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		<title><![CDATA[Academia St. Clavier - Cinema]]></title>
		<link>http://academiastclavier.com.br/</link>
		<description><![CDATA[Academia St. Clavier - http://academiastclavier.com.br]]></description>
		<pubDate>Wed, 27 May 2026 19:27:20 +0000</pubDate>
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			<title><![CDATA[Meu Dia de Carma [Lilú]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=307</link>
			<pubDate>Mon, 27 Sep 2021 16:43:08 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=98">Charles</a>]]></dc:creator>
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			<description><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Março era um mês morgado para o cinema, especialmente se comparasse com o mês passado e o lançamento de Soldado invernal. Ainda assim, para um cinéfilo como Charles, ver filmes na pré-estreia significava mais um ingresso para colocar em seu caderno.<br />
<br />
Decidiu então ver a pré-estreia de Divergente. Não gostava do livro, e não esperava nada de grandioso do filme, mas não esperava que fosse tão ruim. Se pudesse, pediria seu dinheiro de volta. Saiu da sala do cinema por volta das 3h da manhã, estava usando uma roupa confortável. Um casaco vermelho escuro com o “H” de Hogwarts por baixo de uma camiseta de Metal Gear branca, combinando com uma calça escura e tênis neon laranja.<br />
<br />
Assim como os outros espectadores foi guiado até a entrada do shopping graças ao horário, e aproveitou pra chamar um Uber enquanto ia até a entrada. Escutava por alto as adolescentes falando como o filme havia sido maravilhoso, o que certificava a chatisse de Charles e o mal-gosto das adolescentes. Quando finalmente deu o aviso que seu uber chegou, ele havia parado em uma entrada diferente.<br />
<br />
O loirinho resmungou, então decidiu fazer caminho até a outra entrada pelo lado de fora,  já que as outras estavam fechadas por dentro, depois de tentar inúmeras vezes mandar mensagem para o motorista sem sucesso. Quando estava quase chegando, o motorista cancelou a viagem, e o cadeirante - agora irritadiço - viu o carro sair do estacionamento do shopping.<br />
<br />
— Filho da…!! - rosnou entre dentes, apertando o celular nas mãozinhas. Aproveitou para fazer uma reclamação no aplicativo, para evitar de ter que pagar uma taxa extra — melhor pedir essa droga lá dentro. — bufou, fazendo caminho de volta para o shopping.<br />
<br />
— Não pode entrar, senhor. Quem saiu, não pode voltar, regras da gerência — foi o que o segurança disse, aparentemente a contra gosto, mas isso não impediu que o cadeirante ficasse mal humorado.<br />
<br />
— São DUAS horas da manhã. O meu uber cancelou a viagem é só até pedir um novo.<br />
<br />
— Desculpe, senhor. Ordens da gerência.<br />
<br />
Charles fez um “Tsc” audível. Puxou o celular para enfim pedir um novo Uber, já que teria que esperar do lado de fora. Tentou ligar a tela e foi recebido apenas por uma tela escura, e o sinal de bateria vazia. Deixou um grunhido de frustração escapar. Teria que fazer o caminho até o ponto do ônibus?! Não poderia nem checar o horário de quando apareceria no ponto.<br />
<br />
Já que o segurança não o deixaria entrar, e não tinha o celular para pedir o uber, teve que enfim ir até o ponto de ônibus mais próximo e ficar uns bons minutos — ou horas — por lá. Não saiu sem olhar para o tal segurança irritado. Se fosse possível perfurar alguém com o olhar, o segurança teria vários furos.<br />
<br />
Fez o caminho inteiro reclamando sobre tudo, sobre a perda de tempo pra ver o filme, sobre o segurança, sobre o shopping, sobre odiar a bateria do celular, o filme. Encontrou inclusive mais motivo pra reclamar quando nenhuma das ruas — que inclusive eram desertas — eram acessíveis. Ou seja, teria que dar um jeitinho para subir o meio-fio. Tentou ajeitar a cadeira para subir quando uma das rodas acabou enganchando na parte de baixo. Em qualquer outro dia, não teria problema algum, mas sem as suas luvas não conseguiria fazer muita coisa.<br />
<br />
— Mas é uma desgraça mesmo! Esse inferno de rua, droga de uber — resmungou, aproveitando que não tinha ninguém ali para ouvi-lo reclamar e dar uma lição de moral. Tentava ajeitar mas categoricamente a cadeira estava presa ali.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lilú</span></div>
<br />
A loira estava ocupada naquela noite, andando pra cima e pra baixo, arrumando escala das suas meninas, uma delas tinha faltado trabalho, e até entendia, ninguém nesse ramo trabalha com o estômago ruim, podia dar alguns dias de folga, mas queria que sua cria tivesse lhe avisado com mais folga. Porque deixar alguns pontos de rua vazios era pedir pra passar raiva com os outros cafetões da cidade turística, e tão certo como o dia é dia e a noite é noite a loira rumou para aquela boate de jovens ricos e adolescentes, e no ponto de Susy, tinha uma garota desconhecida, ela lhe olhou com estranheza, e depois com certo receio. Lilú estava num dos seus vestidos de festa, brilhoso, em tons de verde turquesa e azul, as cores diziam muito naquele trabalho, e se tinha saído assim, estava claro que primeiro, não tinha ido trabalhar, e segundo não estava com tanto humor para negociar, a ausência do azul dizia claramente: “use suas melhores palavras”<br />
<br />
-- Olá gatinha, nunca vi seu sorriso tão lindo como hoje. Posso tomar dois minutos do seu tempo?<br />
<br />
-- Erh… eu não sei se posso te dar dois minutos. -- a outra mulher de cabelos escuros e olhos verde jade espiou os lados esperando que alguém viesse lhe ajudar, mas tão logo desviou de Lilú, a Loira mais alta, passando dos seus 1,90m com seu salto alto reduziu a distância encarando a menor de cima:<br />
<br />
-- Porque a surpresa pequena? Quando foi que você esteve em apuros e um cara realmente veio lhe ajudar? Han? Posso te responder essa, é fácil, fácil -- a loira piscou, levando a mão de unhas bem feitas até os longos cabelos escuros da mais baixa: -- Eu não sou sua inimiga, garotas sempre se ajudam não é mesmo? <br />
<br />
--O que você quer de mim, afinal? -- a morena encolheu os ombros se sentindo assustada mas sem ter muito pra onde fugir.<br />
<br />
-- Primeiro, eu quero seu nome gatinha, tô aqui, te namorando a mais de dois minutos, e você nem pra me dizer seu nome? <br />
<br />
-- Frederica…<br />
<br />
-- Muito bem, boa gatinha, você sabe quem eu sou, ou pelo menos ouvir falar de mim… eu sou Lilú, é um prazer te conhecer, agora que já nos conhecemos, somos amigas não? Quase íntimas não é?<br />
<br />
-- É... talvez.<br />
<br />
-- Então, minha pequena gatinha de rua, Frederica, quem te mandou vir pra cá? Você deve saber que esse ponto não está vago, não é mesmo?<br />
<br />
-- Eu não posso falar… senão ele vai ser ruim comigo.<br />
<br />
-- É esse o problema? Ele ser ruim com você? Ele não sabe o que é ser “ruim”, e nem sabe o que eu vou fazer com ele, quer vim assistir? Ver beeem de perto!<br />
<br />
A garota morena de olhos verde jade espiou Lilú com verdadeira descrença, mas nos olhos castanhos estreitos da loira mais velha, estava escrito que ela não estava brincando, e que aquele sorriso não era de felicidade. <br />
<br />
