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[Drive] Climbing to Hope [Nathan; Talulah] - Lil - 09-22-2021

Nathan

O seu primeiro e único encontro com Talulah tinha se saído um completo desastre. A tentativa de se acalmar com os remédios que Enzo lhe ofereceu foram uma grande infelicidade e ele acabou bêbado e drogado, sendo levado para casa pela mulher e nem conseguia lembrar direito o que tinha acontecido - mas com certeza não era nada bom e do que devesse se orgulhar. Quando Nathan acordou no dia seguinte, estava com uma ressaca física e moral, e sabia que se já não tinha chances com a morena antes, agora era melhor nem estar na mesma cidade que ela.

Mas a sua lamentação foi interrompida pela insistência quase desesperada de Enzo que ele tinha que ir encontrar com a mulher na Igreja, ou aparentemente, Enzo que acabaria morrendo. E era até divertido que o biólogo achasse que as pessoas ao redor eram predadores e herbívoros, mas embora não fosse acreditar muito no que ele dizia sobre Talulah, a ideia de que podia mesmo ir visitá-la mais uma vez lhe deixou com um tantinho de esperança. Bom, pelo menos para se desculpar e não acabarem em maus termos - já que todas as suas atitudes até ali tinham sido bem equivocadas.

Daquela vez, ele estava ainda mais nervoso do que no dia anterior, mas não tomou nenhuma medicação de Enzo. Era melhor ir com a cara e nenhuma coragem do que com a cara e sem nenhuma razão. Ele quase não comeu antes de sair da pousada, colocou roupas simples e pensou até em comprar flores, mas estava tão imerso no que diria a Talulah e como tentaria se explicar que antes que percebesse, já estava na frente da Igreja. Ele respirou fundo, engolindo em seco, e entrou na Igreja, tentando não chamar atenção e principalmente, não interromper algum dos ensaios do coral. Seguiu andando sorrateiro pelas últimas fileiras de cadeira e observou, ao longe, a morena conversando com os jovens rapazes do coro.

Talvez não tivesse sido uma boa ideia.

Talulah

Cerise estava se provando uma verdadeira fonte de entretenimento para suas férias do exército. Uma cidade com uma criminalidade peculiar, muita comida boa, a paz dos ensaios do coral, seus amigos (e toda a parte de atormentar Jack, que era hilária) e, apesar de tudo, os encontros extremamente falhos com um rapaz chamado Nathan, que precisava decididamente de um curso para aprender a superar a timidez com mulheres. Mas não estava pensando em nada disso, e nem na aventura com ele drogado de calmante e álcool na noite anterior, enquanto regia o coral. Cada assunto em seu tempo.

Só lembrou dele eventualmente, quando começou a passar instruções para os grupos ensaiarem por conta própria, pois se bem lembrava, tinha assustado um senhor Enzo em uma pousada L’eau Claire que retornaria até lá para ir atrás dele caso não tivesse notícias de Nathan no dia seguinte. E já era o dia seguinte.

Mas tinha que dar algum crédito ao senhor, porque ele pareceu prontamente entender que não era uma pessoa calma e tranquila, como aparentava. Não sabia se ficava exatamente ofendida ou lisonjeada de conseguir intimidar alguém apenas por um olhar mesmo fora de serviço, mas se ao menos fosse efetivo, não deveria reclamar.

E foi, pois logo avistou Nathan no fundo da igreja com no canto do seu campo de visão, e se despediu dos adolescentes para seguir até onde ele estava, parando de pé ao lado do banco, trajando uma blusa de manga branca com uns babados delicados na gola, uma saia lápis vinho e um scarpin nude discreto.

- Vejo que está bem o suficiente para vir aqui. Ainda bem que o dono da pousada lhe passou o recado. – Talulah comentou, suspirando brevemente. – Como se sente, Nathan?

Nathan

Mesmo com a tentativa de passar despercebido, ele teria que conversar com Talulah cedo ou tarde, as mãos estavam até suando e ele coçou a nuca várias vezes, desviando o olhar dela para os lados como se pudesse receber uma iluminação divina de como agir - e pelo menos agir, já seria um bom começo. Enquanto estava procurando o que observar na Igreja e onde buscar inspiração, Talulah se aproximou, e mesmo nos saltos altos, ele mal ouviu a movimentação, quase se surpreendendo com ela bem a sua frente, naquela bela roupa que só ressaltava as curvas e a austeridade da morena.

- E-e-eu… s-s-im, eu r-recebi o recado eu… - ele puxou o ar todo de uma vez, e engoliu em seco quando ela suspirou, já que era uma boa resposta de alguém que estava no mínimo irritado. Sentiu o rosto até queimar com a possibilidade e aproveitou a pergunta educada. - B-bem, eu… estou bem. Obrigado…

Certo, não era um agradecimento que queria usar primeiro, por isso ele acabou coçando a nuca de novo, a outra mão indo para o bolso. Talvez devesse ter levado flores, manteria as mãos ocupadas.

- Eu… sinto muito… pelo nosso encontro. - Nathan reuniu o resto da coragem que tinha para falar, soltando o ar todo de uma vez e levando uma mão ao rosto. - Eu… vim pra me desculpar p-pelo que aconteceu e… foi tudo culpa minha, eu… fiquei muito… nervoso e… desculpe. - ele adicionou, aproveitando que a mão estava cobrindo o rosto para não encará-la e ficar ainda mais constrangido. - Você não merecia… aquilo. Eu sinto muito mesmo…

Talulah

Imaginava que depois de passar um pouco de vergonha na noite anterior, Nathan estaria mais quieto e nervoso. Porém, ele até lhe surpreendeu com um gaguejar condizente, o que tirava um pouco de sua diversão. Ao menos ele estava bem. E bem vermelho, provavelmente do nervoso que acabava provocando nele, mesmo com nenhuma intenção.

O pedido de desculpas foi ainda mais coerente, e Talulah apenas observou longamente o rapaz, notando como ele tinha sido afetado pela gafe da noite anterior enquanto ela honestamente nem ligava tanto assim se tinha tido que enviar ele para casa.

