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[Drive] Entre a Cruz e a Espada [Natalia; Diodoro] - Printable Version

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[Drive] Entre a Cruz e a Espada [Natalia; Diodoro] - Lil - 08-28-2021

Natalia

Sua vida em Cerise estava com os dias contados. Ao menos era o que se passava na cabeça da médica após o último atendimento de emergência prestado fora do hospital. Ainda podia recordar das características do sujeito, as mesmas que havia especificado no telefone ao quebrar o básico do protocolo de um médico em sua profissão com uma carreira ilegal. Encarou-se no espelho do retrovisor, apertando o material do volante em suas mãos, fechando os olhos por um instante ao recostar a testa sobre as mãos, respirando fundo.

- Dê um jeito nessa situação. Eu já tenho antibióticos, então seria muito conveniente diminuir a possibilidade de infecções. [...] E não precisa se preocupar com anestesia, doutora.

Ainda podia ouvir a voz do sujeito, fria, tranquila, como se aquele encontro fosse um passeio no parque para o sujeito. Não era nenhuma psicóloga, mas também não era idiota. Não era cega para o que estava acontecendo na cidade do interior francês. A matéria no jornal sobre o ocorrido com o corpo da garotinha, o sigilo das investigações, o posicionamento da mídia e o laudo do necrotério.

Puxou o freio de mão, desligando o motor do veículo, incerta de como havia chegado ali. Estava na rua da funerária Leoni. Talvez seu subconsciente estivesse lhe dizendo para encomendar sua cremação com alguém cujo trabalho julgava competente. Permaneceu no veículo por alguns minutos, recordando das informações que havia passado por seu telefone pessoal, o mesmo que não usava em seus atendimentos de trabalho geralmente noturno.

- Assim está bom? [...] Sabe, doutora, eu vou reencontrar com o meu amante em alguns dias e eu gostaria de estar bem inteiro para ele. Então, se puder fazer um trabalho rápido e discreto, seria de grande ajuda para as minhas futuras intenções.

Ainda estava repassando as memórias em sua cabeça, lembrando dos detalhes que havia informado em sua ligação. Deixou o veículo estacionado e caminhou automaticamente até a entrada da funerária, estreitando o olhar ao se deparar com algumas luzes acesas na parte de dentro. Apertou a campainha apenas para dar um passo para trás, recordando que talvez quem estivesse ali fosse o amigo do agente fúnebre e não o próprio a quem procurava.

Franziu o cenho, voltando para a entrada da porta, certa de que estar ali era a melhor coisa a se fazer naquele momento. No momento seguinte, girou nos calcanhares, dando alguns passos de volta para o carro, considerando as chances do amigo de Diodoro Leoni estar ali e dele descobrir que havia ligado para a polícia, que havia explicado detalhes sobre um novo cliente, que aquilo poderia destruir sua reputação, que a polícia poderia lhe encontrar, que ainda precisava voltar para seu trabalho no hospital.

Levou a mão com as chaves do carro até o próprio rosto, tentando encontrar a forma mais segura de se livrar dos riscos que estava assumindo. Esboçou um sorriso de ensaio, inquieta com o fato de ainda estar naquele buraco de cidade. Tudo parecia se encaixar para uma grande conspiração de velhas desavenças suas. Na profissão que ocupava, não era difícil colecionar inimizades. Não era difícil se encontrar em situações que julgava que sua vida estava em risco.

Diodoro

Havia algum tempo sem movimento na funerária. E de certa forma, agradecia o fato. A última notícia comentada por sua família tinha sido o corpo da garotinha encontrado em Cerise, e embora tivesse dó da pobre mulher que havia perdido a criança – que sequer era sua filha – não sabia se tinha anos o suficiente de profissão para ter estômago de embalsamar e enterrar uma menina tão pequena.

Aquela noite era sem movimento também, sequer seus conhecidos tinham ido até lá recentemente. Hanna, Karen... eles costumavam aparecer ocasionalmente no lugar, por isso que deixava as luzes acesas. Mas no todo ficava assistindo televisão nos fundos, quando não, observava a entrada pela câmera de segurança.

E viu chegar um carro. Franziu a testa, tirando Miro do colo e colocando no chão antes de levantar, vendo Natalia tocar a campainha. Já ia ir até a porta para atender quando notou no comportamento dela, um quê de hesitação. Olhou as outras câmeras, procurando qualquer perigo iminente para a mulher. Pelo visto estava cercado de pessoas com inimigos, e só aos poucos descobria isso.

Quando viu ela voltar pro carro, saiu da funerária pelos fundos para dar mais uma olhada, e então aproximou-se do carro, olhando a loira pela janela enquanto ela esfregava a cara veementemente.
- ...O que está fazendo? – perguntou, franzindo a testa para a mulher, intrigado.

Natalia

Estava pensando em mil possibilidades ao mesmo tempo. O cara ainda poderia estar por perto, ele poderia ter mentido sobre o amante, ele poderia ter lhe seguido. A polícia poderia estar no seu trabalho já, já poderiam ter descoberto sobre sua ausência. A ideia era maluca, mas havia ligado para a polícia minutos após a partida do cliente. Poderia ser que Diodoro Leoni não estivesse na funerária naquele horário. Poderia ser que ele estivesse, mas estivesse acompanhado do homem alto e perigoso, o sujeito que bem lembrava era capaz de quebrar o pescoço de um homem se quisesse.

