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		<title><![CDATA[Academia St. Clavier - Lixeira]]></title>
		<link>http://academiastclavier.com.br/</link>
		<description><![CDATA[Academia St. Clavier - http://academiastclavier.com.br]]></description>
		<pubDate>Wed, 27 May 2026 18:41:44 +0000</pubDate>
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		<item>
			<title><![CDATA[Dilemas de Amizade [Lui; Yure]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=354</link>
			<pubDate>Mon, 06 Dec 2021 01:53:49 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=21">Oliver</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=354</guid>
			<description><![CDATA[Os últimos dias tinham sido bem confusos para Oliver. Primeiro ele descobriu que o rival chinês tinha se mudado para Cerise e ia estudar na mesma academia que ele. Depois, tiveram uma disputa e ele ainda percebeu que tinha sido displicente com os treinos a ponto de Qiang lhe derrotar numa pequena disputa. Ainda tinha se resolvido com ele, a ponto dos dois concordarem em treinarem juntos, já que eram os únicos praticantes daquele estilo de Kung Fu naquela cidade pequena. E depois de ter se resolvido naquele quesito com o chinês que tinha lhe feito tanto bullying no passado, até tinha concordado em levá-lo para a cidade para mostrar algumas coisas. Oliver tinha falado com o pai e sabia o pensamento dele sobre Qiang. Ele também tinha pensado mais de uma vez naquela semana que por mais que tivesse péssimas lembranças da China, não ia querer que o rapaz passasse pelo mesmo que ele tinha passado e com toda a coragem que tinha, resolveu deixar o passado na China e oferecer sua amizade sincera ao novo colega de escola... só para ser obviamente negado.<br />
<br />
Havia uma profusão de sentimentos dentro de Oliver quando ele pegou o ônibus de volta para St. Clavier depois de ter sido abandonado por Qiang. Ele pensou mil e um motivos pelo qual o rapaz o odiava, não lembrava de ter feito nada tão grave contra ele, mas ainda assim, ele estava determinado em negar a sua tentativa de amizade. Entre a raiva e a vontade de chorar de frustração, Oliver não conseguiu chegar a nenhuma conclusão do que podia ter acontecido a Qiang, exceto o fato de que provavelmente voltaria a treinar sozinho depois daquela dispensa óbvia do chinês.<br />
<br />
Quando ele chegou ao quarto no dormitório depois do longo trajeto de volta a St. Clavier, nem tinha percebido como o rosto estava vermelho por causa das várias tentativas de conter o choro e a frustração ao esfregar o rosto com as costas da mão. Era uma visão bem deplorável e ele esperava que Lui não estivesse no dormitório para vê-lo naquele estado. Mas a esperança foi por água abaixo quando abriu a porta e deu de cara com Lui mexendo na câmera.<br />
<br />
- <span style="color: rosybrown;" class="mycode_color">Ah... oi, Lui! Eu n-não achei que você tava aqui no dormitório... te atrapalhei?</span> - perguntou Oliver, um tanto sem graça pelo próprio estado.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[Os últimos dias tinham sido bem confusos para Oliver. Primeiro ele descobriu que o rival chinês tinha se mudado para Cerise e ia estudar na mesma academia que ele. Depois, tiveram uma disputa e ele ainda percebeu que tinha sido displicente com os treinos a ponto de Qiang lhe derrotar numa pequena disputa. Ainda tinha se resolvido com ele, a ponto dos dois concordarem em treinarem juntos, já que eram os únicos praticantes daquele estilo de Kung Fu naquela cidade pequena. E depois de ter se resolvido naquele quesito com o chinês que tinha lhe feito tanto bullying no passado, até tinha concordado em levá-lo para a cidade para mostrar algumas coisas. Oliver tinha falado com o pai e sabia o pensamento dele sobre Qiang. Ele também tinha pensado mais de uma vez naquela semana que por mais que tivesse péssimas lembranças da China, não ia querer que o rapaz passasse pelo mesmo que ele tinha passado e com toda a coragem que tinha, resolveu deixar o passado na China e oferecer sua amizade sincera ao novo colega de escola... só para ser obviamente negado.<br />
<br />
Havia uma profusão de sentimentos dentro de Oliver quando ele pegou o ônibus de volta para St. Clavier depois de ter sido abandonado por Qiang. Ele pensou mil e um motivos pelo qual o rapaz o odiava, não lembrava de ter feito nada tão grave contra ele, mas ainda assim, ele estava determinado em negar a sua tentativa de amizade. Entre a raiva e a vontade de chorar de frustração, Oliver não conseguiu chegar a nenhuma conclusão do que podia ter acontecido a Qiang, exceto o fato de que provavelmente voltaria a treinar sozinho depois daquela dispensa óbvia do chinês.<br />
<br />
Quando ele chegou ao quarto no dormitório depois do longo trajeto de volta a St. Clavier, nem tinha percebido como o rosto estava vermelho por causa das várias tentativas de conter o choro e a frustração ao esfregar o rosto com as costas da mão. Era uma visão bem deplorável e ele esperava que Lui não estivesse no dormitório para vê-lo naquele estado. Mas a esperança foi por água abaixo quando abriu a porta e deu de cara com Lui mexendo na câmera.<br />
<br />
- <span style="color: rosybrown;" class="mycode_color">Ah... oi, Lui! Eu n-não achei que você tava aqui no dormitório... te atrapalhei?</span> - perguntou Oliver, um tanto sem graça pelo próprio estado.]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[Grey's Anatomy [Dominique, Richard]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=351</link>
			<pubDate>Mon, 08 Nov 2021 23:00:21 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=79">Natalia</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=351</guid>
			<description><![CDATA[Era mais uma daquelas semanas em que nada acontecia além de diversas consultas de rotina, exames de tomografia e eco cardiogramas para senhorinhas e senhores acompanhados de senhorinhas que costumam obrigá-los a cuidar da própria saúde. A última novidade que havia ocorrido na cidade, além do trágico e passado caso do psicopata que preferia não recordar (mas que sua memória guardava, pois era perfeita), era a visita do famoso médico James Dean, o bastardo que até nome de estrela tinha. Em sua saída com o sujeito, teve uma leve confirmação de como os homens naquela cidade pareciam sofrer com um problema constante: a necessidade de serem cuidados por terceiros. Salvo algumas exceções, como seu suposto amigo alto de corpo forte, cara fechada e uma boa mão para cozinha. E o agente fúnebre que conseguia dar conta de si próprio, cuidar dos mortos e ainda de alguns vivos. <br />
<br />
Estava na sala da farmácia com as enfermeiras do setor e alguns funcionários da limpeza, aproveitando que as medicações haviam acabado de ser trocadas para assistirem na televisão de informativos do setor um pouco da série que também ficava disponível nos canais para os pacientes internados na enfermaria. Estavam assistindo um programa com algumas estrelas populares, um tal de Grey´s Anatomy. Estava encostada no arco da porta de entrada da sala enquanto os funcionários comentavam sobre como uma tal de Meredith estava sofrendo por causa do interesse amoroso dela, um tal de um médico bem bonito e galã da novela hospitalar. Estava de braços cruzados, o cabelo preso em um caprichado coque, a pouca maquiagem sendo necessária para o lugar de trabalho onde estava. Estava com o uniforme da enfermaria, sem luvas, enquanto aguardava o próprio ciclo de troca de medicamentos, esperando que algo interessante acontecesse. <br />
<br />
Riu quando uma das enfermeiras comentou sobre como sonhava em ter um namorado como o médico do seriado e a colega de trabalho da mulher comentou sobre o namorado da outra só precisar se formar em medicina, pois já era um verdadeiro "delícia". Aquela ambiente de convívio de cidade de interior era bem mais tranquilo e agradável. Buscou o próprio celular, pensando em enviar uma mensagem para Richard e perguntar se o enfermeiro não queria fumar um cigarro na saída do necrotério quando terminassem o plantão. Aproveitou para perguntar se o sujeito tinha interesse em participar de uma festinha dos funcionários no final do expediente para falarem mal de algumas pessoas do trabalho e comentarem sobre o novo médico da cidade. O enfermeiro e o irmão dele eram pessoas bem legais em um nível diferente da enfermeira ruiva cereja com quem só parecia discutir em toda oportunidade possível. Não admitiria para a mulher, mas até começava a achar divertido as constantes divergentes que tinha com a mesma. Estava de costas para o corredor de acesso, então sequer prestou atenção em quem estava passando no corredor, mais interessada em continuar assistindo a novela com os outros.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[Era mais uma daquelas semanas em que nada acontecia além de diversas consultas de rotina, exames de tomografia e eco cardiogramas para senhorinhas e senhores acompanhados de senhorinhas que costumam obrigá-los a cuidar da própria saúde. A última novidade que havia ocorrido na cidade, além do trágico e passado caso do psicopata que preferia não recordar (mas que sua memória guardava, pois era perfeita), era a visita do famoso médico James Dean, o bastardo que até nome de estrela tinha. Em sua saída com o sujeito, teve uma leve confirmação de como os homens naquela cidade pareciam sofrer com um problema constante: a necessidade de serem cuidados por terceiros. Salvo algumas exceções, como seu suposto amigo alto de corpo forte, cara fechada e uma boa mão para cozinha. E o agente fúnebre que conseguia dar conta de si próprio, cuidar dos mortos e ainda de alguns vivos. <br />
<br />
Estava na sala da farmácia com as enfermeiras do setor e alguns funcionários da limpeza, aproveitando que as medicações haviam acabado de ser trocadas para assistirem na televisão de informativos do setor um pouco da série que também ficava disponível nos canais para os pacientes internados na enfermaria. Estavam assistindo um programa com algumas estrelas populares, um tal de Grey´s Anatomy. Estava encostada no arco da porta de entrada da sala enquanto os funcionários comentavam sobre como uma tal de Meredith estava sofrendo por causa do interesse amoroso dela, um tal de um médico bem bonito e galã da novela hospitalar. Estava de braços cruzados, o cabelo preso em um caprichado coque, a pouca maquiagem sendo necessária para o lugar de trabalho onde estava. Estava com o uniforme da enfermaria, sem luvas, enquanto aguardava o próprio ciclo de troca de medicamentos, esperando que algo interessante acontecesse. <br />
<br />
Riu quando uma das enfermeiras comentou sobre como sonhava em ter um namorado como o médico do seriado e a colega de trabalho da mulher comentou sobre o namorado da outra só precisar se formar em medicina, pois já era um verdadeiro "delícia". Aquela ambiente de convívio de cidade de interior era bem mais tranquilo e agradável. Buscou o próprio celular, pensando em enviar uma mensagem para Richard e perguntar se o enfermeiro não queria fumar um cigarro na saída do necrotério quando terminassem o plantão. Aproveitou para perguntar se o sujeito tinha interesse em participar de uma festinha dos funcionários no final do expediente para falarem mal de algumas pessoas do trabalho e comentarem sobre o novo médico da cidade. O enfermeiro e o irmão dele eram pessoas bem legais em um nível diferente da enfermeira ruiva cereja com quem só parecia discutir em toda oportunidade possível. Não admitiria para a mulher, mas até começava a achar divertido as constantes divergentes que tinha com a mesma. Estava de costas para o corredor de acesso, então sequer prestou atenção em quem estava passando no corredor, mais interessada em continuar assistindo a novela com os outros.]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=347</link>
			<pubDate>Thu, 30 Sep 2021 15:22:56 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=14">Aleksei</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=347</guid>
			<description><![CDATA[Fazia muitos anos que Aleksei não se sentia verdadeiramente exausto por uma sessão ou um caso com um paciente. Aquela manhã tinha prometido uma sessão mais tranquila com um Renaud aparentemente de muito bom humor, se comparado com as sessões mais recentes deles e com o fato de que ele ainda estava se ajustando às medicações, mas tudo tinha ido por água abaixo com uma notícia que ninguém tinha previsto. Como consequência da morte da mãe de Renaud, o rapaz tinha se rendido a uma crise dissociativa intensa e talvez devesse agradecer mentalmente que a medicação que ele tomava, somada às mãos machucadas, tinha reduzido e muito o ímpeto dele em tentar retaliar aquela perda de alguma forma. A crise que Aleksei tinha presenciado na enfermaria era algo de maior complexidade do que esperava presenciar numa academia com alunos adolescentes e jovens adultos, mas embora tivesse lhe exaurido mentalmente, tinha também lhe dado as pistas para dar prosseguimento ao tratamento de Renaud com mais eficácia. A conversa com <span style="font-style: italic;" class="mycode_i">Duncan</span> era algo que precisava estudar com cuidado antes de pensar nas próximas abordagens.<br />
<br />
De todo modo, depois que Renaud tinha retornado aos sentidos e estava tentando assimilar o sentimento de perda que iria acompanhá-lo por um longo tempo dali em diante, ele precisava do suporte dos amigos e de pessoas próximas que poderiam lhe consolar mais do que com um par de afagos na cabeça, que era além até do que Aleksei teria se dado a liberdade com seus pacientes anteriores a St. Clavier. Depois de receber a confirmação dele de que queria ver os amigos e que poderia ir buscá-los, Aleksei saiu da enfermaria, sabendo que Isaac estava de volta a sala do Conselho Estudantil, mas certamente Didier e Sasha não teriam se afastado mais do que no final do corredor. Não foi surpresa abrir a porta e encontrá-los esperando por notícias no corredor amplo e pouco movimentado do Anexo Administrativo.<br />
<br />
