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		<title><![CDATA[Academia St. Clavier - Hospital Geral]]></title>
		<link>http://academiastclavier.com.br/</link>
		<description><![CDATA[Academia St. Clavier - http://academiastclavier.com.br]]></description>
		<pubDate>Wed, 27 May 2026 19:26:53 +0000</pubDate>
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		<item>
			<title><![CDATA[Trouble in Paradise [Carbella]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=360</link>
			<pubDate>Sun, 22 Jan 2023 15:31:27 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=79">Natalia</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=360</guid>
			<description><![CDATA[De acordo com o que havia conseguido averiguar da situação na pediatria, a ruivinha cereja havia se tornado um assunto delicado para se falar a respeito. Nem mesmo a supervisora da jovem enfermeira parecia inclinada a falar sobre a situação do desempenho do trabalho da mulher. Contudo, ao conversar com a supervisora de Carbella durante um café casual na copa do hospital, conseguiu descobrir como a mulher também parecia exausta da situação enquanto ela se queixava de estar passando muito tempo longe da própria família. Ouviu dizer no setor que a mulher mais velha havia conseguido uma transferência para algum dos setores administrativos do hospital, com fluxo mais tranquilo de trabalho e um pagamento maior. Porém, diante da sensibilidade da responsabilidade do cargo que ocupava, ela estava tendo crises de enxaqueca constantes pela obrigação de indicar alguém para substituí-la na supervisão. Naturalmente amigável, não hesitou em se oferecer para assumir o plantão da mulher durante sua "folga", considerando que não estava com nenhuma cirurgia marcada para o dia ou precisaria atender clinicamente algum caso mais urgente. <br />
<br />
E foi assim que estava com a melhor expressão de desconforto ao se dar conta de que havia assumido, por aquele curto período de tempo, a supervisão de não qualquer setor, mas do setor do qual mais costumava se manter afastada: a pediatria.  Não foi difícil observar falhas na troca de plantões e horários dos funcionários ou ouvir comentários entre eles sobre combinados de horas para a troca de plantões. Não se importava com os "arrumadinhos" entre eles, até porque costumava fazer muito isso em seu próprio setor quando tinha alguma "emergência" para resolver. Contudo, não se importava desde que a negociação não afetasse o atendimento direto aos pacientes do setor, que deveriam ser a prioridade do hospital. <br />
<br />
Conhecendo o aspecto de viciada em trabalho da ruiva cereja, não achou que ela demoraria tanto a assumir seu lugar na pediatria naquele dia, apesar do estado de nervos em que ela parecia estar no dia anterior. Na pequena sala da supervisão, havia começado a verificar os relatórios mais recentes do plantão da enfermeira. Como era de esperar, nada fora do comum, e a jovem até havia feito correções no prontuário de alguns pacientes a fim de melhorar o quadro de recuperação de muitos. Entretanto, no que constava no relatório do último plantão, havia uma breve observação sobre a troca de prontuários de dois pacientes de nomes parecidos. Ao que pareciam, eram irmãos, logo tinham o mesmo sobrenome, e por isso, deveriam ter confudido a cabeça já cansada da ruiva cereja. <br />
<br />
Estava na sala de supervisão da pediatria, sentada à mesa com os papeis em mãos, aproveitando para verificar a dosagem das medicações mais recentes. Imaginou que não demoraria muito para Carbella retornar ao trabalho, então achou melhor continuar na sala, principalmente para evitar ter de lidar diretamente com qualquer criança no período em que estava ali aguardando a mulher. Ainda estava preocupada com o estado de Clementine, principalmente após a garota falar sobre conseguir dinheiro e começar a trabalhar logo. Talvez devesse alertar também Carbella para buscar o acompanhamento terapêutico psicológico do hospital para si e para a própria irmã.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[De acordo com o que havia conseguido averiguar da situação na pediatria, a ruivinha cereja havia se tornado um assunto delicado para se falar a respeito. Nem mesmo a supervisora da jovem enfermeira parecia inclinada a falar sobre a situação do desempenho do trabalho da mulher. Contudo, ao conversar com a supervisora de Carbella durante um café casual na copa do hospital, conseguiu descobrir como a mulher também parecia exausta da situação enquanto ela se queixava de estar passando muito tempo longe da própria família. Ouviu dizer no setor que a mulher mais velha havia conseguido uma transferência para algum dos setores administrativos do hospital, com fluxo mais tranquilo de trabalho e um pagamento maior. Porém, diante da sensibilidade da responsabilidade do cargo que ocupava, ela estava tendo crises de enxaqueca constantes pela obrigação de indicar alguém para substituí-la na supervisão. Naturalmente amigável, não hesitou em se oferecer para assumir o plantão da mulher durante sua "folga", considerando que não estava com nenhuma cirurgia marcada para o dia ou precisaria atender clinicamente algum caso mais urgente. <br />
<br />
E foi assim que estava com a melhor expressão de desconforto ao se dar conta de que havia assumido, por aquele curto período de tempo, a supervisão de não qualquer setor, mas do setor do qual mais costumava se manter afastada: a pediatria.  Não foi difícil observar falhas na troca de plantões e horários dos funcionários ou ouvir comentários entre eles sobre combinados de horas para a troca de plantões. Não se importava com os "arrumadinhos" entre eles, até porque costumava fazer muito isso em seu próprio setor quando tinha alguma "emergência" para resolver. Contudo, não se importava desde que a negociação não afetasse o atendimento direto aos pacientes do setor, que deveriam ser a prioridade do hospital. <br />
<br />
Conhecendo o aspecto de viciada em trabalho da ruiva cereja, não achou que ela demoraria tanto a assumir seu lugar na pediatria naquele dia, apesar do estado de nervos em que ela parecia estar no dia anterior. Na pequena sala da supervisão, havia começado a verificar os relatórios mais recentes do plantão da enfermeira. Como era de esperar, nada fora do comum, e a jovem até havia feito correções no prontuário de alguns pacientes a fim de melhorar o quadro de recuperação de muitos. Entretanto, no que constava no relatório do último plantão, havia uma breve observação sobre a troca de prontuários de dois pacientes de nomes parecidos. Ao que pareciam, eram irmãos, logo tinham o mesmo sobrenome, e por isso, deveriam ter confudido a cabeça já cansada da ruiva cereja. <br />
<br />
Estava na sala de supervisão da pediatria, sentada à mesa com os papeis em mãos, aproveitando para verificar a dosagem das medicações mais recentes. Imaginou que não demoraria muito para Carbella retornar ao trabalho, então achou melhor continuar na sala, principalmente para evitar ter de lidar diretamente com qualquer criança no período em que estava ali aguardando a mulher. Ainda estava preocupada com o estado de Clementine, principalmente após a garota falar sobre conseguir dinheiro e começar a trabalhar logo. Talvez devesse alertar também Carbella para buscar o acompanhamento terapêutico psicológico do hospital para si e para a própria irmã.]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[Tratamento Intensivo de Paciência [Jaydee, Natalia]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=341</link>
			<pubDate>Tue, 28 Sep 2021 18:33:56 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=98">Charles</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=341</guid>
			<description><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Desde o encontro com a Doutora Natalia, Charles agora tinha uma ida pelo menos semanal ao hospital de Cerise. O único ponto negativo que conseguia ver naquilo era, às vezes, acabar topando com Ulysses que enchia o cadeirante de perguntas irritantes e proximidade não requisitada. Surpreendentemente, o loirinho estava conseguindo se acostumar mais com esse tipo de chateação.<br />
<br />
A hemodiálise estava marcada no período da tarde, mas Charles saiu um pouco antes, usando um dos seus muitos casacos escuros por cima de uma camiseta de cor mais clara, uma calça de malha mais confortável e um tênis laranja neon com detalhes pretos nas laterais. Chegou bastante atento, procurando ter certeza que não veria o esgrimista por lá, e teve algum sucesso nisso, pois chegou na sala da hemodiálise sem nem ter sinal dele.<br />
<br />
- Boa tarde. - disse, de maneira educada, porém baixa. Não viu nenhuma das duas figuras idosas que a Doutora havia apresentado da outra vez.<br />
<br />
Foi guiado pelos enfermeiros, tendo que se desfazer da sua cadeira de rodas para ficar em uma das cadeiras apropriadas para a hemodiálise. A cadeira era confortável e pelo menos, o outro gato pingado que estava por lá já parecia perto de terminar o seu período. Não demorou para os enfermeiros ajeitarem a agulha em seu braço e lá estava Charles, com pelo menos uma boa hora a perder olhando para o teto.<br />
<br />
Puxou o celular e aproveitou para mandar algumas mensagens e ler notícias sobre jogos, quem sabe assim o tempo passasse mais rápido? Pelo menos, parecia que seria um dia tranquilo no hospital para variar.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jaydee</span></div>
<br />
Já fazia alguns dias que Jaydee estava em Cerise e já tinha até começado o seu trabalho levemente entediante na Academia masculina St. Clavier. Mas o enfermeiro era divertido, e até tinha conseguido uma máquina de café para a enfermaria. Entretanto, o fato de não ter muita coisa interessante acontecendo em St. Clavier fora as dores de barriga e os nervosismos que atacavam os meninos nervosos com o fato de estarem morando longe de casa pela primeira vez, fez com que Jaydee ficasse fortemente inclinado a voltar ao hospital geral de Cerise, onde tinha conhecido uma médica interessante também. E lá quem sabe, estivesse acontecendo coisa mais curiosa pra observar?<br />
<br />
Mas não dava para passar mais três horas na emergência esperando alguma coisa acontecer, ele queria dar uma circulada em todos os setores do hospital, então, resolveu mandar um e-mail muito formal e bem redigido para o diretor do hospital e tentar conseguir uma permissão especial para acessar o local e conhecer as instalações, e os casos que estavam sendo cuidados no hospital. Com a reputação que tinha e as referências de trabalhos anteriores ao seu período de emergência no queens em Nova York, não foi difícil conseguir a autorização e, não só naquele dia, mas naquela semana, deu umas viagens de St. Clavier até o hospital Geral para visitar as instalações e conhecer mais coisas.<br />
<br />
Era fácil chamar atenção com as roupas que usava, mas ao menos daquela vez estava com o jaleco e com uma identificação especial que conseguira no hospital como médico visitante. Ele passou conversando com as enfermeiras e enfermeiros, outros médicos e técnicos, e daquela vez passeou num dos andares até achar uma sala onde um garoto estava no que parecia ser o início de uma sessão de hemodiálise, e o que lhe deixou bem curioso pelo motivo pelo qual ele estava fazendo aquilo sendo tão novo.<br />
<br />
Sem nem pedir autorização, ele se aproximou da cadeira, puxando um banco para sentar ao lado do garoto, encarando-o extremamente curioso.<br />
<br />
- Por que você está fazendo hemodiálise, menino?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Charles viu algumas pessoas entrarem e saírem da sala algumas vezes, mas os poucos começou a deixar de lado e não prestou mais muita atenção em quem estava transitando por ali.<br />
<br />
A sensação no braço era um pouco incômoda, mas de todos que já tinha tido, era bem um dos menores. A pior parte era apenas ter que ficar com o braço imóvel, até teve o reflexo de usar o celular com a mão que não podia, mas a sensação breve da agulha o lembrou que não era uma boa ideia, e acabou se acostumando de usar apenas com a mão direita para digitar. Trocou algumas mensagens com o amigo ruivo, mais avisando sobre o tratamento ter começado e que pelo menos estava sozinho ali, sem ter quem enchesse a paciência.<br />
<br />
Isso é, até perceber uma aproximação estranha e o barulho de arrastar de banco, e dar de cara com um homem de aparência bem comum, por que o que mais se destacava eram as roupas estranhas que usava - com exceção do jaleco que usava. Era realmente um médico? O loirinho arqueou a sobrancelha, com uma expressão num misto de descrença e incômodo com a aproximação repentina:<br />
<br />
- ... Por que a pergunta? - devolveu as palavras dele, ainda segurando o celular com a mão livre - Foi recomendação da doutora Natalia. - deu o tico de informação que achava pertinente. Afinal, imaginava que a médica de cabelos platinados tinha passado a informação sobre o tratamento para quem precisava saber.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jaydee</span></div>
<br />
- Da Dra. Natalia? Ahhh, e pra que ela te recomendou isso? Você já tem falência renal tão novo? - ele perguntou, ainda mais curioso, esticando-se para o lado para procurar alguma ficha que tivesse informações sobre o caso do garoto. - Mas ela é neurologista, não é? Então qual é o caso que você tem pra precisar de hemodiálise?<br />
<br />
Ele circulou em volta da cadeira em que o garoto estava sentado e não achou muita informação em ficha médica, mas para um procedimento costumeiro como uma hemodiálise, não devia precisar de muito, provavelmente o enfermeiro responsável pelo setor que estava com as informações dos pacientes e seria cansativo ir atrás. Ele ainda voltou até a máquina, olhando as informações e se virando para o garoto de novo, dessa vez sentando no banco e apoiando o cotovelo no braço da cadeira dele também, para depois apoiar o queixo na mão e cruzar as pernas.<br />
<br />
- Você começou há muito tempo? Vai ficar quanto tempo mais aqui? Faz quantas vezes por semana? Já está melhorando o que você tem? Quantos anos você tem? - ele desatou a perguntar, agora muito focado em encarar o garoto diretamente.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Encarava o tal médico com um certo ar de descrença quando ele nem se preocupou em continuar as perguntas. Se encolheu contra a cadeira da hemodiálise quando ele fazia menção de se aproximar, que sina era essa que tinha de encontrar tanta gente inconveniente em um lugar só? Era pré-requisito de entrada do hospital?<br />
<br />
- Você não me respondeu a minha pergunta - repetiu, franzindo o cenho e encarando o homem de roupas estranhas. Ignorando completamente o restante da pergunta que ele havia feito e seguindo com o olhar o caminho que ele fazia ao redor da cadeira, remexendo nos papéis sobre a sua ficha. Se sentindo cada vez mais  incomodado pelo vai-e-vem do médico curioso que olhava até a máquina que estava usando. Queria cruzar os braços, mas infelizmente tinha que deixar o braço ali estendido.<br />
<br />
- … Por quê raios essa curiosidade?! - resmungou, encarando o médico de volta com uma cara de poucos amigos - Você não é meu médico responsável, não respondeu minhas perguntas e não é da sua conta. <br />
<br />
Voltou a atenção para o celular, mandando mensagem para o amigo ruivo para dizer que não havia encontrado com o esgrimista, mas realmente tinha ímã para pessoas inconvenientes.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jaydee</span></div>
<br />
- Eu realmente preciso responder porque é que eu te perguntei porque você está fazendo o tratamento que está fazendo? - ele construiu a pergunta propositalmente complicada, muito bem apoiado no braço da cadeira dele e com as pernas cruzadas e os pés balançando. - Eu tenho que ser curioso, eu sou médico também. Mas não é minha área, por isso tô interessado em saber porque é que ce tá com esse tratamento que geralmente não se vê numa pessoa tão jovem... ou você tem alguma doença muito rara?! Não me diga que já acabou com seus rins tão novo, o que anda fazendo na vida, menino?<br />
<br />
Jaydee ainda mudou a posição na cadeira, apoiando o outro cotovelo ali e cruzando os dois braços para continuar observando o garoto que estava no meio do processo de hemodiálise, numa postura bem invasiva.<br />
<br />
Mas logo o rapaz estava interessado em trocar algumas mensagens no celular, e Jaydee não foi nem um pouco discreto em inclinar a cabeça para o lado para ver as mensagens na tela do celular antes dele se mover para afastar o aparelho.<br />
<br />
- Tá falando com a sua namorada? Ela não vem te visitar no hospital? Ou o seu namorado? Ouvi dizer que os franceses são bem abertos nesse sentido.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
A cara de poucos amigos que passava um aviso claro de “fique-longe” pareciam apenas divertir o tal médico esquisito, que começou a complicar mais as perguntas que fazia. Se recusou a responder, as ignorando prontamente, mas ao menos teve uma resposta sobre quem ele era… Mesmo que fosse repleta de comentários inconvenientes e descenessários.<br />
<br />
— Curiosidade é uma coisa, já ser inconveniente… — respondeu arisco e ácido, ainda ignorando completamente as provocações. Afinal, a última vez que deu um resquício de ousadia para alguém, a pessoa apareceu em sua casa. — Médicos supostamente não são mais ‘comedidos’ nas coisas que falam?<br />
<br />
Resmungou por fim, antes de tornar a atenção para o celular e conversar com o amigo ruivo, tentando mais uma vez ver se ignorar o mais velho o faria ir embora. Sentiu a aproximação, mas imaginava que ele só estava tentando provocar mais invadindo seu espaço naquela cadeira. Oque realmente detestava eram pessoas inconvenientes que tentavam ver o que fazia no celular. E foi exatamente o que o infeliz fez. Prontamente, Charles puxou o celular para si, e o encarou de cima para baixo com um olhar que certamente queria que fosse possível jogar alguém pela janela.<br />
<br />
— Você não sabe ficar quieto?! Espaço. Pessoal. — Tentou demonstrar o espaço de um braço de distância com o próprio braço, que o mais velho já havia quebrado há muito tempo —Não é meu namorado ou namorada. Síndrome de Guillain-Barré, já que quer tanto saber! Tratamento que a Dr. Natália sugeriu, sobre o meu sistema imune estar ruim, e a hemodiálise poderia resolver! Tá satisfeito?! Pode me deixar em paz agora?!<br />
<br />
Respondeu extremamente irritadiço, franzindo a sobrancelhas e resmungando baixo. Nem fez questão de dar uma explicação muito complexa, por estar sem paciência nenhuma para lidar com esse esquisito. Por que pessoas assim apareciam à torto e à direita?!<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jaydee</span></div>
<br />
- São? Não sei, eu não gosto muito de médicos formais. Você conhece muitos? Eu conheço um bocado. Eles são chatos. - Jaydee respondeu descontraído com a pergunta dele sobre médicos serem mais comedidos, e arrastou o banco com um barulho alto para se aproximar de novo de Charles e apoiar os braços na cadeira em que ele estava sentado bem em tempo de sentir a mão no seu peito quando ele falou sobre espaço pessoal e ficar quieto.<br />
<br />
Jaydee só riu da energia do garoto, e do fato que ele parecia muito com os gatos ariscos que deixava comida na porta de casa de vez em quando, eles sempre vinham para comer, mas nunca pra se aproximar e sempre pra arranhar. Mas ele lhe respondeu finalmente sobre a doença que tinha e o tratamento indicado pela médica que tinha conhecido logo que chegara a Cerise.<br />
<br />
- Ahhh!! Ahhhhhh!!! AHHHHH!!! Que interessante. - ele foi desnecessariamente expansivo e expressivo, puxando o banco mais duas vezes até apoiar os cotovelos na cadeira em que ele estava e apoiar o queixo nas duas mãos. - É mesmo uma doença rara! Eu já lidei com alguns pacientes com essa síndrome, mas não é minha área de atuação, então eu cuidei mais de cirurgias em pacientes com essa condição. E está funcionando? Há quanto tempo você está fazendo hemodiálise? Já fez plasmaférese? E a fisioterapia? Consegue andar e mover as pernas?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Não se conteve em soltar um audível "ugh" quando ele devolveu a pergunta sobre médicos. Por que raios ele não sabia respeitar o mínimo?! Felizmente, previu bem a aproximação dele e foi no momento certo para afastá-lo do seu espaço.<br />
<br />
... Infelizmente, parece que quanto mais Charles se estressava com o médico, mais ele se divertia de ver as suas reações. Por isso, esperava que quando falou sobre o seu tratamento, saciasse a curiosidade do outro e ele ficasse quieto. O que foi exatamente o que não aconteceu.<br />
<br />
Quase quis tapar os ouvidos quando ele começou a falar alto e se aproximou ainda mais. O que fez Charles se espremer ainda mais para o canto da cadeira. Grunhiu baixo com a nova avalanche de perguntas, cerrando o olhar para o outro e torcendo os lábios antes de responder com bastante contragosto na voz:<br />
<br />
— Eu não tenho como dizer se está funcionando se estou começando literalmente hoje! — bufou, e então tentou ficar mais à vontade na sua metade da cadeira — Já fiz fisioterapia. Eu sinto formigamento nas pernas e dói bastante mas não consigo ficar em pé completamente. Mais alguma pergunta?!<br />
<br />
Não que estivesse sendo complacente com o intrometido, até havia soando bastante irônico no final, mas queria que ele saísse logo de perto. E apesar de que quanto mais explicava da sua condição mais ele parecia invadir o seu espaço, esperava que no momento que ele saciasse completamente a curiosidade, perdesse o interesse e fosse embora.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jaydee</span></div>
<br />
O tom arisco do rapaz não fez a menor diferença para Jaydee que continuou bem apoiado na cadeira em que ele estava, os olhos quase brilhando de interesse. Bom, não tinha muitas emergências para tirar saltos da bunda de ninguém, mas uma doença rara aqui e ali até podia lhe distrair com mais eficácia do que casos inusitados.<br />
<br />
- Ahhhh, você não toma nenhum remédio pra dor então? E quanto tempo fez de fisioterapia? Você não pratica esporte? Dá pra praticar algum esporte que ajude a fortalecer os músculos também não é? - ele continuou perguntando insistente. - Quanto tempo você acha que vai demorar até o tratamento dar resultado? Será que vai conseguir voltar a andar? Sem dor?<br />
<br />
Ele apoiou o queixo numa das mãos, ainda mais próximo do garoto, mas antes que ele pudesse pensar em responder todas as suas perguntas, Jaydee se levantou quase de um salto.<br />
<br />
- Eu estou com fome, vou pegar alguma coisa na lanchonete e eu volto. Você quer alguma coisa pra comer enquanto fica aí? Ainda vai demorar uma hora, não é? Temos muitooooo pra conversar ainda. Aliás, como é o seu nome? Eu sou James Dean, pode me chamar de Jaydee. - ele se adiantou.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Desde o encontro com a Doutora Natalia, Charles agora tinha uma ida pelo menos semanal ao hospital de Cerise. O único ponto negativo que conseguia ver naquilo era, às vezes, acabar topando com Ulysses que enchia o cadeirante de perguntas irritantes e proximidade não requisitada. Surpreendentemente, o loirinho estava conseguindo se acostumar mais com esse tipo de chateação.<br />
<br />
A hemodiálise estava marcada no período da tarde, mas Charles saiu um pouco antes, usando um dos seus muitos casacos escuros por cima de uma camiseta de cor mais clara, uma calça de malha mais confortável e um tênis laranja neon com detalhes pretos nas laterais. Chegou bastante atento, procurando ter certeza que não veria o esgrimista por lá, e teve algum sucesso nisso, pois chegou na sala da hemodiálise sem nem ter sinal dele.<br />
<br />
- Boa tarde. - disse, de maneira educada, porém baixa. Não viu nenhuma das duas figuras idosas que a Doutora havia apresentado da outra vez.<br />
<br />
Foi guiado pelos enfermeiros, tendo que se desfazer da sua cadeira de rodas para ficar em uma das cadeiras apropriadas para a hemodiálise. A cadeira era confortável e pelo menos, o outro gato pingado que estava por lá já parecia perto de terminar o seu período. Não demorou para os enfermeiros ajeitarem a agulha em seu braço e lá estava Charles, com pelo menos uma boa hora a perder olhando para o teto.<br />
<br />
Puxou o celular e aproveitou para mandar algumas mensagens e ler notícias sobre jogos, quem sabe assim o tempo passasse mais rápido? Pelo menos, parecia que seria um dia tranquilo no hospital para variar.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jaydee</span></div>
<br />
Já fazia alguns dias que Jaydee estava em Cerise e já tinha até começado o seu trabalho levemente entediante na Academia masculina St. Clavier. Mas o enfermeiro era divertido, e até tinha conseguido uma máquina de café para a enfermaria. Entretanto, o fato de não ter muita coisa interessante acontecendo em St. Clavier fora as dores de barriga e os nervosismos que atacavam os meninos nervosos com o fato de estarem morando longe de casa pela primeira vez, fez com que Jaydee ficasse fortemente inclinado a voltar ao hospital geral de Cerise, onde tinha conhecido uma médica interessante também. E lá quem sabe, estivesse acontecendo coisa mais curiosa pra observar?<br />
<br />
Mas não dava para passar mais três horas na emergência esperando alguma coisa acontecer, ele queria dar uma circulada em todos os setores do hospital, então, resolveu mandar um e-mail muito formal e bem redigido para o diretor do hospital e tentar conseguir uma permissão especial para acessar o local e conhecer as instalações, e os casos que estavam sendo cuidados no hospital. Com a reputação que tinha e as referências de trabalhos anteriores ao seu período de emergência no queens em Nova York, não foi difícil conseguir a autorização e, não só naquele dia, mas naquela semana, deu umas viagens de St. Clavier até o hospital Geral para visitar as instalações e conhecer mais coisas.<br />
<br />
Era fácil chamar atenção com as roupas que usava, mas ao menos daquela vez estava com o jaleco e com uma identificação especial que conseguira no hospital como médico visitante. Ele passou conversando com as enfermeiras e enfermeiros, outros médicos e técnicos, e daquela vez passeou num dos andares até achar uma sala onde um garoto estava no que parecia ser o início de uma sessão de hemodiálise, e o que lhe deixou bem curioso pelo motivo pelo qual ele estava fazendo aquilo sendo tão novo.<br />
<br />
Sem nem pedir autorização, ele se aproximou da cadeira, puxando um banco para sentar ao lado do garoto, encarando-o extremamente curioso.<br />
<br />
- Por que você está fazendo hemodiálise, menino?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Charles viu algumas pessoas entrarem e saírem da sala algumas vezes, mas os poucos começou a deixar de lado e não prestou mais muita atenção em quem estava transitando por ali.<br />
<br />
A sensação no braço era um pouco incômoda, mas de todos que já tinha tido, era bem um dos menores. A pior parte era apenas ter que ficar com o braço imóvel, até teve o reflexo de usar o celular com a mão que não podia, mas a sensação breve da agulha o lembrou que não era uma boa ideia, e acabou se acostumando de usar apenas com a mão direita para digitar. Trocou algumas mensagens com o amigo ruivo, mais avisando sobre o tratamento ter começado e que pelo menos estava sozinho ali, sem ter quem enchesse a paciência.<br />
<br />
Isso é, até perceber uma aproximação estranha e o barulho de arrastar de banco, e dar de cara com um homem de aparência bem comum, por que o que mais se destacava eram as roupas estranhas que usava - com exceção do jaleco que usava. Era realmente um médico? O loirinho arqueou a sobrancelha, com uma expressão num misto de descrença e incômodo com a aproximação repentina:<br />
<br />
- ... Por que a pergunta? - devolveu as palavras dele, ainda segurando o celular com a mão livre - Foi recomendação da doutora Natalia. - deu o tico de informação que achava pertinente. Afinal, imaginava que a médica de cabelos platinados tinha passado a informação sobre o tratamento para quem precisava saber.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jaydee</span></div>
<br />
- Da Dra. Natalia? Ahhh, e pra que ela te recomendou isso? Você já tem falência renal tão novo? - ele perguntou, ainda mais curioso, esticando-se para o lado para procurar alguma ficha que tivesse informações sobre o caso do garoto. - Mas ela é neurologista, não é? Então qual é o caso que você tem pra precisar de hemodiálise?<br />
<br />
Ele circulou em volta da cadeira em que o garoto estava sentado e não achou muita informação em ficha médica, mas para um procedimento costumeiro como uma hemodiálise, não devia precisar de muito, provavelmente o enfermeiro responsável pelo setor que estava com as informações dos pacientes e seria cansativo ir atrás. Ele ainda voltou até a máquina, olhando as informações e se virando para o garoto de novo, dessa vez sentando no banco e apoiando o cotovelo no braço da cadeira dele também, para depois apoiar o queixo na mão e cruzar as pernas.<br />
<br />
- Você começou há muito tempo? Vai ficar quanto tempo mais aqui? Faz quantas vezes por semana? Já está melhorando o que você tem? Quantos anos você tem? - ele desatou a perguntar, agora muito focado em encarar o garoto diretamente.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Encarava o tal médico com um certo ar de descrença quando ele nem se preocupou em continuar as perguntas. Se encolheu contra a cadeira da hemodiálise quando ele fazia menção de se aproximar, que sina era essa que tinha de encontrar tanta gente inconveniente em um lugar só? Era pré-requisito de entrada do hospital?<br />
<br />
- Você não me respondeu a minha pergunta - repetiu, franzindo o cenho e encarando o homem de roupas estranhas. Ignorando completamente o restante da pergunta que ele havia feito e seguindo com o olhar o caminho que ele fazia ao redor da cadeira, remexendo nos papéis sobre a sua ficha. Se sentindo cada vez mais  incomodado pelo vai-e-vem do médico curioso que olhava até a máquina que estava usando. Queria cruzar os braços, mas infelizmente tinha que deixar o braço ali estendido.<br />
<br />
- … Por quê raios essa curiosidade?! - resmungou, encarando o médico de volta com uma cara de poucos amigos - Você não é meu médico responsável, não respondeu minhas perguntas e não é da sua conta. <br />
<br />
Voltou a atenção para o celular, mandando mensagem para o amigo ruivo para dizer que não havia encontrado com o esgrimista, mas realmente tinha ímã para pessoas inconvenientes.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jaydee</span></div>
<br />
- Eu realmente preciso responder porque é que eu te perguntei porque você está fazendo o tratamento que está fazendo? - ele construiu a pergunta propositalmente complicada, muito bem apoiado no braço da cadeira dele e com as pernas cruzadas e os pés balançando. - Eu tenho que ser curioso, eu sou médico também. Mas não é minha área, por isso tô interessado em saber porque é que ce tá com esse tratamento que geralmente não se vê numa pessoa tão jovem... ou você tem alguma doença muito rara?! Não me diga que já acabou com seus rins tão novo, o que anda fazendo na vida, menino?<br />
<br />
Jaydee ainda mudou a posição na cadeira, apoiando o outro cotovelo ali e cruzando os dois braços para continuar observando o garoto que estava no meio do processo de hemodiálise, numa postura bem invasiva.<br />
<br />
Mas logo o rapaz estava interessado em trocar algumas mensagens no celular, e Jaydee não foi nem um pouco discreto em inclinar a cabeça para o lado para ver as mensagens na tela do celular antes dele se mover para afastar o aparelho.<br />
<br />
- Tá falando com a sua namorada? Ela não vem te visitar no hospital? Ou o seu namorado? Ouvi dizer que os franceses são bem abertos nesse sentido.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
A cara de poucos amigos que passava um aviso claro de “fique-longe” pareciam apenas divertir o tal médico esquisito, que começou a complicar mais as perguntas que fazia. Se recusou a responder, as ignorando prontamente, mas ao menos teve uma resposta sobre quem ele era… Mesmo que fosse repleta de comentários inconvenientes e descenessários.<br />
<br />
— Curiosidade é uma coisa, já ser inconveniente… — respondeu arisco e ácido, ainda ignorando completamente as provocações. Afinal, a última vez que deu um resquício de ousadia para alguém, a pessoa apareceu em sua casa. — Médicos supostamente não são mais ‘comedidos’ nas coisas que falam?<br />
<br />
Resmungou por fim, antes de tornar a atenção para o celular e conversar com o amigo ruivo, tentando mais uma vez ver se ignorar o mais velho o faria ir embora. Sentiu a aproximação, mas imaginava que ele só estava tentando provocar mais invadindo seu espaço naquela cadeira. Oque realmente detestava eram pessoas inconvenientes que tentavam ver o que fazia no celular. E foi exatamente o que o infeliz fez. Prontamente, Charles puxou o celular para si, e o encarou de cima para baixo com um olhar que certamente queria que fosse possível jogar alguém pela janela.<br />
<br />
— Você não sabe ficar quieto?! Espaço. Pessoal. — Tentou demonstrar o espaço de um braço de distância com o próprio braço, que o mais velho já havia quebrado há muito tempo —Não é meu namorado ou namorada. Síndrome de Guillain-Barré, já que quer tanto saber! Tratamento que a Dr. Natália sugeriu, sobre o meu sistema imune estar ruim, e a hemodiálise poderia resolver! Tá satisfeito?! Pode me deixar em paz agora?!<br />
<br />
Respondeu extremamente irritadiço, franzindo a sobrancelhas e resmungando baixo. Nem fez questão de dar uma explicação muito complexa, por estar sem paciência nenhuma para lidar com esse esquisito. Por que pessoas assim apareciam à torto e à direita?!<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jaydee</span></div>
<br />
- São? Não sei, eu não gosto muito de médicos formais. Você conhece muitos? Eu conheço um bocado. Eles são chatos. - Jaydee respondeu descontraído com a pergunta dele sobre médicos serem mais comedidos, e arrastou o banco com um barulho alto para se aproximar de novo de Charles e apoiar os braços na cadeira em que ele estava sentado bem em tempo de sentir a mão no seu peito quando ele falou sobre espaço pessoal e ficar quieto.<br />
<br />
Jaydee só riu da energia do garoto, e do fato que ele parecia muito com os gatos ariscos que deixava comida na porta de casa de vez em quando, eles sempre vinham para comer, mas nunca pra se aproximar e sempre pra arranhar. Mas ele lhe respondeu finalmente sobre a doença que tinha e o tratamento indicado pela médica que tinha conhecido logo que chegara a Cerise.<br />
<br />
- Ahhh!! Ahhhhhh!!! AHHHHH!!! Que interessante. - ele foi desnecessariamente expansivo e expressivo, puxando o banco mais duas vezes até apoiar os cotovelos na cadeira em que ele estava e apoiar o queixo nas duas mãos. - É mesmo uma doença rara! Eu já lidei com alguns pacientes com essa síndrome, mas não é minha área de atuação, então eu cuidei mais de cirurgias em pacientes com essa condição. E está funcionando? Há quanto tempo você está fazendo hemodiálise? Já fez plasmaférese? E a fisioterapia? Consegue andar e mover as pernas?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Não se conteve em soltar um audível "ugh" quando ele devolveu a pergunta sobre médicos. Por que raios ele não sabia respeitar o mínimo?! Felizmente, previu bem a aproximação dele e foi no momento certo para afastá-lo do seu espaço.<br />
<br />
... Infelizmente, parece que quanto mais Charles se estressava com o médico, mais ele se divertia de ver as suas reações. Por isso, esperava que quando falou sobre o seu tratamento, saciasse a curiosidade do outro e ele ficasse quieto. O que foi exatamente o que não aconteceu.<br />
<br />
Quase quis tapar os ouvidos quando ele começou a falar alto e se aproximou ainda mais. O que fez Charles se espremer ainda mais para o canto da cadeira. Grunhiu baixo com a nova avalanche de perguntas, cerrando o olhar para o outro e torcendo os lábios antes de responder com bastante contragosto na voz:<br />
<br />
— Eu não tenho como dizer se está funcionando se estou começando literalmente hoje! — bufou, e então tentou ficar mais à vontade na sua metade da cadeira — Já fiz fisioterapia. Eu sinto formigamento nas pernas e dói bastante mas não consigo ficar em pé completamente. Mais alguma pergunta?!<br />
<br />
Não que estivesse sendo complacente com o intrometido, até havia soando bastante irônico no final, mas queria que ele saísse logo de perto. E apesar de que quanto mais explicava da sua condição mais ele parecia invadir o seu espaço, esperava que no momento que ele saciasse completamente a curiosidade, perdesse o interesse e fosse embora.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jaydee</span></div>
