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[Fanfic] Entre Pai e Filho [Oliver; Zhi] - Lil - 08-29-2021

[Fanfic] Entre Pai e Filho [Oliver; Zhi]

Quando Oliver parou diante da portaria do prédio onde ficava o apartamento da sua mãe, ele estava mais determinado do que antes a enfrentar a situação com o seu pai e ouvir o que ele tinha a dizer. Tinha fugido dele duas noites atrás com medo de ouvir o desfecho da novidade de que Zhi e Élise iam se divorciar, porque na situação do garoto, aquilo só podia significar que ele cortaria as relações de pai e filho com o chinês, afinal, não tinham nada mais que os ligasse, senão a sua mãe. Mas ele certamente tinha entendido tudo trocado, porque todos os indícios que vieram depois apontavam para o fato de que sua relação de pai e filho não desapareceria assim, tão simples.

Oliver tinha sido displicente em acreditar nas próprias suposições e treinar ao ponto da exaustão, deixando todos os seus amigos e até seus pais preocupados. Claro que o treinamento intensivo não tinha ajudado em nada além de lhe deixar com as mãos inutilizáveis pelos próximos dias. Assim como Yure, Lui, Nataniel e até Silvia naquela manhã tinham deixado bem claro, Zhi não ia deixar de ser seu pai assim, tão fácil, e ele devia ir conversar de uma vez com o mais velho. Com a esperança renovada por tudo que os amigos tinham dito e a caixa de doces que Silvia tinha lhe dado de presente antes de ir até ali, ele respirou fundo e andou até o apartamento finalmente.

Ainda encarou o trinco da porta, pensando se deveria só entrar, ou tocar a campainha primeiro. Na dúvida, ele resolveu apertar a campainha ao lado da porta e depois usar a chave para entrar antes mesmo de esperar ser atendido. Com cautela, ele espreitou para dentro do apartamento, buscando o seu pai com os olhos.

– [C-com licença… s-senhor…] – as palavras saíram num mandarim hesitante, e foi bem em tempo de Zhi aparecer no fim do corredor, já na sala, chegando da cozinha. Oliver levantou o olhar um pouco incerto na direção dele depois de fechar a porta atrás de si, sentindo o rosto queimar de constrangimento por tudo que tinha feito. E foi provavelmente o nervosismo que o impediu de ler mais na expressão não mais tão impassível de Zhi.

– [Por que está pedindo licença para entrar na sua casa, Oliver?]

Oliver engoliu em seco, sem saber se mantinha a cabeça erguida ou se baixava o rosto, encarando Zhi a distância como se houvesse uma enorme parede invisível entre os dois. Estava mais determinado, sim, mas não fazia ideia de por onde começar, as duas mãos remexeram inquietas na sacola dos doces que Silvia tinha lhe dado.

– [P-por que… eu… n-não sei… eu…]

– [Venha aqui, Oliver.]

Zhi se manteve de pé a alguns passos de distância, as mãos unidas atrás do corpo, com aquela postura intimidadora que fez com que Oliver imaginasse logo que ia receber um sermão. Bom, tinha dito a Yure que era melhor receber mesmo um sermão, já que aquilo indicaria que Zhi ainda lhe tratava como filho, então, com um pouco mais de determinação, ele deu os passos na direção do chinês, pensando ainda no que falar no meio tempo.

Mas qualquer possível resposta que Oliver tivesse imaginado no curto caminho da porta de entrada do apartamento até a sala sumiu por completo da sua mente quando chegou perto o suficiente de Zhi para sentir os braços dele passando em volta dos seus ombros e ser envolvido num abraço firme que lhe pegou desprevenido. A surpresa com o gesto foi tanta que ele quase deixou a sacola de doces cair entre os dedos, sem saber como reagir, o que falar ou pensar na situação inusitada.

– [Eu fiquei muito preocupado com você ontem, Oliver.] – a voz de Zhi chegou aos ouvidos de Oliver e ele ainda estava surpreso demais para sequer reagir ao abraço, do qual Zhi não lhe livrou. – [Eu podia lhe achar e cuidar de você na China, mas não tenho como fazer isso aqui. Eu sinto muito por deixar chegar a esse ponto, eu não queria que você se machucasse desse jeito. Foi displicência minha como seu pai, espero que me perdoe por isso.]

Se já foi surpreendente demais para Oliver receber um abraço do pai, as palavras que se seguiram lhe deixaram completamente desnorteado. O garoto sentiu um calor agradável por ouvir que Zhi estava muito preocupado com ele, mas quando o chinês se desculpou pelo que ele mesmo tinha feito, e ainda disse que tinha sido displicente e esperava ser perdoado, Oliver sentiu como se a cabeça tivesse dado muitas voltas até parar no lugar. Ele não devolveu o abraço de Zhi, mas se afastou do mais velho num gesto exasperado, para conseguir encará-lo de volta, seu rosto tomado por um rubor intenso e por uma expressão quase aterrorizada.