A noite esticou, algumas horas se passaram, não demorou tanto pra achar onde o outro cafetão estava, bateu na porta dele com a mesma surpresa com quem ele lhe presenteou o roubo de ponto. Acertou as contas, o nariz, as bolas, e algumas cadeiras e mesas, tomou como pagamento a Frederica que era uma menina bonita demais pra trabalhar pra um cafetão de merda que nem conseguia respeitar as normas básicas da cidade. Deu a noite de folga pra Frederica ser levada pra casa e ser abastecida de informação e cuidados pra trabalhar decentemente na noite. Ainda tinha um ou dois serviços pra resolver, mas em verdade queria fumar um cigarro e tomar um café, e bem sabia onde podia encontrar aquilo antes de continuar o que tinha pra fazer, já era mais de 3hs da madrugada, sabia pelo costume, e caminhou nas ruas vazias que eram sua casa, claro, que deveriam estar vazias, mas logo escutou resmungos em alto e bom som de voz adolescente no meio do nada. <br />
<br />
Observou um garoto cadeirante com dificuldade de subir a calçada, ele parecia com problemas, normalmente deixaria passar, mas estava com o humor renovado e 20 centavos a mais de empatia por cadeirantes. Se aproximou em passos confiantes, deixando o sobretudo fechado pela noite fria, a maquiagem impecável no rosto, o perfume asiático com aromas que lembram pimenta:<br />
<br />
-- Ora ora rapazinho, uma rua deserta não é o melhor lugar pra ficar reclamando alto! Precisa de uma ajudinha aí? -- A loira jogou seu tom de brincadeira, não queria assustar o rapaz e fazê-lo cair da cadeira por acidente, ele poderia se machucar, então fez seu comentário de forma que o rapazinho tivesse tempo de se virar e perceber sua pessoa.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Estava resmungando bastante, amaldiçoando os malditos engenheiros que não pensaram na acessibilidade de uma maldita cidade turística. Cada dia, era uma certeza que a estupidez alheia estava ali para surpreender o cadeirante.<br />
<br />
No meio daquela rua deserta, não esperava escutar uma voz feminina, especialmente uma oferecendo ajuda. Olhou, um pouco surpreso e irritado para direção da voz e foi pego de surpresa pela mulher alta e extremamente bonita. Ela poderia ter simplesmente colocado as mãos na sua cadeira, mas a mulher loira realmente estava esperando ver se Charles precisava da sua ajuda.<br />
<br />
O cadeirante não era exatamente confiante para tratar com pessoas muito bonitas. E a moça à sua frente com certeza era bonita. Se sentia um pouco intimidado por esse fator, e também por ela ser tão alta, era uma das mulheres mais altas que havia conhecido. Acabou inclusive desviando o olhar, sentindo um certo nervosismo<br />
<br />
- ...Ah. Uhm. - tentou mais uma vez tirar a cadeira do lugar, forçando a mão sobre a roda, mas sem sucesso algum. Ainda estava irritado com a situação, mas diferente de outros casos, ela não parecia invadir seu espaço pessoal - … Se não for incômodo. - respondeu com a voz um pouco mais baixa, ainda incerto de como lidar com a mulher. Certamente era melhor aceitar a ajuda do que continuar preso ali sabe-se lá por quanto mais tempo.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lilú</span></div>
<br />
A mulher não se surpreendeu com nenhuma das reações do jovem rapaz, ele era fofo, como se tivesse achado um filhote perdido, preso numa grade de janela, do qual você precisa deixar que ele cheire sua mão, antes de encostar nele. Sorriu para o menor, principalmente porque antes de aceitar sua ajuda ele ainda tentou mais uma vez resolver o problema sozinho, o que ele tinha de fofo ele tinha de teimoso. Esperou apenas uma resposta positiva do menor de que podia se aproximar:<br />
<br />
-- Ah, me incomoda sim, ter um garoto fofo, sozinho no meio de uma rua escura, precisando de uma mão, sem ninguém pra ajudar, que tipo de pessoa eu seria se não parasse? -- Manteve o tom de brincadeira e se aproximou do rapaz e da cadeira do mesmo e antes de por as mãos ainda falou um “com licença” curto e breve, se abaixou pra ficar na altura do rosto do menor, o perfume aromático ficando bem mais perceptível a curta distância: -- pode me chamar de Lilú.<br />
<br />
E depois se afastou, usou um dos pés de apoio para desenganchar a cadeira de rodas, e puxou com mais força do que era necessário, julgando que o rapaz fosse talvez um pouco mais pesado, mais parecido com o amigo que tinha na mesma condição. Como resposta para sua surpresa, falou apenas um “ops” e empurrou a cadeira para o passeio público, tirando o rapaz da rua, porém, a parte da roda que tinha ficado presa tinha entortado de leve:<br />
<br />
-- Olhe meu anjo, não é por nada não, mas sua roda já viu dias melhores, vai conseguir puxar ela assim mesmo? -- perguntou com genuína dúvida, pois se o rapaz não tivesse como empurrar a própria cadeira, seria um problema deixa-lo ali de toda forma.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
A maneira que a mulher falava com Charles o deixava levemente suspeito, mas ao mesmo tempo o deixava bastante a vontade. Se não fosse alguém “legal” certamente não estaria oferecendo ajuda assim não é?<br />
<br />
Ainda estava olhando para baixo enquanto tentava tirar a cadeira uma última vez até admitir a derrota, e a outra dizer que não poderia deixar um “garoto fofo” sozinho precisando de ajuda. Charles se sentiu bastante desconcertado com a mulher, apenas resmungando baixo um breve “ah.”, retraindo os ombros.<br />
<br />
Deixou que ela se aproximasse, acenando positivamente quando ela pediu licença para pegar na cadeira, foi pego de surpresa quando ouviu bem na altura dos seus ouvidos o nome da mulher, junto ao cheiro do perfume que lhe lembrava algo parecido com pimenta. Charles sentiu um arrepio rápido e o rosto ficar num tom mais vermelho, e antes que pudesse ter qualquer outra reação, teve o susto do puxão na cadeira. Nunca ia imaginar que a mulher teria tanta força assim.<br />
<br />
Se sentiu um pouco perdido com a mistura de acontecimentos, sussurro, aroma apimentado, puxão e empurrão. Só quando foi colocado de novo sobre o passeio percebeu o estrago que havia ficado na sua roda graças ao buraco.<br />
<br />
— A-ah. Uhm. — ainda sentia o rosto levemente avermelhado, mas tentou empurrar a cadeira, e a reação foi mais parecida com um carrinho de supermercado de rodas tortas. A cadeira estava andando mais na diagonal do que em uma linha reta — Eu posso… err… pedir um ub- — parou a frase, lembrando que o celular estava descarregado. Tentou mais uma vez ligar o celular, apenas para ser recebido pela imagem da bateria vazia — … Uhm… Se puder me levar até o ponto de ônibus… ou táxi? — comentou baixo, pensando que não queria incomodar a mulher.<br />
<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lilú</span></div>
<br />
A loira observou com atenção as reações do menor, ele parecia ter ficado constrangido? Ora, ora, ele estava muito fora da sua faixa de interesse, mas era fofo, ele ficar tão envergonhado em encontrar uma mulher bonita na rua pronta pra dar uma mãozinha. Ouviu o gaguejo dele, e abaixou um pouco o rosto, jogando os cabelos platinados atrás da orelha pra poder ouvir melhor, alguma coisa sobre uber, ônibus ou taxi. <br />
<br />
Sorriu de forma compreensiva para o mais novo, e aquilo podia ser facilmente entendido como uma tentativa de jogar charme, mas quando uma mulher bonita sorria quem resistia não era? Levou as mãos até o suporte da cadeira, e empurrou a mesma, percebendo que precisava de uns 20 centavos a mais de força para a mesma fazer as rodas girar:<br />
<br />
-- Ah! Eu conheço todos os pontos dessa região. Não se preocupe, vou te levar num lugar que eu conheço. Até porque você parece nervoso gatinho, como você não me disse seu nome, vou te arrumar um nome, que tal Garfield?<br />
