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[Drive] Estilhaços [Didier; Renaud] - Lil - 09-21-2021 Renaud
Como um espelho trincado depois de um forte impacto, nada que fosse refletido ali seria uma imagem fácil de discernir, sempre teria a interferência da rachadura distorcendo o reflexo. Renaud se sentia como um reflexo distorcido de si mesmo, trincado, quebrado fundo o suficiente pra duvidar de muitas coisas, inclusive se conseguiria conversar com Didier depois de tudo que tinha acontecido. Embora fizesse apenas poucos dias, a intensidade com que tinha passado esse pouco tempo, lhe dava a sensação de que tinham se passado décadas. Ou pelo menos sentia o cansaço como se estivesse há anos sem descansar. O Blanco estava num misto de ansiedade e nervosismo, e tentava seguir a rotina do dia como sempre fazia, precisava da rotina, tal como qualquer pessoa ordinária se apoiava no que era conhecido pra não ter de lidar com o desconhecido. E esse era o ponto, tudo que envolvia conversar com o loiro era um abismo de desconhecido no momento atual. Comeu menos do que gostaria de manhã, não tinha fome nenhuma, apenas um inócuo vazio no estômago, que lhe dava a sensação de haver um buraco dentro de si, que não tinha como simplesmente ser preenchido por comida. Àquela altura do dia, os medicamentos que estava tomando certamente lhe mantinha em níveis de ansiedade e estresse dentro de um limite aceitável. Não tinha tido nenhum pico de estresse ainda, porém, estava com aquela desagradável sensação de “calmaria” antes da tempestade. E ao menos sabia e não tinha dúvidas, que encontrar com Didier era como ser jogado em uma tempestade, não pelo que tinha acontecido no “agora”, mas pelo “todo”. Um todo de convivência tempestuoso e caótico, mas que era algo em que os dois se apoiaram por muito tempo. Seguiu pra cobertura muito antes do horário marcado, assim que tinha se livrado das poucas coisas que tinha de fazer, não tinha conseguido sequer prestar atenção ao longo da manhã nas coisas que estava fazendo, com os pensamentos sempre voltando em Didier. Então como se estivesse em um modo “automático” deixou que as pernas lhe guiassem até lá. Renaud sentia como se o corpo estivesse encoberto por um peso invisível, que fazia com que cada passada embora não fosse pensada, fosse um esforço a ser feito. Não sentia como se tivesse a mesma vitalidade de antes, parecia lento, pesado, e desengonçado, embora não aparentasse nada demais em seu caminhar, além de estar fazendo passos mais lentos do que o costumeiro para o vice-presidente do conselho estudantil. O Blanco estava vestido como de costume, ou como se esperaria que estivesse vestido: o uniforme da instituição com calça escura, blusa social abotoada até o ultimo botão no pescoço, gravata em nó apertado, o terno branco impecável, e um suspensório simples preto, que estava igualmente apertado. No rosto não tinha nada que encobrisse as olheiras de noites mal dormidas, o formato do rosto um pouco mais marcado nas maçãs do rosto, já que tinha perdido algum peso. Nas mãos, os machucados dos cortes pequenos cicatrizavam, e estavam encobertos com bandagem e alguns band-aid para os menos profundos. Tinha levado duas latas de refrigerante, porque sempre que iam até a cobertura, aquele que fazia o convite levava refrigerante. E embora a memória fosse vívida em sua cabeça, se perguntava quantas semanas fazia desde a última vez que foram ali na cobertura? O frio no corpo era suficiente para sentir que estava mais gelado por dentro, do que o vento que podia estar soprando lá fora. O coração pesava no peito, e cada batida doía por dentro, e a medida que os pensamentos desenrolavam as batidas aceleravam, a ponto de levar a mão ao próprio peito, como se pedisse que o mesmo se acalmasse, abriu a boca um pouco deixando o ar escapar e respirou fundo, tentando se acalmar, em vão é claro. “Como deveria começar aquela conversa?” “Tinha algo que deveria ser dito pra começar a conversa?” “Pelo que exatamente ele gostaria de começar?” “Teria de esperar que ele falasse primeiro?” “Ofereceria o refrigerante logo no começo?” Inconscientemente segurou com mais força a sacola com que carregava as latas de refrigerante, não tinha como simplesmente emular um diálogo na própria cabeça. O coração estava zumbido no peito, e a cabeça parecia pesada, e por isso estava guiando seu olhar para o chão, uma leve dor de cabeça lhe cortava a nuca. Sequer estava prestando atenção no entorno, ou no tempo que levou andando entre os prédios de aula, até o prédio administrativo, só sabia que já estava cansado, antes mesmo de começar. Só se deu conta de fato de onde estava quando já estava pisando no lance de escadas que davam acesso a cobertura do prédio. A respiração estava difícil, e um gosto amargo lhe subia do buraco no estômago, ressecando toda sua boca, buscou saliva num lamber de lábios em vão. Então, buscou ar vagarosamente, e passou a mão sobre o peito novamente, em um gesto suave, como se estivesse sendo compreensivo com o próprio corpo, naquele misto de agitação e ansiedade, estava sendo um esforço enorme só de chegar até lá. Mas se já tinha chegado até ali, não iria voltar. Não sabia se tinha o que era necessário para encarar aquela conversa, mas também sabia, que se não fosse naquele dia, não seria nunca mais. Didier
Se havia algo que tinha percebido sobre si mesmo nos últimos dias era que sua impulsividade era uma benção e uma maldição. Em muitas vezes, especialmente em brigas, o fato de não hesitar em por em ação os primeiros planos mal formulados em sua cabeça haviam salvo sua pele e a de seus protegidos várias vezes. Porém, com o sangue correndo rápido na veia e oxigenando seu cérebro, mal aquecido pelo toque carinhoso de Isaac, tinha decidido por em prática mais um plano mirabolante de Didier Callas: que não era um plano, e sim, um desejo fervoroso de que houvesse alguma esperança para ele e para Renaud, quem havia tratado com a mesma impulsividade, e com uma de suas faces mais verdadeiras... sua face mentirosa. E agora que percebia e olhava aquela mensagem respondida e o horário marcado na cobertura de St. Clavier, e que caminhava até lá depois de suas aulas, seu coração não parava de berrar, a cada batida “seu idiota, você tem certeza?”. Seu impulso era um impulso impensado, inconsequente. Mas se não apanhasse ali, numa briga, estava tudo bem. Naquela empreitada de encontrar com Renaud, era impossível não sair machucado de alguma forma, e, Dios o livrasse, de fazer o mesmo com o moreno por não conseguir conter sua covardia. Era corajoso por encontrá-lo lá em cima então? Não. Estava trêmulo, estava ansioso, estava prestes a dar meia volta e se enterrar no quarto no qual tinha se enterrado na última semana inteira, sem ver ninguém, porque isolado, por mais frio que fosse, não tinha que justificar sua incapacidade de lidar com seu medo de se machucar. Tinha certeza, sim, que iria. Por que assim era seu karma. Parou em uma máquina de refrigerante no caminho e pegou duas latinhas, não deixando de pensar, enquanto ouvia elas rolarem até o sua mão, que só poderia estar sendo ridículo de querer tratar tudo como tudo havia sempre sido. Mas o gesto lhe dava uma segurança de que havia alguma coisa entre os dois, uma lei estabelecida que ao menos garantia que poderia olhar mais uma vez na cara de Renaud. Só olhar, sem ouvir rumores pelo corredor de um surto dele nem ouvir Peyrac ecoando no seu ouvido com a voz de quem bem sabia o mal contido no corpo de 1,70m e a cabeça de uma criança que não sabia lidar com contar uma verdade que era apenas verdade. E a verdade era que queria ver tanto o moreno. Subiu as escadas para a cobertura e empurrou a porta sem hesitar, reclamando mentalmente da ferrugem da maçaneta que não fazia ela girar silenciosa e tampouco deixava a porta fácil de empurrar. Só que assim que ergueu o olhar do pedacinho insignificante de ferro e direcionou-o para o local que tinha escolhido para conversar, notou a figura parada ali, com o terno de St. Clavier, a calça escura, os cabelos pretos, os suspensórios discretamente aparecendo do ângulo em que o viu. Mas mesmo se não os visse reconheceria só a largura das costas, ou o jeito como os cabelos caíam, ou como as roupas eram ajustadas as formas geralmente mais musculosas. Seu estômago virou de cabeça para baixo, e por sorte não tinha comido nada, mas isso deixou seu rosto ainda mais obviamente estranho. Porque estava se lixando para maquiagem quando tinha um milhão e meio de perguntas e respostas e pedidos girando na cabeça. E agora as palavras tinham se embaralhado todas. “Desculpe por ter dito tudo aquilo.” “É tão bom te ver.” “Eu sei que sou decepcionante.” “Eu quero tanto você.” “Desculpe tão bom tanto você.” “Eu sei tanto você ter dito tudo aquilo.” “Eu.... não sei... que quero dizer....” – Háa... – tentou abrir a boca para dizer algo, mas só o que escapou foi ar. A mão que não segurava as latinhas não sabia para onde ir, se tocava o coração acelerado ou se ajeitava o terninho azul de St. Clavier em cima de uma de suas camisas de botão com transparência. Levantou a ponta das sapatilhas, sem dar um passo além da porta. Então, respirou fundo e deu um passo a frente, a garganta seca e a vontade de andar para trás e fugir ficando cada vez mais forte. – Q-que bom... que veio. – a voz falhou a iniciar a frase, quebrando em um tom desconfortável um tanto mais agudo que seu tom ainda masculino permitia. Mordeu os dentes e franziu a testa, frustrado com a própria incapacidade de se comunicar diante de Renaud, especialmente por todas as ideias erradas que poderia dar a ele se simplesmente ficasse ali fazendo cara de azedo por não conseguir forçar nenhuma expressão menos feia diante de sua agonia. Fechou a porta atrás de si e então tomou tanto ar que pareceu exasperado. E estava. Ergueu mais uma vez os olhos claros para a figura de Renaud e engoliu em seco, as mãos se juntando na frente do corpo, abraçando as latinhas como se fossem extensões suas. – Sente... se quiser. Eu só... preciso de alguns segundos... pra saber por onde começar... – mordeu o lábio inferior, e então, hesitante, estendeu uma latinha de refrigerante para o moreno, para saber se ele teria interesse. – Cómo está? – apontou o indicador discretamente pra a mão de Renaud, mas estava só com conversa fiada. Queria ouvir ele falar. Nem que fosse “mal”, nem que fosse um grito. Só para ter certeza que ele estava de fato ali e que teriam aquela conversa. Renaud
Sabia que chegar cedo aumentaria sua ansiedade, o zunindo no peito não se aquietou, e respirava devagar tentando ao menos manter-se ali e esperar. Estava ao mesmo tempo muito atento a todo e qualquer ruído vindo de seu entorno, como também estava igualmente desatento com o tempo e com tudo a sua volta. Estava com o olhar virado para um ponto no vazio a sua frente, além da grade de segurança do topo do prédio administrativo. Era muito bom pra contar o tempo sem olhar para o celular da mesma forma, que era igualmente incompetente de ter de lidar com sua agenda diária sem o aparelho. Mas no tempo que ficou esperando não olhou o celular nenhuma vez, a ideia lhe deixava mais ansioso, e sabia, racionalmente sabia que precisava conversar com o loiro. Só não sabia como seu emocional iria reagir, ainda estava tentando se convencer daquela ideia. E tomou ciência que havia se passado tempo suficiente para hora marcada, quando ouviu o ruído da porta corta fogo ranger, enquanto era empurrada. Teve um atraso para guiar o olhar para o local, o corpo todo tencionou por baixo do uniforme, e o aroma conhecido de seu... de Didier chegou mais rápido ao seu nariz, do que a imagem aos seus olhos. Guiou o olhar devagar na direção do mais velho, e encarou longamente a figura de Didier que lhe parecia tão surreal, e ao mesmo tempo tão real. Ali, sem maquiagem, no terno mais comum do uniforme, sem qualquer arrumação adicional, como se ele tivesse pego a primeira roupa no guarda-roupa e tivesse vestido. Olhar para ele lhe deixava num misto extremo de sentimentos, que iam da saudade, ao medo real, do que ele fosse lhe falar ali. Não era nem de longe especialista em ler as pessoas, muito menos no estado em que estava, só conseguia compreender o que lhe era dito diretamente. E as pausas na fala do loiro lhe deixavam ainda mais apreensivo do que ele realmente gostaria de lhe dizer e não estava dizendo. Engoliu em seco, porque não queria começar a criar cenários em sua cabeça, baseados em nenhuma palavra. E estava igualmente calado, então era melhor começar a falar alguma coisa. Embora estivesse com um semblante cansado, nada em sua expressão deixava transparecer o caos que se passava em sua cabeça, ao menos nisso ainda estava contido, não sabia por quanto tempo: – Eu que decidi local e horário, seria estranho se eu não viesse... – comentou na ordem de comentários sem necessariamente se mexer de onde estava além de virar o corpo na direção do loiro, uma das mãos estava no bolso, suando, entre as bandagens, enquanto a outra segurava a sacola com as latinhas de refrigerante: -- eu prefiro ficar em pé... – completaria no automático “se não se importar” mas em verdade, se ele tinha dito “se quiser” estava lhe deixando espaço para escolher, e sinceramente, não estava com vontade de sentar no chão, embora gostasse, naquele momento, sentia que se sentasse no chão, ficaria difícil pra se levantar depois. Guiou o olhar para a latinha de refrigerante estendida em sua direção e a encarou por um tempo, observando o gesto. Tinham pensado na mesma coisa, precisavam de uma trégua para conversarem, e aquilo era um bom sinal. Mas também, não queria ficar se alimentando de esperanças sem sequer conversar, uma latinha de refrigerante era uma gentileza, mas não resolvia todos os problemas dos dois. Ergueu a mão com a sacola com as latinhas de refrigerante que tinha comprado, suspirando por um momento, e em seguida puxou uma das latinhas que tinha trazido, deixando a sacola com apenas uma delas no chão, e então estendeu a mesma na direção de Didier, e com a mão livre, segurou a que ele tinha lhe estendido: – Tivemos a mesma ideia... nenhum de nós sabe como começar uma conversa sem ser com refrigerante no final das contas. – Comentou o óbvio, que embora parecesse uma piada, foi dito sem muita emoção na voz, então não dava pra saber se o Blanco estava tentando puxar assunto ou se estava apenas sendo defensivo: -- sobre a pergunta, fisicamente ainda com os dois braços, as duas pernas... estou sobrevivendo. – Comentou o óbvio, da parte física, mas se resguardou a falar da parte emocional, desviou do assunto deliberadamente, e aquilo fez seu coração disparar um pouco mais rápido. Guiou o olhar escuro para lata de refrigerante e então se encostou no gradeado, passando o polegar pelo aro que auxiliava a abrir a lata, mas sem de fato abrir a mesma, passou o polegar em um movimento circular: – Você chamou, e eu escolhi vir... – pausou o movimento circular, lançando um olhar notoriamente defensivo para Didier. Não sabia se queria perguntar, e nem se queria ouvir, mas estava ali, e não queria continuar fugindo, então o único caminho era continuar falando. A boca estava seca e a voz saiu morna de intensidade, talvez resultado dos remédios ou apenas do cansaço que o Blanco arrastava ao longo desses dias sobre o assunto: – Bem... eu estou aqui...agora, me diga, porque me chamou? Didier
Para Didier, ver a reação de Renaud a sua presença naquele prédio era difícil. Porque bem sabia que não tinha a mínima capacidade de ler como ele se sentia, especialmente quando ele tentava esconder os próprios sentimentos. Renaud não era expressivo, a não ser quando estava em estados eufóricos, ou quando tentava ser charmoso, com sucesso. Naquele momento ele só lhe parecia sério. Isso fez com que mais uma vez o seu estômago virasse de ponta cabeça. Será que aquela conversa tinha sido boa ideia mesmo? Mordeu o próprio lábio inferior quando ele disse que não queria sentar. Talvez estivesse lendo muito onde não deveria ler, mas isso não era sinal de desconforto? Não que houvesse como aquela situação ser confortável, mas passava para Didier a impressão de que Renaud queria sair dali o mais rápido possível. Até hesitou em sair do lugar, da distância onde estava, pela própria dificuldade de Renaud de se mover. Era como se ele estivesse pondo uma barreira ali, e embora não pretendesse se aproximar o suficiente para incomodar, agora, mais que nunca, os pensamentos pessimistas e confusos na sua cabeça voltavam como se estivesse deitado em sua cama no escuro, assim como todos os dias anteriores. Só notou de fato a sacola na mão dele quando ouviu o barulho das latinhas dentro da mesma. Nunca um barulho lhe deu tanto conforto. Engoliu em seco, dando um passo pequeno para pegar a latinha que ele segurava e terminar de lhe entregar a sua. Cada um com duas latinhas, então. Queria rir do comentário que o moreno fez, mas se nem ele tinha humor para a piada, que diria Didier naquele humor tenso dos dois enquanto pensavam quais as palavras que deveriam ser ditas. Só quando finalmente Renaud lhe respondeu se estava bem que notou que ele certamente não estava, pois o comentário tinha sido apenas sobre seu físico. Sobrevivendo. Era como estava. E seus sentimentos? Não que esperasse diferente, supondo que conhecia um pouco de Renaud. Não que esperasse diferente, sabendo que há pouco tempo ele tinha ido para a enfermaria. Isso fez com que tremesse mais, os lábios fazendo isso de modo involuntário, embora o corpo lutasse para disfarçar seu nervosismo. Sabia do dano que tinha causado, e que esse era irreversível. Adiantava ir ali e tentar conversar? Diria que não. Mas... as coisas que Isaac tinha lhe dito e que pareciam tão óbvias lhe reconfortavam. Se fosse tão simples... – Escolheu vir... - repetiu baixo mais para si mesmo, levando a latinha que tinha pego ao próprio abdômen, sentindo o gelado da latinha com o gelado do seu estômago. Se ele não estava ali por ser um cachorro que atendia todos os seus chamados, isso era ruim...? Ou era bom...? A incerteza daquilo tudo lhe matava devagar. – Lhe chamei por... muitas coisas. Até parecia que não estava pensando em tudo que queria falar, porque só dele perguntar o que queria ali, lhe deu um branco na mente. Entreabriu os lábios para começar, mas não saiu nada. O corpo ficou tenso, tanto que a latinha quase escorregou de seus dedos. Segurou em tempo, mas foi um bom acorde. Franziu a testa e então caminhou apressado para a base da grade. – Tengo que sentarme...! - falou enquanto acomodava-se sentado na base que segurava a grade, de costas para a vista do prédio. Levou a latinha que ainda estava em sua mão, a de Renaud, até a testa, para esfriar a cabeça, e a sua, colocou no chão por um momento. Um suspiro longo saiu de sua boca., mas seu incômodo não passou. – Eu não aguento... isso. Então vou ser bem direto. Eu vim... pedir desculpa. Sei que é ridículo depois das coisas que he dicho, pero reconheço que é pior não atestar que era tanta mierda. Tanta mierda. Colocou a latinha no colou e levou a mão aos cabelos loiros, bagunçando-os na raiz para tentar ajudar a pensar, sem sucesso. Porém, achou melhor olhar Renaud, ou provavelmente ele acharia que não havia sinceridade em suas palavras. – Eu sabia... exatamente... o jeito de falar que mais lhe machucaria. As coisas que he dicho... naquele dia, no conselho... não era aquilo que eu devia ter dito. – sacudiu e cabeça negativamente, a expressão fechada denotando que bem lembrava daquele dia. Ou ao menos achava que bem lembrava. – Eu disse... que no empece por assumir todo, pero eu esperava que você adivinhasse o que estava me incomodando. E ao invés de lhe dizer tudo, fiz como disse que ía fazer... só te machuquei. En todos los sentidos. – engoliu em seco, e então apoiou ambas as mãos nos joelhos, apertando os mesmos com as unhas longas. – Quiero explicarseló... mas você quer ouvir? É ridículo... - tentava falar com a certeza que geralmente tinha ao redor de Renaud, mas reconhecia o drama desnecessário que tinha criado naquele dia. E sabia que era tão covarde, que quando ele também soubesse, suas chances eram de sair dali com menos chances ainda de voltarem a se falar. Renaud
