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[Drive] Doviđenja [Stefan; Kyle; Ciel] - Lil - 08-28-2021

Stefan

Nos passos saltitantes que deu no corredor, Stefan não sabe quanto tempo levou para retornar ao seu dormitório. Nas unhas, ainda tinha um resto da tinta vermelha que tinha usado para pintar o olho de Arman Johnson. Lavou as mãos mais de uma vez, vestiu uma bata de pintura, deleitou-se com o próprio corpo e se jogou na cama, esperando os burburinhos no corredor anunciarem seus feitos. Os burburinhos demoraram.

Será que Arman tinha entrado em choque? Tinha morrido? Tinha causado um trauma tão grande que ele tinha deixado de falar, mais do que não falava? O silêncio e ansiedade de saber quais os resultados de seus feitos fizeram com que Stefan rolasse na cama pela noite, os olhos escuros bem abertos enquanto observava o teto fixamente.

“Machuquei um verme.”

Mandou a mensagem, debaixo de suas cobertas. Aos poucos, os rumores começaram a passear pelo salão dos dormitórios, dentre relatos verdadeiros que o fotógrafo Johnson foi levado para o hospital e absurdos, como que ambos os olhos dele tinham sido furados com uma ferramenta de esculpir madeira, deixando rastros imensos de sangue no chão. De uma forma ou de outra, seu nome não tinha sido citado, e embora estivesse acostumado a estar na surdina, pela primeira vez estava tão verdadeiramente orgulhoso de seu trabalho que queria contar a alguém, embora por ora, seu professor bastasse.

A sensação de euforia após o golpe deu lugar a um pensamento racional de sobrevivência. O que fariam consigo, agora que estava caçando? Predadores, predadores que tornavam inconveniente a vida dos homens se tornavam suas presas. E mal tinha começado a afiar suas garras, certamente não queria ser abatido. Foi às aulas como era normal para si, porque ainda não tinha ouvido nada mencionando seu nome, porém, ao longo do dia, foi sentindo que a ideia de ser punido pelo que tinha feito lhe deixava cada vez mais paranoico. Não foi ainda no fim das aulas que correu para o dormitório e se isolou, arrumando em uma mochila tudo que tinha de útil e importante.  A polícia presente no campus também lhe fez ficar mais alerta. E mais alerta que rumores, alunos, polícia e avisos juntos foi a presença que viu enquanto passeava nos corredores de St. Clavier, com a mochila em suas costas, pronto para deixar o lugar: lá estava seu pai.

Stefan o viu de longe, parando no lugar em que estava enquanto assistia o homem seguir para o complexo administrativo. Há tanto não via seu pai. Ainda tinha o mesmo semblante de homem preocupado, mas agora já não era tão jovem, e a tensão que carregava no rosto o envelhecia tantos anos, que Stefan até duvidou se estava vendo mesmo o pai com quem nutria a relação complexa que tinha comentado com o psiquiatra de St. Clavier. Aliás... será que quando pudesse ter acesso a sua mãe, aquele homem pareceria ainda mais patético do que lhe parecia enquanto dava as costas estreitas e se distanciava, tão pequenino que podia esmagá-lo entre os dedos?

Stefan apressou o passo, fugindo em direção a antiga St. Clavier, onde poucos alunos estariam circulando naquele horário pós clubes de esporte e ficaria mais fácil pular o muro sem ser visto. Estava saindo de St. Clavier, e sem assinar, como costumava fazer quando ainda tinha alguma liberdade. Porque de todo modo, iriam lhe procurar, pelo que fez. Mas agora, estava mesmo fugindo, e estava se lixando se colocariam alguém para lhe buscar. Porque se ficasse, colocariam alguém para lhe buscar. E teria que ver aquela expressão de seu pai de perto. E aí nunca mais teria a chance de ver sua mãe e esmagar a cara dela aos socos como tantas vezes ela tinha feito com ele em sua infância.

Fugiu rápido, mais rápido do que há muito corria, entre ônibus e passadas largas, até chegar no porto e se por perto do armazém onde tudo tinha acontecido com aquela filha de um demônio. E mandou dali uma mensagem ao seu professor. Esse era um momento de esperar instruções?

“Fugi de St. Clavier. Se esperasse lá, provavelmente estaria detido. Estou no armazém.”

Kyle

Kyle já tinha recebido uma mensagem no dia anterior do seu mais novo aluno em Cerise. Mas a tinha prontamente ignorado porque estava mais concentrado em fazer outras coisas, e precisava mesmo de alguma nova distração naquela cidade antes que perdesse a paciência até mesmo com Stefan. Mas depois de ter conseguido um bom alvo para passar o tempo e o levado para o mesmo armazém onde já tinha brincado com uma menina sem olhos, acabou sendo interrompido mais uma vez pelo seu aprendiz.

Bom, ele fazia parte da sua reunião com Dimitri, então não podia ignorar a presença dele. E o que quer que tivesse feito sobre “machucar alguém” que o tinha levado até ali, era bom atender ao adolescente e descobrir o que fazer com ele. Por isso não se importou de sair da pequena sala dentro do grande armazém, deixando o seu mais novo alvo ainda preso e suspenso, para ir receber o garoto que estava no meio do grande salão decadente que era aquele local abandonado.

- Sr. Ladislavic, que prazer revê-lo tão cedo. - Kyle se aproximou do rapaz, colocando as mãos nos bolsos do blazer no caminho. - Eu não esperava que viesse me procurar diretamente, mas é bom saber que está interessado nos meus ensinamentos.

Ele parou a meros dois passos de distância do rapaz, mantendo o sorriso tranquilo no rosto, o olho vazio coberto pelo tampão.

- Conte-me o que lhe causou essa vontade de vir me ver pessoalmente?

Stefan

Stefan entrou no armazém por onde sabia, e surpreendeu-se ao perceber que seu professor já estava lá. Talvez por perceber que estava junto do criminoso que tinha mais experiência, a despeito da aparência mudada dele, sentiu-se menos eufórico do que no caminho inteiro. Mas ainda estava um pouco suado das largas passadas que tinha dado dentro de Gris para chegar naquele lugar, e do caminho que tinha percorrido de uma ponta a outra da cidade em fuga.