<br />
Brincou, sabendo que logo o mais novo lhe daria seu nome, porque, quem gostaria de ser chamado de um gato gordo reclamão que ama lasanha, a mesmo que as três alternativas se encaixassem bem. Empurrou a cadeira do mais novo pelas calçadas nada adaptadas pela situação, cinco quadras depois dava pra sentir o cheiro de churrasquinho e a fumaça da comida formando uma neblina convidativa, cerceada por uma luminosidade amarela, vinda de uma única lâmpada, solitária, pendurada por um fio improvisado.<br />
<br />
A barraquinha de Churrasco e café, era um tipo de foodtruck de pobre, ou seja, um podrão aleatório que servia de fazer comida e servir café para pessoas que trabalhavam naquele horário noturno, haviam bancos de plástico por todo o canto, e uma placa que indicava que ali era um ponto de Taxi, pela hora estava vazio:<br />
<br />
-- Hey Richie, passa um café puro pra mim, leite com açúcar pro meu Garfield aqui, que a gente vai esperar o próximo taxi.<br />
<br />
-- Opa Lilú, sempre linda! Passo sim, meu amor, o Roger não vai correr hoje que a filha dele tá doente, o Jonah foi fazer uma corrida, deve chegar jajá. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Sentia seu espaço pessoal sendo levemente invadido com a aproximação repentina da mulher de cabelos platinados, o que quase fez com que Charles se espremesse mais contra a cadeira. Se bem que, não era culpa dela se o loirinho estava falando tão baixo assim. Relaxou um pouco os ombros quando ela sorriu, pelo menos não tinha falado besteira? Ainda assim, estava se sentindo bastante desconcertado perto da mulher.<br />
<br />
Deu para perceber que ela teve de fazer uma força extra para empurrar a cadeira, se sentia um pouco mal, mas ao mesmo tempo agradecido pela mulher ter oferecido a ajuda, inclusive por ela saber os pontos de táxi da região. Costumava passar mais naquele lugar mais cedo, então não sabia se o táxi ainda estaria funcionando. E acabou só percebendo que não havia dado o seu nome a mulher, quando ela lhe chamou de Garfield.<br />
<br />
- É Charles! - disse assim que teve brecha. A última coisa que queria era ficar sendo chamado de Garfield e acabar ganhando um novo apelido. -  E, uh…. Obrigado, Lilú. Você trabalha por aqui? - perguntou bastante ingênuo tentando engatar uma conversa. Apesar de por aqui ser algo bastante amplo, Charles estava nervoso demais para admitir que as ideias estavam meio bagunçadas. Pelas roupas que ela usava, talvez se apresentasse em algum lugar? <br />
<br />
Não demorou para que chegasse até uma barraquinha com comida, próximo à um ponto de táxi. Novamente Lilú o chamou pelo seu provável novo apelido, e ainda parecia conhecer inclusive o rapaz que fazia o churrasco e provavelmente os taxistas?<br />
<br />
- É Charles. - resmungou levemente contrariado, apesar de realmente receber o leite com açúcar que Lilú havia pedido, o que o deixava um pouco confuso. Realmente estava sendo tratado como um gato - Obrigado… Uhn, você conhece até os taxistas, Lilú? Ah, e quanto fica pelo… leite?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lilú</span></div>
<br />
A loira se sentou em um dos bancos plásticos e cruzou as longas pernas, o sobretudo caindo sobre as costas e quase encostando no chão, as coxas expostas pelo vestido brilhoso curtíssimo, mas não havia qualquer menção da mulher de esconder as pernas, fosse por pudor ou mesmo frio. As reclamações do garoto sobre o seu novo apelido fizeram com que a loira alargasse o riso de forma bastante despretensiosa, e ainda gesticulou negativamente com a mão para o menor:<br />
<br />
-- Agora já era, você é Garfield pra mim, mas eu acho justo, Lilú não é meu nome, apenas um apelido, nada mais justo que eu chame você por um apelido também, não? -- Brincou sem necessariamente responder nenhuma das perguntas, nem sobre os taxis, nem sobre o trabalho e nem sobre o valor do leite. <br />
<br />
Não demorou para que Richie lhe servisse um copo de isopor com uma dose de café coado, forte, sem açúcar, a loira soprou a fumaça pra longe, e bebericou o líquido quente, sentindo-se renovada por aquela dose de cafeína noturna. Richie serviu o garoto cadeirante com um copo e isopor com a porção de leite doce, também fumaçando, mas também não disse nenhum valor:<br />
<br />
-- Aqui rapazinho, cuidado pra não queimar o bico. -- o velho falou em tom de brincadeira: -- Arrumou um belo passeio noturno ein!<br />
<br />
-- Você falando assim até parece que eu levo adolescentes pra passear a noite. Richie, você acaba com a minha reputação assim. -- A loira cruzou as pernas, e acenou negativamente bebericando mais do café quente: -- Eu trabalho de noite sim, em muitas dessas boates e casas noturnas, mas não sou divertimento pra adolescentes tão jovens, o nosso Garfield aqui com certeza é menor de idade, e mesmo que fosse de maior, com esse rostinho, nenhum segurança deixaria ele entrar, ele com certeza estava em apuros e eu ajudei, porque eu sou uma ótima pessoa.<br />
<br />
-- Nunca disse que não era Lilú. Ai de mim. -- O velho riu e voltou para dentro de carrinho que com certeza estava mais quente que a rua em si.<br />
<br />
-- Agora me diga Garfield, o que você estava fazendo perambulando pelas ruas Cerisienses tarde da noite? Se livrou de um sequestro relâmpago? -- A loira comentou a primeira coisa que lhe veio a mente. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Charles apenas ajeitou a cadeira para que não desse as costas nem para Lilú, ou para o homem que serviria o leite. A moça era bastante bonita, da maneira que se vestia, parecia quase uma celebridade ou pelo menos alguém minimamente famosa. Sentiu o rosto avermelhar quando ela decidiu que por fim o chamaria de Garfield:<br />
<br />
- Eu não vou mais conseguir usar meus casacos laranjas - resmungou mais para si mesmo, um pouco derrotado pelo bom humor e brincadeira da mulher. Mas realmente não conseguiria mais usar as roupas laranjas sem se ver como o gato que engole lasanhas. Até suspeitava inclusive ter meias do gato, que nunca mais seriam vistas da mesma maneira.<br />
<br />
Aceitou o leite oferecido, ainda confuso por não saber preço ou qualquer outra coisa do tipo. Lilú já estava ajudando, e a última coisa que iria querer seria tirar proveito da boa vontade dela. Porém, olhou o outro com estranheza quando ele mencionou um "passeio noturno", claramente franzindo as sobrancelhas em dúvida com as palavras dele. Antes que pudesse perguntar o que ele queria dizer com isso, a mulher foi mais rápida em se defender, alegando que Charles era jovem demais. Realmente, estava longe de ter a idade para frequentar bares e boates, e até mesmo quando fosse mais velho não teria o mínimo interesse.<br />
<br />
Mas pelo jeito que a mulher falava, ela parecia ter bastante intimidade com o vendedor, pela maneira casual que estava falando, ainda insistindo em seu novo apelido. Enquanto assistia a discussão dos dois, bebeu com cuidado um pouco do leite quente depois de soprar, segurando o copo as duas mãos, atento para não queimar a língua. Levantou mais o rosto quando o outro se afastou e Lilú perguntou o porquê de estar por lá uma hora dessas. Achou que a parte do sequestro relâmpago era uma brincadeira, mas sabia bem o que havia o deixado nessa situação. Charles ficou com uma expressão claramente de desagrado, nem parecendo que o leite estava doce:<br />
<br />
