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[Drive] There and Back Again [Diodoro; Natalia] - Lil - 09-26-2021 Diodoro
Diodoro levou a mão até a testa. Tinha voltado quase no fim da tarde do velório organizado para uma senhora cujo marido tinha falecido. Depois de dar uma volta na cidade com o homem que transportava os cadáveres até a funerária, deixando o defunto no crematório, teve que sentar atrás de sua mesa para organizar umas documentações atrasadas. Geralmente pedia para sua irmã ajudar nesses casos, mas já tinha um tempo que deixava Brigida resolver tudo de casa e trabalhar vendendo planos funerais, afinal, quase sempre estava na funerária recebendo os defuntos e ocasionalmente a gama de amigos estranhos que tinha adquirido ao longo daquele tempo. Miro já tinha ido fazer sua ronda no cemitério, e tinha jogado uma lagartixa morta nos seus pés, basicamente lhe chamando de incompetente, mas nem teve tempo de agradecer o presente e jogar o bichinho fora, com tanta coisa para fazer. Só o que conseguia pensar é que depois de tanto tempo preenchendo documentos, estava faminto demais para pensar. Na verdade, até pensou, mas não pensou em nada bom (como se algo de bom corresse em sua mente). Naquele momento de fome lembrou de Natália, que provavelmente seria gentil de lhe acompanhar para um hambúrguer se estivesse livre no hospital. Não tinha notícias dela há mais tempo do que de Karen, por exemplo. Acabou deixando o trabalho de lado para limpar a funerária, triste que não via a amiga há muito tempo. Talvez não visse mais. E de certa forma, essa era uma triste perda. Natalia
Estava exausta de toda a situação dos últimos meses. Do medo de ser encontrada pelo sujeito que havia ajudado a encontrar, da polícia lhe colocar atrás das grades se descobrissem no que estava metida, de seus clientes perderem a confiança no seu trabalho, de não conseguir mais trabalhar como uma médica no Hospital Geral de Cerise ou, pior ainda, não poder mais trabalhar como médica. Havia trocado de apartamento novamente e sequer havia se dado ao trabalho de arrumar todas as caixas de seus pertences. Havia se abarrotado de trabalho no hospital para tentar não ficar tão ansiosa com as incertezas de estar “presa” à Cerise naquele momento. Ao menos no hospital tinha uma maior sensação de controle. O ponto ruim: a comida era horrível para o seu paladar. Saiu de mais um plantão e deixou o veículo no estacionamento do hospital juntamente com seu celular, escolhendo usar o transporte público sem seus aparelhos, queria poder deixar a sensação de que poderia ser chamada pelo aparelho por algum de seus contatos ou pela polícia a qualquer momento por um momento e esfriar a cabeça. Desceu no ponto de ônibus mais próximo da funerária da família Leoni e seguiu andando até encontrar a entrada do estabelecimento. Podia agradecer a sua perfeita memória e prontidão ao fazer questão de memorizar todas as rotas possíveis para aquele lugar. Buscou o celular por reflexo para conferir o horário, mas acabou especulando que deveria ser mais tarde pelo lugar parecer fechado. Arrumou os cabelos atrás da orelha, os fios voltando ao loiro platinado original por sua falta de interesse momentâneo em mantê-los na coloração azulada, esta presente agora mais próxima das pontas. Estava com seus sapatos em que havia deixado o hospital, o salto médio, um conjunto bege de tecido mais leve e uma camisa preta. Pensou alguns instantes antes de pressionar a campainha do lugar, imaginando se alguém ainda estaria ali naquele horário. Diodoro
Entre a pilha de papéis na qual trabalhava antes, a vassoura, a fome e o roçar do gato na sua perna, ficava difícil saber se estava ouvindo coisas ou se de fato tinham apertado a campainha. O local estava claramente fechado a essa hora, exceto pela luz da recepção acesa, já que ainda estava ali, fazendo uma limpeza rápida. O fato de terem apertado mesmo assim para serem atendidos levou Diodoro a pensar se a visita não era algum dos seus conhecidos: ou Karen, que teria ido até ali para tirar um cochilo, ou Hanna, que seria mais provável entrar pela porta da frente. Mas ainda era cedo demais para qualquer um dos dois. Largou a vassoura um instante e foi até a parte de trás olhar o monitor de segurança que tinham instalado depois daquele incidente infeliz da cicatriz, e para sua surpresa, havia uma mulher na porta que não era Hanna, e nem Brigida, e nem Filippa. Diodoro apressou o passo até a porta e então, abriu de súbito, encarando Natalia – de todas as pessoas – como se tivesse visto um espírito. Estendeu a mão para segurar o pulso dela, puxando-a para dentro e fechando a porta em seguida, antes que alguém decidisse aparecer e achar que estavam abertos para trabalho de fato. O agente funerário não pode evitar senão de abrir um sorriso suave com os lábios cerrados, vendo que era ela mesma ali. - Pensei em hambúrguer. – disse, então levando uma mão enluvada a testa, o semblante cansado como sempre, não fosse pela suavidade do sorriso ainda nos lábios. – Em você. Natalia