Encarou o moreno longamente, ouvindo aquela recepção vazia de sentimento, mas que não lhe incomodava nem um pouco, especialmente porque ele sabia manter a devida distância.

- Eu ataquei um verme. Um budala, idiot, um pintor... um queridinho dos professores... ele mexeu no meu quadro... meu quadro... eu enfiei o lápis no olho dele. – falou, tentando ser o mais objetivo possível, mas fazendo as pausas toda vez que percebia o que tinha feito de verdade, uma sensação de euforia lhe envolvendo momentaneamente. Acabou até sorrindo discretamente. – Eu furei o olho dele... e chamaram meu pai... e devem ter chamado alguém para me levar... porque eu não podia cometer mais nenhuma falta. Especialmente... se pudesse ser identificado.

Comentou, cruzando os braços e levando uma das mãos a boca, contendo o que achava que era um riso, encarando o outro moreno e o tampão dele. Não sabia se essa era a reação certa. Tanto que acabou logo voltando a seriedade usual. Mas estava... satisfeito.

Kyle

Kyle esperava resolver aquele assunto com rapidez e precisão, assim teria como voltar para a sua diversão particular e não estava exatamente inclinado a deixar Stefan compartilhar dela, embora lidar com um homem adulto talvez fosse um bom treinamento para o rapaz que já tinha matado até uma criança. Mas foi até pego com um pouco de surpresa quando ele falou que tinha “atacado um verme”. Arqueou um pouco a sobrancelha do olho bom, ouvindo atentamente enquanto ele descrevia de modo fragmentado o que tinha feito e ainda definia o seu alvo como “um idiot, um pintor, um queridinho dos professores”... bom, pelo visto ele tinha sentimentos muito definidos com relação ao próprio trabalho para não se importar em desferir um golpe contra a pessoa que tinha modificado o seu quadro… até conseguia se identificar com aquele sentimento, no fim das contas.

O sorriso no canto dos lábios ficou um pouco mais notável e ele levou a mão direita até o rosto, a ponta dos dedos indicador e médio passando pelo canto dos lábios finos curvados naquela expressão de breve satisfação. E nem tinha precisado empurrar muito longe para que o outro tivesse mais coragem de sair da zona de conforto. Se ele tinha chegado a enfiar um lápis no olho do outro aluno, o estrago tinha sido bem considerável.

- Ora, ora, Sr. Ladislavic. Está me surpreendendo mais do que eu calculava. - ele falou, com um óbvio tom de agrado na voz pela atitude do rapaz. - Nós iríamos chegar aí em algum momento, mas você foi mais rápido… excelente.

Kyle se aproximou um passo a mais de Stefan, ficando a uma distância de pouco menos de um metro, ainda como se houvesse uma área segura em volta do seu pupilo.

- Conte-me, como é que se sentiu? - perguntou, levando as mãos para trás do corpo, dando uns passos em volta de Stefan, numa necessidade de se movimentar apenas porque tinha sido interrompido no meio do seu assunto com Ciel Elsworth. Ao menos Stefan passava bem longe do seu perfil e podia só se distrair mais alguns minutos com ele. Estava até inclinado a deixá-lo sentado observando o que fazia com o alvo na sala ao lado.

Stefan

Talvez porque tivesse sido rejeitado sua vida toda pela mulher que deveria lhe aceitar, que era sua mãe, e tivesse sido jogado em St. Clavier pela pessoa que lhe aceitava, que era seu pai, a sensação de ser parabenizado pelo moreno a sua frente lhe deixou com uma sensação estranha que não sabia definir, mas que não era de todo ruim. Na verdade, ele mantinha o espaço perfeito entre os dois. Não lhe punia, não lhe rejeitava a despeito das travessuras que fazia – se ele andava sequestrando crianças para serem mortas, certamente tinha mais pecados nas costas que Stefan poderia pensar. Ali, o que tinha era o sentimento de “aceitação”? Havia um limite para o que podia dizer a ele? Dos sentimentos que passavam por si?

Já havia confessado seus sentimentos verdadeiros uma vez, e seus pequenos crimes, jogados na cara de um homem que supostamente deveria lhe ajudar. Mas dele não viu retorno nenhum. Na verdade, lembrava bem dos embates com sua mãe, lembrava bem os embates com o psicólogo, eles sabiam seus verdadeiros sentimentos. Kyle podia saber também... não podia?

- ... Com vontade de dançar. – respondeu, franzindo a testa para si mesmo, seguindo Kyle com o olhar a medida que ele lhe circulava. – Isso. Há muito tempo eu não sentia vontade de dançar... há muito tempo não sentia vontade de nada, a não ser ficar no meu quarto... cumprir minha rotina... – Stefan falou, pensando sobre o que tinha mudado de uns tempos para cá. Sabia que Kyle não gostava que fosse prolixo, mas estava pensando. – Tudo estava mudando em St. Clavier... eu não queria dançar... porque... me sentia a “aberração no meio do picadeiro”... e todos eles... minha progenitora, meu pai, o pintor, o doutor, aquele que me violentou, aquela que me violentou, quem me coroou rei, as autoridades... todos eles eram os mestres do circo. – falou enquanto pensava, acelerando e pausando em partes diversas da própria fala. – Eu fiz tantas ameaças vazias a essas pessoas... tantas ameaças vazias... sem forças para levar em frente...  e todas brandiram o chicote para mim. Mas agora me sinto tão surrado pelos chicotes que não importa... e vou devorar uma a uma... e dançar bem no meio desse picadeiro.

Stefan abriu um sorriso largo, levando mais uma vez os dedos até a boca, mordendo a unha e a ponta dos dedos, os olhos arregalados indo de um lado a outro, sentindo uma imensa onda do que supunha ser o doce desejo de vingança lhe invadir. Desfez o sorriso tão prontamente quando fez, sacudindo a cabeça negativamente.