- Eu fui ver um filme que eu já tinha certeza que era ruim, mas era horrível. Péssimo. - começou, segurando o leite nas mãos - Aí, eu fui pedir um Uber, e ele parou na saída oposta do shopping por algum motivo. Aquela entrada nunca funciona nesse horário. Então eu fui até lá, apenas para ele achar ruim a demora e cancelar a viagem. - falou resmungando irritado, se lembrando do carro indo embora - Então eu fui tentar ficar dentro do shopping enquanto chamava outro, mas o segurança disse que não podia. Por que com certeza um cadeirante iria assaltar aquele shopping infernal durante a madrugada. Daí eu fui tentar pedir do mesmo jeito e o meu celular descarregou, e eu tive que procurar um ponto de táxi em uma rua sem acessibilidade, até minha roda ficar presa.<br />
<br />
Terminou o relato irritado e ranzinza, mas soprou um pouco do leite e bebeu mais um pouco de novo, sentiu a língua reclamar um pouco da bebida quente, mas a raiva que sentia era maior, então leite cairia bem.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lilú</span></div>
<br />
A loira ouviu com atenção o relato do mais novo, que tentava beber seu leite quente sem sucesso, ele realmente tinha língua de gato. E depois de perguntar o que o jovenzinho estava fazendo perambulando altas horas da noite na rua, toda a narrativa foi digna de um filme de comédia. A loira riu, sem muitos pudores, não uma risada de escárnio, mas o tipo de riso que se oferece a um amigo que contou uma história tristemente engraçada, o que era o caso do seu Garfield.<br />
<br />
-- Ai ai Garfield, que noite desgraçada, quando eu vejo filme ruim na TV em casa eu já fico irritada, imagina se eu pagasse por isso. -- A loira fez um gesto com a mão em negativa com uma careta: -- mas olhe pelo lado bom, sua noite agora é só lucro, porque a gente se encontrou, e estamos aqui, você seguro, tomando leite, esperando o taxi voltar pro ponto pra ir pra casa. <br />
<br />
A loira jogou os cabelos platinados sobre os ombros com um gesto charmoso e confiante, como bem sabia que no meio de toda aquela enrascada o loirinho encontrou alguém bacana pra lhe ajudar, sem cobrar por isso, e sem querer arrancar os órgãos dele pra vender no mercado. <br />
<br />
-- com certeza, muita sorte. -- o velho comentou rindo a distância, enquanto passava um copo de café pra si mesmo, o celular estava ligado na reprise de algum jogo de futebol.<br />
<br />
-- Eu senti daqui sua ironia, eu sou uma pessoa legal com quem eu gosto, e não tem nada de errado com isso. Se eu não gostar da pessoa, eu não tenho obrigação de ser legal, não é Garfield? A gente já passa por cada coisa nessa vida, desde serviço de aplicativo incompetente a gente oportunista, e eu não gosto de nenhum dos dois tipos, você aparentemente também não, talvez por isso a gente tenha se dado bem. -- Lilú terminou seu café, lançando o copo no lixo próximo: -- eu bati o olho em você e pensei, “esse menino já viu dias melhores, gostei dele!” <br />
<br />
E a loira riu descontraída, sem se levar a sério no meio daquela conversa.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Quando escutou a loira rindo, sentiu o cenho franzir ainda mais. Não que estivesse irritado por ela rir da sua desgraça, mas por que era, realmente, uma desgraça completa. Finalmente conseguiu bebericar mais do leite, agora que certamente o ódio que sentia deixava a temperatura da bebida mais amena.<br />
<br />
- O pior de tudo é pagar caro, por que eles tem essas manias de colocar filme 3D em tudo, e ai fica tudo pior. - reclamou mais ainda, porém tinha de concordar que de toda a infelicidade que a noite havia sido, encontrar com Lilú havia sido pelo menos um ponto positivo. Uma pessoa que não estava afim de empurrar de uma escada - Hmn... é... Acho que sim.<br />
<br />
Ouviu o comentário do vendedor baixo, o que deixou Charles levemente confuso, mas as palavras retrucadas por Lilú não podiam ser mais verdadeiras. Não tinha obrigação alguma de ser "legal" com gente que não presta. Prontamente fez um aceno positivo com a cabeça, terminando logo de tomar o leite, mas mantendo o copo em mãos.<br />
<br />
- Sim. - começou, dando bastante ênfase na parte positiva - Dizem pra tratar as pessoas como você quer ser tratado, mas e se as pessoas não te tratam bem desde o começo?! Eu não sou obrigado, nem um pouco. Se eu pudesse empurraria da escada. - resmungou dando de ombros, mas soando como uma ameaça boba vindo de alguém daquele tamanho - E parece que quanto mais eu tento evitar quem me dá dor de cabeça, mais me aparecem. Com certeza esses dias melhores nem deram as caras ainda. - resmungou, dando de ombros, porém não derrotado pela ideia.<br />
<br />
O fato de Lilú rir da conversa, apesar de ser um riso que em muitos casos Charles acharia exagerado, até que não incomodou o loirinho. Realmente, no meio daquela noite de karma negativo, tinha tido um ponto positivo.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lilú</span></div>
<br />
A loira nem espiou o relógio, sabia mais ou menos que horas eram, o que ainda tinha de fazer a noite, e logo logo o taxi voltaria ao ponto, e cada um seguiria seu rumo de vida, era meio engraçado que tivesse encontrado um rapazinho tão energético no meio da madrugada daquele jeito, sentia empatia pela criança -  talvez estivesse mais inclinada a achar cadeirantes fofos por influência de um outro que bem conhecia -. Riu sonoramente quando Charles falou que empurraria os desafetos das escadas, essa conversa de ameaçar com possíveis acidentes domésticos parecia coisa de agiota:<br />
<br />
-- Embora a ideia pareça tentadora de empurrar o povo incompetente pela escada, não vale a pena perder seu réu primário por causa disso, muito menos ser largado num reformatório. -- a loira destacou aquele ponto, ainda mantendo o ar de riso: -- mas você sempre pode conhecer alguém que pode fazer o serviço por você. -- Lilú comentou sem qualquer sinal de seriedade e para uma pessoa que não a conhecia, certamente leria aquilo como uma brincadeira, mas dado ao fato, dela ser quem era, aquelas palavras eram a verdade escrita em pedra.<br />
<br />
Mas o velho senhor do café, sabia que era tudo verdade nas palavras de Lilú, que ela já tinha perdido o réu primário por descer o braço em desafetos, e que ela certamente hoje em dia, sabia quem chamar quando queria que alguém sumisse do mundo. E antes que a conversa continuassem o som de veículo estacionando denunciava a chegada do Taxi ao ponto.  <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
O cadeirante loiro prestou atenção nas palavras de sabedoria da mulher alta. Realmente, o seu réu primário valia muito mais que alguém caindo da escada? Acha curioso como ela mantia o ar de brincadeira com tudo aquilo. Mesmo sendo só uma conversa divertida, Charles realmente estava ponderando em quem faria um serviço daqueles? Não que duvidasse que existisse, mas onde encontrar alguém assim?<br />
<br />
- Hmn… Então seria só alguém para fazer isso - repetiu, ponderando seriamente. Havia conhecido muita gente, mas a maioria não arriscaria o réu primário.<br />
<br />
Assim como a loira havia previsto, não demorou para que o táxi voltasse até o ponto. Ouviu o barulho do motor, mas logo em seguida o cheiro forte de cigarro. Observou bem o carro e dava para notar pela parte da frente era cheia de quinquilharias, com coisas penduradas no retrovisor além do que parecia um estofado de oncinha nos bancos. Charles arqueou a sobrancelha, levemente suspeito da figura que estava dentro do carro, olhando então de relance para Lilú, buscando confirmação já que ela parecia conhecer todos que andavam por ali.<br />