- <span style="color: #8b0000;" class="mycode_color">Imaginei que estariam esperando por aqui.</span> - Aleksei deu um passo para o lado, saindo do caminho da porta aberta, finalmente dando espaço para que os dois entrassem na sala. - <span style="color: #8b0000;" class="mycode_color">Ele está acordado, gostaria de falar com vocês. Eu vou deixá-los a sós, mas estarei na sala de aconselhamento, caso precisem, é só ligar do telefone da enfermaria e eu volto o quanto antes. Eu avisarei ao Sr. Lemont também que o Renaud já pode receber visitas.</span>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[Fazia muitos anos que Aleksei não se sentia verdadeiramente exausto por uma sessão ou um caso com um paciente. Aquela manhã tinha prometido uma sessão mais tranquila com um Renaud aparentemente de muito bom humor, se comparado com as sessões mais recentes deles e com o fato de que ele ainda estava se ajustando às medicações, mas tudo tinha ido por água abaixo com uma notícia que ninguém tinha previsto. Como consequência da morte da mãe de Renaud, o rapaz tinha se rendido a uma crise dissociativa intensa e talvez devesse agradecer mentalmente que a medicação que ele tomava, somada às mãos machucadas, tinha reduzido e muito o ímpeto dele em tentar retaliar aquela perda de alguma forma. A crise que Aleksei tinha presenciado na enfermaria era algo de maior complexidade do que esperava presenciar numa academia com alunos adolescentes e jovens adultos, mas embora tivesse lhe exaurido mentalmente, tinha também lhe dado as pistas para dar prosseguimento ao tratamento de Renaud com mais eficácia. A conversa com <span style="font-style: italic;" class="mycode_i">Duncan</span> era algo que precisava estudar com cuidado antes de pensar nas próximas abordagens.<br />
<br />
De todo modo, depois que Renaud tinha retornado aos sentidos e estava tentando assimilar o sentimento de perda que iria acompanhá-lo por um longo tempo dali em diante, ele precisava do suporte dos amigos e de pessoas próximas que poderiam lhe consolar mais do que com um par de afagos na cabeça, que era além até do que Aleksei teria se dado a liberdade com seus pacientes anteriores a St. Clavier. Depois de receber a confirmação dele de que queria ver os amigos e que poderia ir buscá-los, Aleksei saiu da enfermaria, sabendo que Isaac estava de volta a sala do Conselho Estudantil, mas certamente Didier e Sasha não teriam se afastado mais do que no final do corredor. Não foi surpresa abrir a porta e encontrá-los esperando por notícias no corredor amplo e pouco movimentado do Anexo Administrativo.<br />
<br />
- <span style="color: #8b0000;" class="mycode_color">Imaginei que estariam esperando por aqui.</span> - Aleksei deu um passo para o lado, saindo do caminho da porta aberta, finalmente dando espaço para que os dois entrassem na sala. - <span style="color: #8b0000;" class="mycode_color">Ele está acordado, gostaria de falar com vocês. Eu vou deixá-los a sós, mas estarei na sala de aconselhamento, caso precisem, é só ligar do telefone da enfermaria e eu volto o quanto antes. Eu avisarei ao Sr. Lemont também que o Renaud já pode receber visitas.</span>]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[Babylon [Lucius]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=346</link>
			<pubDate>Tue, 28 Sep 2021 18:46:28 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=55">Marion</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=346</guid>
			<description><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
Naquela manhã tinha encontrado com Lucius para acompanhá-lo em uma aventura no tatuador. Tinha sido interessante ver que ele era um sujeito muito mais alternativo do que esperava, e claro, era bom estender o convite da manhã para sair com ele mais uma vez, dessa vez em um ambiente mais familiar a Marion: um clube. Como tinha dito pela manhã, passaria a noite no The Capitol com uns amigos, e se precisasse, poderia dormir na casa dos seus pais ou quem sabe desse sorte com Lucius. <br />
<br />
Enviou uma mensagem para ele enquanto estava encostado em um muro próximo da boate muito conhecida em Cerise. A música era alta o suficiente para que o som vazasse um pouco para o lado de fora, e Marion já tinha cumprimentado alguns conhecidos do clube, e certamente não passava despercebido usando uma camiseta e calça jogger beges com detalhes pequenos em verde, e um tênis branco blocudo. Queria poder dançar a noite toda.<br />
<br />
“Estou na frente do The Capitol. Olha aí a localização <img src="http://academiastclavier.com.br/images/smilies/wink.png" alt="Wink" title="Wink" class="smilie smilie_2" />”, deixou na mensagem, enviando junto a localização do clube. “Ah, e não se preocupa pra entrar. É por minha conta que eu que chamei. Mas venha de sapatos confortáveis, a gente vai dançar muito!”<br />
<br />
Acabou rindo sozinho, o que chamou a atenção de um par de meninas da fila, que ele graciosamente dispensou muito rápido. Podiam ser dois garotos bonitos, não reclamaria. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
<br />
Depois de voltar para St. Clavier, tomar um banho e trocar de roupa, passou o resto da tarde organizando seu orçamento e cronograma de estudo, trocando mensagens em alguns momentos com sua psicóloga online. Havia prometido a Marion que sairia com ele durante a noite para um clube e ainda que a oferta lhe deixasse um tanto quanto desconfortável por ser uma experiência nova, acabou concordando em aceitar o convite em gratidão pela companhia do sujeito em lhe acompanhar pela tarde e, principalmente, por ser uma oportunidade de conseguir socializar novamente. Caso se sentisse muito desconfortável, poderia chamar um uber e voltar para o dormitório dos alunos. <br />
<br />
Se arrumou com uma opção de roupa que fosse despojada. Não levou bolsa dessa vez, guardou o celular e a carteira com os documentos dentro de sua jaqueta, tomando o cuidado em deixar pelo menos sua psicóloga ciente de onde iria naquela noite. Apesar de saber da mulher não ter a função de ser sua responsável, gostava de pensar nela como uma amiga, ainda que soubesse que, no fundo, ela não era exatamente aquilo. Enviou mensagem para sua mãe em Paris, certificando-a de que já havia conhecido um sujeito agradável que tinha lhe convidado para sair. Não se preocupava em fazer as coisas sozinho, mas era confortável a ideia de dar satisfação a alguém que se importava consigo sobre o que estava acontecendo. <br />
<br />
Como ainda não sabia exatamente como chegar no devido lugar através do meio de transporte local, demorou alguns minutos até que conseguiu chegar na frente do tal The Capitol. Durante o trajeto, tomou o cuidado de informar ao amigo sobre o motivo de seu atraso. Avistou Marion não muito distante após atravessar a rua, o traje do sujeito ajudando-o a se destacar facilmente na multidão. Acenou ao se aproximar, sibilando um pedido de desculpas enquanto gesticulava com as mãos. <br />
<br />
Desculpe. Seus amigos esperaram muito? Resolveu perguntar, notando a quantidade de pessoas que já se formavam na fila. Pelo menos havia se certificado de usar um bom desodorante, sempre estava com um perfume agradável de fragrância amadeirada, não lhe agradava a ideia de estar sem um bom odor. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
Quando Marion viu Lucius ao longe, acenou de forma animada e amigável para o moreno, notando como ele estava arrumado, e certamente não deixando de notar o perfume gostoso quando ele se aproximou, ao que teve o descaramento de se curvar na direção dele e dar uma tragada breve ainda de uma distância e abrir um sorriso largo.<br />
<br />
- Não se preocupa com meus amigos, não. Eles estão bem acompanhados. Quer dizer, eu também, agora né? – Marion comentou com um ar confiante, dando um par de tapinhas amigáveis em Lucius. – Olha como você é bonito! – riu, chamando-o com a mão e um maneio de cabeça para que fossem até a fila. – Meus amigos já entraram. Mas eu só saio com eles para dançar então... não é como se fossem sentir minha falta.<br />
<br />
Deixou bem explicado que Lucius era provavelmente a única pessoa que ele esperaria naquela situação, deixando a fila andar para que pudesse finalmente chegar a vez dos dois de receber pulseiras e entrar no clube aquela noite.<br />
<br />
- O que quer pra beber? – perguntou a Lucius antes que entrassem, porque a música dentro do Capitol era mesmo muito alta. Bastou que abrissem a porta para que ficasse claro que o lugar era feito apenas para festejar, pois havia pontos muito escuros, um bar muito iluminado e dançarinos fazendo bonito sobre plataformas. – Só pra avisar, nada de bala. A galera que vende aqui é muito suspeita!<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
<br />
Ficou surpreso por um instante com a aproximação do amigo, ainda mais quando ele fez questão de lhe cheirar. Encarou o sorriso do outro ao ser elogiado quanto a sua própria aparência, fazendo um breve sinal em agradecimento pelas palavras dele. Achou estranho por um momento ele tratar outros como amigos apenas para dança, mas não era como se tivesse muitos amigos para fins de comparação. Entrou com Marion ao receber a pulseira, contente pelo outro saber o suficiente sobre linguagem de sinais para se comunicarem no meio daquela música alta. Aproximou-se do amigo para ouvir o conselho dele sobre bala e concordou brevemente. Definitivamente não queria fazer uso de nenhuma droga. <br />
<br />
Água. - sinalizou. Não fazia ideia de quanto custava a bebida ali e também não queria gastar muito. Gostava de opções de diversão que fossem mais baratas e havia seguido até ali para dançar e, principalmente, assistir o amigo dançando ao vivo. Não estava mentindo quando disse ao sujeito que ele tinha habilidade com a performance corporal. Já havia assistido alguns vídeos dele online e, de fato, era um bom entretenimento assistir o outro dançar. Não que não soubesse sobre ritmo e musicalidade, mas era algo distinto tocar uma música no piano ou no violão e interpretá-la com seu próprio corpo. <br />
<br />
Observou as pessoas ao redor, o olhar de um brilho mais âmbar em meio a iluminação mais forte do bar destacando seu rosto de pele morena em meio aos fios escuros do cabelo com alguns fios fora do lugar pela correria que havia sido até chegar ali. Moveu os dedos longos sobre a mesa do bar como se facilmente acompanhasse a batida do ritmo da música mais animada, ignorando os olhares estranhos em sua direção. Certamente que, sendo alguém novo na cidade, poderia ser uma atração diferente, mas preferia muito mais uma única companhia a ser o centro das atenções. <br />
<br />
O que vai beber? É muito caro? - perguntou ao amigo ao lado, sinalizando-o de forma discreta, movendo os lábios para que ele pudesse entender de forma mais clara e para não demonstrar a estranhos que era mudo ali. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
Marion abriu um sorriso satisfeito com a resposta de Lucius sobre o que queria beber e fez o pedido no bar, sendo atendido rapidamente. Imaginou que ele era o tipo bem comportado, mas depois de ver a tatuagem, talvez tivesse um lado mais solto dele. Mas considerando que mal se conheciam, talvez ele se reservasse o direito e permanecer sóbrio. Quem sabe com o passar da noite ele não se sentia mais confortável?<br />
<br />
De todo modo, era bom ser acompanhado de um homem bonito como Lucius. Se a beleza dele já tinha lhe chamado atenção na casualidade do dia a dia, vê-lo arrumado e iluminado pelas diferentes luzes do clube eram quase um presente. Não demorou quase nada para notar que ele atraía bastante a atenção ao redor, e até podia ver as moças que tinha dispensado antes passando e olhando para ele.<br />
<br />
Retomou a atenção para Lucius quando ele perguntou o que iria beber, e aproximou-se dele, ficando perto o suficiente para que trocassem sinais sem se atrapalharem.<br />
<br />
- Nada ainda. – respondeu, sinalizando também para não ter que levantar a voz. – Na verdade eu quase não bebo quando saio. Às vezes vodka. Mas prefiro dançar muito. E aí na saída tomo alguma coisa ou fumo... depende do DJ. – riu, ouvindo a batida ficar mais agitada em uma música conhecida que estava tocando na rádio por aqueles dias. Não resistiu mexer ombros e pescoço, apreciando o ritmo. – Você vai dançar comigo, não-<br />
<br />
- Marion! – Um rapaz alto de moletom e barbicha deu um tapa no ombro do moreno. – Achei que não ia vir! Deixa de flerte barato e vamos lá pra frente! O Kir vai tocar! – ele falou animado, praticamente puxando Marion pela roupa.<br />
<br />
- Espera, espera, Henri! Esse aqui é um amigo meu, não vou deixar ele sozinho! – Marion protestou. – Lucius, Henri. Henri, Lucius.<br />
<br />
- Ele dança? – Henri questionou, e então olhou pra Lucius com a sobrancelha arqueada. – Você dança?<br />
<br />
- Ah, Henri! O Lucius não fala, entã-<br />
<br />
- Eu não quero saber se o seu casinho não fala, eu quero saber se ele dança! – Henri mostrou ambas as mãos como se estivesse falando o óbvio. – E aí, Lucius? Shuffling? Locking? Poppin’? Macarena?<br />
<br />
O recém-chegado citou cada estilo, fazendo um breve freestyle no trechinho da música alta que estava tocando, até mesmo sensualizando Macarena no ritmo da batida, e embora Marion estivesse um tanto confuso, foi impossível não abrir um sorriso para o conhecido e se juntar na Macarena, o que animou Henri, que seguiu sozinho na dança. Então Marion olhou pro amigo novo de St. Clavier e coçou a nuca com um riso desconcertado.<br />
<br />
- [Desculpa]. – sinalizou para que o outro não ouvisse.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
<br />
Ouviu a resposta de Marion e aproveitou a aproximação do atendente do bar para pedir uma garrafa de água, movendo os lábios e contando com o entendimento do outro ao apontar para a garrafa de água mais próxima do balcão. Não deu atenção para os olhares curiosos em sua figura, apesar de não deixar de notar cada um deles. Estava ali para se divertir a convite de um amigo. Observou os movimentos de Marion e não deixou de esboçar um sorriso com o canto dos lábios, divertindo-se com a desenvoltura dele, a personalidade mais leve e alegre lhe fazia pensar naquele momento como um encontro mais simples, afastando seus pensamentos dos problemas do dia a dia. <br />
<br />