- Pois eu não sinto muito pelo nosso encontro. Ou nem teria pedido para que viesse aqui. – a morena colocou de um modo seco, ainda que a voz suave amortecesse bastante a frase. – Não se engane, foi um péssimo encontro. E você não ficou muito nervoso. Você veio dopado. Mas não me incomodo de ter de lhe levar para casa, me incomodou não saber se você estava bem ou tinha lhe deixado em boas mãos. Não faça isso de novo. Com ninguém que considere um amigo. – ela ralhou com um tom seguro, então levando a mão até as costas de Nathan, em um gesto singelo. – Se me prometer isso, posso lhe perdoar.

A morena então ajustou-se sobre o banco e voltou os joelhos levemente para Nathan, descansando as mãos sobre eles por um instante.

- Não vou mentir que estou curiosa para saber o que você acha que eu mereço, considerando nossas últimas interações. – ela falou num tom muito suave, embora claramente pudesse parecer chateada por conta das próprias palavras. - Dito isso, Nathan... se para você falar comigo for sempre necessário estar de alguma forma alterado, não acho que qualquer encontro vá dar certo, e estamos os dois perdendo tempo. Não vai fazer bem para você, e nem para mim. – colocou pontualmente, observando atentamente a reação do moreno, entretida com o que ele poderia pensar sobre sua rejeição relativa.

Nathan

Só a primeira frase de Talulah fez com que o corpo todo de Nathan reagisse como se fosse ter um infarto ali mesmo. Se ela não tinha se arrependido tanto assim do encontro, talvez ainda tivesse alguma chance? Por mais remota que fosse? No momento de êxtase, ele era completamente alheio ao tom de fala dela. Mas foi trazido de volta à realidade de uma forma bem bruta com as definições dela de tudo que tinha acontecido de errado no encontro e que ele bem sabia. Ele engoliu em seco e, de novo, sentiu as emoções fora de lugar quando ela demonstrou um pouco de preocupação com o seu estado e ainda aconselhou a não fazer aquilo de novo.

- Eu prometo! Nunca! Nunca mais! - a resposta foi tão rápida com a perspectiva positiva do que ela tinha dito que ele nem mesmo gaguejou, mas agradeceu que ela tinha afastado a mão das suas costas, tinha até sentido a área queimar.

Nathan abriu e fechou a boca algumas vezes quando ela perguntou o que ele achava que ela merecia. Podia descrever tudo desde uma rosa até o resto do mundo com a perspectiva muito romântica, mas além de ser incapaz de articular aquilo bem em palavras, foi pego na dura realidade das palavras dela sobre o fato de que se fosse incapaz de conversar com ela, nenhum encontro daria certo.

- Não! Não é...! - ele respondeu com mais ímpeto do que queria também, inclusive, se virando um pouco na direção dela, a ponto do rosto ficar extremamente vermelho. Mas fechou a boca e engoliu em seco, levando uma mão para cobrir a boca por um instante. - Não é... sempre. Eu... posso me acostumar... m-m-mesmo... s-só q-que você... é d-diferente... e t-tudo em você e... s-sua pres-s-sença. - ele fechou os olhos, baixou a cabeça e levou uma mão à nuca, massageando a área. - Me dê só... m-mais uma chance... e-eu... posso... melhorar. Me deixa te levar... n-num lugar... que eu vou escolher, dessa vez...?

Talulah

Uma coisa tinha que admitir, e dar o braço a torcer. Nathan se agarrava ao mais tênue fio de esperança que podia. Qualquer coisa que ela falava tirava ele do equilíbrio de sentimentos e mexia com ele profundamente. Ou estava sendo enganada pela aparente honestidade estúpida do rapaz, o que também era um ponto a se considerar. Até o modo como ele queria lhe responder, sentia que se pudesse falar, teceria todas as belas coisas do mundo para ela, e não era bem isso o que esperava.

Até gostava de ser admirada e não temida, para variar, mas sabia que isso se tornaria um pouco irritante com o tempo.

Encarou-o muito diretamente quando ele se voltou em sua direção, notando que ele fazer aquele gesto de lhe encarar o fazia reagir como se tivesse olhado direto para o sol, o que foi quase divertido para Talulah. As palavras que ele disse a seguir lhe fizeram ponderar se queria mesmo uma nova tentativa de encontro, mas, que tipo de lugar Nathan tinha em mente? Só saberia quando chegasse lá.

- Seria justo. Afinal, eu escolhi o último local. Quem sabe assim você consegue finalmente conversar comigo. – ela respondeu, atenta a proposta. – E quem sabe se conseguir conversar comigo, vai ver que não tem tanta mística assim sobre mim. Pode ser bom para nós dois. – Talulah completou de modo articulado, então levantando-se para retornar às suas atividades. – Qual sua ideia?

Nathan

Se havia um bom jeito de definir a expressão de Nathan ao ouvir a resposta positiva de Talulah para a sua proposta era “iluminada”. Quando ela concordou e ainda disse que talvez assim pudessem conversar normalmente, ele só fez uma série de acenos frenéticos positivos com a cabeça para não acabar dependendo de uma resposta extremamente gaguejada e atrapalhada de novo. Quando ela disse que podia ser bom para os dois, ele até se levantou, empolgado, como se fosse um cachorro muito grande balançando o rabo.

- Vai… v-vai ser bom sim, eu juro! E-e-eu v-vou te levar… p-pra ver o pôr do sol! - ele explicou, muito diretamente, como era possível no seu estado entre excitação e deslumbramento naturalmente causado pela morena. - E-eu só preciso fazer umas l-ligações antes, c-certo?! D-Desculpe por tomar o seu t-tempo!

Nathan só esperou a confirmação de Talulah, e já estava prestes a puxar o celular e fazer aquilo ali mesmo com a empolgação. Mas ele conteve a vontade até se despedir de um jeito minimamente adequado da morena para sair da igreja. E foi só colocar os pés para fora que ele pegou o celular para pesquisar os locais que já tinha em mente e ligar para uns conhecidos para conseguir equipamentos e até alugar um carro, já que teriam que sair de Cerise.

Mas claro que ele não tinha especificado muita coisa para Talulah, então aproveitou para mandar uma mensagem mais detalhada - e sem nenhuma possibilidade de gaguejar -, com detalhes de roupas que ela deveria usar - confortáveis, com tênis de preferência -, marcar o horário de encontrar com ela em frente à Igreja, e que passaria para buscá-la no dia combinado.