<br />
Não que desconfiasse de más intenções da pessoa do táxi - que inclusive parecia ser bem bonita - mas tinha alguns problemas com o cheiro de cigarro.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Março era um mês morgado para o cinema, especialmente se comparasse com o mês passado e o lançamento de Soldado invernal. Ainda assim, para um cinéfilo como Charles, ver filmes na pré-estreia significava mais um ingresso para colocar em seu caderno.<br />
<br />
Decidiu então ver a pré-estreia de Divergente. Não gostava do livro, e não esperava nada de grandioso do filme, mas não esperava que fosse tão ruim. Se pudesse, pediria seu dinheiro de volta. Saiu da sala do cinema por volta das 3h da manhã, estava usando uma roupa confortável. Um casaco vermelho escuro com o “H” de Hogwarts por baixo de uma camiseta de Metal Gear branca, combinando com uma calça escura e tênis neon laranja.<br />
<br />
Assim como os outros espectadores foi guiado até a entrada do shopping graças ao horário, e aproveitou pra chamar um Uber enquanto ia até a entrada. Escutava por alto as adolescentes falando como o filme havia sido maravilhoso, o que certificava a chatisse de Charles e o mal-gosto das adolescentes. Quando finalmente deu o aviso que seu uber chegou, ele havia parado em uma entrada diferente.<br />
<br />
O loirinho resmungou, então decidiu fazer caminho até a outra entrada pelo lado de fora,  já que as outras estavam fechadas por dentro, depois de tentar inúmeras vezes mandar mensagem para o motorista sem sucesso. Quando estava quase chegando, o motorista cancelou a viagem, e o cadeirante - agora irritadiço - viu o carro sair do estacionamento do shopping.<br />
<br />
— Filho da…!! - rosnou entre dentes, apertando o celular nas mãozinhas. Aproveitou para fazer uma reclamação no aplicativo, para evitar de ter que pagar uma taxa extra — melhor pedir essa droga lá dentro. — bufou, fazendo caminho de volta para o shopping.<br />
<br />
— Não pode entrar, senhor. Quem saiu, não pode voltar, regras da gerência — foi o que o segurança disse, aparentemente a contra gosto, mas isso não impediu que o cadeirante ficasse mal humorado.<br />
<br />
— São DUAS horas da manhã. O meu uber cancelou a viagem é só até pedir um novo.<br />
<br />
— Desculpe, senhor. Ordens da gerência.<br />
<br />
Charles fez um “Tsc” audível. Puxou o celular para enfim pedir um novo Uber, já que teria que esperar do lado de fora. Tentou ligar a tela e foi recebido apenas por uma tela escura, e o sinal de bateria vazia. Deixou um grunhido de frustração escapar. Teria que fazer o caminho até o ponto do ônibus?! Não poderia nem checar o horário de quando apareceria no ponto.<br />
<br />
Já que o segurança não o deixaria entrar, e não tinha o celular para pedir o uber, teve que enfim ir até o ponto de ônibus mais próximo e ficar uns bons minutos — ou horas — por lá. Não saiu sem olhar para o tal segurança irritado. Se fosse possível perfurar alguém com o olhar, o segurança teria vários furos.<br />
<br />
Fez o caminho inteiro reclamando sobre tudo, sobre a perda de tempo pra ver o filme, sobre o segurança, sobre o shopping, sobre odiar a bateria do celular, o filme. Encontrou inclusive mais motivo pra reclamar quando nenhuma das ruas — que inclusive eram desertas — eram acessíveis. Ou seja, teria que dar um jeitinho para subir o meio-fio. Tentou ajeitar a cadeira para subir quando uma das rodas acabou enganchando na parte de baixo. Em qualquer outro dia, não teria problema algum, mas sem as suas luvas não conseguiria fazer muita coisa.<br />
<br />
— Mas é uma desgraça mesmo! Esse inferno de rua, droga de uber — resmungou, aproveitando que não tinha ninguém ali para ouvi-lo reclamar e dar uma lição de moral. Tentava ajeitar mas categoricamente a cadeira estava presa ali.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lilú</span></div>
<br />
A loira estava ocupada naquela noite, andando pra cima e pra baixo, arrumando escala das suas meninas, uma delas tinha faltado trabalho, e até entendia, ninguém nesse ramo trabalha com o estômago ruim, podia dar alguns dias de folga, mas queria que sua cria tivesse lhe avisado com mais folga. Porque deixar alguns pontos de rua vazios era pedir pra passar raiva com os outros cafetões da cidade turística, e tão certo como o dia é dia e a noite é noite a loira rumou para aquela boate de jovens ricos e adolescentes, e no ponto de Susy, tinha uma garota desconhecida, ela lhe olhou com estranheza, e depois com certo receio. Lilú estava num dos seus vestidos de festa, brilhoso, em tons de verde turquesa e azul, as cores diziam muito naquele trabalho, e se tinha saído assim, estava claro que primeiro, não tinha ido trabalhar, e segundo não estava com tanto humor para negociar, a ausência do azul dizia claramente: “use suas melhores palavras”<br />
<br />
-- Olá gatinha, nunca vi seu sorriso tão lindo como hoje. Posso tomar dois minutos do seu tempo?<br />
<br />
-- Erh… eu não sei se posso te dar dois minutos. -- a outra mulher de cabelos escuros e olhos verde jade espiou os lados esperando que alguém viesse lhe ajudar, mas tão logo desviou de Lilú, a Loira mais alta, passando dos seus 1,90m com seu salto alto reduziu a distância encarando a menor de cima:<br />
<br />
-- Porque a surpresa pequena? Quando foi que você esteve em apuros e um cara realmente veio lhe ajudar? Han? Posso te responder essa, é fácil, fácil -- a loira piscou, levando a mão de unhas bem feitas até os longos cabelos escuros da mais baixa: -- Eu não sou sua inimiga, garotas sempre se ajudam não é mesmo? <br />
<br />
--O que você quer de mim, afinal? -- a morena encolheu os ombros se sentindo assustada mas sem ter muito pra onde fugir.<br />
<br />
-- Primeiro, eu quero seu nome gatinha, tô aqui, te namorando a mais de dois minutos, e você nem pra me dizer seu nome? <br />
<br />
-- Frederica…<br />
<br />
-- Muito bem, boa gatinha, você sabe quem eu sou, ou pelo menos ouvir falar de mim… eu sou Lilú, é um prazer te conhecer, agora que já nos conhecemos, somos amigas não? Quase íntimas não é?<br />
<br />
-- É... talvez.<br />
<br />
-- Então, minha pequena gatinha de rua, Frederica, quem te mandou vir pra cá? Você deve saber que esse ponto não está vago, não é mesmo?<br />
<br />
-- Eu não posso falar… senão ele vai ser ruim comigo.<br />
<br />
-- É esse o problema? Ele ser ruim com você? Ele não sabe o que é ser “ruim”, e nem sabe o que eu vou fazer com ele, quer vim assistir? Ver beeem de perto!<br />
<br />
A garota morena de olhos verde jade espiou Lilú com verdadeira descrença, mas nos olhos castanhos estreitos da loira mais velha, estava escrito que ela não estava brincando, e que aquele sorriso não era de felicidade. <br />
<br />
A noite esticou, algumas horas se passaram, não demorou tanto pra achar onde o outro cafetão estava, bateu na porta dele com a mesma surpresa com quem ele lhe presenteou o roubo de ponto. Acertou as contas, o nariz, as bolas, e algumas cadeiras e mesas, tomou como pagamento a Frederica que era uma menina bonita demais pra trabalhar pra um cafetão de merda que nem conseguia respeitar as normas básicas da cidade. Deu a noite de folga pra Frederica ser levada pra casa e ser abastecida de informação e cuidados pra trabalhar decentemente na noite. Ainda tinha um ou dois serviços pra resolver, mas em verdade queria fumar um cigarro e tomar um café, e bem sabia onde podia encontrar aquilo antes de continuar o que tinha pra fazer, já era mais de 3hs da madrugada, sabia pelo costume, e caminhou nas ruas vazias que eram sua casa, claro, que deveriam estar vazias, mas logo escutou resmungos em alto e bom som de voz adolescente no meio do nada. <br />