Acabou sendo pego de surpresa pela presença de um estranho, alto de barbicha, que parecia em um estado de urgência para levar Marion para um lugar onde aparentemente um tal de Kir estava tocando. Poderia não escutar com muita clareza em meio a todo aquele burburinho de pessoas e música agitada, mas tinha uma ótima capacidade visual em ler lábios. Gesticulou brevemente para Henri, cumprimentando-o com um sorriso educado. Ignorou a parte sobre ser um “casinho” de Marion e passou a prestar atenção nas sugestões de ritmos específicos que já havia visto em algumas descrições de vídeos que já havia assistido do recente amigo. Riu discreto com a tentativa de sensualização com a clássica macarena e acabou concordando, afirmando com a cabeça positivamente sobre saber dançar. Pegou e pagou pela garrafa de água, aproximando-se de Henri para poder segui-lo. Fez uma menção com a cabeça, chamando por Marion. <br />
<br />
Não precisa se desculpar. Eu sei dançar. Só não danço tão bem quanto você. - respondeu ao outro, sinalizando rapidamente, esperando que ele pudesse compreender o que estava dizendo. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
Apesar do momento levemente desconfortável que imaginava ter feito Lucius passar com Henri, no momento em que ele respondeu finalmente o questionamento de seu amigo de festa, a resposta lhe deixou de orelhas em pé e muito mais animado. Então ele dançava! Abriu um sorriso largo quando o moreno explicou que ele sabia dançar, mas não era tão bom quanto Marion. O seguiu animado enquanto iam na direção do barulho do meio da boate, onde a música ficava ainda mais alta.<br />
<br />
- Bom, não importa quem dança melhor. Importa se você dança comigo! E então? – Marion perguntou, ajudando com os gestos enquanto seguiam pela boate, afinal, a música podia ser insuportável de vez em quando.<br />
<br />
Henri estava junto com outros dois rapazes quando chegaram. Um deles parecia ser apenas um pouco mais novo que o grupo, parecia muito devagar e relaxado, o que era um imenso contraste com a energia do segundo sujeito, um rapaz com o cabelo quase todo raspado e incontáveis tatuagens nas mãos e braços e que dançava freneticamente sem parar um único instante.<br />
<br />
- Marioooooon! Maaaariiii! Mamaaaaaa! – o rapaz que estava dançando freneticamente correu para dar um abraço no moreno, e então olhou para Lucius com um sorriso de orelha a orelha. – Você é muito lindo, está solteiro?? Vamos dançar! – ele voltou a dançar ao redor de todo mundo, mudando entre shuffling e uma imitação fajuta de galinha. – Ó o drop!!<br />
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- Quem é seu amigo? – o sujeito mais relaxado perguntou, tão na paz que nem parecia que tinha tanto barulho ao redor. – Oi, tudo bem? Hugo. E aquele maluco é o Bil. O Henri você já conheceu, né? – perguntou, estendendo a mão para Lucius.<br />
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- Que foi que ele tomou? – Marion perguntou com uma sobrancelha arqueada.<br />
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- Nem pergunte. – Hugo olhou para trás um instante para ver se Bil estava vivo no meio da multidão. Mas ele estava mais vivo que a pequena multidão toda.<br />
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- Ah, Lucius, Kir é um amigo do Bil e do Henri, ele é Dj. Aquele cara que está subindo no palco e conectando o equipamento. – Lucius apontou, ouvindo enquanto a música mudava quase que imperceptível para outro remix e a iluminação acompanhava o ritmo, e o outro Dj tomava o lugar. Bil tinha ido assobiar e aplaudir quase na frente do palco enquanto um remix de 7/11 começava a tocar. – Me mostra o que você sabe, Lucius?<br />
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Marion começou a bater palmas devagar no ritmo da música, e então começou a acompanhar o ritmo devagar com os ombros e o corpo. Os amigos dele não foram tão devagar, e não levaram mais que a introdução da música para começar a dançar também, empolgados no mundo deles, tanto quanto Marion estava ficando gradualmente mais empolgado com a ideia de dançar com Lucius.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
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Apenas lançou um olhar interessado para o amigo que lhe convidada para dançar, permanecendo quieto enquanto seguiam o amigo dele para que conhecesse o restante de rapazes daquele grupo. Gostou de conhecer o tal de Hugo. Ele lhe passava uma tranquilidade e uma atmosfera mais amistosa ao seu gosto que o sujeito, com o que imaginava ser um apelido, Bil. Sorriu com o canto dos lábios ao ser elogiado pelo tal de Bil, mas escolheu ignorar a pergunta dele sobre estar “solteiro”. Estendeu a mão de volta para Hugo, cumprimentando-o em silêncio antes de sinalizar para ele, passando suas mãos uma sobre a outra, aproximando os indicadores e apontando para o mais tranquilo na linguagem de sinais. <br />
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Prazer em conhecer você. - ergueu o olhar para observar o local onde o tal Kir, amigo DJ do grupo, deveria começar a tocar. Sorriu mais abertamente ao notar como aquelas pessoas estavam mais relaxadas no espaço da boate, dançando em meio a outras pessoas sem se preocuparem em serem julgados. Aos seus olhos, eles nem precisavam se preocupar, até mesmo o engraçado Bil imitador de galinhas possuía uma boa desenvoltura com o próprio corpo. <br />
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Voltou novamente sua atenção para Marion, o amigo parecia ainda estar entrando em um ritmo confortável. Lembrou dos vídeos dele e como ele parecia livre e empolgado com a apresentação dos próprios movimentos ao ritmo da música mais popular, ainda que nem todos os ritmos que ele fosse capaz de usar fossem frenéticos. A batida que tomava o The Capitol não era estranha aos seus ouvidos, já havia escutado aquela música em outro ritmo no celular, em vídeos e em playlists aleatórias enquanto buscava distração após passar do seu horário estudando música. Podia ser do tipo reservado, não isso não significava que não se sentisse mais confortável na companhia de um amigo como Marion, que até o presente momento havia se mostrado um sujeito divertido e leve. <br />
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Suspirou, relaxando os ombros para começar a seguir os movimentos do outro. Como estavam em uma boate, não era estranho estar dançando, ainda que não fosse nenhum profissional naquilo como o sujeito parecia ser. Lembrava que alguns passos dele nos vídeos e, para sua sorte, possuía um bom jogo de cintura e flexibilidade para se mover ao ritmo da batida do DJ. Baixou o olhar para acompanhar os passos do moreno, ficando a frente dele. Passou a mão pelos fios escuros do próprio cabelo ao erguer a cabeça para encarar Marion, esboçando um sorriso mais confiante por estar ali.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
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Apesar de Marion achar que Lucius demoraria mais tempo para se sentir à vontade para dançar com eles, considerando que havia uma boa parte dos visitantes que estava ali só para beber, ele foi bem rápido em se jogar, o que lhe animou ainda mais. Hugo e Henri, que ainda dançavam perto dos dois, também se animaram com o novo companheiro de dança, enquanto Bil parecia dar voltas no lugar inteiro, parecendo mais uma pipoca saindo da panela que um dançarino como os amigos.<br />
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- Fiuuu! Ele dança! – Henri gritou animado, sacudindo os braços para o alto enquanto começava outra música.<br />
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- Mesmo se não dançasse, o importante é se divertir, não? – Hugo respondeu, dando um tapinha no amigo e fazendo shuffling ao redor dele com a calma de um monge budista.<br />
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- Isso aí, Hugo! – Marion e Hugo bateram as mãos, e como se fosse um sinal idiota, Marion começou a fazer shuffling e Hugo mudou o estilo de dança. O aluno de St. Clavier virou novamente para Lucius, aproveitando que tinha sido ele mesmo quem tinha decidido dançar ao seu redor. Tinha que admitir, claro, Lucius era muito bonito, ele tinha ciência disso, e cada movimento que ele fazia lhe mandava sinais mistos se ele tinha interesse ou não em algo além de amizade. Marion até pegou a mão de Lucius para dançarem juntos, brincando com o amigo sem invadir demais o espaço dele. – Sabe dançar o suficiente pra essa jogada de cabelo me dar um nervoso, ein! – riu, soltando o outro em seguida.<br />
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A playlist do DJ Kir era super animada, e pelo jeito que o grupo dançava, eles não parariam até a madrugada ou o clube fechar. Cada um até parou para mostrar habilidades individuais, com todos abrindo espaço para Bil fazer break, Henri mostrar que era excelente de Locking e Hugo surpreender com as caras e bocas enquanto fazia twerking ao som de “Get Low”. Também não deixaram de incluir Lucius sempre, silenciosamente ensinando a ele como dançar o refrão de “Lean On” com todos eles, e algumas pessoas no Capitol que acharam o grupo agitado no mínimo chamativo.<br />
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Quando o DJ encerrou a setlist e outra pessoa entrou no lugar dele com um som menos agitado, Marion estava pingando de suor e rezando para não aparecer demais na roupa bege.<br />
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- Wheeeew! Estou morto! – fingiu um desmaio, jogando quase o corpo todo pra trás antes de voltar. – Isso foi muito bom! – deu um tapinha amigável em Lucius. – Água? Pra dois? Tipo, água pra dois pra cada um de nós, que acha? – riu, parecendo um ser humano muito animado com o rosto vermelho de fazer exercícios. E Bil seguia dançando. – O que achou??<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
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Não se incomodou com a aproximação dos amigos de Marion ao seu redor. Eles pareciam leves e divertidos, mas em nenhum momento invadiram seu espaço ou lhe deixaram desconfortável. Contudo, não conseguiu ignorar o toque alheio em sua mão, ainda que por um período curto de tempo. Talvez fosse pelo fato de usar muito de suas mãos para tocar piano ou para sinalizar, mas o gesto lhe fez prestar um pouco mais de atenção no semblante do amigo que havia lhe convidado até ali. O jeito engraçado do sujeito, misturado à aproximação “inocente” do mesmo lhe deixavam mais na defensiva, por não estar habituado àquele tipo de sinais incertos. No final das contas, ele poderia muito bem estar levando tudo na brincadeira e não queria ser o amigo que estragava tudo ao raciocinar demais naquela situação. <br />
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Esboçou um sorriso comercial e educado, compartilhando do momento de brincadeiras e de passinhos ridículos, aceitando a oferta de aprender com os amigos de Marion, não se importando de tentar imitar o passo deles. <br />
Concordou com um aceno positivo sobre a água, removendo a jaqueta que estava usando no processo, revelando os braços e a tatuagem que Marion já tinha conhecimento. Amarrou a peça na cintura e passou as duas mãos pelo próprio pescoço, sentindo como também estava suado, os fios escuros mais compridos colados na pele de sua nuca. Aproximou-se de Marion, tocando-lhe o ombro para lhe chamar a atenção antes de sinalizar: Onde fica o banheiro? Encarou o amigo, esperando que ele pudesse lhe dar indicações de qual direção seguir, a água lhe faria muito bem depois que pudesse se livrar um pouco daquele suor. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
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Lucius lhe passava uma imagem bem fechada. Talvez fosse porque era um extrovertido natural, e completamente “aparecido” comparado com ele (era até bem mais agitado que o resto do grupo, até mesmo Bil, que certamente estava sob influência de alguma coisa). Ao menos ele se sentia confortável com seus amigos, talvez por eles serem mais respeitosos sobre o espaço alheio.<br />
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Quando finalmente pararam de dançar, o fato de Lucius parecer só cansado e ainda se manter distante, e pior, sequer lhe responder se tinha gostado lhe deu bem a entender que diferente dos menininhos fáceis que encontrava em St. Clavier, o moreno não tinha interesse nenhum em sair dali “acompanhado”. Bom, ao menos ele era interessante e parecia ser boa gente. Bem queria liberdade para tocar na nuca suada dele, mas podia se contentar em dividir uma água e dançar mais um pouco. Até Marion sabia quando parar.<br />
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Ergueu as sobrancelhas quando ele disse que queria ir ao banheiro. O Capitol não era como muitos bares esquisitos nos quais já tinha se metido, mas se perguntou se estaria tudo bem deixar ele ir sozinho.<br />
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- Naquela direção, logo depois do bar à esquerda. – Marion indicou, sinalizando também por conta da música alta. Arqueou a sobrancelha. – Quer que eu vá com você até a porta? – não deveria ter mal em perguntar. Ainda mais sem nenhum tom de malícia. – Não que seja esquisito por aqui, geralmente. Mas sei lá, por segurança.  <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
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Observou melhor a localização da indicação do banheiro e já estava pronto para seguir após agradecer, quando se deu conta da oferta de companhia do outro para lhe acompanhar. Não costumava ter companhia alguma ao ir ao banheiro e até gostava bastante da privacidade, mas diante do comportamento alheio e do local ser desconhecido, acreditou que a decisão mais sensata era aceitar a companhia do então amigo. <br />
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Concordou com um aceno positivo de sua cabeça, deixando que ele mostrasse então o caminho para chegar ao tal banheiro. Assim que parou na porta, imaginou que deveria entrar sozinho, contudo, parou para observar melhor a situação do amigo, imaginando se ele também não estaria suado após dançar de uma forma tão animada, enérgica. Concluiu que ele não deveria se incomodar tanto com o próprio suor como ele, mas ainda assim ofereceu: <br />
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[Você pode entrar. Se quiser. Eu não me incomodo.] - disse para Marion antes de adentrar o banheiro, seguindo diretamente para a pia a fim de lavar as próprias mãos. <br />