Ele ainda compartilhou as informações do possível encontro e da ideia com Enzo na pousada e só foi disso que se falou nos próximos dias enquanto ele preparava equipamentos e alugava um carro, inclusive, 4x4 para o terreno que iriam percorrer. No fim de semana, estava de novo diante da Igreja para esperar por Talulah, às 17h em ponto, com o céu ainda muito claro, pela previsão, o sol devia se pôr só depois das 20h, o que dava tempo de sobra.

Talulah

Talulah parou longamente para observar Nathan quando ele comentou que iria leva-la para ver o por do sol. Não podia negar que era um plano interessante e estranhamente romântico para um homem que tinha quase certeza ser incapaz de articular tanto assim. Porém quando ele disse que precisava fazer as ligações, a morena sorriu suavemente, ignorando o pedido de desculpas dele por ter tomado seu tempo, quando ela que tinha pedido para ele ir ali.

- Se for ligar para Deus providenciar esse por do sol, aproveite que já está na igreja. – ela brincou, se despedindo silenciosamente para retomar suas atividades.

Não sabia o que precisava de tanta preparação para que só sentassem e assistissem um evento da natureza que poderiam ver na orla da cidade, ou algum dos pontos turísticos interessantes de Cerise, mas quando recebeu a mensagem de Nathan, percebeu que ele estava propondo que saíssem da cidade, o que lhe deixou surpresa, porém, como uma mulher criada em um ambiente hostil, também bastante desconfiada. Não que achasse que Nathan era nenhum tipo de predador com a falta de jeito e estupidez dele. Mas ela também já tinha visto todo tipo de pessoa para que pudesse evitar ser desconfiada.

Os tipos de roupas que ele tinha pedido, ela não tinha na mala. Tinha um tênis para longas caminhadas porque pretendia fazer turismo na longa estadia na França, mas suas roupas eram muito mais sociais e vestidinhos. Foi até um brechó agradável e arrumou uma calça de tecido mais grosso com alguns bolsos, o que lhe deixou desagradada, pois embora fosse mais justa, ainda lhe lembrava o infeliz uniforme do exército, e pegou também uma blusa justa de mangas de gola redonda com dois pequenos botões que mesmo abertos não mostravam nada do seu decote.

Na saída, não esqueceu de arrumar um pequeno canivete suíço, o qual folgou a pequena lâmina e afiou nas horas vagas do hotel. Por que? Porque não?

No dia combinado com Nathan, fez um rabo de cavalo alto e esperou na igreja com sua bolsinha de essenciais, lembrando de enviar para Leona Blanche uma mensagem avisando que estaria em um encontro com um rapaz que tinha conhecido em Cerise.

[Talulah; 16:40, xx/xx/xx] Lioness, estou indo a um encontro para ver o por do sol fora de Cerise com um rapaz chamado Nathan. Não precisa se preocupar, ele é um bom rapaz, e eu sou mais esperta do que você Smile mesmo assim, se eu não enviar mensagem até daqui a dois dias, esse é o número dele (xx-xxxxxxxxxx). Ele está hospedado numa pousada L’eau Claire, e é amigo de um senhor chamado Enzo.
[Talulah; 16:40, xx/xx/xx] PS: E sua vida amorosa, como vai? Como vão sua parceira e seu filho felino? Wink

Talulah então sorriu para a tela do celular, guardando-o finalmente quando ouviu o som do carro chegando pontualmente na porta da igreja como Nathan tinha indicado. Ela caminhou até o carro, notando que pelo visto iriam para longe, com uma 4x4 e pediu licença para entrar no banco do carona.

- Boa tarde, Nathan. Realmente precisava de uma preparação especial, vejo.

Nathan

Nathan estava nervoso para o novo encontro com Talulah, mas estava também empolgado. Depois de chegar em Cerise, ele não tinha feito nenhum tipo de esporte com que estava acostumado por causa do ombro machucado. Mas agora estava melhor, e podia fazer uns esforços menores como o que tinha planejado com a morena. Só que no momento de empolgação, ele nem percebeu que não tinha entrado em muitos detalhes do que iriam fazer de fato, e a expressão abobalhada ao encarar a morena em roupas casuais e com o cabelo amarrado no rabo-de-cavalo lhe trouxe à realidade que até em roupas simples, era fácil perder as palavras perto dela.

Ele riu involuntário com a visão da morena e abriu a porta para que ela entrasse, indo depois para o lado do motorista. Ainda a olhou do seu lado no carro, sentindo o rosto quente, mas pelo menos daquela vez não estava drogado nem bêbado, e muito disposto para o passeio que tinha planejado.

- B-boa tarde… dessa vez eu não tomei nada, não se preocupe. - Nathan disse, demorando alguns longos segundos para desviar a atenção de Talulah e se concentrar na estrada. Bom, aquilo era uma ótima perspectiva, se fosse obrigado a não olhar para a morena, talvez as palavras saíssem menos emboladas. - Nós vamos sair da cidade, se não se importa… - na verdade, se ela se importasse, seria um ótimo jeito de acabar com o seu plano de encontro. - Ah, m-mas eu não vou te levar pra nenhum lugar perigoso! É que tem uma colina fora da cidade, alguns amigos meus fazem trilha por essas áreas, eu falei com eles pra saber se o lugar ainda é acessível, eu visitei há muitos anos quando vim em Cerise da primeira vez e é muito bonito, eu acho que você vai gostar… quer dizer… você gosta d-dessas coisas de natureza? E-eu… nem perguntei. Você faz exercícios e coisas assim? Ah, eu disse que trabalho como guia e explorador?

Definitivamente, prestar atenção na estrada facilitava muito as coisas. Ou talvez fosse o assunto que era bem na sua área de conforto. Ou os dois.

Talulah

Talulah se acomodou no carro e colocou o cinto de segurança enquanto ouvia Nathan cumprimentá-la com aquele jeito bobo natural dele, e acabou sorrindo suavemente quando ele disse que não estava alterado de forma alguma.

- Fico satisfeita. – ela respondeu, afinal, ao menos ele tinha a decência de tentar não lhe matar em um acidente de carro. Embora não pudesse dizer muita coisa sobre se ele dirigia bem ou bem mal. Poderia até dizer o segundo pelo tanto de tempo que dele demorou para dar atenção a estrada de fato. Não deu nenhuma resposta inicialmente a colocação dele de que sairiam da cidade, mas ele foi rápido em adicionar mais detalhes, de um jeito inesperado. Nathan cuspiu uma série de informações sobre ele mesmo que até então não tinha ouvido, o que colocou uma expressão séria na morena, atenta a estrada e ao que ele estava dizendo. Sem gaguejar. – Até então não tínhamos tido muitas oportunidades de conversar... então eu não sabia que esse era seu trabalho.