- A menininha... a menininha era filha da mulher que me violentou... tão suja quanto a minha mãe... era melhor ela ter morrido para não crescer e saber o que aquela mulher fez... – Stefan pontuou, a postura ficando estranhamente mais confiante com as próprias palavra. – Agora o pintor teve o que merecia. Mas preciso de mais...!

Kyle

Já sabia que Stefan gostava do som da própria voz, mas ele até tentou ser muito objetivo ao definir como estava se sentindo, e até abriu o sorriso largamente quando ele disse que estava com "vontade de dançar". E logo o discurso seguiu, especificando cada uma das pessoas que tinham o afetado em St. Clavier. Claro que atentou logo para a menção do "doutor", que devia ser Dimitri, e que lhe deixava com um sorriso ainda mais satisfeito no rosto de pouca expressão, porque era exatamente o que queria fazer, preparar o rapaz para surpreender a Dimitri também, com sua capacidade de persuasão.

- Você devia dançar, então, Sr. Ladislavic. - Kyle respondeu, parando de se movimentar, de frente para Stefan de novo e ainda mantendo a distância usual. - Dançar e preencher as ameaças vazias. Veja o que já fizemos até agora... você tem potencial, sua atitude comigo é a prova disso, o que fez com a menina é a prova disso, e agora me vem com essa agradável surpresa de que tomou ação sozinho. Estou certo que teve muito mais oportunidades do que apenas essas, não?

Kyle se manteve parado diante do moreno, cujas expressões mudavam com a mesma intensidade do discurso dele. E ele tinha deixado bem claro que queria mais, só não queria ter que dividir com ele exatamente agora a sua diversão. Quem sabe pudesse incentivá-lo a ir atrás de algo mais.

- A menina. O pintor. Você quer mais? Eu posso lhe garantir mais... o que você quer fazer, Sr. Ladislavic? A quem você quer fazer...?

Stefan

As ameaças vazias. Dançar e preencher aquelas ameaças vazias que fez. Todas as vezes que cuspiu palavras de ameaça para os outros sem cumprir porque não tinha forças, porque era patético... já tinha apanhado tanto, já tinha sido rejeitado, e explorado, agora, que diferença fazia se persistia mais e podia se permitir esganar uma criança, ou perfurar o olho de um homem adulto? Podia fazer tudo aquilo, dançar e cumprir as ameaças vazias.

- Tive. Tive tantas oportunidades. - os olhos escuros fixaram-se em Kyle, os lábios entreabertos enquanto pensava em tudo que tinha lhe acontecido até então, da primeira surra que lembrava ter recebido de sua mãe até a sensação firme e fincar algo no olho de alguém. Podia ter *mais*. Aquilo lhe fazia estremecer inteiro, os olhos escuros arregalando um pouco mais. - Quero cada um deles. Mãe, pai, pintor, doutor, a louca, todos... todos merecem perceberem suas próprias insignificâncias. Tão... patéticos. Eles deveriam se sentir tão desgraçados quanto eu.

Respirou fundo, disparando as palavras como se sentisse vivo, os olhos escuros ainda bem abertos.

- Aquela govno jedno que se diz uma majka... devolveria cada olho roxo, dente a menos, supercílio aberto, inchaço, xingamento, chute... a vaca deveria apanhar, apanhar e ser trancada em um quarto para sangrar sozinha. Ah, como eu queria ver meu otac consolando ela com um afago na cabeça. Porque isso é natural. É isso que ela merece, por fazer travessuras a vida toda. - Stefan sentiu os dedos da mão travarem. Os movia devagar, mas não sentia o impulso de escondê-los atrás das costas ou tamborilá-los disfarçadamente em algum lugar. Os observava, porque eram suas mãos que podiam fazer tudo aquilo. - E o doutor! O doutor fez jogos mentais comigo... e não quis comer a comida que preparei... e passei tão mal, tão mal...! IRK! E ele me bateu... me tratando com aquela falsa condescendência, fingindo ser profissional... destruir o relógio dele, não foi suficiente. Rasgar o casaco, pintar a casa dele de vermelho, não foi suficiente. Senti a cara dele na minha mão, apertei cada cavidade daquele crânio, mas não lhe causei mais que um incômodo... eu posso causar muito, muito mais.

Stefan ficou ofegante. Podia concretizar suas pequenas vinganças pessoais aos poucos. Talvez não fosse tático ou estratégico como seu professor, mas ao menos podia ser.

Kyle

Kyle naturalmente não tinha muita paciência para ouvir os longos diálogos de Stefan, por isso nos primeiros encontros dos dois já tinha apontado como ele era só conversa e nenhuma ação. Mas não se importava de dar o espaço para ouvi-lo agora que ele finalmente tinha decidido ser mais ação do que conversa. Queria que ele falasse o suficiente para ficar satisfeito e quem sabe ir ele mesmo atrás da próxima vítima? Aí teria o seu tempo de distração com o jardineiro ainda pendurado na sala ao lado.

Manteve a mesma expressão com um sorriso artificial no rosto, o olhar focado nos trejeitos que não lhe interessavam e no discurso enfeitado de todas as situações vazias pelas quais ele tinha passado. Tudo mais do mesmo. Podia até entender os termos que ele usava na língua natal que não eram nada complicados e que já tinha ouvido em outras oportunidades. Até o discurso lhe chamar atenção.

Claro que chamaria atenção, afinal, ele estava falando de Dimitri. Não mudou a expressão senão curvou mais o sorriso enquanto ele descrevia como tinha caído nos jogos mentais do psicólogo... era apenas esperado, não era? Se Dimitri tinha entrado em sua cabeça, como não entrar naquela cabeça vazia? Quase teve vontade de rir quando ele falou sobre a comida que ele teve que comer... e como tinha também levado algum tipo de surra. Só não expressou mais o contentamento que estava sentindo com as ações certeiras de seu Dimitri pelas palavras que vieram depois. Destruir o relógio, rasgar o casaco, pintar a casa... sentir a cara dele na mão... apertar cada cavidade do crânio... poder causar mais.