<br />
O tom arisco do rapaz não fez a menor diferença para Jaydee que continuou bem apoiado na cadeira em que ele estava, os olhos quase brilhando de interesse. Bom, não tinha muitas emergências para tirar saltos da bunda de ninguém, mas uma doença rara aqui e ali até podia lhe distrair com mais eficácia do que casos inusitados.<br />
<br />
- Ahhhh, você não toma nenhum remédio pra dor então? E quanto tempo fez de fisioterapia? Você não pratica esporte? Dá pra praticar algum esporte que ajude a fortalecer os músculos também não é? - ele continuou perguntando insistente. - Quanto tempo você acha que vai demorar até o tratamento dar resultado? Será que vai conseguir voltar a andar? Sem dor?<br />
<br />
Ele apoiou o queixo numa das mãos, ainda mais próximo do garoto, mas antes que ele pudesse pensar em responder todas as suas perguntas, Jaydee se levantou quase de um salto.<br />
<br />
- Eu estou com fome, vou pegar alguma coisa na lanchonete e eu volto. Você quer alguma coisa pra comer enquanto fica aí? Ainda vai demorar uma hora, não é? Temos muitooooo pra conversar ainda. Aliás, como é o seu nome? Eu sou James Dean, pode me chamar de Jaydee. - ele se adiantou.]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[Eye Examination [Berthold]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=339</link>
			<pubDate>Tue, 28 Sep 2021 18:29:48 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=75">Monique</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=339</guid>
			<description><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Havia acabado de chegar na sala de espera do Hospital Geral de Cerise para sua primeira nova consulta com um oftalmologista. Não queria admitir, principalmente para o próprio pai, que estava desconfortável com a dor que acometia sua cabeça todas as vezes que precisava forçar a própria visão para fazer suas costuras à noite e para entender o que estava sendo projetado nos quadros de Limoges. O homem deveria estar muito feliz com seus dois irmãos recém-nascidos. Não valia a pena importuná-lo com aquele problema pequeno. <br />
<br />
Estava sentada em uma das cadeiras da sala de espera enquanto folheava uma revista médica, evitando pegar no celular e procurar mais por si mesma sobre sintomas de doenças degenerativas oculares. Sentia um forte frio no estômago, a garganta seca e uma dor de cabeça que não parecia querer lhe deixar toda vez que pensava na mera possibilidade de estar voltando a ficar cega. Se sua situação poderia piorar, além de se sentir solitária novamente, tentando esconder aquele sentimento desagradável com o franzir de seu cenho e o distanciamento social, era assustador a ideia de estar sendo um estorvo na vida do próprio pai mais uma vez, justamente quando ele estava prestes a ser tão feliz com aqueles novos bebês saudáveis. Não queria nem imaginar como a senhora L´mark reagiria se soubesse que sua enteada estava ficando cega de novo. <br />
<br />
Cruzou as pernas enquanto usava os shorts jeans e um par de tênis sociais, a blusa cinza por dentro do shorts com outra camisa, de um tecido mais leve, azul marinho, lhe cobria os ombros e trazia alguns broches que ela mesma havia desenhado. O cabelo estava preso em um rabo de cavalo, mas a mecha vermelha de sempre estava fácil de visualizar, desenhando seu rosto com a franja que teimava em crescer. <br />
<br />
Tentou ignorar o próprio celular de novo, erguendo o olhar para observar a sinalização do ambiente. Coçou o canto dos olhos, pensando que o ardor neles deveria ser por conta de uma possível cegueira. Respirou fundo de novo, tentando manter a calma, afastada das demais pessoas naquela sala de espera. Não havia muita gente, afinal. Apenas uma senhorinha acompanhada de um rapaz; e um senhor que já usava um par de óculos circulares. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
<br />
Desde que tinha chegado na cidade do interior da França a adaptação estava indo bem, mantendo a dieta e o tempo regular de sono, nem sentia falta de tomar os medicamentos para o humor. Mas foi só cair nos velhos hábito de jogar um pouco, e praticar exercícios com mais frequência que a aquela dor de cabeça bem pontual tinha retornado, fosse pela ansiedade e medo de piora da sua condição, ou de fato da sua condição de saúde naturalmente fragilizada, isso tinha sido o suficiente para a paranoia do alemão levá-lo a clínica para fazer os exames de rotina e checar se estava tudo bem.<br />
<br />
Queria em verdade alimentar a esperança que podia ao menos ser um hobbysta sem se preocupar em ficar definitivamente cego, como iria fazer um exame de vista, tinha deixado de lado seu par de lentes de contato, e tinha saído com seus óculos de grau, que tinham as lentes suficientemente espessas para deixa-lo pelo menos 20 anos mais velho, ou era o que sentia quando estava com ele. Naquele dia usava uma camisa de manga longa cinza escuro, e calças ajustadas ao corpo, tênis esportivo confortável, e carregava consigo uma bolsa de lado, com seus documentos, uma garrafa de água e aparelho celular. Tinha anotado no seu sketchbook o nome do médico e o horário da consulta, mas ainda estava com dificuldade se se situar com as placas e indicações em francês, diferente de Paris onde haviam mais placas em inglês para ajudar turistas.<br />
<br />
O rapaz de 1,85 chegou ao espaço da clínica, os cabelos loiros longos fazendo pequenas curvinhas, fazendo com que o rapaz constantemente colocasse os fios atrás da orelha, olhou em volta, notoriamente com dificuldade de se situar. E olhou para as pessoas próximas, um senhor de armação redonda que parecia não querer ser incomodado, e uma senhora que estava acompanhada de um neto, que também não queria importunar, e uma jovem adolescente que parecia distraída, nem estava mexendo no celular como a maioria das pessoas da idade dela estariam. Engoliu em seco, e caminhou até perto da garota, pigarregou de leve:<br />
<br />
-- Erh… com lincença…?! -- o sotaque era bem forte e o francês era dito sem muito manejo: -- Desculpe incomodar, mas aqui é a clínica ofta-... clínica de olhos? -- o rapaz perguntou baixando mais o tom a medida que ia falando a frase, com receio de está sendo mal compreendido. Como era difícil interação social.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Estava tão nervosa que quase deixou cair a revista quando um estranho se aproximou. Ergueu o olhar rapidamente e ficou surpresa ao perceber como o sujeito era bonito. Outro aspecto que lhe chamou a atenção foi o tom de voz dele e a dificuldade em especificar alguns termos em francês. <br />
<br />
- Clínica de olhos? - arqueou uma sobrancelha, estranhando a escolha de palavras dele, mas logo suspirou, percebendo que o nervosismo alheio se fazia presente, tal como estava nervosa também por estar ali. - Sim, aqui é a clínica de oftalmologia. - observou melhor o garoto bonito, achando curiosa também a escolha dele de roupas, uma linha de costura singular para alguém naquela cidadezinha do interior francês. - Pode falar mais baixo. O senhor não fala francês? Que língua o senhor fala? <br />
<br />
Separou a revista de lado e pegou o celular, mas não mexeu no aparelho, apenas guardou o mesmo no bolso. Apesar do garoto ser muito bonito, ele usava uns óculos de lentes grossas que lhe davam uma certa vontade de rir, mas controlou seu impulso em fazer chacota com a situação de outras pessoas, principalmente porque não sabia se em breve estaria em uma situação pior que a dele, precisando de uma bengala de guia ou um cão guia tal como seu pai já tivera usado um dia. O pensamento lhe fez encolher os ombros na cadeira onde estava acomodada, coçando o canto dos olhos de novo, o arder deles ficando mais intenso conforme pensava nas possibilidades de estar voltando a cegueira. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
<br />
O loiro pareceu meio tenso diante da fala da mais nova, será que tinha se feito entender? mas logo ela confirmou que estavam mesmo em uma clínica de oftalmologia, e respirou aliviado. Levou a mão sobre a boca, e se sentou uma cadeira de distância da mais nova, encolhendo os ombros e falando bem mais baixo, com vergonha de ter sido tão inconveniente: -- desculpe.<br />
<br />
Arrumou os óculos de grau no rosto, embora não gostasse de estar usando a peça, era o que lhe deixava com a visão mais próxima do “normal” se é que lembrava como era enxergar de forma normal. Ouviu a pergunta da morena mais nova, sobre que idioma falava, ainda tinha de melhorar muito seu francês, tinha tido uma eletiva bem tapa-buraco na antiga escola, e agora tinha de praticar todo dia: -- Eu vim da Alemanha, estou a algumas semanas na França, ainda não me acostumei bem com o idioma, e me perco com facilidade, desculpe pelo inconveniente.<br />
<br />
O mais velho, soltou um longo suspiro, passando a mãos pelos fios loiros longos, jogando-os para trás, para só então ajustar a postura e se sentar mais apropriadamente, mas ainda estava notoriamente nervoso: -- é minha primeira revisão com o médico novo, desculpe se eu pareço um pouco nervoso. -- Depois de se ajustar, e sentar cruzando as pernas de forma masculina: -- Eu sou, Berthold Konrad, perdoa a falta de modos em não me apresentar, e tals. <br />
<br />
Como era difícil interação social, seja com pessoas mais velhas ou pessoas mais novas, tudo era cansativo naquela nova cidade, isso pelo menos até se acostumar.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Ficou surpresa com o fato dele vir da Alemanha. Bem, ele parecia com as pessoas que costumava ver caminhando nas ruas da austríacas quando visitava seus avós paternos, mas nunca esperaria encontrar algum alemão em Cerise e justamente em um consultório “de olhos”. Notou também como ele parecia tímido e desconcertado por ter feito perguntas sobre sua origem. Ele ainda fez questão de justificar a causa do próprio nervosismo e, curiosamente, saber que o sujeito chamado Berthold Konrad, com aquelas lentes grossas, estava nervoso também, lhe deixava menos nervosa. <br />
<br />
- [Tudo bem, Konrad, eu me chamo Monique Biedermeier, meu pai tem um escritório de advocacia na cidade e eu estudo no Limoges Collet. Eu já moro aqui faz algum tempo, por isso, não fique nervoso em falar alemão, eu entendo muito bem.] - explicou em alemão para o rapaz que estava a uma cadeira de distância com mais calma, esboçando um sorriso discreto depois da sentença mais séria. Pensou melhor em ficar quieta e apenas deixá-lo sozinho contemplando a própria espera, mas ele havia escolhido sentar perto de sua pessoa, e ele estava nervoso, não como se não estivesse também, mas ele parecia bem mais deslocado ali que ela. - [Ãhn… também é a minha primeira consulta aqui no hospital geral… não conheço os médicos aqui, então não posso te ajudar com isso…] - deu de ombros, desviando o olhar com o incômodo dos olhos que ainda teimavam em arder. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
<br />
Estava envergonhado de quem sabe ter incomodado o tempo que a garota tinha, afinal se ela estava em uma clínica oftalmológica ela deveria está ali para alguma consulta, e não deveria está importunando a mesma. Respirou fundo e sentindo mal por aquilo, o rosto levemente corado pela vergonha, até ouvir o som familiar do seu idioma nativo. Olhou para o lado sem esconder a expressão surpresa diante do fato das tantas pessoas que tinha encontrado em Cerise, essa era a segunda que falava seu idioma, talvez fosse o ponto bom de estar em uma cidade turística:<br />
<br />
--[Que alívio encontrar outra pessoa que entende o que eu falo, eu ainda vou me acostumar com o francês, vou ter muitas aulas então vou ter tempo. Eu sou bolsista de artes em St. Clavier, sou fotógrafo e pintor, é um prazer conhecer você senhorita Biedermeier, sabia que têm um estilo artístico e arquitetônico baseado no seu sobrenome? Você tem família na Áustria?] -- comentou só depois se dando conta que podia estar sendo inconveniente com seus apontamentos, o loiro arrumou os fios claros e mexeu na armação do óculos que detestava mas tinha de usar:<br />
<br />
--[Bem, só de você conversar comigo no meu idioma nativo já é uma grande ajuda, obrigado, e desculpe se eu falei alto, ou soei inconveniente… não é proposital, eu só não sou bom socializando, imagina quando eu não entendo metade do que as pessoas falam e a recíproca também é verdadeira.] -- suspirou, conformado, ouvindo a atendente chamando o nome de uma pessoa que entrou para ser atendida, e aquilo lhe deu a perspectiva de que mais cedo ou mais tarde teria seu nome chamado, então a despeito do idioma saberia quando fosse sua vez.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
A morena ficou satisfeita com o fato do garoto ficar mais confortável por poder conversar com alguém que falasse alemão. Contudo, baixou o olhar, evitando encarar o loiro quando ele falou sobre ser bolsista em St. Clavier. A ideia do rapaz estudar na instituição lhe levava a crer que ele já deveria conhecer Yure Lukashenko. Afinal de contas, que aluno de St. Clavier não conhecia o ruivo? <br />
<br />
- [Meu avô.] - respondeu, esboçando um sorriso para disfarçar o desconforto com a memória da presença do rapaz hiperativo. - [Meu avô e minha avó vivem na Áustria. Eu costumo visitá-los no inverno. Meu avô é dono de uma multinacional que produz mobiliário.] - explicou, apesar do rapaz se desculpar por ser inconveniente, o que não julgava que ele estava sendo, afinal de contas ele não tinha como saber de seu relacionamento com o ruivo de St. Clavier. <br />
<br />
Analisou melhor o rapaz, arqueando uma sobrancelha ao constatar que era no mínimo curioso como ele poderia ser um bom fotográfico e pintor usando aquelas lentes tão grossas. <br />
<br />
- [Ah, me desculpe perguntar, mas como consegue fotografar e pintar…] - fez uma pequena pausa, apontando para os olhos dele, tentando ser discreta. - [Quero dizer… eu sou estilista… então... ] - sorriu, tentando ser mais educada após diversas experiências sendo grosseira com terceiros. - [Desculpe, não é da minha conta.] - pediu, abaixando o olhar para a revista em seu colo de novo, pensando que deveria ter ficado de boca fechada. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
<br />
Talvez não devesse começar a tagarelar com as pessoas porque elas falam em alemão, tinha tido sorte do seu colega de quarto falar, e agora não podia julgar que a garota quisesse conversar consigo só porque os dois falavam o mesmo idioma. No entanto, veio a surpresa quando a mais nova citou o avô, e confirmou que seus parentes eram de fato austríacos e que estavam relacionados ao mercado moveleiro. O loiro fez uma expressão de surpresa, afinal tinha sido um belo chute certeiro, não tinha aquele tipo de sorte todos os dias, era como encontrar com história viva num consultório oftalmológico. <br />
<br />
Logo veio perguntas em sua direção também, nada mais justo no final das contas, talvez a mais nova só estivesse tão nervosa quanto ele, o que era bem peculiar, mas considerando que ela era uma estilista, pelo que tinha dito, devia presar bem a própria visão. Sorriu simpático, e fez um gesto com a mão negando o pedido de desculpas:<br />
<br />
-- [Não precisa se desculpar, e não está sendo inconveniente, afinal eu que comecei a fazer perguntas do nada.]  -- O loiro arrumou o par de lentes de grau no rosto, e ouviu a atendente chamar outro nome, que não era nem o seu e nem o da morena: -- [Eu normalmente saio de lentes, só uso óculos quando estou nos dormitórios ou em dias de consulta, já estou prevendo que o médico vai usar aquele colírio que faz você ficar com as pupilas dilatadas por horas] -- suspirou resignado, mas buscando uma postura melhor na cadeira que estava sentado cruzando as pernas de forma masculina:<br />
<br />
-- [Eu também achava que não ia conseguir fazer mais nada depois que comecei a usar óculos, a pessoa fica nervosa porque está sempre com dor de cabeça, depois vem no médico ele usa o colírio do mal, e aí você testa lentes, no meu caso, como a minha é bem espessa e multifocal, então eu tive de testar várias vezes até acertarem, mas é porque o meu caso é mais complicado, quem dera fosse só miopia ou astigmatismo.] -- Riu um pouco desconcertado, sem saber se era exatamente o tipo de conversa que a outra garota precisava, mas nem conseguia esconder que ficava nervoso de estar ali: -- [Eu não tenho problemas pra pintar porque os óculos já ajudam, e fotografar a câmera e as várias opções dela, compensam minha deficiência visual] -- Até poderia dizer onde tinha material seu exposto, mas aí não faria sentido usar um pseudônimo se ele mesmo saísse dizendo quem era: --[ Você é estilista amadora certo? Já participou de algum evento? Onde eu poderia ver seu trabalho?] -- Já que os dois estavam nervosos, talvez falar sobre o que faziam, servisse pra acalmar os ânimos.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Conseguia ouvir as palavras do loiro ao seu lado, mas não conseguia tirar o olhar da porta do consultório onde a pessoa chamada havia acabado de entrar para fazer a consulta. Sentia um aperto desconfortável no próprio peito com a ideia de ser chamada em seguida. Não queria descobrir que voltaria a ficar cega tal como quando começara quando era criança. Talvez fosse melhor se já tivesse passado algum período cega, assim ficaria mais acostumada com a escuridão como seu pai. Na verdade, sequer fazia ideia do que Marco sentia sendo cego. Não fazia ideia se ele enxergava algum tipo de espectro ou coisa parecida. <br />
<br />
Olhou para o rapaz ao seu lado assim que ele riu, descrevendo sobre o próprio caso como algo mais complicado. Entreabriu os lábios como se quisesse perguntar algo a ele, mas mordeu a língua, julgando que verbalizar aquilo também era assustador, perguntar sobre a ideia de alguém chegar a cegueira. <br />
<br />
- Ah, tenho um… - fez uma pequena pausa para procurar nos bolsos por sua carteira e um cartão de visita de formato quadrado bem minimalista com seu nome e o endereço para seu portfólio virtual e mídias sociais. Acabou deixando a carteira cair no nervosismo e se abaixou para pegar o objeto, notando como a própria mão estava tremendo. - Desculpe. Aqui. <br />
<br />
Joshua não estava ali, seu pai não estava ali, nem ao menos havia pedido para sua madrasta lhe acompanhar. Não queria assombrar seu pai que havia acabado de ser pai de seus irmãozinhos com a ideia de que a filha imperfeita dele estava ficando cega de novo. Moveu a perna inquieta, pensando que talvez devesse desistir daquela ideia e ir embora do consultório. Poderia voltar ali depois, quando estivesse com Joshua, talvez. <br />
<br />
- Eu… vou no banheiro… - avisou, tentando ser mais educada com o recém apresentado artista. Poderia ir ao banheiro, lavar o rosto, lavar a nuca, se acalmar, quem sabe pulassem o seu nome na lista e acabasse tendo que adiantar aquela visita. Seria uma ótima escapatória. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
<br />
Ficou feliz da mais nova ter um cartão para portfólio, poderia acompanhar o trabalho dela a distância, puxou o aparelho celular e já buscou nas próprias redes para poder acompanha-la; Usou seu perfil profissional com seu pseudônimo de Araav, fez isso no automático, esquecendo-se momentaneamente que sua conta tinha um número grande de seguidores, as várias pinturas a óleo hiperrealistas e fotografias de lugares no interior da Alemanha. Não tinha postado nada da França para não dar bandeira de onde estava. Notou quando a mais nova deixou cair a própria carteira ela parecia que iria fazer mais que um exame de rotina, senão porque estaria tão aparentemente nervosa. <br />
<br />
Acenou positivamente, quando ela disse que iria ao banheiro, e logo em seguida teve seu nome chamado para ser atendido, não era de todo ruim, afinal significava que ela iria em seguida e poderia esperar pra fazer companhia se ela quisesse é claro. Não queria parecer um tarado aleatório seguindo garotas mais novas.<br />
<br />
Seguiu para consulta, e foi atendido sem maiores problemas, não teria de mudar as lentes ainda, e lhe foi passado um colírio pra lidar melhor com o clima e descansar a vista no fim do dia. Antes de sair, avisou para o médico que sua amiga estava nervosa e que iria se consultar também, e que ele fosse compreensivo, o médico respondeu puxando um docinho que destinava a crianças mais novas. No fim das contas era bom o médico que lhe acompanharia pelo tempo naquela cidade ser carismático.<br />
<br />
Saiu da sala em tempo de reencontrar a mais nova, e erguer o polegar em sinal positivo, se aproximou: -- [Não passei por nenhum colírio malvado dessa vez.] -- o mais alto sorriu de forma carismática: -- [se não for lhe incomodar, eu posso esperar você sair da sua consulta, podemos tomar um suco, ou algo assim. Se bem que eu nem sei andar direito na cidade, mas não é nada que um google não resolva.]<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Voltou do banheiro quando já estava prestes a ser atendida. O rosto estava pálido como se sua pressão tivesse caído. Encontrou o loiro de boa aparência antes de entrar e foi pega de surpresa pelo sorriso carismático e a oferta de espera. Demorou alguns minutos até concordar com um aceno positivo, adentrando no consultório para ser atendida. <br />
<br />
Saiu da consulta algum tempo depois, as bochechas vermelha como se tivesse chorado e um pirulito colorido em mãos. Acenou para o oftalmologista que havia lhe atendido de forma bastante paciente e compreensiva, explicando-lhe todos os detalhes de sua mais nova condição de visão. Usava um lencinho de papel macio que o médico havia lhe oferecido para secar as lágrimas que havia justificado serem por conta do colírio. <br />
<br />
- Ah, você esperou mesmo. - disse em francês, só então se recordando que o rapaz falava mais em alemão. - [Desculpe. O colírio irritou meus olhos. Você ainda quer beber um suco?] - olhou para o próprio docinho, oferecendo para o loiro mais alto em sinal de gentileza. - [Você estuda em St. Clavier, não é? Posso te mostrar um lugar que vende sucos e lanches saudáveis na cidade que fica perto de lá. Acho que pode ser mais prático para você.] - ofereceu, sentindo o celular vibrar finalmente no próprio bolso. <br />
<br />
Fez uma pequena pausa antes de saírem, aguardando a resposta do rapaz enquanto verificava o número de notificações de seu Instagram. Arqueou uma sobrancelha diante do número alto e dos comentários, desbloqueando o celular para verificar o que havia acontecido rapidamente. <br />
<br />
- [Araav é você? Woah.] - abriu a conta do portfólio alheio, verificando o número de visitas da página e de seguidores. - [Você é famoso?] - questionou sem conseguir esconder o próprio sorriso de interesse ao apreciar as obras do outro, reconhecendo alguns cenários da Alemanha nas produções do outro. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
<br />
Era fácil pro alemão notar a diferença entre um colírio pra dilatar as pupilas e choro por nervosismo, e considerando o fato de que a mais nova já parecia mal antes de ir pra consulta em si, tinha pensado bem em esperar que ela saísse. Imaginava se ela estava tão apreensiva com a consulta se ela não deveria ter vindo com os pais ou mesmo com algum amigo, mas não era íntimo o suficiente para perguntar aquelas questões. Sorriu de volta de forma cordial, quando ela retornou a falar em alemão. Concordou com a cabeça quando foi questionado sobre estudar em St. Clavier:<br />
<br />
-- [Ah eu agradeço, eu já caminhei pela cidade um pouco registrando alguns lugares legais em fotografia, mas não elenquei nenhum como meu favorito ainda.] -- Negou com a mão sobre o docinho, gesticulando que era dela, manteve a distância da mais nova, deixando que ela guiasse o caminho, para não parecer que estava invadindo o espaço pessoal dela. E teve de dar passadas mais curta, já que era bem mais alto que ela, tinha de se atentar para não parecer grosseiro. <br />
<br />
Mas parou de caminhar no lugar quando a mais nova lhe perguntou de forma direta sobre ser “Araav” e a surpresa no rosto foi genuína. Puxando o próprio celular e vendo que tinha seguido o perfil da menor com o seu perfil de trabalho, deseguiu, e não podia simplesmente ir com sua conta pessoal porque isso chamaria ainda mais a atenção. Se virou para a mais nova meio cabisbaixo: -- [Desculpa! Eu devia ter prestado atenção com qual perfil eu estava logado, ai ai… espero que as pessoas não te incomodem muito por causa disso, não vou poder seguir com meu perfil pessoal você, senão eu me delato. ai ai… que confusão].<br />
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O loiro coçou os fios claros na nuca e respirou fundo guardando o celular de volta ao bolso, e agora sentindo que devia uma explicação melhor para a mais nova: -- [ Bem, eu não vou dizer que não sou famoso, até que sou, mas eu posso explicar melhor depois da gente sentar, falar as coisas assim no meio da rua é meio desconfortável você não acha?] -- pontuou aquilo, imaginando que realmente seria melhor pro humor dos dois tomar um suco, e ter uma conversa amigável em algum restaurante, além de que Monique não teria de ficar olhando pra cima todo tempo.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
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Aceitou que o docinho lhe pertencia e abriu o pacote do mesmo, jogando o plástico em uma lixeira no caminho enquanto levava o doce até a própria boca. Ele trabalhava com fotografia, deveria ser um trabalho legal e um rapaz bonito sendo um bom contato para trabalhos futuros também era uma boa ideia. Parou no meio do caminho, chupando seu pirulito e arqueando uma sobrancelha diante da reação assustada do outro. <br />
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[- Hm. Claro. ]- concordou com ele, achando melhor não insistir já que não era curiosa e ele poderia não querer falar sobre a própria fama com ela. <br />
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Seguiu até o lugar que vendia sucos e escolheu uma das mesas dentro do estabelecimento, imaginando que o sujeito deveria ser um tipo famosinho que não queria tanta atenção de terceiros assistindo. Pegou novamente o próprio celular e abriu o aplicativo do lugar, mostrando a tela para o loiro. <br />
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[- Eu sugiro baixar esse aplicativo. Eu conheci esse lugar há um tempo. Ele serve muitas opções veganas e naturais de lanches, então o cardápio você pode encontrar baixando o aplicativo daqui ou indo até o caixa fazer o pedido diretamente.] - deixou o celular sobre a mesa para que ele usasse. - [Vá em frente, tem várias opções de combos. As batatas aqui são orgânicas e bem gostosas assadas. Eu gosto muito do hambúrguer de falafel.]<br />
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Explicou para o loiro, cruzando os braços em seguida e se acomodando com no assento da mesa que havia escolhido, piscando algumas vezes, ainda incomodada com a visão desfocada. Ainda conseguia lembrar de todo o desconforto no consultório oftalmológico.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
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Não foi uma caminhada longa até o restaurante sugerido pela morena mais nova, e após se sentarem no local de ambiente agradável, Monique desatou a falar sobre como o local era prático com menu on-line e opções vegetarianas saudáveis. Em verdade ficou surpreso que uma pessoa com menos de 60 anos  se preocupe em ter uma alimentação saudável movida a falafel, seria ela uma pessoa com intolerâncias alimentares? Não podia julgar, embora não acreditasse que alguém de bom grado trocaria um bife por um prato de salada.<br />
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O loiro se sentou na cadeira a frente, deixando que a mesa ficasse entre os dois para não forçar uma proximidade que não tinha com a recém-conhecida: -- [Obrigado pela paciência em me explicar, eu realmente não sei o que pedir, porque, pra ser bem sincero, eu nem passo perto de uma alimentação saudável, eu vivo de Nuggets e Macarrão Instantâneo.] - Comentou coçando a nuca de um jeito meio desconcertado, pegando um combo padrão, com batata frita e refrigerante:<br />
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-- [Bem, antes de mais nada, eu peço desculpas se o meu engano causar algum tipo de situação desconfortável no seu perfil.] -- Puxou o próprio celular, abrindo na sua conta de trabalho, que tinha o nick de Araav: -- [Eu sou pintor e fotógrafo, e faz uns meses que eu venci uma competição em Berlin e tive quadro premiado, e por consequência toda uma exposição, que teve grande repercussão. Até então eu só tinha exposto na Alemanha, e ninguém que me segue sabe quem eu sou, ou que eu estou fora do meu país de origem no caso.] -- comentou tentando ser o mais explicativo possível, embora parecesse que estava só se gabando:<br />
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-- [Como ser pintor profissional nunca tinha sido meu primeiro objetivo, afinal eu comecei a pintar como parte de um processo de terapia, então eu sempre assinei com um pseudônimo mesmo, afinal, pensei que não daria em nada, e agora, eu sou tímido demais pra assumir tudo que o nome Araav representa ou significa.] -- Não sabia se admitir que era um covardão era um bom jeito de iniciar uma conversa com uma pessoa recém conhecida, mas como havia a possibilidade de ter causado algum contratempo para a mais nova, se sentia na obrigação de explicar tudo, e o lado bom de estarem conversando em alemão, era que a chance de algum francês aleatório entender o que diziam era mínima.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
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Fez o pedido juntamente com o loiro, estranhando o fato dele precisar se explicar sobre a própria alimentação. Não julgava o rapaz, já havia passado pela fase de comer muito mal, principalmente quando estava animada com algum projeto, acabava gastando suas madrugadas costurando ou interagindo pelo celular em suas mídias sociais para divulgar mais de suas produções. Estranhou ainda mais quando ele começou a se gabar da própria fama e premiações, pensando em algum comentário sobre como ele deveria ser muito “humilde” por não revelar o próprio rosto promocional para os fãs dele e que ela conseguia lidar muito bem com a pressão. <br />
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Acabou fazendo uma expressão surpresa ao perceber que ele de fato estava se explicando demais por ser tímido, ainda mais quando ele fez questão de destacar que fotografava por conta da terapia. Lembrou por um instante de Viola e de todo o problema causado por sua pessoa ao ponto da garota chegar a tentar suicídio. <br />
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- [Meu pai é advogado.] - respondeu logo depois que os lanches dos dois chegarem. Demorou alguns instantes experimentando seu milkshake verde com hortelã e chocolate. - [Não se preocupe comigo. Se algum fã seu vier me encher o saco e eu ficar sem paciência, posso salvar os prints, descobrir de onde a pessoa é, e processá-la.] - explicou como se fosse a coisa mais óbvia e simples do mundo a se fazer. <br />
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Ergueu o olhar para observar melhor o rapaz, pensativa sobre o tipo de terapia que ele fazia. <br />
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- [É muito difícil…?] - começou, lembrando que quando começou a sair com mais pessoas por conta do ex namorado, ele costumava usar essa tática de sempre se abrir primeiro para que a pessoa se sentisse confortável e menos julgado ao falar dos próprios problemas. - [Quero dizer, eu já tentei fazer terapia uma vez. Na verdade, eu não tentei, eu tive que fazer. Meus pais... ] - fez uma pequena pausa, lembrando do assunto que lhe deixava desconfortável. Franziu o cenho, inquieta. - [... meus pais se separaram quando era muito nova. Daí eu lembro que frequentei algumas sessões com uma psicóloga de crianças. Mas depois, acabou sendo uma perda de tempo.] - deu de ombros, puxando o canudo e fazendo um ruído com as bolhas ao sugar a bebida grossa. - [Sua terapia deve ter dado certo. Suas fotografias são bem legais. Já pensou em fotografar pessoas? Tipo, em passarelas de moda?] - perguntou, interessada. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
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A resposta da morena mais nova as suas preocupações acerca de um possível incômodo nas redes sociais veio de forma pontual na afirmação de que o pai dela era advogado. O que devia ser bom considerando que se de fato chegasse a se tornar uma situação ruim para a mais nova ela estaria respaldada de como se defender. Saber daquilo trouxe alívio a expressão do alemão, e o deixou mais animado para apreciar seu lanche vegano, que parecia ao menos bonito, o que lhe dava uma ideia muito melhor de comida saudável, se todo prato de salada parecesse tão apetitoso talvez tivesse mais disposição pra comer. <br />
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Tinha acabado de dar uma boa mordida no hambúrguer de falafel estranhando o gosto, e franzindo as sobrancelhas em estranheza, mas em seguida acenando positivamente, como se aprovasse o sabor. Foi bem em tempo de Monique lhe perguntar se era difícil, e terminou de engolir, para devolver o sanduíche para a bandeja, buscando um guardanapo para limpar a boca, antes de ouvir o complemento da pergunta. E não a interrompeu enquanto ela concluía o próprio raciocínio, falando sobre fazer terapia na infância por causa do divórcio dos pais, era um tema até meio sério pra se tratar com um estranho, e nem sabia se tinha algo de bom pra falar na verdade:<br />
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- [Erh, uma pergunta por vez… como eu disse, eu não comecei a fotografar com o intuito de ser profissional, então nunca fotografei nada além daquilo que eu via na rua ou ao meu redor, e eu sou muito tímido pra ir numa passarela ou em qualquer lugar com muita exposição eu certamente iria ficar muito ansioso e não iria conseguir fotografar.] - riu um pouco sem graça, e levou a mão a nuca coçando a área brevemente, e desviando o olhar, sem saber exatamente como responder se fazer terapia era bom ou não. <br />
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Acabou apoiando os cotovelos na mesa e se curvando um pouco, e cruzando os braços na frente do corpo, em uma postura até um pouco defensiva: - [Eu não sou o melhor exemplo pra dizer pra alguém fazer terapia, porque o que eu tenho de tímido eu tenho de teimoso, mas não posso negar que a terapia me ajudou a lidar com meus problemas de saúde.] - O loiro levou a mão até a armação com as lentes de grau e as tirou do rosto, o mundo passando a ser um borrão ao redor, exceto pelos óculos que segurava ainda bem próximo do rosto. Sem óculos Berthold era estupidamente mais bonito, a ponto de algumas pessoas nas mesas vizinhas estarem eventualmente espiando os dois adolescentes conversando: - [Eu não sabia que tinha uma doença degenerativa da visão, eu sofri um acidente há um ano e meio que desencadeou a cegueira, eu fiquei cego totalmente, depois com tratamento a minha visão voltou parcialmente, e não tem cirurgia corretiva, embora agora tudo esteja estabilizado.] - O loiro não queria encarar a morena enquanto falava daquelas coisas, porque se ela fizesse uma cara triste era bem capaz de chorar, então apenas baixou a mão que segurava o par de lentes, e guiou o rosto na direção da mais nova e sorriu de forma gentil: - [É muito chocante quando as coisas mudam de uma hora pra outra, seus pais com o divórcio, eu com meu problema de saúde, talvez a Monique criança não conseguisse perceber o benefício da Terapia, e por isso você acha que não serviu, mas talvez o seu eu de agora veja algo de bom pra tirar dela. Mas só quem pode dizer isso é você.]<br />
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Se sentia sendo um pouco injusto porque estava até romantizando um pouco do processo de tratamento, no geral, era mais um circuito sofrido de aceitações de realidades duras e de amadurecimento pessoal severo. Mas cada um tinha uma experiência muito particular, e para Berthold no geral as coisas que envolvia seus sentimentos eram sempre muito intensas, não sabia se para os outros era da mesma forma. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
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Começou a comer as batatas rústicas de seu lanche, encarando o loiro mais alto com o ar de quem não entendia o que ele queria dizer ao certo com o receio de lidar com eventos de moda. Bem, lembrava que seu padrinho Vivi tinha um certo desgosto por multidões. Podia lembrar ainda de quando foi sua última visita ao parque de diversões da Disney com a filhinha do zelador Tamotsu. <br />