Ele parecia estranhamente mais confortável. Talvez fosse por ele estar no controle do encontro e tudo o favorecer, desde a área de expertise à estrada?

- Eu não diria que gosto. – ela respondeu de modo muito claro, com um sorriso breve no rosto. –Porque não experimentei o suficiente. Nunca tive oportunidade; não como um hobby. – adicionou, embora não fosse entrar em detalhes sobre como treinamento que havia feito no exército certamente já tinha lhe levado há várias trilhas. – Mas eu faço exercícios e coisas assim. Não vou ser um peso morto, sr. Guia. – Talulah olhou pela janela, apreciando o calor do sol. - E aposto que se escolheu o por do sol daqui, estando com um carro e minha conivência para me levar onde quisesse, deve ser bem bonito. Porém... o que traz um guia e explorador a uma cidade pacata como Cerise?

Nathan

Nathan sorriu um tanto sem graça quando ela apontou que eles não tinham conversado muito das outras vezes e sabia pouco de si. A escolha de estar dirigindo tinha sido excelente para não ter que se distrair com a aparência da morena, mas quando ela comentou que "não diria que gosto" de natureza, ele teve até que engolir em seco. Desse jeito, seu plano de tentar ao menos ser minimamente surpreendente ia por água abaixo. Mas logo ela adicionou que não tinha a oportunidade de fazer aquilo como um hobby e ele engoliu em seco de novo, prestando atenção na estrada que já estava os levando para fora dos limites da cidade.

- Bom, eu espero não estragar todas as chances de você gostar... como um hobby. - ele disse, com um tom nervoso. - E você não seria um peso morto em nenhuma hipótese. - adicionou, muito objetivo sem nem mesmo gaguejar, daquela vez.

Mas ele voltou a sorrir um pouco mais leve e satisfeito quando ela colocou ao menos uns centavos de confiança que se tinha escolhido o pôr do sol, devia ser bonito, ao menos naquele aspecto ele tinha segurança do que estava fazendo.

- É muito bonito sim, tem muitos lugares bonitos no mundo que ninguém nunca pisou, eu gosto de explorar. Se não gostar da nossa saída de hoje, eu posso sugerir outras coisas, bom, quem sabe? - ele riu nervoso, ainda atento a estrada, mas ficou mais tranquilo quando ela perguntou o que o tinha levado a Cerise. - Ah, lembra que eu estava com o braço numa tipoia? Eu machuquei numa expedição, e fazia tempo que eu não vinha pra Cerise, então pensei em passar umas férias estendidas aqui enquanto me recuperava. Está melhor agora. Como eu já conhecia o Enzo de alguns anos atrás, resolvi voltar e ficar na pousada dele.

Nathan seguiu o trajeto por uma das interestaduais principais para fora da cidade, mas logo pegou uma das saídas para uma rua mais estreita e de terra, que ia gradualmente subindo.

- E você? Você trabalha com alguma coisa da Igreja?

Talulah

A deglutição sonora de Nathan lhe pôs um sorriso suave no rosto. Apesar de ele estar aparentando mais confiança por conta das circunstâncias serem favoráveis, sendo aquele o emprego dele, e ele estando dirigindo e fazendo o que fazia para viver, o que imaginava ser confortável, ainda conseguiu, através de um mero comentário, desestabilizar o moreno. Não que fosse sua intenção estar ali apenas para testar Nathan, mas achava divertido vê-lo lutar contra si mesmo apenas para que pudessem conversar. Era minimamente interessante.

Ela certamente não seria um peso morto. Ele tinha a experiência, mas ela também tinha treinamento. Poderia sobreviver sem ele, mas perderia metade da diversão.

- Para quem não conseguia falar, e agora está me chamando para um próximo encontro mesmo sem saber se gosto desse ou não... ganhou confiança, hm? Está se sentindo um pouco mais confortável? – ela comentou calmamente, sabendo bem que suas perguntas eram as próprias respostas. Mas seria interessante ouvir o que o moreno tinha a dizer sobre. Ouviu um pouco sobre como ele havia chegado em Cerise e voltou o olhar para ele por um momento, imaginando que ele confiava bastante naquele Enzo. Mas também Nathan parecia confiar em qualquer pessoa que não fosse obviamente rude. – Não magoe o braço novamente nessa trilha comigo. Você não tem muito cuidado com a tipoia. – ela sorriu.

Talulah encostou no banco e cruzou os braços quando questionada sobre seu trabalho com a igreja.

- Não. A igreja é parte de um projeto pessoal. – ela comentou, então observando Nathan pelo retrovisor. – Qual você acha que é meu trabalho de verdade?

Nathan

Nathan riu completamente sem graça, sentindo até o rosto queimar quando Talulah apontou que ele estava se sentindo muito mais confiante e confortável, bom, se somasse o fato de que estava fazendo algo que entendia, com o detalhe de que não precisava encarar o rosto bonito da morena diretamente e sentir aquele olhar intenso de volta, pelo menos precisava aproveitar a falta de gaguejos.

- Não é... é só que... eu... bom... - não estava exatamente gaguejando, mas também não sabia como responder sobre ter ganhado confiança. - Eu... gosto do meu trabalho e gosto dos lugares que visito. Acho que todo mundo devia ter a chance de ver esses cenários pelo menos uma vez na vida. E... eu queria mostrar pra você e... falar como alguém normal pelo menos uma vez. Queria que você gostasse, mas... pode só dizer que foi uma péssima ideia no fim das contas.

Ele engoliu em seco, concentrado no trajeto para perceber que cada vez subiam mais, significava que estava perto do destino. Mas até se surpreendeu quando ela disse que a Igreja não era o trabalho de fato, e nem teria receio em pensar que Talulah era algum tipo de atriz ou modelo, com um rosto como aquele e aquela postura... até abriu a boca e pensou em responder logo aquilo, mas retomou as poucas vezes em que a tinha visto na Igreja com o coral, e pelo menos teve outra ideia mais prudente.