Pensou que talvez estivesse de fato correta sobre ninguém estar ali naquele horário, mas podia notar a luz acesa da recepção o que só poderia indicar uma coisa: alguém ainda deveria estar fechando o horário de trabalho. Por isso, resolveu insistir na campainha, imaginando se não seria Brigida ali enquanto o agente fúnebre não estaria descansando no apartamento dele. O sujeito sempre parecia estar precisando de um descanso, afinal. Olhou ao seu redor para se certificar de que não havia sido seguida ou que não havia nenhum transeunte na rua ainda naquele horário quando ouviu o ruído da porta sendo aberta de supetão. Levou um dos braços a frente do próprio corpo na defensiva, esboçando uma expressão de surpresa ao encontrar Diodoro Leoni a sua frente. Já estava baixando o braço e esboçando um sorriso para responder à recepção do outro quando sentiu o puxão em seu pulso para que entrasse na funerária. - …! - ficou sem reação com a ação mais impulsiva do outro, ainda mais ao acompanhar com o olhar ele fechando a porta por onde havia acabado de entrar. Encarou o sorriso no rosto alheio e fechou a própria boca, ouvindo as palavras de reencontro sobre hambúrguer e sobre si. Por um momento, sentiu os ombros relaxando com a ideia de estar ali finalmente e de poder reencontrar Diodoro, ver que ele estava bem e que também parecia esperar por sua presença. Era uma sensação agradável e calorosa, como se estar ali lhe trouxesse a lembrança de um dia ter alguém lhe esperando e preocupado com seu bem estar. Sorriu de volta para ele, sequer notando o rubor que tomava sua face enquanto começava a rir. - Você tem que aceitar o que é perfeito, Diodoro! - riu ao usar a frase que ele mesmo destacou um dia ao saírem para comer juntos. Estendeu a mão livre para afastar a dele da testa, encarando-o com um sorriso de contentamento no rosto. Aproximou-se, cortando a distância entre ambos para poder abraçar o moreno, apertando-o com força para que ele se certificasse que estava ali de fato. Demorou alguns minutos, apreciando o contato ainda que ele pudesse se sentir desconfortável. A verdade é que também queria ter certeza de que nada havia acontecido com o sujeito em seu tempo ausente. - Se um fantasma tem esse tipo de força, a gente chama a Igreja para exorcizar? - não conseguiu evitar a brincadeira, falando com o rosto contra o ombro do outro. Diodoro
Quando Natalia começou a relaxar do susto de ter sido puxada para dentro da funerária daquela forma - o que admitia não ter sido a melhor ideia do mundo, considerando que ela tinha saído em fuga dali da última vez -, pode notar que ela estava mesmo bem, e ali. Viu o corpo dela relaxar aos poucos e se sentiu igualmente mais aliviado com a presença da mulher ali. E o riso com a piada feita com suas palavras antigas acabou lhe arrancando um sorriso suave antes que percebesse. Só não esperava o abraço apertado, tanto que ficou um tempo com os braços abertos sem saber o que fazer, mas sentindo o calor e carinho da amiga, devolvida a ele inteira, abraçou Natalia de volta, embora sem a mesma força que ela tinha. Se sentia um pouco nervoso no abraço, mas se sentia bem. - Eu deixo assombrar. - Diodoro respondeu calmamente, soltando um longo suspiro, afastando-se um pouco de Natalia para encará-la, aquecendo os braços da mulher com as mãos por um instante. - Mas melhor viva. Você não comprou plano funerário. - adicionou, rindo por um instante tão breve que a risada poderia ter sido uma alucinação da cabeça de Natalia. Mas de fato Diodoro estava parecendo bem feliz em vê-la. Convidou-a com a mão a entrar e se acomodar, indo até uma cafeteira no canto para pegar café para ela. Então não levou muito tempo para retomar o semblante sério costumeiro, entregando o café e sentando-se próximo dela em sua mesa de trabalho. - Pode contar…? - questionou, embora imaginasse que se ela não tinha dado detalhes anteriores, certamente não daria agora. Natalia
Foi pega de surpresa pelo riso de Diodoro, mas acabou sorrindo também por reflexo, rindo logo em seguida. Era bom demais poder estar de volta e ser recebida daquela forma pelo moreno. Sentiu-se confortável com as mãos, ainda que cobertas por aquelas luvas que mais pareciam fazer parte da pele do amigo, mantendo o contato consigo. Seguiu o sujeito, relaxando mais ainda quando ele lhe ofereceu a bebida quente, ainda que não gostasse tanto da cafeína. Sequer deu o primeiro gole e ouviu a pergunta de Diodoro, obviamente querendo saber sobre o que teria feito em seu período ausente. Usou a mão livre para apontar para o agente fúnebre, pensativa, antes de responder: - Vamos dizer que “temos um novo xerife na cidade”, está bem? Hm. - fez uma pausa, provando do café antes de continuar. - Viu o grandão por aí esses dias? - perguntou antes de continuar. - É bom ele tomar cuidado também. Eu estava certa. O cara não era qualquer um. - gesticulou, girando o indicador por sobre o ombro, indicando que estava falando do passado. - E não sendo qualquer um, não é qualquer