O moreno mais novo mantinha o olhar atento nas expressões do loiro a sua frente, não porque alimentasse o sentimento de extrair alguma informação das reações adversas dele, que notava mas não entendia profundamente. Estava em verdade, naquele misto de sentimentos adversos e conflitantes, estava com saudades de poder olhar para ele, embora isso não ficasse claro em sua expressão. Mas, na mesma medida, sentia o buraco em seu estômago se alastrar ainda mais toda vez que o outro hesitava em falar qualquer coisa, porque não sabia onde ele queria chegar com aquela conversa, estava torcendo para não ouvir coisa pior do que já tinha ouvido, e aquilo era um medo real assombrando seus pensamentos. Acompanhou com o olhar o gesto súbito de Didier de sentar-se ao seu lado, mas não o acompanhou sentando no mesmo muro, manteve-se parado ainda encostado ao gradeado. Então deixou que falasse, ele tinha lhe chamado para pedir desculpas? O coração acelerou, e não teve como conter a expressão com as sobrancelhas mais arqueadas e no olhar um ar de surpresa mais notório, a boca entreabriu e puxou o ar com dificuldade, estava com os lábios secos. Sabia que não era algo fácil chegar e pedir desculpas pra alguém, principalmente para alguém, “próximo”, podia mesmo se considerar próximo? A sensação era do coração pular no peito, e sentiu toda a garganta ressecar e os lábios pareciam que iriam rachar ali se movesse a boca. Desviou o olhar de Didier por um momento olhando para um ponto vazio a sua frente, enquanto escutava que ele tinha dito as coisas de forma que “sabia que lhe machucaria”, e aquilo lhe deu uma angústia real. O amargor do estômago subiu e tomou toda sua boca, na mesma medida que sentia o corpo gelado, mais gelado do que latinha que suava em sua mão. Espiou de cima para Didier, enquanto ele largava a latinha no colo e bagunçava os próprios fios loiros, ele estava tão inquieto com aquilo. Podia supor que ele estava incomodado, que não estava “desdenhando” tudo que tinha causado. Ou seria otimismo seu, pensar que ele se importava tanto com sua pessoa? Ele não estaria apenas de consciência pesada, querendo se aliviar da culpa de tê-lo maltratado? Era um pensamento otimista ou pessimista no final das contas? Quando ele finalmente perguntou se queria ouvi-lo explicar, a única reação imediata de Renaud foi respirar fundo, puxou o ar pelo nariz, e soltou devagar pela boca, o corpo escorregou pelo gradeado, e o Blanco se sentou na murada, como se estivesse sem energia só de começar aquela conversa. Sentia o peito doer, e levou a mão livre ao rosto, passando a mão pelo mesmo demoradamente, as pernas afastadas, e o braço com a lata estava apoiado em uma das pernas: – ...Droga Didier...! – foi a primeira coisa que saiu de seus lábios, em tom baixo, ainda com o rosto encoberto pela mão. Jogou os fios escuros pra trás, em vão já que os mesmos voltavam a cair sobre os olhos, a expressão do Blanco, era um misto de cansaço e frustração, com as sobrancelhas franzidas de forma negativa. Ergueu a latinha suada, e passou sobre os lábios, umedecendo os mesmo, em seguida lambeu os próprios lábios, ainda não tinha aberto o refrigerante de fato, e nem sabia se queria de fato abrir, mas a sensação era como se a pele tivesse rachado em pequenas fissuras que ardiam levemente: – Eu vim até aqui pra conversar, isso quer dizer que eu espero falar e ser ouvido, da mesma forma, que eu também estou disposto a lhe ouvir... independente do que seja... -- a ultima parte saiu sem muita convicção, pois realmente não sabia se queria ter de ouvir coisa pior do que já tinha ouvido, e agora tinha ainda mais noção de que o outro podia lhe machucar mais profundamente. Se antes, sem ter uma boa definição de como se sentia em relação a Didier, a situação já lhe incomodava, quem dirá agora: – Você disse que eu estava agindo como se tivesse esquecido que você “existia”... que tinha desaparecido em um par de semanas desencontradas, enquanto eu estava lhe jogando “charme barato” para desculpar minha ausência...– Não olhou para Didier enquanto falava aquilo, observando um ponto vazio a frente, porque não sabia se conseguiria admitir o que tinha pra dizer, encarando os olhos claros do outro. Uniu as duas mãos em torno da latinha, cruzando os dedos, e respirou fundo novamente buscando coragem: – Bem... em parte você não estava de todo errado... afinal... Deixou que todo o ar escapasse enquanto falava, e sentiu um peso enorme sobre os ombros enquanto estava ali sentado. Olhou para Didier, diretamente, para visualizar o estrago de suas palavras no outro, não sabia exatamente que expressão estava fazendo, só sabia que devia estar transparecendo alguma coisa. Pois sentia como se fosse faltar o ar, enquanto falava, o coração batia com tanta força no peito que chegava a doer, e o amargor no topo de sua garganta se convertia em um azedume, que sequer sabia explicar como ainda estava ali sem chorar. Claro que queria saber porque ele tinha lhe tratado daquela forma tão extrema, mas também precisava deixar claro um par de coisas que tinha ideia de que o outro não sabia, ou não tinha percebido. Didier
Apesar de estar com a cabeça cheia, era difícil não notar a expressão de Renaud mudando para uma de completa surpresa quando disse que iria lá pedir desculpas. Entendia o porquê da surpresa, afinal, quantas vezes nos anos em que se conheceram voltou atrás com alguma coisa que tinha dito? Não tinha essa necessidade antes. Mas agora, se quisesse qualquer chance de continuar falando com Renaud, era bom que engolisse qualquer sombra de orgulho ou qualquer senso de superioridade. Já não tinha nem porque mantê-los, era óbvio para si que não tinha dado certo tentar sair por cima sendo desonesto consigo mesmo e com Renaud. O corpo do moreno escorregou para a mureta tal como o seu, que não tinha força nas pernas para ficar em pé aquela conversa toda. Ele parecia claramente incomodado com suas palavras. Isso lhe deixava ansioso, mas de um jeito que não sabia discernir se era otimista ou pessimista. Era só um incômodo difícil de definir. Ouvir seu nome na boca de Renaud, pelo menos, nesse ponto, ainda parecia doloroso. Ainda mais quando observou o rosto dele, e notou na expressão cansada, toda a frustração que provavelmente vinha de ter de se passar por escutar seu pedido de desculpas patético. Mas só Didier, cuja respiração começava a ficar mais curta, sabia que era ainda mais ridículo do Renaud podia prever. Ao menos ele queria lhe escutar. E afirmou com a cabeça que queria também escutá-lo, fosse o que fosse que ele teria a lhe dizer, reafirmando com um “sí” baixo. Naquele momento percebeu o quão desengonçado era para falar dos sentimentos que eram seus, em comparação com todos os conselhos que tinha dado aos primeiranistas em seus anos de St. Clavier. Era fácil falar quando não era seu coração na linha. Olhou para a frente tal como Renaud, buscando o que quer que ele usava de apoio para falar agora. Porém seu corpo inteiro estremeceu quando ele lhe lembrou suas impressões sobre a ausência do moreno antes da briga, especialmente porque ele concluiu que não era de todo mentira. Mas o francês não sabia todas as possibilidades que passavam em sua cabeça, e afirmar aquilo fez o coração de Didier disparar tanto que sumiu com o sangue de seu rosto. Ele tinha, em algum momento, lhe evitado? Era porque estava atarefado com tudo em St. Clavier, como tinha lhe dito na sala do conselho, ou naquele dia talvez fosse um raciocínio rápido para esconder outro motivo. Havia cansado... de estar consigo? Ou havia se agradado mais... de estar com o outro? Respirou fundo, porque percebeu que não estava respirando por um breve momento, e oxigenar o cérebro lhe fez reganhar alguma força para falar também. Se ele já não queria estar com um homem cheio de exigências, que nem se reconhecia, que diria com um covarde, que ainda não sabia ser sua real natureza? Estando ali, não tinha volta. – Se... estava me evitando... quiero saber o porquê... se puder dizer. Mas mesmo sem saber disso... eu já tinha... – o loiro apertou o tecido da calça com as unhas, puxando-o para perto do colo, onde descansava a latinha. – Yo fui mimado por ti. Sempre, sempre que eu chamava você estava lá. Pero de repente, você não estava mais. Eu sei... que eu estava atarefado, e você tambíen, mas eu fiquei ansioso, porque nos víamos cada vez menos, y siempre tão pouco... e... nosso tempo aqui dentro já está acabando. – sentiu a voz quebrar de leve ao lembrar daquele fato, as mãos indo até a latinha, apertando-a de leve, mas sem amassar, pois não tinha intenção de causar um acidente. – Y yo pondría ter só ficado irritado... mas... eu ouvia os outros dizerem... falarem que você estava... co... – mordeu os dentes e fechou os olhos, sabendo o quão ridículo eram suas palavras naquele momento. Era patético. – Com Peyrac... Levou ambas as mãos ao rosto, esfregando-o por um breve momento, escondendo a vergonha que era admitir aquilo, até mais uma vez respirar fundo. Espalmou as mãos nas próprias coxas e apertou ambas com as unhas. – Lo sé que somos diferentes para ti ahora...! Mas eu pensei que se... você estivesse mesmo trocando seu tempo comigo por tempo com ele... se... você não quisesse mais me atender... – a respiração foi ficando novamente mais rápida, um sinal de que seu coração não estava acompanhando aquela conversa de modo devido. Ou será que o modo devido era sentir tanto aquele frio por dentro das entranhas? – E no conselho... eu fui irracional... você me respondeu, quando nunca respondia.... você estava escapando os meus dedos... - a voz ficou trêmula, o corpo de Didier cada vez mais fechado naquela posição sentada, até o loiro levar as mãos até a nuca, encolhendo o corpo devagar, querendo segurar a verdade com um gesto físico quando era seu cérebro e sua língua que tentavam se organizar e serem sinceros. Precisava dizer. Já estava dizendo. Já era óbvio o quão ridículo era, tal como tinha dito. Que passo poderia dar pra trás? – Eu estava com tanto ciúme do Peyrac por estar com você... e tanto... medo... de você me deixar... que eu achei que... que eu estúpido... que... se eu lhe abandonasse, iria doer menos em mim... - juntou o rosto nos joelhos, as mãos protegendo a nuca, como um menino que tinha medo de levar uma surra. Mas não estava se protegendo de golpes. Estava se protegendo por um momento, do olhar de decepção de Renaud, com sua figura patética enrolada em uma bola, incapaz de lidar com um pedido de desculpas. - Perdóname, Renaud. Porque se dói em mim assim... lo sé... que dói muito mais... em você... Renaud
Uma coisa era imaginar o tipo de reação que o loiro teria diante de suas palavras, outra completamente diferente era assistir aquilo bem a sua frente. Claro que imaginava que Didier nunca tinha notado determinados detalhes em seu comportamento, quem estava sempre com toda atenção no loiro era o Blanco, e não o contrário. Tomar certeza daquilo deixava o buraco em seu estômago cada vez mais notório, como se não houvesse nada dentro de si. Mas tentou afastar os pensamentos autodepreciativos da mente naquele momento. Focando sua atenção nas reações de Didier, na palidez da pele, nos olhos surpresos e nervosos, na respiração curta, e em tudo que ele fosse lhe dizer de volta. Inconscientemente fechou a latinha entre os dedos enfaixados, sentindo que o suor da latinha tinha se misturado ao seu deixando as bandagens úmidas em sua mão. Estava nervoso, a ponto do coração pulando no peito lhe deixar zonzo, mas não tinha sentindo os olhos marejarem, e apesar de estar muito ansioso e muito nervoso, ainda estava suficientemente focado em cada coisa que o outro lhe dizia. “e... nosso tempo aqui dentro já está acabando.” Estreitou os olhos e prendeu a respiração por um momento e lambeu novamente os lábios, sentindo-os ásperos para sua língua, e podia jurar que o amargor em sua boca tinha se acentuado. Pensava naquele assunto sempre, incansavelmente, a ponto de ficar exausto de saber que não tinha nenhuma forma de fugir daquilo. St. Clavier estava acabando, e quando saíssem perderiam todo contato, ele voltaria para Espanha e o Blanco viveria a vida que se espera de um Blanco. Pensar sobre isso fez seu peito doer, e lembrou das palavras de seu Frater bem em tempo do sobrenome dele ser citado na conversa. Detestava o tipo de destino traçado por sua família, e queria fazer como ele tinha dito, simplesmente “não seguir”, mas não era tão simples. Não interrompeu em nenhum momento as reações ou gestos de Didier, mesmo quando ele começou a se fechar diante das coisas que dizia, embora as palavras o deixassem mais exposto, o corpo todo reagia na contramão, e sabia exatamente como era estar se sentindo daquele jeito. Aquilo lhe deixou aflito, porque sabia que boa parte daqueles pensamentos eram conjunturas que o próprio Didier tinha tomado sem lhe perguntar sobre nada. E isso lhe deixava dividido entre estar com raiva de si mesmo por nunca ter entrado nos assuntos de seus desconfortos pessoais com Didier, da mesma forma que tinha raiva porque o loiro se incomodava mas nunca a ponto de lhe ser franco e falar diretamente. Era um sentimento de indignação e frustração tão grandes que simplesmente não conseguia ignorar, e teve de levar a mão ao peito, em um gesto sutil como se estivesse novamente pedindo um pouco de paciência ao próprio corpo, estava doendo, e estava difícil pensar: – Dói sim... muito...! Demais até o ponto de ser insuportável... mas isso é porque eu sou uma pessoa e não um cachorro. – atestou o óbvio enquanto encarava o loiro todo encolhido ao seu lado, a mão voltando para junto da outra cruzando os dedos em torno da latinha: – E diferente do que você está pensando, o fato deu lhe evitar não é uma coisa de agora, porque eu voltei a falar com Sasha. – respirou fundo, buscando qualquer reação do outro a suas palavras: – Eu sei que o nosso tempo em St. Clavier está acabando, e eu penso sobre isso sempre, e principalmente em todo final de ano letivo, desde que começamos a andar juntos., tsc..! – O Blanco soltou o ar por entre os lábios finos, mas a medida que ia falando, as expressões iam surgindo no rosto de traços comuns: – Eu sei que todo ano passado, é um ano mais próximo de acabar...! E sempre gostei de estar ao seu lado, quase todo o tempo, exceto nesses momentos... – as sobrancelhas tremiam de leve quando o moreno falava, a respiração ficou mais evidente ao final da frase, como se houvesse um peso sobre os ombros que agora estavam curvados para dentro: – Pode achar que é o estresse das provas, pressão familiar ou tudo junto...! Não sou psicólogo então não sei dizer exatamente onde começa esse desconforto... só sei que ele existe, e é sempre pior nesse período do ano...! – e a medida que o moreno mais novo ia falando, era possível enxergar um pouco mais de expressividade além da seriedade costumeira que o Blanco sustentava: – e eu arrumava qualquer outra coisa pra fazer, desde que fosse longe de você: um congresso, uma viagem familiar, definitivamente qualquer coisa... porque eu não sabia lidar com a ideia de que no fim a gente teria de ir cada um pro lado...! E ficava cada vez mais notório, o quão cansado o moreno estava, porque ele perdia o fôlego enquanto conversava e tinha de fazer várias pausas entre as frases: – A diferença é que agora, você notou, porque ao invés de viajar, eu me mantive em St. Clavier, por diversos motivos de compromissos e atividades com a Academia, e notou principalmente porque voltei a falar com Sasha. – Renaud não parecia nem um pouco feliz em falar aquela sentença, e então levou a mão ao rosto massageando o espaço entre os olhos por um momento, a expressão de desgosto no rosto: – e eu não sei o que me irrita mais nisso tudo, se é o fato de você nunca ter percebido antes, o que quer dizer que: “tanto fazia eu estar por perto ou não”, ou se o fato de que dessa vez você só notou porque estava se sentindo “ameaçado”, porque estava perdendo o seu “brinquedo” para outra pessoa... ou pior... – fez uma breve pausa, passando a mão sobre a boca e respirando fundo novamente para voltar a encarar o loiro ao seu lado: – se eu tenho mais raiva de mim mesmo, por simplesmente ter aceitado e ter deixado que as coisas prosseguissem até o ponto de terminarem assim...! Didier
Depois que tinha dito aquilo, o que ao menos achava que tinha conseguido comunicar, se perguntou se alguma de suas palavras convenceria uma alma a lhe perdoar. Porém, bem entendia que pedir perdão por machucar alguém daquela forma... seria difícil ser perdoado no fim das contas. Seria difícil que ele quisesse lhe olhar. E o silêncio enquanto esperava algum comentário de Renaud, que sempre tinha palavras na língua, estava lhe deixando cada vez mais angustiado. Crispou os lábios, pronto para vê-lo sair andando dali em silêncio, mas o corpo dele não se mexeu. Porém, quando notou uma movimentação ao seu lado, ouviu a voz de Renaud, reafirmando, reafirmando veementemente o quanto doía ter ouvido as suas palavras aquele dia. E queria estar sentindo apenas tristeza, mas o fato dele lhe responder, e lhe responder claramente que não era um cão, algo que sabia desde sempre... a pessoa Renaud estava ainda lhe dando atenção e lhe ouvindo... isso lhe dava certa esperança de que ele conseguiria lhe ouvir um pouco mais. Ergueu a cabeça dos joelhos prontamente, surpreso, os olhos claros olhando diretamente para o moreno. Porém, sentiu o corpo todo levantar um pouco mais quando ele afirmou que aquele comportamento de se afastar não tinha haver com Sasha, e sim, era deliberado... desde... sempre? Franziu a testa em estranhamento. Ele disse que pensava nisso há tanto tempo. Aquilo era muito mais tempo do que Didier poderia prever. E achava, esse tempo todo, que eram apenas coincidências, porque como desconfiaria, quando ele próprio não sabia ou não pensava, pelo menos não até então, que o tempo em St. Clavier haveria de acabar? E mesmo se acabasse, não tinha sido tão logo conheceu Renaud que imaginou que haveria alguma coisa em seus planos que não estava bem planejado. Apertou os lábios, sem saber como responder aquelas ansiedades do moreno que nunca tinha ouvido falar, talvez porque nunca tenha perguntado... nem se preocupado em saber... ou entender, do semblante que geralmente lhe parecia emocionado forçadamente, mas que ali, podia ler claramente, podia ler a dor e a frustração na expressão de Renaud. Ele estava perdendo o fôlego da exaltação daqueles sentimentos. Era difícil manter o autocontrole, era difícil não gritar, não bater e não xingar, porque era um pouco da natureza dos dois. Mas estavam só tentando conversar, conversar e resolver, mesmo em meio a sentimentos tão turbulentos. Era um sinal de sua maturidade? Porém também seria um sinal se notasse na fala de Renaud algumas pendências de seu próprio tratamento. Ele parecia reconhecer que era uma pessoa, mas... algo no que ele dizia e o que pensava não estava certo, não encaixava. Isso fez com que Didier franzisse a testa. – Lo sé que fui acomodado. Eu queria ter percebido antes... eu também queria ter evitado isso... pero... o que éramos era fácil de lidar, e você estava sempre lá. Se... se eu mudasse algo... eu não saberia lidar com a incerteza... por que sou mais covarde do que pareço...! Eu sou menos... confiante... do que pareço...! – hesitou, uma das mãos ainda na nuca, o rosto quente, mas o corpo ainda se segurando firme com os pés plantados no chão e a posição assumida desde o começo daquela conversa. – Mas eu sei desde o começo que você não é um perro... e también não estou dizendo que você é um juguete! – respondeu, a voz afirmando aquilo como se fosse óbvio, apesar de soltar o ar de modo exasperado. – Eu não perderia tempo pedindo perdão para um objeto, Renaud, é porque você é uma pessoa e que eu te machuquei que eu pedi para que viesse! Didier tentou tomar fôlego, mas não sabia mais como respirava. Compreendia porque ele dizia aquelas coisas, em nenhum momento, além da briga dos dois, tinha admitido aquilo, apesar de que era óbvio. Mas para o moreno talvez fosse importante deixar ainda mais claro porque estava ali, além de pedir desculpas. Tinha tanto a falar e a ouvir, tanto a esclarecer. Então era melhor começar a fazer isso. Esclarecer. – Nunca he percebido sua ansiedade antes porque... eu não sei... nem sempre você foi assim pra mim...! Primeiro você foi um fregón, depois pegajoso, algumas vezes foi um juguete, sí... mas eu não tinha notado que há algum tempo eu preciso de você, comigo... você é uma necessidade... você é meu companheiro de escola, de briga... é meu melhor amigo... talv... talvez seja... meu único amigo de verdade... mais até... – Didier reduziu o ritmo acelerado de sua fala exasperada gradualmente, a garganta ficando seca, o rosto inteiro doendo tal como o peito, o que fez com que levasse prontamente as costas da mão ao nariz e a boca, cobrindo-os, tentando se acalmar, porque não queria parecer ainda mais desesperado do que estava, ainda mais confuso... percebendo pela primeira vez, talvez, suas próprias impressões sobre Renaud. – Nós criamos esse jogo de perro e dono... e porque... por- porque um perro é sempre fiel... eu relevei... que eu também precisava cuidar de você... e podia só ter dito... preguntado... se você precisava de mim... o que pretendia fazer ao sair daqui... se... s- - a voz começou a falhar novamente, a dor insuportável tornando seu corpo todo pesado, mas principalmente seu rosto. Sentia que estava de dentes cerrados, tenso, mas não conseguia separá-los se não falasse: – Se queria dormir no meu quarto... era só uma pergunta... Quanto mais falava, mais lembrava das palavras de Isaac. Bem tinha dito a ele que não sabia ser nada além de um dono exigente. Pensava nas coisas que tinha feito Renaud passar, e tudo lhe trazia uma amargor na língua, tinha maltratado o suficiente o corpo a mente dele por sua própria ignorância. – Eu achava... que St. Clavier seria um inferno... e é... mas... – a expressão de Didier claramente denotava que estava segurando ainda muita coisa dentro de si, os olhos azuis e os lábios entreabertos que tentavam retomar certo ritmo ao respirar divagaram, a língua enrolando, uma expressão verdadeira de dor aparecendo em seu rosto antes de falar. – A veces... eu me pego pensando... “e se eu não voltasse”... e se penso mais... eu não quero voltar... – levou um mão sobre a outra, cruzou os dedos e colocou-os no colo, apertando os polegares com força. – Eu não quero que St. Clavier acabe... – já precisava daquela latinha de refrigerante mais que qualquer coisa, mas ignorou-a por hora, soltando as mãos e agarrando uma delas na grade ao seu lado, criando coragem de voltar-se para Renaud, o corpo todo reagindo no impulso: estava gelado, mas tudo fervilhava. Aquele peso que sentia sobre os ombros era o peso da verdade? – Mas antes disso... eu quero falar com você de novo... eu não quero fugir de você... dói demais... RE: [Drive] Estilhaços [Didier; Renaud] - Lil - 09-21-2021 Renaud