- Você é... professora? - foi mais uma pergunta do que uma resposta de fato. - Quer dizer... pelo jeito que lida com o coral, parece que sabe lidar com adolescentes e ensinar as coisas... eu... hm. Eu passo mais tempo explorando lugares inabitáveis do que com outras pessoas, eu não sou tão bom em ler os outros assim.

Talulah

Nathan não estava gaguejando, mas agora parecia estar conseguindo até escolher as palavras. Quando apontado que estava mais confiante, ele pareceu quase nervoso, e podia até se questionar qual a necessidade de ficar nervoso. Não era como se ela esperasse que ele fosse humilde até para as trapalhadas verbais que cometia. Estava tudo bem em admitir que estava menos nervoso, e os motivos foram claros: estava indo ali mostrar algo que era interessante para ele, e portanto, se sentia confortável em um cenário familiar. E podia até ver que tinha afetado Nathan com seu comentário honesto sobre como talvez não fosse fã de trilhas.

- Não foi uma má ideia. E eu nunca fui com um profissional, então pode ser uma experiência interessante. Deixe as preocupações para depois, afinal, se eu vou gostar ou não, só posso responder honestamente quando chegarmos ao final do dia. – Talulah respondeu às preocupações de Nathan, e esperava que ele não fosse atormentado por pensamentos negativos, porque isso sim poderia diminuir a experiência dos dois na escalada.

Até observou a paisagem ao redor, tentando imaginar o tipo de trilha que fariam, mas sua atenção voltou-se toda para Nathan, um sorriso cerrado surgindo nos lábios dela quando ele fez a suposição de que ela era uma professora.

- Não, você certamente não é bom em ler pessoas. – ela comentou, lembrando dos três melhores amigos que tinham muito mais habilidade nisso. – Mas fico feliz que ache que sou professora. Ser professor demanda habilidades que não domino. Mas se consegue enxergar alguma coisa delas em mim, significa que estou me trabalhando no caminho certo. – Talulah respondeu, voltando o rosto de volta para a janela. – Seja honesto, Nathan: se minha profissão de verdade fosse pouquíssimo glamurosa... nem professora, nem cantora, nem guia turística... o que isso mudaria sua opinião sobre mim? – ela indagou com um sorriso suave no rosto, deixando ele tirar as conclusões que quisesse.

Nathan

Nathan nem tinha dúvidas de que tinha errado a profissão de Talulah, mas ficou muito mais animado com o fato de que estavam finalmente chegando no topo do monte, e que o dia ainda estava bem claro para que tivessem a oportunidade de ver um ótimo pôr-do-sol. Mesmo que ela tivesse pedido honestidade, ele não tinha nenhuma intenção de ser desonesto com a morena, e com o sorriso bem satisfeito no rosto, ele respondeu bem direto.

- Não. Eu já acho que você é incrível assim, não tem nada que diga que faz que ia mudar o que penso. - ele respondeu, lembrando-se que tinha criticado Talulah um tempo atrás por vê-la saindo de um hotel com a roupa de outro homem, e acabou pigarreando, sorrindo sem graça. - Q-quer dizer... eu sei que já achei que você... era p-p-prom-promíscua uma vez e... e-eu s-sinto muito. M-m-mas... mesmo q-q-ue fosse seu t-t-trabalho! N-não mudaria n-n-nada a-ag-g-gora! - ele voltou a gaguejar, só por lembrar da situação específica. - Q-q-uer dizer eu s-só n-não ia... q-q-uerer pagar p-pra... s-sair c-com você, s-s-se não se importa... - engoliu em seco, e no rumo desvairado que tinha dado à conversa, ele ficou aliviado e animado que tinha alcançado o seu destino, e já avistava mais longe uma dupla de homens conversando e arrumando equipamentos que seriam ótimo para mudar de assunto. - Chegamos!!

Nathan aproveitou para estacionar o carro e tentar ignorar a desgraça de conversa em que tinha entrado. Ele saiu do carro primeiro e abriu a porta traseira para tirar alguns equipamentos que envolviam essencialmente cordas e ganchos, e mesmo que agora estivesse fora da direção e sem poder desviar o olhar de Talulah, ele estava mais animado com a ideia e sorriu largamente, exibindo a série de equipamentos para a mulher.

- Desculpe, eu não fui totalmente sincero. Não vamos só fazer uma trilha, vamos descer a montanha primeiro. A vista é a melhor, a trilha é para subirmos de volta. - ele disse, e nem teve tempo de ouvir a resposta de Talulah, quando um dos homens que estavam lá se aproximou, dando um tapa generoso em suas costas, e ele era até maior do que Nathan.

- E aí, Nate! Olha só! Eu quase não acreditei quando disse que ia trazer uma amiga para o rapel! Você conseguiu falar que nem gente? Ou veio gaguejando o caminho todo?! - o homem falou com Nathan em inglês, um sotaque irlandês, ele tinha cabelo curto vermelho e uma barba espessa também, aparentava mais de trinta anos de idade.

- Ei, Connor, obrigado por arrumar tudo aqui. - Nathan cumprimentou o outro, um tanto sem graça pelo comentário, apertando a mão dele e puxando-o para um cumprimento mais amigável. - Essa é Talulah Reyes, seja educado.

- Eu sempre sou educado, Nate. - ele bateu de novo nas costas de Nathan e tirou a luva que usava para estender a mão na direção da morena. - É um prazer, Connor Mcgregor. Aquele ali é o meu irmão, Seamus. Nós viemos mais cedo e deixamos tudo preparado pra vocês aproveitarem a vista. A madame já fez rapel antes? É uma descida de quase 100m.

Talulah

Talulah sabia que Nathan lembraria sozinho da ocasião em que ele foi desrespeitoso, porque ele parecia o tipo de pessoa que lembraria, e ele mesmo trouxe o assunto de volta, o que lhe fez disfarçar o sorriso entretido numa fachada distraída com a paisagem. E o melhor ainda foi ouvir ele desesperado gaguejando para tentar se safar do que ele mesmo tinha começado a falar. Definitivamente o moreno conseguia entretê-la.