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Notou como o sujeito estava evasivo ao remover os óculos e falar sobre como a terapia o tinha ajudado. Os olhos castanhos se abriram um pouco mais e ficou nitidamente surpresa quando ele falou sobre a tal doença degenerativa da visão. Parecia ser muita coincidência para um encontro como aquele. Baixou o olhar, perdendo o apetite por um instante enquanto usava o guardanapos para limpar os dedos e cruzar os braços também, defensiva. <br />
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- [Sei como se sente.] - admitiu, levando uma das mãos até o próprio queixo, observando as mãos do sujeito a sua frente enquanto falava. - [Eu fiquei cega quando criança. Mas foi por pouco tempo. Daí meus pais se separaram.] <br />
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Respondeu para o garoto, respirando fundo antes de esboçar um sorriso em um misto de conformidade e frustração, arqueando as sobrancelhas diante daquela situação. <br />
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- [Hoje eu estava pensando que o médico ia dizer que eu ia voltar a ficar cega.] - admitiu, se sentindo mais confortável do que nunca por poder falar em alemão. Esfregou um dos olhos com as costas das mãos, suspirando resignada. - [Parece que eu vou precisar só de óculos… por enquanto.] - completou, sentindo-se estranhamente confortável com o sujeito que parecia compartilhar de um problema como o seu. Era estranho porque não esperava que em toda Cerise fosse encontrar alguém que pudesse lhe ouvir sobre aquele problema e que se sentisse confortável em falar sobre. Talvez fosse o fato dele ainda ser um estranho para ela. Falar sobre o assunto com os amigos que também eram amigos de seu ex namorado lhe dava um nó no estômago, principalmente por lembrar de como o assunto havia desencadeado toda a situação do término. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
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Não era exatamente a melhor pessoa para servir de apoio emocional, e nem sabia se tinha falado algo útil, naquele momento sentia-se nervoso e meio inútil, no fim, mesmo que fosse uma pessoa recém conhecida devia ser ao menos capaz de manter uma conversa inteligível. A afirmativa da mais nova dizendo que sabia como se sentia, o fez recolocar o par de lentes de grau a fim de ver as expressões, não queria ter feito ela chorar sem querer, e quando notou ela passando as costas da mão no rosto, engoliu em seco imaginando que tinha feito algo muito errado em falar de si mesmo daquela forma leviana sem saber se o assunto poderia ser algum tipo de gatilho pra morena mais nova.<br />
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Logo veio uma informação mais séria, que fez com que o sangue do alemão ficasse frio, porque sabia que durante o período que esteve adoentado foi quando seus pais mais brigaram, e a perspectiva deles se divorciarem por sua causa, já tinha lhe ocorrido muitas vezes. Não conseguiu comentar nada imediatamente, porque tinha sua parcela de inseguranças sobre o assunto, nem podia dizer que estava verdadeiramente adaptado a viver daquela forma pela metade, e demorou ainda para organizar os pensamentos e conseguir elaborar uma resposta:<br />
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-[No geral acho que a parte mais difícil sempre é a adaptação, porque você entender algo racionalmente é diferente de você aceitar emocionalmente.]- Tentou soar amistoso, tomando um gole de água porque estava um pouco apreensivo: -[Não que sirva de consolo, mas usar óculos não é tão ruim, e você sempre pode substituir por lentes.] - Pareciam palavras duras pra se dizer, mas era verdade que costumava ser duro consigo mesmo na maior parte do tempo: - [Se for usar lentes lembre de por um lembrete no celular pra tirar antes de dormir. É péssimo acordar com os olhos ressecados.] -  o loiro riu um pouco sem graça, diante do próprio comentário, mas era como estava lidando, não tinha como oferecer nada melhor, porque não tinha achado um jeito melhor de levar as coisas.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
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Voltou a comer ao ouvir as palavras do loiro, evitando encará-lo durante o processo. Era surpreendente já que tivesse falado tanto sobre sua vida pessoal para alguém que havia acabado de conhecer. Talvez ainda estivesse emocionalmente abalada por conta de toda a ansiedade em ir no oftalmologista se consultar por conta da dor de cabeça constante devido a visão. <br />
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- [Eu não acho óculos ruins. Meu pai usou óculos por anos, a minha madrasta usa óculos.] - deu de ombros. - [Não vai fazer diferença se eu começar a usar óculos ou não. Exceto quando eu for para as competições de natação e hipismo.] - explicou, pegando seu hambúrguer com falafel. <br />
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Fez uma pequena pausa, observando o rapaz em silêncio antes de arquear a cabeça, ponderando sobre a terapia do outro. <br />
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- [Por que veio estudar aqui em Cerise? Você parece legal, mas não parece filho de gente rica. Você é bolsista por causa da fotografia? Eles sabem que você é famosinho?] - resolveu perguntar, curiosa. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
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O loiro respirou mais aliviado quando o clima tenso pareceu se dissolver, e aos poucos cada um dos dois voltava para a própria refeição parecendo que o tempo que tinham parado para trocar aquelas notícias e sentimentos ruins fosse um momento de “parada”; Mas que agora as coisas estavam voltando ao seu lugar e cada um podia dar atenção ao seu sanduíche abandonado de falafel. Escutou enquanto a morena mais nova narrava que tanto seu pai, quanto sua nova madrasta usavam óculos e que por isso a imagem mental de se vê usando óculos não causava desconforto, e que aquilo só iria lhe atrapalhar nas competições esportivas.<br />
<br />
Engoliu em seco, porque lembrar de esportes lhe deixava amargo, e aquilo fez o restante do seu apetite sumiu, deixou o sanduíche de lado com apenas duas mordidas, e deu atenção ao suco tomando um gole para engolir aquela sensação ruim que tinha lhe acometido. Tanto que não conseguiu adicionar qualquer comentário sobre os esportes que a morena mais jovem tinha citado. Apenas quando ela lhe perguntou sobre seus motivos de estar em Cerise que o alemão conseguiu organizar os próprios pensamentos:<br />
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- [Eu sou bolsista de Artes, está correto, e o fato de ter conseguido expor contou pontos favoráveis pra minha aceitação, porém está na minha matrícula como requerimento manter isso em sigilo, não quero nenhum professor comentando sobre com outros alunos, pode causar desconforto, muitos deles podem sonham em expor em galerias eu iria parecer metido por já ter conseguido isso. Não quero fazer alguém desistir de seguir seus sonhos por se sentir uma farsa ou um impostor.] - o loiro falou de forma bem pontual, não queria ser exemplo e nem motivo de alguém sentir-se uma farsa ou muito menor do que poderia ser: - [E de fato, se eu não tivesse conseguido essa bolsa jamais estudaria em um local tão fino, até mesmo os meus quadros quando são vendidos, eu tenho de economizar o dinheiro pra comprar outros equipamentos e materiais.] - comentou sem ter vergonha de admitir aquele ponto, no fim das contas era um dinheiro limpo, e lhe fazia depender menos dos pais para manter sua profissão como pintor e fotógrafo.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
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Franziu o cenho com o comentário dele e a explicação sobre não querer que ninguém se sentisse uma farsa por ele ter conseguido sucesso tão cedo. Discordava daquele ponto de vista, ainda mais por ele ter um boa aparência e ser educado, seria um artista muito bem aceito e reconhecido pelo meio. Só esperava que ele não fosse tão introspectivo a ponto de permitir que outros tirassem vantagem de sua posição. <br />
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- [Se a pessoa desistir do próprio sonho é porque não era tão importante assim para ela.] - respondeu, sem se preocupar dessa vez em ser grossa com as próprias palavras. - [Não está sendo muito pessimista? Talvez outros artistas olhem para você como uma inspiração. Tipo, você já ficou cego e hoje tem essa fama secreta.] - deu de ombros, ajustando-se no assento enquanto dava mais uma mordida no próprio sanduíche. Mastigou e engoliu. - [Além disso, talvez algumas famílias queiram te contratar para trabalhos. Não se sabe.] <br />
<br />
Buscou o celular, verificando novamente a conta secreta do loiro e as obras que ele tinha publicadas. Ponderou por um instante, buscando um número para contato ali. <br />
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- [Você não gosta muito dos holofotes, não é mesmo? Mas eu posso ter o seu contato? Às vezes eu participo de alguns eventos em Paris. Eventos de moda, desfiles.] - fez uma pausa, parando para observar a reação do loiro. - [Teria disponibilidade para algum trabalho como fotógrafo?] - questionou, imaginando que seria interessante também para seu portfólio trabalhar com um artista tão famoso. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
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Talvez fosse difícil pros outros entenderem seu ponto, afinal, era sim um pessimista de marca maior, e talvez a morena não imaginasse o quanto estava certa naquele ponto, mas preferia não comentar sobre as coisas que desgostava em si mesmo. Abriu a boca pra responder sobre porque evitava ficar em evidência, mas ela engatou na conversa lhe pedindo um número pra contato. Ela parecia uma pessoa “normal” não era nenhum tipo de stalker maluca, e nem parecia uma pessoa mal intencionada, podia estar errado? Mas estava sempre deixando seu lado pessimista falar mais alto, poderia daquela vez dá um voto de confiança, não é mesmo.<br />
<br />
- [Não sei se eu sou o profissional mais indicado pra fotografar passarelas, mas se quiser fazer um ensaio conceitual, está mais dentro do que eu costumo trabalhar.] - Respondeu de forma bem sincera, afinal não era sua especialidade lidar com moda diretamente, embora gostasse e achasse muito interessante, era mais um consumidor, do que um estudioso de fato: - [é um misto de coisas, sou tímido, não quero que as pessoas associem minha imagem ao que eu produzo, se elas gostarem dos quadros que seja pelo que eles comunicam, e não necessariamente, por eu ser um “exemplo de superação” eu sei que sou um deficiente, mas se as pessoas começarem a acompanhar meu trabalho pela narrativa do “cego que pinta quadros” isso vai me deixar mais frustrado do que feliz.]<br />
<br />
Não sabia se a garota mais nova iria entender, puxou o sketchbook e passou rapidamente nas folhas por vários estudos de rosto e formas que tinha feito desde que tinha chegado, alguns em vermelho por causa do colega de dormitório, e buscou uma folha em branco. Lá anotou seu número pessoal, para o qual ela poderia mandar mensagens, e deixou destacado o e-mail de trabalho que usava, não queria que as pessoas ligassem para si e ouvissem sua voz a menos que fosse estritamente necessário. Fez um desenho ligeiro de uma Monique de busto com pedaços de pão nas bochechas, em um retrato simplificado de poucos traços e estendeu na direção da menor.: -[Pode mandar mensagem sem ser só por trabalho também, não tenho amigos ainda nessa cidade ainda.]<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
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Sorriu para o rapaz com um ar mais relaxado e tomou o último gole de sua bebida, concordando em silêncio enquanto ele sugeria um ensaio conceitual. Preferia até trabalhar com uma ideia mais conceitual para seus projetos pessoais, para produções comerciais, conseguia fazer o trabalho muito bem com profissionais freelancers já conhecidos por sua avó. Ponderou, todavia, quando ele mencionou que não queria ser associado à premissa de um profissional que era um “cego que pintava quadros”. Respirou fundo, concordando por um momento antes de responder de novo: <br />
<br />
- [Bem, o seu público sempre vai tirar as próprias conclusões, mesmo que você se explique. Isso meio que não depende muito de você. Mas eu vou respeitar o seu modo de se posicionar como artista. Alguns artistas não gostam de ter sua imagem associada às obras que produzem. Alguns nem sequer vão aos lançamentos de suas coleções.] - deu de ombros, encarando o loiro. - [O importante é fazer o que você gosta.]<br />
<br />
Ficou observando as breves imagens do sketchbook alheio repleto de rascunhos. Ficou ainda mais interessada quando ele acabou fazendo um rascunho seu, o que lhe fez sentir as bochechas aquecendo, corando, ao se sentir animada com a ideia de ganhar um desenho, ainda que fosse só um rascunho, de alguém bonito e com uma habilidade artística invejável. <br />
<br />
- [Ah, não se preocupe, Berthold. Eu também não tinha muitos amigos quando vim para cá. Tenho certeza que vai fazer bons amigos em St. Clavier. Tem garotos bem legais por lá. Conhece o Charles? Um loirinho, com cara de enjoado, nessa altura... ] - gesticulou, até animada ao recordar do rapaz. - [Tem o Oliver, ele é bem forte, mas tem cara de fofinho, ele costuma andar com o Lui, que é meio calado, mas todo mundo respeita quando ele abre a boca pra falar, tem um--] - fez uma breve pausa, diminuindo o sorriso ao se recordar do ex. - [... um ruivinho, ele é meio idiota, mas tem bastante energia, sabe? Lukashenko, o nome dele.] - desengasgou, mantendo o sorriso apenas por educação dessa vez, fazendo uma pausa para pegar algumas poucas batatas fritas para comer. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
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Aparentemente sua narrativa tinha sido entendida, ao menos dentro do que tinha visto e compreendido da jovem a sua frente, ela conseguia ser ponderada e respeitar suas posições o que era um bom sinal, e realmente aumentava as chances da garota se tornar uma amiga. Terminou de comer sua refeição concordando com um aceno de cabeça que o importante é fazer algo que se gosta no fim das contas. Deixou que ela tomasse tempo olhando seu Sketchbook afinal quem não desenhava costumava ficar mais entretido com rascunhos conceituais.<br />
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Voltou a dar atenção para a mais nova quando ela comentou que também tinha demorado para se enturmar logo quando tinha chegado a França, o que era difícil de imaginar, afinal ela parecia uma pessoa muito agradável. Estranhou a altura indicada pela mais nova, porque não lembrava de ter alunos tão crianças na instituição masculina, e assentiu positivamente tentando associar os nomes, mas como eram todos os primeiros nomes não tinha intimidade pra chamar ninguém assim, mas o último nome foi bem fácil de lembrar:<br />
<br />
- [Ah, o Presidente do Conselho Estudantil o tal de Lukashenko, eu não o conheço pessoalmente, meu colega de quarto que falou com ele por causa do clube de ciências que ele quer fundar, mas disse que ele era um pouco estranho, deixa lembrar o que ele falou… hmm-...!] -  o loiro fez uma pausa, pra pensar, arrumando o par de lentes de grau no rosto: - [Algo como “amigável sem segundas intenções”, tipo, eu sei que eles saíram pra jantar em algum restaurante da orla, mas que o tal de Lukashenko não tentou “tirar nada dele”. Daí eu não sei se ele quis dizer que o garoto não cantou ele, ou se não quis tirar dinheiro dele. Esse meu colega de quarto é meio ruim de se expressar, às vezes ele fala como um “idoso”.] - O loiro sorriu de forma mais descontraída: - [Pelo que eu vi lá do Presidente do Conselho Estudantil, ele é popular, bonito e amigável, mas é linha dura e tá sempre pegando no pé dos alunos do primeiro e segundo ano]. <br />
<br />
Concluiu o seu ponto, porque como só o tinha visto de longe não tinha como ter uma opinião formada sobre ele, então o loiro pegou o sketchbook de volta e folheou buscando um dos rascunhos que tinha feito do colega de quarto: - [Aqui meu colega de quarto, o nome dele é Evelyn Newell, ele também é da Alemanha pra minha sorte, nosso quarto é chamado de consulado Alemão porque a gente só conversa nesse idioma.] - Nos rascunhos são vários desenhos de rosto de Evelyn sentado a escrivaninha, como se estivesse pensativo, várias expressões, e alguns rascunhos sobrepostos de mudança de posição das pernas, os cabelos marcados em vermelho vivo com marcador.<br />
<br />
<br />
- [Sobre alguém dessa altura, seria um anão? Porque só uma criança teria essa altura, e eu não lembro de ter visto ninguém com cara de ter menos de catorze anos.] - o loiro concluiu a fala pensativo, afinal, St. Clavier admitia alunos para o ensino médio a partir de 14 anos, bem lembrava do livro de instruções da escola, e ainda bem que ele estava escrito em vários idiomas.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Ficou levemente surpresa ao descobrir como Berthold enxergava Yure. Baixou o olhar, pensando em quanto ele deveria ter mudado desde quando haviam começado a namorar até o término. Ficou pensativa por um momento. Desde quando havia começado a sair com o ruivinho, sua personalidade havia melhorado, conseguia conversar mais abertamente com seu pai e até mesmo estava conseguindo manter uma boa convivência com algumas garotas em Limoges. Contudo, imaginou que talvez sua convivência com ele não tivesse melhorado a personalidade do outro, apenas causado o efeito reverso. E agora que ele estava livre de sua companhia, poderia voltar a agir como uma pessoa responsável com os amigos. Sabia que ele deveria amadurecer quanto as próprias vontades. Só esperava que ao menos ele tivesse conseguido descobrir o que queria fazer do próprio futuro. <br />
<br />
- [Não se preocupe, Lukashenko é bem ruivo. Não tem como confundir ele no meio das pessoas.] - respondeu, tentando soar mais neutra e menos reflexiva. Observou o desenho do colega de quarto do loiro e arqueou uma sobrancelha diante da imagem desenhada. Riu baixinho com a ideia do quarto dos dois ser chamado de “consulado alemão”. - Então eu deveria começar a conversar contigo em francês para que se acostume? - perguntou em francês e, apesar da língua, soou um pouco mais devagar, tomando cuidado com os trejeitos do idioma que já estava habituada a falar. - [Charles é o nome dele. Charles Eadgar. Ele é cadeirante e gosta muito de jogos, video games, ele digita muito rápido também.] - explicou, apoiando os cotovelos sobre a mesa e o queixo nas mãos abertas em formato de conchas, destacando as unhas curtas e o esmalte mais básico que estava usando já que ainda não havia saído para a manicure naquela semana. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
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O loiro ficou pensativo diante da explicação dada sobre o tal ruivo presidente do conselho estudantil, só o tinha visto de longe e ele não parecia feio, mas parecia muito novo pro seu gosto pessoal, ele tinha um rosto bonito, e com certeza ficaria mais bonito em uns dois anos, mas estava fora da sua área de interesse. Berthold arrumou o par de lentes de grau no rosto antes de voltar a encarar a mais nova a sua frente:<br />
<br />
-- [Como eu vi de longe e não conversei com ele só posso dizer que ele tem um rosto bonito, mas ainda é muito carinha de criança pro meu gosto pessoal.] - Comentou de forma despretensiosa, sem se incomodar de falar abertamente do seu interesse por outros homens, mas deixando claro que preferia gente mais velha. Prestou atenção no francês falado pausadamente para sua pessoa:<br />
<br />
-- Ah eu entendo francês nesse nível, o meu problema é mais com expressões idiomáticas, e contrações de frases, eu consigo assistir aula e ler textos, mas as vezes conversar na rua é difícil. - o loiro sorriu mais animado, falando no seu francês carregado por seu sotaque alemão, afinal estava a pouco tempo naquele país pra ter seu sotaque diluído:<br />
<br />
-- [Ah, agora faz mais sentido, eu não lembro de já ter visto, eu sei que o presidente do conselho disciplinar também é cadeirante, e ele é bem bonito. Mas eu não ando aprontando nada pra cair no disciplinar, e nem estou em nenhum clube pra ir no conselho estudantil, sou um aluno que pode ser considerado de mediano pra ruim]. -- O loiro sorriu da sua própria desgraça como estudante: -- [Dos alunos de St. Clavier que eu já conhecia antes de entrar foi o Arman M. Jhonson, que é fotógrafo e pintor e eu já acompanhava o trabalho dele pelas galerias.] <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Ouviu a opinião do outro sobre Yure e concordou em silêncio. O ruivinho tinha uma cara mais jovem mesmo, mas gostava disso nele, deveria ser o sorriso constante que deixava ele com um ar mais jovial. <br />
<br />
- [Você pode me mandar mensagem quando quiser saber alguma expressão. Deve ter algum aplicativo que possa te ajudar nisso também.] - sugeriu, acenando brevemente. - [E não se preocupe com o horário, pode me enviar mensagem tarde da noite, eu prefiro trabalhar de madrugada também.] - riu com o comentário dele sobre ser considerado mediano. Estendeu a mão para ele e apertou a dele, cumprimentando-o em silêncio. - [Estamos juntos nesse barco então. Já tive o prazer de ir parar na sala do conselho disciplinar por colecionar advertências, tentar fugir de Limoges no primeiro ano e… outros problemas.] - deu de ombros, lembrando de seu problemático caso com Viola. Encarou o rapaz em silêncio até se recordar do nome do fotográfico. - [Ah! Um moreno alto! Conheço! Já paguei alguns trabalhos dele. Ótima qualidade, ótimo serviço. Ouvi dizer que ele e o namorado terminaram… acho que o namorado dele deixou St. Clavier.] - comentou, observando a reação do outro silenciosamente. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
<br />
O loiro não sabia exatamente o que tinha deixado Monique desanimada, mas pelo visto já tinha passado, não era exatamente bom em fazer leituras do estado de humor dos outros, até porque se começasse a tentar pensar o que tinha causado aquilo, nem saberia dizer, não a conhecia a tempo suficiente pra poder prospectar. Mas ao menos o rumo da conversa estava melhor, e finalmente parecia que tinham achado um assunto confortável para tratar:<br />
<br />
-- [Eu também trabalho até tarde, então podemos ficar trocando mensagens sobre aleatoriedades, e eu realmente não sei se tem algum aplicativo pra isso, mas se você achar eu agradeço.] -- o loiro brincou, mas foi surpreendido com a mão estendida de sua direção, entendendo o gesto apenas depois, com o complemento da explicação, e apertou de volta, notando a diferença do tamanho entre as mãos, afinal tinha sido jogador de basquete por muitos anos então era natural que houvesse certa diferença: -- [Ainda bem que eles não consideraram o meu histórico de advertências da outra escola em que estudei, senão eu certamente começaria mal meu novo ano letivo.]<br />
<br />
E não foi surpresa que a mais nova conhecesse também o pintor, descrevendo-o com facilidade, no entanto, a mais nova destacou um ponto que não tinha conhecimento, ou melhor vários pontos: 1, que ele era gay, ou pelo menos Bi, 2, que ele tinha um namorado, 3, que eles terminaram e por consequência ele estava solteiro. O loiro piscou um par de vezes e a armação das lentes de grau escorregaram na linha do nariz até quase a ponta. Até o próprio Berthold ficou levemente corado, e ajustou o par de lentes do rosto, apoiando o queixo na palma da mão e desviando o olhar para qualquer outro ponto:<br />
<br />
[-- Ele é “vassoura quente” com certeza. Ai ai…! ]-- Não tinha nem o que acrescentar ali de comentário adicional, quem sabe poderia chamá-lo pra sair? Tirar umas fotos por aí? Fazer cumprir aquele ensaio de fotos que ele tinha lhe convidado? Se perdeu brevemente em pensamentos distraído com as possibilidades, até se dar conta que tinha ficado muito tempo calado retornando a atenção a menor: -- [Mas assim términos são sempre ruins, mas se foi em maio quando acabou o ano letivo, estamos em setembro agora, acho que deu tempo dele tomar um fôlego ao menos. ]<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Ficou contente em ouvir do outro que ele também tinha hábitos noturnos. Algumas pessoas que havia conhecido nos últimos meses possuíam hábitos saudáveis demais para perder noites de sono e gostar de acordar tarde como ela. Riu baixo com a ideia daquele rapaz com ar de gentil e certinho ser algum tipo de “bad boy”. Definitivamente, seria uma surpresa descobrir sobre quais advertências ele teria conseguido, mas achou que tudo fosse piada da parte dele. Não conseguia visualizá-lo quebrando alguma regra. <br />
<br />
Notou o leve corar no rosto do rapaz e arqueou uma sobrancelha, sem entender ao certo que tipo de reação era aquela. Baixou o olhar por um momento, pensando sobre a lembrança de quando havia discutido com Lukashenko e sido a culpada pelo término do relacionamento dos dois. Balançou os pés por debaixo da mesa e resolveu não tocar no assunto do término novamente. Encarou o loiro com um ar de curiosidade e estreitou o olhar. <br />
<br />
- [Eu diria que ele é bonito sim. Sabia que ele costuma praticar corrida?] - questionou, entretida, batendo a unha do indicador sobre a mesa antes de perguntar finalmente: - [Mas o que quer dizer com “vassoura quente”? É uma gíria de onde você veio?] - encarou o rapaz, imaginando se ele ficaria mais constrangido com a pergunta.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
<br />
O loiro estava entretido com a ideia de poder chamar Arman pra sair com mais intenções do que só um ensaio de fotos ou conversas sobre exposições e burocracia de galerias, até que foi surpreendido com o comentário direto de Monique sobre a gíria que tinha acabado de falar. O alemão ficou corado e desviou o olhar brevemente, tentando tapiar, porque tinha deixado o comentário escapar sem ter noção se a mais nova tinha idade pra saber o que era aquilo, e tentou buscar a explicação mais plausível que poderia ser dita em horário comercial em que estavam:<br />
<br />
-- [Bem, é uma gíria gay pra dizer que algum outro homem é muito atraente, muito mesmo!] - o loiro sorriu diante da própria incapacidade de explicar uma coisa que seria tão simples se estivesse conversando com outro homem gay, mas fazia parte da vida, imaginava que uma jovem estilista não teria problema em ter um novo amigo homossexual: -- [E depois desse meu comentário ficou evidente meu interesse em caras, espero que não tenha problema com isso.] -- o loiro sorriu meio sem graça e constrangido, porque não é necessariamente o tipo de assunto que se tem numa primeira conversa com alguém que acabou de se conhecer. <br />
<br />
-- [Como eu acabei de chegar na França eu não sei onde outras gays andam, e como abordar outras pessoas, imagina a minha dificuldade pra flertar se eu mal sei falar francês.] -- O loiro riu tentando descontrair dentro da sua própria situação.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Ouviu a explicação acompanhada do pedido de que o outro esperava que não tivesse problemas com homossexuais. Acabou rindo, era bem óbvio que estava acostumada com pessoas com diferentes inclinações sexuais no mundo da moda. Na verdade, em um internato só de meninas, já havia ouvido e visto muita coisa. Até pensava que Silvia e Danielle faziam um bonitinho casal, a amiga de cabelo verde super preocupada e certinha com a criatura sem rumo e sem cabeça que era Danielle. <br />
<br />
- [Eu não me preocuparia com isso se fosse você. St. Clavier é um internato para garotos, o que mais vai achar por lá são… homens “vassoura quente”.] - respondeu, sequer dando atenção ao tempo em que estava ali conversando com o loiro. - [O antigo diretor é meu padrinho. E a diretora de Limoges é minha atual madrasta, então se quiser me chamar de sua fada madrinha, eu posso te oferecer um tour pelas duas escolas... ] - ofereceu, convencida e até bastante amigável. Talvez o tempo vivendo em Cerise tivesse lhe feito bem, afinal. Estava feliz por alguns motivos, seu pai estava enxergando de novo, era a irmã mais velha de dois bebês gêmeos super fofos, e em algum tempo estaria formada e pronta para começar sua carreira como uma estilista europeia. - [Se quiser, posso te mostrar o clube de corte e costura. Ou natação. Ou… hipismo. Gosta de cavalos?] - perguntou interessada. Não costumava encontrar muitas pessoas interessadas em cavalos. Na verdade, essa era uma das poucas coisas em comum que tinha com a senhora L´mark.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
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Havia acabado de chegar na sala de espera do Hospital Geral de Cerise para sua primeira nova consulta com um oftalmologista. Não queria admitir, principalmente para o próprio pai, que estava desconfortável com a dor que acometia sua cabeça todas as vezes que precisava forçar a própria visão para fazer suas costuras à noite e para entender o que estava sendo projetado nos quadros de Limoges. O homem deveria estar muito feliz com seus dois irmãos recém-nascidos. Não valia a pena importuná-lo com aquele problema pequeno. <br />
<br />
Estava sentada em uma das cadeiras da sala de espera enquanto folheava uma revista médica, evitando pegar no celular e procurar mais por si mesma sobre sintomas de doenças degenerativas oculares. Sentia um forte frio no estômago, a garganta seca e uma dor de cabeça que não parecia querer lhe deixar toda vez que pensava na mera possibilidade de estar voltando a ficar cega. Se sua situação poderia piorar, além de se sentir solitária novamente, tentando esconder aquele sentimento desagradável com o franzir de seu cenho e o distanciamento social, era assustador a ideia de estar sendo um estorvo na vida do próprio pai mais uma vez, justamente quando ele estava prestes a ser tão feliz com aqueles novos bebês saudáveis. Não queria nem imaginar como a senhora L´mark reagiria se soubesse que sua enteada estava ficando cega de novo. <br />
<br />
Cruzou as pernas enquanto usava os shorts jeans e um par de tênis sociais, a blusa cinza por dentro do shorts com outra camisa, de um tecido mais leve, azul marinho, lhe cobria os ombros e trazia alguns broches que ela mesma havia desenhado. O cabelo estava preso em um rabo de cavalo, mas a mecha vermelha de sempre estava fácil de visualizar, desenhando seu rosto com a franja que teimava em crescer. <br />
<br />
Tentou ignorar o próprio celular de novo, erguendo o olhar para observar a sinalização do ambiente. Coçou o canto dos olhos, pensando que o ardor neles deveria ser por conta de uma possível cegueira. Respirou fundo de novo, tentando manter a calma, afastada das demais pessoas naquela sala de espera. Não havia muita gente, afinal. Apenas uma senhorinha acompanhada de um rapaz; e um senhor que já usava um par de óculos circulares. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
<br />
Desde que tinha chegado na cidade do interior da França a adaptação estava indo bem, mantendo a dieta e o tempo regular de sono, nem sentia falta de tomar os medicamentos para o humor. Mas foi só cair nos velhos hábito de jogar um pouco, e praticar exercícios com mais frequência que a aquela dor de cabeça bem pontual tinha retornado, fosse pela ansiedade e medo de piora da sua condição, ou de fato da sua condição de saúde naturalmente fragilizada, isso tinha sido o suficiente para a paranoia do alemão levá-lo a clínica para fazer os exames de rotina e checar se estava tudo bem.<br />
<br />
Queria em verdade alimentar a esperança que podia ao menos ser um hobbysta sem se preocupar em ficar definitivamente cego, como iria fazer um exame de vista, tinha deixado de lado seu par de lentes de contato, e tinha saído com seus óculos de grau, que tinham as lentes suficientemente espessas para deixa-lo pelo menos 20 anos mais velho, ou era o que sentia quando estava com ele. Naquele dia usava uma camisa de manga longa cinza escuro, e calças ajustadas ao corpo, tênis esportivo confortável, e carregava consigo uma bolsa de lado, com seus documentos, uma garrafa de água e aparelho celular. Tinha anotado no seu sketchbook o nome do médico e o horário da consulta, mas ainda estava com dificuldade se se situar com as placas e indicações em francês, diferente de Paris onde haviam mais placas em inglês para ajudar turistas.<br />
<br />
O rapaz de 1,85 chegou ao espaço da clínica, os cabelos loiros longos fazendo pequenas curvinhas, fazendo com que o rapaz constantemente colocasse os fios atrás da orelha, olhou em volta, notoriamente com dificuldade de se situar. E olhou para as pessoas próximas, um senhor de armação redonda que parecia não querer ser incomodado, e uma senhora que estava acompanhada de um neto, que também não queria importunar, e uma jovem adolescente que parecia distraída, nem estava mexendo no celular como a maioria das pessoas da idade dela estariam. Engoliu em seco, e caminhou até perto da garota, pigarregou de leve:<br />
<br />
-- Erh… com lincença…?! -- o sotaque era bem forte e o francês era dito sem muito manejo: -- Desculpe incomodar, mas aqui é a clínica ofta-... clínica de olhos? -- o rapaz perguntou baixando mais o tom a medida que ia falando a frase, com receio de está sendo mal compreendido. Como era difícil interação social.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Estava tão nervosa que quase deixou cair a revista quando um estranho se aproximou. Ergueu o olhar rapidamente e ficou surpresa ao perceber como o sujeito era bonito. Outro aspecto que lhe chamou a atenção foi o tom de voz dele e a dificuldade em especificar alguns termos em francês. <br />
<br />
- Clínica de olhos? - arqueou uma sobrancelha, estranhando a escolha de palavras dele, mas logo suspirou, percebendo que o nervosismo alheio se fazia presente, tal como estava nervosa também por estar ali. - Sim, aqui é a clínica de oftalmologia. - observou melhor o garoto bonito, achando curiosa também a escolha dele de roupas, uma linha de costura singular para alguém naquela cidadezinha do interior francês. - Pode falar mais baixo. O senhor não fala francês? Que língua o senhor fala? <br />
<br />
Separou a revista de lado e pegou o celular, mas não mexeu no aparelho, apenas guardou o mesmo no bolso. Apesar do garoto ser muito bonito, ele usava uns óculos de lentes grossas que lhe davam uma certa vontade de rir, mas controlou seu impulso em fazer chacota com a situação de outras pessoas, principalmente porque não sabia se em breve estaria em uma situação pior que a dele, precisando de uma bengala de guia ou um cão guia tal como seu pai já tivera usado um dia. O pensamento lhe fez encolher os ombros na cadeira onde estava acomodada, coçando o canto dos olhos de novo, o arder deles ficando mais intenso conforme pensava nas possibilidades de estar voltando a cegueira. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
<br />
O loiro pareceu meio tenso diante da fala da mais nova, será que tinha se feito entender? mas logo ela confirmou que estavam mesmo em uma clínica de oftalmologia, e respirou aliviado. Levou a mão sobre a boca, e se sentou uma cadeira de distância da mais nova, encolhendo os ombros e falando bem mais baixo, com vergonha de ter sido tão inconveniente: -- desculpe.<br />
<br />
Arrumou os óculos de grau no rosto, embora não gostasse de estar usando a peça, era o que lhe deixava com a visão mais próxima do “normal” se é que lembrava como era enxergar de forma normal. Ouviu a pergunta da morena mais nova, sobre que idioma falava, ainda tinha de melhorar muito seu francês, tinha tido uma eletiva bem tapa-buraco na antiga escola, e agora tinha de praticar todo dia: -- Eu vim da Alemanha, estou a algumas semanas na França, ainda não me acostumei bem com o idioma, e me perco com facilidade, desculpe pelo inconveniente.<br />
<br />
O mais velho, soltou um longo suspiro, passando a mãos pelos fios loiros longos, jogando-os para trás, para só então ajustar a postura e se sentar mais apropriadamente, mas ainda estava notoriamente nervoso: -- é minha primeira revisão com o médico novo, desculpe se eu pareço um pouco nervoso. -- Depois de se ajustar, e sentar cruzando as pernas de forma masculina: -- Eu sou, Berthold Konrad, perdoa a falta de modos em não me apresentar, e tals. <br />
<br />