Sabia que ir conversar com Didier era mexer em todas as coisas mal resolvidas, em todas as coisas que atormentaram seus pensamentos, e desencadearam em si parte dos momentos mais assustadores de sua vida. Mas também sabia, que precisava daquela conversa, se quisesse continuar, não importava exatamente pra onde, mas estar travado em diversas coisas que só podia imaginar em como o outro se sentia, era algo que lhe deixava doente. Tinha tanto medo de descobrir que não valia nada, que tinha se submetido a tanta coisa, tanta coisa que agora ao notar toda a exasperação de Didier, podia quase acreditar que ele realmente se importava com o que acontecia ou deixava de acontecer consigo. Mas diferente do que imaginava, descobrir que o outro sempre soube que não era um “cão”, que não era um “objeto”, ou uma “coisa” que tinha de ser altamente eficiente todo o tempo, lhe deu um desgosto enorme. “então porque eu tive de passar por tanta coisa que eu não queria?” [...] “Se ele sabia todo o tempo, que eu não era uma coisa, porque me tratou como uma coisa?” [...] Ser covarde não pareceu ser uma justificativa suficiente, muito menos quando ele lhe afirmou que tinha se tornado seu melhor amigo dentro da instituição. Não faria esse tipo de coisa com nenhum de seus comparsas de gangue: Law, Jhon, Lizerd, Michel, Jonah, não trataria eles como coisas, porque sabia o tipo de pessoas que são, todos meio destroçados pela vida, mas ainda são seus comparsas. Não pediria determinadas coisas a Lilú, ou mesmo para Isaac que eram seus amigos mais próximos na sua convivência atual. O máximo que tinha feito de ato completamente estúpido e egoísta era ficar distante, como tinha feito com Sasha, ficado o mais distante possível porque não tinha nada que pudesse fazer sobre o assunto. A culpa também era sua, por ter aceitado, por nunca ter reclamado, por sempre ter se orgulhado de algo que em tese, muitas vezes lhe incomodava mais do que lhe agradava. E aquele montante de sentimentos conflitantes de indignação e frustração tudo junto e misturado, lhe acertaram como uma machadada na cabeça. [...] “porque ele fez isso comigo esse tempo todo?” [...] “porque eu fiz isso comigo o tempo todo?” [...] [...] [...] “esse é o momento de perguntar... porque?” E era impossível não sentir o peito doer diante das expressões de dor que o outro estava fazendo, porque já o tinha visto várias vezes, encolhido no escuro do próprio quarto, fingindo não estar chorando, porque estava muito dolorido. E saber que ele estava naquele estado em parte por culpa sua, lhe doía, lhe fazia parecer a mãe desnaturada do próprio, que só o fazia sofrer. Mas Renaud, estava incrivelmente machucado e magoado, não conseguia simplesmente ser complacente como sempre era, não conseguia colocar os sofrimentos de Didier acima dos seus próprios, porque aquilo era desonestidade consigo mesmo, com todo o esforço que estava tendo pra comer de manhã ou ter forças pra levantar da cama. Ele não era o único com problemas, com cicatrizes profundas e com dores todos os dias. [...] “eu estou preocupado, eu não quero vê-lo sofrer assim... mas...” [...] “dói em mim também... e eu quero cuidar dele... mas como? Se eu não consigo nem cuidar de mim!” [...] [...] [...] “Eu sei quais são os machucados dele... mas ele não sabe todos os nossos machucados...” Não tinha como negar os fatos, St. Clavier não era um paraíso, longe disso, era a prova comprovada de que não queriam nem Renaud por perto, muito menos Didier que viera de mais distante. Era uma forma de encarcerar os dois, e deixa-los sob algum controle, por motivos diferentes, mas para a mesma finalidade. “... e se eu não voltasse...” Aquela frase pegou o Blanco de supetão, porque ele lembrava de todas as conversas em que Didier sempre ressaltava que queria terminar st. Clavier bem, pra poder voltar para casa, para poder cuidar da mãe ingrata dele. Voltar para Espanha, quilômetros de distância da França, longe de si, e de sua convivência. E se ele tinha mudado de ideia, se ele pensava de outra forma, porque não tinha lhe dito? Mas se tivesse dito, aquilo mudaria em quê? Estaria construindo toda a sua carreira e vida baseado nas expectativas com Didier? Então teria a mesma sensação que tivera na sala de estar quando sua mãe lhe disse que era “decepcionante”. O pensamento lhe fez engasgar, sentiu como se tudo que tinha no estomago quisesse sair, mas conseguiu conter a vontade iminente de por tudo pra fora. Repousou a palma da mão sobre a boca, tentando por em ordem os pensamentos e sentimentos que lhe atormentavam, a cabeça martelava em dor de cabeça, e parecia em sincronia com o coração que batia forte no peito. Todo o corpo doía. A última sentença de Didier, exasperada, com o corpo todo virado em sua direção, fez com que todo o corpo do Blanco se arrepiasse. Ele tinha sentimentos fortes por si, aquilo estava cada vez mais claro, como também o fato de que o tinha feito sofrer de forma profunda. Mas também estava sofrendo, estava incrivelmente machucado, de diversas formas, com coisas que não tinha pensado ou não tinha interligado, só sabia que tudo lhe doía naquele instante. Renaud afastou a mão dos lábios, a expressão se contorcendo em uma de dor e frustração, os olhos marejaram, mas as lágrimas não caíram: – E o que você espera de mim Didier…? – a voz foi dita em tom baixo, verdadeiramente melancólico, vindo do fundo da garganta. O Blanco encarou longamente o loiro e respirou fundo, agora guiando o olhar para a latinha em sua outra mão: – Você espera ouvir que eu lhe desculpe? Que eu lhe perdoe? Eu queria poder dizer isso... mas eu não consigo... porque isso seria injusto comigo mesmo...! – O moreno mais novo levou a mão livre aos olhos cobrindo-os por um momento, enquanto mantinha os ombros curvados pra dentro: – Eu não consigo só te perdoar... eu gosto tanto de você! Passei por tanta coisa que eu não gostaria de passar... só pra poder ficar por perto, com a ideia de que se eu não fosse bom o suficiente você iria me jogar fora... como a minha mãe faria... como a minha família faria... – a voz falhou por um momento e precisou respirar fundo, os olhos ardendo escondido por baixo da mão: – pra você vir aqui, e me dizer que já sabia que eu não era um cão, que eu não era uma coisa.... então me diga... – o Blanco tirou a mão por sobre os olhos avermelhados, marejados já na iminência de chorar, mas sem de fato derrubar uma lágrima: – Porque você continuou? – mas não parou só na pergunta, a expressão se contorcendo em raiva e decepção: – Porque simplesmente não falou comigo? Você disse que eu sou seu melhor amigo, mas que tipo de amigo faz isso? Eu não faria isso com Isaac ou o Sasha ou qualquer um dos caras do bando...! – estendeu a mão a frente, como se as pessoas que estava citando estivessem bem ali, mas o Blanco não conseguia elevar o tom de voz, só ficava mais e mais claro, o quão frustrado o rapaz estava: -- lhe dói, e ver você assim me dói também... porque eu já vi você chorar assim várias vezes no escuro, por causa da ingrata da sua mãe... que lhe largou aqui... e eu me sinto fazendo a mesma coisa que ela... Você acha que isso me deixa feliz? Você acha que eu fico bem com isso? Eu não fico! Eu não estou! Eu estou péssimo com tudo, e não é só você, é com tudo! TUDO!... definitivamente tudo…! Respirou de forma intensa, e esfregou os olhos evitando que começasse a chorar, a garganta estava queimando e o corpo estava completamente gelado e tremendo de leve, o que ficava mais evidente nas mãos. Nunca tinha ficado tão exposto assim na frente de Didier, e não fazia ideia do que ele iria fazer depois, se iria embora, se só aceitaria ou se continuariam conversando, ainda tinha tanta coisa pra falar, mas já estava tão exacerbado, queria só conseguir resolver tudo e ficar bem de novo. Estava farto de estar se sentindo mal. Didier
O corpo inteiro de Didier tremeu ao ver o rosto de Renaud se contorcer em uma expressão de choro. Uma expressão de choro, que para o loiro deveria ser algo inédito, já que mesmo surrado, mesmo frustrado, mesmo feliz, ele simplesmente não tinha feito essa expressão em sua frente. Porém ver Renaud tão vulnerável, especialmente depois de pedir para voltarem a se falar, fez com que Didier percebesse que talvez não houvesse chance alguma disso acontecer. Encarou-o, aos poucos a expressão exasperada mudando para esconder um pouco de sua dor, da que sentia no topo da garganta e deixava seu rosto todo quente e a mente vazia. Como podia demonstrar sua dor se a de Renaud era tão mais intensa que a sua? “E o que você espera de mim, Didier...?” Tinha ido até lá com muitas expectativas. Talvez nenhuma boa, pois diferente de Isaac, que colocava tudo no preto e no branco, sabia que não seria tão fácil recontactar Renaud, que pelas coisas que disse a ele, dificilmente ele iria querer olhar em sua cara. E não tinha sido tão diferente do que imaginava, já que tudo que ouvia, no fim das contas, lhe indicava que ele só queria não ter mais que ouvir aquelas coisas dolorosas de si. Nesse momento, reconhecia o quanto o afetava, e já sabia, o quanto o afetava, mas como queria que ele não sentisse tanto por uma pessoa confusa e covarde como era. Será que só sabia se relacionar com os outros causando dor? Já tinha sido egoísta com as crianças que tinha decidido cuidar, com Isaac, com sua mãe, e agora vendo Renaud, percebia o quanto prezava a conveniência dos relacionamentos em que sairia ileso. A diferença é que não estava ileso. Doía, doía muito, em todo seu corpo, de um jeito que não sabia nem de onde partia aquela dor. Mordeu o próprio lábio inferior e franziu a as sobrancelhas para dentro, e diante das perguntas pontuais de Renaud, se esperava ser perdoado, abaixou a cabeça e sacudiu negativamente de modo veemente. Porque sabia que não tinha como isso acontecer. Somente se voltassem aquele status de cão e dono, só então sabia que seria perdoado, ou melhor, que todas as coisas horríveis que fez seriam ignoradas. Mas não era isso que queria, pois havia sido apresentado tantas instâncias melhores para o que os dois poderiam ser... que estavam, claramente, fora de seu alcance, definitivamente. Ergueu a cabeça de súbito quando ele passou a explicar sobre tudo que tinha feito para estar consigo sentiu um buraco se abrir devagar dentro de si. Aquele rosto, aquelas palavras, aqueles sentimentos. Eles eram tão dolorosamente familiares que seu corpo inteiro passou a tremer. Os olhos azuis se abriram de surpresa, e não podia desafixá-los do moreno desesperado a sua frente, aos poucos percebendo por correlação que o mal que tinha feito tinha sido muito, mas muito mais profundo do que simplesmente jogá-lo fora com palavras duras na sala do Conselho Estudantil. Por que tinha continuado com aquela farsa instituída de cão e dono? Era isso que ele queria saber? Por que tinha feito tanto mal a ele? Sabia achar aquela resposta por si mesmo? Ele estava perguntando porque Didier era uma pessoa tão horrível, mas não sabia fundamentalizar aqueles sentimentos, talvez não soubesse explicá-los nunca. Levou a mão até a têmpora, sentindo-a tremer contra seu rosto, uma dor de cabeça lhe atingir de súbito pois segurava, com todas as forças que tinha, as lágrimas em seus olhos, que estavam cada vez mais vermelhos, mas que, assim como as de Renaud, não saíam. Não poderiam sair. Sua respiração, já acelerada, ficou cada vez mais sonora, a medida que ele prosseguia, como se tivesse corrido uma maratona, mas esteve sentado esse tempo todo. Franziu a testa em reação automática quando ele mencionou a sua mãe, dizendo, com todas as letras, que ela era uma ingrata que tinha lhe abandonado ali. Levantou a mureta e ficou de pé, até esquecendo a latinha de refrigerante em seu colo, que caiu no chão e por pouco não estourou. Mas Didier não tinha vontade alguma de rebater aquele comentário e apenas fechou uma das mãos em volta do próprio abdômen, a expressão de raiva tremendo e várias vezes fazendo parecer que iria chorar. Até abriu a boca, mas nada além de uns ruídos baixos saíam. O loiro passou a outra mão no rosto. Estava chorando? Não, estava seco. Seus olhos estavam marejados, mas seu rosto estava seco. Mas ele sabia dizer quando estava chorando, mesmo quando não estava. Por que foi diabos que esse tempo todo não conseguiu dizer todas as vezes em que Renaud estava chorando, quando não estava? Esse tempo todo, tudo que queria era crescer e ser forte como sua mãe. Queria se vestir como ela, falar como ela, ser firme como ela, mas... era exatamente igual a ela, e agora queria poder agarrá-la pelo pescoço, ou se pudesse, se agarrar pelo pescoço e apertar por todos os defeitos que não percebia. Que não eram dela. Eram seus, porque era cria dela, ou porque era sua própria pessoa. Cobriu a boca com a mão, mas queria tanto falar, e repetir, as mesmas palavras de Renaud. Porque para Didier, por que raios era tão normal brigar com alguém ao invés de conversar? Ou dormir com estranhos? Ou impor obediência por violência? Ou sentir tanto medo de ser jogado fora? Ou machucar antes de ser machucado? Ou... ou... ou por que tinha feito aquilo tudo, como se não bastasse, com alguém que já tinha tanto medo de ser abandonado, com alguém com tantos traumas, com alguém, que assim como a si mesmo, precisava de alguém que também lambesse suas feridas ao invés de terminar de abrí-las? Sentiu, ao piscar, que uma lágrima caiu do seu olho. Prontamente, como se aquilo fosse algo estritamente proibido, enxugou as bochechas e os olhos com ambas as mãos, sentindo-os arder, da força que fez com a palma da mão, os olhos ainda mais avermelhados. – Não... não... não, não, não...! - se negava a chorar na frente dele, porque sabia que ele queria chorar e não o fazia. Na frente da pessoa que tanto tinha lhe machucado. Que direito tinha de fazer o mesmo, depois de tudo? Aos poucos, tal como não tinha força para manter aquele diálogo de pé, jogou o corpo para trás e sentou no chão mesmo, assim se pondo em um lugar abaixo de Renaud, pois era ali que deveria ficar se quisesse falar qualquer coisa. – Eu faria... eu faria... eu fiz... tanto mal... pra você... pra vocês... porque... eu não sou o Isaac... nem o Sasha... eu sou ingrata. Não... eu sou ingrato. Ergueu os olhos claros para Renaud, não sentindo vontade de levantar dali, mas sentindo uma vontade imensa de abraçá-lo, pois era a única coisa que sabia que funcionava bem em si, que os abraços geralmente acalmavam as pessoas. Embora seria pura crueldade de si fazer isso, quando também era porque ele chorava. – Mas eu... não sei porque eu faria isso... e queria te dar uma resposta, mas eu não sei... eu não sei porque... eu não percebi antes que... não era normal... mesmo que... mesmo que a gente risse... e mesmo que... a gente cuidasse dos ferimentos um do outro... e mesmo que... tudo parecesse normal, que não era normal... e que não era só isso... que seria suficiente pra deixar pessoas como eu ou você... bem. – a voz escapou trêmula e cansada. Podia entender agora verdadeiramente porque não poderia ser perdoado. Podia entender, verdadeiramente, agora, porque não conseguia perdoar quem também lhe fez tanto mal. – Peço desculpas... por ter te tratado tão mal... relevado que você também tinha suas vontades, e que não merecia, a despeito dos meus problemas... pisar em cima dos seus, Renaud. Porque não sou tão idiota a ponto de não ter notado, esses anos todos, que você não tinha... problemas. Mas... eu podia ter feito mais... eu podia... podia não ter acumulado neles... – Didier colocou os pés no chão e apoiou o cotovelo no joelho, aproveitando para ter um lugar onde encostar a testa que latejava. – Eu não mereço seu perdão... eu não vim atrás dele... só... precisava retratar... o que disse... mas não sabia que era tão difícil retratar...tudo... tudo que eu fiz... e pior saber... que eu não tenho uma resposta pra algo que deveria ser... tão óbvio... – olhou para o moreno, apertando os lábios mais uma vez apertados, a expressão de choro que ía e voltava com a expressão de cansaço, e um longo suspiro de Didier. – Eu queria... ser normal... ser... alguém que poderia... - fechou os olhos por um instante, lembrando de como Isaac tinha descrito os dois, e a voz ficou presa no fundo da garganta. – ... ter sido seu... amante... ou... que saberia... te amar... de um jeito... que não fosse tão egoísta... - sentiu que segurava as lágrimas, mas era difícil até falar. - Eu vou aceitar... o que você disser sobre tudo que te fiz... porque sei que você não vai mentir... sobre o mal que eu te fiz... e nem... sobre o que você sente... e sobre não me perdoar... mas eu espero que aceite, e eu vou bater o pé... pra que você ouça... – a voz ficava cada vez mais baixa e chorosa, a expressão parecendo ditar o sentimento de Didier, além das lágrimas, que não caíam. – Que apesar de ter te tratado... como un juguete... o como un perro... que eu te amo muito, Renaud... isso... é meu sentimento... e errado como eu tenha mostrado... eu não peço desculpas... por ele. Só não queria se sentir a pior pessoa do mundo dizendo isso naquele momento. Mas se não havia chances de voltarem a se falar, de ser perdoado, de ser uma pessoa melhor, que ao menos dissesse algo ali da qual não se arrependeria. Renaud