Kyle não podia sentir qualquer dor física ou ao menos não se dava conta dela há muito tempo, e por isso não sentiu a força com que o punho estava fechado diante da ousadia daqueles atos e palavras. Mas a expressão se manteve firme por alguns segundos após o fim do discurso dele que foi precedido por um silêncio incômodo. Por que é mesmo que tinha decidido brincar com o paciente de Dimitri? Se soubesse o que tinha acontecido antes...

As ações que se seguiram foram rápidas demais até para despertar em Kyle a sensação de que estava com um alvo a sua frente que devia ser imediatamente eliminado. O sorriso falso deu lugar à expressão do ex-militar em uma missão de vida ou morte, e no instante seguinte, a mão que tinha se fechado em punho acertou em cheio o rosto do adolescente mirrado que, sem sequer chance para perceber o que tinha acontecido, caiu desacordado no chão.

- Você... tocou... meu... Dimitri...?

Stefan estava apagado, não tinha como responder. O pensamento mais lógico e racional de Kyle, ao encarar o corpo caído aos seus pés foi enfiar as mãos no pescoço dele e quebrá-lo de uma vez. Mas ele não o fez, encarou o adolescente desacordado de cima. Pela ousadia do que ele tinha feito, não era para morrer tão fácil sem ao menos entender os próprios erros.

Stefan

Na cabeça de Stefan, era muito bom estar sendo ouvido. Especialmente porque agora tinha certeza que podia fazer tudo aquilo que professava incessantemente, e seu professor, que tinha dito outra ocasião que não apreciava sua enrolação ao falar, tinha se disposto a escutar o discurso longo sobre as pessoas horríveis que tinha encontrado.

Só que em algum ponto de quando falava, o sorriso completamente plástico no rosto, viu o sorriso desaparecer, o que lhe fez arrepiar o corpo todo. Stefan manteve a postura ereta, mas os olhos arregalados e intensos retornaram a apatia de sempre. Era alguma conformidade de que ele não apreciava sua falação constante, ou qualquer coisa. Mas antes que pudesse confirmar verbalmente o que quer que fosse aquela sensação de que algo ia dar errado, sentiu uma dor intensa, um zumbido fino no ouvido, e as luzes se apagaram em um mero segundo.

Kyle

Alguns longos segundos se passaram enquanto Kyle ainda sentia o formigar das mãos, ansioso para finalizar aquilo de uma vez. Mas não adiantaria que ele não soubesse o que tinha feito para morrer tão rápido. Segurou-o por uma das mãos e o arrastou na direção do quarto em que tinha deixado o jardineiro ainda suspenso, com a facilidade como se arrastasse apenas um saco de lixo. Entrou na sala, largando Stefan no meio do caminho para andar até a alavanca que travava as correntes que prendiam Ciel. Foi apenas um chute na alavanca e só escutou o baque surdo do jardineiro caindo direto no chão sem muito que se sustentar na posição em que estava, seguindo de um grito abafado provavelmente pela falta de ar da queda.

- Você, calado. - ordenou ao jardineiro, ao chegar perto o suficiente apenas para soltar o gancho que o mantinha suspenso, porque certamente precisaria daquilo.

Já não tinha a expressão de sorriso falso e entretida de antes. Voltou na direção da mesa em que havia alguns outros equipamentos e parte deles coberto por uma lona suja. Achou rápido algumas correias de couro com argolas de aço que seriam bem úteis e resistentes para suspender o adolescente e evitar que ele lhe desse trabalho tentando sair correndo. Não se preocupou em tirar a roupa dele, como tinha feito em Ciel, e nem tinha a menor intenção de fazê-lo, só colocou o harness de couro nos locais adequados para arrastá-lo mais uma vez até onde havia as roldanas e correntes com ganchos para prender nos suportes e levantar o rapaz. O harness o sustentava pelo peito e pela virilha, os ganchos de sustentação em cada ombro. Mas ainda colocou um par de algemas nos tornozelos dele e manteve os pés igualmente suspensos. O ergueu na altura ideal para poder encará-lo de frente, embora ele ainda estivesse inconsciente. Teria prendido também os pulsos, numa postura que já estava acostumado. Mas naquele momento, sabia que precisaria das mãos dele bem livres.

Kyle não parecia mais se importar sequer com a presença de Ciel, apenas parou de pé a um braço de distância de Stefan, e ficou exatamente onde estava, encarando-o fixamente como se contasse os segundos até que ele recobrasse a consciência.

Ciel

Depois que a porta foi fechada pelo seu agressor entretido, não soube dizer direito o que estava acontecendo no outro cômodo, mas pode ter a certeza que havia uma outra pessoa com ele, apesar de não entender o que falavam do outro lado. Sentia o incômodo tanto nas mãos quanto nos pés piorarem devido a pouca circulação, graças a posição que estavam.

Seguiu os minutos que ele passou do outro lado em completo silêncio, apenas ouvindo o som das vozes abafadas do homem e de uma outra pessoa, e da sua própria respiração arfante. Sentia a dor do corte se localizar melhor em seu supercílio, apesar de ainda sentir o calor do sangue que escorria em menor quantidade pelo rosto.

Quando a porta foi aberta novamente, sentiu o coração acelerar, e mesmo com receio, tentou levantar o rosto o suficiente para ver o que acontecia. Viu de relance o agressor carregando alguém, provavelmente a pessoa que estava do outro lado da sala, cedendo a dor incômoda no pescoço. Sentiu um frio lhe percorrer quando escutou os passos do homem de cabelos escuros, até ser pego de surpresa com um barulho seco contra algo de metal, e sentir o corpo inteiro despencar da altura que estava.