Como era difícil interação social, seja com pessoas mais velhas ou pessoas mais novas, tudo era cansativo naquela nova cidade, isso pelo menos até se acostumar.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Ficou surpresa com o fato dele vir da Alemanha. Bem, ele parecia com as pessoas que costumava ver caminhando nas ruas da austríacas quando visitava seus avós paternos, mas nunca esperaria encontrar algum alemão em Cerise e justamente em um consultório “de olhos”. Notou também como ele parecia tímido e desconcertado por ter feito perguntas sobre sua origem. Ele ainda fez questão de justificar a causa do próprio nervosismo e, curiosamente, saber que o sujeito chamado Berthold Konrad, com aquelas lentes grossas, estava nervoso também, lhe deixava menos nervosa. <br />
<br />
- [Tudo bem, Konrad, eu me chamo Monique Biedermeier, meu pai tem um escritório de advocacia na cidade e eu estudo no Limoges Collet. Eu já moro aqui faz algum tempo, por isso, não fique nervoso em falar alemão, eu entendo muito bem.] - explicou em alemão para o rapaz que estava a uma cadeira de distância com mais calma, esboçando um sorriso discreto depois da sentença mais séria. Pensou melhor em ficar quieta e apenas deixá-lo sozinho contemplando a própria espera, mas ele havia escolhido sentar perto de sua pessoa, e ele estava nervoso, não como se não estivesse também, mas ele parecia bem mais deslocado ali que ela. - [Ãhn… também é a minha primeira consulta aqui no hospital geral… não conheço os médicos aqui, então não posso te ajudar com isso…] - deu de ombros, desviando o olhar com o incômodo dos olhos que ainda teimavam em arder. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
<br />
Estava envergonhado de quem sabe ter incomodado o tempo que a garota tinha, afinal se ela estava em uma clínica oftalmológica ela deveria está ali para alguma consulta, e não deveria está importunando a mesma. Respirou fundo e sentindo mal por aquilo, o rosto levemente corado pela vergonha, até ouvir o som familiar do seu idioma nativo. Olhou para o lado sem esconder a expressão surpresa diante do fato das tantas pessoas que tinha encontrado em Cerise, essa era a segunda que falava seu idioma, talvez fosse o ponto bom de estar em uma cidade turística:<br />
<br />
--[Que alívio encontrar outra pessoa que entende o que eu falo, eu ainda vou me acostumar com o francês, vou ter muitas aulas então vou ter tempo. Eu sou bolsista de artes em St. Clavier, sou fotógrafo e pintor, é um prazer conhecer você senhorita Biedermeier, sabia que têm um estilo artístico e arquitetônico baseado no seu sobrenome? Você tem família na Áustria?] -- comentou só depois se dando conta que podia estar sendo inconveniente com seus apontamentos, o loiro arrumou os fios claros e mexeu na armação do óculos que detestava mas tinha de usar:<br />
<br />
--[Bem, só de você conversar comigo no meu idioma nativo já é uma grande ajuda, obrigado, e desculpe se eu falei alto, ou soei inconveniente… não é proposital, eu só não sou bom socializando, imagina quando eu não entendo metade do que as pessoas falam e a recíproca também é verdadeira.] -- suspirou, conformado, ouvindo a atendente chamando o nome de uma pessoa que entrou para ser atendida, e aquilo lhe deu a perspectiva de que mais cedo ou mais tarde teria seu nome chamado, então a despeito do idioma saberia quando fosse sua vez.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
A morena ficou satisfeita com o fato do garoto ficar mais confortável por poder conversar com alguém que falasse alemão. Contudo, baixou o olhar, evitando encarar o loiro quando ele falou sobre ser bolsista em St. Clavier. A ideia do rapaz estudar na instituição lhe levava a crer que ele já deveria conhecer Yure Lukashenko. Afinal de contas, que aluno de St. Clavier não conhecia o ruivo? <br />
<br />
- [Meu avô.] - respondeu, esboçando um sorriso para disfarçar o desconforto com a memória da presença do rapaz hiperativo. - [Meu avô e minha avó vivem na Áustria. Eu costumo visitá-los no inverno. Meu avô é dono de uma multinacional que produz mobiliário.] - explicou, apesar do rapaz se desculpar por ser inconveniente, o que não julgava que ele estava sendo, afinal de contas ele não tinha como saber de seu relacionamento com o ruivo de St. Clavier. <br />
<br />
Analisou melhor o rapaz, arqueando uma sobrancelha ao constatar que era no mínimo curioso como ele poderia ser um bom fotográfico e pintor usando aquelas lentes tão grossas. <br />
<br />
- [Ah, me desculpe perguntar, mas como consegue fotografar e pintar…] - fez uma pequena pausa, apontando para os olhos dele, tentando ser discreta. - [Quero dizer… eu sou estilista… então... ] - sorriu, tentando ser mais educada após diversas experiências sendo grosseira com terceiros. - [Desculpe, não é da minha conta.] - pediu, abaixando o olhar para a revista em seu colo de novo, pensando que deveria ter ficado de boca fechada. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
<br />
Talvez não devesse começar a tagarelar com as pessoas porque elas falam em alemão, tinha tido sorte do seu colega de quarto falar, e agora não podia julgar que a garota quisesse conversar consigo só porque os dois falavam o mesmo idioma. No entanto, veio a surpresa quando a mais nova citou o avô, e confirmou que seus parentes eram de fato austríacos e que estavam relacionados ao mercado moveleiro. O loiro fez uma expressão de surpresa, afinal tinha sido um belo chute certeiro, não tinha aquele tipo de sorte todos os dias, era como encontrar com história viva num consultório oftalmológico. <br />
<br />
Logo veio perguntas em sua direção também, nada mais justo no final das contas, talvez a mais nova só estivesse tão nervosa quanto ele, o que era bem peculiar, mas considerando que ela era uma estilista, pelo que tinha dito, devia presar bem a própria visão. Sorriu simpático, e fez um gesto com a mão negando o pedido de desculpas:<br />
<br />
-- [Não precisa se desculpar, e não está sendo inconveniente, afinal eu que comecei a fazer perguntas do nada.]  -- O loiro arrumou o par de lentes de grau no rosto, e ouviu a atendente chamar outro nome, que não era nem o seu e nem o da morena: -- [Eu normalmente saio de lentes, só uso óculos quando estou nos dormitórios ou em dias de consulta, já estou prevendo que o médico vai usar aquele colírio que faz você ficar com as pupilas dilatadas por horas] -- suspirou resignado, mas buscando uma postura melhor na cadeira que estava sentado cruzando as pernas de forma masculina:<br />
<br />
-- [Eu também achava que não ia conseguir fazer mais nada depois que comecei a usar óculos, a pessoa fica nervosa porque está sempre com dor de cabeça, depois vem no médico ele usa o colírio do mal, e aí você testa lentes, no meu caso, como a minha é bem espessa e multifocal, então eu tive de testar várias vezes até acertarem, mas é porque o meu caso é mais complicado, quem dera fosse só miopia ou astigmatismo.] -- Riu um pouco desconcertado, sem saber se era exatamente o tipo de conversa que a outra garota precisava, mas nem conseguia esconder que ficava nervoso de estar ali: -- [Eu não tenho problemas pra pintar porque os óculos já ajudam, e fotografar a câmera e as várias opções dela, compensam minha deficiência visual] -- Até poderia dizer onde tinha material seu exposto, mas aí não faria sentido usar um pseudônimo se ele mesmo saísse dizendo quem era: --[ Você é estilista amadora certo? Já participou de algum evento? Onde eu poderia ver seu trabalho?] -- Já que os dois estavam nervosos, talvez falar sobre o que faziam, servisse pra acalmar os ânimos.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Conseguia ouvir as palavras do loiro ao seu lado, mas não conseguia tirar o olhar da porta do consultório onde a pessoa chamada havia acabado de entrar para fazer a consulta. Sentia um aperto desconfortável no próprio peito com a ideia de ser chamada em seguida. Não queria descobrir que voltaria a ficar cega tal como quando começara quando era criança. Talvez fosse melhor se já tivesse passado algum período cega, assim ficaria mais acostumada com a escuridão como seu pai. Na verdade, sequer fazia ideia do que Marco sentia sendo cego. Não fazia ideia se ele enxergava algum tipo de espectro ou coisa parecida. <br />
<br />
Olhou para o rapaz ao seu lado assim que ele riu, descrevendo sobre o próprio caso como algo mais complicado. Entreabriu os lábios como se quisesse perguntar algo a ele, mas mordeu a língua, julgando que verbalizar aquilo também era assustador, perguntar sobre a ideia de alguém chegar a cegueira. <br />
<br />
- Ah, tenho um… - fez uma pequena pausa para procurar nos bolsos por sua carteira e um cartão de visita de formato quadrado bem minimalista com seu nome e o endereço para seu portfólio virtual e mídias sociais. Acabou deixando a carteira cair no nervosismo e se abaixou para pegar o objeto, notando como a própria mão estava tremendo. - Desculpe. Aqui. <br />
<br />
Joshua não estava ali, seu pai não estava ali, nem ao menos havia pedido para sua madrasta lhe acompanhar. Não queria assombrar seu pai que havia acabado de ser pai de seus irmãozinhos com a ideia de que a filha imperfeita dele estava ficando cega de novo. Moveu a perna inquieta, pensando que talvez devesse desistir daquela ideia e ir embora do consultório. Poderia voltar ali depois, quando estivesse com Joshua, talvez. <br />
<br />
- Eu… vou no banheiro… - avisou, tentando ser mais educada com o recém apresentado artista. Poderia ir ao banheiro, lavar o rosto, lavar a nuca, se acalmar, quem sabe pulassem o seu nome na lista e acabasse tendo que adiantar aquela visita. Seria uma ótima escapatória. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
<br />
Ficou feliz da mais nova ter um cartão para portfólio, poderia acompanhar o trabalho dela a distância, puxou o aparelho celular e já buscou nas próprias redes para poder acompanha-la; Usou seu perfil profissional com seu pseudônimo de Araav, fez isso no automático, esquecendo-se momentaneamente que sua conta tinha um número grande de seguidores, as várias pinturas a óleo hiperrealistas e fotografias de lugares no interior da Alemanha. Não tinha postado nada da França para não dar bandeira de onde estava. Notou quando a mais nova deixou cair a própria carteira ela parecia que iria fazer mais que um exame de rotina, senão porque estaria tão aparentemente nervosa. <br />
<br />
Acenou positivamente, quando ela disse que iria ao banheiro, e logo em seguida teve seu nome chamado para ser atendido, não era de todo ruim, afinal significava que ela iria em seguida e poderia esperar pra fazer companhia se ela quisesse é claro. Não queria parecer um tarado aleatório seguindo garotas mais novas.<br />
<br />
Seguiu para consulta, e foi atendido sem maiores problemas, não teria de mudar as lentes ainda, e lhe foi passado um colírio pra lidar melhor com o clima e descansar a vista no fim do dia. Antes de sair, avisou para o médico que sua amiga estava nervosa e que iria se consultar também, e que ele fosse compreensivo, o médico respondeu puxando um docinho que destinava a crianças mais novas. No fim das contas era bom o médico que lhe acompanharia pelo tempo naquela cidade ser carismático.<br />
<br />
Saiu da sala em tempo de reencontrar a mais nova, e erguer o polegar em sinal positivo, se aproximou: -- [Não passei por nenhum colírio malvado dessa vez.] -- o mais alto sorriu de forma carismática: -- [se não for lhe incomodar, eu posso esperar você sair da sua consulta, podemos tomar um suco, ou algo assim. Se bem que eu nem sei andar direito na cidade, mas não é nada que um google não resolva.]<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Voltou do banheiro quando já estava prestes a ser atendida. O rosto estava pálido como se sua pressão tivesse caído. Encontrou o loiro de boa aparência antes de entrar e foi pega de surpresa pelo sorriso carismático e a oferta de espera. Demorou alguns minutos até concordar com um aceno positivo, adentrando no consultório para ser atendida. <br />
<br />
Saiu da consulta algum tempo depois, as bochechas vermelha como se tivesse chorado e um pirulito colorido em mãos. Acenou para o oftalmologista que havia lhe atendido de forma bastante paciente e compreensiva, explicando-lhe todos os detalhes de sua mais nova condição de visão. Usava um lencinho de papel macio que o médico havia lhe oferecido para secar as lágrimas que havia justificado serem por conta do colírio. <br />
<br />
- Ah, você esperou mesmo. - disse em francês, só então se recordando que o rapaz falava mais em alemão. - [Desculpe. O colírio irritou meus olhos. Você ainda quer beber um suco?] - olhou para o próprio docinho, oferecendo para o loiro mais alto em sinal de gentileza. - [Você estuda em St. Clavier, não é? Posso te mostrar um lugar que vende sucos e lanches saudáveis na cidade que fica perto de lá. Acho que pode ser mais prático para você.] - ofereceu, sentindo o celular vibrar finalmente no próprio bolso. <br />
<br />
Fez uma pequena pausa antes de saírem, aguardando a resposta do rapaz enquanto verificava o número de notificações de seu Instagram. Arqueou uma sobrancelha diante do número alto e dos comentários, desbloqueando o celular para verificar o que havia acontecido rapidamente. <br />
<br />
- [Araav é você? Woah.] - abriu a conta do portfólio alheio, verificando o número de visitas da página e de seguidores. - [Você é famoso?] - questionou sem conseguir esconder o próprio sorriso de interesse ao apreciar as obras do outro, reconhecendo alguns cenários da Alemanha nas produções do outro. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
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Era fácil pro alemão notar a diferença entre um colírio pra dilatar as pupilas e choro por nervosismo, e considerando o fato de que a mais nova já parecia mal antes de ir pra consulta em si, tinha pensado bem em esperar que ela saísse. Imaginava se ela estava tão apreensiva com a consulta se ela não deveria ter vindo com os pais ou mesmo com algum amigo, mas não era íntimo o suficiente para perguntar aquelas questões. Sorriu de volta de forma cordial, quando ela retornou a falar em alemão. Concordou com a cabeça quando foi questionado sobre estudar em St. Clavier:<br />
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-- [Ah eu agradeço, eu já caminhei pela cidade um pouco registrando alguns lugares legais em fotografia, mas não elenquei nenhum como meu favorito ainda.] -- Negou com a mão sobre o docinho, gesticulando que era dela, manteve a distância da mais nova, deixando que ela guiasse o caminho, para não parecer que estava invadindo o espaço pessoal dela. E teve de dar passadas mais curta, já que era bem mais alto que ela, tinha de se atentar para não parecer grosseiro. <br />
<br />
Mas parou de caminhar no lugar quando a mais nova lhe perguntou de forma direta sobre ser “Araav” e a surpresa no rosto foi genuína. Puxando o próprio celular e vendo que tinha seguido o perfil da menor com o seu perfil de trabalho, deseguiu, e não podia simplesmente ir com sua conta pessoal porque isso chamaria ainda mais a atenção. Se virou para a mais nova meio cabisbaixo: -- [Desculpa! Eu devia ter prestado atenção com qual perfil eu estava logado, ai ai… espero que as pessoas não te incomodem muito por causa disso, não vou poder seguir com meu perfil pessoal você, senão eu me delato. ai ai… que confusão].<br />
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O loiro coçou os fios claros na nuca e respirou fundo guardando o celular de volta ao bolso, e agora sentindo que devia uma explicação melhor para a mais nova: -- [ Bem, eu não vou dizer que não sou famoso, até que sou, mas eu posso explicar melhor depois da gente sentar, falar as coisas assim no meio da rua é meio desconfortável você não acha?] -- pontuou aquilo, imaginando que realmente seria melhor pro humor dos dois tomar um suco, e ter uma conversa amigável em algum restaurante, além de que Monique não teria de ficar olhando pra cima todo tempo.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
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Aceitou que o docinho lhe pertencia e abriu o pacote do mesmo, jogando o plástico em uma lixeira no caminho enquanto levava o doce até a própria boca. Ele trabalhava com fotografia, deveria ser um trabalho legal e um rapaz bonito sendo um bom contato para trabalhos futuros também era uma boa ideia. Parou no meio do caminho, chupando seu pirulito e arqueando uma sobrancelha diante da reação assustada do outro. <br />
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[- Hm. Claro. ]- concordou com ele, achando melhor não insistir já que não era curiosa e ele poderia não querer falar sobre a própria fama com ela. <br />
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Seguiu até o lugar que vendia sucos e escolheu uma das mesas dentro do estabelecimento, imaginando que o sujeito deveria ser um tipo famosinho que não queria tanta atenção de terceiros assistindo. Pegou novamente o próprio celular e abriu o aplicativo do lugar, mostrando a tela para o loiro. <br />
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[- Eu sugiro baixar esse aplicativo. Eu conheci esse lugar há um tempo. Ele serve muitas opções veganas e naturais de lanches, então o cardápio você pode encontrar baixando o aplicativo daqui ou indo até o caixa fazer o pedido diretamente.] - deixou o celular sobre a mesa para que ele usasse. - [Vá em frente, tem várias opções de combos. As batatas aqui são orgânicas e bem gostosas assadas. Eu gosto muito do hambúrguer de falafel.]<br />
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Explicou para o loiro, cruzando os braços em seguida e se acomodando com no assento da mesa que havia escolhido, piscando algumas vezes, ainda incomodada com a visão desfocada. Ainda conseguia lembrar de todo o desconforto no consultório oftalmológico.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
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Não foi uma caminhada longa até o restaurante sugerido pela morena mais nova, e após se sentarem no local de ambiente agradável, Monique desatou a falar sobre como o local era prático com menu on-line e opções vegetarianas saudáveis. Em verdade ficou surpreso que uma pessoa com menos de 60 anos  se preocupe em ter uma alimentação saudável movida a falafel, seria ela uma pessoa com intolerâncias alimentares? Não podia julgar, embora não acreditasse que alguém de bom grado trocaria um bife por um prato de salada.<br />
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O loiro se sentou na cadeira a frente, deixando que a mesa ficasse entre os dois para não forçar uma proximidade que não tinha com a recém-conhecida: -- [Obrigado pela paciência em me explicar, eu realmente não sei o que pedir, porque, pra ser bem sincero, eu nem passo perto de uma alimentação saudável, eu vivo de Nuggets e Macarrão Instantâneo.] - Comentou coçando a nuca de um jeito meio desconcertado, pegando um combo padrão, com batata frita e refrigerante:<br />
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-- [Bem, antes de mais nada, eu peço desculpas se o meu engano causar algum tipo de situação desconfortável no seu perfil.] -- Puxou o próprio celular, abrindo na sua conta de trabalho, que tinha o nick de Araav: -- [Eu sou pintor e fotógrafo, e faz uns meses que eu venci uma competição em Berlin e tive quadro premiado, e por consequência toda uma exposição, que teve grande repercussão. Até então eu só tinha exposto na Alemanha, e ninguém que me segue sabe quem eu sou, ou que eu estou fora do meu país de origem no caso.] -- comentou tentando ser o mais explicativo possível, embora parecesse que estava só se gabando:<br />
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-- [Como ser pintor profissional nunca tinha sido meu primeiro objetivo, afinal eu comecei a pintar como parte de um processo de terapia, então eu sempre assinei com um pseudônimo mesmo, afinal, pensei que não daria em nada, e agora, eu sou tímido demais pra assumir tudo que o nome Araav representa ou significa.] -- Não sabia se admitir que era um covardão era um bom jeito de iniciar uma conversa com uma pessoa recém conhecida, mas como havia a possibilidade de ter causado algum contratempo para a mais nova, se sentia na obrigação de explicar tudo, e o lado bom de estarem conversando em alemão, era que a chance de algum francês aleatório entender o que diziam era mínima.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
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Fez o pedido juntamente com o loiro, estranhando o fato dele precisar se explicar sobre a própria alimentação. Não julgava o rapaz, já havia passado pela fase de comer muito mal, principalmente quando estava animada com algum projeto, acabava gastando suas madrugadas costurando ou interagindo pelo celular em suas mídias sociais para divulgar mais de suas produções. Estranhou ainda mais quando ele começou a se gabar da própria fama e premiações, pensando em algum comentário sobre como ele deveria ser muito “humilde” por não revelar o próprio rosto promocional para os fãs dele e que ela conseguia lidar muito bem com a pressão. <br />
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Acabou fazendo uma expressão surpresa ao perceber que ele de fato estava se explicando demais por ser tímido, ainda mais quando ele fez questão de destacar que fotografava por conta da terapia. Lembrou por um instante de Viola e de todo o problema causado por sua pessoa ao ponto da garota chegar a tentar suicídio. <br />
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- [Meu pai é advogado.] - respondeu logo depois que os lanches dos dois chegarem. Demorou alguns instantes experimentando seu milkshake verde com hortelã e chocolate. - [Não se preocupe comigo. Se algum fã seu vier me encher o saco e eu ficar sem paciência, posso salvar os prints, descobrir de onde a pessoa é, e processá-la.] - explicou como se fosse a coisa mais óbvia e simples do mundo a se fazer. <br />
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Ergueu o olhar para observar melhor o rapaz, pensativa sobre o tipo de terapia que ele fazia. <br />
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- [É muito difícil…?] - começou, lembrando que quando começou a sair com mais pessoas por conta do ex namorado, ele costumava usar essa tática de sempre se abrir primeiro para que a pessoa se sentisse confortável e menos julgado ao falar dos próprios problemas. - [Quero dizer, eu já tentei fazer terapia uma vez. Na verdade, eu não tentei, eu tive que fazer. Meus pais... ] - fez uma pequena pausa, lembrando do assunto que lhe deixava desconfortável. Franziu o cenho, inquieta. - [... meus pais se separaram quando era muito nova. Daí eu lembro que frequentei algumas sessões com uma psicóloga de crianças. Mas depois, acabou sendo uma perda de tempo.] - deu de ombros, puxando o canudo e fazendo um ruído com as bolhas ao sugar a bebida grossa. - [Sua terapia deve ter dado certo. Suas fotografias são bem legais. Já pensou em fotografar pessoas? Tipo, em passarelas de moda?] - perguntou, interessada. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
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A resposta da morena mais nova as suas preocupações acerca de um possível incômodo nas redes sociais veio de forma pontual na afirmação de que o pai dela era advogado. O que devia ser bom considerando que se de fato chegasse a se tornar uma situação ruim para a mais nova ela estaria respaldada de como se defender. Saber daquilo trouxe alívio a expressão do alemão, e o deixou mais animado para apreciar seu lanche vegano, que parecia ao menos bonito, o que lhe dava uma ideia muito melhor de comida saudável, se todo prato de salada parecesse tão apetitoso talvez tivesse mais disposição pra comer. <br />
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Tinha acabado de dar uma boa mordida no hambúrguer de falafel estranhando o gosto, e franzindo as sobrancelhas em estranheza, mas em seguida acenando positivamente, como se aprovasse o sabor. Foi bem em tempo de Monique lhe perguntar se era difícil, e terminou de engolir, para devolver o sanduíche para a bandeja, buscando um guardanapo para limpar a boca, antes de ouvir o complemento da pergunta. E não a interrompeu enquanto ela concluía o próprio raciocínio, falando sobre fazer terapia na infância por causa do divórcio dos pais, era um tema até meio sério pra se tratar com um estranho, e nem sabia se tinha algo de bom pra falar na verdade:<br />
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- [Erh, uma pergunta por vez… como eu disse, eu não comecei a fotografar com o intuito de ser profissional, então nunca fotografei nada além daquilo que eu via na rua ou ao meu redor, e eu sou muito tímido pra ir numa passarela ou em qualquer lugar com muita exposição eu certamente iria ficar muito ansioso e não iria conseguir fotografar.] - riu um pouco sem graça, e levou a mão a nuca coçando a área brevemente, e desviando o olhar, sem saber exatamente como responder se fazer terapia era bom ou não. <br />
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Acabou apoiando os cotovelos na mesa e se curvando um pouco, e cruzando os braços na frente do corpo, em uma postura até um pouco defensiva: - [Eu não sou o melhor exemplo pra dizer pra alguém fazer terapia, porque o que eu tenho de tímido eu tenho de teimoso, mas não posso negar que a terapia me ajudou a lidar com meus problemas de saúde.] - O loiro levou a mão até a armação com as lentes de grau e as tirou do rosto, o mundo passando a ser um borrão ao redor, exceto pelos óculos que segurava ainda bem próximo do rosto. Sem óculos Berthold era estupidamente mais bonito, a ponto de algumas pessoas nas mesas vizinhas estarem eventualmente espiando os dois adolescentes conversando: - [Eu não sabia que tinha uma doença degenerativa da visão, eu sofri um acidente há um ano e meio que desencadeou a cegueira, eu fiquei cego totalmente, depois com tratamento a minha visão voltou parcialmente, e não tem cirurgia corretiva, embora agora tudo esteja estabilizado.] - O loiro não queria encarar a morena enquanto falava daquelas coisas, porque se ela fizesse uma cara triste era bem capaz de chorar, então apenas baixou a mão que segurava o par de lentes, e guiou o rosto na direção da mais nova e sorriu de forma gentil: - [É muito chocante quando as coisas mudam de uma hora pra outra, seus pais com o divórcio, eu com meu problema de saúde, talvez a Monique criança não conseguisse perceber o benefício da Terapia, e por isso você acha que não serviu, mas talvez o seu eu de agora veja algo de bom pra tirar dela. Mas só quem pode dizer isso é você.]<br />
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Se sentia sendo um pouco injusto porque estava até romantizando um pouco do processo de tratamento, no geral, era mais um circuito sofrido de aceitações de realidades duras e de amadurecimento pessoal severo. Mas cada um tinha uma experiência muito particular, e para Berthold no geral as coisas que envolvia seus sentimentos eram sempre muito intensas, não sabia se para os outros era da mesma forma. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
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Começou a comer as batatas rústicas de seu lanche, encarando o loiro mais alto com o ar de quem não entendia o que ele queria dizer ao certo com o receio de lidar com eventos de moda. Bem, lembrava que seu padrinho Vivi tinha um certo desgosto por multidões. Podia lembrar ainda de quando foi sua última visita ao parque de diversões da Disney com a filhinha do zelador Tamotsu. <br />
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Notou como o sujeito estava evasivo ao remover os óculos e falar sobre como a terapia o tinha ajudado. Os olhos castanhos se abriram um pouco mais e ficou nitidamente surpresa quando ele falou sobre a tal doença degenerativa da visão. Parecia ser muita coincidência para um encontro como aquele. Baixou o olhar, perdendo o apetite por um instante enquanto usava o guardanapos para limpar os dedos e cruzar os braços também, defensiva. <br />
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- [Sei como se sente.] - admitiu, levando uma das mãos até o próprio queixo, observando as mãos do sujeito a sua frente enquanto falava. - [Eu fiquei cega quando criança. Mas foi por pouco tempo. Daí meus pais se separaram.] <br />
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Respondeu para o garoto, respirando fundo antes de esboçar um sorriso em um misto de conformidade e frustração, arqueando as sobrancelhas diante daquela situação. <br />
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- [Hoje eu estava pensando que o médico ia dizer que eu ia voltar a ficar cega.] - admitiu, se sentindo mais confortável do que nunca por poder falar em alemão. Esfregou um dos olhos com as costas das mãos, suspirando resignada. - [Parece que eu vou precisar só de óculos… por enquanto.] - completou, sentindo-se estranhamente confortável com o sujeito que parecia compartilhar de um problema como o seu. Era estranho porque não esperava que em toda Cerise fosse encontrar alguém que pudesse lhe ouvir sobre aquele problema e que se sentisse confortável em falar sobre. Talvez fosse o fato dele ainda ser um estranho para ela. Falar sobre o assunto com os amigos que também eram amigos de seu ex namorado lhe dava um nó no estômago, principalmente por lembrar de como o assunto havia desencadeado toda a situação do término. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
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Não era exatamente a melhor pessoa para servir de apoio emocional, e nem sabia se tinha falado algo útil, naquele momento sentia-se nervoso e meio inútil, no fim, mesmo que fosse uma pessoa recém conhecida devia ser ao menos capaz de manter uma conversa inteligível. A afirmativa da mais nova dizendo que sabia como se sentia, o fez recolocar o par de lentes de grau a fim de ver as expressões, não queria ter feito ela chorar sem querer, e quando notou ela passando as costas da mão no rosto, engoliu em seco imaginando que tinha feito algo muito errado em falar de si mesmo daquela forma leviana sem saber se o assunto poderia ser algum tipo de gatilho pra morena mais nova.<br />
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Logo veio uma informação mais séria, que fez com que o sangue do alemão ficasse frio, porque sabia que durante o período que esteve adoentado foi quando seus pais mais brigaram, e a perspectiva deles se divorciarem por sua causa, já tinha lhe ocorrido muitas vezes. Não conseguiu comentar nada imediatamente, porque tinha sua parcela de inseguranças sobre o assunto, nem podia dizer que estava verdadeiramente adaptado a viver daquela forma pela metade, e demorou ainda para organizar os pensamentos e conseguir elaborar uma resposta:<br />
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-[No geral acho que a parte mais difícil sempre é a adaptação, porque você entender algo racionalmente é diferente de você aceitar emocionalmente.]- Tentou soar amistoso, tomando um gole de água porque estava um pouco apreensivo: -[Não que sirva de consolo, mas usar óculos não é tão ruim, e você sempre pode substituir por lentes.] - Pareciam palavras duras pra se dizer, mas era verdade que costumava ser duro consigo mesmo na maior parte do tempo: - [Se for usar lentes lembre de por um lembrete no celular pra tirar antes de dormir. É péssimo acordar com os olhos ressecados.] -  o loiro riu um pouco sem graça, diante do próprio comentário, mas era como estava lidando, não tinha como oferecer nada melhor, porque não tinha achado um jeito melhor de levar as coisas.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
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Voltou a comer ao ouvir as palavras do loiro, evitando encará-lo durante o processo. Era surpreendente já que tivesse falado tanto sobre sua vida pessoal para alguém que havia acabado de conhecer. Talvez ainda estivesse emocionalmente abalada por conta de toda a ansiedade em ir no oftalmologista se consultar por conta da dor de cabeça constante devido a visão. <br />
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- [Eu não acho óculos ruins. Meu pai usou óculos por anos, a minha madrasta usa óculos.] - deu de ombros. - [Não vai fazer diferença se eu começar a usar óculos ou não. Exceto quando eu for para as competições de natação e hipismo.] - explicou, pegando seu hambúrguer com falafel. <br />
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Fez uma pequena pausa, observando o rapaz em silêncio antes de arquear a cabeça, ponderando sobre a terapia do outro. <br />
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- [Por que veio estudar aqui em Cerise? Você parece legal, mas não parece filho de gente rica. Você é bolsista por causa da fotografia? Eles sabem que você é famosinho?] - resolveu perguntar, curiosa. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
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O loiro respirou mais aliviado quando o clima tenso pareceu se dissolver, e aos poucos cada um dos dois voltava para a própria refeição parecendo que o tempo que tinham parado para trocar aquelas notícias e sentimentos ruins fosse um momento de “parada”; Mas que agora as coisas estavam voltando ao seu lugar e cada um podia dar atenção ao seu sanduíche abandonado de falafel. Escutou enquanto a morena mais nova narrava que tanto seu pai, quanto sua nova madrasta usavam óculos e que por isso a imagem mental de se vê usando óculos não causava desconforto, e que aquilo só iria lhe atrapalhar nas competições esportivas.<br />
<br />
Engoliu em seco, porque lembrar de esportes lhe deixava amargo, e aquilo fez o restante do seu apetite sumiu, deixou o sanduíche de lado com apenas duas mordidas, e deu atenção ao suco tomando um gole para engolir aquela sensação ruim que tinha lhe acometido. Tanto que não conseguiu adicionar qualquer comentário sobre os esportes que a morena mais jovem tinha citado. Apenas quando ela lhe perguntou sobre seus motivos de estar em Cerise que o alemão conseguiu organizar os próprios pensamentos:<br />
<br />
- [Eu sou bolsista de Artes, está correto, e o fato de ter conseguido expor contou pontos favoráveis pra minha aceitação, porém está na minha matrícula como requerimento manter isso em sigilo, não quero nenhum professor comentando sobre com outros alunos, pode causar desconforto, muitos deles podem sonham em expor em galerias eu iria parecer metido por já ter conseguido isso. Não quero fazer alguém desistir de seguir seus sonhos por se sentir uma farsa ou um impostor.] - o loiro falou de forma bem pontual, não queria ser exemplo e nem motivo de alguém sentir-se uma farsa ou muito menor do que poderia ser: - [E de fato, se eu não tivesse conseguido essa bolsa jamais estudaria em um local tão fino, até mesmo os meus quadros quando são vendidos, eu tenho de economizar o dinheiro pra comprar outros equipamentos e materiais.] - comentou sem ter vergonha de admitir aquele ponto, no fim das contas era um dinheiro limpo, e lhe fazia depender menos dos pais para manter sua profissão como pintor e fotógrafo.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
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Franziu o cenho com o comentário dele e a explicação sobre não querer que ninguém se sentisse uma farsa por ele ter conseguido sucesso tão cedo. Discordava daquele ponto de vista, ainda mais por ele ter um boa aparência e ser educado, seria um artista muito bem aceito e reconhecido pelo meio. Só esperava que ele não fosse tão introspectivo a ponto de permitir que outros tirassem vantagem de sua posição. <br />
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- [Se a pessoa desistir do próprio sonho é porque não era tão importante assim para ela.] - respondeu, sem se preocupar dessa vez em ser grossa com as próprias palavras. - [Não está sendo muito pessimista? Talvez outros artistas olhem para você como uma inspiração. Tipo, você já ficou cego e hoje tem essa fama secreta.] - deu de ombros, ajustando-se no assento enquanto dava mais uma mordida no próprio sanduíche. Mastigou e engoliu. - [Além disso, talvez algumas famílias queiram te contratar para trabalhos. Não se sabe.] <br />
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Buscou o celular, verificando novamente a conta secreta do loiro e as obras que ele tinha publicadas. Ponderou por um instante, buscando um número para contato ali. <br />
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- [Você não gosta muito dos holofotes, não é mesmo? Mas eu posso ter o seu contato? Às vezes eu participo de alguns eventos em Paris. Eventos de moda, desfiles.] - fez uma pausa, parando para observar a reação do loiro. - [Teria disponibilidade para algum trabalho como fotógrafo?] - questionou, imaginando que seria interessante também para seu portfólio trabalhar com um artista tão famoso. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
