os casos que tivera na época da faculdade, desde as frustrações com namorados babacas até a satisfação de noites de festa do pijama regadas a álcool e outras drogas nos dormitórios. Era uma época esquisita, divertida, mas esquisita de transição.

Não comentou nada sobre a delegacia, não queria alimentar ainda mais a curiosidade do menor. Era bom que ele até esquecesse tudo aquilo. Baixou o olhar para o moreno que se aninhava em seu busto, envolvendo-lhe pela cintura. Observou a cena, sem reação a princípio. Por mais que sempre estivesse habituada a piadas e insinuações com a invasão do espaço pessoal alheio, não estava acostumada com outras pessoas invadindo o seu espaço pessoal daquela maneira tão carente e carinhosa. Sorriu discreta antes de levar a mão a cabeça do jovem homem, afastando-lhe os fios escuros ainda úmidos do rosto, deixando-o permanecer ali.

- Posso ficar se você quiser, Julian. - respondeu, ciente de que não conseguiria dormir muito bem ali, provavelmente apenas tiraria um cochilo leve. Aquela era a parte ruim de viver a vida se escondendo de pessoas perigosas. Nunca conseguia dormir bem a não ser que fosse em algum ambiente em que de fato se sentisse segura. Aprender a descansar com os pequenos cochilos era uma habilidade que, felizmente, havia aprendido a ter desde a adolescência.

Segurou as mãos de Julian em sua cintura e as afastou, guiando-as para seu pescoço para que pudesse erguer o outro em seus braços novamente, saindo daquele sofá. Era bom ele não ser assim tão pesado, pois estava cansada o bastante para conseguir carregar alguém pela casa daquela forma.

- Vamos sim. Uma torta bem gostosa. Mas antes vou te levar para a cama. Nada de dormir no sofá. - advertiu, de fato carregando-o até a cama, mas sem afastar o outro de si. Viver sozinho naquela residência também não deveria ser a melhor experiência do mundo para alguém aparentemente não ingênuo como escritor. Acomodou o outro nos travesseiros antes de verificar as janelas e as cortinas para que a claridade de fora não o incomodasse. Não saiu do quarto e, como ele queria, acomodou-se ao lado dele, afagando-lhe a cabeça até que pegasse no sono. Julian poderia ser um tanto inconsequente, mas isso não significava que era uma pessoa ruim. Na verdade, desejava não se preocupar tanto com ele a ponto de acabar falando mais do que deveria para o moreno alto de cicatriz peculiar na face.

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