cachorro que mandam para caçar um sujeito desses. - revirou os olhos, lembrando do sujeito que havia conhecido no hospital. - Urgh. Se encontrar com ele, pede pra ele tomar cuidado, por favor. Eu queria falar pessoalmente com ele, mas não estou podendo me dar ao luxo de procurá-lo diretamente no momento. - deu de ombros, pensativa. - E como você está? Bebeu um pouco mais do café, mexendo o copo plástico devagar para poder buscar se haveria pó no fundo. Só então lhe ocorreu o sentido do que o moreno havia lhe dito assim que o encontrou, e terminou por abafar o riso, divertindo-se. - Dio, você está com fome, não é? - encarou o sujeito, rindo abertamente. - Você pensa em mim quando está com fome, Dio?! É para eu me sentir feliz ou intrigada com isso? - brincou, apoiando o cotovelo sobre a mesa e a mão no rosto. - Desculpe, não resisti. - acenou, indicando para que ele falasse. - Mas me diz aí, como você está? Além de com fome, é claro. Diodoro
Quando se tratava de dar detalhes da própria vida, Natalia era tão esclarecedora quanto o próprio Diodoro. Então podia assumir que havia alguém novo na cidade que era encrenca, e que não seria uma encrenca que passaria rápido. Não lhe afetava, mas afetava Natalia e afetava Karen. Mas sem saber dos detalhes, não tinha como repassar aquela informação. No máximo poderia dizer a ele que Natalia tinha alguma informação importante para ele, mas no mais, quanto menos soubesse, melhor seria. A única coisa que fez foi discordar que tinha visto o amigo recentemente. Concordou silenciosamente que ela não estava em posição de procurar Karen, achando até melhor que ela não fosse pelo simples fato de que ela sabia o que estava acontecendo e mal tinha voltado. Não queria que ela se escondesse de novo. Encarou Natalia quando ela questionou sobre como ele estava. Ia responder outra coisa, mas ela apontou sobre sua fome, que não era mentira. Concordou silenciosamente. Franziu a testa quando ela questionou se ele pensava nela quando estava com fome. Errado não estava, mas também não estava inteiramente certo. - Solitário. – respondeu sem hesitação, suspirando longamente em seguida. – E com fome. – adicionou, apoiando os dedos cruzados sobre a mesa, sentado em sua cadeira de um jeito cansado. – Por isso você. – explicou o motivo pelo qual estava pensando em Natalia. Então piscou algumas vezes, pensativo. – Quer jantar? Natalia
Levou o copo plástico de café aos lábios enquanto observava o amigo admitir que estava solitário. Solitário e com fome, seria uma boa descrição para o seu perfil se tivesse alguma conta em mídia social. Terminou de tomar seu café e deixou o copinho de lado, levantando-se de onde estava para poder se aproximar de Diodoro novamente. Estendeu a mão para os cabelos do moreno, afagando os fios mais curtos com um sorriso no rosto. - Awwn, com você? Sempre, meu bem. - riu baixinho, inclinando-se para poder beijar o topo da cabeça dele. - Ah, desculpe… - arrumou o cabelo do outro antes de se afastar, recordando-se que ele não era exatamente o tipo de cara que ficava confortável com tanto contato físico. - Vamos de hambúrguer? Eu estou sem carro hoje. Vamos de ônibus? Arrumou a própria bolsa, observando melhor o chão à procura do gatinho de Diodoro. Agachou-se em silêncio, chamando pelo animal, estava curiosa em também verificar como ele estava. - A gente também pode sair para experimentar alguma comida nova, se quiser. Quer ir em algum lugar novo? - perguntou, ainda procurando pelo gatinho. Diodoro
Dificilmente esperava o toque de Natalia em seus cabelos, lhe afagando de um jeito que lhe fez franzir a testa imediatamente, porque seria daquela forma que seus irmãos mais velhos lhe tratariam, incluindo sua mãe com um beijo no topo da cabeça que pôs uma expressão ainda mais sombria no rosto cansado de Diodoro. Mas ele não se afastou, apenas encarando a loira de volta, afinal, não era como se ficasse realmente ofendido com o toque carinhoso dela. O olhar, entretanto, mudou completamente para um olhar de animação quando ela mesma que mencionou hambúrguer. E o agente funerário assentiu silenciosamente com a cabeça antes de se levantar, muito menos letárgico que antes. Natalia pareceu procurar Miro, o que provavelmente significava que ela logo veria a lagartixa morta embaixo de sua mesa e o gato, que estava passeando a esmo e tinha ido se esconder quando ela tinha chegado, mas agora olhava desconfiado da porta por trás do balcão. Ela sugeriu que poderiam ir de ônibus ou provar algo novo, mas honestamente preferia comer hambúrguer, por mais clichê que fosse. - Carteira. – falou, indo pegar a carteira para que saíssem para pegar o ônibus. Deixou o gato na funerária com água, comida e acesso ao cemitério e de volta por uma das janelas, o que daria a ele um modo de se entreter sem ir para casa naquela noite. O ponto de ônibus era próximo, e não demorou a passar um para o qual Diodoro deu a mão, sequer dizendo a Natalia para onde estavam indo. Chamou-a para lhe acompanhar, e sentou-se em um assento com espaço para ela. Mas a viagem foi curta, e algum tempo depois, ele chamou a loira para descer e um ponto próximo a alguns restaurantes, um deles que parecia servir diversos tipos de comidas rápidas, como saladas, hambúrgueres, batatas e outros lanches simples. Podia ter algo que ela gostasse ali também. Natalia