Respirou fundo algumas vezes, pensando na sequência de erros cometidos até ali e como não precisava estar ali se não quisesse. Estava prestes a respirar fundo de novo e repensar suas alternativas, quem sabe entrar no veículo e ir embora dali como se nunca tivesse aparecido. Isso até notar o contorno de uma figura humana pelo vidro da janela de sua pickup, o ar ficando preso em seus pulmões e o passo vacilando ao se mover para trás, fazendo-a cair seco no chão, as mãos apoiadas para trás em um reflexo, o ruído das chaves do veículo caindo consigo.

- Aaaah! - gritou em pânico antes de sequer cogitar a possibilidade de que poderia ser o agente fúnebre que havia pensado em visitar naquele horário da madrugada. Cerrou os dentes e franziu o cenho até se dar conta da voz do sujeito ainda em sua memória curta, perguntando sobre o que estava fazendo. - Puta merda, caralho! Essa porra!

Manteve os olhos bem abertos, tentando confirmar a presença do agente fúnebre para se certificar de que não havia confundido um estranho com o conhecido. Ou melhor, com seu amigo. Era por ele ser seu amigo que estava ali, não era?

- Mas que merda, Diodoro! Por que você tem que aparecer assim?! - reclamou, o tom de voz nervoso e inquieto enquanto se lavantava devagar, apoiando a mão esquerda com as chaves do veículo em seu peito, tentando tranquilizar os próprios batimentos cardíacos, a cabeça começando a doer com o misto de ansiedade e do susto recente causado pelo moreno. Baixou o pulso direito, encarando a vermelhidão da palma da mão pela queda, o tecido próximo do pulso arranhado. - Tcs. - baixou o olhar, usando as costas das mãos novamente, secando os olhos que começavam a arder. Levantou o queixo, encarando o agente fúnebre por um breve momento, forçando um sorriso, antes de voltar a baixar o olhar, parecendo mais preocupada com o estado das próprias mãos. - Boa noite, não é?

Diodoro

Talvez porque estava acostumado com aquele tipo de reação das pessoas, não se abalou nem um pouco com o grito de Natalia. Mas certamente não entendia porque ela estava tão chocada em lhe ver, afinal, ele já conhecia sua cara. Aproximou-se devagar para não assombrá-la ainda mais, e tentou ajudar a mulher a se levantar, notando pelo jeito que ela estava que parecia muito nervosa. Não tinha muito tempo que Natalia tinha ido lhe falar algumas coisas muito duvidosas, e estava igualmente nervosa. Alguma coisa naquela cidade tinha deixado ela abalada, ou mais abalada que Karen.

- Só... – pensou em responder porque tinha aparecido daquela forma, mas tinha se aproximado naturalmente. Não precisava ficar se anunciando na rua aquela hora. Uma caminhonete com uma mulher hesitante na porta da funerária era atenção o suficiente, imaginava.

Enquanto pensava, Natalia parecia focada  na própria mão, que tinha ralado ao cair daquela forma. A mancha vermelha na mão indicava que poderia usar um sabão e água. Pegou a mulher pelo pulso e encarou longamente, antes de chamar com um movimento de cabeça para que ela entrasse na funerária pelos fundos, por onde tinha saído. Levou ela direto para o banheiro dos funcionários, que ficava na saleta reservada dos fundos, e abriu a água da pia, tirando a luva da mão rapidamente com os dentes para passar sabão no machucado.

- Deshuhe. – pediu, segurando a luva entre os dentes, por estar esfregando a mão dela com os dedos cheios de machucados que sabia que incomodavam. – Eshá herhosa... he ouhe...? – perguntou, sem expectativa de ser entendido. Terminou de lavar a mão dela e enxugou com papel toalha por ser um pouco mais limpo que a toalha de mão. Só então voltou a vestir a luva. – Hm?

Natalia

A respiração ainda estava inquieta como se soubesse que estar ali na calçada, ainda que tão perto da funerária, após gritar pelo susto tomado, não era o melhor cenário após o que havia ocorrido naquela noite. Não negou a ajuda para se levantar, abrindo e fechando a mão para estimular a circulação da mão ao sentir o calor do ferimento chamar sua atenção. Contudo, não esperava que o agente funerário fosse lhe encarar ao tomar sua mão. De certo modo, o olhar de Diodoro lhe incomodava. Não porque julgasse que a aparência dele fosse desagradável, mas o homem sempre carregava uma convicção sobre o que era certo e o que era errado que lhe deixava desconfortável ao pensar no que ele ainda pensava sobre sua figura diante do que já havia revelado a ele.

- E-Ei, não precisa…! - tentou alertá-lo que era desnecessário a preocupação alheia apenas pelo motivo de ter ralado as mãos. Na verdade, já havia se machucado de forma bem mais dolorosa, inclusive pelo amigo do outro, no primeiro encontro que tiveram e ele havia lhe pressionado o braço, ensinando-a uma lição valiosa sobre sempre anunciar o que faria com seus movimentos bruscos.