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Suspirou ao se dar conta da sensação agradável da água fresca em suas mãos antes de lavar o próprio rosto. Ao erguer a face e se encarar no espelho, procurou com o olhar a presença de Marion no recinto. Fez uma pequena pausa antes de molhar as mãos novamente, passando os dedos então pela própria nuca como se quisesse se livrar do suor e da ideia de ter algum odor desagradável. Moveu a gola da camisa para que pudesse cheirar o tecido, a barra da peça subindo a ponto de seu abdômen ficar exposto. Terminou por largar o tecido da camisa, lavando as mãos mais uma vez antes de passar os dedos molhados pelo cabelo escuro, jogando-os para trás em uma tentativa de aliviar o calor pelo exercício realizado. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
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Guiou Lucius até o banheiro. Estava acostumado a esperar na porta pelos amigos ou entrar no banheiro para fins diversos, mas ser “convidado” a entrar foi uma novidade engraçada. Quase não resistiu arquear a sobrancelha para o moreno, afinal, não tinha sido uma ou duas vezes apenas que havia dado em cima dele. Porém, pelo visto, ou ele gostava de atiçar sua imaginação, ou era muito tonto.<br />
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De todo modo, Marion aproveitou para lavar o rosto também. Jogou um pouco de água, tirando o excesso com a mão para garantir que estava sóbrio (apesar de não ter bebido ou usado nada), porque cada gesto de Lucius parecia desenhado para lhe provocar gratuitamente, do jeito como ele molhava o cabelo para tirar o excesso de suor, até o jeito como ele levantava de leve a camisa no intuito de cheirá-la, deixando um pedacinho do abdômen exposto. Era um pouco respeitoso, mas amém, não era cego.<br />
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Pegou a manga do próprio moletom e aproveitou para enxugar o rosto, sabendo por experiência que o papel fino de enxugar as mãos era uma péssima opção.<br />
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- Bom, já vi que aqui está seguro. Então vou aproveitar pra sair, que se eu ficar olhando demais pra você, vai ficar perigoso pra mim aqui dentro. – Marion riu, movendo a mão como se banisse as ideias da cabeça. Ainda fingiu que iria sair e virou o rosto para Lucius, mexendo os dedinhos de forma esquisita. – E não fique sensualizando demais na frente do espelho. Reza a lenda que homem bonito no banheiro do Capitol pode ser encoxado pelo “Galegão do banheiro”, ein?? – ergueu as sobrancelhas de modo assustado, e depois saiu, fechando a porta atrás de si. Só não foi embora. Seria indelicado levar Lucius até lá e sair sem esperar por ele.  <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
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Estava mais aliviado com a sensação refrescante da água em sua pele antes suada. Marion ainda havia feito a gentileza de lhe acompanhar até ali, o que era agradável por estar em um lugar novo e desconhecido. Olhou para o amigo pelo espelho quando ele brincou sobre ali ser perigoso para ele. Observou o moreno por sobre o ombro, surpreso com as palavras dele sobre estar “sensualizando demais”. Acompanhou o sujeito com o olhar pelo reflexo do espelho, sentindo o rosto ruborizar com a ideia de que esteja sendo vulgar de alguma forma. <br />
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Não queria causar uma impressão errada em Marion ou nos amigos dele, então achou melhor desamarrar o casaco da própria cintura, vestindo de novo a peça para se sentir mais coberto. Demorou alguns minutos para sair do banheiro, mexendo no próprio celular. Verificou as mensagens trocadas anteriormente com a psicóloga sobre o próprio receio com aquele encontro até decidir sair do banheiro finalmente. <br />
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Ficou surpreso de novo ao encontrar o amigo lhe aguardando do lado de fora, mas acabou por esboçar um sorriso, mais calmo com a presença do outro. <br />
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Desculpe. Demorei muito? - perguntou, parando para observar melhor os arredores e se dar conta que a música voltava a ter uma batida mais animada. - Seus amigos devem estar esperando. Vamos encontrar com eles? - completou, dando espaço para que outros entrassem no banheiro. Queria poder ainda se divertir com Marion naquela noite e voltar para o dormitório quando ele quisesse também ir embora. Ou talvez o amigo fosse embora dali com outra pessoa. Entre as opções, não queria ser um empecilho para o recente amigo que lhe parecia ser uma boa pessoa, apesar dos comentários insinuantes. Julgava que tudo deveria ser uma brincadeira da parte do outro. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
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Quando Lucius finalmente saiu, novamente vestido com o casaco, arqueou de leve a sobrancelha. Será que ele estava com frio depois de ter molhado a nuca, ou será que seus comentários tinham incomodado? Deveria parar de investir, afinal, ele parecia não ter interesse em nada além de sua amizade e uma boa companhia para balada. Achava isso um desperdício, aliás, pois era um excelente partido para um coração partido.<br />
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- Não demorou, não. Vamos voltar. – no caminho, bebeu a água para dar uma esfriada no corpo, voltando para o grupo de amigos que estava entre dançar e já beber alguns drinks, ou ao menos Hugo estava tentando, com Bil agarrado em seu pescoço tentando roubar um gole do copo. – Ei, Bil! Você não pode beber!<br />
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- Ei, Mariiii...! Só um golinho, vai, deixa! – Bil berrou quando Marion ralhou com ele, soltando do pescoço do outro amigo para se agarrar em Marion. Ele olhou para Lucius em seguida. – Você parece um cara muuuito legal, compra vodka pra mim? Só uma batidinha? Eu te dou dinheiro, vai? – o rapaz puxou então a carteira do bolso e estendeu a Lucius, mas Marion rapidamente colocou a mão e a carteira de volta no bolso do dono.<br />
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- Já vai começar com as ceninhas. Nem dê bola pra ele, que senão ele fica todo derretido em cima de você. – Henri riu, aproximando-se de Lucius e dando uma leve cotovelada de lado. – Um drink, Lucius? – ofereceu, mostrando uma garrafa de vodka barata.<br />
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- Eu queroooo! -Bil falou, agarrado ainda em Marion, esfregando o rosto nele. – Mama, me leva pra casa hoje~ Ninguém me deu uma dose, tô carente~<br />
<br />
- Hoje eu tô acompanhado, Bil. Vai com o Henri e o Kir, quando ele pegar o dinheiro da noite. – Marion então afagou a cabeça quase raspada do outro que se tremeu inteiro de propósito, e Marion não resistiu acariciar o outro abaixo do queixo, já rindo. – Na próxima venha sóbrio e aí te faço carinho até você ronronar, gatinho~<br />
<br />
- Miau! – Bil berrou, e Marion agarrou ele e encheu de beijos pelo rosto, para entretenimento de Henri e Hugo, que caíram aos risos.<br />
<br />
- Ah! Lucius! Você vai voltar pro dormitório daqui? Sabe que tem toque de recolher né? – Marion falou, ainda fazendo cócegas em um Bil muito rendido. – Se quiser dormir comigo, fique a vontade. – piscou. – Quando digo comigo, digo na casa dos meus pais, que é pra onde eu vou daqui.  <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
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Aproveitou que o amigo estava bebendo água para pedir um pouco e beber também. Observou a aproximação mais íntima do amigo dele, pendurando-se no pescoço de Marion. Cerrou os lábios, desviando o olhar assim que o sujeito se dirigiu para sua pessoa, pedindo para que comprasse vodka para ele. Sorriu para Henri de forma discreta, acenando em negativa com a oferta da bebida. De fato, até gostaria de experimentar o que lhe era oferecido, mas sabia que devido a sua condição de saúde, não era possível. <br />
<br />
Sorriu um pouco constrangido, encarando Marion pelo fato dele parecer ocupado em lhe manter companhia, enquanto os outros amigos dele queriam se divertir com o rapaz. Desviou o olhar por um momento, achando, no mínimo, curioso como o mais novo, Bil, parecia tão à vontade ao ponto de esfregar o próprio rosto contra o de Marion, sendo correspondido com aquelas carícias casuais. Se ocupou em beber um pouco mais de água, batendo o pé de leve ao ritmo da música do ambiente, entretido com a batida mais animada e empolgante. <br />
<br />
Quase se engasgou quando Marion lhe perguntou se iria voltar para o dormitório ou se dormiria com ele. Encarou o amigo pouco depois de verificar o horário da noite em seu celular, recordando do tal toque de recolher. Observou o tal de Bil nos braços do moreno e sorriu um pouco sem graça, sinalizando para Marion apenas com uma das mãos enquanto segurava a garrafa com água. <br />
<br />
Se não é problema para você. Eu agradeço. - respondeu, acenando novamente antes que percebesse a atenção do sujeito. - Mas você não quer sair com ele? - resolveu perguntar, incomodado com a ideia de estar atrapalhando a noite do moreno com os amigos de longa data do outro. - Eu posso chamar um carro e voltar. - avisou, ponderando que se saísse em tempo, conseguiria chegar em St. Clavier para dormir. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
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Acabou rindo descaradamente do engasgo de Lucius quando questionou se dormiriam juntos. Ao menos uma vez naquela noite tinha conseguido dar um direto de direita no moreno. Não era possível que nesse ponto das interações dos dois, ele não notasse seu interesse. Embora ele não parecesse igualmente interessado. Hugo e Henri pareciam notar que suas tentativas falhas não tinham surtido nenhum efeito, e os amigos até ergueram os copos para Marion em simpatia. Estar agarrado com Bil não estava ajudando sua conta.<br />
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Arregalou os olhos quando Lucius perguntou se não preferia sair com o outro.<br />
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- Eu? Não, não! Com certeza prefiro ir com você! – Marion respondeu, deixando Bil com uma carinha tristonha. – Você tem o Kir no seu coraçãozinho, eu só lhe encho de carinho porque você está um grude.<br />
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- Mas ele não me dá bolaaaa~~ - Bil esperneou, sendo tirado de perto de Marion por Henri, puxado pela gola da camisa.<br />
<br />
- Vamos, vamos, você tá atrapalhando a chance do Marion... vamos dançar? Olha a batida! Tuts, tuts!<br />
<br />
E sem nem pensar duas vezes, o humor de Bil mudou da água pro vinho, e ele começou a dançar animado perto do grupo, sem preocupação alguma no mundo.<br />
<br />
- Não liga pra ele não, que quando o efeito passar, ele vai ficar todo deprê e com a cabeça toda bagunçada. A gente já conhece e dá conta do Bil. Não dispense a saída com o Marion só por causa dele. – Hugo aconselhou com paciência, dando um sorriso e uma cutucada amiga em Lucius.<br />
<br />
- Então dorme lá em casa! A gente pode dançar mais hoje a noite, e aí prometo que te dou uma toalha pra tomar um banho quente e te enrolo como um bom menino antes de dormir. Dou até um beijinho pra bons sonhos! – Marion riu, estendendo as duas mãos a frente e chamando Lucius para dançar já se mexendo no ritmo das músicas ainda mais animadas que o novo dj tocava.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
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Observou as reações do grupo de onde estava, acompanhou como, ao que tudo indicava, o tal de Bil tinha sentimentos pelo músico que se chamava Kir. Não tinha certeza se ele era músico de fato, mas entendia que ele era o responsável pelo que estava tocando enquanto dançavam. Aparentemente, o tal de Bil era muito carente de contato físico e, por isso, estava inclinado a ficar nos braços de Marion. Na verdade, depois que ele foi removido da companhia de Marion por Henri, imaginou se o rapaz não se importava qual fosse o amigo que o abraçasse. <br />
<br />
Concordou com um aceno positivo para Henri quando ele lhe recomendou não dispensar a saída com Marion. Olhou na direção de Marion, ouvindo as palavras dele e processando que o interesse dele parecia estar além de uma amizade convencional. Concluiu mentalmente que ele deveria gostar de garotos, recordando, então, dos comentários insinuantes dos amigos dele que agora conhecia pessoalmente nos vídeos do dançarino. <br />
<br />
Ficou na sua, aceitando a oferta da dança, segurando as mãos de Marion. Porém, prestou atenção na reação do outro ao, propositalmente, deslizar o indicador e o médio pelos pulsos dele ao aceitar o convite. Manteve um olhar mais atento sobre as reações do então amigo, tentando acompanhá-lo nos passos da dança, inutilmente, a julgar que ele era bem melhor que sua pessoa naquele quesito. Não era do tipo que tinha muita energia social para manter a mesma empolgação que Marion e seus amigos, contudo, estava contente por estar ali e poder observar, de forma presencial, os corpos que se moviam ao ritmo animado. Tentou recordar da energia na quadra de basquete e em como a adrenalina da competição fazia com que se concentrasse e melhorasse seus reflexos. <br />
<br />
Você vai me beijar? - sinalizou, encarando o outro, mais sério, considerando a “brincadeira” dele com o comentário sobre lhe colocar para dormir. Preferia ser direto, principalmente por ter confiado no outro a ponto de aceitar estar ali com ele e os amigos que até então não conhecia. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
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Sabia que seus amigos tinham um ritmo diferente da maioria das pessoas, até o próprio Marion. Treinavam muito dança, e aquelas noites eram a chance de eles dançarem por mais hobby, socializarem, saírem com outras pessoas ou entre eles mesmos, mas Lucius parecia estar aguentando bem o tranco que era estar naquele grupo. Por isso queria dançar mais com ele, afinal, era seu convidado. Se o abandonasse para dançar com os outros não faria sentido.<br />
<br />