Seguiu o sujeito, animada com a ideia de que poderiam sair juntos mais uma vez para comer. Esperou que ele pegasse a própria carteira enquanto passava o tempo fazendo carinho em Miro, pouco se incomodando se o gatinho estava preguiçoso demais para lutar contra seus afagos na barriguinha dele. Caminhou juntamente com Diodoro, tomando o devido cuidado em evitar o olhar de outras pessoas enquanto andava com ele. Não ficou quieta, claro, desatando a falar sobre o próprio trabalho e como seus pacientes estavam no hospital. Falou sobre o cadeirante que deveria começar a fazer hemodiálise e sobre como a situação dele era um caso bastante peculiar. Falou sobre o caso da nova paciente que era uma gracinha de cabelos brancos e muito delicada. Sentou ao lado do moreno no ônibus, dando atenção a paisagem pelo trajeto breve que faziam. Continuou comentando sobre os ocorridos do hospital, dessa vez sobre a enfermeira ruivinha e a irmãzinha dela que viviam cuidando uma da outra. Comentou como gostava da criança por ela não parecer uma criança, mas que na verdade sabia como aquilo era algo anormal porque crianças deveriam se comportar como crianças. Desceu do ônibus e finalmente deu uma folga para as orelhas de Diodoro assim que seu olfato foi capturado pelo aroma doce e de frituras daquela região. Apertou a alça da bolsa contra o próprio estômago, mas se conteve, ainda que o brilho em seus olhos claros denunciasse todo o seu desejo por aquelas delícias de rua. Estava de olho especialmente na barraquinha de falafel e batatas. Segurou a barra da manga do casaco do outro, chamando-lhe a atenção. - Que tipo de hambúrguer vamos comer hoje? - perguntou, sendo educada com o sujeito que imaginava estar com mais fome que a sua figura naquele momento. Estava angustiada algumas horas atrás, mas poderia conter a sua própria fome por muito mais horas se fosse necessário. Diodoro
Embora não fosse uma pessoa de muita conversa, não tinha nada contra ouvir as histórias de Natalia sobre o hospital. As dela certamente eram mais interessante que as dele, sobre os casos dos pacientes jovens, nenhum deles com nenhuma propensão a morrer em breve, e ficava feliz com isso. Além do que, achava muito nobre que ela vivia salvando vidas e ajudando os que precisavam, e embora soubesse que em sua profissão fazia o mesmo, o trabalho na funerária era bem mais sombrio. Diodoro também ouviu sobre a colega de trabalho de Natalia e a menina ruivinha que não parecia criança, e lembrou dos seus sobrinhos, afinal, eles eram crianças que se portavam como crianças, mas ela tinha sido até uma boa visita à sua casa, e talvez devesse chama-la mais vezes. Aproveitou e também falou que tinha contratado um funcionário novo para a funerária, claro que não tão explícito como ela, e sim, cortando a fala em vários pedacinhos, até formar uma informação difícil de decifrar. Quando desceram, notou que a atenção de Natalia ia para vários lugares que não pelo caminho, mas admitia que o cheiro das comidas naquela rua era muito bom. Notou como o olhar dela brilhava para uma barraca de falafel e batatas fritas, e embora não fosse o tradicional hambúrguer que tinha chamado ela para comer, ouviu a pergunta cheia de consideração dela, e foi impossível não ceder a vontade de Natalia. - Quer provar...? – falou, apontando para a barraca na qual ela tinha tomado interesse antes. – Comeria qualquer um. É mais... pela sua companhia. – explicou muito diretamente. Não era como se escondesse que gostava de estar com Natalia, quando já tinha chamado ela de amiga e ficado muito feliz com seu retorno. – Escolha. Natalia
- Quero! - respondeu quase de imediato quando o sujeito perguntou, indicando justamente a barraquinha que havia chamado sua atenção. Sorriu animada com a ideia de comer algo gorduroso e gostoso com o moreno e não hesitou em lhe segurar a mão, convidando-o a lhe acompanhar enquanto fazia o pedido para a vendedora da barraquinha, pedindo uma porção de falafel com fritas. - Não se preocupe, ainda vou ter espaço para poder comer hambúrguer com você, Dio. Explicou para o amigo antes de soltar a mão dele para receber o pedido que havia feito, pagando pela comida com um grande sorriso de agradecimento no rosto. Deu a primeira mordida em um falafel, aproveitando da crosta de massa frita antes de arrumar o papel que envolvia seu pedido para oferecer o mesmo para Diodoro. - Aqui. Você deveria experimentar também. Tá muito bom. - continuou seguindo o amigo, voltando o pensamento e a memória impecável ao que ele havia comentado antes enquanto tagarelava sobre sua própria vida. - Por que contratou alguém novo? Quer dar mais tempo para sua irmã passar com os filhos? Ela parece ser uma boa mãe e os meninos parecem gostar de você. - comentou, ocupando a própria boca com algumas fritas, dando mais espaço para ouvir o outro dessa vez. Preocupava-se com a família do sujeito também, imaginava, portanto, que ele talvez ficasse preocupado com a irmã dele acabar se envolvendo demais com o trabalho da funerária e algum dia topar com um dos amigos mais perigosos dele. Diodoro
