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Indigno [Renaud, Didier, Robespierre] - Printable Version

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Indigno [Renaud, Didier, Robespierre] - Renaud - 01-09-2023

Borrado. As coisas estavam todas borradas, parecia que não tinha de fato ocorrido, e eram coisas ditas sobre os outros, não que estava vivenciando aquelas experiências. O dia já caia e a noite era úmida e salgada em Cerise, não sabia se pela proximidade com o mar, ou pelo fato das lágrimas terem secado no rosto do moreno.

Um carro luxuoso tinha ido buscar o jovem Renaud Blanco no internato de St. Clavier, não tinha respondido as mensagens de celular, pois não tinha mais um, tinha estourado o aparelho no chão durante seu surto de raiva, e desde então todas as suas memórias eram um borrão.

Podia dizer que a única coisa que sustentava sua sanidade era a conversa que tinha tido com o psicólogo e o apoio incondicional de seu frater e de seu namorado. Mas até disso tinha sido privado ao ser levado da Academia para “casa”.

Queria ter sido acompanhado por Didier até a residência dos Blancos, mas houve resistência do assessor de seu pai, que disse em claro e bom tom que era “assunto de família”, ou seja, não tinha espaço para amigos. Quem em sã consciência e que se importa com o emocional dos outros, afastaria amigos em um momento de luto? Ele mesmo não conhecia tão bem a família Blanco a ponto de saber que a última coisa que se esperaria daquele lugar era “apoio emocional”.

Mas Renaud talvez estivesse apenas desacostumado à realidade, que a maior preocupação agora não era velar a morte recente de sua mãe, mas sim manter a integridade dos Blanco diante do ocorrido. Evitar fofocas de porque Beatrice estava indo e vindo entre Paris e Cerise fora de sua agenda, omitir os machucados e acidentes recém ocorridos com o filho mais velho de Deodatos. Porque a “saúde da família” era mais importante do que o estado emocional de qualquer indivíduo isoladamente.

Renaud apenas seguiu, sendo empurrado para o carro, depois para dentro da mansão, pessoas indo e vindo, sequer se deu o trabalho de falar com qualquer um deles. A casa da família Blanco em Cerise, era um símbolo de austeridade, um casarão antigo reformado para ser sede e palco de eventos sociais de grande porte, claro que todos os membros seriam chamados pra se reunir ali.

Apenas foi guiado pelo fluxo, para se trancar no quarto, no primeiro andar, com pequena varanda, e trepadeiras que careciam de corte. Era um dos cômodos que tinha usado poucas vezes no passado, não era diferente de um quarto de hotel bem arrumado. Limpo, genérico, totalmente superficial, não lhe representava nada, assim como sua própria "família".

O moreno se jogou sobre a cama, sem tomar banho, sem conversar, sem saber em quantas andava o velório.

Não queria pensar sobre existir.

Não queria nada.


RE: Indigno [Renaud, Didier, Robespierre] - Didier - 01-15-2023

Na cabeça de Didier, e até na cabeça de Sasha, que acompanhava tudo que estava acontecendo, ambos sairiam dali ao lado de Renaud, tentando manter a proximidade e o pouco apoio emocional que conseguiam, assim como na enfermaria. Portanto, a chegada do assessor – diga-se de passagem, nem um membro da família Blanco – foi um tanto conturbada. Se não era compreensível o porquê daquele evento de família não receber as pessoas próximas dele em St. Clavier, Sasha teve que segurar Didier muito fortemente para que ele não desse ainda mais a entender porque não estava sendo convidado.

A vontade de Didier era de brigar com todos que lhe impediam de ir até o funeral da mãe de Renaud, mas pelo próprio Renaud, ele teve que segurar bastante seu gênio.

O tempo passou sem nenhuma notícia de Renaud, e embora Didier tentasse compreender que era um momento difícil na família, a falta do celular do outro, o desprezo com os sentimentos dele e com as pessoas que podiam apoiá-lo... tudo foi demais para o espanhol.

Didier sacou o celular e arrumou o contato de Law e Jhon para pedir o favor de receberem uma carona até o casarão Blanco. A muito contragosto, foram todos, isso incluía Sasha, mas ainda que ficassem no portão longos minutos, até uma hora, não receberam permissão para entrar ou falar com Renaud. No desespero – e ali podia atestar ser desespero – deram a volta na casa e consideraram: se não podiam entrar por bem, entrariam por "mal".