Com as amarras que estava, não teve outra reação senão virar o rosto, evitando que batesse com o queixo diretamente no chão, porém ainda tendo a parte lateral do rosto e toda a região do peito bater contra o solo da altura que estava. Sentiu o ar escapar dos pulmões no mesmo momento em que sentiu o impacto no rosto, um grito seco escapando da garganta graças a pressão feita pelo choque contra a superfície dura. A visão ficou turva e sentia um gosto ferroso se espalhar em sua boca, tentava puxar o ar de volta, sentindo a garganta arranhar e tossir no processo. Apesar de atordoado, pode perceber a aproximação do outro, que fazia todo o corpo entrar em estado de alerta. O medo fazendo com que se encolhesse o tanto que conseguia, dada as condições, mas apenas ouviu uma ordem ser dita. A maneira que ele falava estava diferente, especialmente a falta da expressão de satisfação do outro, que conseguia notar mesmo com a visão embaralhada. Não deu uma resposta, mas também não fez nenhum outro som.

Sentia o rosto latejar, e agora que não estava mais suspenso, conseguia ver melhor o que acontecia, e inclusive quem era a pessoa. Não lembrava pelo nome, mas tinha uma aparência muito específica para não se lembrar desse aluno de St. Clavier. Havia sido ele a pessoa quem havia se comunicado com o agressor? Sentia o medo constringir sua garganta, e apenas se colocou a observar o que acontecia, se sentindo complacente com a situação, o sentimento aflição dentro de si ficar cada vez maior em ter apenas que observar. O viu arrastar o aluno, inclusive até próximo de si, e colocar amarras para então suspendê-lo.

No meio de tudo aquilo, o homem mais alto olhava fixamente para o garoto mais novo, novamente, mantendo distância e apenas encarou o estudante de cabelos negros, mal piscando durante todo o processo. Se não fosse pelo momento que disse para Ciel ficar calado, era como se o jardineiro não existisse.

Era como se estivesse assistindo os acontecimentos de momentos atrás de novo, mas com finalidades completamente diferentes. Ainda sentia o medo dentro de si, mas toda a postura daquele homem havia mudado desde que havia entrado na sala, e estava mais aterrador que antes.

Kyle

Nem o grito abafado de Ciel tirou Kyle da concentração em que estava para tratar de Stefan. Depois de preso, ele ficou encarando o rapaz pelos minutos que se seguiram, a cada instante os pensamentos percorrendo sua mente sobre o que poderia fazer com ele para compensar o fato de que aquela criatura nojenta tinha se atrevido a tocar em Dimitri. Se não estivesse tão ocupado nos EUA naquele tempo, não teria deixado aquelas coisas passarem em branco com o grego.

Kyle não contou os segundos e, como tinha ordenado, o jardineiro também não soltou mais um pio naquele tempo. Os minutos se passaram e embora estivesse verdadeiramente ansioso para que o adolescente recobrasse a consciência de uma vez, aquele longo tempo que passou esperando servia para lhe dar dois centavos a mais de paciência e não matá-lo de uma vez. Ele merecia bem mais do que aquilo, mesmo que tortura não fosse a sua especialidade. Até pensou em calar logo a boca dele, sabia como ele gostava de falar. Mas daquela vez, queria ouvir em detalhes o que tinha acontecido só para confirmar o que faria com cada um dos dedos dele que tinha tocado no rosto de Dimitri.

E depois de um longo tempo quieto encarando o adolescente, finalmente notou um sinal de consciência de novo e o sorriso voltou ao rosto, ainda mais artificial, se era possível.

- Então, Sr. Ladislavic. Você sentiu a cara do doutor na sua mão? Conte-me mais sobre isso.

Certamente o rapaz não estava ainda em estado de sequer racionalizar o que estava ouvindo.

Stefan

Do momento em que apagou, Stefan não tinha ideia do que tinha acontecido. Estava com um zunido no ouvido que se apagava aos poucos, e o corpo parecia flutuar de modo desconfortável, deitado em uma cama que lhe abraçava por inteiro e lhe prendia braços e pernas. Revirou os olhos, o pescoço pendendo pela moleza do corpo inteiro, aos poucos, sentindo seus músculos recuperarem o mínimo de rigidez.

A única coisa que conseguia sentir inicialmente eram as próprias mãos, que formigavam. Ouviu uma voz abafada a distância, e ergueu os olhos escuros, para ver a figura do seu professor, falando algo que não compreendia inteiramente, mas que envolvia “sentir” e “contar”. Não tinha ideia do que estava acontecendo, então apenas se limitou a perceber que estava com as mãos livres, mas o resto do corpo inteiramente preso no que parecia ser uma peça de couro, os tornozelos erguidos também em certa altura.

Desconcertado, olhou de novo para seu professor, notando o sorriso no rosto dele ainda mais falso que o anterior, e mais uma vez a situação de seu corpo. Se debateu um pouco, percebendo o quão preso estava. Era como se estivesse de volta na fazenda, e aquela loira pudesse lhe encarar em seu estado mais patético, e não pudesse se mexer. Era como se estivesse de volta a cama de Nikolas, em seu estado mais patético, e não tivesse saída. Abriu um sorriso, porque não sabia qual era a reação que se tinha naquela hora, e começou a rir. Ria sem graça nenhuma, os olhos escuros tão abertos, que parecia que tinha enlouquecido.

Não tinha sorte alguma. Nunca. Estaria melhor se estivesse morto. Era o que pensava.

De repente, voltou a se debater, e aos poucos, o riso morreu na garganta, a medida que as mãos buscavam um jeito de escapar, e arranhava tudo, até os próprios braços, ainda se mexendo. E o riso foi se transformando em um engasgo, e o engasgo lhe fez se debater mais, e um filete de saliva saiu do canto do seu lábio, desesperado, enquanto ainda encarava Kyle, tentando sair dali como se sua vida dependesse disso. E dependia. Tinha certeza.

- AHHHHHHRRR!!! – berrou, ao se perceber totalmente preso, o corpo parando subitamente ao encarar Kyle mais uma vez, arfando, tentando recobrar o fôlego. – O... o que é isso...!??