A satisfação de Natalia de poderem ir até a barraquinha de falafel já valia sacrificar o seu possível hambúrguer. Não pôde protestar sobre ela lhe arrastar pela mão, e em um passo já estavam ali pedindo falafel e fritas. Até considerou que seria uma boa mudança, pois podia ver no cardápio um kebab que incluía carne e batata frita. Seria aquilo uma versão de hambúrguer que ainda não tinha provado? - Hm – Diodoro respondeu, não em descrença, mas ponderando se ele mesmo conseguiria comer muito mais coisas depois de comer as fritas com os falafel que a médica tinha acabado de pedir. Ao menos pelo que viu, era um pedido individual, e poderia provar antes de pensar se abdicaria da sua comida de segurança por isso. Bom, ao menos Natalia tinha gostado, isso era certo. Estendeu a mão para pegar uma bolinha de falafel, assoprando antes de levar até a boca. Era bem crocante, não tinha nada de carne e o tempero era forte. Não era nada que tivesse provado antes, porque não era exatamente aventureiro, mas foi óbvio quando suas sobrancelhas se ergueram em surpresa ao sabor da comida. - Hmm. – foi a única coisa que disse, os olhos claros divagando de volta para a barraca enquanto caminhavam, pensando se deveria voltar e pedir uma porção para si. Mas provavelmente preferia comer carne. Pediu dois hambúrgueres em outra barraca e puxou banquinhos para uma mesinha ao ar livre para esperar a comida. Pegou uma batata frita dela enquanto ela lhe questionava sobre o novo funcionário, negando com a cabeça para as suposições de Natalia. - Ele precisava. – Diodoro respondeu simplesmente, então supondo que não era bem uma explicação contratar alguém que precisava de um emprego. – Quebrou a perna. Demitiram ele. Aí contratei. – explicou melhor, embora estivesse incerto se era uma grande explicação. Natalia
Ficou ainda mais animada ao assistir a disposição do moreno em apreciar a fritura que havia escolhido. Notou o olhar de quem parecia interessado com o falafel e apenas riu baixinho ao mastigar quieta. Diodoro conseguia ser bem óbvio no que desejava quando se tratava de comida. Agradeceu assim que conseguiram os banquinhos e a mesinha para aproveitarem do prato principal: hambúrgueres. Observou o sujeito, permanecendo quieta enquanto ele explicava sobre o novo empregado da funerária. Contudo, achou estranho o fato do sujeito ter sido contratado por ter quebrado a perna. Ou pelo menos era o que conseguia entender do discurso do amigo de poucas palavras. - Espera. - pediu para o moreno, chupando o óleo e os farelos do falafel dos próprios dedos antes de apontar para ele, indicando que prestasse atenção. - Você. Você contratou um homem aleijado para poder trabalhar na funerária? E como foi que ele quebrou a perna? Uma pessoa com uma perna quebrada com deveria estar repousando e- Ahhhh! - fez um pequeno alarde, batendo a mão na mesinha e os pés no chão antes de empurrar de leve o ombro do moreno, terminando por apontar novamente para ele. - Você! Não me diga que você quebrou a perna dele e por isso se sentiu culpado e contratou ele!? Foi isso?! - questionou, interessada mais naquele novo funcionário agora com a ideia dele ter sido alguma vítima de Diodoro. Diodoro
Natalia parecia muito interessada em seu novo funcionário. Mas até entendia. Nada de novo acontecia na funerária, exceto pessoas mortas chegando e saindo, o que não era exatamente um evento positivo. Ter outra pessoa trabalhando lá que não fosse sua irmã ocasionalmente intrometida na sua vida, ou que não fosse um criminoso, isso era novidade. Só foi obrigado a franzir a testa quando Natalia falou como se Xavier estivesse aleijado e fosse algo que demoraria a recuperar. Talvez tivesse pintado o quadro muito mais dramático do que era. Obviamente uma pessoa com a perna quebrada deveria estar repousando, mas a questão era que o rapaz não teve direito a isso no emprego anterior, e por isso foi demitido. Diodoro arregalou os olhos claros quando ela lhe acusou de ter sido o responsável por quebrar a perna do funcionário. Já não bastava a polícia achar que ele era um criminoso só por andar todo de preto e ter uma cicatriz gigante no rosto. - Não. Ele não queria repousar... então eu o fiz repousar. – Diodoro colocou com um olhar muito direto para Natalia, que se ela não o conhecesse, poderia pegar aquela explicação como se fosse uma confissão de assassinato. – Caiu na vala. No cemitério. – explicou mais claramente antes que ela achasse que o funcionário era um fantasma, no mau sentido. - ... Torceu o tornozelo. – Diodoro franziu a testa, supondo que suas explicações não eram melhores do que a de qualquer assassino profissional. O hambúrguer chegou nesse meio tempo, e Diodoro pegou primeiro o pão para dar uma mordida generosa. - Hmm. – mastigou, muito feliz, embora não demonstrasse quase nada no rosto. Ergueu o olhar para Natalia, um tanto intrigado com o fato dela achar que ele seria capaz de machucar alguém. – Pareço... um chefe ruim? Natalia