Renaud estava verdadeiramente abalado, mas também não imaginava que a conversa fosse ter qualquer outro efeito que não mexer em um montante de sentimentos, que ainda estava aprendendo a lidar, a reconhecer, a propriamente se deixar sentir. Mas permitir que aquela parcela de sentimentos saísse do fundo de sua mente, era um processo muito doloroso. Nas seções na sala do Dr. Vlahos não era fácil confrontar, na companhia de Sasha não era fácil de falar, e sempre que voltava aquele terreno de emoções era doloroso. Porque pra precisar concertar isso tinha de doer tanto? Se sentia um garoto de catorze anos de novo, que pensava saber como eram todos os tipos de dores que existiam no mundo, até ser apresentado a outro nível de sofrimento, e só então perceber que existem tantas, mas tantas formas de se machucar alguém profundamente. “Porque tudo tinha de ser dessa forma?” [...] “Porque nós tínhamos de nos machucar tanto no processo?” [...] “é realmente normal sentir-se assim, todo o tempo?” [...] [...] [...] “se você sente então é normal...” E não esperava outra reação do loiro quando citou a mãe dele na conversa, esperava em verdade apanhar dele, afinal tinham começado aquele relacionamento estranho com uma surra, justamente por causa da mãe dele. Seria no mínimo tragicômico se acabassem aquele relacionamento com uma surra, devido a mãe dele ser citada de novo. Mas dessa vez não era um garoto de quinze anos simplesmente xingando uma mulher que desconhecia. Sabia em verdade, que embora o loiro fizesse todo o possível para ser o filho ideal para ela, de todas as vezes que Didier tinha ido receber ligações da mãe, não havia uma única vez que se lembrasse que ele não tivesse ficado abalado. Porém, na contramão do que imaginava, o loiro não lhe bateu, embora pudesse ver no punho cerrado, que a força para tal estava ali, ele não o fez. “porque?” [...] “Ele não vai defender a mãe?” [...] “ele não vai me bater?” [...] [...] [...] “E porque ele bateria se é somente a verdade?” Para a surpresa do Blanco, ao invés de despojar sua raiva sobre o moreno mais novo, Didier voltou-se novamente para si mesmo, caindo sobre os joelhos como se a força para sustentar suas pernas tivesse sido apenas uma reação automática do corpo, e não algo real. Tão logo veio, se esvaiu. Pensou, jurou que o tinha visto chorar, mas o loiro não estava, as expressões dele iam de dor a tristeza profunda, sabia reconhecer aqueles sentimentos em si mesmo, e sabia reconhecer os mesmos em Didier, muito embora, os dois estivessem mais expostos do que jamais estiveram um na frente do outro. A dor de cabeça ainda lhe cortava da nuca até a frente, como se tivesse sido acertado ali, com algo forte o suficiente para lhe atordoar, se sentia todo o corpo gelado como se fosse incapaz de se mover, diante do que o loiro lhe falava. Ele não estava fazendo muito sentido, mas sabia exatamente como era estar naquela posição, de não ter as respostas, no final das contas, Didier estava tão perdido quanto a si mesmo. Ele não tinha como lhe dar uma explicação, porque nem ele sabia o que estava acontecendo ou como as coisas se deixaram chegar onde estavam. Aquele sentimento fez sua mente latejar ainda mais, porque se conseguia se enxergar na confusão de Didier, aquilo lhe atormentava também... porque não podia ser para ele, o que por exemplo Sasha era pra si. Porque não estava conseguindo ajudar a si mesmo, como faria isso por Didier? Mas definitivamente sentiu o coração pular no peito e a respiração travar quando ele citou que queria que fossem “amantes”. E diferente do que imaginou, saber que ele lhe amava, não foi uma revelação que lhe deixou imediatamente feliz. Não sabia discernir nada do que estava sentindo. Tudo, tudo estava misturado ali. [...] [...] [...] “É Frustração por ele não ter dito isso antes.” “Receio se é realmente verdade. Afinal ele sabe mesmo o que é amar? “ “Medo de não ser capaz de devolver mesmo ele não merecendo. “ “E principalmente Indignação, porque que tipo de amor faz uma pessoa sofrer tanto no processo? “ [...] [...] [...] “Nós precisamos disso. Então, vá em frente.” [...] [...] [...] Não que pudesse conter a expressão aquela altura da conversa, os olhos escuros estavam vidrados na figura do loiro, todo encolhido, daquela forma tão miseravelmente frágil. E apesar de tudo lhe doer por dentro, a memória correu pra anos no passado, quando viu Didier chorando no quarto escuro por causa da mãe dele, tudo de novo, do sentimento que tivera de que poderia acalma-lo de que poderia cuidar dele, de que era capaz de ser pra outra pessoa um ser confiável um porto seguro. Sem qualquer controle as lágrimas caíram, a respiração ficou curta, porque não tinha como conter aquele montante de sentimentos conflitantes, a muitos dias não sentia como se pudesse ter qualquer controle sobre si, como se pudesse prestar qualquer apoio a ninguém, nem a si mesmo, quem dirá para outra pessoa. As lágrimas desciam pelo rosto, fazendo caminho pelo queixo até o chão: – Didier... Eu não posso resolver os seus sentimentos... eu não posso fazer isso por você... eu mal dou conta dos meus.... mas... – a voz falhou e saiu com notório tom de choro. O Blanco deixou a latinha de lado e desceu da mureta sentando-se no chão também, pra ficar de igual pra igual com o loiro, estava cansado de ficar balizando quem era maior ou melhor, ou quem era mais ou menos merecedor. Renaud passou as costas da mão com bandagens sobre o rosto, que ficou prontamente vermelho, mas não conseguiu parar de chorar, as lágrimas caindo, a respiração acelerada. Mas buscou respirar fundo, puxando o ar pra dentro dos pulmões, porque precisava juntar toda a força que tinha e encarou o loiro a sua frente, levando as duas mãos ao encontro do joelho dele, em um toque leve, com os dedos trêmulos, queria passar mais certeza no que estava fazendo, mas estava apenas fazendo o possível: – Eu aceito as desculpas...! Não têm como eu não lhe desculpar, quando eu também amo tanto você...! -- o Blanco fez uma pausa porque queria que Didier lhe encarasse de volta, não queria abraça-lo queria apenas tocar nele e saber que aquilo era real, que de fato estava falando isso para um Didier que existia de fato. E então apoiou a palma das mãos no joelho do outro, as mãos suadas, a bandagem úmida, as mãos trêmulas, a expressão ainda dolorosa, mas com alguma determinação: – Mas eu quero que você entenda... que bote nessa sua cabeça... que só o fato de gostar, ou de “amar” não resolve tudo! – não sabia exatamente onde aquilo iria acertar o loiro, mas sentia que não era o momento de resguardar o pensamento, era o momento de falar, todas as coisas, por mais dolorosas que fossem. Porque não era mais um garoto de catorze anos, sabia muito bem que doía, e iria continuar doendo se não conversassem, porque sabia que não falar sobre, também não resolvia. Porém, sabia que acima de todos esses sentimentos negativos, tinha tido um vislumbre, uma fagulha de sensação como se pudesse mudar alguma coisa com palavras, como se pudesse ajudar Didier a mudar alguma coisa nele, porque palavras estavam lhe ajudando a melhorar. E precisava continuar acreditando que tinha como melhorar, e se aquilo era verdade, então por mais que doesse falaria, porque aquilo podia ajudar o outro em alguma coisa: – Só amar não é suficiente... – o Blanco falou aquela sentença com um gosto amargo na boca: – Se somente “amar” fosse o suficiente nós teríamos dado certo muito antes...! – porque na verdade nenhum dos dois sabia direito como era amar, estavam num processo mais auto destrutivo do que de fato ajuda mútua, afastou as mãos de Didier como se precisasse dar espaço pra que ele digerisse a ideia, e levou as duas mãos ao rosto tentando conter as lágrimas: – Entenda, nós não estaríamos aqui, machucados e magoados, tentando falar sobre coisas que sequer sabemos nominar... não é só culpa sua... ou só culpa minha... ou das circunstâncias que nos colocaram aqui... é porque nenhum de nós dois sabe como amar... eu fiquei me anulando... ao ponto que eu estou nesse “estado” – apontou pra si mesmo, sem deixar claro que “estado” era aquele. O loiro poderia entender como exaltado, quando e verdade o Blanco se referia a estar doente: – E você sequer consegue olhar pra mim enquanto fala que me ama... você precisa de ajuda Didier...e eu sei que você não gosta de ser ajudado, que não gosta de ser fraco... mas se você não gosta de como estar agora, de como as coisas estão... você tem de parar de abaixar a cabeça... tem de parar de se esconder... porque é isso que torna as pessoas covardes...! O Blanco puxou o ar com força como se estivesse ficando sem fôlego de falar aquelas coisas, mas precisava continuar, se parasse de falar, não conseguiria terminar: – e é uma ajuda que eu não tenho condições de lhe dar... eu não posso mais ter erguer sozinho... eu queria poder fazer como sempre, lhe abraçar no escuro e lhe contar uma história... pra você esquecer que está no escuro...! Afugentar seus medos...! – a voz falhou e as lágrimas irromperam com mais intensidade, um choro copioso e silencioso: – queria dizer que vai ficar tudo bem... mas...mas sou eu que estou com medo de ficar no escuro agora...! Era patético dizer pra alguém ter força de encarar os próprios medos, quando estava tão assustado também. Mas queria que aquelas palavras fossem o suficiente pra que Didier levantasse a cabeça, pra que buscasse alguma força pra ele mesmo, porque embora lá no fundo tivesse aquele sentimento de querer cuidar do outro, sabia, que não tinha condições de fazê-lo. Não podia se anular mais, não podia simplesmente dizer que iria fazer, quando o próprio Blanco estava tão necessitado de ajuda também. Queria mas não podia, mas mesmo dentro do seu limite emocional, ainda estava tentando... Não sabia se era a coisa certa a fazer ou a dizer, só não estava baixando a cabeça, ou pelo menos acreditava não estar baixando a cabeça, porque não queria ser covarde consigo mesmo e nem com o loiro, por mais que doesse, preferia tentar falar... e como era difícil falar tudo aquilo. Amar deveria ser mais fácil e menos complicado. Didier
O que tinha acabado de dizer? Estava se perguntando isso, e os últimos dois segundos repetiam incessantemente em sua mente, mas o barulho de sua voz era só ruído, pois estava confuso e cansado e dizendo coisas sobre as quais não fazia ideia, mas eram seus pensamentos, sem filtro, sem reflexão, impulsivos e impensados e dolorosos. Eram eles sendo despejados em Renaud ali o tempo todo. E eram honestos também. Tão honestos que não queria mais pensar sobre quais eram, o que tinha deixado aberto para o outro, o que sua boca tinha se dado o luxo de por em alto e bom som. Tinha medo que tivesse dito que só piorasse a situação dos dois. Até mesmo o que lembrava, por alto, ser uma expressão singela do que sentia por Renaud. Se... se isso machucasse nele, se isso apertasse o gatilho da ira dele, lhe restava sofrer, o que fosse. Era só assim que sabia pedir desculpas. A voz de Renaud, que antes parecia frágil a ponto de quebrar, agora estava trêmula, arrastada, como a respiração curta e alta dele. E Didier, que não queria olhar para nada além do escuro entre seus braços, ergueu o rosto e encontrou o rosto de Renaud cheio de lágrimas. Engoliu em seco, pego pela imagem que não conhecia, como se aquela fosse outra pessoa a sua frente, mas se fosse, não sentiria como se estivessem torcendo-lhe por dentro, apertando firme a boca do seu estômago, lhe fazendo passar muito mal. Sentiu os dedos moverem-se em resposta, mas não os tirou do entorno de seu corpo. Não se sentia no merecimento de tocar Renaud de modo algum, mesmo que se sentisse mal, tal como ele. Embora... nunca como ele, que já não conseguia conter aquela tristeza viceral que lhe escapava em lágrimas. Como ele poderia dar conta dos seus sentimentos? Nem Didier dava conta deles, certamente não pediria isso de Renaud. Mas vê-lo sair da mureta para chegar mais perto de si, ficando, finalmente em sua mesma altura, a angústia lhe apertou um pouco menos que antes. Não que estivesse salvo, mas... ao menos ele ainda conseguia chegar perto de uma pessoa tão asquerosa quanto sabia ser. E mais que isso. Conseguia tocar seus joelhos. Eram só seus joelhos, mas era um toque. Era um toque da mão áspera, o outro das bandagens, mas eram toques. E ele estava ali, a sua frente, de verdade, ouvindo todas aquelas verdades dolorosas e percebendo que pessoa horrível era. Mas ele lhe desculpava. E ele também lhe amava. Aos poucos, a expressão cansada tornou a se retorcer, os dentes cerrados e os olhos também, e a respiração profunda, tentando conter aquele aperto intenso em seu peito. E como se reafirmasse que estava ali, e estava mesmo dizendo aquilo, Renaud tornou mais presente o toque em seus joelhos. E embora não quisesse olhar para ele, a pausa e a pressão firme dos dedos trêmulos dele em seu corpo lhe obrigaram a encará-lo de volta, os olhos azuis marejados, os lábios trêmulos cheios de expectativa. Mas entendia por aquela expressão que era impiedosamente triste dele, por mais que fosse dele, e por mais que fossem palavras e mãos encorajadoras... entendia que não era porque ele lhe desculpava por seus erros que tudo de repente voltaria ao normal. O que, nesses anos todos, tinha sido normal entre os dois? Como poderiam voltar a ser o mesmo um com o outro se serem o mesmo um com o outro tinha desencadeado isso? O calor lhe apertava cada vez mais a garganta. E as palavras de Renaud foram tão certeiras que engasgou um soluço alto no topo da garganta, a expressão desconfortável, os olhos azuis desviando por um instante para outro lugar para que pudesse conter a vontade de, tal como ele, chorar. Queria tanto chorar. Estava prestes à, mas segurava-se com todas as forças. E também com todas as forças, respondeu com um maneio discreto de cabeça que “sim”, que entendia o que ele estava dizendo. Que se amar resolvesse tudo, não estaria ali. Que se amar resolvesse tudo, não teria aquela conversa. Que se amar resolvesse tudo, teria aprendido a ser um namorado de verdade e dado a Renaud tudo o que precisava antes de ter que ouvi-lo lhe ensinar que não bastava aquela merda de amor para que dessem certo. E ele seguiu lhe explicando tal como a resposta dele lhe preencheu a cabeça com todas as circunstâncias que levaram os dois até ali naquele dia, e que levaram os dois a mentir e a se anular, a estarem em negação sobre o que queriam de verdade. E se a porra do amor não tinha resolvido até então, não seria agora que veria tudo pintado de rosa. Ainda queria, queria muito, abraçar Renaud, mas ainda tinha muito, muito medo e fazê-lo e piorar tudo. Foi tudo aquilo que era ou que tentou ser que tinha deixado ele “naquele estado”, que imaginava fosse aquela mesma tristeza profunda que tinha lhe abatido. A diferença é que naquele momento ele ainda achava forças para lhe explicar por A mais B o que se passava entre os dois. E tudo que podia fazer era esfregar os olhos para que não chorasse, e alternar entre isso e ouvir Renaud lhe dizer que precisava erguer a cabeça e assumir que precisava de ajuda. Precisava de ajuda. Mas não sabia quem diabos iria lhe ajudar ou o que diabos iria lhe ajudar quando nem sabia o que estava sentindo, além de uma decepção imensa em si mesmo, e o desespero de ter perdido o moreno e a si mesmo com isso. Encarou-o porque precisava ouvir aquelas palavras, para não ser mais um covarde, para presenciar o que era a intensidade dos sentimentos dele, porém mais uma vez, as palavras pontuais de Renaud lhe corroeram por dentro. Ele não podia lhe abraçar no escuro, como queria todos os dias desde que tinha jogado ele fora, ele queria lhe abraçar e contar uma história... talvez sobre um homem que não sabia as cargas preciosas que carregava e descarregava, e que não entendia por inteiro, mas que agora lhe aparecia como uma memória que se naquele dia foi irritantemente reconfortante agora lhe pareceu um lembrete de que estava sozinho de verdade. Mas tal como estava sozinho, ele pelo visto esteve sozinho esse tempo todo, e agora tentava enfrentar isso de frente. Ergueu as mãos para o rosto dele, os dedos trêmulos hesitando em tocá-lo, mas encarava-o tal como ele encarava todo o mal que tinha sido lhe feito e que era representado pela figura de Didier que aos poucos notava o qual cruel era. Os polegares foram até o rastro das lágrimas de Renaud e limpou com cuidado, ainda com medo de tocá-lo, porque chorando ele parecia tão frágil que iria quebrar no momento em que lhe tocasse. Também queria poder abraçá-lo, e contar uma história banal e acalmá-lo. Mas tinha apagado aquela luz para ele. E não sabia acender de novo. A voz ficou no topo da garganta, mas a cabeça e os olhos concordaram com tudo que Renaud disse. Porque lhe restava aceitar. Aceitar os limites e as condições do perdão dele, e fazer o que ele tinha dito. Buscar ajuda. E em geral reconheceria sua própria incapacidade e se resignaria a ela, mas ele disse que Didier precisava de ajuda, então.. ainda sim, devia lutar? – O-obrigado... – respondeu, como podia, aquelas palavras, as mãos escorregando do rosto de Renaud de volta para perto do corpo de Didier, os ombros baixos e o corpo quase jogado mostrando que o loiro ainda estava muito abalado por aquelas palavras. – ... Por não negar... obrigado... por me amar mesmo assim... e por tentar cuidar de mim... por se preocupar... – Didier suspirou profundamente, aos poucos rendendo o corpo ao cansaço daquela conversa, físico e mental. Só dizer aquilo lhe doía, pois era atestar que não havia outro rumo para os dois senão aquele. A voz ficou ainda mais baixa, só para Renaud. – Eu queria... poder te ajudar também... mas... eu sei que agora... só consigo lhe causar dor...! Então... quero aprender... como eu faço pra não lhe causar mais dor... e como... não ser mais... assim...! – a som de sua voz tremulou, pois reconhecia que aquele “assim” não era bom para nenhum dos dois. Olhou para baixo, para as mãos de Renaud, para aqueles dedos que tremiam, para aqueles dedos enfaixados, e, tocou, tão suave quanto se podia tocar, com pouco mais que dois dedos, a mão enfaixada, e até queria se aproximar mais dela, mas não conseguia. Seus dedos foram até os pulsos cobertos pelo paletó de Renaud e manteve aquele toque que era apenas um toque, que não conseguiria segurar, mas que lhe confirmava a presença. Os olhos azuis, tal como ele tinha indicado, olharam direto para o moreno, e mais uma vez sentiu a vontade falhar pois encará-lo lhe dava vontade de chorar, ao mesmo tempo, sem ter forças para isso. E conformou o olhar como o de dúvida, a cabeça levemente pendendo para o lado, olhando Renaud como uma criança, pois quanto aos próprios sentimentos era apenas um infante ainda. – Mas... posso parar de fingir... que não me importo...? Posso... me preocupar com você...? – perguntou, sabendo um tanto que aquilo ia contra o que Renaud queria de si. Queria que Didier cuidasse de si mesmo, queria ter espaço para se recuperar de tudo que estava acontecendo ao seu redor. Mas seria impossível negar que se preocupava. Não queria mais ter que fingir que nunca esteve prostrado como um covarde do lado de fora da enfermaria, mas não queria atrapalhar. Só queria ter liberdade para demonstrar que sentia muito mais do que sentia por um cão. Sentia porque tinha apreço por ele. De seu jeito. – Eu não tenho forças... pra lhe ajudar... mas estou cansado... cansado de fingir que não quero saber... eu me importo... com sua dor... e sei que... você se importa com a minha... - suspirou longamente, mantendo-se aberto, sem se fechar mais em si mesmo. Não tinha mais motivos para se fechar ou se negar. O que não tinha dito ali, para Renaud, sobre si mesmo? – Eu prometo... que vou cuidar de mim, mas... eu posso ser... alguém que me importa com você também...? Eu não quero... te sufocar mais... mas... – respirou fundo. Nem estava mais pensando, mas...estava dizendo o que achava que precisava dizer. Enquanto podia. Renaud