Apenas observou enquanto ele removia a luva para lavar suas mãos. Sequer esboçou reação fosse pelas cicatrizes na mão dele que agora eram bem perceptíveis, ou pela ardência do machucado recém feito. Ouviu a pergunta enquanto ele ainda estava com a luva na boca, preferindo fingir que não havia entendido nada até ele terminar de secar suas mãos. Sabia que Diodoro não era de falar muito e talvez aquilo fosse uma coisa boa, julgando que não queria ouvir sobre sua própria conduta ilegal e inconsequente em detalhes.

- … eu acho que eu fiz uma merda muito grande dessa vez. - afirmou, cruzando os braços na própria defesa, apesar de ainda estar calculando os riscos que havia assumido naquela noite. Conforme pensava nas possibilidades, não conseguia vislumbrar nenhuma saída além do comprometimento da própria carreira, ou pior, de sua própria vida. - Hah… hahaha… - começou a rir ainda que desanimada, sem deixar de observar os arredores, inquieta. - … eu. me. fodi. mesmo. dessa vez.

Diodoro

Diodoro podia não ser a melhor pessoa para dar conselhos, mas conseguia perceber as nuances dos movimentos de Natalia, e de suas expressões. Ela parecia verdadeiramente preocupada. Ainda mais do que na ocasião em que tinha lhe confessado tudo que fazia lá no cemitério. A mulher estava retraída, amedrontada. Estava mais acostumado ao sentimento de luto que aquele receio todo, então se sentia estranhando a situação.

Permaneceu sério a despeito das risadas fracas de Natalia para disfarçar o próprio nervosismo, apenas franzindo a testa de um jeito tristonho para o jeito dela de lidar.

- Não precisa... - Diodoro falou, sobre a risada forçada da médica. Porém não podia fazer nada por ela se ela ficasse naquele campo das ideias sobre o que estava passando. Precisava que Natalia fosse mais específica que "acho que me fodi". - ... Que aconteceu?

Natalia

Voltou a encarar Diodoro quando ele perguntou o que havia acontecido e acabou por ficar ainda mais assustada com a ideia de falar sobre o assunto. Segurou a respiração por um momento, ainda com os braços cruzados, voltando a pensar e a calcular os riscos na presença do outro, sem conseguir ficar parada em um único espaço durante um único minuto.

- No jornal, alguns dias atrás, saiu a matéria de uma garotinha que foi esquartejada. Eu não tive acesso à autópsia, mas o caso era chocante demais para tomar as manchetes e colocar a cidade em alerta. A criança era Adelaide Laurent, filha de Juliette Laurent e amiguinha da irmãzinha de uma das enfermeiras do hospital. Cidade pequena, todo mundo conhece todo mundo, uma coisa leva a outra e eu não consegui ignorar a possibilidade de que algum dos malucos que eu atendo teria tido o sangue frio e motivação para fazer esse tipo de atrocidade com uma criança! - adiantou-se a falar, respirando fundo para buscar fôlego. - A questão é: nenhum dos desgraçados que me procura teria motivação para acabar com uma criança dessa forma. Até mesmo os drogados, a autópsia levaria a alguma pista do possível autor do crime, o que não é o caso. Sem mencionar o desaparecimento dos olhos da garotinha. Que tipo de doente faz isso com uma garotinha e ainda some com os olhos dela?!

Não parou de andar, levando as mãos até próprio rosto, respirando fundo novamente antes de olhar para o caminho que havia tomado até chegar ali, pensando em escapar novamente dali. Aquele cenário só conseguia lhe trazer a sensação de que era melhor fugir e fingir que aquilo tudo não era problema seu.

- Hoje um novo cliente me chamou para um trabalho. Eu fiz como sempre, deixei o trabalho e segui para o encontro dele. - abriu e fechou as mãos, a boa memória lhe traindo ao trazer as lembranças do estranho bastante peculiar. - Ele era moreno, roupas escuras, um dos olhos ausente. - fez um sinal com a mão, tapando um dos olhos referente ao que o homem parecia não ter. Apontou para as mãos de Diodoro, inquieta. - Luvas, ele estava de luvas, armado e com uma maleta. Ausência de sensibilidade à dor, estava perdendo sangue com um projétil alojado abaixo das costelas. Ele não parava de falar do amante dele que ele queria ver e eu nunca encontrei nenhum assassino que tivesse esse tipo de comportamento, a maioria se comporta como aquele seu amigo, mas esse não. Ah, ele ainda está lá fora…
Cruzou os braços de novo, baixando a cabeça ao se apoiar na parede, nervosa com o que ainda havia feito depois do atendimento ao novo cliente.