Riu abafada pelas batatas que acompanhavam seu falafel, ao ouvir que Diodoro havia “feito o sujeito descansar”. Procurou algum guardanapo para poder segurar melhor a comida entre os dedos, sujando os lábios com os farelos da fritura enquanto ouvia, interessada, sobre o novo empregado do amigo fúnebre. Porém, quando esperava que o outro fosse esclarecer a situação, ouviu a continuação da mesma sobre o estranho ter caído na vala. Engasgou, rindo e tossindo logo depois para tentar se recompor. - Ele-ah-cofcof-torceu o tornozelo?! Cofcof - riu enquanto lágrimas se formavam em seus olhos pensando em como aquele cenário era cômico e trágico ao mesmo tempo. Encarou o hambúrguer com animação e logo pareceu parar de prestar atenção em Diodoro para começar a comer quando ouviu o questionamento sobre o moreno ser um “chefe ruim”. Parou o hambúrguer no meio do caminho para sua boca, encarando o sujeito com um ar mais pensativo. - Eu não acho que você parece um “chefe”, Dio. Tipo, um “boss”, sabe? - brincou, recordando um pouco do linguajar de alguns sujeitos periculosos que já havia encontrado em sua vida. - Mas definitivamente você não é uma pessoa ruim. Começou a mastigar o hambúrguer, usando o polegar para limpar o canto dos lábios, evitando que o molho escolhido para a carne não escorresse. - Esse cara te fez pensar isso? - questionou, uma sobrancelha arqueada e um ar um tanto desconfiada, até mesmo protetiva. - E como é que ele foi cair em uma vala no cemitério? Ele é adulto? Tipo adulto velho já? Ou é um pivete? Parece coisa daqueles jovens góticos de filmes trash de terror antigo esse negócio de ir para um cemitério se acidentar. - deu de ombros. - Sua família sabe que arrumou um empregado novo para a funerária? - resolveu perguntar, aproveitando para ouvir as explicações enquanto desfrutava de seu combinado de carne, pão e molhos. Diodoro
Diodoro encarou ela de volta enquanto ouvia Natalia lhe definir como um “Boss”. Não sabia exatamente qual era a diferença entre os dois, mas se a mulher dizia que tinha uma, algo no seu coração dizia para não procurar saber. Era satisfatório o suficiente que ela não achasse que ele era uma pessoa ruim. Ao menos tinha a decência de não rir do novo funcionário, isso era seu ponto positivo. Tudo bem que tinha que ser muito tonto para cair em uma vala no cemitério, mas ele tinha se machucado de verdade. Sacudiu a cabeça negativamente quando ela perguntou se o novo funcionário tinha dado a entender que Diodoro era um chefe ruim. Na verdade, era mais uma soma geral dos comentários que recebia com as reações. - Não... acho. – Dio tentou lembrar se Xavier tinha reagido mal além do susto inicial com suas roupas todas pretas. – Todos acham que sou mafioso. – adicionou, com um suspiro longo, terminando de comer e limpando a boca com um guardanapo, oferecendo para Natalia também, embora ela parecesse feliz em lamber os dedos. – Não sei. É um garoto. – deu de ombros, pensando só que na noite que conheceu Xavier ele estava bem assustado. Tinha mais alguma coisa para comentar? Afirmou com a cabeça que sua família sabia que tinha contratado alguém. – Brigaram comigo. Porque não é família. – Diodoro arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços, pensando que os negócios dos Leoni não escondiam em nada o nepotismo por trás. Natalia
Estreitou o olhar quando percebeu que Dio havia demorando um pouco para lhe responder se o novo funcionário o fazia pensar que era uma pessoa ruim. Contudo, relevou a informação, considerando que o homem sempre parecia um pouco mais lento com a escolha do próprio vocabulário. Ergueu o indicador como se pedisse permissão para falar, pegando o guardanapo para limpar a própria saliva dos dedos, refletindo se não devia interessante comer algo doce como sobremesa daquela noite ao reencontrar o bom amigo que havia feito em Cerise. - Primeiro. Você parece um mafioso até abrir a boca… na maioria das vezes. - sorriu para o moreno, compreensiva com o nervosismo dele. - Deve ser muito difícil para você desafiar o modo de pensar da sua família, parece ter desafiado eles com a sua ex-noiva, e agora contratando esse rapaz. Isso parece te incomodar. - apontou para os braços cruzados do sujeito, paciente. - Bem, o importante é que o rapaz seja um bom sujeito também. Ele já assinou o contrato de trabalho? Qual o nome dele? E sobrenome? - perguntou, cruzando as pernas e apoiando os braços sobre os joelhos. Se fosse algum sobrenome que estivesse na lista de seus pacientes, regulares ou não, poderia muito bem ter algum julgamento prévio sobre o garoto. Diodoro