Sentiu um toque diferente no seu pulso quando Lucius tomou suas mãos, e então olhou para o gesto do rapaz e abriu um sorriso. Não sabia se ele tinha feito de propósito ou se tinha percebido o próprio gesto singelo. Mas já tinha sido rejeitado de tantas formas diferentes que ignorou o toque, apenas puxando o amigo para mais uma maratona de dança, com todos os movimentos que podia ensinar a ele, do shuffling a dança da minhoca tonta. Não importava muito se estavam bonitos dançando. O que fazia diferença para Marion era se ele estava se divertindo.<br />
<br />
Virou para Lucius, notando que ele estava já “perdendo a bateria” do começo da noite, e observou os gestos dele para si, até parando de mexer os pés por um breve segundo. Apesar de ficar inicialmente confuso, Marion abriu um sorriso amplo, e então estendeu as mãos para as de Lucius, trazendo-o mais para perto. Encarou-o direto, um pouco mais quieto e então arqueou uma das sobrancelhas.<br />
<br />
- Se você quiser. Quando você quiser. – deixou bem claro, para ter certeza que Lucius não estava aceitando só pela sua insistência e pela dos seus amigos. Então riu, sinalizando para ajudar a compreensão com o volume da música ficando subitamente mais alto. – Eu até diria “onde” você quiser, mas eu te beijaria inteiro, sabe?<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
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Esperava apenas uma resposta, mas foi pego de surpresa pela atitude do mais alto ao lhe trazer para perto. Encarou o outro de volta, sem dificuldade de ler os lábios dele pela proximidade. Estava habituado a uma intimidade mais agressiva e menos educada que a de Marion, por isso ficou um tanto sem reação quando ele ainda sinalizou, indicando que poderia lhe beijar “inteiro”. Cerrou os lábios, sentindo um calafrio lhe descer até a barriga. <br />
<br />
Estendeu uma das mãos até o próprio rosto, permanecendo parado em meio a todas aquelas outras pessoas dançantes. Não prestou mais atenção nas pessoas e deslizou os dedos para a mão dele, segurando-a sem pressão. Virou o corpo, sinalizando para que ele viesse junto e saísse do meio daquelas pessoas, ainda que a música alta não lhe incomodasse.<br />
<br />
Olhou por cima do ombro, questionando-se um tanto incerto se o outro aceitaria se afastar dali com ele. Não era do tipo indiscreto. Na verdade, o tipo de intimidade que era acostumado a ter era sempre mais reservada. Respirou fundo, esperando que o outro não percebesse o tremor leve em seus dedos pela ansiedade de estar tomando aquele passo. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
A surpresa de Lucius com a sua resposta lhe deixou com um leve quê de incerteza. Achava que ele tinha finalmente respondido aos seus avanços, mas tinha mesmo? Talvez fosse mesmo um acidente, ou talvez ele quisesse chamar sua atenção para comunicar algo. Quanto mais Lucius demorava para reagir, mais ficava com a impressão de que tinha ido longe demais com a abordagem direta. Nem todo mundo era saído como ele e seus amigos e tudo bem se Lucius não fosse, mas também não era sua intenção assustar demais.<br />
<br />
Porém o toque delicado em sua mão e o sinal de que deveriam sair dali pôs um sorriso em seu rosto. Acenou discretamente para os rapazes na pista de dança e seguiu Lucius sem hesitar, notando como ele parava para ter certeza se estava seguindo para longe do barulho, para algum lugar mais discreto. Havia um leve tremor na mão dele, o que não achava animador. Começou a tecer mil teorias: será que na verdade Lucius era um cara hetero de mente aberta que agora queria experimentar, mas tinha medo do olhar dos outros? Será que na verdade ele estava no armário ainda? Achava o jeito dele lhe tirar dali um pouco inocente, considerando o quão direto tinha sido na abordagem. Ele estaria mais seguro de não ser devorado perto da luz.<br />
<br />
- Ei, Lucius! Lucius! – chamou o outro, notando que o lugar onde tinham ido estava bem mais vazio, quieto e escuro que o resto dos lugares. Pegou a mão do moreno, segurando os dedos levemente trêmulos, com a pose confiante e o sorriso bem humorado no rosto. – Você está tremendo. Respira... expira... – falou rindo, fazendo gesto com a mão livre. – Agora... se te ofendi com a cantada e você quer me dar um murro, não era a intenção não. Mas olha... – soltou a mão de Lucius e ficou parado frente a ele, as palmas da mão do lado do corpo em uma postura toda aberta. – É com você. Entre bater ou beijar, você não ia machucar um partido como eu, né? – o tom de Marion era leve, afinal, não queria que Lucius se sentisse pressionado ou achasse que era um sujeito super sério. Até machucaria um pouco o orgulho se ele risse, mas assim não perdia a amizade.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
<br />
Ainda podia ouvir os próprios batimentos acelerados pela ansiedade do momento. O amigo sequer deveria fazer ideia do que aquilo significava para ele - e também não o culpava pelo desconhecimento. Relaxou com o toque mais gentil em sua mão, incerto de como reagir quando Marion percebeu o tremor em seus dedos. Ouviu as palavras dele, soando aos seus ouvidos como uma ordem familiar que, de uma forma estranha e peculiar, conseguia lhe fazer relaxar. Estava mais acostumado a obedecer ordens do que realizar apenas a própria vontade. <br />
<br />
Concordou com um aceno positivo enquanto a voz do amigo lhe passava segurança sobre o respeito a sua vontade. Ergueu o olhar, encarando o rosto do maior com aquele sorriso mais confiante e o ar de graça. Permanecer mais sóbrio, o brilho âmbar de sua íris denunciando sua atenção ao rosto de Marion em meio aquela penumbra. <br />
<br />
Não respondeu a pergunta do rapaz, erguendo as mãos com os dedos ainda trêmulos para o rosto do amigo. Sua pele era naturalmente mais quente e relaxou ao contato com o pescoço do mais alto, apreciando a sensação tátil ao passar com a ponta dos dedos nos pêlos curtos do cabelo raspado de Marion. Esperou por alguma reação do outro antes de cortar a distância entre ambos, juntando seus lábios aos do outro rapaz, os olhos semicerrados. <br />
<br />
A sensação não era ruim, sentia-se estranho por iniciar aquele contato físico mais íntimo. Conhecia Marion há pouco tempo, o sujeito de personalidade mais leve, divertida e amistosa não lhe passava nenhuma sensação de ameaça. Contudo, não gostava de se expor demais, ainda mais ao se sentir admitindo que estava confiando no amigo ao ponto de beijá-lo. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
Lucius era adorável, mas era muito sério. Talvez fizessem bem para Marion conversar com ele depois sobre relaxar um pouco, ou quem sabe ele não fizesse mesmo o tipo que gostava de relacionamentos casuais. Mas isso era para outro momento. Já bastava Lucius se preocupando. Mas pelo menos ele tinha decidido tomar uma atitude.<br />
<br />
Sentiu as mãos em seu rosto e nos cabelos curtos da nuca e esperou satisfeito que Lucius se aproximasse. Sorriu brevemente, deixando que ele tomasse toda a atitude, lhe dando apenas o benefício da dúvida de fechar os olhos e ficar com a cara mais ridícula enquanto esperava um beijo. Pelo menos nesse ponto, não foi decepcionado.<br />
<br />
Estendeu uma das mãos até o braço de Lucius, tocando-o com cuidado, e então moveu os lábios sobre os dele, devolvendo o beijo hesitoso e inocente.<br />
<br />
- Viu? Não foi tão ruim, foi...? – perguntou sem sair daquela postura, embora o barulho do clube não permitisse que falasse tão baixo. Beijou Lucius mais uma vez, indo suave a princípio, aproveitando o gesto mais próximo para dar um pequeno passo mais a frente e puxar de leve os braços dele para que ficassem em volta do seu pescoço, tentando deixar o espaço entre os dois ainda menor. Estava tentando não ser muito afobado, mas considerando que Lucius era muito bonito, ninguém podia lhe culpar por querer mais, deixando o beijo mais firme e intenso.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
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Tensionou com o toque em seu braço, mas não se afastou enquanto o beijo iniciado era correspondido. Não estava habituado aquele tipo de gentileza, então apenas entreabriu os lábios quando se deu conta de que o amigo estava intensificando o gesto. Seguiu as orientações de Marion, mantendo os olhos ainda semicerrados ao envolvê-lo pelo pescoço. Sentiu o contato com o corpo masculino do mais alto ainda que por sobre as camadas de tecido e tensionou novamente com a proximidade. <br />
<br />
Respirou pelo nariz, inclinando a cabeça de lado para que o encaixe com a boca do outro ficasse mais confortável. Felizmente (ou não), tinha experiência o bastante para não perder o fôlego de forma breve. Misturou sua língua com a de Marion, as mãos livres chegando a tocar o cabelo do outro, entretendo-se novamente com os pelos mais curtos da nuca do moreno. Finalmente fechou os olhos por um instante, ouvindo a música animada e mais distante. <br />
<br />
Continuou beijando o amigo sem ressalvas de quando interromper o contato. Poderia manter os lábios nos dele pelo resto da noite se Marion assim desejasse. Não se sentia coagido ou intimidado pelo rapaz. Na verdade, tinha uma inusitada e calorosa sensação de cumplicidade que nunca imaginou sentir por alguém de uma forma íntima como aquela. Era novo e assustador, ao mesmo tempo, mas não era como se estivesse preso ao outro. A liberdade, de certo modo, lhe deixava inseguro. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
O contato iniciou de um jeito inusitado, mas ao menos, à medida que avançava, com receio ou não, Lucius devolvia as carícias com a mesma intensidade. Sentiu os dedos dele passarem por sua nuca meio raspada, lhe dando um arrepio agradável quando somada a sensação das línguas se enroscando. Suas mãos, vendo Lucius parecendo mais confortável com o contato, desceram dos braços até as costas, e das costas até a cintura, trazendo-o um pouco mais para perto, parando um breve instante para retomar o fôlego, sem tirar um centímetro da proximidade que tinha conseguido conquistar, antes de retomar o beijo.<br />
<br />
- Mas eita, que bitoca gostosa!! Eu quero alguém pra me pegar assim também, ô, tô muito solteiro pra ficar olhando vocês! – a voz de Bil soou bem do lado dos dois, mas bastou ele começar para Marion subitamente abrir os olhos e parar o beijo, olhando de esguelha para o amigo. – Que foi??<br />
<br />
Marion soltou um longo, longo suspiro e virou Lucius de costas para Bil, para que ele não tivesse que passar essa vergonha, já que imaginava que ele não gostava de ser visto. Mas não soltou o moreno, abraçando-o e segurando-o contra o próprio corpo.<br />
<br />
- Você não precisa ficar olhando, sabe? – Marion falou com um tom que claramente parecia uma bronca. – Vá pedir água pro Henri, você está suado. Aproveita e avisa a eles que eu já vou.<br />
<br />
-  M-mas mãe...! Tá, tá... eu vou, eu vou. – Bil respondeu, saindo a passos pouco confiantes, como se metade da energia que ele tinha no começo da noite já tivesse ido embora.<br />
<br />
Só então Marion soltou mais o abraço de Lucius, procurando o rosto dele com uma expressão que era ao mesmo tempo divertida, mas aceitava que aquilo tinha sido bem esquisito.<br />
<br />
- Desculpa por ele. – Marion pediu, então abrindo um sorriso. – Eu acho que já tive agitação o suficiente por hoje. A proposta se mantém: quer dormir lá em casa? Se não quiser, eu te levo de volta pro dormitório.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
<br />
Sentiu os ombros relaxarem e a cabeça ficar mais leve com as mãos do amigo que agora lhe tocavam a cintura. Encarou o moreno quando ele se afastou um pouco para recuperar o fôlego. Apreciou o momento para buscar oxigênio também, os lábios ainda entreabertos esperando o instante em que se conectaria com o rapaz de novo. Entretanto, foi pego de surpresa pela voz do amigo de Marion, o tal de Bil. Pensou em virar o rosto para o lado e evitar encontrar o olhar de Bil, mas ao que parecia Marion havia sido mais rápido. <br />
<br />
Não ousou se mexer de onde o amigo havia lhe colocado, de costas para o amigo dele. Estranhou o abraço naquela situação, mas não relutou, descendo os braços até conseguir apoiar as mãos nos ombros dele. Ouviu a voz de Bil se distanciar e o pedido de desculpas de Marion. Encarou o sorriso no rosto do outro e ficou um tanto quanto confuso. Ele havia se arrependido, por acaso? <br />
<br />
Deu um passo para trás depois de ouvir ele repetir aquela pergunta sobre voltar para dormir nos dormitórios ao invés de dormir na casa do rapaz. Ele havia acabado de lhe beijar, ou melhor, havia correspondido ao seu beijo, isso queria dizer que ele gostava da sua companhia, não era? Não entendia porque ele continuava a questionar se não queria que ele o levasse de volta para o dormitório em St. Clavier. Primeiro, duvidava que naquele horário, eles lhe deixariam entrar sem nenhuma advertência. Segundo, ele estava chateado com o que havia acontecido? Mas até que parte? Será que com “agitação”, ele estava falando do beijo também? Ele parecia bastante preocupado em lhe deixar confortável naquela situação, mas não sabia até que ponto ele só estava sendo condescendente. Um sujeito como ele não precisava se dar ao trabalho. <br />
<br />
Eu fiz algo errado? - resolveu sinalizar, perguntando diretamente a Marion, incerto sobre ele ser o tipo de pessoa que talvez mascarasse o próprio desconforto com aquele sorriso divertido. Ele, com certeza, parecia o tipo social mais preocupado em deixar seus amigos confortáveis que agir de forma inconsequente. Encarou o maior, o semblante sério de costume. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
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Quando mais lidava com Lucius, menos entendia de fato o novo amigo. Primeiro ele pareceu ignorar seus avanços, até imaginou que ele estava pensando naquilo tudo como uma forma de amizade francesa. Depois ele passou a aceitar seus convites, mas tinha parecido meio relutante em fazer isso na frente de outras pessoas. Agora, estava dando a chance dele fugir, mas a primeira coisa que ele lhe perguntou foi se tinha feito algo de errado. Marion ergueu de leve as sobrancelhas. Talvez fosse melhor deixar tudo claro?<br />
<br />