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Talvez fosse difícil pros outros entenderem seu ponto, afinal, era sim um pessimista de marca maior, e talvez a morena não imaginasse o quanto estava certa naquele ponto, mas preferia não comentar sobre as coisas que desgostava em si mesmo. Abriu a boca pra responder sobre porque evitava ficar em evidência, mas ela engatou na conversa lhe pedindo um número pra contato. Ela parecia uma pessoa “normal” não era nenhum tipo de stalker maluca, e nem parecia uma pessoa mal intencionada, podia estar errado? Mas estava sempre deixando seu lado pessimista falar mais alto, poderia daquela vez dá um voto de confiança, não é mesmo.<br />
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- [Não sei se eu sou o profissional mais indicado pra fotografar passarelas, mas se quiser fazer um ensaio conceitual, está mais dentro do que eu costumo trabalhar.] - Respondeu de forma bem sincera, afinal não era sua especialidade lidar com moda diretamente, embora gostasse e achasse muito interessante, era mais um consumidor, do que um estudioso de fato: - [é um misto de coisas, sou tímido, não quero que as pessoas associem minha imagem ao que eu produzo, se elas gostarem dos quadros que seja pelo que eles comunicam, e não necessariamente, por eu ser um “exemplo de superação” eu sei que sou um deficiente, mas se as pessoas começarem a acompanhar meu trabalho pela narrativa do “cego que pinta quadros” isso vai me deixar mais frustrado do que feliz.]<br />
<br />
Não sabia se a garota mais nova iria entender, puxou o sketchbook e passou rapidamente nas folhas por vários estudos de rosto e formas que tinha feito desde que tinha chegado, alguns em vermelho por causa do colega de dormitório, e buscou uma folha em branco. Lá anotou seu número pessoal, para o qual ela poderia mandar mensagens, e deixou destacado o e-mail de trabalho que usava, não queria que as pessoas ligassem para si e ouvissem sua voz a menos que fosse estritamente necessário. Fez um desenho ligeiro de uma Monique de busto com pedaços de pão nas bochechas, em um retrato simplificado de poucos traços e estendeu na direção da menor.: -[Pode mandar mensagem sem ser só por trabalho também, não tenho amigos ainda nessa cidade ainda.]<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
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Sorriu para o rapaz com um ar mais relaxado e tomou o último gole de sua bebida, concordando em silêncio enquanto ele sugeria um ensaio conceitual. Preferia até trabalhar com uma ideia mais conceitual para seus projetos pessoais, para produções comerciais, conseguia fazer o trabalho muito bem com profissionais freelancers já conhecidos por sua avó. Ponderou, todavia, quando ele mencionou que não queria ser associado à premissa de um profissional que era um “cego que pintava quadros”. Respirou fundo, concordando por um momento antes de responder de novo: <br />
<br />
- [Bem, o seu público sempre vai tirar as próprias conclusões, mesmo que você se explique. Isso meio que não depende muito de você. Mas eu vou respeitar o seu modo de se posicionar como artista. Alguns artistas não gostam de ter sua imagem associada às obras que produzem. Alguns nem sequer vão aos lançamentos de suas coleções.] - deu de ombros, encarando o loiro. - [O importante é fazer o que você gosta.]<br />
<br />
Ficou observando as breves imagens do sketchbook alheio repleto de rascunhos. Ficou ainda mais interessada quando ele acabou fazendo um rascunho seu, o que lhe fez sentir as bochechas aquecendo, corando, ao se sentir animada com a ideia de ganhar um desenho, ainda que fosse só um rascunho, de alguém bonito e com uma habilidade artística invejável. <br />
<br />
- [Ah, não se preocupe, Berthold. Eu também não tinha muitos amigos quando vim para cá. Tenho certeza que vai fazer bons amigos em St. Clavier. Tem garotos bem legais por lá. Conhece o Charles? Um loirinho, com cara de enjoado, nessa altura... ] - gesticulou, até animada ao recordar do rapaz. - [Tem o Oliver, ele é bem forte, mas tem cara de fofinho, ele costuma andar com o Lui, que é meio calado, mas todo mundo respeita quando ele abre a boca pra falar, tem um--] - fez uma breve pausa, diminuindo o sorriso ao se recordar do ex. - [... um ruivinho, ele é meio idiota, mas tem bastante energia, sabe? Lukashenko, o nome dele.] - desengasgou, mantendo o sorriso apenas por educação dessa vez, fazendo uma pausa para pegar algumas poucas batatas fritas para comer. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
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Aparentemente sua narrativa tinha sido entendida, ao menos dentro do que tinha visto e compreendido da jovem a sua frente, ela conseguia ser ponderada e respeitar suas posições o que era um bom sinal, e realmente aumentava as chances da garota se tornar uma amiga. Terminou de comer sua refeição concordando com um aceno de cabeça que o importante é fazer algo que se gosta no fim das contas. Deixou que ela tomasse tempo olhando seu Sketchbook afinal quem não desenhava costumava ficar mais entretido com rascunhos conceituais.<br />
<br />
Voltou a dar atenção para a mais nova quando ela comentou que também tinha demorado para se enturmar logo quando tinha chegado a França, o que era difícil de imaginar, afinal ela parecia uma pessoa muito agradável. Estranhou a altura indicada pela mais nova, porque não lembrava de ter alunos tão crianças na instituição masculina, e assentiu positivamente tentando associar os nomes, mas como eram todos os primeiros nomes não tinha intimidade pra chamar ninguém assim, mas o último nome foi bem fácil de lembrar:<br />
<br />
- [Ah, o Presidente do Conselho Estudantil o tal de Lukashenko, eu não o conheço pessoalmente, meu colega de quarto que falou com ele por causa do clube de ciências que ele quer fundar, mas disse que ele era um pouco estranho, deixa lembrar o que ele falou… hmm-...!] -  o loiro fez uma pausa, pra pensar, arrumando o par de lentes de grau no rosto: - [Algo como “amigável sem segundas intenções”, tipo, eu sei que eles saíram pra jantar em algum restaurante da orla, mas que o tal de Lukashenko não tentou “tirar nada dele”. Daí eu não sei se ele quis dizer que o garoto não cantou ele, ou se não quis tirar dinheiro dele. Esse meu colega de quarto é meio ruim de se expressar, às vezes ele fala como um “idoso”.] - O loiro sorriu de forma mais descontraída: - [Pelo que eu vi lá do Presidente do Conselho Estudantil, ele é popular, bonito e amigável, mas é linha dura e tá sempre pegando no pé dos alunos do primeiro e segundo ano]. <br />
<br />
Concluiu o seu ponto, porque como só o tinha visto de longe não tinha como ter uma opinião formada sobre ele, então o loiro pegou o sketchbook de volta e folheou buscando um dos rascunhos que tinha feito do colega de quarto: - [Aqui meu colega de quarto, o nome dele é Evelyn Newell, ele também é da Alemanha pra minha sorte, nosso quarto é chamado de consulado Alemão porque a gente só conversa nesse idioma.] - Nos rascunhos são vários desenhos de rosto de Evelyn sentado a escrivaninha, como se estivesse pensativo, várias expressões, e alguns rascunhos sobrepostos de mudança de posição das pernas, os cabelos marcados em vermelho vivo com marcador.<br />
<br />
<br />
- [Sobre alguém dessa altura, seria um anão? Porque só uma criança teria essa altura, e eu não lembro de ter visto ninguém com cara de ter menos de catorze anos.] - o loiro concluiu a fala pensativo, afinal, St. Clavier admitia alunos para o ensino médio a partir de 14 anos, bem lembrava do livro de instruções da escola, e ainda bem que ele estava escrito em vários idiomas.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
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Ficou levemente surpresa ao descobrir como Berthold enxergava Yure. Baixou o olhar, pensando em quanto ele deveria ter mudado desde quando haviam começado a namorar até o término. Ficou pensativa por um momento. Desde quando havia começado a sair com o ruivinho, sua personalidade havia melhorado, conseguia conversar mais abertamente com seu pai e até mesmo estava conseguindo manter uma boa convivência com algumas garotas em Limoges. Contudo, imaginou que talvez sua convivência com ele não tivesse melhorado a personalidade do outro, apenas causado o efeito reverso. E agora que ele estava livre de sua companhia, poderia voltar a agir como uma pessoa responsável com os amigos. Sabia que ele deveria amadurecer quanto as próprias vontades. Só esperava que ao menos ele tivesse conseguido descobrir o que queria fazer do próprio futuro. <br />
<br />
- [Não se preocupe, Lukashenko é bem ruivo. Não tem como confundir ele no meio das pessoas.] - respondeu, tentando soar mais neutra e menos reflexiva. Observou o desenho do colega de quarto do loiro e arqueou uma sobrancelha diante da imagem desenhada. Riu baixinho com a ideia do quarto dos dois ser chamado de “consulado alemão”. - Então eu deveria começar a conversar contigo em francês para que se acostume? - perguntou em francês e, apesar da língua, soou um pouco mais devagar, tomando cuidado com os trejeitos do idioma que já estava habituada a falar. - [Charles é o nome dele. Charles Eadgar. Ele é cadeirante e gosta muito de jogos, video games, ele digita muito rápido também.] - explicou, apoiando os cotovelos sobre a mesa e o queixo nas mãos abertas em formato de conchas, destacando as unhas curtas e o esmalte mais básico que estava usando já que ainda não havia saído para a manicure naquela semana. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
<br />
O loiro ficou pensativo diante da explicação dada sobre o tal ruivo presidente do conselho estudantil, só o tinha visto de longe e ele não parecia feio, mas parecia muito novo pro seu gosto pessoal, ele tinha um rosto bonito, e com certeza ficaria mais bonito em uns dois anos, mas estava fora da sua área de interesse. Berthold arrumou o par de lentes de grau no rosto antes de voltar a encarar a mais nova a sua frente:<br />
<br />
-- [Como eu vi de longe e não conversei com ele só posso dizer que ele tem um rosto bonito, mas ainda é muito carinha de criança pro meu gosto pessoal.] - Comentou de forma despretensiosa, sem se incomodar de falar abertamente do seu interesse por outros homens, mas deixando claro que preferia gente mais velha. Prestou atenção no francês falado pausadamente para sua pessoa:<br />
<br />
-- Ah eu entendo francês nesse nível, o meu problema é mais com expressões idiomáticas, e contrações de frases, eu consigo assistir aula e ler textos, mas as vezes conversar na rua é difícil. - o loiro sorriu mais animado, falando no seu francês carregado por seu sotaque alemão, afinal estava a pouco tempo naquele país pra ter seu sotaque diluído:<br />
<br />
-- [Ah, agora faz mais sentido, eu não lembro de já ter visto, eu sei que o presidente do conselho disciplinar também é cadeirante, e ele é bem bonito. Mas eu não ando aprontando nada pra cair no disciplinar, e nem estou em nenhum clube pra ir no conselho estudantil, sou um aluno que pode ser considerado de mediano pra ruim]. -- O loiro sorriu da sua própria desgraça como estudante: -- [Dos alunos de St. Clavier que eu já conhecia antes de entrar foi o Arman M. Jhonson, que é fotógrafo e pintor e eu já acompanhava o trabalho dele pelas galerias.] <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Ouviu a opinião do outro sobre Yure e concordou em silêncio. O ruivinho tinha uma cara mais jovem mesmo, mas gostava disso nele, deveria ser o sorriso constante que deixava ele com um ar mais jovial. <br />
<br />
- [Você pode me mandar mensagem quando quiser saber alguma expressão. Deve ter algum aplicativo que possa te ajudar nisso também.] - sugeriu, acenando brevemente. - [E não se preocupe com o horário, pode me enviar mensagem tarde da noite, eu prefiro trabalhar de madrugada também.] - riu com o comentário dele sobre ser considerado mediano. Estendeu a mão para ele e apertou a dele, cumprimentando-o em silêncio. - [Estamos juntos nesse barco então. Já tive o prazer de ir parar na sala do conselho disciplinar por colecionar advertências, tentar fugir de Limoges no primeiro ano e… outros problemas.] - deu de ombros, lembrando de seu problemático caso com Viola. Encarou o rapaz em silêncio até se recordar do nome do fotográfico. - [Ah! Um moreno alto! Conheço! Já paguei alguns trabalhos dele. Ótima qualidade, ótimo serviço. Ouvi dizer que ele e o namorado terminaram… acho que o namorado dele deixou St. Clavier.] - comentou, observando a reação do outro silenciosamente. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
<br />
O loiro não sabia exatamente o que tinha deixado Monique desanimada, mas pelo visto já tinha passado, não era exatamente bom em fazer leituras do estado de humor dos outros, até porque se começasse a tentar pensar o que tinha causado aquilo, nem saberia dizer, não a conhecia a tempo suficiente pra poder prospectar. Mas ao menos o rumo da conversa estava melhor, e finalmente parecia que tinham achado um assunto confortável para tratar:<br />
<br />
-- [Eu também trabalho até tarde, então podemos ficar trocando mensagens sobre aleatoriedades, e eu realmente não sei se tem algum aplicativo pra isso, mas se você achar eu agradeço.] -- o loiro brincou, mas foi surpreendido com a mão estendida de sua direção, entendendo o gesto apenas depois, com o complemento da explicação, e apertou de volta, notando a diferença do tamanho entre as mãos, afinal tinha sido jogador de basquete por muitos anos então era natural que houvesse certa diferença: -- [Ainda bem que eles não consideraram o meu histórico de advertências da outra escola em que estudei, senão eu certamente começaria mal meu novo ano letivo.]<br />
<br />
E não foi surpresa que a mais nova conhecesse também o pintor, descrevendo-o com facilidade, no entanto, a mais nova destacou um ponto que não tinha conhecimento, ou melhor vários pontos: 1, que ele era gay, ou pelo menos Bi, 2, que ele tinha um namorado, 3, que eles terminaram e por consequência ele estava solteiro. O loiro piscou um par de vezes e a armação das lentes de grau escorregaram na linha do nariz até quase a ponta. Até o próprio Berthold ficou levemente corado, e ajustou o par de lentes do rosto, apoiando o queixo na palma da mão e desviando o olhar para qualquer outro ponto:<br />
<br />
[-- Ele é “vassoura quente” com certeza. Ai ai…! ]-- Não tinha nem o que acrescentar ali de comentário adicional, quem sabe poderia chamá-lo pra sair? Tirar umas fotos por aí? Fazer cumprir aquele ensaio de fotos que ele tinha lhe convidado? Se perdeu brevemente em pensamentos distraído com as possibilidades, até se dar conta que tinha ficado muito tempo calado retornando a atenção a menor: -- [Mas assim términos são sempre ruins, mas se foi em maio quando acabou o ano letivo, estamos em setembro agora, acho que deu tempo dele tomar um fôlego ao menos. ]<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Ficou contente em ouvir do outro que ele também tinha hábitos noturnos. Algumas pessoas que havia conhecido nos últimos meses possuíam hábitos saudáveis demais para perder noites de sono e gostar de acordar tarde como ela. Riu baixo com a ideia daquele rapaz com ar de gentil e certinho ser algum tipo de “bad boy”. Definitivamente, seria uma surpresa descobrir sobre quais advertências ele teria conseguido, mas achou que tudo fosse piada da parte dele. Não conseguia visualizá-lo quebrando alguma regra. <br />
<br />
Notou o leve corar no rosto do rapaz e arqueou uma sobrancelha, sem entender ao certo que tipo de reação era aquela. Baixou o olhar por um momento, pensando sobre a lembrança de quando havia discutido com Lukashenko e sido a culpada pelo término do relacionamento dos dois. Balançou os pés por debaixo da mesa e resolveu não tocar no assunto do término novamente. Encarou o loiro com um ar de curiosidade e estreitou o olhar. <br />
<br />
- [Eu diria que ele é bonito sim. Sabia que ele costuma praticar corrida?] - questionou, entretida, batendo a unha do indicador sobre a mesa antes de perguntar finalmente: - [Mas o que quer dizer com “vassoura quente”? É uma gíria de onde você veio?] - encarou o rapaz, imaginando se ele ficaria mais constrangido com a pergunta.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Berthold</span></div>
<br />
O loiro estava entretido com a ideia de poder chamar Arman pra sair com mais intenções do que só um ensaio de fotos ou conversas sobre exposições e burocracia de galerias, até que foi surpreendido com o comentário direto de Monique sobre a gíria que tinha acabado de falar. O alemão ficou corado e desviou o olhar brevemente, tentando tapiar, porque tinha deixado o comentário escapar sem ter noção se a mais nova tinha idade pra saber o que era aquilo, e tentou buscar a explicação mais plausível que poderia ser dita em horário comercial em que estavam:<br />
<br />
-- [Bem, é uma gíria gay pra dizer que algum outro homem é muito atraente, muito mesmo!] - o loiro sorriu diante da própria incapacidade de explicar uma coisa que seria tão simples se estivesse conversando com outro homem gay, mas fazia parte da vida, imaginava que uma jovem estilista não teria problema em ter um novo amigo homossexual: -- [E depois desse meu comentário ficou evidente meu interesse em caras, espero que não tenha problema com isso.] -- o loiro sorriu meio sem graça e constrangido, porque não é necessariamente o tipo de assunto que se tem numa primeira conversa com alguém que acabou de se conhecer. <br />
<br />
-- [Como eu acabei de chegar na França eu não sei onde outras gays andam, e como abordar outras pessoas, imagina a minha dificuldade pra flertar se eu mal sei falar francês.] -- O loiro riu tentando descontrair dentro da sua própria situação.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Ouviu a explicação acompanhada do pedido de que o outro esperava que não tivesse problemas com homossexuais. Acabou rindo, era bem óbvio que estava acostumada com pessoas com diferentes inclinações sexuais no mundo da moda. Na verdade, em um internato só de meninas, já havia ouvido e visto muita coisa. Até pensava que Silvia e Danielle faziam um bonitinho casal, a amiga de cabelo verde super preocupada e certinha com a criatura sem rumo e sem cabeça que era Danielle. <br />
<br />
- [Eu não me preocuparia com isso se fosse você. St. Clavier é um internato para garotos, o que mais vai achar por lá são… homens “vassoura quente”.] - respondeu, sequer dando atenção ao tempo em que estava ali conversando com o loiro. - [O antigo diretor é meu padrinho. E a diretora de Limoges é minha atual madrasta, então se quiser me chamar de sua fada madrinha, eu posso te oferecer um tour pelas duas escolas... ] - ofereceu, convencida e até bastante amigável. Talvez o tempo vivendo em Cerise tivesse lhe feito bem, afinal. Estava feliz por alguns motivos, seu pai estava enxergando de novo, era a irmã mais velha de dois bebês gêmeos super fofos, e em algum tempo estaria formada e pronta para começar sua carreira como uma estilista europeia. - [Se quiser, posso te mostrar o clube de corte e costura. Ou natação. Ou… hipismo. Gosta de cavalos?] - perguntou interessada. Não costumava encontrar muitas pessoas interessadas em cavalos. Na verdade, essa era uma das poucas coisas em comum que tinha com a senhora L´mark.]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[Walking and Working on Walkers [Natalia]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=312</link>
			<pubDate>Mon, 27 Sep 2021 18:04:11 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=102">Boyd</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=312</guid>
			<description><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Boyd</span></div>
<br />
Após seu caloroso encontro com Kyle, o resultado não podia ser outro, Boyd teve que ir para o hospital para o tratamento adequado. Sua vontade era receber alguns pontos, umas receitas para analgésicos e ir embora, já tinha passado por situações piores, com muito menos regalias e sobrevivido. Mas, teria que seguir os protocolos de tratamento apropriados, infelizmente. Tinha sofrido consideráveis danos pelo combate e o tiro na perna não ajudaria nas patrulhas que ele costumava fazer.<br />
<br />
Seu único consolo para esse tempo mínimo de repouso era que, certamente mais do que ele, o seu oponente estava em piores condições. Um tiro como ele levou e todo o esforço seguido do combate, bem como a piora causada pela enfiada de mão que o texano deu na ferida do ex SEAL, davam a certeza de que ele podia ser resistente à dor, ou até mesmo não sentir nada, mas isso não muda o fato de que ele ia precisar de tratamento apropriado, mas ele não teria isso com facilidade, era procurado por todos os lugares e já tinha chamado atenção demais para si mesmo.<br />
<br />
Suas suspeitas sobre a procura pelo tratamento alternativo se concretizaram quando Leona, que tirou um tempo para ir ao hospital para contar sobre a ligação recebida, que identificou que a pessoa que fez era detentora de conhecimentos médicos e mais alguns detalhes que somente uma pessoa peculiar como ela perceberia. Boyd aprendeu a não questionar o que levou a companheira de profissão a chegar às conclusões que chegava, sabia que a vida era curta demais para uma palestra de várias horas sobre os mistérios da mente humana e análise comportamental. O aviso sobre o telefonema era seguido de um pedido, para usar o tempo no hospital para descobrir quem tinha feito o atendimento.<br />
<br />
Era tempo de pegar suas nádegas malhadas que ficavam à mostra naquela bata de hospital, que parecia nunca fechar direito, e botar o trabalho em dia. Foi exatamente o que ele fez. Aproveitou as pequenas amizades que fez trazendo um ou outro trombadinha machucado, a simpatia que já tinha com algumas atendentes e começou a triangular escalas. Nos seus passeios começou a procurar computadores com a tela desbloqueada e o sistema hospitalar aberto para auxiliá-lo. Não era uma busca fácil, mas alguns nomes saltaram aos seus olhos, Walker era o mesmo sobrenome de dois técnicos que faziam atendimento na ala onde estava. Não tinha ido com a cara deles, algo não cheirava bem, passaria os dados que levantou para Carissa, mas pressionaria esses dois, seu faro para bandidinho raramente falhava. Os médicos costumam passar junto com os técnicos na visita inicial do dia para análise dos exames, era a hora perfeita para pressionar alguém que não quer perder o emprego e o acesso aos produtos ilegais.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
O hospital estava em sua rotina costumeira, apesar dos acontecimentos recentes, o atendimento de urgência e emergência continuava atendendo a poucos pacientes, considerando que o hospital estava localizado em uma cidadezinha do interior francês. Apesar de ter se ausentado como de costume para resolver outros “problemas”, havia demorado mais do que esperava, contando os instantes que ainda passou em seu veículo para recuperar a própria calma. <br />
<br />
A médica retomou seu posto, passando pela ante sala onde apenas funcionários eram permitidos para poder arrumar seus pertences no armário, apenas o que era necessário levar. Sabia que levar tudo deixaria muita suspeita e ainda precisava agir como se tudo estivesse muito bem. Foi surpreendida por um dos enfermeiros conhecidos enquanto arrumava seu armário, o tal de Paul Walker que trabalhava na geriatria. Ao que parecia, um policial que havia sido baleado estava no hospital justamente durante seu horário de atendimento. Não sabia ao certo se o rapaz havia ido até lá para lhe alertar porque estava preocupado consigo ou se apenas queria que cobrisse seu irmão. <br />
<br />
- Não se preocupe. - foi só o que pode dizer, esboçando o sorriso costumeiro de quem estava habituada a lidar com aquele tipo de tensão. Saiu da sala ao trocar os sapatos por modelos de sola baixa, vestindo o jaleco e colocando o estetoscópio nos ombros.<br />
<br />
Cumprimentou seus colegas de trabalho como de costume, procurando com o olhar pela cabeleira ruiva cereja. Seria pedir demais topar com a enfermeira antes de ir embora ou de fato só teria o azar de ainda precisar atender a um policial? Suspirou conformada com a própria sorte e chegou a tempo de encontrar Richard Walker, outro ruivo em sua vida, atendendo ao tal paciente, já limpando o ferimento e realizando a assepsia para maiores cuidados. <br />
<br />
- Boa noite, senhor Garrett. - cumprimentou o paciente antes de buscar o prontuário do mesmo, observando atentamente para a possibilidade do homem ser alérgico a algum tipo de medicamento. Deu as costas para o sujeito enquanto avaliava o prontuário. Sempre era melhor evitar encarar os policiais quando estava em seu trabalho. Pelo menos o plantão na urgência e emergência também ajudava a justificar os olhos cansados e as olheiras que não conseguia mais esconder totalmente por ter lavado o rosto mais de uma vez, removendo a própria maquiagem. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Boyd</span></div>
<br />
Viu o primeiro de seus possíveis alvos entrando, sabia pelo tempo que andou fuçando nos horários, prontuários e escalas como seria a rotina. Não era um inepto computacional, sabia procurar algo. Não sabia hackear e essas coisas que os nerds da área técnica faziam, mas não catava milho no teclado, como era comum ver entre oficiais mais antigos. Além do que, sabia ser boa praça e retirar informações amigavelmente, nem sempre era necessário ameaçar, bater e atirar nas pessoas, fazia isso porque gostava, mas não era algo indispensável.<br />
<br />
Viu a dra que iria fazer o atendimento em seu dia, sabia exatamente quem era, já tinha perguntado fingindo outros interesses sobre praticamente toda médica que esse maldito hospital possuía. Os homens costumam dizer que é coisa de mulher fofocar, mas basta insinuar interesse sexual em uma garota pra macharada passar horas compartilhando suas observações da rotina alheia. Aliada a rádio peão e as informações colhidas no sistema do hospital em logins esquecidos abertos e afins, já tinha colhido o suficiente para conhecer a maioria do hospital, todas as possíveis pessoas envolvidas na ligação e seus possíveis apoios. Antes dela chegar, estava fazendo a limpeza no curativo um dos idiotas que levaria preso, caso não descobrisse quem estava por trás da ligação.<br />
<br />
Boyd era experiente o suficiente para perceber a tensão de alguém que faz algo ilegal perto de uma autoridade policial. Era um dos irmãos Walker que estava lá, fazendo o procedimento, notoriamente tenso com o silêncio desconfortável de americano, que sempre gosta de tagarelar. O timing da finalização e a entrada da médica foi perfeito, dra Arlovskaya entrou e era hora de agir, precisava testar sua teoria e a reação dela diria tudo sobre a situação. Um médico honesto ficaria ultrajado com a suposição do texano e incitaria a averiguação, caso ela estivesse de alguma forma envolvida, mesmo não se entregando saberia reconhecer uma passada de pano.<br />
<br />
- Boa noite dra Arlovskaya, como estamos hoje? – Antes que Richard pudesse sair, aproveitando a proximidade do mesmo, agarrou no cordão que segurava seu crachá, rápido e firme, para assustar devido ao movimento abrupto. – Eu sei o que vocês estão fazendo aqui no hospital, idiota, melhor começar a cantar o que eu quiser antes que eu arraste seu rabo pra prisão. – Falou em tom baixo e incisivo enquanto puxava o enfermeiro para encará-lo e saber que não estava brincando. Começava a brincadeira de pressionar vagabundo, especialidade da casa.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
A doutora sorriu casualmente em resposta ao cumprimento do paciente, analisando brevemente o quadro nada complexo dele. Sendo um policial, ainda por cima, ele deveria conseguir se recuperar sem problema. Além disso, o físico dele não parecia ser de alguém que tinha problemas com a própria saúde e metabolismo. Contudo, estranhou o comportamento alheio quando o outro agarrou o cordão do crachá de seu enfermeiro. <br />
<br />
Richard, por outro lado, não parecia alarmado,  chegando até a  rir diante da ameaça, uma mistura de cinismo e nervosismo. Ele ainda fez questão de responder na lata: <br />
<br />
- Ah depende, você está sendo vago sabe, venda de órgãos, sumiço de cadáveres, venda de dentes, lavagem de dinheiro, funcionários fantasmas nada disso é comigo, eu sou peixe pequeno, se for os remédios de sobra que eu embolso, a gente pode conversar depois quando for na hora de tomar sua injeção pra trombose, eu tenho mais uns vinte paciente pra medicar.<br />
<br />
A médica, por sua vez, torceu a boca, observando a cena por cima do ombro, incomodada com a ameaça de prisão ao enfermeiro que, apesar de estar envolvido em procedimentos não tradicionais ali, estava apenas fazendo seu trabalho naquele instante. E gostava do sujeito. Desviou o olhar por um instante, considerando novamente suas últimas escolhas e o fato de ter ainda ido parar ali no hospital geral ao invés de ser inteligente de verdade, pegar sua caminhonete e dar o fora da cidade de uma vez. <br />
<br />
- Senhor Garrett. - chamou pelo homem, tentando esboçar um sorriso mais amigável para que ele ao menos resolvesse soltar o enfermeiro ousado. - Está com algum problema com minha equipe, senhor? - apertou a prancheta, tendo uma ligeira vontade de atirar o objeto na cabeça do infeliz que só estava ali para atrapalhar ainda mais sua vida e sua breve despedida daquele trabalho tedioso. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Boyd</span></div>
<br />
Até certo ponto, o susto funcionou, mas funcionou rápido demais. Não podia afrouxar nesse momento, do contrário perderia o momento apropriado de obter mais algumas informações. Já tinha trabalhado com tráfico por tempo o suficiente para saber como funcionava desvio de medicações, insumos médicos e coisas do tipo. Ele podia até estar interessado em colaborar, mas era interessante ressaltar que não estava brincando e sabia do que estava fazendo.<br />
 <br />
- Sim, Dra. Eu e seu técnico temos uns assuntos sobre ilegalidades para tratar. Eu imagino que você tenha outros pacientes para medicar, mas, arrume tempo para conversarmos. Trabalho tempo o suficiente com a sua laia para saber como pegá-lo. Você vai me contar sobre o cara que chegou no estabelecimento de vocês com o ferimento à bala no tórax, com complicações de uma luta corporal e que foi costurado por uma médica daqui. Preciso falar com ela ou, como preciso prender alguém nisso tudo, vai ser você.<br />
 <br />
Estava falando sério, e, se tudo que ele disse saber fosse verdade, teria infinitamente mais trabalho quando botasse Kyle debaixo da terra definitivamente. Não surpreendia ninguém uma cidade onde tinha tão pouca vigilância sobre coisas tão importantes, passar despercebido o fluxo de insumos e afins do hospital. Na verdade, para Boyd a surpresa era os procedimentos não serem realizados dentro do hospital, debaixo dos narizes de todos.<br />
 <br />
- Inclusive, tenho uma amiga do departamento que sabe de cabeça a porcentagem de descarte e desperdício das medicações dos hospitais. Se eu ligar pra ela, com uma pesquisa rápida vamos saber que este hospital está certamente bem acima da média aceitável. Com mais um mínimo de pesquisa, posso identificar quem assina suas prescrições para relacionar o médico responsável pelos desvios com você. Poupe nosso tempo, todos ganham com isso.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Boyd</span></div>
<br />
Após seu caloroso encontro com Kyle, o resultado não podia ser outro, Boyd teve que ir para o hospital para o tratamento adequado. Sua vontade era receber alguns pontos, umas receitas para analgésicos e ir embora, já tinha passado por situações piores, com muito menos regalias e sobrevivido. Mas, teria que seguir os protocolos de tratamento apropriados, infelizmente. Tinha sofrido consideráveis danos pelo combate e o tiro na perna não ajudaria nas patrulhas que ele costumava fazer.<br />
<br />
Seu único consolo para esse tempo mínimo de repouso era que, certamente mais do que ele, o seu oponente estava em piores condições. Um tiro como ele levou e todo o esforço seguido do combate, bem como a piora causada pela enfiada de mão que o texano deu na ferida do ex SEAL, davam a certeza de que ele podia ser resistente à dor, ou até mesmo não sentir nada, mas isso não muda o fato de que ele ia precisar de tratamento apropriado, mas ele não teria isso com facilidade, era procurado por todos os lugares e já tinha chamado atenção demais para si mesmo.<br />
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Suas suspeitas sobre a procura pelo tratamento alternativo se concretizaram quando Leona, que tirou um tempo para ir ao hospital para contar sobre a ligação recebida, que identificou que a pessoa que fez era detentora de conhecimentos médicos e mais alguns detalhes que somente uma pessoa peculiar como ela perceberia. Boyd aprendeu a não questionar o que levou a companheira de profissão a chegar às conclusões que chegava, sabia que a vida era curta demais para uma palestra de várias horas sobre os mistérios da mente humana e análise comportamental. O aviso sobre o telefonema era seguido de um pedido, para usar o tempo no hospital para descobrir quem tinha feito o atendimento.<br />
<br />
Era tempo de pegar suas nádegas malhadas que ficavam à mostra naquela bata de hospital, que parecia nunca fechar direito, e botar o trabalho em dia. Foi exatamente o que ele fez. Aproveitou as pequenas amizades que fez trazendo um ou outro trombadinha machucado, a simpatia que já tinha com algumas atendentes e começou a triangular escalas. Nos seus passeios começou a procurar computadores com a tela desbloqueada e o sistema hospitalar aberto para auxiliá-lo. Não era uma busca fácil, mas alguns nomes saltaram aos seus olhos, Walker era o mesmo sobrenome de dois técnicos que faziam atendimento na ala onde estava. Não tinha ido com a cara deles, algo não cheirava bem, passaria os dados que levantou para Carissa, mas pressionaria esses dois, seu faro para bandidinho raramente falhava. Os médicos costumam passar junto com os técnicos na visita inicial do dia para análise dos exames, era a hora perfeita para pressionar alguém que não quer perder o emprego e o acesso aos produtos ilegais.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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O hospital estava em sua rotina costumeira, apesar dos acontecimentos recentes, o atendimento de urgência e emergência continuava atendendo a poucos pacientes, considerando que o hospital estava localizado em uma cidadezinha do interior francês. Apesar de ter se ausentado como de costume para resolver outros “problemas”, havia demorado mais do que esperava, contando os instantes que ainda passou em seu veículo para recuperar a própria calma. <br />
<br />
A médica retomou seu posto, passando pela ante sala onde apenas funcionários eram permitidos para poder arrumar seus pertences no armário, apenas o que era necessário levar. Sabia que levar tudo deixaria muita suspeita e ainda precisava agir como se tudo estivesse muito bem. Foi surpreendida por um dos enfermeiros conhecidos enquanto arrumava seu armário, o tal de Paul Walker que trabalhava na geriatria. Ao que parecia, um policial que havia sido baleado estava no hospital justamente durante seu horário de atendimento. Não sabia ao certo se o rapaz havia ido até lá para lhe alertar porque estava preocupado consigo ou se apenas queria que cobrisse seu irmão. <br />
<br />
- Não se preocupe. - foi só o que pode dizer, esboçando o sorriso costumeiro de quem estava habituada a lidar com aquele tipo de tensão. Saiu da sala ao trocar os sapatos por modelos de sola baixa, vestindo o jaleco e colocando o estetoscópio nos ombros.<br />
<br />
Cumprimentou seus colegas de trabalho como de costume, procurando com o olhar pela cabeleira ruiva cereja. Seria pedir demais topar com a enfermeira antes de ir embora ou de fato só teria o azar de ainda precisar atender a um policial? Suspirou conformada com a própria sorte e chegou a tempo de encontrar Richard Walker, outro ruivo em sua vida, atendendo ao tal paciente, já limpando o ferimento e realizando a assepsia para maiores cuidados. <br />
<br />
- Boa noite, senhor Garrett. - cumprimentou o paciente antes de buscar o prontuário do mesmo, observando atentamente para a possibilidade do homem ser alérgico a algum tipo de medicamento. Deu as costas para o sujeito enquanto avaliava o prontuário. Sempre era melhor evitar encarar os policiais quando estava em seu trabalho. Pelo menos o plantão na urgência e emergência também ajudava a justificar os olhos cansados e as olheiras que não conseguia mais esconder totalmente por ter lavado o rosto mais de uma vez, removendo a própria maquiagem. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Boyd</span></div>