Kyle

Stefan pareceu não ouvir o que tinha perguntado, ou ao menos não tinha processado. Mas não era estranho àquela lerdeza para entender a situação depois de ser acertado por um murro no rosto capaz de nocautear. Não tornou a perguntar, deixou que ele se situasse no cenário inteiro e no próprio estado restrito, e no instante seguinte, o adolescente tinha se entregado às risadas exageradas que tomaram a sala do armazém.

Kyle deu uns passos para trás, pegando a cadeira que tinha usado antes e se sentando de novo de frente para Stefan, mais uma vez com as pernas bem cruzadas, o sorriso menos evidente no rosto enquanto esperava o surto dele chegar ao fim, apenas porque ainda tinha alguns centavos de paciência e queria prolongar aquilo ao máximo. Entrelaçou os dedos sobre as pernas cruzadas e só então Stefan começou a assimilar onde estava, como estava e só não sabia ainda por que estava. O questionamento sobre o que era aquilo veio depois de um grito de pavor. Kyle apenas ergueu o olhar para encará-lo de volta e retomou a mesma pergunta de antes, com o mesmo sorriso falso.

- Só mais uma vez, porque eu odeio me repetir, Sr. Ladislavic: você sentiu a cara do doutor na sua mão? Conte-me mais sobre isso.

Stefan

Ser respondido por seu professor daquela forma não era nenhum pouco reconfortante. Porque aquilo não era uma explicação. Só deixava mais claro que tinha caído naquela armadilha estando ao lado dele, e que seria machucado. Não sabia muito de como as pessoas se portavam umas com as outras, mas sabia que aquele sorriso era de quem estava pronto para lhe machucar. Só não entendia qual a relação dele com o doutor. E honestamente não lhe importava muito agora que já estava preso.

Não queria saber o que ele faria se contasse. Mas também não sabia o que ele iria querer fazer quando dissesse.

- E-Ele... numa sessão... armou para m-me... provocar... porque eu não era... um paciente que v-valia a pena salvar...! – tentou respirar fundo, estranhando aquele aperto do peso do próprio corpo contra a harness de couro na qual estava pendurado, ainda menos com as pernas presas daquela forma. – E-le... me chamou de covarde... disse que... eu devia provar...q-que não era...! – se debateu mais, sabendo que a cada palavra daquela história que falava, estaria mais perto de retaliação. Porque apenas por uma menção incompleta do fato tinha sido deixado ali. – E-e-eu... segurei o rosto dele...! E ele... me empurrou pra longe...!

A realização daquele evento, em que se achava tão fraco que não poderia revidar, tinha lhe tomado subitamente. Se sofresse mais uma agressão ali, ainda teria tempo de provar a si mesmo que podia revidar contra o médico? Estava tão mudado desde então.

Kyle

Bom, ao menos o rapaz não tinha voltado à pergunta sobre onde estava e o que estava acontecendo, aquilo facilitava as coisas e lhe dava uma breve sensação de decepção, afinal, ele estava sendo tão prontamente obediente que era um desperdício ter que dar um fim nele... dependendo do que tinha feito a Dimitri. Mais uma vez, um sorriso e uma sensação de satisfação tomou o ex-militar por dentro, ao ouvir como Dimitri tinha armado para provocar o estudante e como os dois eram tão parecidos em certas atitudes, por isso combinavam juntos. E ele tinha razão, Stefan Ladislavic não valia a pena salvar, tinha visto mais do que ele podia fazer só com um leve empurrão. Mas Dimitri estava sempre certo, não era surpresa ali.

O sorriso de Kyle ficou tão mais sincero e satisfeito ao ouvir os demais detalhes de Stefan, sobre como Dimitri o tinha chamado de covarde e como o instigou a provar que não era... e foi ali que a narrativa mudou e o sorriso no rosto do ex-militar sumiu para que a tensão se instalasse nas suas mãos entrelaçadas, pressionando ambas com uma força desnecessária. O movimento para se levantar da cadeira foi rápido e preciso, e no instante seguinte o aperto que Kyle estava colocando nas próprias mãos foi transferido para o rosto de Stefan, segurando o queixo dele com uma mão, pressionando a mandíbula dele, os dedos enterrando na pele que só não era marcada pelas unhas por conta das luvas que ele usava.

- Você segurou o rosto dele? Com essas mãos nojentas? Você. tocou. o meu. Dimitri?! - cada palavra saía pausada, o olhar fixo no rosto de Stefan sem um piscar sequer, os dentes travados enquanto parecia que concentrava toda a força apertando o queixo dele, a ponto dos músculos começarem a tremer. Estava ao alcance dos braços de Stefan, mas não era como se eles fossem lhe incomodar àquela altura, no momento, deixou a respiração sair pesadamente entre os dentes cerrados, tentando manter o controle diante da situação. - Como ousa...?

Não podia quebrar o pescoço dele ali, ia ser fácil demais.

Stefan

O fato do sorriso dele desaparecer por completo a medida que contava a história só lhe lembrava da iminência da retaliação. Podia ver a tensão nas mãos de Kyle. Podia ver o jeito que ele lhe encarava como uma presa. Sentiu o próprio corpo tensionar mais do que a posição incômoda já lhe deixava tenso. Ainda mais ao ver Kyle se levantar da cadeira.

- Eeeeekkk!! – A voz saiu mais rápido do que teve tempo de raciocinar. As mãos pressionaram seu rosto com tanta intensidade que sentiu os olhos encherem de água, mas não sentia vontade de chorar. Ao invés disso, sentiu os dedos tremerem, e como se essa fosse a única coisa a se fazer naquela situação, tentou alcançar as mãos dele com as suas, os dedos afundando na luva de couro, tentando tirá-las de sua cara, puxando com toda a força que tinha após despertar do breve apagão causado pelo murro. Tentava lutar desesperadamente, mas não tinha metade da força que Kyle tinha. E nem palavras para se defender.