Renaud estava uma bagunça e ao mesmo tempo não estava, sabia muito bem, como era parte do caos que sua mente conseguia chegar, entre sentir nada e sentir tudo multiplicado por mil vezes. Naquele momento, estava se sentindo como em uma seção do Dr. Vlahos, sendo que sem as perguntas certas que lhe faziam pensar, ou como ficava, quanto estava em uma conversa com Sasha, mas sem ter a mesma sensação de conforto e segurança que o outro lhe passava. Mas com certeza estava exposto, falando sobre coisas que não gostava de pensar, e que normalmente jogava para o fundo da mente, constantemente ignorando, mas que por não ter mais para onde fugir ou para onde segurar, tinha de encarar. E por ter guardado tanta coisa por tanto tempo, tudo aquilo lhe doía profundamente ter de lidar. Tinha pedido paciência ao corpo, e ele estava lhe dando todo esse tempo, apesar de doer, de sentir frio, da dor de cabeça constante, agora dos olhos marejados, do coração pesado no peito, ainda sentia como se conseguisse mover o corpo. Embora todo gesto ali fosse feito com todo cuidado, porque afinal, com tanta coisa sendo posta pra fora, não a toa suas faces mais frágeis também estavam ao alcance de um toque. Qualquer movimento errado ali, poderia estragar tudo, quebrar o resto... ou pelo menos pensava assim, até sentir os dedos de Didier irem em direção a seu rosto. Não era como se nunca tivesse sentido cuidado vindo das mãos do outro, era porque queria ser cuidado com todo aquele cuidado sempre que lhe doía. Respirou fundo, e fechou os olhos, deixando-se tocar, sem oferecer qualquer resistência. Embora não conseguisse conter o montante de sentimentos de saudade e frustração que lhe tomavam, queria simplesmente entregar nas mãos do outro, e gritar pra ele. “cuide de mim por favor!” [...] “nós sabemos que não é possível” [...] “eu quero que alguém cuide de mim...!” [...] “ nós já estamos cuidando... “ [...] “sim... nós já estamos nos cuidando...” E cortando seus pensamentos, quando as mãos de Didier se afastaram de seu rosto teve de voltar a encara-lo em tempo de ouvir aquelas palavras. Ele queria achar um jeito de não lhe machucar mais, de ser diferente... e isso fez seu peito apertar. Tinha aprendido a gostar de Didier de todas as formas possíveis, mas tinha tido a certeza que ele era insubstituível para si quando o viu frágil, humano, capaz de ser tocado, capaz de ser alcançado, vulnerável, e enxergou em si mesmo, a possibilidade de lhe dar algo em troca, de quem sabe, poder ocupar o lugar como uma pessoa “insubstituível” também. Não sabia exatamente que expressão estava fazendo, mas sabia que uma a uma as lágrimas rolaram, por seu rosto, já não sentia mais nenhum cheiro e seu rosto estava quente. O toque em sua mão trêmula, lhe atentou para o gesto involuntário do corpo, e prestou atenção em cada gesto sutil do loiro, na forma como ele pedia permissão pra se aproximar, como se ele não quisesse deixar aquele toque sútil, como se aquilo fosse o restante de vínculo que tinha restado. O encarou de volta, os olhos escuros nublados, pelo choro constante, e a frase que se seguiu da boca do outro, fez com que arregalasse os olhos de forma exagerada em surpresa. Ouviu o restante das palavras, do pedido do loiro pra poder se manter por perto, pra poder ser alguém que se importa. Tinha passado todos esses dias morrendo de medo dele não se importar, dele não ligar para o que acontecia consigo. Não tinha sequer coragem de encara-lo no corredor imaginando que receberia um olhar de desdém, que escutaria o quão “decepcionante” era. Que a resposta imediata do corpo foi tremer, como se houvesse algo se contorcendo dentro de si, a expressão se contorceu, que não dava pra saber se Renaud estava feliz ou triste diante daquilo. A reação seguinte do corpo do Blanco foi automática, a mão girou, e segurou firme no pulso do loiro, puxando-o em um solavanco, para si, como se estivesse tirando Didier de dentro da água, e o envolveu em um abraço apertado. Com força, talvez mais força do que deveria, porque tinha um sentimento de saudade, misturado com tristeza, mas lá no fundo tinha um sentimento de alívio. O Blanco se ajoelhou e afundou o rosto na curva do ombro do loiro, não estava sentindo o cheiro dele, mas sabia que ele era real, que estava em seus braços, que apesar de quebrado, sabia que aquilo tinha como ser consertado, porque eram duas pessoas e não duas coisas, tinham capacidade de se regenerar, de se curarem, só precisavam de tempo... e de paciência: – desc-culpe...! Perdão...! E-eu devia ter falado ant-es! Eu devia ter lhe dito... tudo... muito antes...! Desc-culpe por ser desse jeito... eu não sei ser de outra forma...!— a voz saia completamente abafada e entrecortada com soluços, e apertou ainda mais o loiro , roçando o rosto contra o ombro do outro: – obrigado...! obrigado por não desistir de mim...! por me amar...! por tentar ser melhor...! por não me achar “decepcionante”... por ainda me querer por perto...! obrigado...! – o ar faltou em meio aquele desespero de palavras entrecortadas e falhadas, mas folgou o aperto, acariciando as costas do o loiro com as mãos abertas, a testa descansando sobre o ombro do outro : – e por favor... por favor... não desista de você mesmo... se cuide... eu vivo preocupado com você... não tenho como cuidar de mim... se eu souber que você estar mal... eu vou ficar bem... mas por favor... de verdade... fique bem...! fique bem por você mesmo... porque você precisa disso...! – as mãos enfaixadas se agarraram a roupa do outro, sacudindo ele de leve, como se tivesse gastado toda a força que tinha no abraço anterior. Estava definitivamente exausto. Didier
Olhando para o rosto cheio de lágrimas de Renaud, sentia como se fosse muito mais fácil se tivessem terminado explodindo em uma briga colossal, e agora se encarassem cheios de ódio e sangue nos rostos distorcidos. Mas estava vendo uma face frágil do moreno, e ele talvez estivesse vendo seu interior pequeno e desajeitado pela primeira vez. Didier estava sentindo esse seu eu pequeno e desajeitado pela primeira vez também! E isso tornava tudo tão mais difícil, porque não era uma mãe pra Renaud mas queria cuidar dele. Porque não era uma mãe, mas porque gostava tanto, mas tanto dele, mesmo que o rosto fosse totalmente desconhecido para si. Mas não estava dando conta de si mesmo. E Renaud também não estava. Se naquele momento o chão os amparava, era porque tinham que redescobrir a força para se porem de pé cada um deles por si. Só que ainda queria se agarrar firmemente a Renaud, pois ele estava ali tão perto e apesar das origens turbulentas do que os dois eram, sentia-se em paz ao lado dele. Não naquele momento, talvez, mas se pudesse, se pudesse só mais um pouquinho, tinha algo dentro de si que esperava ficar em paz. A reação dele para seu pedido, o pedido que ainda não tinha plena consciência se era bom ruim, lhe deixou com um gosto amargo no fundo da garganta. Os olhos do moreno se abriram e pareceu que a expressão de dor que ele já usava tinha ficado ainda mais intensa. Nem isso, nem isso uma pessoa como Didier podia ter. Tinha que guardar seu coração para si mesmo, ou ainda que sentisse e muito pela pessoa a sua frente, ele provavelmente não queria saber, porque sentia dor de pensar que Didier se preocupava, ou queria se preocupar com ele também. Crispou os lábios trêmulos, conformado. Só que num solavanco, se viu de joelhos no chão, abraçado por o que poderia ser as amarras mais apertadas e não veria a diferença. E não teve reação inicial, senão se sentir comprimido, os olhos azuis arregalados buscando entender o que estava acontecendo. E ouviu a voz de Renaud, lhe pedindo desculpas. Como se fosse digno de desculpas! E a voz, e o cheiro, e a força em torno do seu corpo. E como se de repente tivesse acordado, abraçou-o de volta, com toda a força que tinha, como quem se segurava para não cair de um lugar alto. E o abraço dele era exatamente como pensava. Doía, machucava, mas era tão reconfortante, tão reconfortante ouvir aquela voz próxima ao seu ouvido e mesmo o som do choro de Renaud... mesmo ele. Agarrou-se a roupa dele com as garras e afundou o rosto no pescoço do moreno, o coração voltando a bater dentro do corpo não enregelado de medo, mas porque naqueles poucos segundos em que durou o abraço, pareceu que tudo ficaria bem entre os dois. Negou com a cabeça, esfregando-a no ombro de Renaud, para tudo que ele disse. Os pedidos de desculpas desnecessários, um grunhido infantil que não sabia sequer o que significava ficando preso em seus lábios quando foi agradecido por absolutamente nada, exceto tentar. Dizendo aquelas coisas, Renaud até lhe fazia acreditar que mesmo sendo alguém covarde e imbecil, poderia se salvar, naquele emaranhado que fizeram. Quando sentiu o abraço de Renaud folgar, agarrou-se ainda com mais força a ele, surpreendendo a si mesmo com o desespero no qual não queria sair daquele conforto e proximidade. Porém tinha um limite para o quanto podia apertar Renaud, e seus dedos já não aguentavam também. Levou a mão ao ombro do moreno, a outra indo até a nuca, acariciando-o de volta tal como ele fazia as suas costas e tentou não abaixar a cabeça, para dar segurança a ele em resposta aqueles pedidos. – Eu vou... eu vou me cuidar... você também... tem que se cuidar... eu vou ficar bem, eu vou... eu vou aprender... e vou ficar... em paz comigo mesmo. Você me fez acreditar que ainda tem jeito pra mim... – respondeu baixinho, ainda relutando, sem querer tirar as mãos ou sair de perto de Renaud. – Você também... não pode desistir... eu vou torcer por você, então... fique bem mesmo...! – não tinha nem forças para rir daquela torcida genérica, pois não sabia exatamente o que teria que enfrentar agora, e sem o moreno, nem o que ele tinha enfrentado até então, mas era o que podia dizer por ora. Envolveu o pescoço dele ainda encaixado em seu ombro, e talvez porque só lhe restava força para isso, beijou os cabelos escuros com carinho, o corpo todo sentindo apertar e novamente, se segurando para não chorar, pois tinha que soltá-lo uma hora ou outra. – Está cansado, não está...? – folgou o abraço dele, deixando que os braços escorregassem para o lado do corpo, sentando sobre as próprias pernas a frente do outro rapaz. – Eu não sei mais... o que dizer... mas acho que... aos poucos vou descobrir. E você também... pode me falar... quando quiser. Sou só... o que posso... mas... estou aqui por você também. – a expressão cansada estava clara no rosto do loiro também. Há um tempo não sabia o que estava falando, mas tinha esperança que Renaud entenderia. Que os dois se entenderiam enfim. Até podia beber aquele refrigerante agora. Renaud
O corpo estava em um misto de tensão e saudade, pois a muito tempo ele queria poder abraçar o loiro de volta, mas também como tinha feito o gesto em um reflexo impulsivo, o corpo todo estava tenso. Pois não sabia o quanto tinha invadido o espaço do outro, não sabia se estava além dos limites pessoais do outro, mas não sabia também quando teria força, disposição ou oportunidade para repetir o gesto. Sentia em seu âmago que o loiro precisava daquilo, e que acima de tudo aquilo, o próprio Blanco precisava daquilo. Não só pela carência, mas principalmente pra poder falar, as coisas que precisava dizer, se desculpar por sua parte que sempre se isentou, que sempre deixou para que Didier lidasse com sua culpa pelas coisas que fazia. E também, agradecer, pelas coisas que ele já tinha lhe feito, todas elas, as pequenas, as maiores, por tudo...! E principalmente porque naquele momento, era uma pessoa, uma pessoa que sabia que era uma pessoa dando carinho para o loiro. Dando apoio, e falando sobre coisas que sequer tinha aprendido direito a discernir, mas tinha plena certeza da importância, por mais confuso que estivesse. E para sua surpresa, sentiu um arrepio perpassar por todo seu corpo e ir até os fios curtos da nuca, quando foi abraçado de volta, com força, porque sabia, agora tinha noção, de que pelo menos não tinha de ter medo de Didier, medo dele não se importar consigo, mesmo não sendo ideal, mesmo não sendo altamente eficiente, mesmo não estando no melhor momento...! Ainda assim ele estava retornando seu gesto. A mão em sua nuca, como um carinho singelo, lhe fez sentir todo o corpo amolecer por um momento, e apoiar o corpo no do loiro. Porque era a primeira vez, a primeira vez que Didier dava carinho a Renaud, sabendo que era ele, fora do jogo de cão e dono. O coração estava acelerado como um zumbido, e as lágrimas nem sabia se ainda estavam caindo, só sentia o rosto completamente quente, e o corpo aos poucos deixando o frio do nervosismo e medo de lado, para uma sensação indescritível... ainda não sabia nominar... mas podia dizer que era diferente de qualquer outro sentimento que já tinha passado por seu corpo e mente ao longo desses anos... uma sensação única, com uma pessoa insubstituível. [...] [...] [...] Se afastou do conforto do ombro do loiro, quando ele afastou os braços de si, e continuou ouvindo as palavras que ele dizia: “estou aqui por você também”, ouvir aquilo lhe foi reconfortante de um jeito que não sabia dizer de onde exatamente vinha. Mas o “também” lhe dava confiança de que o outro ficaria melhor. Passou as duas mãos sobre o rosto, que ainda estava úmido, um tanto descrente de que tinha chorado. Em verdade, o fato de estar conseguido chorar com mais facilidade era uma coisa boa ou ruim? Chutaria que se perguntasse isso ao Dr. Vlahos, ele lhe responderia com outra pergunta e isso lhe deixaria mais confuso. Mas por hora, apenas achava que tinha sido o certo a se fazer, e preferia se agarrar aquela sensação, do que pensar por meios complicados demais: – Eu... só espero que você cumpra o que está dizendo... – não era exatamente o que tinha pensado em falar, mas era sincero, esperava que ele realmente faça como disse, isso já lhe aliviava uma sensação enorme de peso e preocupação das costas. Sentou-se finalmente no chão, e se encostou a mureta atrás de si: – Eu disse que não queria sentar, mas cá estou eu, sentado... não sei quando vou ficar de pé de novo... mas agora estou com muita preguiça disso...— falou com um riso fraco, de quem estava tentando deixar o clima mais leve depois de uma conversa tensa: – E perdoe as piadas ruins, não tenho um bom exemplo, nem tenho prática nisso. – comentou puxando de volta a latinha que tinha recebido de Didier ao chegar, e puxando a dele que tinha caído e amassado, estendendo-a novamente na direção do outro e pondo-a na frente dele, em pé como dava, já que a mesma tinha amassado: – Está meio amassada, mas ainda dá pra tomar... não que sirva pra se hidratar porque é refrigerante, mas vale a intenção. – não estava de fato rindo, mas o tom era bem mais leve, do que toda a conversa anterior, o rosto ainda estava com ares de quem tinha chorado, olhos vermelhos. Mas o que podia fazer além daquilo? Não tinha uma receita ideal de como as pessoas se acertam, a única coisa que sabia, era que é necessário esforço dos dois lados, e um bocado de sinceridade pra poder se fazer entender. Dito isto, esperou que o outro pegasse a latinha, pra poder abrir a própria, e fazer um gesto como se esperasse que o outro tocasse a latinha na sua. Era um jeito muito ridículo de fazer as pazes, mas como tinha dito antes, não tinha um bom exemplo, piadas ruins e tiradas péssimas acabam servindo de via de escape. Didier
Talvez ficasse com aquela sensação de Renaud em seus braços por um tempo ainda, mesmo depois que os dois criassem coragem para sair de frente um para o outro e pisassem fora daquela cobertura onde até então, entre as possibilidades infindas de resultado daquela briga, estavam bem, seja lá o que signifique a palavra. Ficaria também, e isso tinha certeza, com a imagem de Renaud limpando as lágrimas do rosto daquele jeito desajeitado, porque tinha conhecido um lado dele novo, e um lado que se não fosse tão piedoso, certamente não teria sido perdoado e continuaria se lamuriando de ter sido um idiota esses anos todos. Agora seu dever era seguir com sua promessa e ser firme: precisava dar um jeito em si mesmo, juntar seus próprios pedaços e descobrir quem era Didier sem ser um dono, e talvez, até, sem ser a mãe, o que era há muito mais tempo até do que conhecia Renaud. Já tinha aberto a boca para falar coisas inomináveis. E depois daquela conversa, com todas as memórias no fundo da mente, tinha certeza que não queria mais ser assim. Saiu do seu fluxo de pensamentos com a voz de Renaud lhe desafiando a cumprir as próprias promessas. Ergueu o olhar para ele, cansado, e apertou os lábios numa expressão desgostosa que parecia uma tentativa de sorriso, bastante falha. Afirmou silenciosamente com a cabeça, sem saber como lidar com toda a situação. – Eu vou... especialmente se duvidar. – afirmou, tentando passar sua confiança usual, mas o humor e o glamour não estavam ali. Aliás, nem sabia se se importava se estavam ou não. Renaud também demonstrava plenos sinais de estar abalado. E o jeito dele sentar encostado na mureta mostrava que nenhum dos dois teria forças nas pernas para sair dali depois. Jogou o corpo para o lado para sair de cima das pernas que estavam dormentes, sentando diretamente no chão com as pernas jogadas ao lado. Apoiou a mão no chão, ainda se perguntando se Renaud estava estabelecendo um espaço entre os dois ou só se acomodando. Mas até sentiu um pouco mais de vontade de tentar aliviar a expressão fechada quando ele também tentou abrir um sorriso. Ele nunca foi bom nisso. – Está tudo bem. Também não vou conseguir levantar agora... posso ouvir suas tentativas de graça um pouco mais. Estava com a garganta seca, só não esperava o moreno se esticar para pegar a latinha, muito menos para lhe oferecer. Estendeu a mão para pegar a mesma, notando a embalagem inchada. Até ela tinha sofrido naquela discussão dos dois. E o pensamento lhe fez sorrir fracamente, tentando achar graça nas mínimas coisas, para poder sair dali com o coração mais tranquilo, pois depois seria um pouco mais infernal. Puxou o anel da latinha e, vendo Renaud querer brindar com a mesma, deu um toquezinho na latinha dele, não sabendo exatamente se aquela era uma situação pra comemorar, quando ainda que tivessem dito o que queriam dizer um para o outro, tinha sido em meio a muitas lágrimas. Deu um gole no refrigerante e em seguida fez uma cara feia e passou a mão nos lábios, colocando a língua discretamente para fora. – Pcht! Pcht! Poeira...! No limpian el piso dessa droga, não...? – reclamou sem o excesso de alarde usual, depois passando a manga do uniforme para limpar a latinha. Só depois bebeu de novo, observando Renaud por trás da mão que segurava o refrigerante. Invejou um pouco o local dele e esticou-se para sentar também com as costas para a mureta, lado a lado com Renaud. Suspirou longamente, e então colocou latinha amassada do lado do próprio corpo, entre os dois. Deu uma sacudida no pouco conteúdo que restava e então colocou no chão: –Estavamos precisando disso. Renaud
O corpo demonstrava sinais de cansaço, todo ele doía como se tivesse acabado de sair de uma briga, a cabeça latejava, o peito doía como se tivesse forçado demais o próprio coração, o estômago parecia vazio, os lábios ressecados e ardidos, enquanto os machucados das mãos incomodavam com as bandagens úmidas se descolando das feridas em cicatrização. Estava sensível a todo e qualquer reação voluntária ou involuntária do próprio, assim como o próprio Dr. Vlahos havia falado, que o emocional pode cansar tanto o corpo quanto uma briga, e as vezes até mais, estava sentindo os efeitos colaterais daquela conversa no próprio corpo. Precisou afrouxar a gravata no pescoço e folgar o colarinho pra buscar o ar, antes de tomar um gole do próprio refrigerante, em temperatura natural não era dos mais saborosos, e com o nariz congestionado do choro, só conseguia perceber mais nitidamente o gás da bebida fazendo caminho garganta a baixo. Observou as reações exageradas de Didier a lata cheia de areia e conseguiu, até certo ponto achar graça daquilo, era o tipo de reação bem a cara do loiro, e aquilo lhe dava uma sensação de que podiam sim, estar no mesmo espaço, e viver situações semelhantes a do passado – as agradáveis - sem estar ligado a toda a trama de regras de: cão e dono. Aquilo foi estranhamente reconfortante, e não sabia explicar exatamente porque, mas involuntariamente desenhou um sorriso fraco nos lábios, antes de escondê-lo novamente por trás da latinha de refrigerante. Afastou a mesma da boca quando ouviu o comentário do mais velho sobre os dois precisarem disso, daquele momento um pouco mais “leve”. E acenou em concordância, apoiando os braços sobre os joelhos, e mantendo a latinha em uma das mãos, balançando com o conteúdo pela metade: – Conversa melodramática, memórias dolorosas sendo revividas, verdades indigestas, lágrimas na minha conta, refrigerante quente e areia na língua... é, parece o tipo de receita necessária pra se chegar em uma reconciliação. – comentou em tom mais leve, e mesmo sem sorrir em seguida, aquilo pareceu o tipo de comentário engraçadinho que o Blanco as vezes se permitia fazer. Renaud respirou fundo parecendo agora mais tomar fôlego do que de fato um suspiro de cansaço: – as minhas tentativas de graça estão bem ruins... mas costumam ser melhores quando eu não estou tão cansado... – admitiu levando as costas da mão de volta ao rosto, sabendo que o mesmo ainda estava molhado das lágrimas recentes, em seguida passou a mão pelos fios escuros jogando-os para trás novamente. O rosto exposto, ainda estava vermelho, os olhos igualmente avermelhados do choro recente, as olheiras perceptíveis, o conjunto todo da expressão estava mais honesto e transparente sobre o que o Blanco estava sentindo, muito além do que jamais estivera. Era um lado “novo”, ou pouco explorado pelo próprio Renaud, que estava agora, gradualmente apresentando ao loiro: – Me sinto como se tivesse acabado de sair de uma das seções com o Dr. Vlahos... embora eu nunca tenha chorado desse jeito nas seções... em verdade... eu nunca chorei “strictus senso” de fato em uma seção... embora sempre tenha vontade, eu saio de lá completamente exausto de tanto falar... – admitiu aquela informação sobre si, embora não quisesse chegar nos detalhes das conversas mais recentes e nem nas problemáticas que já estavam tratando no momento de forma mais “intensa”. Não queria preocupar demais o loiro, com problemas que em verdade, ele não tinha como se dispor a ajudar, não naquele momento em que ele se encontrava. Afinal, o próprio Didier iria precisar de energia para cuidar de si mesmo, e lidar com seus demônios internos, o que podia fazer por ele, já tinha feito, que era ouvir e encarar o que o loiro tinha a lhe dizer. Não era nada fácil, ser franco, quando era tão acostumado ser falso todo tempo, mas estava aprendendo a ser mais honesto com seus próprios sentimentos, por mais que fosse um processo doloroso: – Eu acabo caindo nos prantos só quando estou no meu quarto sozinho sentado no chão ou na companhia do Frater, ele é quem geralmente tem de aturar esse “meu lado” madrugada adentro... e tentar juntar os pedaços. -- Falou de Sasha no automático, porque de fato era o que acontecia, não estava mentindo, e a forma como falava deixava isso bem evidente: – As vezes o Isaac que me atura na sala do conselho em tentativas de conversas sentimentais, mas ele não é muito bom com isso, excessivamente direto e objetivo... mas as vezes ele fala umas coisas tão certeiras, mas tão certeiras que eu me assusto um pouco... ele é um bom amigo no final das contas...!— admitiu com um sorriso singelo nos lábios, em seguida levou a latinha a boca pra tomar mais um gole, fazendo careta logo após, pelo gosto ruim: – E tem a Lilú também... nunca apresentei, mas vocês se dariam ou muito bem ou muito mal, sem meio termo...! As vezes eu ia na casa dela, sabe, tomar vinho e falar da vida, para ela me dizer na lata: “que eu estava complicando demais coisas que deveriam ser incrivelmente simples”; se bem que... ultimamente sem tempo... nem conversar por telefone eu ando conseguindo. Respirou fundo e soltou o ar devagar, embora não tivesse parado pra pensar antes, tinha mais amigos a quem recorrer do que tinha percebido. E falar de forma mais espontânea, sem se preocupar tanto com o que iria ou não irritar Didier era algo novo. Estava se dando ao “luxo”, de ser apenas “Renaud”, com os cansaços, frustrações, comentários ruins, e tudo mais que estivesse no pacote. Não tinha uma obrigação de agradar, da mesma forma, que não podia cobrar nada de Didier, nada além do que ele estivesse disposto a dividir consigo. E pensar nessa “não obrigatoriedade” entre os dois, também era reconfortante de um jeito pouco convencional. Porque queria dizer, que os dois tinham voluntariamente escolhido estar ali, e aceitavam mutuamente os defeitos um do outro. RE: [Drive] Estilhaços [Didier; Renaud] - Lil - 09-21-2021 Didier