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Viu o primeiro de seus possíveis alvos entrando, sabia pelo tempo que andou fuçando nos horários, prontuários e escalas como seria a rotina. Não era um inepto computacional, sabia procurar algo. Não sabia hackear e essas coisas que os nerds da área técnica faziam, mas não catava milho no teclado, como era comum ver entre oficiais mais antigos. Além do que, sabia ser boa praça e retirar informações amigavelmente, nem sempre era necessário ameaçar, bater e atirar nas pessoas, fazia isso porque gostava, mas não era algo indispensável.<br />
<br />
Viu a dra que iria fazer o atendimento em seu dia, sabia exatamente quem era, já tinha perguntado fingindo outros interesses sobre praticamente toda médica que esse maldito hospital possuía. Os homens costumam dizer que é coisa de mulher fofocar, mas basta insinuar interesse sexual em uma garota pra macharada passar horas compartilhando suas observações da rotina alheia. Aliada a rádio peão e as informações colhidas no sistema do hospital em logins esquecidos abertos e afins, já tinha colhido o suficiente para conhecer a maioria do hospital, todas as possíveis pessoas envolvidas na ligação e seus possíveis apoios. Antes dela chegar, estava fazendo a limpeza no curativo um dos idiotas que levaria preso, caso não descobrisse quem estava por trás da ligação.<br />
<br />
Boyd era experiente o suficiente para perceber a tensão de alguém que faz algo ilegal perto de uma autoridade policial. Era um dos irmãos Walker que estava lá, fazendo o procedimento, notoriamente tenso com o silêncio desconfortável de americano, que sempre gosta de tagarelar. O timing da finalização e a entrada da médica foi perfeito, dra Arlovskaya entrou e era hora de agir, precisava testar sua teoria e a reação dela diria tudo sobre a situação. Um médico honesto ficaria ultrajado com a suposição do texano e incitaria a averiguação, caso ela estivesse de alguma forma envolvida, mesmo não se entregando saberia reconhecer uma passada de pano.<br />
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- Boa noite dra Arlovskaya, como estamos hoje? – Antes que Richard pudesse sair, aproveitando a proximidade do mesmo, agarrou no cordão que segurava seu crachá, rápido e firme, para assustar devido ao movimento abrupto. – Eu sei o que vocês estão fazendo aqui no hospital, idiota, melhor começar a cantar o que eu quiser antes que eu arraste seu rabo pra prisão. – Falou em tom baixo e incisivo enquanto puxava o enfermeiro para encará-lo e saber que não estava brincando. Começava a brincadeira de pressionar vagabundo, especialidade da casa.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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A doutora sorriu casualmente em resposta ao cumprimento do paciente, analisando brevemente o quadro nada complexo dele. Sendo um policial, ainda por cima, ele deveria conseguir se recuperar sem problema. Além disso, o físico dele não parecia ser de alguém que tinha problemas com a própria saúde e metabolismo. Contudo, estranhou o comportamento alheio quando o outro agarrou o cordão do crachá de seu enfermeiro. <br />
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Richard, por outro lado, não parecia alarmado,  chegando até a  rir diante da ameaça, uma mistura de cinismo e nervosismo. Ele ainda fez questão de responder na lata: <br />
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- Ah depende, você está sendo vago sabe, venda de órgãos, sumiço de cadáveres, venda de dentes, lavagem de dinheiro, funcionários fantasmas nada disso é comigo, eu sou peixe pequeno, se for os remédios de sobra que eu embolso, a gente pode conversar depois quando for na hora de tomar sua injeção pra trombose, eu tenho mais uns vinte paciente pra medicar.<br />
<br />
A médica, por sua vez, torceu a boca, observando a cena por cima do ombro, incomodada com a ameaça de prisão ao enfermeiro que, apesar de estar envolvido em procedimentos não tradicionais ali, estava apenas fazendo seu trabalho naquele instante. E gostava do sujeito. Desviou o olhar por um instante, considerando novamente suas últimas escolhas e o fato de ter ainda ido parar ali no hospital geral ao invés de ser inteligente de verdade, pegar sua caminhonete e dar o fora da cidade de uma vez. <br />
<br />
- Senhor Garrett. - chamou pelo homem, tentando esboçar um sorriso mais amigável para que ele ao menos resolvesse soltar o enfermeiro ousado. - Está com algum problema com minha equipe, senhor? - apertou a prancheta, tendo uma ligeira vontade de atirar o objeto na cabeça do infeliz que só estava ali para atrapalhar ainda mais sua vida e sua breve despedida daquele trabalho tedioso. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Boyd</span></div>
<br />
Até certo ponto, o susto funcionou, mas funcionou rápido demais. Não podia afrouxar nesse momento, do contrário perderia o momento apropriado de obter mais algumas informações. Já tinha trabalhado com tráfico por tempo o suficiente para saber como funcionava desvio de medicações, insumos médicos e coisas do tipo. Ele podia até estar interessado em colaborar, mas era interessante ressaltar que não estava brincando e sabia do que estava fazendo.<br />
 <br />
- Sim, Dra. Eu e seu técnico temos uns assuntos sobre ilegalidades para tratar. Eu imagino que você tenha outros pacientes para medicar, mas, arrume tempo para conversarmos. Trabalho tempo o suficiente com a sua laia para saber como pegá-lo. Você vai me contar sobre o cara que chegou no estabelecimento de vocês com o ferimento à bala no tórax, com complicações de uma luta corporal e que foi costurado por uma médica daqui. Preciso falar com ela ou, como preciso prender alguém nisso tudo, vai ser você.<br />
 <br />
Estava falando sério, e, se tudo que ele disse saber fosse verdade, teria infinitamente mais trabalho quando botasse Kyle debaixo da terra definitivamente. Não surpreendia ninguém uma cidade onde tinha tão pouca vigilância sobre coisas tão importantes, passar despercebido o fluxo de insumos e afins do hospital. Na verdade, para Boyd a surpresa era os procedimentos não serem realizados dentro do hospital, debaixo dos narizes de todos.<br />
 <br />
- Inclusive, tenho uma amiga do departamento que sabe de cabeça a porcentagem de descarte e desperdício das medicações dos hospitais. Se eu ligar pra ela, com uma pesquisa rápida vamos saber que este hospital está certamente bem acima da média aceitável. Com mais um mínimo de pesquisa, posso identificar quem assina suas prescrições para relacionar o médico responsável pelos desvios com você. Poupe nosso tempo, todos ganham com isso.]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[O Gato de Rodas e a Doutora Ursa [Charles]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=306</link>
			<pubDate>Mon, 27 Sep 2021 16:39:46 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=79">Natalia</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=306</guid>
			<description><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Estava em seu consultório na ala de atendimento do hospital geral de Cerise, sentada em sua cadeira confortável enquanto agradecia a enfermeira que lhe assistia no momento pelos novos arquivos de um paciente que seria transferido aos seus cuidados como neurologista devido ao tratamento em andamento do garoto. Estava de pernas cruzadas com a calça social preta e a blusa de linho fino branca que deixava bem transparecer parte da blusinha de alças de usava por baixo, cobertos pelo jaleco branco. Observou os dados sobre o caso do garoto em seu computador de trabalho e estreitou o olhar, considerando que um paciente como aquele receberia um bom tratamento fisioterápico na cidade do interior, mas o acompanhamento neurológico precisaria ser feito na capital - mas isso era no caso dela não se encontrar ali. <br />
<br />
- Vivian, pode pedir para o senhor Eadgar entrar, por favor? - solicitou a enfermeira pelo telefone enquanto separava seu bloco de anotações para anotar alguns tópicos do que era possível interpretar do caso do garoto. Pelos registros, ao menos, ele estava tendo acompanhamento psicológico.<br />
<br />
Pelo menos o garoto era um adolescente e não uma criança. Sempre tinha dificuldades em lidar com crianças. Lembrava muitas informações sobre a síndrome do garoto, mas pelo registro que havia no hospital, ainda precisaria de mais informações a respeito daquele caso em especial, visto que não havia apenas um tipo daquela síndrome e para apontar o tratamento adequado para ela, era necessário submeter o rapaz a alguns exames. Não sabia se ele estaria ali com os responsáveis, esperava que não, pois não lhe agradava tratar com os responsáveis quando havia a possibilidade de lidar diretamente com alguém que podia muito bem responder por si mesmo. <br />
<br />
Aguardou que a porta fosse aberta para poder se levantar, só então dando-se conta que o garoto estava usando uma cadeira de rodas. Arqueou uma sobrancelha. Se ele estava naquele cenário, ou ele ainda não havia recebido o tratamento adequado ou a síndrome dele era mais séria do que poderia esperar. <br />
<br />
- Bom dia, senhor Eadgar. Sou a doutora Natalia. Tudo bem com você hoje? - sorriu, aproximando-se para poder estender a mão para o garoto e cumprimentá-lo. - Por favor, fique à vontade. - afastou-se para sua mesa, acomodando-se e deixando que ele se acomodasse melhor na sala climatizada. <br />
<br />
Sua sala era como todas as outras salas de consulta daquele hospital, uma porta de acesso e uma de assistência para o corredor das enfermeiras que ficava fechada a maior parte do tempo, tal como naquele momento. Sua mesa ficava de um lado da sala, havia uma pequena estante atrás de sua cadeira, uma cortina de divisória branca que dava acesso a uma mesa mais alta, acolchoada, acompanhada de uma segunda estante na parede com pequenas decorações modernas para “humanizar o ambiente” e uma estante baixa a frente. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Idas ao hospital eram suficientemente estressantes para Charles. Uma coisa era você fazer visitas esporádicas por que você ficava doente de vez em quando… Outra era já ter ficado internado tantas vezes em um hospital que o cheiro de antisséptico lhe deixava inquieto. <br />
<br />
Havia ido sozinho para uma consulta, sabia que seria repassado para um novo neurologista, e preferia conversar com os novos médicos à sós. Por mais que tivesse receio de receber um diagnóstico negativo, algum momento teria de lidar com isso sozinho.<br />
<br />
Estava na sala de espera do hospital, que não estava tão movimentada, a não ser por um ou outro gato pingado que também aguardava por atendimento naquela sala. A cadeira encostada contra uma parede e com o livro mais recente de Cornwell em mãos. Era uma leitura que conseguia acalmá-lo por que se perdia tanto no universo medieval fantástico moldado pelo historiador que facilmente conseguia se projetar para fora daquelas paredes incessantemente brancas. Como um reflexo do seu nervosismo, Charles usava um casaco moletom preto com detalhes verde neon por cima de uma camisa de mangas longas branca com estampas de Senhor dos Anéis, uma calça jeans folgada e tênis de cor escura, quase como se estivesse tentando ter o menor contato possível com o espaço, o loirinho parecia mais coberto que o usual nesse dia.<br />
<br />
Esperou alguns minutos, diversas vezes sendo avisado pelas enfermeiras que logo seria chamado para ser atendido, o que finalmente aconteceu depois de muitos minutos quando uma das enfermeiras pediu que a acompanhasse até o consultório da tal médica. Fechou o livro, marcando a página com um dos seus marca-páginas - detestava usar a orelha dos livros para esse fim - colocou em seu colo e acompanhou a mulher até a entrada do consultório. Estava um pouco nervoso durante o caminho e sentia-se um pouco encolhido, mas o fez mesmo assim.<br />
<br />
A enfermeira abriu a porta para o loirinho, que examinou bem o espaço da sala antes de realmente entrar, tendo a primeira surpresa sobre a nova doutora que iria lhe atender. Era uma mulher com um ar refinado, parecia ser bastante educada à primeira vista - mas todos os médicos eram assim - e era uma mulher realmente bonita. Apertou a mão que foi estendida em cumprimento: - Bom dia, doutora.- respondeu de volta, um pouco nervoso - Vou bem, obrigado. - O espaço do consultório era um pouco melhor do que a sala de espera, ao menos não eram apenas paredes brancas com branco, ainda possuíam uma decoração aqui e acolá.<br />
<br />
Fez como ela pediu e se acomodou de frente para ela, do lado oposto da mesa. Descansava as mãos sobre o colo, sem conseguir olhar diretamente para a doutora, então aproveitava para focar nos papéis que provavelmente seriam postos à mesa: - Eu… Hmn, não vim com o meu responsável. Isso é um problema? - Haviam médicos que acreditavam que era melhor conversar diretamente com os pais do paciente do que com o verdadeiro paciente, Charles achava isso estúpido, mas o que poderia fazer? Esperava que ao menos essa médica não se incomodasse tanto com o fato.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Acomodou-se em sua cadeira novamente e fez uma pausa, observando de novo o adolescente até arquear uma sobrancelha, estranhando o comportamento mais retraído do menor. Talvez ele estivesse com receio da consulta, mas tinha plena certeza que era apenas por ser a primeira consulta dele com sua pessoa. <br />
<br />
- Não, claro que não. - acabou rindo com a pergunta dele sobre o suposto problema com a ausência dos pais dele. - O senhor já parece ter o tamanho ideal para poder vir sozinho para consulta, pode sobreviver a uma conversa. - explicou, deixando seus bloquinhos de lado para poder se debruçar sobre a mesa, apoiando um cotovelo sobre ela e o queixo sobre a palma da mão, encarando o loirinho com certa curiosidade. <br />
<br />
Ele parecia recluso na própria cadeira de rodas e usando aquelas roupas compridas, parecia ter frio ou ser averso ao toque. Bem, não podia dizer que o hospital era o lugar mais feliz do mundo para ele estar empolgado com aquela consulta. <br />
<br />
- Bem, eu vi o seu prontuário, senhor Eadgar. Síndrome Guillain-Barré, certo? As informações sobre o seu caso ainda são muito rasas e é por isso que eu estou aqui. Ao contrário do que muita gente pensa, a Guillain-Barré não existe apenas como uma síndrome, mas já há estudos sobre muitas variações dela. Para saber direito como o tratamento com os medicamentos vai poder te ajudar, eu preciso saber qual das variações é a sua. - explicou, despreocupada em anotar qualquer coisa. Poderia anotar tudo depois graças a boa memória. - Sendo assim, por que não me conta quando foi que começou a sentir a fraqueza nas pernas, hm? Pelo que eu li do seu prontuário, não há registros do senhor tendo dificuldades para respirar, correto? Então já podemos descartar os casos mais sérios. - fez uma pausa finalmente, parando para dar atenção ao livro que o loirinho possuía no próprio colo, tendo a certeza que já havia ouvido falar daquele título nas livrarias que visitara em Cerise, ou talvez em alguma das pilhas de coisas de sua colega de aluguel. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Charles se sentiu um pouco mais aliviado e a vontade quando a doutora concordou sobre estar vindo sozinho, apesar do pequeno silêncio momentâneo ter deixado o loirinho um pouco ansioso. Bom, era menos um problema que teria de lidar nesse dia, já era um ponto positivo para essa doutora.<br />
<br />
Estava com as mãos juntas apoiadas sobre o colo, mais olhando para a mesa do que de fato para a médica na sua frente, era muito mais fácil ver anotações serem feitas do que ter alguém te analisando de cima para baixo. Além de que, mesmo com o ambiente sendo um pouco diferente do hospital por conta da decoração e disposição dos móveis, ainda era um hospital, e só esse fato já deixava Charles bastante desconfortável no espaço. Respirou fundo, sabia que teria de responder as mesmas perguntas que sempre respondeu nas primeiras consultas, mas isso não fazia elas serem menos invasivas.<br />
<br />
Fez um aceno positivo com a cabeça quando ela pediu uma confirmação sobre a síndrome, fazendo também questão de explicar brevemente as diferenças, para logo depois pedir informações à Charles sobre a própria situação, começando por quando havia começado a sentir as fraquezas nas pernas: - Hmn… por volta de uns oito anos? - respondeu com a voz um pouco mais baixa, tentando se recordar ao máximo dos detalhes - Meus pais disseram que bem antes já notaram que eu não tinha muita destreza pra fazer as coisas e caia bastante, acho que isso foi com uns seis anos? - completou, já fazia muitos anos desde que havia parado de andar, mas se lembrava bem da sensação de isolação que recebia das outras crianças - Daí com uns sete anos eu comecei a usar muletas, mas quando cheguei nos oito eu… realmente não conseguia mais andar. Eu sinto bastante incômodo ainda - suspirou, não evitando de ficar mexendo nos próprios dedos com as mãos - Sobre dificuldade para respirar, eu tive muito no começo, depois de uma pneumonia, meio que foi o que desencadeou a situação toda… nessa época eu fiquei… internado bastante. Isso se seguiu por uns dois anos. - Suspirou, talvez tivesse respondido o que a médica precisava por hora? - Mais alguma coisa, doutora Natalia?<br />
<br />
Sentiu um arrepio leve quando lembrou dos longos períodos de internação, não que fosse voltar a ficar internado, já que estava com uma prospecção de melhorar… Mas ainda era uma chance, não era?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
O garoto parecia desconfortável ali e ainda mais ao ter de lhe contar sobre o histórico com a própria doença. Prestou atenção na narrativa do garoto, estreitando o olhar quando ele destacou que havia passado algum tempo internado após ter uma pneumonia. Fez uma breve pausa quando ele perguntou se precisava de mais alguma coisa, processando seu diagnóstico sozinha por alguns instantes. <br />
<br />
- Tá. Então você teve problemas de respiração e passou dois anos internado. Isso me parece um caso clássico de Polirradiculoneuropatia Desmielinizante Inflamatória Aguda ou, como eu prefiro chamar, AIDP. Você disse que caía bastante, certo? Teve um quadro de insuficiência respiratória, sem sintomas de dor nos olhos, recuperação moderada, considerando a assistência presente no hospital na época. Hm. <br />
<br />
Desviou o olhar, concluindo que as chances dele possuir a variação da síndrome como AIDP sendo a mais provável. Ao menos ele não parecia sofrer com a síndrome de Miller Fisher, o que seria muito pior, a considerar que ele poderia ter problemas sérios na visão. Ou as outras duas variações, que poderiam levar a problemas cerebrais e uma recuperação mais severa. <br />
<br />
- Então, Eadgar, eu vou tentar explicar para você o que está te acontecendo. - voltou a atenção para o garoto, considerando o desconforto dele e os nomes complicados que a faculdade de medicina havia lhe feito aprender, mas que ele provavelmente não fazia ideia do que significavam. - Você já viu pessoas com Alzheimer? Sabe como é que os velhos tem Alzheimer? A gente tem um sistema de neurônios no nosso corpo responsável pelas ações no nosso corpo. Ele é parecido com um sistema elétrico cheio de fios. Você já viu fios de energia? Todos encapadinhos. Bem, o nosso sistema de neurônios é parecido, todo encapado. E essa capa tem um nome. A gente chama ela de bainha de mielina. Nos velhos, essa capa vai se desgastando e daí eles não conseguem fazer a máquina funcionar direito porque a energia se perde no meio do caminho, entendeu? - fez uma breve pausa. - Agora preste atenção, porque eu quero ter certeza que entendeu isso para a gente resolver o seu caso. - baixou as mãos, apontando o indicador para o garoto. - Você não é um velho, mas a sua bainha de mielina, os seus fios, estão dando curto. E nessa descarga, você sente dor, certo? - fez um sinal positivo com o polegar. - Mas como isso é possível? O senhor é o novo caso de Benjamin Button? É velho e não sabe? Não. A situação é que o seu sangue está ruim. Bem, não exatamente o seu sangue, mas o que tem nele. O seu sistema imune enlouqueceu e está atacando a sua bainha de mielina. Então, o problema não é necessariamente neurológico, mas sanguíneo. <br />
<br />
Recostou-se em sua cadeira novamente, como se tivesse feito uma brilhante explicação sobre o quadro do garoto. Óbvio que precisava de alguns exames para comprovar sua linha de pensamento e diminuir os danos na recuperação do loiro, mas tinha plena confiança de que estava correta. Pressionou os lábios, pensando em como aquele caso era inusitado, considerando que a maior prevalência daquela variação específica da doença existia apenas na América do Norte. <br />
<br />
- Esse livro aí. - fez menção ao livro no colo do garoto, pensativa. - Ele é sobre o que? Eu me lembro de ter visto uma capa dessas na livraria do shopping. É um negócio medieval, não é? - questionou enquanto ainda formulava a forma menos invasiva para o tratamento do garoto, cruzando os braços e se inclinando na mesa sem se importar com o busto pressionado contra os próprios braços. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Não estava encarando a doutora diretamente enquanto contava sobre a sua situação, mas pelo silêncio podia apenas julgar que ela estava realmente prestando atenção no que dizia, felizmente. O mesmo silêncio que se seguiu quando perguntou se havia faltado mais alguma informação também deixou Charles um pouco inquieto, mas isso também não se prolongou tanto.<br />
<br />
- Uhm… Sim, é isso - confirmou, novamente fazendo um aceno positivo com a cabeça. Ela falou um nome grande e complicado mas que não era a primeira vez que o ouvia, alguns outros médicos haviam comentado sobre ele, se sentiu um pouco mais familiarizado quando ela mencionou a sigla, o que facilitou para o loiro ligar os pontos. Se frustrava um pouco sobre não reconhecer em primeira mão a situação do próprio caso por que alguns dos médicos anteriores preferiam tratar da situação com um “responsável”. Novamente, a doutora ficou silenciosa, o que Charles deu total espaço, batendo os dedos de leve contra a capa do livro em seu colo, leve o suficiente para evitar de fazer barulho.<br />
<br />
Prestou atenção quando ela voltou a falar, dessa vez tentando manter contato visual com a doutora, para evitar que perdesse alguma parte da explicação. Concordou quando ela propôs começar a explicação e ficou pronto para ouvir a primeira análise.<br />
<br />
Surpreendentemente, ao invés de jogar vários nomes que Charles não iria fazer ideia de para onde iriam, percebeu que a médica tentou ao máximo exemplificar a situação para Charles, falando de fios encapados, o real nome de tais “capas”, o que normalmente acontecia com as pessoas mais velhas, a comparação com o estado da sua doença e por fim uma solução. O cadeirante se manteve em silêncio durante toda a explicação, deixando apenas breves murmúrios em concordância escaparem e acenos positivos. A parte que mais deu alívio em toda essa explicação foi saber que o problema não vinha dos seus neurônios, e sim do seu sangue. Então era uma condição menos pior, pelo menos?! Tinha mais chances de recuperação, talvez…? Eram muitas perguntas. Se envolvia seu sangue, teria de fazer transfusão? Isso significaria que Charles precisaria ficar internado novamente? Definitivamente não queria, mas se fosse necessário…<br />
<br />
A doutora de cabelos platinados parecia imersa nos seus próprios pensamentos, isso é, até apontar sobre o livro no colo de Charles, o que certamente o pegou desprevenido: - Ah. Esse é o Guerreiro Pagão do Bernard Cornwell, e é de fantasia medieval. Faz parte da série das Crônicas Saxônicas - explicou, colocando o livro na vertical para que ela pudesse ver a capa, apesar que ela havia se inclinado tanto que já conseguia ver o livro. Não era desconfortável que ela se inclinasse tanto? - É do ano passado, mas como ele anunciou que o próximo livro, O Trono Vazio, vai sair já em outubro, as livrarias voltaram a  vender com mais força. - normalmente o loirinho, como o gato arisco que era, evitaria falar tanto. Mas a doutora bem havia conseguido tocar em um assunto que o fazia ficar um pouco mais “disposto” a conversar - Ele usa fatos históricos e mistura com aspectos fantásticos. As pesquisas dele sobre a época são bastante extensas, então os acontecimentos e narrativas são extremamente precisos.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Sorriu por estar correta sobre o livro abordar aspectos medievais, isso significava que sua memória ainda estava maravilhosa para assuntos do dia. O tal de Cornwell parecia ser um bom escritor se conseguia criar ligações entre o histórico e o fantástico. Não era muito adepta de outras literaturas se não as acadêmicas justamente por ter passado muito tempo estudando ou trabalhando. Contudo, tinha uma capacidade de leitura rápida e dinâmica, talvez valesse a pena dar uma olhada naquele livro se interessava tanto seu paciente que parecia ficar casualmente nervoso por estar ali em seu consultório. <br />
<br />
- Ele fala sobre o uso de sanguessugas na época medieval? - perguntou, voltando a apoiar o rosto na palma da mão e o cotovelo sobre a mesa. - Sabia que o uso de sanguessugas foi reconhecido como método medicinal no século 19? Eles sempre usavam as sanguessugas para estimular a circulação de sangue na área danificada do tecido da pele. Às vezes também usavam para limpar o sangue e ajudar na recuperação dos pacientes. Na época, ninguém fazia ideia que as sanguessugas possuem substâncias que são anticoagulantes e por isso ajudavam o sangue a circular melhor. - fez uma pausa, colocando o indicador sobre os próprios lábios como se esforçasse a própria memória. - O último registro encontrado sobre elas é da época da Era Comum do primeiro calendário gregoriano, na antiga Índia. <br />
Acabou rindo com a própria sentença, orgulhosa por se lembrar das aulas de história sobre medicina antiga na faculdade. Talvez devesse retomar suas anotações, era até divertido imaginar como seria reviver uma época onde as pessoas morriam de pisar em pregos enferrujados. Suspirou logo em seguida, voltando a atenção para o garoto a sua frente. <br />
<br />
- Vamos resolver o seu caso, senhor Eadgar. Vou falar com o hematologista do hospital e vamos “limpar” o seu sangue primeiro, como as sanguessugas faziam. Porque, veja só. - chamou a atenção dele, ajustando-se em sua cadeira confortável. - Eu poderia administrar um medicamento que ajudaria na sua recuperação, mas o problema é que o seu sangue está “podre”, entende? Daí o que nós vamos fazer são sessões de hemodiálise, trocar o seu sangue “podre” por um sangue “limpo” e adicionar o medicamento. Dessa forma, os seus fios desencapados têm tempo de se recuperar e você vai sentir menos dor para poder deixar de usar essa cadeira de rodas e tentar muletas. Ao menos é isso que eu acho que é o propósito da sua fisioterapia. Preciso falar com ela também. Sua fisioterapeuta, que digo. - suspirou, fazendo uma breve nota mental. <br />
<br />
Uniu as mãos, apoiando-as sobre a mesa para observar o loiro diretamente antes de questioná-lo:<br />
<br />
- Então. - sorriu, animada com a ideia do tratamento brilhante. - Tem alguma dúvida sobre o que vamos fazer, Eadgar? Se tiver qualquer dúvida, a hora é agora de perguntar. Pode me perguntar qualquer coisa. - avisou, amistosa, resolvendo fechar de falar tanto para respirar finalmente e ouvir o ponto de vista do garoto. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Falar sobre livros era algo que deixava Charles muito mais à vontade em qualquer situação, especialmente se a outra pessoa parecia estar interessada. Normalmente era o tipo de pessoa que não gostava de “dividir o doce”, mas nesse caso conhecia tão poucas pessoas em Cerise que liam as obras do escritor, tirando Julian claro, que se houvesse ao menos mais uma pessoa para falar sobre, seria vantajoso. Principalmente se fosse a sua nova médica, talvez isso o deixasse menos nervoso com as consultas.<br />
<br />
Fez um aceno positivo quando ela perguntou sobre o uso de sanguessugas: - Em alguns capítulos, sim. - não era algo que acontecia de maneira recorrente nos livros, mas nos momentos em que os personagens estavam mais feridos, um ou outro se utilizava disso, ou a sugestão de algum feiticeiro. Arqueou a sobrancelha quando ela tratou sobre o uso das sanguessugas nos tempos antigos, ficaria surpreso se não fosse uma médica falando, muito provavelmente ela já deve ter estudado sobre isso. Mas ainda era bastante interessante de escutar, especialmente por que ela estava sendo bem precisa nos dados.<br />
<br />
A postura de Charles já estava menos tensa do que antes, mesmo com a possibilidade de ter que fazer visitas mais frequentes ao hospital, ter uma perspectiva de melhora e uma médica que explicou diretamente à Charles e não a sua mãe sobre a situação lhe deixavam menos nervoso. Não negava que ainda tinha muitas incertezas, mas talvez…<br />
<br />
Prestou atenção novamente à mudança de postura da médica, o que fez repousar o livro de volta em suas pernas. Ela explicou tudo de uma maneira muito rápida, mas ao mesmo tempo simples, conseguiu entender a situação geral e qual era a possível solução, e o melhor: talvez pudesse mudar para as muletas…. Talvez!! Tinha algumas perguntas para fazer, e assim que ela lhe deu espaço, as fez:<br />
<br />
- Tenho algumas. - começou, puxando o celular para fazer apenas anotações das coisas principais que teria de lembrar - Se eu vou fazer hemodiálise para “limpar” o meu sangue, qual a duração do procedimento? E eu tenho uma ideia geral da hemodiálise, mas eu nunca fiz, então não sei nem o quão desgastante ele é ou se tem algum requisito… E outra, além da fisioterapia vai envolver alguma outra área? Eu já sigo uma dieta da nutricionista, vou precisar de outra também? - segurava o celular com as mãos apoiadas sobre o livro com o bloco de notas abertos, pronto para escrever mais detalhes. Ainda tinha mais perguntas, mas por hora essas seriam o suficiente. Quando ela respondesse, iria perguntar mais.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Gostou que o rapaz estava lhe dando a devida atenção. Para um adolescente, ele parecia bem centrado no assunto. Imaginava que com uma doença como aquela, ele já deveria estar exausto de tantos procedimentos invasivos. <br />
<br />
- Não, a gente vai cruzar as suas informações no banco de dados do hospital e repassar para o nefrologista responsável pelo setor de hemodiálise. - respondeu assim que ele pareceu terminar a primeira rodada de perguntas. - A primeira vez é uma merda, não vou mentir para o senhor não. É que para alcançar o seu sangue, eles costumam colocar uma fístula. Tipo um canalzinho para ficar mais fácil de achar seu sangue quando for fazer as sessões. Para colocar a fístula, a maioria dos pacientes reclama de dor, mas depois eles se acostumam. E fica mais prático que ter de furar o senhor como se fosse um saquinho de suco toda vez que for fazer uma sessão. - deu de ombros, como se fosse uma lógica bastante simples. <br />
<br />
Passou os dedos sobre a própria mesa, antes de voltar para o seu computador, digitando algumas palavras até encontrar os dados das sessões do dia para hemodiálise. <br />
<br />
- As sessões costumam durar cerca de quatro horas e o recomendado é fazer três sessões por semana. Parece um atraso de vida, mas na verdade nem é. Você vai poder estudar, trabalhar, namorar, fazer o que quiser e só vir para as sessões nos horários marcados. Pode até viajar se quiser, o convênio permite fazer as sessões em outros hospitais e centros de hemodiálise com seus dados. Se precisar faltar alguma sessão, é só avisar previamente. - virou a tela do computador para mostrar o mapa com os centros de hemodiálise cobertos pelo plano e a ficha do mesmo ao lado, aberta com os dados do loirinho. <br />
<br />
Encarou o garoto, ponderando sobre o costume dele com hospitais. Talvez estivesse superestimando a sensação de conforto que ele poderia ter estando em uma ambiente como o daquele hospital. Estava bem acostumada com as paredes brancas e a frieza do lugar, assim como a falta de noção de qual horário do dia seria pelos centros cirúrgicos não possuírem janelas. Contudo, um adolescente como Eadgar não deveria ter a mesma percepção de familiaridade que ela. <br />
<br />
- Hey, quer ir lá comigo dar uma olhada? Assim pode ver como é a sessão pessoalmente, falar com os pacientes, perguntar pra quem faz a sessão semanalmente. Eu julgo quase como um tratamento de beleza, porque as senhorinhas que aparecem lá sabem de fofoca de mais da metade dessa cidade. - sugeriu, imaginando que o adolescente talvez ficasse mais confortável com a ideia ao ver como era o procedimento de fato. Não se incomodava de mostrar-lhe o lugar, ainda guardava algum tempo até seu próximo paciente na lista de consultas. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Estava bem mais acostumado com o jeito mais polido que os médicos usavam, que tornava as coisas bem complicadas pois Charles não entendia como eles acreditavam que usando palavras técnicas grandes e compostas iria ajudar um paciente a entender qual era o problema. Então ver a doutora de cabelos platinados fazer uma explicação mais casual e lhe dar espaço para perguntas deixava Charles satisfeito. Ficou até surpreso quando ela foi sincera sobre a fístula ser uma “merda”.<br />
<br />
- Fístula, certo. - murmurou enquanto anotava os detalhes no bloco de notas de seu celular. Terminou de anotar e deixou um espaço em branco para completar a informação, claro que ela poderia não ter tempo e Charles sabia que não era o único paciente que iria falar com ela naquele dia, então perguntar sobre um procedimento que poderia achar informações facilmente na internet iria ser bem mais prático. Abriu um novo espaço no bloco de notas para colocar os detalhes sobre a hemodiálise em si que a médica compartilhou: - Quatro horas, horário marcado, faltar avisar com antecedência, vinte e quatro horas - repassou as informações dessa mesma maneira para o seu fiel bloco de notas e salvou os dados. De toda a informação que foi repassada, pela maneira que ela dizia, parecia ser simples. Incômodo, sim, mas simples. Porém passar todo esse tempo no hospital fazendo mais visitas era no mínimo desgastante.<br />
<br />
Suspirou e guardou o celular no bolso do casaco, agora voltando a prestar atenção na doutora, que por algum motivo parecia encará-lo pensativo. Charles franziu o cenho, confuso, mas antes que pudesse perguntar qualquer coisa recebeu o convite da doutora:<br />
<br />
- Uhn… E os seus outros pacientes? - foi a primeira coisa que perguntou. Não que não gostasse da ideia de ir lá ver, principalmente acompanhado pela médica que sugeriu, mas imaginava que ela teria outras prioridades. A última coisa que iria querer era sair com a médica até a parte da hemodiálise, ter que ouvir comentários de velhinhas e depois voltar e ter comentários de outros pacientes mal-humorados com ele - Não é um problema?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Achou adorável como o adolescente fazia as próprias anotações. Não acompanhado pelos pais, e ainda naquela cadeira de rodas, com a doença que tinha, ele parecia bastante independente. <br />
<br />
- Hm. - ponderou sobre a pergunta dele, observando a lista de três pacientes que ainda estavam no seu horário de atendimento. Sabia dos problemas de cada um daqueles pacientes pelo diagnóstico, mas obviamente seus atendimentos na clínica demoravam um pouco mais devido a constância de velhinhas e senhores que gostavam de jogar conversa fora ali no consultório. - Tenho meu horário livre de almoço depois de atender os pacientes. <br />
<br />
Deixou a tela do computador de lado para observar o loirinho que parecia mais atento às reações alheias e incomodado em causar algum desconforto às pessoas ao seu redor que ela. <br />
<br />
- Se não estiver com pressa, posso te mostrar a hemodiálise quando chegar meu intervalo. - ofereceu, amistosa, recordando que ele poderia sentir fome dali até o horário do almoço. - Pode almoçar comigo, se quiser. A comida aqui é horrível, mas eu gosto de companhia. - sorriu, animada com a ideia de poder conversar com alguém diferente enquanto tolerava a comida sem tempero e pastosa daquele lugar. Entretanto, logo observou o loiro de novo, recordando que ele era só um adolescente, com pais, e ela, uma médica adulta, responsável pela saúde do outro. - Ah, claro… se eu não for presa por fazer esse tipo de convite… hahaha… - riu um tanto sem graça, recordando da falta de tato com crianças. Certamente, se ele fosse uma criança, estaria acompanhado dos pais e ela seria acusada. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