Buscaram formas de invadir, mas se bem pensassem, aquela tarefa seria impossível para Sasha e altamente perigosa para a ficha criminal do resto do grupo.

Mas a facilidade e vontade de Didier de estar com Renaud venciam seu juízo. Deixado com a missão por Sasha e os rapazes, procuraram um lugar menos iluminado para entrar, e depois de pular a primeira parte, Didier ponderou suas despedidas aos garotos perdidos e a bagagem extra (leia-se Sasha) enquanto seguia sorrateiro pelo amplo espaço, buscando uma entrada de funcionários quieta, uma forma de se infiltrar ou uma janela para pular, até percebendo a janela com varanda e vinhas. Só não deixaria Renaud sozinho naquele momento difícil.


RE: Indigno [Renaud, Didier, Robespierre] - Robespierre - 01-16-2023

Robespierre Blanco, o caçula dentre os rapazes da família, estava em Paris quando recebeu a notícia do acidente de carro de sua mãe; No dia anterior com a saída dela sem aviso prévio, deixando o jovem a cuidados da assessora, ele já suspeitava que seu irmão tinha aprontado alguma coisa. Tudo na França parecia girar em torno do umbigo gordo de Renaud Blanco. Mas dessa vez tinha passado de todos os limites que o pequeno adolescente podia tolerar, como se não bastasse o seu irmão mais velho causar fofocas e problemas dentro da família com seu sumiço de dias sem aviso, agora toda a atuação pra chamar atenção tinha ido longe demais. E tinha custado caro.  E quem ia pagar a conta? Certamente não seria o próprio Renaud Blanco, que por mais que tirasse boas notas, e fosse o queridinho de todos, nem ele poderia remediar essa merda, e ainda assim sair bem visto e elogiado.

O jovem rapaz enfrentou o trânsito de uma cidade a outra, e assistiu a assessora de sua mãe receber a notícia enquanto estava parada em algum lugar da interestadual. Afinal o acúmulo de veículos na estrada era por causa do acidente, e a mulher não soube nem disfarçar a expressão depois de ouvir a nota de falecimento. Nem pra isso a desgraçada servia, nem pra amenizar a notícia, tinha de começar a chorar no veículo o caminho todo de volta a miserável cidade do interior. Isso a tornava ainda mais patética e colocava Robespierre na posição ridícula de ter de ser a pessoa que não chora.

Era sua mãe que tinha morrido, era ele que tinha de ser olhado com cuidado, não era para os outros estarem caindo em prantos e reagindo emocionalmente abalados.

Estar em Cerise não lhe deixava nem um pouco satisfeito, saber que sua mãe seria velada naquele lugar esquecido por deus, só porque faria mais sentido estar no mausoléu da família Blanco, fazia com que Robespierre odiasse ainda mais Cerise, com todas as forças de sua alma. Chegar no casarão da família Blanco, também não tinha nada de agradável, todos falavam com ele, como se fosse um pobre coitado, várias palavras de “que pena, sinto muito”, quando na verdade queriam dizer “pobre coitado sem mãe”.

E aquilo só lhe deixava com mais raiva, mas não podia externa-lá, tinha de engolir, porque todos estavam acolhendo a pobre assessora que ainda estava de olhos inchados de ter chorado o caminho todo. A preocupação era tão superficial, quanto a ideia de família.

Deodatos estava falando ao telefone e parecia cansado, mas sequer se dignou a olhar a para o mais novo, não seria a primeira vez que passaria invisível aos olhos do pai. Estava prestes a se anunciar, quando ouviu o homem falar o nome do irmão mais velho no telefone.

“traga-o de qualquer jeito, ele tem de estar aqui, não. Deixe os amigos dele aí, não tem espaço pra eles aqui.”

Claro que ele estaria preocupado se o filho problema estaria aqui, seria para dar-lhe um sermão sobre a quantidade de transtornos que ele vem causando? Claro que não. O adolescente sentiu o fel lhe subir ao topo da garganta, azedando seu palato.

Mas engoliu. Era o que fazia sempre.