Ficou inicialmente inquieto, pois não sabia exatamente como deveria se sentar. Tinha achado uma posição mais confortável na mureta, mas estava inquieto com as pernas, talvez por não saber como se portar agora que o corpo tinha esfriado da quentura do choro e do drama. Acabou sentando com as pernas em borboleta, cruzadas, pois não queria retomar a posição de abraçar os próprios joelhos. Não queria mais esconder sua expressão de Renaud. Tinham conversado, e embora ainda tivessem sentimentos confusos no meio dos dois ali, tinha que forçar-se a se abrir. Fechar-se não ia ajudar em nada depois de cuspir para fora tudo que tinham cuspido. Arqueou a sobrancelha para ouví-lo e se pegou sorrindo com o canto dos lábios para o comentário que deveria ser uma declaração bem triste. Mas era a verdade entre os dois. E conseguia rir daquele humor ácido de Renaud, se não estivesse tão cansado, tal como o próprio moreno. – Se lhe consola, você nunca foi muito engraçado mesmo. – respondeu, então apertando os lábios num pretenso sorriso, mas até aceitou o fato que não era o momento para fazer piadas e pôs a língua para fora em um gesto infantil, cansado de manter a pose. Respirou profundamente, olhando para a expressão cansada, com olheiras e marcas de lágrimas no rosto de Renaud. Sabia que não estava tão mal, mas estava sim com os olhos levemente inchados e olheiras mais evidentes, e as mãos e os cabelos mostravam sinais de que nos últimos dias, não tinha ligado muito para a própria vaidade. A falta de maquiagem mostrava isso. Abaixou o olhar, então para as sapatilhas nos pés e tirou-as, colocando-as do lado de seu corpo para ficar mais confortável. – Pero me gustan... tu bromas. – se corrigiu num suspiro, na expectativa que ele, cansado, não entendesse suas palavras mal. Deixou que ele falasse sobre as sessões do doutor Vlahos. Estranhamente, não conhecia bem aquele Renaud tagarela e menos charmoso, mas ao mesmo tempo, conhecia sim. Lembrava daquele tipo de disparada desesperada de quando os dois eram um pouco mais novos, de quando ele lhe procurou para ajudar com roupas para o recital, de quando ele mostrou o lado decepcionado com a falta da mãe. Estava há tanto tempo, de fato, ignorando que ele tinha aquele outro lado, assumindo, do próprio medo de se envolver com Renaud, que ele era só um cão perigoso; e depois alguém que não queria que lhe abandonasse. Supunha que nunca tinham tido um relacionamento saudável para começar, mas tinham tido oportunidades, que foram jogadas fora em prol... do que, afinal? Mais incertezas. Apertou os lábios ao ouvir o nome “frater”, mas não estava em lugar nem posição para criticar o sujeito. Afinal ele “juntava os pedacinhos” de Renaud, algo que Didier tinha ajudado a quebrar. Se muito, ouvia a voz dele ecoar em sua cabeça lhe lembrando de sua covardia óbvia. Era desconfortável, especialmente por saber que Renaud se sentia mais confortável chorando para Sasha e dormindo com ele d que jamais tinha dado o conforto do moreno fazer consigo. Mas incomodado como estivesse, lhe restava aceitar. Será que o moreno percebia que tinha amigos muito próximos e valiosos para ajudá-lo com todo aquele processo? Esperava que ele soubesse. Sasha, Isaac e Lilú, seja lá quem essazinha fosse... alguma coisa ele tinha ali se tinha juntado essas pessoas ao seu redor. Isaac, pelo menos, sabia ser um sujeito direito (mesmo com seus problemas); e Sasha outro sujeito direito, meio torto, mas que prestava para o que Renaud precisava: ser um amigo. Isso, admitia, invejava nos dois. Ao mesmo tempo, sabia que não queria ser um “amigo” também. Era mais egoísta que isso. – Ainda bem que você tem essas pessoas pra te ajudarem... – sorriu de leve, supondo que de certa forma deveria ser grato por elas fazerem o que ele nunca tinha feito. – E o Zac... eu brinquei muito com ele, e acho ele terrivelmente fastidioso mas... ele é meu amigo apesar de tudo isso. – apertou os lábios, então levando as mãos até os pés cruzados a frente do próprio corpo. – Foi ele quem disse para eu ser honesto... não sei ser tão honesto quanto o Zac, mas... essa Lilú está certa... a gente complica demais las cosas. – abaixou a cabeça e levou a mão até os fios claros da nuca, coçando-os de leve. – Eu fiz tanta maldade com o Zac... e ele ainda me ajuda. Acho que devo pelo menos galletas y disculpas a ele também. – entortou os lábios, e tornou a encostar na mureta. – Ele disse que se você não viesse me ver para conversar, ele iria lhe arrastar até aqui... na hora, não tive coragem de dizer a ele que ele não conseguiria. – sentiu os dedos estremecerem ao pensar na ansiedade que sentiu antes de Renaud responder sua mensagem. E surpreendentemente estavam ali conversando. Quem sabe ainda podia ter alguma esperança de se sentirem inteiramente bem estando um com o outro novamente, em outro momento. Mas primeiro, precisava mesmo simplificar tudo que havia complicado ao longo dos anos. – Funciona mesmo conversar com o doutor “guapo” Vlahos? – riu, apesar de não achar graça nenhuma na própria piada. Estava seriamente cogitando que seria bom ter alguém pra lhe ouvir que não fosse o Isaac. Talvez o doutor pudesse lhe ouvir sem julgar sua personalidade terrível, suas ações cruéis e seu jeito nada honesto de ser. Renaud
Apesar do cansaço físico proveniente do estresse mental e emocional, a medida que observava o loiro ao seu lado tão cansado quanto ele mesmo, tinha uma breve sensação de satisfação. Dificilmente podia ver Didier tão empenhado em algo a ponto de ficar naquele estado, de certa forma, saber que ele tinha se esforçado tanto para estar ali, e tentar ser honesto, lhe dava algum conforto. De que não estava brigando sozinho pelos dois de novo, e que podia se dar ao luxo de deixar o loiro brigar por si mesmo, coisa que não fazia a bastante tempo. Era bom lidar com outro espectro de emoções de Didier, e de certa forma isso não seria possível sem exposição, embora doesse muito, conseguia ver algum benefício naquela conversa, principalmente porque a muitos dias não sentia “alívio”, ainda se sentia pesado, lento, muito fora do que era quando estava “bem”. Mas a perspectiva, não lhe assustava tanto, não tanto quanto antes, porque ainda podia tirar tempo para conversar com o loiro, embora fosse tudo diferente, ainda tinha coisas que eram como sempre. Soltou o ar por entre os lábios quando foi dito que não era engraçado com frequência, e terminou a latinha, balançando a mesma vazia entre os dedos, enquanto assistia Didier ficar mais confortável sem sapatilhas. Ouviu os comentários seguintes, e sabia sim, que tinha alguns amigos mais próximos, embora precisasse da confirmação sempre, não sabia como, mas de alguma forma, tinha construído laços profundos com pessoas. Laços mais complexos do que um cachorro teria, certamente. E o loiro conseguiu arrancar um sorriso do Blanco ao falar sobre Isaac, claro que os dois tinham aprontado muito com o secretário ao longo dos anos, tantas coisas, tantos tocs ele tinha para serem explorados e transformados em brincadeira, que não tinha como simplesmente deixar passar. E ouviu o outro comentar sobre o Dr. Vlahos, e deu dois toques na latinha, como se tivesse ficado mais pensativo: – Bem, o que eu posso dizer sobre o Isaac é que mesmo que você peça desculpas, ele não vai lembrar de quando foi, e se você contextualizar, ele vai dizer que não se importava com as brincadeiras, no máximo diria para que aparecesse mais no conselho, isso sim seria uma boa compensação. – O Blanco riu da situação hipotética, podendo desenhar em sua mente muito facilmente todas as variações de expressões do secretário, confuso diante do pedido de desculpas, e descrente que ele estaria se desculpando por 3 anos e bullying que ele nem tinha notado. Apontou a latinha vazia para o loiro, lançando um olhar mais compreensivo e um sorriso sutil no rosto cansado: – Mas se você sente que precisa se desculpar, faça isso porque você precisa, e não pense tanto se ele vai entender ou não. É o “Zac” ele vai ser apenas ele mesmo. Respirou fundo, ainda sentindo o nariz congestionado do choro recente, e respirou mais pela boca do que pelo nariz, moveu os dedos enfaixados, e observou a latinha por um tempo, como se estivesse buscando um jeito de responder a pergunta de Didier. As consultas com o Dr. Vlahos eram essenciais em sua melhora, mas não tinha dado bola para o psicólogo logo de cara, tinham levado alguns bons meses para desenvolverem aquela relação de confiança, a ponto de se importar até de lhe pedir desculpas. – Sobre o Dr. Vlahos, é relativo sabe... Ele é um psiquiatra, não um simples psicólogo, então ele tecnicamente sabe o necessário para ajudar gente como a gente... porém vai um pouco além de ser só a profissão dele... – fez uma pausa, organizando os pensamento na cabeça, Didier devia saber que ia a consultas compulsórias desde muito novo, ou talvez ele nunca tivesse prestado atenção nisso, até porque nem o próprio Renaud dava atenção a isso. A expressão divagou um pouco, e então decidiu encarar o loiro diretamente, suspirando porque respirar pela boca era um tanto desconfortável: – Veja bem, não adianta ir numa seção de terapia se você não pôr na sua cabeça que precisa disso. Eu digo isso porque vou a terapia compulsória desde os 14 anos, e só fui levar a sério do começo do ano para cá, pra ser mais exato de janeiro. Renaud colocou a latinha de lado, esticando as pernas e depois dando dois puxões leves na calça social, pra poder sentar com elas dobradas, em uma posição mais confortável, e que pudesse ficar levemente virado na direção do loiro: -- eu já passei por vários médicos diferentes, péssimos a medianos, no começo eu tinha muita raiva da terapia, porque eu estava sendo obrigado a ir, depois aquilo se tornou apenas mais uma obrigação tediosa, até que eu transformei numa forma de importunar meus psicólogos apenas pra me divertir... foi diferente com o Dr. Vlahos, porque ele não caia nas conversas mais superficiais, e nem tentou me perfilar como se fosse um seriado policial nas primeiras seções, então eu aos poucos fui cedendo a conversar sobre outras coisas e pra minha surpresa o psicólogo da instituição é um homem muito inteligente, dá pra conversar sobre praticamente qualquer coisa, e esse foi o jeito que ele achou pra construir confiança junto comigo, o que não quer dizer que vai ser do mesmo jeito com você Didier. Renaud juntou as mãos com as pontas dos dedos, e os moveu de forma ritmada, como se estivesse pensando, depois fechou e abriu a mão, sentindo os cortes pequenos arderem mais, e sabendo que teria de trocar aqueles curativos mais tarde: – Eu posso dizer que ele vem me ajudando muito, mas porque eu fui pedir ajuda na porta do consultório dele, e eu sabia o que viria no pacote... – o Blanco olhou para o loiro de forma mais questionadora, como se estivesse jogando a ideia de “você iria lá pedir ajuda com todas as letras?”: – Você vai ouvir perguntas que não quer responder, ele não vai te dar respostas sobre nada, mas vai te fazer pensar muito, o suficiente pra você mesmo achar as respostas, e isso vai doer e vai ser cansativo, mas se tiver disposição, vai perceber que vale a pena, eu não teria coragem pra vir aqui sem a ajuda de terapia... então a nossa conversa também está na conta do Dr. Vlahos. Didier
Isaac era sempre um assunto divertido pelo visto. A seriedade honesta dele era insuportável, mas ao mesmo tempo que o nível de retenção anal do secretário era alta, ele sabia bem cuidar das pessoas em sua volta, sendo sempre dolorosamente honesto. Talvez só agora conseguisse apreciar isso. Ou pelo menos começava a apreciar, pois tinha sido a honestidade dele que tinha lhe feito sair do mofo do seu quarto para conversar com Renaud. Dolorosa como fosse aquela conversa, era uma conversa. – Mismo que eu quisesse lembrar quando foi que comecei a bromear, não saberia dizer também. Então melhor me desculpar por todas até então. – só não tinha certeza se todas eram perdoáveis, afinal, especialmente quando estava irritado com as questões de Renaud, tinha cutucado o moreno e seu relacionamento com a oruguita e deixado Isaac pior de propósito. Nessas horas que lembrava do que fazia com o moreno, era inevitável pensar que era um insuportável. Olhou de volta para Renaud com aquele conselho e levantou o canto dos lábios um tanto conformado. – Ainda bem que o Zac é assim. Alguém precisa ser estável naquele conselho. Então notou que Renaud estava se voltando para seu lado, mexendo-se e dobrando as pernas para ficar mais confortável. Observou-o de volta, sem saber exatamente por que toda aquela seriedade, até que ele começou a explicar sobre seu processo de terapia. Sabia bem que Renaud fazia acompanhamento com os psicólogos, e talvez isso não tivesse adiantado muito considerando o tipo de coisa que faziam a noite. Mas como ele mesmo tinha comentado: se fossem pessoas que o tempo todo olhassem pra ele da forma que essas pessoas queriam vê-lo, sem procurar conhecê-lo primeiro, era certo que ele fosse se fechar ou enganá-los com truques. Renaud devia ter treinado muito do seu charme político girando piscólogos no dedo mindinho. Em outra parte, sabia que a família dele estava naquele ramo de conversa fiada. E em outra parte ainda mais, sabia que ele tinha exemplos como Sasha com ele. Então Aleksei tinha pego ele pela inteligência? Bom, não adiantava muito para Didier. O presidente do conselho estudantil estava bem ciente que tinha a inteligência emocional de um livro de auto-ajuda para adolescentes e que por mais que estudasse, não era exatamente feito para a vida acadêmica. Suspirou longamente e encostou a a cabeça na grade, supondo que talvez tivesse que mudar seu plano. Renaud lhe olhava provavelmente sabendo que não era o tipo de pedir socorro ou ajuda para ninguém, porque era muito orgulhoso. Mas... até queria. Olhar tudo por cima não tinha lhe ajudado a resolver o problema com Renaud. – Levo galletas para o doutor Guapo também então. – respondeu, tentando achar certa graça naquela situação. – Perguntei porque... eu até quiero hablar. Mas não um moralista, nem com alguém que se importe comigo de verdade... quiero alguém que me ouça sem me julgar como certo ou errado, sem me interromper quando eu falar absurdos, que não me olhe torto pelo que eu fiz... sei que me pondré muy enojado se isso acontecesse. – entortou os lábios, e então jogou o corpo de volta um pouco para frente, juntando as mãos sobre as pernas. – Se estou certo ou errado isso eu quero perceber sozinho. O jeito que eu te tratei... sabia que estava sendo estúpido, ninguém precisou me dizer isso. Só funciona se eu mesmo admitir. – bufou levemente irritado consigo mesmo por saber que funcionava daquela forma. – Acho que preciso de um padre excomungado. Ou do confessionário. Ou de uma porta. Ou do Isaac. – brincou, até rindo um pouco de sua sequência de ideias absurdas. Renaud
O Blancou ouviu com atenção tudo que o loiro lhe dizia, tudo em suas pequenas reações, as desviadas de olhares, o torcer de lábios, até as respirações mais exageradas. E pelo que o loiro narrava, fazia parecer que ele nunca estivera em uma terapia de verdade. Não lhe surpreendia, em nada, mas não sabia exatamente como ajudar nesse caso. Não queria ter de entrar em detalhes sobre o que conversava nas consultas, mas também não queria que Didier desistisse da ideia simplesmente por não achar uma boa perspectiva: – Temos um ex-padre como professor de filosofia, mas não acho que é o que você precisa no momento. -- comentou tentando achar um pouco de graça, mas sem muito sucesso, respirou fundo algumas vezes, ainda sentindo o nariz congestionado, não funcionaria tão cedo pelo visto. Terminou de tirar a gravata e a enrolou para por no bolso interno do terno: – E o Isaac, ele tem limites do quanto ele pode te ajudar, porque ele também é tão gente como nós, com os problemas dele para dar conta...! – Renaud desabotoou a camisa social em dois botões, sentindo-se um pouco mais livre para respirar mas ofereceu ao loiro um olhar mais suave, como provavelmente Didier estava pouco acostumado a receber, mas conhecia o suficiente das outras facetas do Blanco, pra poder notar as diferenças entre as forma como Renaud o observava: – Claro, que você sempre pode pedir colo e um cafuné ao Isaac, ele não é bom pra entender sentimentos difíceis de nominar, nem vai saber sempre o que lhe dizer, mas se você perguntar se pode ficar perto dele, ele geralmente deixa, não vai te cobrar nada de volta. Vai ser só ele, do jeito dele...! – E era notório que Renaud falava de uma forma um pouco diferente quando tratava de Isaac, tinha muitas pequenas nuances ali, respeito, confiança, até certo ponto, cumplicidade. Mas Renaud não deixou que o assunto sobre o psicólogo ficasse de lado, esticou a mão e repousou sobre o joelho de Didier, sobre uma das mãos dele que repousava ali, como se o gesto fosse dar mais ênfase as palavras que queria dizer: – Eu não estou em posição de dizer pra você, o que é melhor ou pior, muito menos sirvo de exemplo pra nada, meu emocional é uma porcaria frágil e desgastada, mas eu acredito que você deveria pelo menos tentar conversar com o Dr. Vlahos...! – o Blanco fez uma breve pausa, engolindo em seco, e acariciando a mão do outro com o polegar, como se o gesto trouxesse algum conforto para o outro: – Se ele consegue me fazer acreditar que existe solução para os meus problemas, mesmo no estado em que eu estou, então ele pode cuidar de qualquer pessoa...! – e era cada vez mais perceptível como era desconfortável pra Renaud admitir esse “estado” em que ele se colocava nas frases, como se fosse alguém quase sem possibilidade de recuperação, até certo ponto, havia melancolia nas palavras do Blanco: – Acredite, ele não me julgou por nada, eu fui lá mesmo depois de todos os meses de enrolação e brincadeira com o trabalho dele, mas no dia que eu disse: “me ajuda...”, ele simplesmente me respondeu: “é pra isso que eu estou aqui, não é?” Renaud respirou fundo, como se a recordação lhe causasse desconforto, fungou e voltou a encarar o outro com um olhar mais cansado: -- Só vá, experimente você mesmo achar o seu jeito ou suas palavras de como pedir ajuda, e então tire suas próprias conclusões da terapia. Didier