Kyle

A expressão de desespero de Stefan sob o seu toque era apenas o que esperava de um alvo como tantos dos quais já tinha se livrado. Mas fazer aquilo rápido com o adolescente depois da ousadia dele era fácil demais e desnecessário, queria que ele entendesse, que ficasse encravado no corpo o que exatamente tinha feito de errado. E a ideia veio tão rápido quanto a necessidade dele de se livrar do aperto no rosto que só estava mais incômodo por causa da dor do soco recente. O sorriso voltou ao rosto de Kyle, ainda mais largo do que antes, mas ele manteve a pressão no rosto alheio.

- Bom, já que me coloquei voluntariamente na posição de seu professor, nada mais justo que eu lhe ensine a ter modos, não é? - Kyle soltou o queixo dele e andou na direção da mesa repleta de ferramentas desalinhadas.

Achou primeiro uma algema, muito parecida com a que prendia as mãos de Ciel, e voltou até o adolescente para prender os pulsos dele e limitar o tanto que ele conseguia estender os braços à frente do corpo, prendendo a corrente das algemas nas mesmas correntes que sustentavam o peso dele. Ainda assim, havia uma certa liberdade nos braços, e precisava que Stefan conseguisse ver as próprias mãos. Qualquer tentativa de resistência dele naquela posição e apenas com os braços mirrados soltos era tão incômodo quanto um gato passando pelos seus pés. Os gritos de desespero e qualquer tentativa de falar algo eram quase música para os ouvidos, tão acostumado estava com cenários muito mais barulhentos e desesperadores. Ao contrário, até gostava de ouvir os gritos de dor.

Ele ainda andou muito tranquilamente até a alavanca que segurava as correntes e mantinha Stefan à sua altura de pé, e abaixou mais o corpo dele até ficar na sua altura sentado. Se ia passar um tempo ali, melhor que os dois estivessem confortáveis. Depois de ajustar a altura de Stefan e colocar a sua cadeira bem de frente para ele, voltou até a mesa com os equipamentos, passando alguns longos segundos observando cada um deles como se estivesse escolhendo com muito cuidado.

- Então, Sr. Ladislavic, vamos deixar algumas coisas bem claras. - Kyle continuou observando as ferramentas e pegando uma por uma, testando-as com atenção, sentindo o modo de manuseá-las e como utilizá-las para o que queria. - Eu nunca gostei de você, mas você me foi útil para fazer Dimitri falhar no trabalho dele e, inevitavelmente, voltar para mim. - ele decidiu finalmente por um alicate de pressão já um pouco enferrujado, apertando-o algumas vezes para voltar o caminho até o adolescente. Tirou o terno para deixá-lo sobre o encosto da cadeira, arregaçando as mangas da camisa, mas sem tirar as luvas. - Mas você tinha que estragar essa utilidade... indo lá e tocando no que é meu. E eu não gosto que toquem no que me pertence.

Ele se sentou na cadeira, puxando uma das mãos de Stefan para perto de si, apenas o suficiente que a corrente permitia de distância.

- Como qualquer pessoa que faz algo errado... - ele segurou a mão de Stefan com uma das mãos, separando o dedo indicador, levando os dentes do alicate até a falange do dedo com muita facilidade, a despeito de todo o protesto físico e verbal de Stefan. - você deve ser punido. - a força com que Kyle apertou o alicate foi a mesma, senão mais intensa, do que aquela com que apertou o queixo do adolescente instantes antes. E em contraste com o grito de dor e desespero que ele já esperava, estava mais concentrado na sensação do osso quebrando debaixo de um alicate com os dentes já bem desgastados, o que lhe obrigava a colocar mais pressão e torcer para um lado e para outro, até sentir os ossos gradualmente esmagando e saindo do lugar, a pele se dilacerando debaixo da insistência de pressionar o alicate uma, duas, três vezes com toda a força que tinha para que conseguisse de fato deixar aquela parte do dedo inutilizável. E o sorriso voltou para o rosto do ex-militar depois que a unha caiu e o sangue manchou suas luvas também. - Eu não vou matar você agora, porque ainda vai servir ao propósito e porque eu sou um bom professor. Mas vamos deixar bem gravado na sua cabeça o que acontece quando você faz algo errado comigo.

E passou para a próxima articulação do mesmo dedo, continuando no mesmo trabalho de mastigar o dedo com o alicate velho, até sentir que a única coisa que segurava os dedos juntos era os músculos e o resto dos ossos esmagados. Seguiu naquele mesmo ritmo na mão direita do rapaz, indo de dedo em dedo, articulação em articulação, sem ao menos parar para se certificar se ele ainda estava consciente ou se já tinha desmaiado com a dor. Mas não podia doer tanto assim, era só um castigo pequeno.

Stefan

Ao ser solto por Kyle, sabia que o pior ainda estava por vir. Uma lição. Nunca aprendia uma lição que não fosse algo que lhe machucava, e Kyle, assim como a sua mãe, não parecia ser o tipo que se seguraria. Porque o que estava errado estava errado, nem que fosse sua mera existência ali. Agarrou firmemente o couro que lhe segurava, tentando puxar e dar algum jeito de sair dali, mas nada do que tentava adiantava.

- Não...! Não, não, ne!! Ne...!!! – Stefan se debateu nas amarras de couro e metal, vendo a algema e tentando se sair sem força para combater Kyle, desesperado com a quantidade de materiais desgraçados que podia ver naquela mesa horrenda que o loiro tinha preparado. Com as mãos presas, não tinha muito o que fazer senão tentar sacudí-las. – O que vai fazer...!!?? Kurac!

Kyle apenas fez questão de lhe deixar na altura igual a dele antes de retomar a mesa, o que fez outro calafrio percorrer a espinha de Stefan. E o objeto que ele acabou escolhendo foi um alicate, que fez prontamente com que o moreno suasse frio, e os olhos escuros arregalassem. Já não havia mais escapatória dali, e o pior, era que sequer tinha energia ou vontade de implorar por piedade ou se justificar. De alguma forma, quando olhava para o loiro, tinha certeza que o quer que dissesse não faria diferença alguma na vida dele.