- Existe uma coisa que não devemos fazer quando atendemos nossos clientes, sabe? Você não pode entregar seu paciente à polícia, ainda mais quando notoriamente ele é um crimonoso que pode te fuder se ele quiser. Mas… e se esse cliente não estiver associado a nenhum outro sujeito que eu já atendi? E se ele for um sujeito que deve ser preso antes que outra criança seja morta daquela forma? E se fosse alguma das crianças da pediatria? E se for mais um dos pivetes que eu conh-

Parou ao se recordar que naquele cenário, também estava considerando os sobrinhos do mais recente amigo. Encarou o moreno como se quisesse pedir desculpas pela hipótese desagradável que havia sugerido pela lembrança de suas considerações ainda vívidas em sua cabeça. Baixou o olhar, passando a mão pelos fios claros, certa de que ir até ali havia sido mais um erro seu naquela noite inusitada.

- Desculpe, Diodoro. Eu não deveria ter vindo aqui. Ele pode estar atrás de mim agora. A polícia pode estar atrás de mim agora. Você não tem nada a ver com isso. - pediu, tentando recuperar a compostura para criar coragem e sair dali. Queria ter menos receio de sair de uma vez por onde havia chegado naquele recinto, ainda nervosa com a ideia de que o homem poderia estar lhe esperando no seu próprio carro já. Podia sentir o coração batendo acelerado com a adrenalina da perseguição precipitada mentalmente.

Diodoro

Diodoro observou o quão inquieta Natália estava, e sua vontade era de pegar a mulher e segurá-la no lugar, mas sabia que seria pior do que deixá-la andar de um lado para o outro tentando explicar o que tinha acontecido. O começo da história não lhe deixou animado, já que começava com o caso chocante da garotinha que tinha tido os olhos arrancados. Só isso lhe fez o estômago revirar. O que aquilo poderia haver com a médica?

Porém, ela continuou com uma opinião similar a sua, o que lhe deixou aliviado. Que aquilo só poderia ser feito por um louco. Claro que na cabeça de Natalia, os loucos que ela atendia naquele trabalho de submundo dela como médica clandestina, o qual ela tinha lhe explicado por cima da última vez, também poderiam ser os autores. Ela parecia pensar nisso constantemente, até finalmente chegar no cerne da história, do tal homem que atendeu, o moreno, de roupas escuras, sem um olho, de luvas, que não sentia dor. Diodoro não tinha uma boa imaginação, então a imagem mental do homem provavelmente passaria longe do que seria o ideal, mas supunha que conseguia imaginar o quão ameaçador ele poderia parecer, se para Natalia, o tipo silencioso e sombrio como Karen era o normal.

A ideia de que o homem de quem ela tinha cuidado era o assassino, e que ela não podia entregá-lo lhe parecia muito miserável. Não era a toa que Natalia estava cheia de dúvidas. Especialmente porque notou na fala da amiga o sentimento de que ela estava tentando proteger as pessoas que lhe eram queridas. Ela tinha medo que fosse seu “erro” que acabaria causando outra morte, de outra criança, e admitia, sentiu por um instante o mesmo medo, ao lembrar que tinha dois sobrinhos pequenos que constantemente lhe visitavam. Acabou franzindo a testa, pensando enquanto ouvia aquela história.

Quando ela terminou, entretanto, com aquele pedido de desculpas, foi que Diodoro acordou parcialmente para o que estava sendo dito, e então, levou ambas as mãos aos ombros de Natalia, tentando confortá-la.

- Exato. Não tenho. Por isso... podemos conversar. – tentou assentir a ela que era por que estava longe de estar envolvido com aquele mundo assustador que Natalia vivia que podia conversar com ela e confortá-la. – Natalia, se... fosse no hospital... teria negado ajuda? – questionou a mulher, encarando-a longamente. Tentou formular o que queria dizer de um jeito mais direto, para não gastar o ouvido dela. – Primeiro. Você não sabe se foi ele. Segundo. Existem loucos entre nós todos os dias. – falou com um tom muito certo das próprias palavras. – O dever de um médico é... cuidar. Você não o deixaria morrer. E mesmo uma pessoa ruim... isso não lhe cabe julgar. A polícia sim. O juiz sim. Na cadeia, sim. E Deus. Você cumpriu com seu dever.

Natalia

Apenas ficou ainda mais tensa ao sentir o toque do amigo em seus ombros. Ergueu o olhar, encarando Diodoro de volta como se aguardasse que ele fosse apontar toda a sua loucura e concordar sobre o quanto toda aquela sua postura era irresponsável e sobre como já deveria ter entregue os bandidos à polícia. Às vezes até conseguia esquecer que Diodoro era um amigo declarado de um dos assassinos mais perigosos que tivera a experiência de tratar.

Abriu a boca, o ar preso ainda em seus pulmões quando ele lhe assegurou que podia conversar com ela justamente por não estar envolvido no assunto.

- A-Ah… n-não… claro que não. - respondeu, franzindo o cenho um pouco com a ideia de negar ajuda a quem quer que fosse. Franziu o cenho ainda mais quando ele começou a falar sobre os “loucos” que existiam, chegando a pensar que talvez ele estivesse lidando com sua preocupação de uma forma leviana.

Crispou os lábios, considerando que de fato seu trabalho como médica havia sido feito. A questão não era seu juramento enquanto profissional, pois tinha plena segurança que era uma das melhores em seu ramo. Contudo, bem sabia que para pessoas envolvidas com práticas ilícitas, criminosos, pouco interessava aquele julgamento se ela fosse dar com a língua nos dentes quando desconfiasse dos objetivos de um cliente e de como isso poderia afetar a vida de terceiros.