- Eu não sei se entendo inteiramente. Mas... essa também não é minha profissão, então não se preocupe. – ela respondeu, observando ao redor e notando os outros dois homens, estreitando os olhos para o par de dentro do carro antes de sair. Pior do que arrumarem um encontro tão distante da cidade, era ele ter amigos esperando por ele. Talulah tinha sido muito bem educada como policial, pois isso ligava todos os alertas do corpo dela.

Ela saiu do carro, mas seguiu Nathan, olhando os equipamentos dele atenta para os aparatos, e embora não fosse exatamente conhecedora de esportes radicais, bem sabia que não precisariam de tanto só para uma trilha. Pelo visto tinha sido colocada ali para descer umas paredes.

Porém nem teve tempo de atentar à leve omissão de Nathan, um dos homens se aproximou, e a atitude brincalhona dele lhe fez erguer de leve o queixo prontamente e encará-lo de modo muito direto, os olhos claros claramente julgando-o embora tivesse um sorriso delicado no rosto. Eles deveriam ser bons amigos, mas Talulah não era muito inclinada a apreciar a atitude para com o Nathan. Até então não tinha dividido a diversão de brincar com ele com ninguém.

Ela estendeu a mão para apertar a do homem alto que parecia irlandês, e deu uma olhada de esguelha para o irmão dele, sorrindo suavemente.

- Satisfação, Connor. Seamus. Obrigada pelo serviço. – ela cumprimentou o outro também, embora não tivesse se movido do lugar para falar com o outro irlandês. – Já fiz rapel, mas nunca tão alto. Certamente será um desafio. Conto com a sua ajuda, então, Nathan?

Nathan

- Então a madame já está bem preparada, e com um guia como o Nate aqui, não tem como errar. - Connor deu mais outro tapa forte nas costas do outro como se fosse uma brincadeira leve, mas até um homem do tamanho de Nathan pendia o corpo para frente com o tapa. - Vou descer com o Seamus para alinhar as cordas, já que vai com o Nate, não precisa ser acompanhada daqui de cima. Aproveite a vista, madame.

Ele fez um aceno de cabeça, com um sorriso animado, e uma cotovelada acompanhada de um olhar indiscreto para Nathan com uma piscada, que só deixou o americano com o rosto vermelho enquanto se enrolava para soltar os ganchos da cadeira de suporte para rapel. Ele se afastou na direção do irmão que estava mais distante e os dois foram até o limite do morro, diante da parede de pedra que tinha uma mata vasta lá embaixo, para jogarem cordas e começarem a descer. Naquela altura, o vento era mais forte e frio também, e só quando estava sozinho com Talulah foi que Nathan voltou a falar depois de desenganchar parte dos equipamentos.

- Desculpe pelo Connor, ele é meio indiscreto, mas é um cara legal. Eu devia ter dito que teria mais gente aqui, mas acho que não deu muito certo a tentativa de fazer uma surpresa. - ele riu completamente sem graça, as maçãs do rosto coradas. - Vamos comigo, vou te ajudar com o equipamento e mostrar as coisas, já que já fez rapel, não vai ser difícil, e a vista descendo é muito bonita.

Nathan só esperou uma confirmação de Talulah para acompanhá-la até o extremo do morro também, onde era possível ver a floresta abaixo deles e as cordas fixadas no chão, por onde os dois irmãos já tinham descido.

- Licença… - Nathan pediu, se ajoelhando na frente de Talulah para ajudá-la com a cadeira de escalada, já que teria que prender todas as travas e apertar as faixas, esperando apenas a autorização alheia.

Talulah

A casualidade de Nathan e seus conhecidos do meio dos esportes radicais não lhe deixava muito animada ou inspirada. Encarou o outro sem muito receio enquanto ele afirmava que iria descer antes e lhe deixava aos cuidados do moreno, para o qual Talulah logo se voltou, não deixando de ver a cotovelada que deixou Nathan sem graça. Honestamente achava aquele comportamento um tanto infantil, mas sabia por conviver com soldados imaturos o tempo todo que aquele comportamento era quase primal em alguns espécimes masculinos.

Acompanhou os outros com o olhar já que Nathan estava concentrado nos equipamentos, isso até ele pedir desculpas pelo colega de trabalho, o que fez a morena voltar um olhar longo para ele.

- Você está desculpado. – ela respondeu, ignorando a tentativa dele de se desculpar pelo outro sujeito. – Mas me pergunto que tipo de surpresa estava tentando fazer ao não avisar que teriam mais pessoas aqui. – ela questionou em um tom suave, quase genuinamente curioso, embora fosse bom cutucar um pouco Nathan para ver se lhe arrancava algo além de nervosismo. Ao menos ele parecia mais confiante lidando com ela, provavelmente por estar acostumado do trabalho.

Acompanhou-o até o local de onde iriam descer, olhando para a vista abaixo sem muita hesitação, notando que de fato era um local bonito. Só as circunstâncias que poderiam ser mais agradáveis. Então Nathan ficou a sua frente para colocar o equipamento.

- Licença concedida. – Talulah respondeu, observando-o atentamente enquanto ele colocava o equipamento.

Nathan

Nathan riu sem graça de novo quando ela questionou o tipo de surpresa que ele queria fazer, sentindo o rosto queimar. Mas quando ela lhe deu licença para ajudar com a cadeira do rapel, não hesitou em se aproximar e ajudá-la com o equipamento, ajustando as alças com firmeza, sem se preocupar com a proximidade com a mulher, o que era quase impossível em outra situação.

- Eu queria que achasse que era só um passeio normal, a surpresa era o rapel, mas se eu fosse montar todos os ganchos e cordas sozinho, ia demorar até depois do pôr do sol e não ia adiantar muito a minha intenção. - Nathan explicou, terminando de ajustar as fivelas da cadeira na cintura dela e conferindo se estavam mesmo seguras.

Ele seguiu para colocar a própria cadeira, pegando os ganchos e cordas para finalmente prender os ganchos com as cordas e dar as instruções básicas à Talulah.

- O vento aqui é um pouco forte, mas não é o suficiente para atrapalhar. O horário está ideal para termos uma boa visão lá embaixo. Eu vou primeiro e você me acompanha, não se preocupe, mesmo que solte a corda, a trava é automática, e eu estarei logo abaixo. - Nathan disse, estendendo a mão na direção de Talulah quase naturalmente para que ela o acompanhasse. - Vamos? Se não gostar, prometo que lhe deixo em paz.