A última coisa que Charles gostava era causar problema para as outras pessoas, afinal foi por isso que decidiu ser mais independente e não precisar mais da mão ou do pai para resolver seus próprios problemas. A ideia de atrasar o atendimento de outras pessoas deixava o loirinho um pouco incomodado, mas ficou aliviado quando ela disse que poderia ser no horário de almoço dela.<br />
<br />
- Se não atrapalhar, eu fico agradecido. - concordou com o horário oferecido pela doutora, prestando atenção quando ela começou a falar sobre mostrar a hemodiálise e inclusive almoçar junto. Charles ponderou, talvez fosse uma boa ideia, afinal não era incomum que os pacientes tivessem uma certa proximidade com o seu médico, já que iriam se ver mais e mais vezes no futuro. Arqueou a sobrancelha um pouco confuso quando ela falou sobre ser presa por fazer um convite desses - Não tem problema, afinal você vai me mostrar um procedimento, certo? Eu vou esperar na recepção então, doutora. Obrigado. - complementou, destravando a cadeira e fazendo um breve aceno de despedida antes de sair da sala.<br />
<br />
Saiu da sala da doutora e, assim como prometeu, ficou aguardando na área da recepção pelo horário de almoço da doutora. Comida de hospital não era um problema, não era sua favorita, mas havia comido muita por um bom tempo. Pelo menos tinha seu fiel livro ao seu lado, e poderia passar o tempo perdido nas narrativas do seu escritor favorito.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Ficou surpresa com o garoto concordar com sua sugestão. Geralmente jovens como ele não gostavam de esperar, mas até ponderou mentalmente sobre o comportamento alheio, talvez ele estivesse mais acostumado a esperar pelos outros do que gostaria. Agradeceu pela cooperação dele e deixou que saísse do consultório para atender seu próximo paciente. Os pacientes não eram muitos, mas como se tratava de senhores mais velhos e senhorinhas, ficava difícil atendê-los e não conversar um pouco sobre a vida alheia. Típico de pessoas que não deveriam receber tanta atenção em casa. Gostava de pessoas mais velhas que iam até seu consultório para fofocar sobre as novidades da cidade, sempre terminava descobrindo mais do que esperava naqueles atendimentos. <br />
<br />
Ao sair de sua sala, finalmente em seu intervalo de almoço, continuou conversando com a senhorinha de seu último atendimento, rindo do comportamento da mulher que não parava de falar sobre como o filho dela precisava arrumar um emprego e sair de casa para deixá-la descansar mais tranquila. <br />
<br />
- Mas dona Martha, se ele sair de casa, quem é que vai lembrar a senhora dos remédios que eu lhe passo? E por que ele não veio com a senhora para a consulta? Traga ele da próxima vez. - explicou para a senhorinha que ainda passou alguns minutos reclamando das últimas aventuras do filho único, explicando que quando ela tivesse filhos, entenderia. Apenas riu. Crianças definitivamente não estavam em seus planos. - Se cuide, dona Martha, e cuidado com o banheiro, lembre de pedir ajuda ao seu filho para ele colocar um anti derrapante lá, heim!? <br />
<br />
E a mulher concordou, despedindo-se em meio aos desejos de bênçãos para a vida da médica. Passou a mão pela própria nuca, arrumando os fios claros do cabelo antes de procurar pelo seu paciente loirinho. Pegou o próprio celular no bolso do jaleco para conferir o cardápio do dia para os funcionários do restaurante no hospital. <br />
<br />
- Hey, Eadgar! Tá afim de frango grelhado com purê de batata, arroz e ervilhas? - convidou, amistosa, só então se dando conta que talvez ele não comesse carne. - Ah, tem opções vegetarianas também. Tem… bolinhos de lentilha hoje também. - avisou, notando que uma enfermeira se aproximava para lhe indicar os prontuários dos pacientes que deveria atender durante a tarde. Pediu que ela deixasse tudo sobre sua mesa que assim que saísse do almoço, iria até as alas de atendimento aos internos. - Vamos passar na hemodiálise primeiro ou quer ir depois do almoço? - perguntou ao garoto, esperando que ele lhe seguisse.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
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Estava com a cara enfiada no livro de seu escritor favorito. Mesmo lendo repetidas vezes, adorava poder rever os momentos chave da trama. Algumas poucas vezes uma pessoa ou outra tentou lhe chamar atenção, mas a sua cara de irritação acabou as espantando, ou encontraram outra pessoa para perturbar. O importante foi que o loirinho pode ficar em paz junto a seu livro.<br />
<br />
Passou algum tempo até escutar a voz familiar da doutora, o que o fez colocar o marca página no livro para poder deixa-lo de lado. Girou a cadeira e deu atenção para a mulher de cabelos platinados, que parecia um pouco perdida sobre o que tinha no cardápio.<br />
<br />
- Uhm… Tanto faz, mas frango está ótimo para mim - Para quem ficou tanto tempo comendo comida de hospital, sinceramente não havia muita diferença. No final, até a carne teria um gosto de nada, e o tal bolinho de lentilha teria também o gosto de nada, ou seja: tudo teria o mesmo sabor de fantásticos nada.<br />
<br />
Esperou que ela terminasse de conversar com uma enfermeira que havia aparecido para falar sobre prontuários. Já reconhecia boa parte dos profissionais que trabalhavam ali no hospital depois de tantas visitas, estadias e check-ups, tirando um ou outro - como a própria doutora - eram novidade.<br />
<br />
- Eu não quero tomar muito do seu tempo - reforçou, seguindo a doutora pelo caminho que ela fazia - mas pode ser primeiro, qualquer coisa eu posso terminar o meu almoço sozinho, caso precise sair.<br />
<br />
Charles não era egoísta ao ponto de saber que as pessoas tem outros compromissos, em especial adultos que tem um trabalho fixo. Então, queria causar o menor dos inconvenientes possível. No final de contas, almoçaria sozinho em casa, então ter metade de um almoço acompanhado já seria lucro.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Ponderou sobre a resposta do mais novo. Talvez fosse mesmo melhor visitar a hemodiálise primeiro. Caso ele tivesse algum problema com sangue ou procedimentos médicos, comer e fazer uma visita à hemodiálise poderia deixá-lo enjoado. Franziu o cenho, o olhar distante de quem conseguia ouvir a voz de uma certa enfermeira ruiva cereja no seu ouvido reclamando baixinho de sua falta de empatia com seus pacientes que eram mais jovens. <br />
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- Nah. Vai tomar nada não. Vamos primeiro na hemodiálise então ouvir as fofocas das senhorinhas e depois a gente come alguma coisa na cantina. - concordou, acenando para que ele lhe seguisse. <br />
<br />
Andou um pouco mais devagar ao que estava acostumada, visto que mesmo de salto, costumava andar rapidamente de um lado pro outro naquele hospital atendendo pacientes e preenchendo prontuários. Afastou as portas do setor de exames, dando passagem para o cadeirante poder fazer o giro e adentrar no setor. <br />
<br />
- Ele está comigo, Patrícia. - explicou para a enfermeira chefe do setor antes que ela começasse a lhe regular sobre a presença de um adolescente ali. - Aqui é o setor de diagnósticos e exames. Você pode estar achando estranho esse caminho, mas é o trajeto que os médicos, enfermeiros e técnicos fazem por dentro para evitar o processo de contaminação e a interferência de pacientes. Algumas das portas nós não podemos entrar por conta do risco de contaminação, seja biológica ou por radiação. - apontou para o aviso claro de perigo na sinalização de cada uma das entradas. - Por aqui. <br />
<br />
Chamou o mais novo, abrindo uma das portas no final do corredor que dava acesso a uma sala mais ampla, iluminada com luzes mais baixas, com um aromatizante de lavanda suave, uma parede de vidro grande que dava acesso a um jardim de inverno e cerca de sete cadeiras acolchoadas, duas delas ocupadas, com um maquinário do tamanho de um criado mudo, só que um pouco maior, ao lado. <br />
<br />
- Com licença, senhor Tucker, senhora Hardy, temos um novato hoje. - avisou a médica, cumprimentando o enfermeiro responsável pela ala de plantão. - Ele veio conhecer como funciona o tratamento de vocês. Como estão hoje? <br />
<br />
- Ah, doutora, eu estava contando para o senhor Tucker como minha sobrinha vai se casar em Paris e resolveu mudar a decoração de rosas para petúnias. Isso é um absurdo. Anos de tradição na família casando com petúnias e a família do noivo resolveu que rosas são mais bonitas. Ela quer matar a vozinha dela do coração, só pode. - começou a senhora, enquanto o senhorzinho pousada o olhar sobre o rapaz cadeirante. <br />
<br />
- Oi, filho. Vai começar a fazer o tratamento também? Qual é o seu problema? Eu estou em tratamento de anemia falciforme. Sabe o que é isso? Disseram que o meu sangue é ruim, por isso eu preciso vir aqui uma vez a cada quinze dias para limpar o sangue. Quase um SPA, não é doutora? <br />
<br />
A médica riu, sentando-se em uma das cadeiras acolchoadas da sala para poder acompanhar melhor a conversa. <br />
<br />
- Pare de contar vantagem com sua doença, Tucker. Até parece um herói de guerra falando dos traumas que teve. - disse a senhora Hardy, fazendo o senhor revirar os olhos. A idosa se voltou para o cadeirante, sorrindo amistosa. - Ah, filho, você é jovem, isso daqui nem é ruim depois que você acostuma, mas as primeiras vezes são horríveis. - a mulher mostrou o braço velhinho com um catéter fixo no braço. - Você faz uma cirurgia para eles colocarem isso em você, o primeiros dias foram terríveis para mim. Eu não podia fazer mais meus bolinhos, nem lavar louça direito. <br />
<br />
- A senhora nem deveria ter tentado lavar louça. - corrigiu Natalia, recebendo um riso da senhorinha. <br />
<br />
- Mas depois de alguns dias, você se acostuma. - informou a senhorinha. Natalia observou o garoto, arqueando as sobrancelhas, tentando encorajá-lo a tirar dúvidas com os pacientes que estavam em sessão. Pelo menos era melhor ele conversar diretamente com quem já fazia uso do tratamento de hemodiálise que se reforçar apenas em sua opinião médica de quem nunca havia precisado fazer uma hemodiálise. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Charles sabia apenas que a rotina de médicos costumavam ser coisas corridas e bastante impessoais, por isso tentou ser o mais sucinto quando a médica mais faladora ofereceu para apresentar a hemodiálise. Percebeu que ela levou um tempo ponderando sobre a proposta que havia feito, mas ao fim concordou com o cadeirante, que ficou um pouco mais aliviado, apesar de estranhar o interesse dela na conversação das senhorinhas:<br />
<br />
- Hmn, se a doutora diz. - fez um aceno positivo com a cabeça, e acompanhou a mulher de salto, que felizmente estava em um ritmo mais tranquilo para Charles seguir.<br />
<br />
Estranhou o caminho que estavam fazendo, especialmente que era mais por dentro do hospital. Normalmente pegaria um elevador e faria o caminho indicado pelas placas, mas entendeu quando ela disse que era o trajeto feito pelos profissionais do hospital. Fazia bastante sentido, afinal a rota feita pelos pacientes eram muitas vezes bem longas, e se os médicos tivessem que fazer o mesmo, com certeza haveriam pessoas mortas em cada corredor de hospital.<br />
<br />
Seguiu o caminho que ela indicou para passar, percebendo as placas de indicação sobre os riscos de contaminação que a mais velha havia comentado. Em pouco tempo, chegaram até uma sala que tinha luzes não tão forte, um aroma suave, e um jardim de inverno que ficava visível graças a parede de vidro que o separava do restante do ambiente. Além disso, haviam cadeiras acolchoadas, duas ocupadas, com alguns aparelhos ao lado de cada uma, o que Charles pode supor como sendo as máquinas necessárias para a hemodiálise.<br />
<br />
Não demorou para a médica de cabelos claros apresentar o garoto às duas figuras que estavam na cadeira. Charles até iria cumprimenta-los de volta, mas a senhorinha, a que a mulher mais alta chamou de Hardy, começou a reclamar sobre o casamento de uma tal filha, de uma tal tradição da família sobre petúnias e que agora seriam rosas. Charles apenas franziu o cenho, enquanto a médica achava tudo muito engraçado. Ao menos o homem, senhor Tucker, deu uma mínima brecha para Charles falar:<br />
<br />
- Uhm, vou. Vou sim. - o loirinho falou, um pouco acuado com o tanto de perguntas que ele disparou, perguntando o que tinha, falando da sua própria doença. Era uma mania de gente velha falar sobre doença - O meu caso é algo mais ou menos assim, eu, uhn--<br />
<br />
A doutora Natalia continuava a rir dos comentários de seus pacientes, era muita interação para Charles, mas tentava se manter minimamente sociável durante os comentários. Não que estivesse irritado, mas era normal que conversa com muitas pessoas, especialmente que não conhecia, lhe deixassem um pouco cansado. A senhorinha apesar de reclamona parecia bem humorada, chamando o outro de herói de guerra, antes de tornar a atenção para o garoto cadeirante, o incluindo novamente na conversa.<br />
<br />
- Uhn, são tão ruins assim? - perguntou, logo depois sendo mostrado o braço da senhorinha com o catéter fixo. Lhe dava um pouco de agonia olhar, especialmente pensar que teria de colocar um logo em breve. Ouviu a explicação dela sobre a cirurgia, da qual já sabia, e também que ela não conseguia fazer muita coisa durante os primeiros dias, ao que a doutora prontamente refutou que não deveria nem estar lavando a louça - Uhn... E que tipo de melhora você sentiu que teve?... Como, hmn, não incomoda ter isso no seu braço? Não é desagradável nem nada?<br />
<br />
Não sabia exatamente por onde começar, nem se a pergunta seria indelicada para os mais velhos, então decidiu perguntar os poucos.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
A senhora Hardy sorriu compreensiva como se fosse uma mulher de uma família grande e estivesse acostumada em lidar com perguntas dos mais jovens sobre sua condição. <br />
<br />
- Incomoda um pouco às vezes, mas porque eu sou velha já, menino. As minhas veias não são tão boas quanto as suas. - explicou a senhora enquanto Natalia apenas observava, voltando a dar um pouco mais de atenção ao senhor Tucker que parecia animado em contar sobre como de fato era um herói e como costumava esconder estrangeiros em suas vivendas quando era mais novo. - Mas a melhora compensa boa parte do desconforto, sabe? Eu antes quase não saia da cama, muito indisposta. Hoje eu até me atrevo a sair sem o meu andador. - ela riu como se estivesse confessando um pecado muito sério. <br />
<br />
A senhorinha fez uma pequena pausa, observando melhor o menino na cadeira de rodas, curiosa com o cabelo mais claro e a raíz escura da criança. <br />
<br />
- Você pinta o seu cabelo, meu filho? Hehe, que ousado. Minha netinha quer pintar o cabelo dela também. A doutora disse que faz isso sozinha em casa, não é doutora? - a senhorinha chamou e prontamente a médica se voltou para os dois, concordando em confusão. - Falei do seu cabelo azul, doutora. <br />
<br />
- Ah. Ah! - ela riu, pegando uma das mechas do próprio cabelo, passando os dedos devagar perto da raiz mais clara dos fios que deveriam ser loiros. - A senhora finalmente vai colorir o seu, senhora Hardy? <br />
<br />
- Há! - a senhorinha riu. - Só se for para esconder a minha idade, meu anjo. <br />
<br />
- Por que esse menino - o mais velho estreitou o olhar, tentando por um instante reconhecer a criança. - … por que você precisa fazer hemodiálise, rapaz? <br />
<br />
Natalia olhou para Charles, arqueando as sobrancelhas e erguendo um sinal positivo com o dedão, sorrindo amarelo como se esperasse que ele conseguisse explicar sozinho sobre a própria condição já que havia deixado a mesma bem clara para o mais novo paciente. Talvez ele fosse a prova viva que nem com adolescentes ela conseguia lidar corretamente. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
A senhorinha conversava devagar, mas dava bastante atenção à Charles e parecia bastante solicita, o que o deixava menos desconfortável de falar sobre o tratamento. A ideia do incômodo leve deixava Charles um pouco receoso, mas a prospecção de uma melhora também o deixava mais inclinado a aceitar o tratamento.<br />
<br />
- Mas não seria melhor usar o andador mesmo assim?... Digo, você poderia se, hmn, machucar? - não estava perguntando repreendendo a senhorinha, mas apenas um pouco preocupado. Afinal, até mesmo quando tentava ficar de pé sem a cadeira sentia um pouco de receio.<br />
<br />
Teve a atenção então voltada para o seu cabelo, o que deixou o garoto um pouco envergonhado, e acenou positivamente à pergunta, levando a mão até os fios claros por impulso como se quisesse esconder o rosto, enquanto a senhorinha voltava a incluir a doutora na conversa, afinal ela era a outra que pintava o cabelo.<br />
<br />
Deixou que as duas conversassem, apenas escutando atentamente à conversa, até que a pergunta veio do outro idoso da sala, Tucker. A pergunta foi bastante pontual sobre a situação de Charles, mas se estava ali, sabia que algum momento essa pergunta acabaria chegando. Respirou fundo, mantendo as mãos apoiadas sobre o colo:<br />
<br />
- Ah. Uhn... Quando eu era mais novo, sofri com a síndrome de Guillain-Barré. Não foi um dos casos mais sérios já que tem algumas variações - começou, lembrando das pontuações feitas pela doutora - Mas no meu caso eu acabei não conseguindo mais andar, porém a Doutora Natalia chegou na conclusão que com o tratamento de hemodiálise pode ajudar, por que o meu sangue no final das contas não está muito bom, mas é melhor um problema sanguíneo à um neurológico.<br />
<br />
Tentou ser claro na explicação, apesar de em alguns momentos dar uma leve parada para organizar os pensamentos, mas acreditou ter resumido de maneira eficaz toda a conversa que haviam tido no consultório.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
A médica observou o rapaz com certa satisfação e até um pouco de orgulho por ele não apenas se esforçar em explicar a própria situação para pessoas mais velhas e desconhecidas, como também por ele continuar querendo saber mais sobre as próprias condições de melhora. <br />
<br />
Quando Charles perguntou sobre o andador, o senhor acabou rindo, observando a senhora logo em seguida até cruzar os próprios braços. A senhora apenas suspirou e meneou a cabeça em negação, cochichando alguma coisa como “velho resmungão” para o senhor Tucker. <br />
<br />
- O senhor Tucker costumava usar o andador, meu filho, mas depois de alguns anos as nossas forças não são mais as mesmas. Hoje, conseguir usar um andador é uma alegria muito grande que a gente só consegue ter por justamente fazer essas hemodiálises. - a mais velha explicou, sorrindo amistosa para o rapaz e ouvindo com atenção sobre o diagnóstico dele. <br />
<br />
- Nós apenas estamos considerando as opções de tratamento antes do senhor Eadgar tomar uma decisão. - pontuou a médica, tratando o menor como se ele de fato já fosse responsável pelas próprias escolhas e pudesse muito bem opinar sobre o próprio tratamento sem que outros escolhessem quais medidas seriam tomadas. <br />
<br />
- Hm. Muito bem. E a sua família, garoto? - perguntou o senhor Tucker, ainda de braços cruzados. - Meus filhos me perturbaram tanto que acabei aceitando o tratamento proposto pelo Hospital, sabe? E eles sempre ficam me monitorando, como se eu fosse um velho que não pudesse fazer nada sozinho. <br />
<br />
- Eles só estão preocupados com a sua saúde, Tucker. - disse a senhora Hardy justamente quando a enfermeira responsável pela hemodiálise chegou para remover os equipamentos dos dois idosos e liberá-los para irem embora. - Parece que só nos veremos pelo Hospital, rapazinho. Espero que consiga melhorar logo. Vou trazer minha netinha da próxima vez, quem sabe ela não fica tão entediada só com a vovó dela aqui, não é? <br />
<br />
A senhora riu e logo depois um dos filhos do senhor Tucker adentrou na sala para poder ajudar o homem a se acomodar em sua própria cadeira de rodas. A senhora Hardy conseguia caminhar, ainda que devagar. <br />
<br />
- E então? - a doutora ajustou a própria posição, levando as mãos para trás, observando e sorrindo os pacientes irem embora. - Com fome? Vamos almoçar? - baixou o olhar, finalmente convidando Charles para comerem algo como havia sugerido antes.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Estava em seu consultório na ala de atendimento do hospital geral de Cerise, sentada em sua cadeira confortável enquanto agradecia a enfermeira que lhe assistia no momento pelos novos arquivos de um paciente que seria transferido aos seus cuidados como neurologista devido ao tratamento em andamento do garoto. Estava de pernas cruzadas com a calça social preta e a blusa de linho fino branca que deixava bem transparecer parte da blusinha de alças de usava por baixo, cobertos pelo jaleco branco. Observou os dados sobre o caso do garoto em seu computador de trabalho e estreitou o olhar, considerando que um paciente como aquele receberia um bom tratamento fisioterápico na cidade do interior, mas o acompanhamento neurológico precisaria ser feito na capital - mas isso era no caso dela não se encontrar ali. <br />
<br />
- Vivian, pode pedir para o senhor Eadgar entrar, por favor? - solicitou a enfermeira pelo telefone enquanto separava seu bloco de anotações para anotar alguns tópicos do que era possível interpretar do caso do garoto. Pelos registros, ao menos, ele estava tendo acompanhamento psicológico.<br />
<br />
Pelo menos o garoto era um adolescente e não uma criança. Sempre tinha dificuldades em lidar com crianças. Lembrava muitas informações sobre a síndrome do garoto, mas pelo registro que havia no hospital, ainda precisaria de mais informações a respeito daquele caso em especial, visto que não havia apenas um tipo daquela síndrome e para apontar o tratamento adequado para ela, era necessário submeter o rapaz a alguns exames. Não sabia se ele estaria ali com os responsáveis, esperava que não, pois não lhe agradava tratar com os responsáveis quando havia a possibilidade de lidar diretamente com alguém que podia muito bem responder por si mesmo. <br />
<br />
Aguardou que a porta fosse aberta para poder se levantar, só então dando-se conta que o garoto estava usando uma cadeira de rodas. Arqueou uma sobrancelha. Se ele estava naquele cenário, ou ele ainda não havia recebido o tratamento adequado ou a síndrome dele era mais séria do que poderia esperar. <br />
<br />
- Bom dia, senhor Eadgar. Sou a doutora Natalia. Tudo bem com você hoje? - sorriu, aproximando-se para poder estender a mão para o garoto e cumprimentá-lo. - Por favor, fique à vontade. - afastou-se para sua mesa, acomodando-se e deixando que ele se acomodasse melhor na sala climatizada. <br />
<br />
Sua sala era como todas as outras salas de consulta daquele hospital, uma porta de acesso e uma de assistência para o corredor das enfermeiras que ficava fechada a maior parte do tempo, tal como naquele momento. Sua mesa ficava de um lado da sala, havia uma pequena estante atrás de sua cadeira, uma cortina de divisória branca que dava acesso a uma mesa mais alta, acolchoada, acompanhada de uma segunda estante na parede com pequenas decorações modernas para “humanizar o ambiente” e uma estante baixa a frente. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Idas ao hospital eram suficientemente estressantes para Charles. Uma coisa era você fazer visitas esporádicas por que você ficava doente de vez em quando… Outra era já ter ficado internado tantas vezes em um hospital que o cheiro de antisséptico lhe deixava inquieto. <br />
<br />
Havia ido sozinho para uma consulta, sabia que seria repassado para um novo neurologista, e preferia conversar com os novos médicos à sós. Por mais que tivesse receio de receber um diagnóstico negativo, algum momento teria de lidar com isso sozinho.<br />
<br />
Estava na sala de espera do hospital, que não estava tão movimentada, a não ser por um ou outro gato pingado que também aguardava por atendimento naquela sala. A cadeira encostada contra uma parede e com o livro mais recente de Cornwell em mãos. Era uma leitura que conseguia acalmá-lo por que se perdia tanto no universo medieval fantástico moldado pelo historiador que facilmente conseguia se projetar para fora daquelas paredes incessantemente brancas. Como um reflexo do seu nervosismo, Charles usava um casaco moletom preto com detalhes verde neon por cima de uma camisa de mangas longas branca com estampas de Senhor dos Anéis, uma calça jeans folgada e tênis de cor escura, quase como se estivesse tentando ter o menor contato possível com o espaço, o loirinho parecia mais coberto que o usual nesse dia.<br />
<br />
Esperou alguns minutos, diversas vezes sendo avisado pelas enfermeiras que logo seria chamado para ser atendido, o que finalmente aconteceu depois de muitos minutos quando uma das enfermeiras pediu que a acompanhasse até o consultório da tal médica. Fechou o livro, marcando a página com um dos seus marca-páginas - detestava usar a orelha dos livros para esse fim - colocou em seu colo e acompanhou a mulher até a entrada do consultório. Estava um pouco nervoso durante o caminho e sentia-se um pouco encolhido, mas o fez mesmo assim.<br />
<br />
A enfermeira abriu a porta para o loirinho, que examinou bem o espaço da sala antes de realmente entrar, tendo a primeira surpresa sobre a nova doutora que iria lhe atender. Era uma mulher com um ar refinado, parecia ser bastante educada à primeira vista - mas todos os médicos eram assim - e era uma mulher realmente bonita. Apertou a mão que foi estendida em cumprimento: - Bom dia, doutora.- respondeu de volta, um pouco nervoso - Vou bem, obrigado. - O espaço do consultório era um pouco melhor do que a sala de espera, ao menos não eram apenas paredes brancas com branco, ainda possuíam uma decoração aqui e acolá.<br />
<br />
Fez como ela pediu e se acomodou de frente para ela, do lado oposto da mesa. Descansava as mãos sobre o colo, sem conseguir olhar diretamente para a doutora, então aproveitava para focar nos papéis que provavelmente seriam postos à mesa: - Eu… Hmn, não vim com o meu responsável. Isso é um problema? - Haviam médicos que acreditavam que era melhor conversar diretamente com os pais do paciente do que com o verdadeiro paciente, Charles achava isso estúpido, mas o que poderia fazer? Esperava que ao menos essa médica não se incomodasse tanto com o fato.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Acomodou-se em sua cadeira novamente e fez uma pausa, observando de novo o adolescente até arquear uma sobrancelha, estranhando o comportamento mais retraído do menor. Talvez ele estivesse com receio da consulta, mas tinha plena certeza que era apenas por ser a primeira consulta dele com sua pessoa. <br />
<br />
- Não, claro que não. - acabou rindo com a pergunta dele sobre o suposto problema com a ausência dos pais dele. - O senhor já parece ter o tamanho ideal para poder vir sozinho para consulta, pode sobreviver a uma conversa. - explicou, deixando seus bloquinhos de lado para poder se debruçar sobre a mesa, apoiando um cotovelo sobre ela e o queixo sobre a palma da mão, encarando o loirinho com certa curiosidade. <br />
<br />
Ele parecia recluso na própria cadeira de rodas e usando aquelas roupas compridas, parecia ter frio ou ser averso ao toque. Bem, não podia dizer que o hospital era o lugar mais feliz do mundo para ele estar empolgado com aquela consulta. <br />
<br />
- Bem, eu vi o seu prontuário, senhor Eadgar. Síndrome Guillain-Barré, certo? As informações sobre o seu caso ainda são muito rasas e é por isso que eu estou aqui. Ao contrário do que muita gente pensa, a Guillain-Barré não existe apenas como uma síndrome, mas já há estudos sobre muitas variações dela. Para saber direito como o tratamento com os medicamentos vai poder te ajudar, eu preciso saber qual das variações é a sua. - explicou, despreocupada em anotar qualquer coisa. Poderia anotar tudo depois graças a boa memória. - Sendo assim, por que não me conta quando foi que começou a sentir a fraqueza nas pernas, hm? Pelo que eu li do seu prontuário, não há registros do senhor tendo dificuldades para respirar, correto? Então já podemos descartar os casos mais sérios. - fez uma pausa finalmente, parando para dar atenção ao livro que o loirinho possuía no próprio colo, tendo a certeza que já havia ouvido falar daquele título nas livrarias que visitara em Cerise, ou talvez em alguma das pilhas de coisas de sua colega de aluguel. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Charles se sentiu um pouco mais aliviado e a vontade quando a doutora concordou sobre estar vindo sozinho, apesar do pequeno silêncio momentâneo ter deixado o loirinho um pouco ansioso. Bom, era menos um problema que teria de lidar nesse dia, já era um ponto positivo para essa doutora.<br />
<br />
Estava com as mãos juntas apoiadas sobre o colo, mais olhando para a mesa do que de fato para a médica na sua frente, era muito mais fácil ver anotações serem feitas do que ter alguém te analisando de cima para baixo. Além de que, mesmo com o ambiente sendo um pouco diferente do hospital por conta da decoração e disposição dos móveis, ainda era um hospital, e só esse fato já deixava Charles bastante desconfortável no espaço. Respirou fundo, sabia que teria de responder as mesmas perguntas que sempre respondeu nas primeiras consultas, mas isso não fazia elas serem menos invasivas.<br />
<br />
Fez um aceno positivo com a cabeça quando ela pediu uma confirmação sobre a síndrome, fazendo também questão de explicar brevemente as diferenças, para logo depois pedir informações à Charles sobre a própria situação, começando por quando havia começado a sentir as fraquezas nas pernas: - Hmn… por volta de uns oito anos? - respondeu com a voz um pouco mais baixa, tentando se recordar ao máximo dos detalhes - Meus pais disseram que bem antes já notaram que eu não tinha muita destreza pra fazer as coisas e caia bastante, acho que isso foi com uns seis anos? - completou, já fazia muitos anos desde que havia parado de andar, mas se lembrava bem da sensação de isolação que recebia das outras crianças - Daí com uns sete anos eu comecei a usar muletas, mas quando cheguei nos oito eu… realmente não conseguia mais andar. Eu sinto bastante incômodo ainda - suspirou, não evitando de ficar mexendo nos próprios dedos com as mãos - Sobre dificuldade para respirar, eu tive muito no começo, depois de uma pneumonia, meio que foi o que desencadeou a situação toda… nessa época eu fiquei… internado bastante. Isso se seguiu por uns dois anos. - Suspirou, talvez tivesse respondido o que a médica precisava por hora? - Mais alguma coisa, doutora Natalia?<br />
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Sentiu um arrepio leve quando lembrou dos longos períodos de internação, não que fosse voltar a ficar internado, já que estava com uma prospecção de melhorar… Mas ainda era uma chance, não era?<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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O garoto parecia desconfortável ali e ainda mais ao ter de lhe contar sobre o histórico com a própria doença. Prestou atenção na narrativa do garoto, estreitando o olhar quando ele destacou que havia passado algum tempo internado após ter uma pneumonia. Fez uma breve pausa quando ele perguntou se precisava de mais alguma coisa, processando seu diagnóstico sozinha por alguns instantes. <br />
<br />
- Tá. Então você teve problemas de respiração e passou dois anos internado. Isso me parece um caso clássico de Polirradiculoneuropatia Desmielinizante Inflamatória Aguda ou, como eu prefiro chamar, AIDP. Você disse que caía bastante, certo? Teve um quadro de insuficiência respiratória, sem sintomas de dor nos olhos, recuperação moderada, considerando a assistência presente no hospital na época. Hm. <br />
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Desviou o olhar, concluindo que as chances dele possuir a variação da síndrome como AIDP sendo a mais provável. Ao menos ele não parecia sofrer com a síndrome de Miller Fisher, o que seria muito pior, a considerar que ele poderia ter problemas sérios na visão. Ou as outras duas variações, que poderiam levar a problemas cerebrais e uma recuperação mais severa. <br />
<br />
- Então, Eadgar, eu vou tentar explicar para você o que está te acontecendo. - voltou a atenção para o garoto, considerando o desconforto dele e os nomes complicados que a faculdade de medicina havia lhe feito aprender, mas que ele provavelmente não fazia ideia do que significavam. - Você já viu pessoas com Alzheimer? Sabe como é que os velhos tem Alzheimer? A gente tem um sistema de neurônios no nosso corpo responsável pelas ações no nosso corpo. Ele é parecido com um sistema elétrico cheio de fios. Você já viu fios de energia? Todos encapadinhos. Bem, o nosso sistema de neurônios é parecido, todo encapado. E essa capa tem um nome. A gente chama ela de bainha de mielina. Nos velhos, essa capa vai se desgastando e daí eles não conseguem fazer a máquina funcionar direito porque a energia se perde no meio do caminho, entendeu? - fez uma breve pausa. - Agora preste atenção, porque eu quero ter certeza que entendeu isso para a gente resolver o seu caso. - baixou as mãos, apontando o indicador para o garoto. - Você não é um velho, mas a sua bainha de mielina, os seus fios, estão dando curto. E nessa descarga, você sente dor, certo? - fez um sinal positivo com o polegar. - Mas como isso é possível? O senhor é o novo caso de Benjamin Button? É velho e não sabe? Não. A situação é que o seu sangue está ruim. Bem, não exatamente o seu sangue, mas o que tem nele. O seu sistema imune enlouqueceu e está atacando a sua bainha de mielina. Então, o problema não é necessariamente neurológico, mas sanguíneo. <br />
<br />
Recostou-se em sua cadeira novamente, como se tivesse feito uma brilhante explicação sobre o quadro do garoto. Óbvio que precisava de alguns exames para comprovar sua linha de pensamento e diminuir os danos na recuperação do loiro, mas tinha plena confiança de que estava correta. Pressionou os lábios, pensando em como aquele caso era inusitado, considerando que a maior prevalência daquela variação específica da doença existia apenas na América do Norte. <br />
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- Esse livro aí. - fez menção ao livro no colo do garoto, pensativa. - Ele é sobre o que? Eu me lembro de ter visto uma capa dessas na livraria do shopping. É um negócio medieval, não é? - questionou enquanto ainda formulava a forma menos invasiva para o tratamento do garoto, cruzando os braços e se inclinando na mesa sem se importar com o busto pressionado contra os próprios braços. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
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Não estava encarando a doutora diretamente enquanto contava sobre a sua situação, mas pelo silêncio podia apenas julgar que ela estava realmente prestando atenção no que dizia, felizmente. O mesmo silêncio que se seguiu quando perguntou se havia faltado mais alguma informação também deixou Charles um pouco inquieto, mas isso também não se prolongou tanto.<br />
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- Uhm… Sim, é isso - confirmou, novamente fazendo um aceno positivo com a cabeça. Ela falou um nome grande e complicado mas que não era a primeira vez que o ouvia, alguns outros médicos haviam comentado sobre ele, se sentiu um pouco mais familiarizado quando ela mencionou a sigla, o que facilitou para o loiro ligar os pontos. Se frustrava um pouco sobre não reconhecer em primeira mão a situação do próprio caso por que alguns dos médicos anteriores preferiam tratar da situação com um “responsável”. Novamente, a doutora ficou silenciosa, o que Charles deu total espaço, batendo os dedos de leve contra a capa do livro em seu colo, leve o suficiente para evitar de fazer barulho.<br />
<br />
Prestou atenção quando ela voltou a falar, dessa vez tentando manter contato visual com a doutora, para evitar que perdesse alguma parte da explicação. Concordou quando ela propôs começar a explicação e ficou pronto para ouvir a primeira análise.<br />