Ficou em silêncio e baixou o olhar, pensativa. Talvez o convívio mais doméstico lhe tivesse deixado mais mole, acostumada com aquelas pessoas todos os dias, com a rotina pacata e pouco excitante de um hospital no interior francês. Talvez aquele tivesse sido seu erro crucial - decidir prolongar suas férias por mais tempo do que deveria. “Talvez seja a hora de pegar a estrada de novo…” - pensou, considerando os riscos que estava assumindo por estar ali e por estar próxima demais daquelas pessoas. Pessoas como Diodoro Leoni e sua família; pessoas como a enfermeira ruiva cereja e sua irmãzinha; pessoas como os pacientes que guardava bem em sua memória, o cadeirante e a mocinha albina; sua amiga de longa data e diretora de Limoges; o loirinho que gostava de livros de fantasia; o escritor que lhe dava dores de cabeça; o professor e pesquisador que admirava; até mesmo o assassino com quem dividia a amizade do agente fúnebre. Quem sabe pudesse levar o gatinho Miro consigo se Diodoro não tivesse se apegado já ao animal? Duvidava que ele não tivesse se apegado ao gatinho.

- Tem razão. Eu segui com o meu papel como médica e é isso que importa. - concordou, forçando um sorriso que sabia que não deveria estar ali, mas era melhor sorrir que tornar aquilo mais problemático do que estava sendo em sua mente paranóica. - É melhor eu voltar para o hospital e cuidar dos meus pacientes. Oficialmente, eu ainda estou em horário de trabalho, não é mesmo? - deu de ombros, segurando as mãos enluvadas do moreno, afastando-as de si, porém sem soltá-lo. - Você… sabe o meu número se alguma coisa acontecer, não sabe? - perguntou apenas para se certificar de que o amigo ficaria bem ainda que soubesse que o mais seguro seria sumir dali e não envolvê-lo mais em seus problemas.

Diodoro

Podia até não ser o melhor analisador de situações. Tinha uma visão moral muito decidida do que era certo ou errado, e de quem tinha o papel do que. Entendia o que Natalia estava dizendo, afinal, quantas pessoas poderiam se machucar a mais porque ela não tinha condições de dar com a língua entre os dentes sobre o homem que tinha atendido. Suspirou longamente, vendo o semblante dela tomar um ar pensativo. Porém, não era como se ela tivesse mudado ou se acalmado. Suas palavras tinham deixado Natalia mais inquieta, mas por dentro. Tinha certeza.

A confirmação veio com a primeira colocação dela. Que importava que ela tinha cumprido o papel como médica. Isso de fato importava, mas não era a única coisa que importava, e não tinha de forma alguma intenção de abnegar os sentimentos de preocupação dela. E o fato dela dizer que ia embora sem soltar sua mão só lhe dava mais impressão que se ela fosse embora, era capaz dela fazer alguma loucura por pensar na segurança dos outros, como ela tinha chegado até Diodoro.

- Não. – respondeu simplesmente, fechando a mão em torno da de Natalia, certo de que não deixaria ela fugir dali de forma alguma. – Não é só o que importa. Mas você não faria diferente. – apontou, embora não soubesse se ela entenderia completamente o que estava dizendo. O que estava tentando avisar é que não haveria outro rumo para a situação dela senão atender o paciente. – Medo de denunciá-lo. Medo de que ele machuque conhecidos. Medo de ser morta. Mas Natalia... – tentou pensar em como explicar aquilo para ela. Entendia bem a situação. Ela sabia que ele entendia a situação. – Você ia ajudá-lo. Inevitável. Lide com o medo do seu dever. E se pode mudar o medo... vá, mude. Denuncie. Faça seu certo. Todo caminho tem consequências. – falou como se fosse o óbvio, afinal, era exatamente aquilo que ela estava pensando. Só que ela pensava muito, e não agia. – Importa é como você se sente. – respirou fundo, porque sabia que a sensação dela muito se devia ao fato dela se preocupar com a segurança das pessoas ao seu redor. – Já disse. Não tenha medo por mim. Estou com você porque quero. E se... algo acontecer a você, vou sofrer. Mas “se”... são caminhos imprevisíveis.

Natalia

Encarou Diodoro enquanto tentava controlar a pressão desconfortável no próprio peito e bem conhecida chamada ansiedade. Antes queria ver um rosto conhecido e amistoso, agora só queria ir embora dali. E de repente, não queria mais. Buscou o ar, tentando não se desconcentrar do que o homem tentava colocar em sua mente no objetivo de tranquilizá-la como o bom amigo que ele era. Tensionou com o outro segurando sua mão como se não fosse deixá-la fugir dali, ainda que fosse o pensamento que mais lhe passava pela cabeça.