Seguiu sem falar com Deodatos e se trancou no quarto, tentou mexer no celular, mas todas as redes sociais só noticiaram o acidente, todos falando sobre o que não sabiam, ele sabia quem era o verdadeiro culpado do que tinha acontecido naquele dia miserável. Enquanto rolava o feed, apareceu fotos do acidente mostrando o carro destruído, e sua reação imediata foi lançar o celular contra o colchão que quicou no macio e caiu sobre o tapete.

Estava furioso.

Ouviu pela conversa do corredor, o que parecia ser o assessor do seu pai conversando com alguém “tome um banho, você está com uma aparência péssima, depois desça pra ficar com o restante da família”. Esperou apenas que os passos do adulto se afastasse, para sair do próprio quarto, e ir até a outra porta. Bateu uma vez:

– Renaud, está aí? – Não houve resposta, ele o estava ignorando. Respirou fundo antes de levar a mão à maçaneta e girar abrindo a porta. – Estou entrando. Com licença.

Costumava manter quanta distância pudesse do irmão mais velho, mas se tinha alguém que merecia ouvir umas verdades, esse era Renaud Blanco, e se ninguém iria se dignar a falar, então tomaria essa responsabilidade para si, com muito gosto.

– Precisamos conversar, e eu não vou aceitar uma negativa. – o menor falou enquanto cruzava o espaço dentro do cômodo espaçoso, avistando seu irmão deitado na cama, com o mesmo moletom esportivo de St. Clavier que deveria ter chegado.

Renaud estava de costas para o recém chegado, sequer tinha dado atenção a batida na porta, estava com a cabeça muito distante, talvez fosse a exaustão mental do acontecido de tarde, ou apenas efeito dos medicamentos para não ter outra crise ainda nessa noite. E sua demora para responder não foi bem interpretada por seu irmão mais novo.

– Eu sei que não está dormindo Renaud. – o mais novo falou enquanto contornava a cama para encarar o irmão, ele parecia miserável, e normalmente isso seria uma visão que lhe encheria de satisfação, mas agora, só o deixava mais irritado, de todos ali, ele é quem tinha menos direito de se deixar ficar assim. – Normalmente eu deixaria você me ignorar, mas hoje, especialmente hoje, temos que conversar. Está me ouvindo?

O olhar de Renaud estava vagando por algum ponto vazio no cômodo, não estava focando no mais novo, mas depois dele falar tantas coisas, não tinha como simplesmente deixá-lo falando sozinho. Muito embora, essa fosse sua vontade. Ergueu-se vagarosamente da cama para se sentar, os dois ficando na mesma linha de visão.

– Fale.


RE: Indigno [Renaud, Didier, Robespierre] - Didier - 02-05-2023

Bastou a primeira agarrada nas vinhas para Didier sentir o quanto os anos de quietude em St. Clavier tinham lhe amansado. Fosse em seus 14 ou 15 anos, teria subido aquilo sem dificuldade alguma, mas para evitar muito barulho e com certo receio das plantas e do suporte não aguentarem seu peso, subiu devagar, buscando da janela algum alento de que daria para invadir a casa por cima.

Pensando bem, já tinha tentado invadir uma casa habitada antes?

Deu uma pausa quando viu a sombra de uma pessoa passar por aquele lado, e aproveitou para ver onde poderiam ter câmeras de segurança que lhe pegariam fazendo aquela manobra idiota. Para sua sorte, se a segurança da casa estivesse acionada, estariam mais preocupados com a entrada da casa, afinal, deveriam publicar na coluna de fofocas quem apareceu para dar seus pêsames a Deodatos Blanco. A ideia toda lhe parecia asquerosa, mas deveria ser assim.

Ouviu ao distante o que foi o nome de Renaud ser chamado depois de algumas batidas na porta. Será que estava com sorte e o quarto que tinha decidido invadir era logo o que precisava? Subiu apressado novamente, e quando chegou ao topo, notou a voz de um garoto de tom indignado se dirigindo ao nome do namorado. Ele tinha um irmão, não era?

Didier pulou na varanda, escondendo-se agachado atrás do batente e das cortinas ainda fechadas. Se entrasse agora, seria expulso dali pela pessoa que visitou Renaud. O simples tom da resposta baixa de Renaud lhe deixou aflito. Só queria entrar ali, mas deveria esperar.