Quando sentiu a mão ser puxada, o corpo todo tencionou e tentou puxá-la de volta, fechando a mão com força porque sabia que naquele tamanho de alicate, o alvo mais simples eram seus dedos. Sacudiu a cabeça negativamente de modo vêemente, encarando enquanto ele apertava sua mão o suficiente para lhe fazer desistir de estar de punho fechado, e entreabria seus dedos enquanto ainda se debatia. Respirou fundo ao sentir o alicate em volta de sua falange, a pressão aumentando pouco a pouco.

- AHHHHHHHHHHHH!!!!!!! – berrou a plenos pulmões, sentindo o osso quebrar aos poucos com a pressão submetida, assistindo enquanto ele girava o alicate para quebrar mais ainda o pedaço da falange, a dor agonizante de sentir os pedacinhos de osso por baixo da pele que rasgava aos poucos, a circulação indo embora para dar lugar a uma unha arroxeada que Stefan assistiu ficar pendurada junto com o dedo e os músculos e ossos expostos. Sentia náusea, suava frio, a cabeça estava leve, mas por que permanecia acordado? Sentiu ele pegar o segundo dedo, a respiração ofegante intercalada com berros mais fracos de dor. Respirou fundo, sentindo que as lágrimas caíam pelo seu rosto, mas não por tristeza. Era uma reação involuntária. Então ele segurou o segundo dedo. – Pare... pare...!!  AHHHRRHHH!!

A tortura prosseguiu nos outros dedos, devagar o suficiente para que Stefan memorizasse a sensação da pele sendo arrancada pela pressão, para que salivasse de tanto berrar. Sentia a cabeça a mil, não raciocinava mais nada, só sentia dor, pura dor, e ainda estava acordado, mas a cabeça pendia enquanto o rapaz ficava cada vez mais cansado de se debater e grunhir.

- Chega...! – suplicou esganiçado com um fio de voz quase inaudível. Não entendia mais a dor que irradiava da sua mão. 

Kyle

Cada grito de dor, cada pedido desesperado para que parasse, cada reação do corpo na necessidade de se preservar eram detalhes de uma sinfonia com a qual Kyle estava muito acostumado dos melhores anos em que tinha passado servindo às forças especiais no Oriente Médio até ser forçadamente dispensado. Já não se arrependia mais, afinal, foi a dispensa que lhe fez encontrar Dimitri. E o som dos gritos era tanto música para os seus ouvidos que seguiu com o trabalho de estraçalhar dedo por dedo, as gotas de sangue pingando em suas luvas brancas e em sua roupa também clara, sem ao menos perceber quando começou a murmurar uma canção russa no topo da garganta, o sorriso satisfeito em consonância com o olhar arregalado, vidrado, quase sem piscar diante do trabalho meticuloso, embora nada cuidadoso.

Ele podia sentir cada tremor do corpo alheio, cheirar o suor misturado ao cheiro de sangue e do medo e desespero do rapaz que estava tendo os dedos arrancados um por um. O olhar estava tão focado nos dedos aos pedaços - alguns inclusive tinham caído sem qualquer pedaço de pele ou músculo capaz de segurar os ossos amassados -, que só parou para perceber que a voz dele ainda existia e ele ainda estava consciente quando soltou a mão direita, com os dedos completamente esmagados, para puxar a mão esquerda e a atenção parou na expressão de medo, o rosto pálido misturado à lágrimas e suor, o nariz e boca escorrendo, e a consciência ainda firme. Encarou o rapaz de volta nos olhos com uma satisfação imensa, que beirava a excitação. Levou uma das mãos com a luva repleta de sangue até o rosto dele de novo, passando o polegar pelo queixo, os demais dedos pressionando a maçã do rosto já magro.

- Você ainda está consciente…! Fascinante! Não foi dor o suficiente? Você gosta de sentir dor, Stefan? Você sente prazer com isso?! Eu posso lhe dar mais! - ele soltou um longo suspiro pelos lábios entreabertos, pressionando de novo o rosto alheio e deixando marcas de sangue enquanto a outra mão buscava a mão esquerda dele, de novo, segurando um dos dedos para colocá-lo entre os dentes do alicate e pressioná-lo de uma vez com muita força, até ouvir o estalar dos ossos. - Você gosta, não é?! Como é, sentir dor?! É bom? É excitante? - e moveu o alicate para a segunda falange do dedo, pressionando-a com força de uma vez, girando o alicate para os lados até sentir de novo os ossos se contorcerem e quebrarem dentro da pele.

Stefan

O que lhe deixava acordado era puramente a dor. A dor não era constante. Ela vinha em picos, e quando pensava que tinha se acostumado com uma das dores, ela se intensificava a cada dedo estraçalhado. Seu pescoço não tinha força para permanecer erguido, e apenas deixou a cabeça pender enquanto Kyle terminava de estraçalhar o último dedo de sua mão. Podia vomitar o que não tinha no estômago, seus olhos já estavam fundos da exaustão de passar por aquela tortura. Sua voz não era mais que um gemido de um animal morrendo aos poucos, conformado.

Mas muito embora não tivesse força para lutar mais, e estivesse apenas acordado por conta da escolha de tortura de Kyle, deixou um grito de desespero completo sair da garganta mais uma vez quando ele soltou finalmente sua mão, e viu o estado dos dedos que não tinha mais, os dedos que não tinha mais.

Encarou toda a satisfação de Kyle estampada no rosto dele. Uma satisfação que não era fingida. Ele estava verdadeiramente excitado de estar ali lhe torturando daquela forma. Stefan girou os olhos nas órbitas e sacudiu a cabeça como podia, desesperado, mas sem energia alguma no recomeço do ciclo de tortura. E no fim, da mão que não sentia dor alguma, sentiu irradiar novamente aquela dor a qual tinha se acostumado de ter os dedos arrancados, mas seu corpo foi desfalecendo devagar. Não foi a dor. Foi o sangue. Foi o cansaço. Foram as lágrimas.

Após um tempo, Stefan apagou completamente, tendo como última visão naquela cena inteira dentro do armazém, causado por sua própria húbris, a visão de seus dedos sobre o chão e os sapatos polidos de Kyle manchados de sangue.

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