Tinha medo sim, medo de acabar se sentindo tão responsável como ainda se sentia pela morte da mulher que havia lhe mostrado aquele mundo. Talvez todo o contexto da “namoradinha” de Clementine tivesse lhe deixado mais sensível, talvez fosse o tempo que havia passado com as pessoas daquela cidadezinha do interior francês. Em condições normais, não teria se preocupar com tal detalhe, pois já estaria caindo fora da cidade naquela altura do campeonato. E era aquilo que tinha em mente. Sabia o protocolo e o que precisava fazer. Mas por que ainda estava ali perdendo seu tempo procurando por um amigo?

Encarou o sujeito a sua frente. Não sabia dizer como ele se mantinha vivo no meio de tantas pessoas ruins e como ele conseguia ver alguma coisa de bom nessas pessoas, ver alguma coisa de bom em sua figura. Olhou diretamente para a cicatriz no rosto de Diodoro, a lembrança física do sacrifício que ele fazia ao se colocar em situações perigosas por pessoas como ela, ou como o assassino que tivera a surpresa de encontrar mais de uma vez em Cerise.

- Eu sei que você me atura porque você quer, Dio. - riu baixo, compadecida da sinceridade nas sentenças do outro. Suspirou, apertando as mãos dele de volta, puxando o braço devagar para que ele lhe soltasse. - Mas eu já liguei para a polícia. - segurou o sorriso no rosto, ainda que não tivesse certeza alguma se havia feito a escolha certa, a escolha que não lhe colocaria de vez atrás das grades ou sete palmos abaixo da terra por ter entregue um de seus clientes. - Não posso ficar aqui se eles rastrearem meu celular ou coisa do tipo. Foi só uma denúncia anônima, mas eu não acredito na bondade da polícia. - deu de ombros, sentiu uma pontada de dor de cabeça pela própria paranóia e baixou o olhar. - Merda, deixei os cigarros no carro. - suspirou de novo como um reflexo de quem precisava lembrar de respirar em situações como aquela. - É melhor… eu buscar logo… - tentou completar a desculpa, certa de que Diodoro não tinha nenhum tipo de auto defesa para se proteger de entrar no fogo cruzado que era a vida naquele meio.

Diodoro

Diodoro franziu a testa, percebendo pelo menos um pouco que Natalia não estava tirando a ideia de fugir da cabeça. Não que a culpasse, sabia bem que a situação dela era complicada, e talvez fosse mesmo melhor que ela fosse embora e se escondesse. Porém, se ela tivesse ido até a funerária só para se despedir, não deveria ter procurado conselhos. Só dito “adeus” e partido de uma vez.

- Com tanto medo... você ligou do seu celular...? – Diodoro questionou, imaginando que isso deveria ser algo do medo dela falando mais alto do que o bom senso. E mesmo se ela tivesse feito a ligação, ela tinha ligado para pedir ajuda. A polícia não merecia suas insígnias se fossem atrás dela ao invés do problema. – Natalia... o criminoso é ele.

Já não estava entendendo muito o processo do medo de Natalia, o que claramente podia definir como medo porque era irracional. Acabou que deixou ela seguir para o carro para buscar os tais cigarros, mas a seguiu bem de perto, porque não havia história mais velha no livro das desculpas esfarrapadas. Aliás, nem sabia se ela fumava.

Colocou uma mão sobre a porta da caminhonete que Natalia dirigia, a testa franzida para ela.

- Despedida, conselho, apoio, reafirmação... o que queria aqui...? – perguntou a ela, questionando qual o objetivo dela ao ir até a funerária. Certamente ficaria mais claro para Diodoro todo o comportamento da mulher.

Natalia

Encarou o agente fúnebre, franzindo o cenho quando ele colocou em palavras o óbvio sobre ela estar com medo. Poderia dizer que sua antiga terapeuta ficaria orgulhosa se conseguisse também colocar em palavras que estava em pânico. Apenas suspirou resignada quando Diodoro declarou que o sujeito que era o criminoso. Sabia muito bem que para a polícia, em seu caso, perderia facilmente seu emprego e documentos legais para atuar como médica caso fossem constatados e comprovados o número de atendimentos clandestinos que já havia feito. E naquela situação, naquela cidade, não tinha nenhuma grande mão influente na política que talvez pudesse aliviar sua barra. Talvez a senhora L´mark, mas preferia não envolver a mulher. Ela já tinha problemas para lidar sozinha. O que lhe assustava, na verdade, não era apenas a polícia, era o fato de ter entregue seu cliente, algo que nunca havia feito antes, justamente pelo receio das consequências daquela decisão diante de outros fora da lei.

Continuou tensa, principalmente por Diodoro ainda ter lhe seguido até a caminhonete. Buscou por sua bolsa e o isqueiro no porta luvas, acendendo um cigarro sem muita dificuldade. Estava interessada em observar os arredores enquanto a nicotina aliviava seus nervos, alimentando o antigo vício.