– [P-por que o senhor está se desculpando?! N-não foi culpa sua! F-fui eu que fiz tudo errado e não conversei direito com você e todos os meus amigos me disseram que eu não devia ter ficado preocupado e feito aquilo e eu devia ter ouvido e devia saber melhor que as coisas que eu pensei não eram verdade, eu que fiz tudo, tudo errado e-e-e… e eu fiquei com m-medo de… d-d-e… eu… desculpa por fazer o senhor se desculpar e-e-e…] ele sentiu a voz embargar e os olhos encherem de lágrima de novo e acabou levando a mão livre até o canto do olho, esfregando o canto do rosto com a palma enfaixada. – [P-por favor n-não deixe d-de ser meu p-p-pa-pai, e-e-u ainda q-quero ter o mesmo s-sobrenome q-que o senhor, eu p-prometo q-q-que v-vou ser um bom discípulo e d-d-dedicado e-e-e…!]

Oliver não conseguiu conter as lágrimas mesmo depois de tentar muito, e a confusão de sentimentos e a visão embaçada lhe impediram de enxergar melhor a expressão suave que havia no rosto de Zhi quando ele estendeu as mãos, uma delas pousando sobre o seu ombro e a outra lhe segurando o pulso para impedi-lo de continuar esfregando o rosto com a mão enfaixada, bagunçando as ataduras.

– [Oliver, você não precisa se preocupar em ser um discípulo dedicado. Você é meu filho. Mesmo que não queira mais praticar Wing Chun, vai continuar sendo meu filho. Mesmo que eu me divorcie da sua mãe, eu ainda quero que seja o meu filho.] – Zhi esclareceu, com um tom bem pontual, encarando o rosto do adolescente marcado por lágrimas e completamente vermelho. – [Eu tenho orgulho de ter você como filho.]

Se era possível, a expressão de Oliver assumiu um tom ainda mais surpreso ao encarar o pai diretamente e, ineditamente, perceber um rosto muito mais suave do que ele estava acostumado. Ou talvez aquele fosse o rosto de sempre de Zhi, ele só não tinha interpretado daquele jeito até então. Ainda assim, entre os gestos do chinês e a surpresa, Oliver ficou completamente sem palavras, o que deu tempo suficiente para que Zhi continuasse.

– [A não ser, claro, que você não queira mais ter o meu sobrenome agora que vou me divorciar da sua mãe. Eu vou respeitar a sua decisão independente de qual seja.]

Não!!! a resposta de Oliver foi tão exasperada, que além de sair em francês, ele deixou mesmo a caixa de doces cair daquela vez, na urgência de segurar o tecido da roupa de Zhi, ignorando o desconforto nos machucados da mão para mantê-lo perto. – [E-eu, n-não é não! É sim! S-sim, e-eu quero continuar com o nome do senhor! E-e-eu não quero que deixe de ser meu pai! E-e-eu achei que ia me d-deixar p-porque eu tô morando aqui agora e-e-e… n-não vai mais ficar c-com a minha mãe, e-eu… tenho orgulho de ser seu filho t-também, s-senhor.]

Daquela vez, a surpresa de Oliver foi genuína em ver um sorriso, ainda que discreto, no rosto do pai, e sentir uma mão dele no topo da sua cabeça, afagando os cabelos castanhos.

– [Se é esse o caso, acho que já passou da hora de parar de me chamar por “senhor”, não é?] – Zhi adicionou, e a surpresa de Oliver por ver um sorriso no rosto do pai foi substituída pela confusão de como exatamente iria chamá-lo, se não por senhor.

– [M-mas então como eu vou… chamar… o senh-?] – o próprio Oliver interrompeu a linha de pensamento ao chegar à única resposta lógica, sentindo o rosto queimar em contraste com o sorriso enorme que ele mal conseguiu conter. – [E-eu… posso chamar o senhor de p-pai?]

– [Você é meu filho, não é?]

– [Sim! Eu sou! De verdade!] – a empolgação era notável no rosto de Oliver e ele segurou a roupa de Zhi com um pouco mais de energia do que era preciso de novo. Aquele gesto fez com que Zhi descesse as mãos até as de Oliver, para incentivá-lo a relaxar as mãos antes de se machucar mais.

– [Agora que isso está claro, o que eu já lhe disse mais de uma vez sobre ir treinar com a mente em outro lugar?]

O tom de Zhi mudou logo para o que Oliver estava acostumado na China, com aquele ar de seriedade e firmeza de quem iria lhe dar um bom sermão e um bom castigo. Mas aquilo não diminuiu em nada a animação que ele sentia naquele momento e ele nem conseguiu tirar o sorriso idiota do rosto quando ouviu o tom de repreensão.