<br />
Observou um garoto cadeirante com dificuldade de subir a calçada, ele parecia com problemas, normalmente deixaria passar, mas estava com o humor renovado e 20 centavos a mais de empatia por cadeirantes. Se aproximou em passos confiantes, deixando o sobretudo fechado pela noite fria, a maquiagem impecável no rosto, o perfume asiático com aromas que lembram pimenta:<br />
<br />
-- Ora ora rapazinho, uma rua deserta não é o melhor lugar pra ficar reclamando alto! Precisa de uma ajudinha aí? -- A loira jogou seu tom de brincadeira, não queria assustar o rapaz e fazê-lo cair da cadeira por acidente, ele poderia se machucar, então fez seu comentário de forma que o rapazinho tivesse tempo de se virar e perceber sua pessoa.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Estava resmungando bastante, amaldiçoando os malditos engenheiros que não pensaram na acessibilidade de uma maldita cidade turística. Cada dia, era uma certeza que a estupidez alheia estava ali para surpreender o cadeirante.<br />
<br />
No meio daquela rua deserta, não esperava escutar uma voz feminina, especialmente uma oferecendo ajuda. Olhou, um pouco surpreso e irritado para direção da voz e foi pego de surpresa pela mulher alta e extremamente bonita. Ela poderia ter simplesmente colocado as mãos na sua cadeira, mas a mulher loira realmente estava esperando ver se Charles precisava da sua ajuda.<br />
<br />
O cadeirante não era exatamente confiante para tratar com pessoas muito bonitas. E a moça à sua frente com certeza era bonita. Se sentia um pouco intimidado por esse fator, e também por ela ser tão alta, era uma das mulheres mais altas que havia conhecido. Acabou inclusive desviando o olhar, sentindo um certo nervosismo<br />
<br />
- ...Ah. Uhm. - tentou mais uma vez tirar a cadeira do lugar, forçando a mão sobre a roda, mas sem sucesso algum. Ainda estava irritado com a situação, mas diferente de outros casos, ela não parecia invadir seu espaço pessoal - … Se não for incômodo. - respondeu com a voz um pouco mais baixa, ainda incerto de como lidar com a mulher. Certamente era melhor aceitar a ajuda do que continuar preso ali sabe-se lá por quanto mais tempo.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lilú</span></div>
<br />
A mulher não se surpreendeu com nenhuma das reações do jovem rapaz, ele era fofo, como se tivesse achado um filhote perdido, preso numa grade de janela, do qual você precisa deixar que ele cheire sua mão, antes de encostar nele. Sorriu para o menor, principalmente porque antes de aceitar sua ajuda ele ainda tentou mais uma vez resolver o problema sozinho, o que ele tinha de fofo ele tinha de teimoso. Esperou apenas uma resposta positiva do menor de que podia se aproximar:<br />
<br />
-- Ah, me incomoda sim, ter um garoto fofo, sozinho no meio de uma rua escura, precisando de uma mão, sem ninguém pra ajudar, que tipo de pessoa eu seria se não parasse? -- Manteve o tom de brincadeira e se aproximou do rapaz e da cadeira do mesmo e antes de por as mãos ainda falou um “com licença” curto e breve, se abaixou pra ficar na altura do rosto do menor, o perfume aromático ficando bem mais perceptível a curta distância: -- pode me chamar de Lilú.<br />
<br />
E depois se afastou, usou um dos pés de apoio para desenganchar a cadeira de rodas, e puxou com mais força do que era necessário, julgando que o rapaz fosse talvez um pouco mais pesado, mais parecido com o amigo que tinha na mesma condição. Como resposta para sua surpresa, falou apenas um “ops” e empurrou a cadeira para o passeio público, tirando o rapaz da rua, porém, a parte da roda que tinha ficado presa tinha entortado de leve:<br />
<br />
-- Olhe meu anjo, não é por nada não, mas sua roda já viu dias melhores, vai conseguir puxar ela assim mesmo? -- perguntou com genuína dúvida, pois se o rapaz não tivesse como empurrar a própria cadeira, seria um problema deixa-lo ali de toda forma.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
A maneira que a mulher falava com Charles o deixava levemente suspeito, mas ao mesmo tempo o deixava bastante a vontade. Se não fosse alguém “legal” certamente não estaria oferecendo ajuda assim não é?<br />
<br />
Ainda estava olhando para baixo enquanto tentava tirar a cadeira uma última vez até admitir a derrota, e a outra dizer que não poderia deixar um “garoto fofo” sozinho precisando de ajuda. Charles se sentiu bastante desconcertado com a mulher, apenas resmungando baixo um breve “ah.”, retraindo os ombros.<br />
<br />
Deixou que ela se aproximasse, acenando positivamente quando ela pediu licença para pegar na cadeira, foi pego de surpresa quando ouviu bem na altura dos seus ouvidos o nome da mulher, junto ao cheiro do perfume que lhe lembrava algo parecido com pimenta. Charles sentiu um arrepio rápido e o rosto ficar num tom mais vermelho, e antes que pudesse ter qualquer outra reação, teve o susto do puxão na cadeira. Nunca ia imaginar que a mulher teria tanta força assim.<br />
<br />
Se sentiu um pouco perdido com a mistura de acontecimentos, sussurro, aroma apimentado, puxão e empurrão. Só quando foi colocado de novo sobre o passeio percebeu o estrago que havia ficado na sua roda graças ao buraco.<br />
<br />
— A-ah. Uhm. — ainda sentia o rosto levemente avermelhado, mas tentou empurrar a cadeira, e a reação foi mais parecida com um carrinho de supermercado de rodas tortas. A cadeira estava andando mais na diagonal do que em uma linha reta — Eu posso… err… pedir um ub- — parou a frase, lembrando que o celular estava descarregado. Tentou mais uma vez ligar o celular, apenas para ser recebido pela imagem da bateria vazia — … Uhm… Se puder me levar até o ponto de ônibus… ou táxi? — comentou baixo, pensando que não queria incomodar a mulher.<br />
<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lilú</span></div>
<br />
A loira observou com atenção as reações do menor, ele parecia ter ficado constrangido? Ora, ora, ele estava muito fora da sua faixa de interesse, mas era fofo, ele ficar tão envergonhado em encontrar uma mulher bonita na rua pronta pra dar uma mãozinha. Ouviu o gaguejo dele, e abaixou um pouco o rosto, jogando os cabelos platinados atrás da orelha pra poder ouvir melhor, alguma coisa sobre uber, ônibus ou taxi. <br />
<br />
Sorriu de forma compreensiva para o mais novo, e aquilo podia ser facilmente entendido como uma tentativa de jogar charme, mas quando uma mulher bonita sorria quem resistia não era? Levou as mãos até o suporte da cadeira, e empurrou a mesma, percebendo que precisava de uns 20 centavos a mais de força para a mesma fazer as rodas girar:<br />
<br />
-- Ah! Eu conheço todos os pontos dessa região. Não se preocupe, vou te levar num lugar que eu conheço. Até porque você parece nervoso gatinho, como você não me disse seu nome, vou te arrumar um nome, que tal Garfield?<br />
<br />
Brincou, sabendo que logo o mais novo lhe daria seu nome, porque, quem gostaria de ser chamado de um gato gordo reclamão que ama lasanha, a mesmo que as três alternativas se encaixassem bem. Empurrou a cadeira do mais novo pelas calçadas nada adaptadas pela situação, cinco quadras depois dava pra sentir o cheiro de churrasquinho e a fumaça da comida formando uma neblina convidativa, cerceada por uma luminosidade amarela, vinda de uma única lâmpada, solitária, pendurada por um fio improvisado.<br />