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Surpreendentemente, ao invés de jogar vários nomes que Charles não iria fazer ideia de para onde iriam, percebeu que a médica tentou ao máximo exemplificar a situação para Charles, falando de fios encapados, o real nome de tais “capas”, o que normalmente acontecia com as pessoas mais velhas, a comparação com o estado da sua doença e por fim uma solução. O cadeirante se manteve em silêncio durante toda a explicação, deixando apenas breves murmúrios em concordância escaparem e acenos positivos. A parte que mais deu alívio em toda essa explicação foi saber que o problema não vinha dos seus neurônios, e sim do seu sangue. Então era uma condição menos pior, pelo menos?! Tinha mais chances de recuperação, talvez…? Eram muitas perguntas. Se envolvia seu sangue, teria de fazer transfusão? Isso significaria que Charles precisaria ficar internado novamente? Definitivamente não queria, mas se fosse necessário…<br />
<br />
A doutora de cabelos platinados parecia imersa nos seus próprios pensamentos, isso é, até apontar sobre o livro no colo de Charles, o que certamente o pegou desprevenido: - Ah. Esse é o Guerreiro Pagão do Bernard Cornwell, e é de fantasia medieval. Faz parte da série das Crônicas Saxônicas - explicou, colocando o livro na vertical para que ela pudesse ver a capa, apesar que ela havia se inclinado tanto que já conseguia ver o livro. Não era desconfortável que ela se inclinasse tanto? - É do ano passado, mas como ele anunciou que o próximo livro, O Trono Vazio, vai sair já em outubro, as livrarias voltaram a  vender com mais força. - normalmente o loirinho, como o gato arisco que era, evitaria falar tanto. Mas a doutora bem havia conseguido tocar em um assunto que o fazia ficar um pouco mais “disposto” a conversar - Ele usa fatos históricos e mistura com aspectos fantásticos. As pesquisas dele sobre a época são bastante extensas, então os acontecimentos e narrativas são extremamente precisos.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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Sorriu por estar correta sobre o livro abordar aspectos medievais, isso significava que sua memória ainda estava maravilhosa para assuntos do dia. O tal de Cornwell parecia ser um bom escritor se conseguia criar ligações entre o histórico e o fantástico. Não era muito adepta de outras literaturas se não as acadêmicas justamente por ter passado muito tempo estudando ou trabalhando. Contudo, tinha uma capacidade de leitura rápida e dinâmica, talvez valesse a pena dar uma olhada naquele livro se interessava tanto seu paciente que parecia ficar casualmente nervoso por estar ali em seu consultório. <br />
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- Ele fala sobre o uso de sanguessugas na época medieval? - perguntou, voltando a apoiar o rosto na palma da mão e o cotovelo sobre a mesa. - Sabia que o uso de sanguessugas foi reconhecido como método medicinal no século 19? Eles sempre usavam as sanguessugas para estimular a circulação de sangue na área danificada do tecido da pele. Às vezes também usavam para limpar o sangue e ajudar na recuperação dos pacientes. Na época, ninguém fazia ideia que as sanguessugas possuem substâncias que são anticoagulantes e por isso ajudavam o sangue a circular melhor. - fez uma pausa, colocando o indicador sobre os próprios lábios como se esforçasse a própria memória. - O último registro encontrado sobre elas é da época da Era Comum do primeiro calendário gregoriano, na antiga Índia. <br />
Acabou rindo com a própria sentença, orgulhosa por se lembrar das aulas de história sobre medicina antiga na faculdade. Talvez devesse retomar suas anotações, era até divertido imaginar como seria reviver uma época onde as pessoas morriam de pisar em pregos enferrujados. Suspirou logo em seguida, voltando a atenção para o garoto a sua frente. <br />
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- Vamos resolver o seu caso, senhor Eadgar. Vou falar com o hematologista do hospital e vamos “limpar” o seu sangue primeiro, como as sanguessugas faziam. Porque, veja só. - chamou a atenção dele, ajustando-se em sua cadeira confortável. - Eu poderia administrar um medicamento que ajudaria na sua recuperação, mas o problema é que o seu sangue está “podre”, entende? Daí o que nós vamos fazer são sessões de hemodiálise, trocar o seu sangue “podre” por um sangue “limpo” e adicionar o medicamento. Dessa forma, os seus fios desencapados têm tempo de se recuperar e você vai sentir menos dor para poder deixar de usar essa cadeira de rodas e tentar muletas. Ao menos é isso que eu acho que é o propósito da sua fisioterapia. Preciso falar com ela também. Sua fisioterapeuta, que digo. - suspirou, fazendo uma breve nota mental. <br />
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Uniu as mãos, apoiando-as sobre a mesa para observar o loiro diretamente antes de questioná-lo:<br />
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- Então. - sorriu, animada com a ideia do tratamento brilhante. - Tem alguma dúvida sobre o que vamos fazer, Eadgar? Se tiver qualquer dúvida, a hora é agora de perguntar. Pode me perguntar qualquer coisa. - avisou, amistosa, resolvendo fechar de falar tanto para respirar finalmente e ouvir o ponto de vista do garoto. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
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Falar sobre livros era algo que deixava Charles muito mais à vontade em qualquer situação, especialmente se a outra pessoa parecia estar interessada. Normalmente era o tipo de pessoa que não gostava de “dividir o doce”, mas nesse caso conhecia tão poucas pessoas em Cerise que liam as obras do escritor, tirando Julian claro, que se houvesse ao menos mais uma pessoa para falar sobre, seria vantajoso. Principalmente se fosse a sua nova médica, talvez isso o deixasse menos nervoso com as consultas.<br />
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Fez um aceno positivo quando ela perguntou sobre o uso de sanguessugas: - Em alguns capítulos, sim. - não era algo que acontecia de maneira recorrente nos livros, mas nos momentos em que os personagens estavam mais feridos, um ou outro se utilizava disso, ou a sugestão de algum feiticeiro. Arqueou a sobrancelha quando ela tratou sobre o uso das sanguessugas nos tempos antigos, ficaria surpreso se não fosse uma médica falando, muito provavelmente ela já deve ter estudado sobre isso. Mas ainda era bastante interessante de escutar, especialmente por que ela estava sendo bem precisa nos dados.<br />
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A postura de Charles já estava menos tensa do que antes, mesmo com a possibilidade de ter que fazer visitas mais frequentes ao hospital, ter uma perspectiva de melhora e uma médica que explicou diretamente à Charles e não a sua mãe sobre a situação lhe deixavam menos nervoso. Não negava que ainda tinha muitas incertezas, mas talvez…<br />
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Prestou atenção novamente à mudança de postura da médica, o que fez repousar o livro de volta em suas pernas. Ela explicou tudo de uma maneira muito rápida, mas ao mesmo tempo simples, conseguiu entender a situação geral e qual era a possível solução, e o melhor: talvez pudesse mudar para as muletas…. Talvez!! Tinha algumas perguntas para fazer, e assim que ela lhe deu espaço, as fez:<br />
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- Tenho algumas. - começou, puxando o celular para fazer apenas anotações das coisas principais que teria de lembrar - Se eu vou fazer hemodiálise para “limpar” o meu sangue, qual a duração do procedimento? E eu tenho uma ideia geral da hemodiálise, mas eu nunca fiz, então não sei nem o quão desgastante ele é ou se tem algum requisito… E outra, além da fisioterapia vai envolver alguma outra área? Eu já sigo uma dieta da nutricionista, vou precisar de outra também? - segurava o celular com as mãos apoiadas sobre o livro com o bloco de notas abertos, pronto para escrever mais detalhes. Ainda tinha mais perguntas, mas por hora essas seriam o suficiente. Quando ela respondesse, iria perguntar mais.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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Gostou que o rapaz estava lhe dando a devida atenção. Para um adolescente, ele parecia bem centrado no assunto. Imaginava que com uma doença como aquela, ele já deveria estar exausto de tantos procedimentos invasivos. <br />
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- Não, a gente vai cruzar as suas informações no banco de dados do hospital e repassar para o nefrologista responsável pelo setor de hemodiálise. - respondeu assim que ele pareceu terminar a primeira rodada de perguntas. - A primeira vez é uma merda, não vou mentir para o senhor não. É que para alcançar o seu sangue, eles costumam colocar uma fístula. Tipo um canalzinho para ficar mais fácil de achar seu sangue quando for fazer as sessões. Para colocar a fístula, a maioria dos pacientes reclama de dor, mas depois eles se acostumam. E fica mais prático que ter de furar o senhor como se fosse um saquinho de suco toda vez que for fazer uma sessão. - deu de ombros, como se fosse uma lógica bastante simples. <br />
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Passou os dedos sobre a própria mesa, antes de voltar para o seu computador, digitando algumas palavras até encontrar os dados das sessões do dia para hemodiálise. <br />
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- As sessões costumam durar cerca de quatro horas e o recomendado é fazer três sessões por semana. Parece um atraso de vida, mas na verdade nem é. Você vai poder estudar, trabalhar, namorar, fazer o que quiser e só vir para as sessões nos horários marcados. Pode até viajar se quiser, o convênio permite fazer as sessões em outros hospitais e centros de hemodiálise com seus dados. Se precisar faltar alguma sessão, é só avisar previamente. - virou a tela do computador para mostrar o mapa com os centros de hemodiálise cobertos pelo plano e a ficha do mesmo ao lado, aberta com os dados do loirinho. <br />
<br />
Encarou o garoto, ponderando sobre o costume dele com hospitais. Talvez estivesse superestimando a sensação de conforto que ele poderia ter estando em uma ambiente como o daquele hospital. Estava bem acostumada com as paredes brancas e a frieza do lugar, assim como a falta de noção de qual horário do dia seria pelos centros cirúrgicos não possuírem janelas. Contudo, um adolescente como Eadgar não deveria ter a mesma percepção de familiaridade que ela. <br />
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- Hey, quer ir lá comigo dar uma olhada? Assim pode ver como é a sessão pessoalmente, falar com os pacientes, perguntar pra quem faz a sessão semanalmente. Eu julgo quase como um tratamento de beleza, porque as senhorinhas que aparecem lá sabem de fofoca de mais da metade dessa cidade. - sugeriu, imaginando que o adolescente talvez ficasse mais confortável com a ideia ao ver como era o procedimento de fato. Não se incomodava de mostrar-lhe o lugar, ainda guardava algum tempo até seu próximo paciente na lista de consultas. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
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Estava bem mais acostumado com o jeito mais polido que os médicos usavam, que tornava as coisas bem complicadas pois Charles não entendia como eles acreditavam que usando palavras técnicas grandes e compostas iria ajudar um paciente a entender qual era o problema. Então ver a doutora de cabelos platinados fazer uma explicação mais casual e lhe dar espaço para perguntas deixava Charles satisfeito. Ficou até surpreso quando ela foi sincera sobre a fístula ser uma “merda”.<br />
<br />
- Fístula, certo. - murmurou enquanto anotava os detalhes no bloco de notas de seu celular. Terminou de anotar e deixou um espaço em branco para completar a informação, claro que ela poderia não ter tempo e Charles sabia que não era o único paciente que iria falar com ela naquele dia, então perguntar sobre um procedimento que poderia achar informações facilmente na internet iria ser bem mais prático. Abriu um novo espaço no bloco de notas para colocar os detalhes sobre a hemodiálise em si que a médica compartilhou: - Quatro horas, horário marcado, faltar avisar com antecedência, vinte e quatro horas - repassou as informações dessa mesma maneira para o seu fiel bloco de notas e salvou os dados. De toda a informação que foi repassada, pela maneira que ela dizia, parecia ser simples. Incômodo, sim, mas simples. Porém passar todo esse tempo no hospital fazendo mais visitas era no mínimo desgastante.<br />
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Suspirou e guardou o celular no bolso do casaco, agora voltando a prestar atenção na doutora, que por algum motivo parecia encará-lo pensativo. Charles franziu o cenho, confuso, mas antes que pudesse perguntar qualquer coisa recebeu o convite da doutora:<br />
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- Uhn… E os seus outros pacientes? - foi a primeira coisa que perguntou. Não que não gostasse da ideia de ir lá ver, principalmente acompanhado pela médica que sugeriu, mas imaginava que ela teria outras prioridades. A última coisa que iria querer era sair com a médica até a parte da hemodiálise, ter que ouvir comentários de velhinhas e depois voltar e ter comentários de outros pacientes mal-humorados com ele - Não é um problema?<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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Achou adorável como o adolescente fazia as próprias anotações. Não acompanhado pelos pais, e ainda naquela cadeira de rodas, com a doença que tinha, ele parecia bastante independente. <br />
<br />
- Hm. - ponderou sobre a pergunta dele, observando a lista de três pacientes que ainda estavam no seu horário de atendimento. Sabia dos problemas de cada um daqueles pacientes pelo diagnóstico, mas obviamente seus atendimentos na clínica demoravam um pouco mais devido a constância de velhinhas e senhores que gostavam de jogar conversa fora ali no consultório. - Tenho meu horário livre de almoço depois de atender os pacientes. <br />
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Deixou a tela do computador de lado para observar o loirinho que parecia mais atento às reações alheias e incomodado em causar algum desconforto às pessoas ao seu redor que ela. <br />
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- Se não estiver com pressa, posso te mostrar a hemodiálise quando chegar meu intervalo. - ofereceu, amistosa, recordando que ele poderia sentir fome dali até o horário do almoço. - Pode almoçar comigo, se quiser. A comida aqui é horrível, mas eu gosto de companhia. - sorriu, animada com a ideia de poder conversar com alguém diferente enquanto tolerava a comida sem tempero e pastosa daquele lugar. Entretanto, logo observou o loiro de novo, recordando que ele era só um adolescente, com pais, e ela, uma médica adulta, responsável pela saúde do outro. - Ah, claro… se eu não for presa por fazer esse tipo de convite… hahaha… - riu um tanto sem graça, recordando da falta de tato com crianças. Certamente, se ele fosse uma criança, estaria acompanhado dos pais e ela seria acusada. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
A última coisa que Charles gostava era causar problema para as outras pessoas, afinal foi por isso que decidiu ser mais independente e não precisar mais da mão ou do pai para resolver seus próprios problemas. A ideia de atrasar o atendimento de outras pessoas deixava o loirinho um pouco incomodado, mas ficou aliviado quando ela disse que poderia ser no horário de almoço dela.<br />
<br />
- Se não atrapalhar, eu fico agradecido. - concordou com o horário oferecido pela doutora, prestando atenção quando ela começou a falar sobre mostrar a hemodiálise e inclusive almoçar junto. Charles ponderou, talvez fosse uma boa ideia, afinal não era incomum que os pacientes tivessem uma certa proximidade com o seu médico, já que iriam se ver mais e mais vezes no futuro. Arqueou a sobrancelha um pouco confuso quando ela falou sobre ser presa por fazer um convite desses - Não tem problema, afinal você vai me mostrar um procedimento, certo? Eu vou esperar na recepção então, doutora. Obrigado. - complementou, destravando a cadeira e fazendo um breve aceno de despedida antes de sair da sala.<br />
<br />
Saiu da sala da doutora e, assim como prometeu, ficou aguardando na área da recepção pelo horário de almoço da doutora. Comida de hospital não era um problema, não era sua favorita, mas havia comido muita por um bom tempo. Pelo menos tinha seu fiel livro ao seu lado, e poderia passar o tempo perdido nas narrativas do seu escritor favorito.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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Ficou surpresa com o garoto concordar com sua sugestão. Geralmente jovens como ele não gostavam de esperar, mas até ponderou mentalmente sobre o comportamento alheio, talvez ele estivesse mais acostumado a esperar pelos outros do que gostaria. Agradeceu pela cooperação dele e deixou que saísse do consultório para atender seu próximo paciente. Os pacientes não eram muitos, mas como se tratava de senhores mais velhos e senhorinhas, ficava difícil atendê-los e não conversar um pouco sobre a vida alheia. Típico de pessoas que não deveriam receber tanta atenção em casa. Gostava de pessoas mais velhas que iam até seu consultório para fofocar sobre as novidades da cidade, sempre terminava descobrindo mais do que esperava naqueles atendimentos. <br />
<br />
Ao sair de sua sala, finalmente em seu intervalo de almoço, continuou conversando com a senhorinha de seu último atendimento, rindo do comportamento da mulher que não parava de falar sobre como o filho dela precisava arrumar um emprego e sair de casa para deixá-la descansar mais tranquila. <br />
<br />
- Mas dona Martha, se ele sair de casa, quem é que vai lembrar a senhora dos remédios que eu lhe passo? E por que ele não veio com a senhora para a consulta? Traga ele da próxima vez. - explicou para a senhorinha que ainda passou alguns minutos reclamando das últimas aventuras do filho único, explicando que quando ela tivesse filhos, entenderia. Apenas riu. Crianças definitivamente não estavam em seus planos. - Se cuide, dona Martha, e cuidado com o banheiro, lembre de pedir ajuda ao seu filho para ele colocar um anti derrapante lá, heim!? <br />
<br />
E a mulher concordou, despedindo-se em meio aos desejos de bênçãos para a vida da médica. Passou a mão pela própria nuca, arrumando os fios claros do cabelo antes de procurar pelo seu paciente loirinho. Pegou o próprio celular no bolso do jaleco para conferir o cardápio do dia para os funcionários do restaurante no hospital. <br />
<br />
- Hey, Eadgar! Tá afim de frango grelhado com purê de batata, arroz e ervilhas? - convidou, amistosa, só então se dando conta que talvez ele não comesse carne. - Ah, tem opções vegetarianas também. Tem… bolinhos de lentilha hoje também. - avisou, notando que uma enfermeira se aproximava para lhe indicar os prontuários dos pacientes que deveria atender durante a tarde. Pediu que ela deixasse tudo sobre sua mesa que assim que saísse do almoço, iria até as alas de atendimento aos internos. - Vamos passar na hemodiálise primeiro ou quer ir depois do almoço? - perguntou ao garoto, esperando que ele lhe seguisse.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Estava com a cara enfiada no livro de seu escritor favorito. Mesmo lendo repetidas vezes, adorava poder rever os momentos chave da trama. Algumas poucas vezes uma pessoa ou outra tentou lhe chamar atenção, mas a sua cara de irritação acabou as espantando, ou encontraram outra pessoa para perturbar. O importante foi que o loirinho pode ficar em paz junto a seu livro.<br />
<br />
Passou algum tempo até escutar a voz familiar da doutora, o que o fez colocar o marca página no livro para poder deixa-lo de lado. Girou a cadeira e deu atenção para a mulher de cabelos platinados, que parecia um pouco perdida sobre o que tinha no cardápio.<br />
<br />
- Uhm… Tanto faz, mas frango está ótimo para mim - Para quem ficou tanto tempo comendo comida de hospital, sinceramente não havia muita diferença. No final, até a carne teria um gosto de nada, e o tal bolinho de lentilha teria também o gosto de nada, ou seja: tudo teria o mesmo sabor de fantásticos nada.<br />
<br />
Esperou que ela terminasse de conversar com uma enfermeira que havia aparecido para falar sobre prontuários. Já reconhecia boa parte dos profissionais que trabalhavam ali no hospital depois de tantas visitas, estadias e check-ups, tirando um ou outro - como a própria doutora - eram novidade.<br />
<br />
- Eu não quero tomar muito do seu tempo - reforçou, seguindo a doutora pelo caminho que ela fazia - mas pode ser primeiro, qualquer coisa eu posso terminar o meu almoço sozinho, caso precise sair.<br />
<br />
Charles não era egoísta ao ponto de saber que as pessoas tem outros compromissos, em especial adultos que tem um trabalho fixo. Então, queria causar o menor dos inconvenientes possível. No final de contas, almoçaria sozinho em casa, então ter metade de um almoço acompanhado já seria lucro.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Ponderou sobre a resposta do mais novo. Talvez fosse mesmo melhor visitar a hemodiálise primeiro. Caso ele tivesse algum problema com sangue ou procedimentos médicos, comer e fazer uma visita à hemodiálise poderia deixá-lo enjoado. Franziu o cenho, o olhar distante de quem conseguia ouvir a voz de uma certa enfermeira ruiva cereja no seu ouvido reclamando baixinho de sua falta de empatia com seus pacientes que eram mais jovens. <br />
<br />
- Nah. Vai tomar nada não. Vamos primeiro na hemodiálise então ouvir as fofocas das senhorinhas e depois a gente come alguma coisa na cantina. - concordou, acenando para que ele lhe seguisse. <br />
<br />
Andou um pouco mais devagar ao que estava acostumada, visto que mesmo de salto, costumava andar rapidamente de um lado pro outro naquele hospital atendendo pacientes e preenchendo prontuários. Afastou as portas do setor de exames, dando passagem para o cadeirante poder fazer o giro e adentrar no setor. <br />
<br />
- Ele está comigo, Patrícia. - explicou para a enfermeira chefe do setor antes que ela começasse a lhe regular sobre a presença de um adolescente ali. - Aqui é o setor de diagnósticos e exames. Você pode estar achando estranho esse caminho, mas é o trajeto que os médicos, enfermeiros e técnicos fazem por dentro para evitar o processo de contaminação e a interferência de pacientes. Algumas das portas nós não podemos entrar por conta do risco de contaminação, seja biológica ou por radiação. - apontou para o aviso claro de perigo na sinalização de cada uma das entradas. - Por aqui. <br />
<br />
Chamou o mais novo, abrindo uma das portas no final do corredor que dava acesso a uma sala mais ampla, iluminada com luzes mais baixas, com um aromatizante de lavanda suave, uma parede de vidro grande que dava acesso a um jardim de inverno e cerca de sete cadeiras acolchoadas, duas delas ocupadas, com um maquinário do tamanho de um criado mudo, só que um pouco maior, ao lado. <br />
<br />
- Com licença, senhor Tucker, senhora Hardy, temos um novato hoje. - avisou a médica, cumprimentando o enfermeiro responsável pela ala de plantão. - Ele veio conhecer como funciona o tratamento de vocês. Como estão hoje? <br />
<br />
- Ah, doutora, eu estava contando para o senhor Tucker como minha sobrinha vai se casar em Paris e resolveu mudar a decoração de rosas para petúnias. Isso é um absurdo. Anos de tradição na família casando com petúnias e a família do noivo resolveu que rosas são mais bonitas. Ela quer matar a vozinha dela do coração, só pode. - começou a senhora, enquanto o senhorzinho pousada o olhar sobre o rapaz cadeirante. <br />
<br />
- Oi, filho. Vai começar a fazer o tratamento também? Qual é o seu problema? Eu estou em tratamento de anemia falciforme. Sabe o que é isso? Disseram que o meu sangue é ruim, por isso eu preciso vir aqui uma vez a cada quinze dias para limpar o sangue. Quase um SPA, não é doutora? <br />
<br />
A médica riu, sentando-se em uma das cadeiras acolchoadas da sala para poder acompanhar melhor a conversa. <br />
<br />
- Pare de contar vantagem com sua doença, Tucker. Até parece um herói de guerra falando dos traumas que teve. - disse a senhora Hardy, fazendo o senhor revirar os olhos. A idosa se voltou para o cadeirante, sorrindo amistosa. - Ah, filho, você é jovem, isso daqui nem é ruim depois que você acostuma, mas as primeiras vezes são horríveis. - a mulher mostrou o braço velhinho com um catéter fixo no braço. - Você faz uma cirurgia para eles colocarem isso em você, o primeiros dias foram terríveis para mim. Eu não podia fazer mais meus bolinhos, nem lavar louça direito. <br />
<br />
- A senhora nem deveria ter tentado lavar louça. - corrigiu Natalia, recebendo um riso da senhorinha. <br />
<br />
- Mas depois de alguns dias, você se acostuma. - informou a senhorinha. Natalia observou o garoto, arqueando as sobrancelhas, tentando encorajá-lo a tirar dúvidas com os pacientes que estavam em sessão. Pelo menos era melhor ele conversar diretamente com quem já fazia uso do tratamento de hemodiálise que se reforçar apenas em sua opinião médica de quem nunca havia precisado fazer uma hemodiálise. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Charles sabia apenas que a rotina de médicos costumavam ser coisas corridas e bastante impessoais, por isso tentou ser o mais sucinto quando a médica mais faladora ofereceu para apresentar a hemodiálise. Percebeu que ela levou um tempo ponderando sobre a proposta que havia feito, mas ao fim concordou com o cadeirante, que ficou um pouco mais aliviado, apesar de estranhar o interesse dela na conversação das senhorinhas:<br />
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- Hmn, se a doutora diz. - fez um aceno positivo com a cabeça, e acompanhou a mulher de salto, que felizmente estava em um ritmo mais tranquilo para Charles seguir.<br />
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Estranhou o caminho que estavam fazendo, especialmente que era mais por dentro do hospital. Normalmente pegaria um elevador e faria o caminho indicado pelas placas, mas entendeu quando ela disse que era o trajeto feito pelos profissionais do hospital. Fazia bastante sentido, afinal a rota feita pelos pacientes eram muitas vezes bem longas, e se os médicos tivessem que fazer o mesmo, com certeza haveriam pessoas mortas em cada corredor de hospital.<br />
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Seguiu o caminho que ela indicou para passar, percebendo as placas de indicação sobre os riscos de contaminação que a mais velha havia comentado. Em pouco tempo, chegaram até uma sala que tinha luzes não tão forte, um aroma suave, e um jardim de inverno que ficava visível graças a parede de vidro que o separava do restante do ambiente. Além disso, haviam cadeiras acolchoadas, duas ocupadas, com alguns aparelhos ao lado de cada uma, o que Charles pode supor como sendo as máquinas necessárias para a hemodiálise.<br />
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Não demorou para a médica de cabelos claros apresentar o garoto às duas figuras que estavam na cadeira. Charles até iria cumprimenta-los de volta, mas a senhorinha, a que a mulher mais alta chamou de Hardy, começou a reclamar sobre o casamento de uma tal filha, de uma tal tradição da família sobre petúnias e que agora seriam rosas. Charles apenas franziu o cenho, enquanto a médica achava tudo muito engraçado. Ao menos o homem, senhor Tucker, deu uma mínima brecha para Charles falar:<br />
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- Uhm, vou. Vou sim. - o loirinho falou, um pouco acuado com o tanto de perguntas que ele disparou, perguntando o que tinha, falando da sua própria doença. Era uma mania de gente velha falar sobre doença - O meu caso é algo mais ou menos assim, eu, uhn--<br />
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A doutora Natalia continuava a rir dos comentários de seus pacientes, era muita interação para Charles, mas tentava se manter minimamente sociável durante os comentários. Não que estivesse irritado, mas era normal que conversa com muitas pessoas, especialmente que não conhecia, lhe deixassem um pouco cansado. A senhorinha apesar de reclamona parecia bem humorada, chamando o outro de herói de guerra, antes de tornar a atenção para o garoto cadeirante, o incluindo novamente na conversa.<br />
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- Uhn, são tão ruins assim? - perguntou, logo depois sendo mostrado o braço da senhorinha com o catéter fixo. Lhe dava um pouco de agonia olhar, especialmente pensar que teria de colocar um logo em breve. Ouviu a explicação dela sobre a cirurgia, da qual já sabia, e também que ela não conseguia fazer muita coisa durante os primeiros dias, ao que a doutora prontamente refutou que não deveria nem estar lavando a louça - Uhn... E que tipo de melhora você sentiu que teve?... Como, hmn, não incomoda ter isso no seu braço? Não é desagradável nem nada?<br />
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Não sabia exatamente por onde começar, nem se a pergunta seria indelicada para os mais velhos, então decidiu perguntar os poucos.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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A senhora Hardy sorriu compreensiva como se fosse uma mulher de uma família grande e estivesse acostumada em lidar com perguntas dos mais jovens sobre sua condição. <br />
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- Incomoda um pouco às vezes, mas porque eu sou velha já, menino. As minhas veias não são tão boas quanto as suas. - explicou a senhora enquanto Natalia apenas observava, voltando a dar um pouco mais de atenção ao senhor Tucker que parecia animado em contar sobre como de fato era um herói e como costumava esconder estrangeiros em suas vivendas quando era mais novo. - Mas a melhora compensa boa parte do desconforto, sabe? Eu antes quase não saia da cama, muito indisposta. Hoje eu até me atrevo a sair sem o meu andador. - ela riu como se estivesse confessando um pecado muito sério. <br />
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A senhorinha fez uma pequena pausa, observando melhor o menino na cadeira de rodas, curiosa com o cabelo mais claro e a raíz escura da criança. <br />
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- Você pinta o seu cabelo, meu filho? Hehe, que ousado. Minha netinha quer pintar o cabelo dela também. A doutora disse que faz isso sozinha em casa, não é doutora? - a senhorinha chamou e prontamente a médica se voltou para os dois, concordando em confusão. - Falei do seu cabelo azul, doutora. <br />
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- Ah. Ah! - ela riu, pegando uma das mechas do próprio cabelo, passando os dedos devagar perto da raiz mais clara dos fios que deveriam ser loiros. - A senhora finalmente vai colorir o seu, senhora Hardy? <br />
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- Há! - a senhorinha riu. - Só se for para esconder a minha idade, meu anjo. <br />
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- Por que esse menino - o mais velho estreitou o olhar, tentando por um instante reconhecer a criança. - … por que você precisa fazer hemodiálise, rapaz? <br />
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Natalia olhou para Charles, arqueando as sobrancelhas e erguendo um sinal positivo com o dedão, sorrindo amarelo como se esperasse que ele conseguisse explicar sozinho sobre a própria condição já que havia deixado a mesma bem clara para o mais novo paciente. Talvez ele fosse a prova viva que nem com adolescentes ela conseguia lidar corretamente. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
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A senhorinha conversava devagar, mas dava bastante atenção à Charles e parecia bastante solicita, o que o deixava menos desconfortável de falar sobre o tratamento. A ideia do incômodo leve deixava Charles um pouco receoso, mas a prospecção de uma melhora também o deixava mais inclinado a aceitar o tratamento.<br />
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- Mas não seria melhor usar o andador mesmo assim?... Digo, você poderia se, hmn, machucar? - não estava perguntando repreendendo a senhorinha, mas apenas um pouco preocupado. Afinal, até mesmo quando tentava ficar de pé sem a cadeira sentia um pouco de receio.<br />
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Teve a atenção então voltada para o seu cabelo, o que deixou o garoto um pouco envergonhado, e acenou positivamente à pergunta, levando a mão até os fios claros por impulso como se quisesse esconder o rosto, enquanto a senhorinha voltava a incluir a doutora na conversa, afinal ela era a outra que pintava o cabelo.<br />
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Deixou que as duas conversassem, apenas escutando atentamente à conversa, até que a pergunta veio do outro idoso da sala, Tucker. A pergunta foi bastante pontual sobre a situação de Charles, mas se estava ali, sabia que algum momento essa pergunta acabaria chegando. Respirou fundo, mantendo as mãos apoiadas sobre o colo:<br />
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- Ah. Uhn... Quando eu era mais novo, sofri com a síndrome de Guillain-Barré. Não foi um dos casos mais sérios já que tem algumas variações - começou, lembrando das pontuações feitas pela doutora - Mas no meu caso eu acabei não conseguindo mais andar, porém a Doutora Natalia chegou na conclusão que com o tratamento de hemodiálise pode ajudar, por que o meu sangue no final das contas não está muito bom, mas é melhor um problema sanguíneo à um neurológico.<br />
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Tentou ser claro na explicação, apesar de em alguns momentos dar uma leve parada para organizar os pensamentos, mas acreditou ter resumido de maneira eficaz toda a conversa que haviam tido no consultório.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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A médica observou o rapaz com certa satisfação e até um pouco de orgulho por ele não apenas se esforçar em explicar a própria situação para pessoas mais velhas e desconhecidas, como também por ele continuar querendo saber mais sobre as próprias condições de melhora. <br />
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Quando Charles perguntou sobre o andador, o senhor acabou rindo, observando a senhora logo em seguida até cruzar os próprios braços. A senhora apenas suspirou e meneou a cabeça em negação, cochichando alguma coisa como “velho resmungão” para o senhor Tucker. <br />
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- O senhor Tucker costumava usar o andador, meu filho, mas depois de alguns anos as nossas forças não são mais as mesmas. Hoje, conseguir usar um andador é uma alegria muito grande que a gente só consegue ter por justamente fazer essas hemodiálises. - a mais velha explicou, sorrindo amistosa para o rapaz e ouvindo com atenção sobre o diagnóstico dele. <br />
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- Nós apenas estamos considerando as opções de tratamento antes do senhor Eadgar tomar uma decisão. - pontuou a médica, tratando o menor como se ele de fato já fosse responsável pelas próprias escolhas e pudesse muito bem opinar sobre o próprio tratamento sem que outros escolhessem quais medidas seriam tomadas. <br />
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- Hm. Muito bem. E a sua família, garoto? - perguntou o senhor Tucker, ainda de braços cruzados. - Meus filhos me perturbaram tanto que acabei aceitando o tratamento proposto pelo Hospital, sabe? E eles sempre ficam me monitorando, como se eu fosse um velho que não pudesse fazer nada sozinho. <br />
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- Eles só estão preocupados com a sua saúde, Tucker. - disse a senhora Hardy justamente quando a enfermeira responsável pela hemodiálise chegou para remover os equipamentos dos dois idosos e liberá-los para irem embora. - Parece que só nos veremos pelo Hospital, rapazinho. Espero que consiga melhorar logo. Vou trazer minha netinha da próxima vez, quem sabe ela não fica tão entediada só com a vovó dela aqui, não é? <br />
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A senhora riu e logo depois um dos filhos do senhor Tucker adentrou na sala para poder ajudar o homem a se acomodar em sua própria cadeira de rodas. A senhora Hardy conseguia caminhar, ainda que devagar. <br />
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- E então? - a doutora ajustou a própria posição, levando as mãos para trás, observando e sorrindo os pacientes irem embora. - Com fome? Vamos almoçar? - baixou o olhar, finalmente convidando Charles para comerem algo como havia sugerido antes.]]></content:encoded>
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