– [Que isso é imprudente e desnecessário. Como um artista marcial, eu tenho pleno controle da minha mente e do meu espírito sobre meu corpo, tudo é resultado do meu trabalho árduo, e é isso que faz de mim um bom lutador e acima de tudo, uma boa pessoa.] – Oliver respondeu de imediato, com a mesma expressão animada como se não estivesse recebendo uma repreensão.

– [Você se machucou de verdade dessa vez. Não quero saber desse tipo de atitude se repetindo de agora em diante, entendeu?] – mesmo com a disposição animada de Oliver, Zhi não diminuiu o tom sério. – [Você tem sorte de ter pessoas que te ajudaram aqui, eu não posso fazer isso sempre.]

– [Eu sei, eu não vou fazer de novo, eu prometo!] – o comentário foi mais decidido, mas a expressão de Zhi não suavizou daquela vez.

– [Você não tem como saber que não acontecerá de novo. Ainda é jovem, tem muito o que aprender.] – respondeu Zhi, só então relaxando mais a postura. Soltou as mãos de Oliver para pegar a sacola que ele tinha derrubado no momento de nervosismo. – [Você tem bons amigos aqui, lembre-se que o que faz pode deixá-los preocupados também. Se não puder me dizer o que está lhe incomodando, pode sempre falar com eles.]

– [Sim, senh-… hm, pai.] – ele mesmo mudou o modo como se dirigia ao mais velho, voltando a atenção para a sacola de doces que Zhi tinha apanhado. – [Ahh… uma amiga me deu isso antes de vir pra cá, pra dividir com o senhor.]

– [Fico feliz que tenha feito bons amigos aqui, Oliver.] – Zhi se voltou na direção da cozinha, para levar os doces até lá, e Oliver o acompanhou de perto. – [Eles são importantes e se preocupam com você, lembre-se de agradecer devidamente por terem lhe ajudado ontem.]

– [Hn! Eu vou retribuir a ajuda deles! Eu quero que eles conheçam o senhor, posso convidar pra jantarem aqui um dia enquanto o senhor ainda estiver em Cerise?] – Oliver perguntou, num tom esperançoso enquanto acompanhava o pai até a cozinha. – [Eu posso fazer comida pra eles! O Yure até fez um lanche pra mim ontem quando eu acordei com fome e…]

– [Só depois que suas mãos estiverem melhor.] – respondeu Zhi, deixando a sacola com a caixa de doces na geladeira, mas foi notável que Oliver ficou abatido com a resposta. – [O que foi?]

– [Hm… é que… deve demorar mais de uma semana pra ficar um pouco melhor, e o senhor já deve ter voltado pra China.] – o garoto olhou para as mãos enfaixadas, pensando no estado machucado por baixo das faixas e o fato de que Zhi certamente não deixaria a escola de kung fu por tanto tempo.

– [Eu não acho que você quebrou algum osso, ou não teria tanta força segurando minha roupa.] – Zhi se voltou na direção de Oliver de novo, segurando uma das mãos enfaixadas dele.

– [N-não! Eu não quebrei nada! Eu juro! Eu só… machuquei a pele.]

– [Então o mês que vou passar aqui vai ser o suficiente para lhe treinar de novo e conhecer seus amigos.] – respondeu o chinês, afastando-se de novo de Oliver na direção da bancada da cozinha. – [Agora coloque os pratos na mesa, vou terminar o nosso almoço.]

Oliver demorou alguns bons segundos para terminar de processar a informação de que Zhi ia mesmo passar mais tempo ali em Cerise. Um mês inteiro, o que era mais incrível do que ele tinha imaginado. Mas talvez tivesse ouvido errado e não resistiu a quase saltar do lado do pai.

– [Um mês inteiro de verdade?! Vai passar mesmo todo esse tempo aqui?! E-eu não achei que… você… eu… não! Isso é incrível! Eu vou me recuperar logo, e posso treinar com o senhor! E vou apresentar todos os meus amigos! S-se o senhor puder, é claro, eu…!] – ele começou a atropelar as palavras e Zhi só se virou na direção dele com uma mão erguida, que Oliver bem sabia que era para que ele fizesse silêncio. Mas diferente de todas as outras vezes que ele lembrava na China, havia um sorriso no rosto de Zhi, o que deixou o garoto surpreso e realizado.

– [Ponha a mesa, Oliver. Teremos muito tempo para conversar ainda.]

– [Sim, sen-!! P-pai!]

Com a energia e a empolgação renovadas, Oliver finalmente seguiu até os armários para poder pegar os pratos e colocar a mesa sem ter algum acidente e machucar as mãos de novo. Naquele momento, ele sentia como se não houvesse o suficiente de si para conter a felicidade. Queria poder compartilhar aquilo com os amigos, mas naquele instante, só queria mesmo aproveitar todo o fim de semana na companhia do seu pai. Seu pai de verdade.

[encerrada]