- De jeito nenhum, inclusive, beija bem, obrigado. – Marion falou com um tom educado bem humorado, sinalizando também dado o espaço entre os dois e o volume da música ao redor, tudo para reforçar o que dizia, ainda que não soubesse expressar tudo aquilo com toda a certeza do mundo em sinais. – Eu que não tenho sido claro. – ponderou um instante. – Talvez isso te surpreenda... mas eu sou gay. – Marion riu, e então respirou fundo para não seguir fazendo piada, afinal, estava tentando se explicar pra Lucius. – E eu te acho um gostoso. E eu estou te chamando para dormir na casa dos meus pais, que é meio arriscado, mas dá para pelo menos para dar uns amassos e dormir de conchinha, ou mais, se eles não estiverem em casa.<br />
<br />
Claro que teve que parar para pensar bastante antes de ter qualquer vaga ideia de como seria explicar aquilo em língua de sinais, afinal, nunca tinha usado isso para flertar com ninguém. O resultado foi uma série de sinais muito desconjuntados, embora a fala fosse bem completa.<br />
<br />
- Só não quero que ache que é obrigado, sabe? Você não parece o tipo que transa num primeiro encontro, e longe de mim te pressionar a isso só porque somos amigos. Estou fazendo suas rotas de fuga e lhe dando escolhas. – explicou, pensando que provavelmente estava satisfeito com sua explicação. Então aproximou-se um pouco de Lucius, roubando-lhe um beijo breve. – E aí? Me conte seus limites e eu te digo quão rápido eu consigo chamar um táxi.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
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Apreciou o esforço de Marion ao tentar manter a comunicação através dos sinais ainda que ficasse atrapalhado com as palavras. Continuou encarando o outro ao ser elogiado e permaneceu sério diante da afirmação do outro sobre ser gay, aquela risada dele não fazendo sentido para sua pessoa, enquanto ouvia o amigo falar sobre um assunto que julgava ser mais pessoal. <br />
<br />
Ficou levemente surpreso quando ele revelou os próprios planos, expectativas, de poder lhe dar uns “amassos” e dormir de conchinha. Apesar do nervosismo do outro, ainda conseguia ler os lábios dele com facilidade. Ouviu todo o discurso sobre suas “rotas de fuga” e opções, a declaração do amigo de que não queria lhe obrigar a nada lhe deixando com um calafrio esquisito no estômago, um do tipo agradável. <br />
<br />
Não rejeitou o beijo breve e, ao ouvir a pergunta sobre seus limites, baixou o olhar por um instante. Era estranho ouvir aquelas palavras na voz de alguém que parecia se preocupar com seu bem estar. Sorriu discretamente com o canto dos lábios antes de voltar a encarar o rapaz, sinalizando: Você e eu… podemos tomar um banho antes? <br />
<br />
Perguntou de forma sugestiva como se aquela condição fosse um de seus limites. E de fato era. Detestava pensar na ideia de ter o amigo lhe tocando sobre a pele suada de toda aquela saída para dançarem. O outro também já havia visto boa parte de seu corpo na visita à tatuadora, mas não julgava estar quite com ele, pois apesar de já ter visto muitos vídeos do dançarino nas redes sociais, não tinha uma ideia clara do físico alheio. - E você… - cutucou o outro em sinal para que ele prestasse atenção. - … não pode usar o celular. <br />
<br />
Achou melhor deixar aquela questão clara, como Marion estava sendo claro com ele. Sabia que o moreno era socialmente ativo virtualmente, mas não tinha segurança em conseguir se expor nas mídias sociais, mesmo que fosse uma única foto com o outro. Imaginava que se tirassem alguma foto juntos, mesmo que não fosse em uma situação mais íntima, e o amigo postasse em suas mídias sociais, teria que lidar com um tipo de atenção indesejada. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
Esperou uma reação de Lucius. Ele de fato era muito sério, nem para rir da sua piada sobre sair do armário. Mas o fato dele ser sério apenas ressaltou o pequeno sorriso quando terminou de questionar os interesses dele, lhe enchendo de uma breve esperança que ele iria aceitar seu convite. Não que duvidasse necessariamente que era um bom convite. Só não sabia se Lucius tinha interesse em ir tão longe.<br />
<br />
A resposta de Lucius – na verdade a proposta – era que tomassem banho primeiro. Abriu um sorriso largo, afirmando com a cabeça prontamente. Estava suado, e o amigo também. Embora não ligasse muito para essas coisas, desde que ninguém estivesse mal cheiroso de fato, podia respeitar um homem que gostava de limpeza.<br />
<br />
A outra condição era que não usasse o celular. Ergueu as sobrancelhas com a ideia de que usaria o celular em um momento íntimo, mas imaginou que se ele não era muito fã da ideia de se expor, talvez o celular aumentasse o pavor dele da saída casual. Isso ou Lucius tinha tido uma péssima experiência com uma sex tape.<br />
<br />
- Eu posso te garantir um banho longo, atenção total sem nem pensar nas notificações do celular, meu corpo todo pra você e um lençol quentinho. – garantiu com um sorriso leve no rosto, e um ar de um pouco mais de seriedade enquanto sinalizava também para reforçar o que estava dizendo a Lucius. – E o que surgir no meio do caminho a gente negocia.<br />
<br />
Puxou o moreno mais uma vez em sua direção, roubando um beijo longo dele, e então, pegando-o pela mão para que fossem arrumar o prometido táxi muito rápido como tinha dito. E Marion não demorou a cumprir a promessa, pagando o táxi no caminho para a casa dos seus pais.<br />
<br />
Seus pais moravam numa área rica. Apesar da casa não ser uma mansão, era grande o suficiente para ter piscina, uma bela cerca viva e janelas grandes. Deu uma olhada na entrada da garagem para ver se o carro estava lá, o que era certo, considerando a hora e a ausência de peças interessantes no teatro. Nem perdeu tempo fazendo um sinal de silêncio para Lucius, tirando a chave do bolso e segurando no moletom para que não fizesse muito barulho. Olhou para dentro como um ladrão tentando roubar uma galeria de arte, e entrou a passos delicados, fechando a porta atrás de si. Chamou Lucius pela sala, conseguindo ouvir o ronco distante do seu pai no silêncio aquela hora, e então passou para longe das escadas, atravessando duas salas até chegar em um quarto grande e arrumado que era suíte.<br />
<br />
- É o quarto de visitas. Mas eu troquei pelo quarto lá de cima porque é mais fácil pular a janela desse. – riu, cochichando enquanto abria a porta, trancando quando Lucius passou por ela, para garantir que não seria atrapalhado. Então tirou o moletom, largando no cesto de roupas perto da porta, abrindo a porta do banheiro enquanto tirava a calça. – Me acompanha?<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
<br />
Duvidava que o amigo fosse capaz de fazer algo que pudesse lhe assustar, justamente por considerar que Marion era uma boa pessoa, de humor bem mais leve que o seu. Não era exatamente com as notificações do celular com o que estava preocupado, mas acreditava que Marion tinha captado o sentido de sua preocupação. Terminou correspondendo o gesto do outro, beijando-o de volta, sempre com os olhos semicerrados, acompanhando o processo que antecedeu a viagem pelo táxi para a residência do amigo. <br />
<br />
Assim que foram se aproximando da casa de Marion, fez algumas notas mentais sobre o espaço onde ele vivia. O lugar parecia ter sido retirado de um daqueles sets de filmagem de filmes adolescentes com protagonistas de famílias com dinheiro. Verificou o modelo do veículo parado na viagem e adicionou novos cifrões a sua conta mental. Só para cuidar daquele lugar, deveriam trabalhar com alguns empregados, alguém para ajudar com a faxina e alguém para limpar a piscina. Perguntou-se mentalmente se não conseguiria alguns trocados se oferecendo para aquele tipo de serviço. <br />
<br />
Arqueou a sobrancelha com o sinal de silêncio de Marion, como se fosse algum tipo de piada de mau gosto consigo. Estava acostumado a se mover sem fazer nenhum ruído para não incomodar terceiros. E, de longe, percebeu que havia outras pessoas na residência. Estranhou a falta de preocupação dos moradores e, provavelmente, os pais de Marion, com a chegada do filho naquele horário da noite sem aviso. Eles poderiam ser facilmente roubados. <br />
<br />
Ao chegarem no quarto, observou o ambiente em meio a penumbra e ficou incrédulo quanto aquele ser o quarto de visitas. Era grande o bastante para só o amigo morar ali. Concluiu, previamente, que toda aquela vida facilitava o bom humor de Marion e o fato dele parecer tão despreocupado com o que estavam prestes a fazer. Observou o rapaz já na porta do banheiro, sem parecer impressionado com o convite, e começou a se despir, removendo as peças e dobrando-as com cuidado, deixando todas separadas com seu celular e carteira. <br />
<br />
O corpo moreno era bem delineado pelos músculos do abdômen, coxas e braços, o porte atlético de quem gostava de praticar esportes era evidente, ainda que na pouca luz. Como ele tinha trancado a porta, não se preocupou com a nudez, apesar de ainda estar usando a boxer preta, esperando ser apresentado ao banheiro do amigo. Imaginava que o lugar era proporcional ao resto da casa e era grande o bastante para ambos. Estava curioso para saber quais eram os produtos que Marion gostava de usar também. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
O bom de Lucius era que pelo visto sua timidez era mais ligada ao fato de se expor. No Capitol, ele parecia infinitamente preocupado com toda a situação de estar “nos pegas” com outro cara, e pareceu desconfortável com a ideia de ser visto por Bil (embora se pensasse bem, também ficaria constrangido considerando o quão intrometido Bil era). Agora, em seu quarto, ele tinha feito apenas um passar rápido de chave e Lucius já se prontificou a tirar as roupas, deixando-as de modo organizado no quarto.<br />
<br />
Fez questão de observá-lo por cima do ombro. Ele era um pouco mais baixo, mas nada gritante, porém tinha o porte de quem praticava esportes e a tatuagem lhe deixava com uma impressão diferente, mesmo incompleta. Ele parecia sério – na verdade, ele ERA sério –, mas naquela situação não hesitou em pontuar na sua mente “sério E gostoso”. Nem percebeu quando levou o indicador ao lábio, admirando indiscretamente.<br />
<br />
Marion não estava longe do mesmo porte atlético, dançava desde que se entendia por gente, então tinha o corpo todo forte, embora não fosse um monte de músculos. As divisões do abdômen apareciam fácil com o movimento, e bem sabia que o piercing em seu umbigo chamava a atenção justo para eles. Mas a pequena tatuagem delicada no ombro certamente contrastava sua imagem e de Lucius ainda mais.<br />
<br />
- Ah, esqueci de perguntar. – falou, se desfazendo da roupa de baixo e jogando no cesto também. Tinha orgulho do bumbum pequeno e durinho, Lucius podia olhar à vontade. – Banho completo primeiro ou posso te ajudar a se lavar? O box tem espaço o suficiente para dois. – falou, indicando o banheiro com um gesto convidativo. O lugar era grande o suficiente e estava bem limpo. Não tinha nenhuma banheira, mas tinha prateleiras organizadas, gabinete para banheiro com um espelho imenso e um box de vidro com espaço para caber duas pessoas tranquilamente. Toalhas estavam enroladas cuidadosamente sobre o gabinete. Claramente Marion não voltava para casa com frequência, porque tudo estava arrumado pronto para receber uma visita.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
Naquela manhã tinha encontrado com Lucius para acompanhá-lo em uma aventura no tatuador. Tinha sido interessante ver que ele era um sujeito muito mais alternativo do que esperava, e claro, era bom estender o convite da manhã para sair com ele mais uma vez, dessa vez em um ambiente mais familiar a Marion: um clube. Como tinha dito pela manhã, passaria a noite no The Capitol com uns amigos, e se precisasse, poderia dormir na casa dos seus pais ou quem sabe desse sorte com Lucius. <br />
<br />
Enviou uma mensagem para ele enquanto estava encostado em um muro próximo da boate muito conhecida em Cerise. A música era alta o suficiente para que o som vazasse um pouco para o lado de fora, e Marion já tinha cumprimentado alguns conhecidos do clube, e certamente não passava despercebido usando uma camiseta e calça jogger beges com detalhes pequenos em verde, e um tênis branco blocudo. Queria poder dançar a noite toda.<br />
<br />
“Estou na frente do The Capitol. Olha aí a localização <img src="http://academiastclavier.com.br/images/smilies/wink.png" alt="Wink" title="Wink" class="smilie smilie_2" />”, deixou na mensagem, enviando junto a localização do clube. “Ah, e não se preocupa pra entrar. É por minha conta que eu que chamei. Mas venha de sapatos confortáveis, a gente vai dançar muito!”<br />
<br />
Acabou rindo sozinho, o que chamou a atenção de um par de meninas da fila, que ele graciosamente dispensou muito rápido. Podiam ser dois garotos bonitos, não reclamaria. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
<br />
Depois de voltar para St. Clavier, tomar um banho e trocar de roupa, passou o resto da tarde organizando seu orçamento e cronograma de estudo, trocando mensagens em alguns momentos com sua psicóloga online. Havia prometido a Marion que sairia com ele durante a noite para um clube e ainda que a oferta lhe deixasse um tanto quanto desconfortável por ser uma experiência nova, acabou concordando em aceitar o convite em gratidão pela companhia do sujeito em lhe acompanhar pela tarde e, principalmente, por ser uma oportunidade de conseguir socializar novamente. Caso se sentisse muito desconfortável, poderia chamar um uber e voltar para o dormitório dos alunos. <br />
<br />
Se arrumou com uma opção de roupa que fosse despojada. Não levou bolsa dessa vez, guardou o celular e a carteira com os documentos dentro de sua jaqueta, tomando o cuidado em deixar pelo menos sua psicóloga ciente de onde iria naquela noite. Apesar de saber da mulher não ter a função de ser sua responsável, gostava de pensar nela como uma amiga, ainda que soubesse que, no fundo, ela não era exatamente aquilo. Enviou mensagem para sua mãe em Paris, certificando-a de que já havia conhecido um sujeito agradável que tinha lhe convidado para sair. Não se preocupava em fazer as coisas sozinho, mas era confortável a ideia de dar satisfação a alguém que se importava consigo sobre o que estava acontecendo. <br />