- Hm? - voltou a atenção para o moreno, franzindo o cenho de novo para a pergunta dele. Deixou escapar um ruído que misturava o riso e o desconforto com a pergunta dele. Será que era necessário preencher um formulário com a causa de sua visita quando sentia a vontade de ver o sujeito? Ou ele finalmente havia ficado incomodado com a sua presença? - Hey, Dio, lembra que a gente conversou um dia desses sobre crematórios? Você disse que era meu amigo, isso quer dizer que eu posso ter um desconto? - mudou de assunto de propósito. Tragou o cigarro profundamente, batendo a ponta, deixando cair as cinzas no chão antes de apontar a mesma para o outro, o cigarro ainda queimando. - Pelo menos você não ficaria desconfortável sem as luvas em uma pilha de cinzas. E é bem mais barato de enviar para os meus pais. Já pensou em como é caro transportar pessoas legalmente quando são estrangeiros? Ugh, eu deveria ter feito uma dieta quando era mais jovem. Ou fumado mais, ajuda a perder peso. Já fez isso antes? - riu da própria capacidade em lidar com a situação complicada e a inclinação ao escapismo.

Diodoro

Diodoro em geral riria daquelas piadas infames sobre funerárias, porque aquele humor mórbido lhe divertia. Mas Natalia estava fugindo da conversa ao fazer gracejos, e queria que ela parasse e só lhe explicasse porque tinha ido até lá na funerária, se nada do que dissesse mudaria o que ela pensava.

- Está fugindo. – respondeu prontamente a piada, sendo bem assertivo com a mulher dos cabelos tingidos. Em algum ponto, a sequência nervosa de piadas que ela contava parou de ser vagamente divertida para ser apenas irritante, porque ela não sabia expressar o que sentia, e nem Diodoro podia forçar ela a parar de fazer piadas para se sentir melhor de não envolve-lo. Diodoro franziu a testa, e apesar de saber que Natalia precisava daquele cigarro, levou a mão até o mesmo, tirando-o da mulher e jogando no chão. – Pare.

Ergueu os olhos claros para ela, e ambas as mãos até o rosto de Natalia, encarando-a muito diretamente.

- Natalia. Seja honesta comigo... e com você. Não posso lhe dar o que precisa... se não souber o que. – Diodoro seguiu encarando a mulher, sabendo que ela deveria estar incomodada ali. Mas precisava que ela fosse honesta. Porque não estava resolvendo nada fugindo. – Farei o que puder. Mas não posso fazer você... cuspir verdade. 

Natalia

Olhou para o agente fúnebre, piscando rapidamente quando ele respondeu o que já era bem óbvio. Não podia negar seu impulso ao fugir diante daquele tipo de cenário no qual havia se metido. Riu em reflexo como se tivesse sido apanhada com a mão na massa, mas sequer teve reação diante da atitude mais assertiva do outro, roubando-lhe o cigarro para jogá-lo no chão.

- Oi! Meu cigarro-!

Piscou novamente, descrente de que o homem estava lhe segurando a face, encarando-a de novo. Engoliu o nervosismo, cerrando os lábios para impedir que dissesse qualquer nova piada que fosse deixar o homem ainda mais nervoso consigo. Olhou para o lado, inquieta, ainda mais quando o homem lhe dizia para ser honesta. Sentiu o peito doer e o próprio batimento cardíaco aumentar pela ansiedade em lidar com um cenário inusitado. Se fosse uma mesa de cirurgia, estaria bem mais tranquila. Seus pacientes anestesiados não lhe cobravam sinceridade. Mas Diodoro não era seu paciente e parecia longe de estar anestesiado.

- Eu… não sei. - respirou fundo, tentando fazer com que o oxigênio preenchesse seus pulmões e diminuísse seu nervosismo. - Eu nunca entreguei um dos meus clientes antes. E eu não confio nos meus outros clientes aqui. Não acho que eles possam fazer muito por mim no caso da polícia decidir me questionar. Eu não sei se ele tem alguma associação com meus outros clientes aqui. Se eu tivesse visto ele antes, eu lembraria. Mas e se meus clientes descobrirem que eu entreguei ele? Eu vou perder crédito! E se depois de outro atendimento aqui, eles decidem que é melhor prevenir que eu dê com a língua nos dentes de novo? - gesticulou enquanto tentava explicar sua situação, buscando o ar a cada nova frase, tentando se convencer que a falta de ar era por conta do cigarro que estava fumando antes. - Desculpa, Dio… é melhor eu ir. - respirou fundo de novo, levando as mãos até o próprio rosto, pressionando os olhos fechados com os dedos. - Só queria poder te ver antes… não sei o que vai acontecer… desculpa…

Diodoro

Natalia tinha muita razão de estar nervosa. Sabia que não eram pessoas agradáveis aquelas com quem ela lidava, mas estava longe de saber o quão perigosas elas eram. Se ela estava assustada daquela forma, supunha que havia sim um risco imenso envolvido. Porém enquanto ela falava, ainda que sentisse a urgência nas palavras de Natalia, não sabia dizer exatamente qual o maior medo dela. Se a polícia, se os clientes, se perder credibilidade, ou se era ser morta.

Deixou as mãos folgarem um pouco o toque, sentindo a mão dela sobre a sua e o tom pesaroso daquela despedida, e sentiu um frio na barriga desgostoso, como se de fato não fosse vê-la depois disso tudo.