Talulah

Talulah ainda não entendia, mesmo depois de Nathan explicar que o rapel era uma surpresa, porque ela não tinha sido avisada de que haveria mais pessoas. Talvez fosse sua natureza desconfiada falando mais alto do que irritação ou qualquer outro sentimento que fosse mais usual para a situação, mas supunha que mesmo se Nathan tentasse, nas situações em que estiveram antes, ele não teria mesmo coragem para falar o que fariam, e tudo teria se resumido a idéias mal formadas.

Observou enquanto Nathan colocava os equipamentos de segurança, atentando para o processo e travas, lembrando que a última vez que tinha usado um equipamento como aquele provavelmente estava nos seus dias de treinamento no exército. E sua última descida em um rapel certamente não tinha sido tão alta quanto a que Nathan tinha proposto.

Ela olhou por um breve instante para a mão de Nathan, estendida a sua frente, após as últimas instruções.

- Com isso quer dizer que se eu odiar o rapel, não tem mais nada em você que eu possa gostar? Sua falta de autoconfiança não é muito inspiradora antes de uma descida de 100 metros. – ela comentou calmamente, erguendo de leve as sobrancelhas, mas sem dar sinal de sorriso algum enquanto estendia a mão pra pegar a de Nathan. – Vamos. Não me decepcione. – ela deixou pontualmente colocado, afinal, já tinha investido tanto tempo em sair com Nathan que naquele ponto, esperava que ele tivesse pelo menos algum ponto de redenção. Talvez fosse um bom treinamento para a sua paciência.

Nathan

Nathan riu um tanto sem graça quando ela perguntou se não havia mais nada nele que ela pudesse gostar, menos ainda antes de uma descida como aquela. Ele só ajustou as cordas e deu as indicações de como ela podia segurar e travar os equipamentos na decida, lembrando só da posição do corpo, já que ela mesma tinha feito rapel antes.

- Não é que não tenha mais nada em mim que possa gostar, só acho que depois da terceira vez, eu meio que vou ter estragado feio as minhas chances. - ele disse, daquela vez com um sorriso mais confiante e a mão mais firme em volta da dela quando segurou a sua de volta. - Não vou.

Pelo menos daquilo ele tinha certeza que entendia, era algo que fazia bem e inclusive podia lhe render uma conversa decente sem ter que estar extra alerta aos arredores, aos modos de se portar à mesa, num restaurante, num encontro, e com todos os pormenores de relacionamentos sociais com uma mulher tão elegante quanto Talulah.

Eles seguiram para a beira do penhasco, as cordas estendidas à frente deles e cem metros abaixo, devidamente posicionadas anteriormente pelo par de irmãos que já deviam ter começado a escalar o local de novo para removerem os equipamentos no topo da montanha depois que descessem.

E pelo menos como Nathan tinha prometido, era uma boa vista da paisagem sob a luz do pôr do sol, e o máximo que ele pôde fazer foi apreciar a visão de Talulah que vinha acima dele - por motivos de segurança -, enquanto não tinha como comentar nada ou perguntar o que ela tinha achado com o vento forte que atrapalhava a audição dos dois ali. O máximo que podia fazer era dar algumas dicas visuais, se ela lhe encarasse de volta - porque certamente Nathan estava mais interessado em olhar a mulher do que o pôr do sol, ao qual já era muito acostumado.

Com as breves pausas para apreciar a vista e para descansar da longa descida, eles estavam no chão cerca de trinta minutos depois de terem começado, no pé da montanha, com as árvores ao redor e uma trilha larga e visível que os levaria de volta ao ponto de partida. A expectativa de Nathan era notável no sorriso satisfeito estampado de um lado a outro do rosto.

- Como você está? Muito pesado? Está cansada? - ele fez as perguntas de praxe, mas o que queria mesmo perguntar era se ela tinha gostado do passeio.

Talulah

Era honestamente irritante ouvir Nathan falar daquela forma de si mesmo, especialmente porque se ele merecia uma quarta ou quinta chance não era só decisão dele, e pior, ele parecia estar decidindo isso por ela. Os últimos encontros, tinha se entretido bastante pressionando Nathan e vendo as reações desesperadas dele, mas não era de chutar um cachorro morto. Ao menos ele tinha o mínimo de decência de ser confiante no rapel.

Descer se provou um pouco mais cansativo do que Talulah esperava, mas isso se devia a estar há algumas semanas apenas andando, regendo coral e comendo em Cerise, diferente dos estresses diários de estar acampada no Afeganistão. A altura não lhe incomodava, tampouco o vento. Na verdade, foi até bom que Nathan já era naturalmente quieto, e ainda ficava mais graças às condições da descida, apenas lhe apontando algumas direções quando se dava o trabalho de olhar para baixo. Foi um bom momento para contemplar o pôr do sol e a beleza natural ao redor. A visão era bonita o suficiente para lhe arrancar um sorriso discreto e uma expressão de paz. Era bom ocasionalmente lembrar que tinha mais sentimentos do que parecia.

Ao terminar de descer, deslizou a mão sobre os braços, massageando-os de leve, e então voltou-se para Nathan, que parecia ter recuperado mais do seu humor usual e parecia contornar a pergunta principal com as perguntas profissionais sobre seu bem estar.

- Estou bem. Nunca fiz uma descida tão longa, mas ainda estou em boa forma. – ela respondeu, supondo que aquele era mesmo o tipo ideal de encontro para Nathan. Tinham demorado na ida, e agora, já iriam voltar, e não tinham tido a pressão de conversar muito. Mas não iria dizer a ele se tinha gostado ou não de graça. Queria ver se ele teria o mesmo nervosismo ao perguntar.

Nathan

Nathan sorriu mais animado, a ansiedade bem óbvia estampada no rosto dele esperando alguma resposta positiva sobre a experiência, além do fato de que tinha sido, obviamente, cansativo. Mas as primeiras respostas de Talulah foram exatamente o que ele esperava e para o que tinha questionado, que ela estava bem e que a descida tinha sido longa. Ele riu sem graça no mesmo instante, destravando os equipamentos e as cordas para poderem subir o caminho de volta, dessa vez por uma trilha que ladeava a montanha.