<br />
Como ainda não sabia exatamente como chegar no devido lugar através do meio de transporte local, demorou alguns minutos até que conseguiu chegar na frente do tal The Capitol. Durante o trajeto, tomou o cuidado de informar ao amigo sobre o motivo de seu atraso. Avistou Marion não muito distante após atravessar a rua, o traje do sujeito ajudando-o a se destacar facilmente na multidão. Acenou ao se aproximar, sibilando um pedido de desculpas enquanto gesticulava com as mãos. <br />
<br />
Desculpe. Seus amigos esperaram muito? Resolveu perguntar, notando a quantidade de pessoas que já se formavam na fila. Pelo menos havia se certificado de usar um bom desodorante, sempre estava com um perfume agradável de fragrância amadeirada, não lhe agradava a ideia de estar sem um bom odor. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
Quando Marion viu Lucius ao longe, acenou de forma animada e amigável para o moreno, notando como ele estava arrumado, e certamente não deixando de notar o perfume gostoso quando ele se aproximou, ao que teve o descaramento de se curvar na direção dele e dar uma tragada breve ainda de uma distância e abrir um sorriso largo.<br />
<br />
- Não se preocupa com meus amigos, não. Eles estão bem acompanhados. Quer dizer, eu também, agora né? – Marion comentou com um ar confiante, dando um par de tapinhas amigáveis em Lucius. – Olha como você é bonito! – riu, chamando-o com a mão e um maneio de cabeça para que fossem até a fila. – Meus amigos já entraram. Mas eu só saio com eles para dançar então... não é como se fossem sentir minha falta.<br />
<br />
Deixou bem explicado que Lucius era provavelmente a única pessoa que ele esperaria naquela situação, deixando a fila andar para que pudesse finalmente chegar a vez dos dois de receber pulseiras e entrar no clube aquela noite.<br />
<br />
- O que quer pra beber? – perguntou a Lucius antes que entrassem, porque a música dentro do Capitol era mesmo muito alta. Bastou que abrissem a porta para que ficasse claro que o lugar era feito apenas para festejar, pois havia pontos muito escuros, um bar muito iluminado e dançarinos fazendo bonito sobre plataformas. – Só pra avisar, nada de bala. A galera que vende aqui é muito suspeita!<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
<br />
Ficou surpreso por um instante com a aproximação do amigo, ainda mais quando ele fez questão de lhe cheirar. Encarou o sorriso do outro ao ser elogiado quanto a sua própria aparência, fazendo um breve sinal em agradecimento pelas palavras dele. Achou estranho por um momento ele tratar outros como amigos apenas para dança, mas não era como se tivesse muitos amigos para fins de comparação. Entrou com Marion ao receber a pulseira, contente pelo outro saber o suficiente sobre linguagem de sinais para se comunicarem no meio daquela música alta. Aproximou-se do amigo para ouvir o conselho dele sobre bala e concordou brevemente. Definitivamente não queria fazer uso de nenhuma droga. <br />
<br />
Água. - sinalizou. Não fazia ideia de quanto custava a bebida ali e também não queria gastar muito. Gostava de opções de diversão que fossem mais baratas e havia seguido até ali para dançar e, principalmente, assistir o amigo dançando ao vivo. Não estava mentindo quando disse ao sujeito que ele tinha habilidade com a performance corporal. Já havia assistido alguns vídeos dele online e, de fato, era um bom entretenimento assistir o outro dançar. Não que não soubesse sobre ritmo e musicalidade, mas era algo distinto tocar uma música no piano ou no violão e interpretá-la com seu próprio corpo. <br />
<br />
Observou as pessoas ao redor, o olhar de um brilho mais âmbar em meio a iluminação mais forte do bar destacando seu rosto de pele morena em meio aos fios escuros do cabelo com alguns fios fora do lugar pela correria que havia sido até chegar ali. Moveu os dedos longos sobre a mesa do bar como se facilmente acompanhasse a batida do ritmo da música mais animada, ignorando os olhares estranhos em sua direção. Certamente que, sendo alguém novo na cidade, poderia ser uma atração diferente, mas preferia muito mais uma única companhia a ser o centro das atenções. <br />
<br />
O que vai beber? É muito caro? - perguntou ao amigo ao lado, sinalizando-o de forma discreta, movendo os lábios para que ele pudesse entender de forma mais clara e para não demonstrar a estranhos que era mudo ali. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
Marion abriu um sorriso satisfeito com a resposta de Lucius sobre o que queria beber e fez o pedido no bar, sendo atendido rapidamente. Imaginou que ele era o tipo bem comportado, mas depois de ver a tatuagem, talvez tivesse um lado mais solto dele. Mas considerando que mal se conheciam, talvez ele se reservasse o direito e permanecer sóbrio. Quem sabe com o passar da noite ele não se sentia mais confortável?<br />
<br />
De todo modo, era bom ser acompanhado de um homem bonito como Lucius. Se a beleza dele já tinha lhe chamado atenção na casualidade do dia a dia, vê-lo arrumado e iluminado pelas diferentes luzes do clube eram quase um presente. Não demorou quase nada para notar que ele atraía bastante a atenção ao redor, e até podia ver as moças que tinha dispensado antes passando e olhando para ele.<br />
<br />
Retomou a atenção para Lucius quando ele perguntou o que iria beber, e aproximou-se dele, ficando perto o suficiente para que trocassem sinais sem se atrapalharem.<br />
<br />
- Nada ainda. – respondeu, sinalizando também para não ter que levantar a voz. – Na verdade eu quase não bebo quando saio. Às vezes vodka. Mas prefiro dançar muito. E aí na saída tomo alguma coisa ou fumo... depende do DJ. – riu, ouvindo a batida ficar mais agitada em uma música conhecida que estava tocando na rádio por aqueles dias. Não resistiu mexer ombros e pescoço, apreciando o ritmo. – Você vai dançar comigo, não-<br />
<br />
- Marion! – Um rapaz alto de moletom e barbicha deu um tapa no ombro do moreno. – Achei que não ia vir! Deixa de flerte barato e vamos lá pra frente! O Kir vai tocar! – ele falou animado, praticamente puxando Marion pela roupa.<br />
<br />
- Espera, espera, Henri! Esse aqui é um amigo meu, não vou deixar ele sozinho! – Marion protestou. – Lucius, Henri. Henri, Lucius.<br />
<br />
- Ele dança? – Henri questionou, e então olhou pra Lucius com a sobrancelha arqueada. – Você dança?<br />
<br />
- Ah, Henri! O Lucius não fala, entã-<br />
<br />
- Eu não quero saber se o seu casinho não fala, eu quero saber se ele dança! – Henri mostrou ambas as mãos como se estivesse falando o óbvio. – E aí, Lucius? Shuffling? Locking? Poppin’? Macarena?<br />
<br />
O recém-chegado citou cada estilo, fazendo um breve freestyle no trechinho da música alta que estava tocando, até mesmo sensualizando Macarena no ritmo da batida, e embora Marion estivesse um tanto confuso, foi impossível não abrir um sorriso para o conhecido e se juntar na Macarena, o que animou Henri, que seguiu sozinho na dança. Então Marion olhou pro amigo novo de St. Clavier e coçou a nuca com um riso desconcertado.<br />
<br />
- [Desculpa]. – sinalizou para que o outro não ouvisse.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
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Ouviu a resposta de Marion e aproveitou a aproximação do atendente do bar para pedir uma garrafa de água, movendo os lábios e contando com o entendimento do outro ao apontar para a garrafa de água mais próxima do balcão. Não deu atenção para os olhares curiosos em sua figura, apesar de não deixar de notar cada um deles. Estava ali para se divertir a convite de um amigo. Observou os movimentos de Marion e não deixou de esboçar um sorriso com o canto dos lábios, divertindo-se com a desenvoltura dele, a personalidade mais leve e alegre lhe fazia pensar naquele momento como um encontro mais simples, afastando seus pensamentos dos problemas do dia a dia. <br />
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Acabou sendo pego de surpresa pela presença de um estranho, alto de barbicha, que parecia em um estado de urgência para levar Marion para um lugar onde aparentemente um tal de Kir estava tocando. Poderia não escutar com muita clareza em meio a todo aquele burburinho de pessoas e música agitada, mas tinha uma ótima capacidade visual em ler lábios. Gesticulou brevemente para Henri, cumprimentando-o com um sorriso educado. Ignorou a parte sobre ser um “casinho” de Marion e passou a prestar atenção nas sugestões de ritmos específicos que já havia visto em algumas descrições de vídeos que já havia assistido do recente amigo. Riu discreto com a tentativa de sensualização com a clássica macarena e acabou concordando, afirmando com a cabeça positivamente sobre saber dançar. Pegou e pagou pela garrafa de água, aproximando-se de Henri para poder segui-lo. Fez uma menção com a cabeça, chamando por Marion. <br />
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Não precisa se desculpar. Eu sei dançar. Só não danço tão bem quanto você. - respondeu ao outro, sinalizando rapidamente, esperando que ele pudesse compreender o que estava dizendo. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
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Apesar do momento levemente desconfortável que imaginava ter feito Lucius passar com Henri, no momento em que ele respondeu finalmente o questionamento de seu amigo de festa, a resposta lhe deixou de orelhas em pé e muito mais animado. Então ele dançava! Abriu um sorriso largo quando o moreno explicou que ele sabia dançar, mas não era tão bom quanto Marion. O seguiu animado enquanto iam na direção do barulho do meio da boate, onde a música ficava ainda mais alta.<br />
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- Bom, não importa quem dança melhor. Importa se você dança comigo! E então? – Marion perguntou, ajudando com os gestos enquanto seguiam pela boate, afinal, a música podia ser insuportável de vez em quando.<br />
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Henri estava junto com outros dois rapazes quando chegaram. Um deles parecia ser apenas um pouco mais novo que o grupo, parecia muito devagar e relaxado, o que era um imenso contraste com a energia do segundo sujeito, um rapaz com o cabelo quase todo raspado e incontáveis tatuagens nas mãos e braços e que dançava freneticamente sem parar um único instante.<br />
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- Marioooooon! Maaaariiii! Mamaaaaaa! – o rapaz que estava dançando freneticamente correu para dar um abraço no moreno, e então olhou para Lucius com um sorriso de orelha a orelha. – Você é muito lindo, está solteiro?? Vamos dançar! – ele voltou a dançar ao redor de todo mundo, mudando entre shuffling e uma imitação fajuta de galinha. – Ó o drop!!<br />
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- Quem é seu amigo? – o sujeito mais relaxado perguntou, tão na paz que nem parecia que tinha tanto barulho ao redor. – Oi, tudo bem? Hugo. E aquele maluco é o Bil. O Henri você já conheceu, né? – perguntou, estendendo a mão para Lucius.<br />
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- Que foi que ele tomou? – Marion perguntou com uma sobrancelha arqueada.<br />
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- Nem pergunte. – Hugo olhou para trás um instante para ver se Bil estava vivo no meio da multidão. Mas ele estava mais vivo que a pequena multidão toda.<br />
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- Ah, Lucius, Kir é um amigo do Bil e do Henri, ele é Dj. Aquele cara que está subindo no palco e conectando o equipamento. – Lucius apontou, ouvindo enquanto a música mudava quase que imperceptível para outro remix e a iluminação acompanhava o ritmo, e o outro Dj tomava o lugar. Bil tinha ido assobiar e aplaudir quase na frente do palco enquanto um remix de 7/11 começava a tocar. – Me mostra o que você sabe, Lucius?<br />
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Marion começou a bater palmas devagar no ritmo da música, e então começou a acompanhar o ritmo devagar com os ombros e o corpo. Os amigos dele não foram tão devagar, e não levaram mais que a introdução da música para começar a dançar também, empolgados no mundo deles, tanto quanto Marion estava ficando gradualmente mais empolgado com a ideia de dançar com Lucius.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
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Apenas lançou um olhar interessado para o amigo que lhe convidada para dançar, permanecendo quieto enquanto seguiam o amigo dele para que conhecesse o restante de rapazes daquele grupo. Gostou de conhecer o tal de Hugo. Ele lhe passava uma tranquilidade e uma atmosfera mais amistosa ao seu gosto que o sujeito, com o que imaginava ser um apelido, Bil. Sorriu com o canto dos lábios ao ser elogiado pelo tal de Bil, mas escolheu ignorar a pergunta dele sobre estar “solteiro”. Estendeu a mão de volta para Hugo, cumprimentando-o em silêncio antes de sinalizar para ele, passando suas mãos uma sobre a outra, aproximando os indicadores e apontando para o mais tranquilo na linguagem de sinais. <br />
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Prazer em conhecer você. - ergueu o olhar para observar o local onde o tal Kir, amigo DJ do grupo, deveria começar a tocar. Sorriu mais abertamente ao notar como aquelas pessoas estavam mais relaxadas no espaço da boate, dançando em meio a outras pessoas sem se preocuparem em serem julgados. Aos seus olhos, eles nem precisavam se preocupar, até mesmo o engraçado Bil imitador de galinhas possuía uma boa desenvoltura com o próprio corpo. <br />
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Voltou novamente sua atenção para Marion, o amigo parecia ainda estar entrando em um ritmo confortável. Lembrou dos vídeos dele e como ele parecia livre e empolgado com a apresentação dos próprios movimentos ao ritmo da música mais popular, ainda que nem todos os ritmos que ele fosse capaz de usar fossem frenéticos. A batida que tomava o The Capitol não era estranha aos seus ouvidos, já havia escutado aquela música em outro ritmo no celular, em vídeos e em playlists aleatórias enquanto buscava distração após passar do seu horário estudando música. Podia ser do tipo reservado, não isso não significava que não se sentisse mais confortável na companhia de um amigo como Marion, que até o presente momento havia se mostrado um sujeito divertido e leve. <br />