<br />
A barraquinha de Churrasco e café, era um tipo de foodtruck de pobre, ou seja, um podrão aleatório que servia de fazer comida e servir café para pessoas que trabalhavam naquele horário noturno, haviam bancos de plástico por todo o canto, e uma placa que indicava que ali era um ponto de Taxi, pela hora estava vazio:<br />
<br />
-- Hey Richie, passa um café puro pra mim, leite com açúcar pro meu Garfield aqui, que a gente vai esperar o próximo taxi.<br />
<br />
-- Opa Lilú, sempre linda! Passo sim, meu amor, o Roger não vai correr hoje que a filha dele tá doente, o Jonah foi fazer uma corrida, deve chegar jajá. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Sentia seu espaço pessoal sendo levemente invadido com a aproximação repentina da mulher de cabelos platinados, o que quase fez com que Charles se espremesse mais contra a cadeira. Se bem que, não era culpa dela se o loirinho estava falando tão baixo assim. Relaxou um pouco os ombros quando ela sorriu, pelo menos não tinha falado besteira? Ainda assim, estava se sentindo bastante desconcertado perto da mulher.<br />
<br />
Deu para perceber que ela teve de fazer uma força extra para empurrar a cadeira, se sentia um pouco mal, mas ao mesmo tempo agradecido pela mulher ter oferecido a ajuda, inclusive por ela saber os pontos de táxi da região. Costumava passar mais naquele lugar mais cedo, então não sabia se o táxi ainda estaria funcionando. E acabou só percebendo que não havia dado o seu nome a mulher, quando ela lhe chamou de Garfield.<br />
<br />
- É Charles! - disse assim que teve brecha. A última coisa que queria era ficar sendo chamado de Garfield e acabar ganhando um novo apelido. -  E, uh…. Obrigado, Lilú. Você trabalha por aqui? - perguntou bastante ingênuo tentando engatar uma conversa. Apesar de por aqui ser algo bastante amplo, Charles estava nervoso demais para admitir que as ideias estavam meio bagunçadas. Pelas roupas que ela usava, talvez se apresentasse em algum lugar? <br />
<br />
Não demorou para que chegasse até uma barraquinha com comida, próximo à um ponto de táxi. Novamente Lilú o chamou pelo seu provável novo apelido, e ainda parecia conhecer inclusive o rapaz que fazia o churrasco e provavelmente os taxistas?<br />
<br />
- É Charles. - resmungou levemente contrariado, apesar de realmente receber o leite com açúcar que Lilú havia pedido, o que o deixava um pouco confuso. Realmente estava sendo tratado como um gato - Obrigado… Uhn, você conhece até os taxistas, Lilú? Ah, e quanto fica pelo… leite?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lilú</span></div>
<br />
A loira se sentou em um dos bancos plásticos e cruzou as longas pernas, o sobretudo caindo sobre as costas e quase encostando no chão, as coxas expostas pelo vestido brilhoso curtíssimo, mas não havia qualquer menção da mulher de esconder as pernas, fosse por pudor ou mesmo frio. As reclamações do garoto sobre o seu novo apelido fizeram com que a loira alargasse o riso de forma bastante despretensiosa, e ainda gesticulou negativamente com a mão para o menor:<br />
<br />
-- Agora já era, você é Garfield pra mim, mas eu acho justo, Lilú não é meu nome, apenas um apelido, nada mais justo que eu chame você por um apelido também, não? -- Brincou sem necessariamente responder nenhuma das perguntas, nem sobre os taxis, nem sobre o trabalho e nem sobre o valor do leite. <br />
<br />
Não demorou para que Richie lhe servisse um copo de isopor com uma dose de café coado, forte, sem açúcar, a loira soprou a fumaça pra longe, e bebericou o líquido quente, sentindo-se renovada por aquela dose de cafeína noturna. Richie serviu o garoto cadeirante com um copo e isopor com a porção de leite doce, também fumaçando, mas também não disse nenhum valor:<br />
<br />
-- Aqui rapazinho, cuidado pra não queimar o bico. -- o velho falou em tom de brincadeira: -- Arrumou um belo passeio noturno ein!<br />
<br />
-- Você falando assim até parece que eu levo adolescentes pra passear a noite. Richie, você acaba com a minha reputação assim. -- A loira cruzou as pernas, e acenou negativamente bebericando mais do café quente: -- Eu trabalho de noite sim, em muitas dessas boates e casas noturnas, mas não sou divertimento pra adolescentes tão jovens, o nosso Garfield aqui com certeza é menor de idade, e mesmo que fosse de maior, com esse rostinho, nenhum segurança deixaria ele entrar, ele com certeza estava em apuros e eu ajudei, porque eu sou uma ótima pessoa.<br />
<br />
-- Nunca disse que não era Lilú. Ai de mim. -- O velho riu e voltou para dentro de carrinho que com certeza estava mais quente que a rua em si.<br />
<br />
-- Agora me diga Garfield, o que você estava fazendo perambulando pelas ruas Cerisienses tarde da noite? Se livrou de um sequestro relâmpago? -- A loira comentou a primeira coisa que lhe veio a mente. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Charles apenas ajeitou a cadeira para que não desse as costas nem para Lilú, ou para o homem que serviria o leite. A moça era bastante bonita, da maneira que se vestia, parecia quase uma celebridade ou pelo menos alguém minimamente famosa. Sentiu o rosto avermelhar quando ela decidiu que por fim o chamaria de Garfield:<br />
<br />
- Eu não vou mais conseguir usar meus casacos laranjas - resmungou mais para si mesmo, um pouco derrotado pelo bom humor e brincadeira da mulher. Mas realmente não conseguiria mais usar as roupas laranjas sem se ver como o gato que engole lasanhas. Até suspeitava inclusive ter meias do gato, que nunca mais seriam vistas da mesma maneira.<br />
<br />
Aceitou o leite oferecido, ainda confuso por não saber preço ou qualquer outra coisa do tipo. Lilú já estava ajudando, e a última coisa que iria querer seria tirar proveito da boa vontade dela. Porém, olhou o outro com estranheza quando ele mencionou um "passeio noturno", claramente franzindo as sobrancelhas em dúvida com as palavras dele. Antes que pudesse perguntar o que ele queria dizer com isso, a mulher foi mais rápida em se defender, alegando que Charles era jovem demais. Realmente, estava longe de ter a idade para frequentar bares e boates, e até mesmo quando fosse mais velho não teria o mínimo interesse.<br />
<br />
Mas pelo jeito que a mulher falava, ela parecia ter bastante intimidade com o vendedor, pela maneira casual que estava falando, ainda insistindo em seu novo apelido. Enquanto assistia a discussão dos dois, bebeu com cuidado um pouco do leite quente depois de soprar, segurando o copo as duas mãos, atento para não queimar a língua. Levantou mais o rosto quando o outro se afastou e Lilú perguntou o porquê de estar por lá uma hora dessas. Achou que a parte do sequestro relâmpago era uma brincadeira, mas sabia bem o que havia o deixado nessa situação. Charles ficou com uma expressão claramente de desagrado, nem parecendo que o leite estava doce:<br />
<br />
- Eu fui ver um filme que eu já tinha certeza que era ruim, mas era horrível. Péssimo. - começou, segurando o leite nas mãos - Aí, eu fui pedir um Uber, e ele parou na saída oposta do shopping por algum motivo. Aquela entrada nunca funciona nesse horário. Então eu fui até lá, apenas para ele achar ruim a demora e cancelar a viagem. - falou resmungando irritado, se lembrando do carro indo embora - Então eu fui tentar ficar dentro do shopping enquanto chamava outro, mas o segurança disse que não podia. Por que com certeza um cadeirante iria assaltar aquele shopping infernal durante a madrugada. Daí eu fui tentar pedir do mesmo jeito e o meu celular descarregou, e eu tive que procurar um ponto de táxi em uma rua sem acessibilidade, até minha roda ficar presa.<br />