Diodoro não sabia bem o que pensar quando ela disse que ele parecia um mafioso até abrir a boca. Sabia que não era muito bonito, e que a cicatriz lhe deixava ainda pior, mas bem sabia que não era comunicativo e que isso às vezes complementava o mal-entendido. Aliás, estava se colocando pra baixo enquanto Natalia tentava fazer um elogio? Isso era algo bastante próprio de sua personalidade. Notou como Natalia estava inquieta, provavelmente pensando em sobremesa, mas mesmo assim, ela seguia pensando nas suas dificuldades em lidar com a família. Lembrar do relacionamento fracassado e o fato de sempre se incomodar quando ia contra a vontade de sua família parecia talvez ter alguma relação que ela tinha feito antes mesmo dele. - Hm. Me incomoda. A pressão. – Diodoro confessou, de forma muito direta, então chamando o homem da barraca ao lado que vendia alguns docinhos, erguendo a mão brevemente e indicando Natalia, até o homem trazer o cardápio muito sorridente para a mulher. – Mas... não é culpa da família... o noivado. É minha. Sou estável... demais. – o agente funerário comentou, e então abriu um sorriso amargo muito breve, antes de olhar no cardápio que estava com Natalia e pedir uma tortinha. Era irônico que sentia a pressão da família, e que entendia seus próprios erros, mas ainda era amigo de um par de criminosos (uma delas a sua frente), e estava ali calmamente indo comer um doce. - Três. – respondeu o nome do sujeito, embora imaginasse que Natalia fosse ficar tão confusa quanto ele na primeira vez que ouviu. – Xavier. Terceiro. Apelido moderno, hm? - Diodoro abriu um sorriso breve e depois voltou a seriedade usual. Certamente havia ironia na opinião dele sobre o apelido do novo funcionário. Natalia
Sorriu um pouco sem graça quando o amigo admitiu que se incomodava com a pressão da família. Concordou com um aceno positivo, entendo a posição do sujeito, pensando na própria família e em como as expectativas dos pais lhe fizeram ter muitos problemas durante a adolescência e o início da vida adulta. Respirou fundo quando, no discurso do moreno, ele parecia se culpar novamente, concluindo que era “estável” demais e por isso havia noivado com a mulher. - Obrigada. - agradeceu pelo cardápio, tocando no ombro de Dio ao indicar que também estava grata por ele chamar a atenção do sujeito que lhe trouxe as informações. Arqueou uma sobrancelha ao ouvir o nome do sujeito que estava trabalhando na funerária, associando o apelido com algum tipo de codenome que os sujeitos com quem trabalhava costumavam usar. - Vou dar uma olhada depois entre os meus clientes para verificar se esse cara tá na lista de beneficiados. - respondeu apenas, erguendo o olhar do cardápio para encarar Diodoro, tentando deixar claro que preferia saber com que tipo de pessoas estranhas ele se envolvia. Talvez estivesse sendo um tanto quanto protetiva, mas preferia se certificar de que o sujeito não estava se envolvendo em nenhuma armadilha, ainda mais dado o tipo de amigos que ele já tinha. Devolveu o cardápio pro sujeito que lhe atendia, escolhendo por pedir um crepe para si, enquanto Dio escolhia a tortinha. Observou melhor o moreno em silêncio, cruzando os braços e apoiando os cotovelos nos joelhos ao se inclinar para observá-lo melhor de baixo para cima. - Eu acho que todo mundo já teve algum relacionamento denso que não deu certo ou já se frustrou com algum caso alguma vez na vida, Dio. - começou com o tom tranquilo de quem parecia não entender o motivo do outro se culpar tanto. - Não tem problema você estar sozinho agora. Quero dizer, se você quisesse estar com alguém, de certo que você estaria com alguém. Poxa, você não é um galã de novela feito o gostoso do seu pai, mas os genes estão aí. - deu de ombros. - O que eu quero dizer é… você… - apontou para o moreno, séria. - … você quer estar com alguém? - perguntou, imaginando que o sujeito não precisava continuar se culpando por ser quem era ou pelo que havia acontecido em sua vida. Se ele era amigo seu e do tal de Karen, mais cedo ou mais tarde, descobriria que aquele tipo de culpa não ajudava em nada. Diodoro
Apesar da aparência de Xavier, e do jeito extremamente rude, ele só parecia um moleque ignorante, nada mais que isso. O currículo que ele tinha trazido para a funerária também parecia ter sido feito com o jeito dele, um tipo de honestidade grosseira. Mas supunha que a funerária costumava atrair pessoas que nada eram como pareciam: Diodoro, Xavier, a médica que era bandida, e o bandido que tinha coração... e Hanna, de quem não conseguia discernir nenhum traço de caráter, exceto a disposição dela a se divertir com a cara dos outros. Concordou silenciosamente que ela buscasse informações sobre seu novo funcionário. Inesperadamente, Natalia fez o pedido do crepe para o sujeito da barraca e então, se curvou para lhe observar, de um jeito que por um instante não entendeu por que. Então encarou a loira diretamente, ouvindo toda a conversa dela sobre falhar em relacionamentos. O elogio ao seu pai lhe fez estranhar um pouco, mas fora isso, toda a conversa de Natalia parecia apenas plausível dado que tinha comentado do antigo relacionamento que não tinha dado certo. Respirou fundo, pensando na resposta mais adequada para a pergunta de Natalia. - Não gosto de ficar só. – Diodoro respondeu inicialmente, e então olhou Natalia longamente, antes de amenizar a expressão usualmente séria que tinha no rosto, até sorrir muito brevemente com os lábios cerrados. – Mas estou feliz com você. – confessou, então levando a mão até a nuca, a expressão muito calma. – De ter amigos preocupados. – adicionou, lembrando também de Karen, e até ocasionalmente de Hanna. Pior para Diodoro era não ter amigos fora as pessoas de sua família. Mas agora estava com um círculo de amizade bem incomum, mas que lhe satisfazia imensamente. Natalia