Será que se tivesse alguma vez feito terapia, seria menos quebrado do que era? Possivelmente não, sabia que tinha um gênio terrível, mas até passou a se questionar isso, considerando que não era exatamente algo que sua mãe recomendaria. Aliás, era exatamente porque ela não recomendaria que talvez estivesse sendo puxado a ir, sendo apenas alimentado pelas palavras de Renaud. E essa perspectiva, por mais progressiva que fosse, considerando que se nunca haviam procurado ajuda profissional, era admitir um pouco a origem humilde e ignorante dos dois, Didier e sua mãe, algo que no outro dia, sequer pensaria em questionar. Mas estava inclinado a acreditar que não tinha sido tudo tão perfeito quanto pintava para os outros. Aos poucos descobriria o quanto podia mudar dessa perspectiva. Esperava que Renaud apenas achasse a mínima graça em seu comentário, mas ao invés disso, notou como ele voltou-se para si, ligeiramente preocupado, e tentando justificar porque nenhuma das alternativas que tinha dito era boa. Apertou os lábios, sem entender porque estava sendo acuado por conta de uma piada, mas provavelmente Renaud bem lhe conhecia para saber que aquele comentário engraçadinho poderia virar uma desculpa para que fugisse de uma sugestão que poderia lhe ajudar bastante. Ele estava tentando ser compreensivo com sua covardia, e embora fosse um tanto frustrante, supunha que isso apenas demonstrava que Renaud era atento o suficiente a si - mesmo naquele estado - para impedir que Didier se autossabotasse quando tinha condições de dar um passo para frente. Respirou fundo, e acabou se arrependendo um pouco de tentar fazer graça naquela situação. Renaud parecia ter uma proximidade bem especial com Isaac. Quer dizer, já sabia disso, não era idiota a ponto de não ver que ele não se aborrecia e nem queria jogar Isaac do primeiro andar mesmo quando estava estressado com as coisas do conselho, mas em algum ponto enquanto não estava observando, Renaud tinha passado a confiar no secretário de um jeito que só lhe lembrava aquela animação infantil que há muito não reconhecia nele. Isaac era um amigo, supunha. E achava bem irônico que esse tempo todo tenham convivido com ele nas mas diversas situações e irritado o pobre coitado até cansar, mas até há pouco não havia considerado que ele poderia ser um amigo também. Aliás, tinha alguém proximo além dos dois no conselho? Não, e talvez por isso fosse tão reconfortante que Renaud colocou a mão sobre a sua e acariciou a mesma como que tentando lhe acalentar. Olhou brevemente para aquele gesto, e a insistência em lhe aconselhar a ver o doutor, e então, encarou-o longamente enquanto ouvia a questão do "estado" do moreno, incerto se ele estava confortável o suficiente consigo ainda para que saísse daquela fala vaga para algo mais claro do que estava passando ou sentindo. Mas uma coisa era certa. Deveria ter algo haver com aquilo que tinha acontecido na enfermaria. Será que teria coragem de admitir que tinha ido lá? Aliás, será que faria algum bem admitir que tinha ido até lá? Respirou fundo, lembrando de ter sido obviamente chamado de covarde por ficar escondido atrás da porta e por não querer que Renaud soubesse que esteve ali. Virou a mão que ele acariciava, segurando a de Renaud sobre a sua, apertando com alguma firmeza, para tentar passar segurança. – Lo haré. - respondeu, encarando o moreno de volta, o tom assertivo como o toque na mão dele. Ainda parecia bastante cansado, mas estava sério o suficiente para dar a entender que não fugiria daquela sugestão. – E não vou esperar um dia propício. Eu vou hoy, nem que seja marcar um dia com o doutor. Eu disse que ía me cuidar, então não vou te preocupar com isso. Sei que vai ajudar, nem que seja tentar conversar com ele. Não é qualquer idiota que consegue sua confiança assim. – sorriu cansado, pensando que era um idiota que ainda não tinha conquistado tudo aquilo. Ao menos não do Renaud que tinha jogado fora. Aliás, talvez nem mesmo do que era um cachorro. Sabia mandar, mas sempre, sempre tinha aquele receio do dia em que ele diria "não". Aquela conversa era uma das pequenas consequências desse dia ter enfim chegado. Era horrível, mas sentia que estavam indo bem. Apertou um pouco mais a mão de Renaud, folgando até deixar em um aperto que poderia ser dito carinhoso, e aproveitou que ele tinha voltado o corpo para si para observá-lo mais atentamente. Entreabriu os lábios para dizer algo, mas acabou hesitando, o pé mexendo de leve impaciência consigo mesmo. Então engoliu em seco. – Renaud, no sé quais são esses problemas que você está me dizendo, não sei se sou eu ou todas as outras coisas que você listou e não tem certeza... mas... se um dia quiser conversar comigo, te he dicho... eu posso lhe ouvir, e posso me preocupar também. – encolheu um pouco os ombros e levou uma mão até a nuca. – No dia em que você passou mal... e-eu... - mordeu o lábio inferior, folgando um pouco as mãos das de Renaud, sentindo que as suas suavam. - Os pollitos me avisaram, e eu fui até lá na enfermaria... mas eu pedi pro doutor não dizer... porque estávamos brigados... e... eu sei que fui covarde de não dizer que estava preocupado, mas eu... – sentiu o ar faltar de leve, talvez porque não tivesse uma certeza inteira do que estava dizendo, e embora tivesse dito que queria se preocupar por Renaud, tinha medo que ele se recusasse, considerando tudo que tinham conversado aquele dia. – Eu sei que não sou de confiança, não tanto quanto o Isaac ou o Peyrac, mas... é uma merda não saber o que você está passando...! E ter que ouvir do doutor pra não me preocupar e ficar satisfeito com isso sem saber o que está acontecendo... quer dizer, talvez nem você saiba... mas ficar no escuro... eu admito ser estúpido, pero no soy como uma malva. – apertou os lábios ainda mais, franzindo a testa e lembrando do que tinha acontecido aquele dia. Lhe dava um leve incômodo toda aquela situação. – S-se você disser que não é da minha conta... eu vou ficar chateado, e ainda vou estar preocupado, mas vou entender. Mas não quero aceitar isso de ninguém além de você... creo. Renaud
Estava exausto, tinha plena certeza disso, mas ao mesmo tempo sentia que toda palavra trocada naquela cobertura com Didier, era plenamente importante e essencial para si, para quem era agora, e para o que precisava arrumar de si mesmo. Estava com os olhos avermelhados do choro recente, e o nariz não dava sinal de que iria descongestionar, precisava respirar com a boca aberta, e isso lhe deixava com o aspecto cansado que de fato estava. Mas não estava de todo errado, pois sentir a mão de Didier mudar de posição e apertar a sua em retorno, foi uma sensação indescritível, tinha a certeza de que ele iria se cuidar, tinha um retorno direto a sua preocupação dita nua e crua ali, e tinha carinho ali. Um montante de coisas que sabia que sempre estiveram ali, na relação dos dois, mas que nunca tinha sido posta de forma tão direta e clara entre os dois. Sorriu de volta para Didier, partilhando daquele cansaço, que diferente de todos os tipos de cansaço que já tinham dividido ao longo dos anos, aquele era um novo tipo, e que passava a ideia de que eram realmente cúmplices, próximos, amigos, algo que sempre ansiou confirmar que existia entre os dois. E sentiu o peito apertar, o coração bater forte, estava inquieto com o montante de emoções que lhe tomavam, mas devolveu o aperto, sem muita firmeza pela mão ainda estar machucada. Prestou atenção em Didier quando ele ficou tenso, e por reflexo ficou igualmente tenso, e novamente não estava errado, quando o loiro entrou no assunto de ter percebido que estava com problemas. [...] “não sei se sou eu ou todas as outras coisas que você listou e não tem certeza...” “eu posso lhe ouvir, e posso me preocupar também” [...] Renaud não teve uma reação imediata, sentindo o aperto no peito se tornar mais intenso, o coração batendo acelerado, a ponto do sangue correndo depressa lhe dar dor de cabeça. Um frio intenso se alastrou por suas vísceras como se tudo ali tivesse desaparecido, a respiração que já estava difícil com o nariz congestionado, ficou curta e acelerada. Não podia sentir o suor nas mãos do loiro porque as suas já estavam molhadas do próprio suor, além do leve tremor que perpassou todo o seu corpo, desembocando na ponta dos dedos, e Didier certamente perceberia aquele montante de gestos; Sabia exatamente como o loiro se sentia, já tinha estado naquela posição quando era Sasha quem estava internado, já tinha estado naquela posição quando o outro passou pelo corredor e tinha se escondido em uma sala de aula, aquilo era covardia, até podia ser, mas não era mentira que existiam fortes sentimentos por trás, um medo enorme de decepcionar, de não ser capaz de cuidar, que eram todos frutos de preocupação. E ter passado por todos aqueles sentimentos, ter tido ciência de todos eles ao longo do tempo, e perceber que eles existiam em Didier, e existiam por que ele se preocupava com seu bem estar lhe encheu de tantos sentimentos que os olhos marejaram como se aquilo fosse transbordar de si: – Eu… eu preciso de um instante… por favor…! – o Blanco puxou a mão de Didier que segurava, e envolveu entre as suas duas, como se fosse algo precioso, e levou até o próximo dos próprio lábios, depositando um beijo carinhoso ali, antes de aproximar a testa e repousar o rosto ali um pouco: – Eu sei que você já tinha dito hoje… nessa conversa… que você se preocupa comigo… mas…– a voz falhou um pouco, e Renaud puxou o ar com força com a boca, como se tentasse digerir o montante de sentimentos que lhe tomavam, aquilo era uma pequena crise, podia lidar com ela: – mas… você não faz ideia… nem imagina… a quanto tempo…! Quantos anos…! Eu esperava escutar isso da sua boca… que eu valho a sua preocupação…– O Blanco piscou e uma lágrima escorregou e ele esfregou o rosto sobre a mão do outro, ainda respirando fundo: – A ponto deu ficar assim… de ter um gatilho… mas eu entendo… eu entendo tudo que você está dizendo…! Renaud levou mais alguns segundos respirando fundo, sem de fato chorar, e beijou a mão de Didier mais uma vez com muito carinho, mantendo-o perto de si como se precisasse estar tocando nele, e tendo certeza que ele estava ali, pra ter poder continuar falando. O jovem Blanco encarou Didier diretamente nos olhos, eles estando marejados para além de avermelhados, os tremores subsidiando lentamente, pela pequena crise sendo aos poucos controlada: – Se você é um covarde eu também sou, porque eu já estive ai, eu já quis ir falar com Sasha quando ele estava internado no hospital, e eu não consegui, ele salvou minha vida mais de uma vez, me ajudou no pior momento da minha vida, e eu não tive coragem de ir até o hospital e falar com ele. Sou covarde, sou, passei anos sem falar com ele por causa disso, até que só agora, somente agora, eu conseguir pedir desculpas, e dizer que esse tempo todo, eu sempre me preocupei com ele. – Admitiu mesmo sabendo que o outro não gostava de Sasha, mas não pararia ali, ainda tinha outras coisas pra falar, voltou a passar os lábios mornos sobre os dedos da mão de didier, e dava pra notar que estava trêmulo, então fechou os olhos enquanto prosseguia com a narrativa: – Quando nós brigamos, eu tentei ir no seu quarto falar com você, mas eu não consegui… eu não consegui nem chegar perto da sua porta… era como se houvesse um abismo entre a gente que eu não conseguia contorna… eu fugi, sabe…? Isso me torna covarde? Sim, porque eu também lhe evitei várias vezes no decorrer desses dias… mas eu só queria poder falar tudo e dizer que a gente não precisava ter brigado, que apesar dos meus medos, dos meus receios eu só queria poder aproveitar o tempo com você aqui em St. Clavier, já que depois eu não sei mais se a gente vai se ver… ou conviver… ou todo resto… e eu vou morrer de saudades de você… todos os dias…! Admitiu a voz morrendo de novo, e a vontade de chorar vindo, mas Renaud tornou a respirar fundo, tentando manter o ritmo da conversa e responder devidamente o que o outro lhe perguntava: – E sim, eu tenho um monte de problemas, e não é só você: a minha família, a minha mãe…! – a voz ficou pequena na garganta: – O meu trabalho, a minha insatisfação, o vazio de estar correndo atrás do mundo pra todo mundo menos pra mim…! O medo de não ter controle da minha vida e nem do que eu faço com ela… tudo isso junto com a nossa briga… vem acabando comigo um pouquinho por dia… até o ponto que eu estou agora… eu não posso falar sobre tudo, porque nem eu sei direito porquê ou como… só posso dizer que eu fico grato…! Muito grato por você se preocupar comigo. Renaud tornou a abrir os olhos, observou o loiro a sua frente longamente, como quem estava muito cansado daquilo tudo, das conversas, das cobranças, até das próprias emoções confusas e conturbadas. Então se aproximou mais de Didier reduzindo a distância, e depositou um beijo breve sobre os lábios do loiro, mas igualmente carinhoso. Renaud encostou testa a testa: – De verdade… obrigado por dizer que se preocupa comigo… eu precisava disso… e a tanto tempo…! Só me perdoa está desse jeito… não tenho nada demais pra te oferecer… estou só machucado demais… demais…! – riu fraco, no que se tornou num soluço de quem estava quase chorando de novo, mas ainda assim conteve as lágrimas, embora a voz soasse embargada e pesada: – eu queria poder demonstrar o quanto eu estou feliz… mas eu só tenho vontade de chorar… e chorar… desculpa estar desse jeito… eu não sei quando eu vou ficar melhor…! Didier
Não esperava reações positivas de Renaud. Não depois da tensão de toda a conversa entre os dois. Porém, o tremor, os olhos escuros, o suor, podia notar cada uma das expressões dele, estando tão próximo e tão atento agora que tinha visto um lado do francês que desconhecia. Em sua mente, podia ver a cor se esvaindo de Renaud a medida que tocava no assunto que era próprio dele e do doutor, porém, não sentia o desejo de voltar atrás com o que estava falando. Porém mesmo tendo chegado a alguma conclusão de sua própria fala e deixado esborrar aquele desejo de saber e conhecer os problemas do outro – algo que nunca tinha feito – Renaud não tinha prontamente chegado há alguma sobre si. Ou melhor, tinha. De que algo em suas palavras tinham trazido de voltas aquelas emoções intensas e sentiu tudo ficar frio dentro de seu corpo, começando pelo estômago, talvez porque tudo estivesse sendo bombeado para o coração, que começava a doer. Será que havia algo que não dissesse que não trouxesse algo ruim para o moreno? Só que ao invés de lhe rejeitar, com aqueles olhos cheios de lágrimas, Renaud segurou sua mão com cuidado. Prendeu a respiração, porque já tinha sido cuidado várias vezes, mas talvez há um tempo não tivesse sido tratado como algo tão precioso a ponto de merecer um beijo honesto sobre os dedos. Sem charme. Sem pretensão. Só cuidado. Isso fez o sangue subir para seu rosto e os olhos arderem. Cobriu parte do rosto com a outra mão, ouvindo aos poucos as palavras falhas de Renaud, mas que ele colocava com tanto carinho. E sentindo aquela lágrima sobre sua pele, sobre os dedos que ele colocava sobre o rosto, como se esperando seu cuidado, deslizou o polegar para tirá-la do caminho, mesmo que lhe parecesse apenas a primeira. O rosto dele estava tão quente. Porém não foram mais lágrimas que vieram. Só um longo silêncio em que Renaud mais uma vez lhe tratou com carinho, um vermezinho de saudade lhe infectando, porque aquele era o limite da distância entre os dois naquele momento em que ainda tentavam se acertar, e que estava claro que era parte do problema que tinha deixado o moreno tão frágil. Seus lábios tremeram ao ter que encarar Renaud naquele estado, mas devolveu o olhar de frente, menos receoso que no começo da conversa. O que tinha dito que gostaria de retirar? Nada. Aqueles eram seus sentimentos. Então tinha que encarar os de Renaud com igualdade. Se machucava, tinha que ser machucado. Renaud lhe surpreendeu ao se chamar de covarde. Ele? Por que? E aos poucos a narrativa sobre Sasha, que deveria lhe deixar muito bravo foi mais que esclarecedora. Assim como Didier, o rapaz tinha se acovardado em expor sua preocupação. E vendo o caso dele, parecia até ridículo esconder de alguém gratidão, cuidado, amor. Não que achasse Sasha merecedor, mas não o achava porque tinha inveja daquela capacidade dele de ser honesto, de tornar tudo tão simples, de tomar a iniciativa, enquanto Didier se escondia do trabalho árduo de arcar com os próprios sentimentos. E eram tantos, tão confusos, tão intensos. Apertou os lábios em um leve bico, a voz escapando em um volume mínimo com um “desculpa também”. A confissão que Renaud também tinha tentado ir lá até seu quarto fez seu corpo todo estremecer. Então ele queria consertar tudo também, desde o princípio. A respiração falhou, mas seguiu encarando o moreno, apertando os olhos apernas quando sentiu o coração ficar miúdo ao ouvir que ele queria seguir ali, e que sentiria saudades. Queria ter coragem para dizer que não precisariam de saudades, mas mal podia entender seus sentimentos agora. O que sabia sobre si mesmo, uma vez que não estivesse preso naqueles muros? Sabia pelo menos que não esqueceria Renaud. Não esqueceria o menino perdido. Não esqueceria o cão protetor. E muito menos esqueceria o homem sincero a sua frente. Quem mais, além de sua mãe e dele, tinham lhe tratado com tanto apreço? Engasgou um breve soluço, a cabeça começando a doer de segurar as próprias emoções atrás dos olhos, embora seu corpo todo falasse a intensidade com que sentia aquelas palavras. Ele tinha tantos problemas que conhecia, alguns que conhecia bem, e outros que talvez compartilhasse mais que nunca tinham conversado sobre, e ainda sim, mesmo sendo um dos problemas dele, Renaud achava espaço para lhe agradecer. Agradecer de verdade só por finalmente abrir o jogo que se preocupava. Não sabia há quanto tempo, claro, mas em algum ponto, passou a se preocupar imensamente com Renaud. Mas em nenhum momento isso tinha ficado claro. Quantas coisas sua capa de dono mandão ou de patife exigente e egoísta tinha deixado passar? Sem saber o que esperar daquela aproximação singela de Renaud, sentiu o beijo breve em seus lábios. Encarou-o com surpresa por um instante, até ele encostar em si, e então sentiu a mente ficar em branco, o resquício da sensação dos lábios trêmulos dele nos seus. Apertou os dentes, sabendo que sua expressão não era nada bonita, mas tentando entender o que sentia naquele momento em que estava triste por Renaud e ao mesmo tempo, sentia uma fagulha de luz clara dentro de si lhe dizendo que havia alguma esperança daquele não ser um beijo de despedida, e sim, um carinho em um recomeço. Podiam não recomeçar de fato agora. Renaud tinha muito na cabeça para lidar com o muito que Didier tinha na cabeça. Isso estava claro. Mas queria tanto outro beijo. Queria outros. Queria mesmo que St. Clavier não acabasse. Ou queria que nunca tivessem que sentir saudades um do outro. Queria que fossem amantes... ou amantes de novo, se fosse aos olhos de Isaac, por exemplo. Queria Renaud. Queria tanto a gentileza assustadora dos toques dele. Desviou o olhar do dele, os olhos vermelhos a respiração pesada, porque tal como o moreno, segurava firmemente as lágrimas, mas escorregou para os braços dele mais uma vez, apertando o corpo do moreno e acariciando-lhe os cabelos escuros com as unhas descuidadas dos últimos dias. – No necesito favores para amarte, Renaud... ya basta de eso... solo necesito a te, maldición...!– apertou o corpo do moreno, tirando a testa da dele, beijando-lhe o rosto e a cabeça enquanto apertava ainda mais o moreno. E bem sabia que por mais que dissesse isso não podia tê-lo só assim. Aliás, nem merecia. – Las desculpas no son necesarias... pode chorar... não precisa sorrir quando não quiser. Você nem sabia fazer isso, lembra...? Por isso se você disser que está feliz, eu acredito. Eu não estou rindo... mas também estou feliz que posso hablar com usted de novo... – estava feliz por mais que isso, embora também fosse consumido por uma tristeza imensa de ver Renaud naquele estado, e de saber que tinha muito para enfrentar também. Respirou fundo, então soltando Renaud aos poucos mas não saindo daquela distância curta entre os dois. Levou ambas as mãos até o rosto do moreno, encarando-o diretamente, a expressão levemente angustiada. – Eu também no lo sé quando você vai ficar melhor, mas vai...! Não sei nada sobre você, mas sei que é forte... e resistente... eu vi isso... mesmo surrado, e caído... você tem suas cicatrizes pra provar... essa vai curar também... – respirou fundo, sabendo que todas as suas palavras provavelmente eram bobas perto da honestidade de Sasha, da lógica impecável de Isaac ou do conhecimento do doutor Vlahos. Mas eram suas palavras, para Renaud. Eram suas. Levou a mão até o topo da cabeça de Renaud e beijou-lhe longamente a testa, não sabendo se aquele tipo de proximidade o agradava ou se o moreno estava apenas sendo gentil e paciente consigo, mas não podia evitar gostar dele ali. Riu, fraco, começando a temer que se ficasse mais tempo ali, ficaria mais egoísta, no desejo de não deixar que aquele momento em que se tratavam daquela maneira singela passasse. Ao mesmo tempo, queria que o moreno saísse por aquela porta e aos poucos, de fato curasse aquelas feridas que tinha abertas dentro de si. Encostou testa com testa mais uma vez, achando aquela posição confortável, e ao mesmo tempo, a respiração quente de Renaud próxima a si reconfortantemente desconfortável. Renaud