- Não importa... se perder crédito... ou clientes. Seria melhor se você não fosse procurada assim... esse medo... não é vida pra você. – não tinha medo de usar um tom de julgamento com ela. Talvez não fosse capaz de apontar motivos pelo qual ela começou nessa vida, mas tinha certeza que apesar de tudo, ela era uma pessoa boa que não merecia estar aterrorizada daquela forma. – Natalia. Se quer um lugar pra ficar... aqui, meu apartamento... o que precisar de mim... como eu puder lhe ajudar, vou. Vou rezar... vai ficar tudo bem.

Soltou a mulher devagar, afinal, sabia que ali era o último lugar onde ela queria ficar. Mas se ficasse, seria muito bem recebida.

- E quando quiser... venha me ver.

Natalia

Prendeu a respiração mais uma vez ao escutar o tom de julgamento de Diodoro. Talvez fosse aquele o motivo de realmente estar ali, porque precisava saber que aquela sequência de erros só culminaria em algo catastrófico por conta de suas más escolhas. Já eram anos convivendo com aquele tipo de estilo de vida. Contudo, logo depois de lhe julgar, o homem lhe ofereceu um lugar para ficar, sua própria fé e o que precisasse. Soltou o ar como se tirasse um pouco da tensão que carregava nos ombros. Baixou as mãos até o próprio rosto, escondendo o sorriso nervoso por ainda estar incerta de seu próprio futuro naquele cenário.

Estendeu as mãos para os ombros do moreno e apertou, mantendo o sorriso ainda nervoso no rosto. Duvidava muito que conseguiria viver na residência de outra pessoa, ainda que fosse um bom amigo, seu sono já era perturbado o suficiente para conseguir relaxar.

- Dio, você tem que parar de oferecer o seu apartamento para os seus amigos criminosos. - riu ao repreender ele, sentindo a tensão diminuir novamente em seus ombros. - Mas se precisar de ajuda, diga pro… - ergueu a mão, tentando se lembrar da altura do outro homem perigoso que era amigo dele. - … grandão, diga pra ele me ligar. Não faça isso sozinho, tá bem? É perigoso. - soltou o agente fúnebre e respirou fundo, olhando para o seu veículo, certa de que ainda havia muito o que preparar no hospital antes de sair da cidade. Voltou a atenção para Diodoro e suspirou mais uma vez, como se estivesse de fato exausta daquela situação. - Bem, é melhor eu voltar para o hospital.

Afastou-se ainda incerta se aquilo era de fato uma despedida ou se poderia ver o sujeito de pouco tato social de novo. Riu diante do próprio nervosismo e se aproximou de novo para poder abraçar o homem, inquieta por saber que apesar do gesto, ele não gostava do contato.

- Você é um bom amigo, Dio. Vamos comer um hambúrguer de novo quando eu voltar, tá bem? - falou mais baixo antes de se afastar, certa de que pelo menos aquela promessa era uma memória melhor que simplesmente acender um novo cigarro e ir embora.

Diodoro

Diodoro olhou para Natália com um semblante um pouco surpreso por um instante, quando ela disse que deveria parar de oferecer a casa para criminosos. Abaixou o olhar como se tivesse percebido apenas agora que era isso mesmo que estava fazendo, embora logo em seguida ergueu os olhos claros para a mulher como se aquele caminho fosse inevitável. E era. Porque as pessoas com quem ele mais se importava em Cerise, depois de sua família, acabaram sendo um bando de criminosos ou degenerados. Mas eram seus amigos, eram as pessoas que tinha como próximas. E se podia fazer alguma coisa por essas pessoas, faria.

Confirmou discretamente com a cabeça para Natalia que tomaria cuidado, já que estava se envolvendo com coisas perigosas.
- Você também. – respondeu, assentindo que ela também não precisava fazer tudo aquilo sozinha. Não tinham mais o que discutir, e o suspiro dela deixou isso claro: ambos eram cabeças duras, ambos tinham deixado seus pontos explícitos naquela conversa, e tinham certeza que se importavam um com o outro. Se Diodoro não podia fazer muito sem a ajuda de Natalia, pelo menos tinha conseguido com que ela entendesse que tinha apoio em algum lugar.

Só que não notou na hesitação dela o desejo de lhe abraçar e foi um pouco pego de surpresa pelos braços lhe apertando de leve. E não acreditava que nada de mal iria acontecer a Natalia, de verdade, e rezaria para Deus que nada acontecesse, mas o fato dela se despedir daquela forma como se fosse demorar muito tempo para voltar lhe deixou genuinamente triste. Estava acostumado a despedidas, e estava acostumado a estar sozinho, mas aquela mulher era uma presença intensa, tinha a personalidade forte, e estavam talvez com mais constância do que queria, deixando um ao outro fora de suas zonas de conforto. Por isso, naquele momento, agarrou-se a Natalia apesar de ter uma leve hesitação, respirando mais profundamente para impedir que os olhos que começaram a marejar deixassem as lágrimas caírem.

Talvez detestasse sentir saudades de alguém mais do que detestava ficar sozinho. E agora já tinha comprometido a si mesmo com um monte de pessoas que só então, tinha notado, poderiam lhe machucar bastante assim.

- Você paga. - respondeu a mulher com a voz trêmula, respirando fundo e soltando o ar antes de deixar ela ir, ainda mantendo a compostura enquanto via ela pegar o carro para ir embora.

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