Prestou atenção na resposta do amigo enquanto deslizava os dedos pelo próprio queixo, pensativa. Encarou-o de volta, sendo pega de surpresa pelo sorriso repentino e a confissão da felicidade alheia por sua presença. Ajustou a própria postura, sorrindo com o leve rubor que lhe tomava a face, compreensiva e satisfeita por ele parecer a cada encontro mais e mais honesto com os próprios sentimentos. Levantou-se, arrastando o próprio banquinho para sentar ao lado do moreno, estendendo o braço pelas costas dele, abraçando-o de lado ao se sentar, pendendo a cabeça para o ombro alheio. - Oh, Dio… - suspirou, conformada com a personalidade dele, mais quieto, porém honesto. - Eu também sou feliz por ter um amigo que nem você. - ficou onde estava, observando o movimento ao redor por um instante antes de deixar o abraço para segurar a mão do moreno, ainda apoiada no ombro dele. - É engraçado. - riu baixo enquanto se distraía com a mão do outro, tentando estalar os dedos dele como de costume. - Isso não parece muito a sua cara. Aceitar um estranho no negócio da sua família. Sua irmã disse que você estava agindo diferente também quando fui lá na sua casa, o almoço abençoado em alemão, lembra? - brincou, recordando da risada do amigo com seu constrangimento. - Talvez… você não seja tão “estável” assim quanto pensa, Dio… Afastou-se por um instante assim que seu crepe chegou, estendendo as mãos para poder pegar o doce embalado no pacote de papel branco fino. Deu uma mordida generosa antes de oferecer a sobremesa também para o moreno para que ele experimentasse o sabor. Sabia que ele também gostava daquela mistura de fritura com chocolate. Diodoro
A reação de Natália foi bem diferente do que esperava. Ela pareceu genuinamente surpresa com suas palavras. Talvez estivesse sendo direto demais? Não que fosse de esconder quando gostava de alguém. E gostava da companhia de Natália, simples assim. Só não esperava que ela viesse sentar ao seu lado. Ficou completamente tenso com a aproximação da loira e o braço em volta do seu ombro. Estava desacostumado com tanta camaradagem, e diferente das aproximações inconvenientes de Hanna, ela parecia estar sendo só carinhosa. Apesar de ainda se incomodar com a mão dela na sua logo em seguida, deixou, na medida do possível, que ela estalasse seus dedos. Era reconfortante ter alguém próximo que não fosse sua família, que não estivesse só tentando tirar sarro da sua cara, ou só fosse uma grande bagunça de conflitos éticos. Na verdade, cada um dos seus novos amigos tinha algo a lhe oferecer, e embora nenhum deles fosse exatamente “apropriado” (pelo menos pelo que diria a polícia, se descobrissem), ter conhecido todos tinha lhe permitido se aproximar de pessoas... vivas. Até Xavier, que mal tinha conhecido. Era como Natalia disse, não era bem a sua cara contratar alguém que não era da família. Só não esperava ouvir ela dizer que não era “estável” como se descrevia. Diodoro ergueu as sobrancelhas em surpresa genuína, e então parou para pensar novamente sobre o que Natalia estava dizendo. Não que fosse um elogio. Mas tinha passado muito tempo pensando que sua estabilidade emocional era mais que isso, era inércia. Estava constantemente freando avanços, mudanças, e preso as mesmas situações e valores e a sua família. Mas aos poucos tinha mudado, não era? Nem percebeu quando se pegou sorrindo. Não um sorriso breve e irônico, mas um sorriso maior, suave, que quase não combinava com as olheiras de Diodoro. Virou direto para o crepe quando a amiga lhe ofereceu um pedaço, e deu uma mordida, escondendo a boca suja de chocolate atrás da mão, embora a expressão mais alegre fosse difícil de escapar do olhar dos outros. - Talvez... – Diodoro respondeu, logo depois de mastigar o pedaço. - ... ficasse melhor morango também. – falou sobre o crepe, embora estivesse brincando com a frase da amiga de anteriormente. – Nat. – tentou chamá-la pelo apelido, mas em uma rara ocasião, não conseguiu olhar para a loira diretamente enquanto a chamava por um apelido assim como ela lhe chamava de Dio. Na verdade, estava sendo orgulhoso demais com a tentativa. Mas não demorou dois segundos para o senso de vergonha lhe voltar, e o rosto sorridente se desfez em um breve pânico, e um rubor muito evidente que ele tentou disfarçar comendo a tortinha que tinha pedido. |