Amar as pessoas deveria ser fácil, e talvez até fosse, se houvesse isenção das responsabilidades, e da convivência, e de todas as dificuldades geradas por pessoas diferentes decidirem partilhar do próprio tempo com outra pessoa. E sendo assim, mostrar lados vulneráveis, poucos vistos, que talvez nem as mesmas gostassem, mas que estavam lá, faziam parte da “essência” da pessoa. O jovem Blanco não era necessariamente versado nessas questões muito filosóficas, embora gostasse sim, de ler e discutir sobre o assunto, o cerne da questão lhe fugia o pensamento. Todas essas divagações sobre sentimentos, reciprocidade, cumplicidade, proximidade, ausência, frustração, carência, desejo, compreensão, e inconformidade, eram um leque muito extenso de desdobramentos emocionais que não eram preto no branco. Eram cinza, turvos, misturados, onde a realidade provava que diferente da literatura romântica, pode-se sim, estar feliz e angustiado simultaneamente, sem que isso seja anormal. E era nessa mistura inconstante, nessa vibração entre feliz e caído, frustrado e fortemente inconformado disposto a mudar a própria situação, mas cansado demais pra reagir aquela proximidade, desejando demais prolonga-la, mas sabendo que não tinha como arcar com ela ainda, que Renaud se permitia ficar perto de Didier. Nem sabia qual seria as extensões e efeitos colaterais daquela conversa, só sabia que estava cheio, preenchido até o topo de sentimentos dos mais diversos, de coisas que queriam transbordar para fora de si, fosse nas lágrimas que não queria deixar chorar, ou fosse na respiração quente e rápida por tentar digerir aquilo tudo que acontecia entre os dois. Não houve qualquer resistência do corpo de Renaud ao ser abraçado, apenas fechou os olhos brevemente, se sentindo totalmente absorto naquele momento, na voz próxima de Didier, como se estivesse boiando no mar, ao mesmo tempo que chovia morno sobre si, o importante é que não estava afundando, e nem sentia como se fosse afundar. E era verdade, sequer sabia sorrir de verdade, espontaneamente antes de conversar com o loiro, antes dele lhe falar com todas as letras as diferenças de estar feliz e satisfeito. E quando Didier se afastou, reabriu os olhos para encara-lo, a expressão apreensiva do outro lhe parecendo tão fácil de ler, porque tinham brigado? Porque tinham deixado as coisas chegarem aquele ponto, para ter de estar tão, mas tão machucados? A reação do jovem Blanco foi de suspirar como se fosse sua resposta para o outro sobre ser “resistente” e saber que aqueles machucados iriam cicatrizar também. Tinha ouvido aquelas mesmas palavras muito recentemente, não sabia ainda quando estaria melhor, mas tinha ideia de como faria aquilo, a medida que fosse progredindo no próprio tratamento. Acharia a si mesmo no meio daquele turbilhão de sentimentos, daria ordem a eles, aprenderia a lidar com as crises, e quem sabe com sorte, não se perderia mais nos dias sem memória e sem recordação que lhe assombravam. Levou ambas as mãos ao rosto do Didier também, deslizando a ponta dos dedos calejados sobre a pele do outro, reconhecendo a sensação da pele do outro embaixo de suas digitais, acariciou com cuidado e carinho até a região da nuca, sentindo os fios loiros entre os dedos: – Eu nunca te disse… – falou em tom baixo, revestido de um tipo de cumplicidade nas palavras, muito particular: – Mas eu gosto de você desde que eu te contei aquela história no seu quarto, tarde da noite… foi quando eu senti que podia cuidar de você… que podia te abraçar e te proteger do mundo. Te dar algo que ninguém mais podia… minha companhia e meu carinho… mesmo que eu sequer conseguisse nominar nenhum desses sentimentos…– admitiu aquilo, a voz embargada e pesada do cansaço e dos sentimentos que admitia ali, acariciou a nuca do outro com a ponta dos dedos: – Eu sabia naquela noite… que eu queria poder olhar pra você dormindo… escutar sua voz ao acordar ou sorrir… reclamando ou apenas pra falar sobre qualquer coisa… sabia que queria estar sempre perto de você… sempre… sempre…! – roçou a ponta do nariz contra a do loiro, as respirações se cruzando naquela proximidade ínfima entre os rostos: – Porque eu amo tanto você… tanto…! – os lábios do Blanco tremeram e os dedos pressionaram de leve e tremeram suavemente, mas aquela distância qualquer nuance era fácil de notar: – Que eu me arrependo apenas de não ter sabido nomear isso antes…e poder te dizer com todas as palavras… te dar segurança… te mostrar que você é insubstituível… e que mesmo antes de saber que eu te amava tanto… eu já o fazia com tanta vontade… que ninguém nesse mundo deve gostar mais de você do que eu…! Renaud não se aproximou mais, deixando que existisse apenas uma pequena barreira invisível de limites sobre os dois, tinha lhe dado um beijo antes, singelo, carinhoso, reconfortante. Mas agora queria que Didier lhe beijasse de volta, da mesma forma, queria sentir dele as mesmas coisas, pra ter ao menos a certeza, que a despeito de tudo estar uma bagunça, não estava errado em gostar dele, em ama-lo. Por isso em um sussurro baixo, as palavras deslizaram da boca de Renaud, em um pedido singelo: – Me beija…?! Didier
Era difícil interpretar aquele suspiro de Renaud. Talvez estivesse cansado de ouvir aquelas palavras, mas Didier acreditava nelas. Acreditava porque tinha visto ele sair de outras situações que muitos diriam ser piores, mas que só Renaud tinha poder de julgar como eram. Mas como fosse, não podia voltar atrás com o que tinha dito, nem queria, porque não tinha outra forma de colocar toda sua expectativa numa recuperação do moreno. E tinha esperança que aquilo tudo iria passar para ele, talvez antes até do que passasse para si, afinal, quantos anos a mais de conversa com doutores ele tinha, em comparação com alguém que nunca tinha se exposto de um modo que não fosse superficial? Sentiu as mãos ásperas de Renaud, as mãos tão familiares, passando por seu rosto. Fechou os olhos por um instante, reconhecendo os calos nos dedos, até ouvir a voz do moreno, dessa vez mais baixa, lhe chamando para atender a uma pequena confissão. Entreabriu os olhos azuis e deu atenção a ele, ainda deixando aquelas mãos irem do seu rosto até sua nuca, num carinho mais suave do que os que tinham o hábito de trocarem. Renaud começou com “eu nunca te disse”. E o que poderia seguir ali eram inúmeras coisas, pois havia muito que nunca haviam compartilhado, e mesmo depois de abrirem o jogo um com o outro, tinham anos de história, e provavelmente teriam anos de história ainda para dizer um ao outro que nunca tinham ousado abrir a boca para falar. Mas a dele, a dele fez com que seu coração batesse mais rápido, agitado. A primeira vez que Renaud pensou que gostava, gostava de verdade de si. E lembrava daquele dia, pois tinha sido uma discussão sua com a mãe, e estava trancado em seu quarto escuro, e aquele porre pequeno tinha ido até lá e no fim, contado uma história revoltante que lhe deixou mais calmo. Ainda lia aquela história. Naquele momento, ao ler aquela história então, aquele garoto irritante queria lhe abraçar? Cuidar? Lhe proteger? Desde aquele dia? Os dedos em sua nuca lhe causaram um arrepio, e a expressão pareceu cada vez mais cansada, mais cansada de segurar tantos sentimentos que sabia que passavam por seu corpo cada vez que ouvia ele dizer verdades que nunca imaginava, sobre Renaud, sobre os dois, coisas que eram verdade para Didier também, embora não soubesse precisamente nada do que sentia por Renaud, mas sentia exatamente aquilo que ele. Sempre... sempre! Abaixou um pouco a cabeça ao sentir a ponta do nariz roçando em seu rosto, os lábios apertados trêmulos ao ouvir uma declaração tão direta novamente naquele dia. Levou as mãos até os pulsos dele, segurando-os ali, o corpo tão pesado e tão cansado de lutar para expulsar certos sentimentos e guardar outros, como se fossem proibidos de serem ditos naquela situação em que os dois estavam, enquanto Renaud podia ser claro, podia falar, gritar, ou declarar tantas coisas que pensava mas não tinha posto em voz alta. E ao invés de pensar nele como frágil, fraco, covarde, diferente das situações em sua vida em que o choro tinha sido segurado como sinal de força, enxergava Renaud mais forte agora que estava nu à sua frente. Nu porque seu coração e sua mente estavam totalmente expostas para que Didier visse e julgasse, e pudesse responder, e pudesse rejeitar, e pudesse descreditar. Por isso mesmo ele parecia tão forte. Cerrou os olhos firmemente, acreditando naquelas palavras honestas. De verdade, não deveria ter ninguém no mundo que lhe amasse mais. E o fato de que chegou a acreditar nisso por um segundo sequer, pelo segundo em que ouviu aquilo declarado com uma voz tão baixa e confidente, mas clara, e limpa, que sentiu algo quebrar dentro de si, pois estava com o corpo todo quente a voz lhe faltou por um instante, quebrando assim que abriu a boca. Levou ambas as mãos ao rosto de Renaud e, quebrando aquela distância que ele mesmo decidiu impor, beijou o moreno longamente nos lábios. Apertou um pouco mais o rosto dele entre seus dedos e mais uma vez, beijou-lhe os lábios, seu rosto tão quente que parecia estar febril, a garganta seca o suficiente para que começasse a engasgar, o som fugindo dos lábios trêmulos enquanto beijava Renaud, e se não fosse a distância curta entre os dois, não teria sentido algo quente em seu rosto. Olhou para Renaud, mas bem sabia que elas eram suas. Aquelas lágrimas eram suas. Soluçou alto, sabendo quantas vezes tinha se isolado para chorar, porque se proibia de fazer isso na frente dos outros, porque não chorar era um sinal de força. Mas pelo visto, chorar, e se expor, assim, também era. Estava tão cansado para tentar parar qualquer lágrimas que apenas deixou que elas corressem por seu rosto, controlando-se para não fazer nenhum som além dos soluços pesados, a expressão deixando explícito tudo que estava derramando ali. Ou que queria derramar, palavra por palavra, qualquer que fosse a resposta. – Eso era... todo lo que necesitaba...! – falou, controlando-se o máximo para o rosto não ficar mais intensamente choroso do que já estava, enxugando-o com as costas da mão. – Não sei desde quando... porque eu também não sabia nomear isso... e ainda não sei... o jeito certo de amar... mas eu amo... te amo tanto... – a voz era igualmente pequena, mas acentuava as palavras com intensidade, tentando deixar as mensagens claras. – E eu não consigo... não vou esquecer nunca... alguém que me ama tanto assim... e não quero... eu não quero ficar longe... eu não quero te perder quando isso acabar... eu... – sentia-se cada vez mais afobado a medida que dizia aquelas palavras, incapaz de conter o choro, a respiração errática, até a voz quebrar e não conseguir dizer mais nada, engasgado. Umas das mãos desceu até a o pescoço de Renaud, mas não segurou-o ali. Não queria mais segurá-lo ali. Não precisava. – ... Eu quero ser seu. Me deixa ser seu...! Como queira chamar... amante... namorado... não precisa ser agora, mas... me deixa ficar com você, mesmo depois de tudo isso...! Porque eu quero você... tanto... e mesmo não achando que eu valha o esforço... companhia, carinho, segurança... quero te dar tudo isso também...! Era intrigante como não conseguia colocar tudo em palavras tão bonitas quanto as do moreno, mas tinha plena certeza de seus sentimentos. Se sentia ridiculamente manipulador, aproveitando as palavras dele para declarar as suas, quando sabia que elas não seriam realizáveis. Que não afastassem Renaud, por toda a ganância de suas palavras, mas que ele lhe desse uma resposta. Qualquer. Renaud
Podia dizer que os limites eram cinzas, mas os limites nem existiam completamente distintos naquele momento, estava tão perto de Didier como jamais estivera, principalmente porque estava completamente exposto para ele. Talvez a distância que sentia existir de estarem “perto e longe”, fosse esse acumulado de palavras nunca ditas, esse montante de sentimentos sem nome, que formavam um muro invisível. Claro, doía imensamente falar e ter de nomear tantas coisas que antes não precisavam de nomes, mas era muito pior ter de lidar com o “silêncio”, e ficar apenas imaginando como as coisas poderiam ser. Os “e se...” lhe atormentavam muito mais, do que lidar com a tempestade que era a verdade, nua e crua lhe dita de frente, e agora tinha noção disso. E sabia que se não era fácil para si, tampouco era para o outro, podia sentir pela forma como ele lhe segurou os pulsos, pela forma como os lábios se encontraram naquele beijo. Que dizia tanto sem nenhuma palavra, queria tanto aquilo, reciprocidade, poder pedir algo a Didier, e ter de volta um sentimento real, não um jogo, não uma brincadeira cheia de regras, apenas os dois, com seus machucados e seus sentimentos. Retribuiu a carícia com cuidado, carinho e um conjunto todo novo de gestos que estava se permitindo ter ao lado de Didier, naquele breve beijo. As lágrimas que vieram a seguir, não lhe surpreenderam por virem só agora, sabia por experiência própria que o choro quando vem, não há nada que se possa fazer para segurar. E preferia que ele chorasse em seu colo, do que sozinho no chão do próprio quarto, porque, ali e naquele momento, podia aparar a queda de Didier com suas mãos. Se conhecia agora mais do que antes, e tinha uma melhor noção de que seus machucados eram diversos, vindos de outras situações e outros momentos, e isso lhe enchia de manias e até certo ponto, esse jeito era o que tinha lhe impedido de se abrir com o loiro. E tinha deixado espaço para que o loiro lhe machucasse ao longo dos anos. No entanto, sabia que Didier tinha feridas que não tinham sido feitas por Renaud, mas entendia que elas sangravam sobre si, quando o loiro estava triste, enfurecido ou simplesmente decepcionado, frustrado e cansado demais. Queria poder lhe dar a segurança de que ele saberia lidar com tudo aquilo, mas não tinha como lhe dar aquela certeza, da mesma forma que Didier não podia lhe dar certeza de que ficaria bem, apenas podia torcer por sua melhora. Ouviu as palavras ditas em tom urgente, onde apesar de ter muitos desejos, Didier lhe pedia apenas o mínimo, e sabia como era aquele sentimento: “me deixe ficar perto, isso é suficiente”. Mas sabia, por experiência que apenas estar perto não era suficiente, e não colocaria o outro na mesma situação em que já teve de ficar, como apenas um acompanhante de sua vida, um expectador passivo, ele era mais importante que isso. O jovem Blanco estendeu as mãos na direção do loiro, e fez um gesto pedindo as mãos de Didier, e esperou até que ele repousasse aquelas mãos que bem conhecia sobre as suas, reconhecia tudo ali, os pequenos calos, as cicatrizes, a textura da pele, a temperatura da mão, tudo era familiar. E novamente, acariciou as mãos do outro com seus próprios polegares, se mostrando um rapaz mais carinhoso nos pequenos gestos do que jamais tinha exposto de si mesmo: – Preste atenção Didier, não faz sentindo ficar longe de você, se eu também te quero tanto perto de mim – Respondeu de forma honesta, o tom baixo embargado, cansado, mas assertivo no que dizia: – Você me disse tudo que eu precisava ouvir, e sim, ainda dói muita coisa que foi dita, e provavelmente ainda vai ficar assim por um tempo... mas além disso, eu sinto um forte alívio! – Renaud pressionou as mãos de Didier nas suas, ignorando momentaneamente os próprios machucados embaixo das bandagens: – Porque eu sei que eu sou insubstituível pra você, e mais importante que isso, você também sabe, que é insubstituível pra mim! – o Blanco piscou longamente, respirando fundo pela boca, ainda sentindo o nariz congestionado do choro ressente: – Eu não faço ideia de como vamos fazer de agora em diante, mas isso não me assusta mais tanto, como antes… sabe? Na verdade, eu quero muito testar… testar bater na porta do seu quarto e pedir um cochilo, assistir qualquer besteira no computador até tarde da noite, pedir uma pizza rabugenta no telefone porque eu estou com preguiça de cozinhar…! – Em meio aquele montante de frases e situações incrivelmente triviais, Renaud achou forças pra erguer um sorriso singelo, discreto, cansado, mas totalmente honesto: – Eu só quero poder fazer parte da sua vida, e deixar você fazer da minha, o resto… a gente pode ir resolvendo depois…! Didier
Apertou os olhos, tentando parar de chorar, e embora talvez ainda estivesse com os olhos vermelhos e inchados, os rastros de lágrima no rosto, estava tentando se controlar. Ainda tinha algo na garganta, entalado, mas já tinha posto pra fora tanto do que sentia, que imaginava que aquela sensação era apenas o resto do de sua ansiedade, que não era pequena, aguardando uma resposta de Renaud que não fosse aquele olhar cansado e compreensivo. Não sabia ser calmo, não sabia esperar, então uma resposta tão mais calma que a sua naquele ponto lhe deixava nervoso. As mãos dele se estenderam a frente e Didier colocou as próprias mãos ali, sentindo a textura áspera daquelas mãos que conhecia de brigas e de preparar comidas gostosas e queimaduras em experimentos com produtos químicos nos dias que voltava do laboratório. Gostava daquelas mãos. E o polegar deslizando nas costas das suas, devagar, lhe causou um arrepio confortável, pois era um gesto carinhoso para lhe acalmar. Não duvidava que Renaud fosse carinhoso, já tinha visto isso em outros gestos, mas agora sentia-se agarrando a ideia de que ele lhe queria bem para tentar se livrar daquele sentimento desesperador. Prestou atenção tal como ele disse e o corpo até ficou mais leve quando ele disse que lhe queria, e que não fazia sentido ficarem longe, e que tinha dito o que Renaud precisava ouvir. Que tinha feito algo bom para ele. Que embora tivesse dito tudo aquilo com desejos puramente egoístas, porque era Didier quem queria ficar com Renaud, isso não era algo triste para o francês, mesmo que fosse doloroso. As mãos que apertaram as suas lhe reafirmaram todos aqueles sentimentos, e Didier apenas concordou com tudo que Renaud tinha entendido dos dois daquela conversa, pois sim, ele era insubstituível e ficava muito aliviado de saber que também era insubstituível na vida dele, mesmo que não fosse o irmão ou o melhor amigo. Era alguém que, a despeito de não ter um título ou um lugar definido ainda, não seria deixado de lado. Apertou mas uma vez os olhos, segurando ainda a vontade de chorar, respirando fundo tal como o moreno. Acabou até engasgando o riso quando ele disse que iriam pedir uma pizza rabugenta, lembrando das incontáveis bobagens dos dois nos dias em que não tinham tempo de sair e brigar, ou simplesmente não tinham vontade. – Pode vir... cuando lo quieras... – respondeu, ouvindo que agora, mais do que sempre que estiveram juntos mas não estiveram de verdade, fariam parte da vida um do outro. Deixaria de estar no escuro sobre tudo que dizia respeito a Renaud. E ele também, agora estava completamente ciente de que era muito mais estúpido e frágil do que todos esses anos juntos tinham mostrado. E seguiam sem um título, sem um nome, sem nada definido, a não ser que eram parte da vida um do outro. Para Didier, que já estava se achando ganancioso demais de pedir a Renaud para se acertarem, depois de tudo que tinha feito, saber que ele lhe queria tinha lhe valido toda aquela conversa. Pegou a mão do moreno em retorno, aquela mão que tinha lhe apertado a despeito do machucado enfaixado bastante visível. Segurou-a na sua, e curvou-se sobre o moreno, depositando um beijo carinhoso sobre aquela mão que a despeito de todos os machucados tinha sido estendida para si, e que tinha lhe segurado apesar da dor, e que agora podia, nem que fosse com um gesto simples, tentar amenizar um pouco do machucado. – É tudo que eu precisava. – Didier falou, já com a voz cansada. Já não tinha forças para continuar conversando, estava mais exausto e surrado que se tivesse brigado usando os punhos e garras, mas apesar de tudo, estava satisfeito e aliviado. E também sabia que teriam tempo. Porque tinha dito que queria estar com Renaud e estava determinado a isso. Agora tinha outros problemas para resolver. Mas os faria assim que conseguisse dormir. E pediria desculpas para Isaac afinal, mesmo que ele não entendesse. [Thread encerrada] |