<br />
Terminou o relato irritado e ranzinza, mas soprou um pouco do leite e bebeu mais um pouco de novo, sentiu a língua reclamar um pouco da bebida quente, mas a raiva que sentia era maior, então leite cairia bem.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lilú</span></div>
<br />
A loira ouviu com atenção o relato do mais novo, que tentava beber seu leite quente sem sucesso, ele realmente tinha língua de gato. E depois de perguntar o que o jovenzinho estava fazendo perambulando altas horas da noite na rua, toda a narrativa foi digna de um filme de comédia. A loira riu, sem muitos pudores, não uma risada de escárnio, mas o tipo de riso que se oferece a um amigo que contou uma história tristemente engraçada, o que era o caso do seu Garfield.<br />
<br />
-- Ai ai Garfield, que noite desgraçada, quando eu vejo filme ruim na TV em casa eu já fico irritada, imagina se eu pagasse por isso. -- A loira fez um gesto com a mão em negativa com uma careta: -- mas olhe pelo lado bom, sua noite agora é só lucro, porque a gente se encontrou, e estamos aqui, você seguro, tomando leite, esperando o taxi voltar pro ponto pra ir pra casa. <br />
<br />
A loira jogou os cabelos platinados sobre os ombros com um gesto charmoso e confiante, como bem sabia que no meio de toda aquela enrascada o loirinho encontrou alguém bacana pra lhe ajudar, sem cobrar por isso, e sem querer arrancar os órgãos dele pra vender no mercado. <br />
<br />
-- com certeza, muita sorte. -- o velho comentou rindo a distância, enquanto passava um copo de café pra si mesmo, o celular estava ligado na reprise de algum jogo de futebol.<br />
<br />
-- Eu senti daqui sua ironia, eu sou uma pessoa legal com quem eu gosto, e não tem nada de errado com isso. Se eu não gostar da pessoa, eu não tenho obrigação de ser legal, não é Garfield? A gente já passa por cada coisa nessa vida, desde serviço de aplicativo incompetente a gente oportunista, e eu não gosto de nenhum dos dois tipos, você aparentemente também não, talvez por isso a gente tenha se dado bem. -- Lilú terminou seu café, lançando o copo no lixo próximo: -- eu bati o olho em você e pensei, “esse menino já viu dias melhores, gostei dele!” <br />
<br />
E a loira riu descontraída, sem se levar a sério no meio daquela conversa.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Quando escutou a loira rindo, sentiu o cenho franzir ainda mais. Não que estivesse irritado por ela rir da sua desgraça, mas por que era, realmente, uma desgraça completa. Finalmente conseguiu bebericar mais do leite, agora que certamente o ódio que sentia deixava a temperatura da bebida mais amena.<br />
<br />
- O pior de tudo é pagar caro, por que eles tem essas manias de colocar filme 3D em tudo, e ai fica tudo pior. - reclamou mais ainda, porém tinha de concordar que de toda a infelicidade que a noite havia sido, encontrar com Lilú havia sido pelo menos um ponto positivo. Uma pessoa que não estava afim de empurrar de uma escada - Hmn... é... Acho que sim.<br />
<br />
Ouviu o comentário do vendedor baixo, o que deixou Charles levemente confuso, mas as palavras retrucadas por Lilú não podiam ser mais verdadeiras. Não tinha obrigação alguma de ser "legal" com gente que não presta. Prontamente fez um aceno positivo com a cabeça, terminando logo de tomar o leite, mas mantendo o copo em mãos.<br />
<br />
- Sim. - começou, dando bastante ênfase na parte positiva - Dizem pra tratar as pessoas como você quer ser tratado, mas e se as pessoas não te tratam bem desde o começo?! Eu não sou obrigado, nem um pouco. Se eu pudesse empurraria da escada. - resmungou dando de ombros, mas soando como uma ameaça boba vindo de alguém daquele tamanho - E parece que quanto mais eu tento evitar quem me dá dor de cabeça, mais me aparecem. Com certeza esses dias melhores nem deram as caras ainda. - resmungou, dando de ombros, porém não derrotado pela ideia.<br />
<br />
O fato de Lilú rir da conversa, apesar de ser um riso que em muitos casos Charles acharia exagerado, até que não incomodou o loirinho. Realmente, no meio daquela noite de karma negativo, tinha tido um ponto positivo.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lilú</span></div>
<br />
A loira nem espiou o relógio, sabia mais ou menos que horas eram, o que ainda tinha de fazer a noite, e logo logo o taxi voltaria ao ponto, e cada um seguiria seu rumo de vida, era meio engraçado que tivesse encontrado um rapazinho tão energético no meio da madrugada daquele jeito, sentia empatia pela criança -  talvez estivesse mais inclinada a achar cadeirantes fofos por influência de um outro que bem conhecia -. Riu sonoramente quando Charles falou que empurraria os desafetos das escadas, essa conversa de ameaçar com possíveis acidentes domésticos parecia coisa de agiota:<br />
<br />
-- Embora a ideia pareça tentadora de empurrar o povo incompetente pela escada, não vale a pena perder seu réu primário por causa disso, muito menos ser largado num reformatório. -- a loira destacou aquele ponto, ainda mantendo o ar de riso: -- mas você sempre pode conhecer alguém que pode fazer o serviço por você. -- Lilú comentou sem qualquer sinal de seriedade e para uma pessoa que não a conhecia, certamente leria aquilo como uma brincadeira, mas dado ao fato, dela ser quem era, aquelas palavras eram a verdade escrita em pedra.<br />
<br />
Mas o velho senhor do café, sabia que era tudo verdade nas palavras de Lilú, que ela já tinha perdido o réu primário por descer o braço em desafetos, e que ela certamente hoje em dia, sabia quem chamar quando queria que alguém sumisse do mundo. E antes que a conversa continuassem o som de veículo estacionando denunciava a chegada do Taxi ao ponto.  <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
O cadeirante loiro prestou atenção nas palavras de sabedoria da mulher alta. Realmente, o seu réu primário valia muito mais que alguém caindo da escada? Acha curioso como ela mantia o ar de brincadeira com tudo aquilo. Mesmo sendo só uma conversa divertida, Charles realmente estava ponderando em quem faria um serviço daqueles? Não que duvidasse que existisse, mas onde encontrar alguém assim?<br />
<br />
- Hmn… Então seria só alguém para fazer isso - repetiu, ponderando seriamente. Havia conhecido muita gente, mas a maioria não arriscaria o réu primário.<br />
<br />
Assim como a loira havia previsto, não demorou para que o táxi voltasse até o ponto. Ouviu o barulho do motor, mas logo em seguida o cheiro forte de cigarro. Observou bem o carro e dava para notar pela parte da frente era cheia de quinquilharias, com coisas penduradas no retrovisor além do que parecia um estofado de oncinha nos bancos. Charles arqueou a sobrancelha, levemente suspeito da figura que estava dentro do carro, olhando então de relance para Lilú, buscando confirmação já que ela parecia conhecer todos que andavam por ali.<br />
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Não que desconfiasse de más intenções da pessoa do táxi - que inclusive parecia ser bem bonita - mas tinha alguns problemas com o cheiro de cigarro.]]></content:encoded>
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