- Você está ótima. - ele falou tão automático que só sentiu o rosto queimar intenso depois por conta do comentário direto, mas riu sem graça de novo. - Quer dizer, outras pessoas que nunca desceram tantos metros reclamam mais, e não conseguem aproveitar a vista, nem nada e…

Ele terminou de tirar os equipamentos e deixou as cadeiras sobre uma das mãos, fazendo um aceno na direção da trilha, desviando o olhar para o caminho adiante por um instante.

- Você… aproveitou a vista? - ele perguntou finalmente, esperando que ela lhe acompanhasse para guiar o trajeto. - E-eu sei que… é cansativo, mas… você gostou?

Talulah

Talulah não sorriu com o elogio inconsciente dele, mas os olhos claramente mostraram alguma reação ao modo como ele mesmo ficou envergonhado com as próprias palavras. Concordou apenas silenciosamente com ele sobre a descida ser cansativa para um iniciante, como era seu caso, mas se ele sabia, ele deveria ter pensado nisso antes de irem. Se fosse assim tão sofrido, seria uma péssima ideia para um primeiro encontro.

Então, depois de muito divagar de forma ansiosa, Nathan não pareceu conter a necessidade de saber se ela tinha gostado ou não. Era bem o que queria. Que ele perguntasse.

- Sim. A vista é muito bonita. Eu não tenho tantas oportunidades de ver um lugar tão naturalmente bonito. É um lugar para contemplar. – a morena respondeu, supondo que quando não estava na cidade suja, ou nas igrejas, estava em um lugar quente e cheio de pessoas, ou em acampamentos militares. E por mais que o clima desértico fosse bonito, nunca estava a serviço no Afeganistão por nenhum motivo completamente nobre, se bem pensasse. Era dever. – E você? Gostou? Ou ficou esse tempo todo só preocupado se eu iria gostar?

Nathan

O sorriso de Nathan alargou no rosto, se é que aquilo era possível, quando Talulah confirmou que tinha gostado da descida e da vista bonita, especialmente sobre ser um lugar para contemplar.

- Eu imaginei que você ia gostar. - ele disse, mais animado para seguir o caminho até o topo da montanha que parecia bem mais curto do que ele gostaria. - Já que você é uma mulher religiosa, achei que ia gostar da paisagem.

Não demorou muito até avistarem o fim da trilha que dava caminho de volta para onde o carro estava estacionado, no topo do morro. Nathan já estava suficientemente animado com a resposta positiva de Talulah e talvez fosse uma confirmação de que poderia encontrá-la pelo menos mais uma vez. Sentiu o rosto queimar com a pergunta dela se tinha ficado muito preocupado se ela ia gostar, principalmente por lembrar que a visão dela contra a luz do pôr do sol era muito mais bonita do que a paisagem, e acabou devolvendo um sorriso em resposta primeiro.

- Eu sempre gosto. É por isso que é o meu trabalho. - ele respondeu muito sincero, quando retornaram ao ponto de partida, onde os irmãos Mcgreggor já estavam terminando de guardar os equipamentos no carro deles, depois de terem recolhido as cordas e os ganchos. - Eu só vou me despedir dos dois e agradecer, se quiser esperar no carro.

Ele esperou alguma resposta de Talulah, se ela iria cumprimentar os dois irmãos também ou iria direto para o carro, antes de voltarem para o carro e seguirem o caminho de volta para Cerise, sob a luz do sol que já sumia no horizonte e dava lugar à noite mais fria. Depois de seguir as instruções de Talulah para deixá-la de volta no hotel em que estava hospedada, ele parou com o carro na frente do prédio, o mesmo sorriso idiota do resto da tarde no rosto: ao menos ele tinha conseguido ter uma conversa decente e um encontro decente.

- Obrigado por aceitar meu convite hoje… - Nathan adicionou, os braços apoiados no volante do carro. - Posso… te convidar pra sair de novo? S-Sem escaladas de 100m, n-nem… gente estranha. Eu… você pode escolher o lugar, b-bom, s-se quiser sair, claro.

Claro que tinha que voltar a se confundir com as palavras. Ele só respirou fundo e sorriu, calado, para esperar uma resposta.

Talulah

Quando chegaram ao final da trilha, e Nathan, com a disposição de conversar que nunca tinha visto antes, decidiu lhe dizer que ele gostava e por isso aquele era seu trabalho, foi impossível para Talulah segurar o sorriso que surgiu em seu rosto. Sentia que podia até rir, mas o fato do moreno lhe divertir inconscientemente com o pensamento sobre trabalho, tinha sido mais do que esperava naquele dia.

- Combina com você dizer isso. - ela respondeu, então ouvindo que ele iria se despedir dos irlandeses que montaram os equipamentos.

Apenas por boa educação cumprimentou os dois também antes de retornarem para o carro, voltando para Cerise já em um caminho mais escuro do que no qual tinham ido. Era curioso pensar que Nathan estava mesmo apenas interessado em lhe levar para um passeio bonito, e que embora retornassem para seu hotel, o máximo que ele tinha lhe perguntado era o endereço. Poderia ter encontrado ele na igreja e não teria feito diferença. Era uma boa mudança de ares.

Ainda mais porque ele era facilmente provocado.

Talulah estava mandando uma mensagem para Leona para confirmar que tinha retornado a Cerise em segurança depois de um encontro singelo e estava de volta ao hotel quando Nathan lhe questionou se poderia lhe chamar para sair de novo, seguindo uma série de ideias que sabia serem improdutivas.

- Não assim. - ela respondeu, ainda olhando para o celular. Então terminou de mandar a mensagem e voltou-se para Nathan, tirando o cinto de segurança para descer do carro. - Se é você que vai me convidar, procure um ambiente em que se sinta confortável. Finalmente comecei a conhecer um pouco de você, é melhor te dar uma chance do que eu escolher e te colocar em um desafio. - ela respondeu, encarando-o seriamente. - Mesmo que eu tenha saído descrente hoje, você até me convenceu a lhe dar mais uma chance. Eu acabei me divertindo sem esperar, então posso colocar minha fé em você novamente.

Talulah então abriu a porta e saiu, dando a volta e parando na calçada para esperar Nathan ir embora.

- Ah. Nathan. Mas eu prefiro sim que o encontro não tenha gente estranha. - ela falou calmamente, aguardando até que ele fosse embora. Acabou rindo de si mesma vendo o carro ir embora. Talvez estivesse acostumada demais a colocar cafajestes no lugar.

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