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Suspirou, relaxando os ombros para começar a seguir os movimentos do outro. Como estavam em uma boate, não era estranho estar dançando, ainda que não fosse nenhum profissional naquilo como o sujeito parecia ser. Lembrava que alguns passos dele nos vídeos e, para sua sorte, possuía um bom jogo de cintura e flexibilidade para se mover ao ritmo da batida do DJ. Baixou o olhar para acompanhar os passos do moreno, ficando a frente dele. Passou a mão pelos fios escuros do próprio cabelo ao erguer a cabeça para encarar Marion, esboçando um sorriso mais confiante por estar ali.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
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Apesar de Marion achar que Lucius demoraria mais tempo para se sentir à vontade para dançar com eles, considerando que havia uma boa parte dos visitantes que estava ali só para beber, ele foi bem rápido em se jogar, o que lhe animou ainda mais. Hugo e Henri, que ainda dançavam perto dos dois, também se animaram com o novo companheiro de dança, enquanto Bil parecia dar voltas no lugar inteiro, parecendo mais uma pipoca saindo da panela que um dançarino como os amigos.<br />
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- Fiuuu! Ele dança! – Henri gritou animado, sacudindo os braços para o alto enquanto começava outra música.<br />
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- Mesmo se não dançasse, o importante é se divertir, não? – Hugo respondeu, dando um tapinha no amigo e fazendo shuffling ao redor dele com a calma de um monge budista.<br />
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- Isso aí, Hugo! – Marion e Hugo bateram as mãos, e como se fosse um sinal idiota, Marion começou a fazer shuffling e Hugo mudou o estilo de dança. O aluno de St. Clavier virou novamente para Lucius, aproveitando que tinha sido ele mesmo quem tinha decidido dançar ao seu redor. Tinha que admitir, claro, Lucius era muito bonito, ele tinha ciência disso, e cada movimento que ele fazia lhe mandava sinais mistos se ele tinha interesse ou não em algo além de amizade. Marion até pegou a mão de Lucius para dançarem juntos, brincando com o amigo sem invadir demais o espaço dele. – Sabe dançar o suficiente pra essa jogada de cabelo me dar um nervoso, ein! – riu, soltando o outro em seguida.<br />
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A playlist do DJ Kir era super animada, e pelo jeito que o grupo dançava, eles não parariam até a madrugada ou o clube fechar. Cada um até parou para mostrar habilidades individuais, com todos abrindo espaço para Bil fazer break, Henri mostrar que era excelente de Locking e Hugo surpreender com as caras e bocas enquanto fazia twerking ao som de “Get Low”. Também não deixaram de incluir Lucius sempre, silenciosamente ensinando a ele como dançar o refrão de “Lean On” com todos eles, e algumas pessoas no Capitol que acharam o grupo agitado no mínimo chamativo.<br />
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Quando o DJ encerrou a setlist e outra pessoa entrou no lugar dele com um som menos agitado, Marion estava pingando de suor e rezando para não aparecer demais na roupa bege.<br />
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- Wheeeew! Estou morto! – fingiu um desmaio, jogando quase o corpo todo pra trás antes de voltar. – Isso foi muito bom! – deu um tapinha amigável em Lucius. – Água? Pra dois? Tipo, água pra dois pra cada um de nós, que acha? – riu, parecendo um ser humano muito animado com o rosto vermelho de fazer exercícios. E Bil seguia dançando. – O que achou??<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
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Não se incomodou com a aproximação dos amigos de Marion ao seu redor. Eles pareciam leves e divertidos, mas em nenhum momento invadiram seu espaço ou lhe deixaram desconfortável. Contudo, não conseguiu ignorar o toque alheio em sua mão, ainda que por um período curto de tempo. Talvez fosse pelo fato de usar muito de suas mãos para tocar piano ou para sinalizar, mas o gesto lhe fez prestar um pouco mais de atenção no semblante do amigo que havia lhe convidado até ali. O jeito engraçado do sujeito, misturado à aproximação “inocente” do mesmo lhe deixavam mais na defensiva, por não estar habituado àquele tipo de sinais incertos. No final das contas, ele poderia muito bem estar levando tudo na brincadeira e não queria ser o amigo que estragava tudo ao raciocinar demais naquela situação. <br />
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Esboçou um sorriso comercial e educado, compartilhando do momento de brincadeiras e de passinhos ridículos, aceitando a oferta de aprender com os amigos de Marion, não se importando de tentar imitar o passo deles. <br />
Concordou com um aceno positivo sobre a água, removendo a jaqueta que estava usando no processo, revelando os braços e a tatuagem que Marion já tinha conhecimento. Amarrou a peça na cintura e passou as duas mãos pelo próprio pescoço, sentindo como também estava suado, os fios escuros mais compridos colados na pele de sua nuca. Aproximou-se de Marion, tocando-lhe o ombro para lhe chamar a atenção antes de sinalizar: Onde fica o banheiro? Encarou o amigo, esperando que ele pudesse lhe dar indicações de qual direção seguir, a água lhe faria muito bem depois que pudesse se livrar um pouco daquele suor. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
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Lucius lhe passava uma imagem bem fechada. Talvez fosse porque era um extrovertido natural, e completamente “aparecido” comparado com ele (era até bem mais agitado que o resto do grupo, até mesmo Bil, que certamente estava sob influência de alguma coisa). Ao menos ele se sentia confortável com seus amigos, talvez por eles serem mais respeitosos sobre o espaço alheio.<br />
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Quando finalmente pararam de dançar, o fato de Lucius parecer só cansado e ainda se manter distante, e pior, sequer lhe responder se tinha gostado lhe deu bem a entender que diferente dos menininhos fáceis que encontrava em St. Clavier, o moreno não tinha interesse nenhum em sair dali “acompanhado”. Bom, ao menos ele era interessante e parecia ser boa gente. Bem queria liberdade para tocar na nuca suada dele, mas podia se contentar em dividir uma água e dançar mais um pouco. Até Marion sabia quando parar.<br />
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Ergueu as sobrancelhas quando ele disse que queria ir ao banheiro. O Capitol não era como muitos bares esquisitos nos quais já tinha se metido, mas se perguntou se estaria tudo bem deixar ele ir sozinho.<br />
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- Naquela direção, logo depois do bar à esquerda. – Marion indicou, sinalizando também por conta da música alta. Arqueou a sobrancelha. – Quer que eu vá com você até a porta? – não deveria ter mal em perguntar. Ainda mais sem nenhum tom de malícia. – Não que seja esquisito por aqui, geralmente. Mas sei lá, por segurança.  <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
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Observou melhor a localização da indicação do banheiro e já estava pronto para seguir após agradecer, quando se deu conta da oferta de companhia do outro para lhe acompanhar. Não costumava ter companhia alguma ao ir ao banheiro e até gostava bastante da privacidade, mas diante do comportamento alheio e do local ser desconhecido, acreditou que a decisão mais sensata era aceitar a companhia do então amigo. <br />
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Concordou com um aceno positivo de sua cabeça, deixando que ele mostrasse então o caminho para chegar ao tal banheiro. Assim que parou na porta, imaginou que deveria entrar sozinho, contudo, parou para observar melhor a situação do amigo, imaginando se ele também não estaria suado após dançar de uma forma tão animada, enérgica. Concluiu que ele não deveria se incomodar tanto com o próprio suor como ele, mas ainda assim ofereceu: <br />
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[Você pode entrar. Se quiser. Eu não me incomodo.] - disse para Marion antes de adentrar o banheiro, seguindo diretamente para a pia a fim de lavar as próprias mãos. <br />
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Suspirou ao se dar conta da sensação agradável da água fresca em suas mãos antes de lavar o próprio rosto. Ao erguer a face e se encarar no espelho, procurou com o olhar a presença de Marion no recinto. Fez uma pequena pausa antes de molhar as mãos novamente, passando os dedos então pela própria nuca como se quisesse se livrar do suor e da ideia de ter algum odor desagradável. Moveu a gola da camisa para que pudesse cheirar o tecido, a barra da peça subindo a ponto de seu abdômen ficar exposto. Terminou por largar o tecido da camisa, lavando as mãos mais uma vez antes de passar os dedos molhados pelo cabelo escuro, jogando-os para trás em uma tentativa de aliviar o calor pelo exercício realizado. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
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Guiou Lucius até o banheiro. Estava acostumado a esperar na porta pelos amigos ou entrar no banheiro para fins diversos, mas ser “convidado” a entrar foi uma novidade engraçada. Quase não resistiu arquear a sobrancelha para o moreno, afinal, não tinha sido uma ou duas vezes apenas que havia dado em cima dele. Porém, pelo visto, ou ele gostava de atiçar sua imaginação, ou era muito tonto.<br />
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De todo modo, Marion aproveitou para lavar o rosto também. Jogou um pouco de água, tirando o excesso com a mão para garantir que estava sóbrio (apesar de não ter bebido ou usado nada), porque cada gesto de Lucius parecia desenhado para lhe provocar gratuitamente, do jeito como ele molhava o cabelo para tirar o excesso de suor, até o jeito como ele levantava de leve a camisa no intuito de cheirá-la, deixando um pedacinho do abdômen exposto. Era um pouco respeitoso, mas amém, não era cego.<br />
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Pegou a manga do próprio moletom e aproveitou para enxugar o rosto, sabendo por experiência que o papel fino de enxugar as mãos era uma péssima opção.<br />
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- Bom, já vi que aqui está seguro. Então vou aproveitar pra sair, que se eu ficar olhando demais pra você, vai ficar perigoso pra mim aqui dentro. – Marion riu, movendo a mão como se banisse as ideias da cabeça. Ainda fingiu que iria sair e virou o rosto para Lucius, mexendo os dedinhos de forma esquisita. – E não fique sensualizando demais na frente do espelho. Reza a lenda que homem bonito no banheiro do Capitol pode ser encoxado pelo “Galegão do banheiro”, ein?? – ergueu as sobrancelhas de modo assustado, e depois saiu, fechando a porta atrás de si. Só não foi embora. Seria indelicado levar Lucius até lá e sair sem esperar por ele.  <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
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Estava mais aliviado com a sensação refrescante da água em sua pele antes suada. Marion ainda havia feito a gentileza de lhe acompanhar até ali, o que era agradável por estar em um lugar novo e desconhecido. Olhou para o amigo pelo espelho quando ele brincou sobre ali ser perigoso para ele. Observou o moreno por sobre o ombro, surpreso com as palavras dele sobre estar “sensualizando demais”. Acompanhou o sujeito com o olhar pelo reflexo do espelho, sentindo o rosto ruborizar com a ideia de que esteja sendo vulgar de alguma forma. <br />
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Não queria causar uma impressão errada em Marion ou nos amigos dele, então achou melhor desamarrar o casaco da própria cintura, vestindo de novo a peça para se sentir mais coberto. Demorou alguns minutos para sair do banheiro, mexendo no próprio celular. Verificou as mensagens trocadas anteriormente com a psicóloga sobre o próprio receio com aquele encontro até decidir sair do banheiro finalmente. <br />
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Ficou surpreso de novo ao encontrar o amigo lhe aguardando do lado de fora, mas acabou por esboçar um sorriso, mais calmo com a presença do outro. <br />
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Desculpe. Demorei muito? - perguntou, parando para observar melhor os arredores e se dar conta que a música voltava a ter uma batida mais animada. - Seus amigos devem estar esperando. Vamos encontrar com eles? - completou, dando espaço para que outros entrassem no banheiro. Queria poder ainda se divertir com Marion naquela noite e voltar para o dormitório quando ele quisesse também ir embora. Ou talvez o amigo fosse embora dali com outra pessoa. Entre as opções, não queria ser um empecilho para o recente amigo que lhe parecia ser uma boa pessoa, apesar dos comentários insinuantes. Julgava que tudo deveria ser uma brincadeira da parte do outro. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
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Quando Lucius finalmente saiu, novamente vestido com o casaco, arqueou de leve a sobrancelha. Será que ele estava com frio depois de ter molhado a nuca, ou será que seus comentários tinham incomodado? Deveria parar de investir, afinal, ele parecia não ter interesse em nada além de sua amizade e uma boa companhia para balada. Achava isso um desperdício, aliás, pois era um excelente partido para um coração partido.<br />
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- Não demorou, não. Vamos voltar. – no caminho, bebeu a água para dar uma esfriada no corpo, voltando para o grupo de amigos que estava entre dançar e já beber alguns drinks, ou ao menos Hugo estava tentando, com Bil agarrado em seu pescoço tentando roubar um gole do copo. – Ei, Bil! Você não pode beber!<br />
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- Ei, Mariiii...! Só um golinho, vai, deixa! – Bil berrou quando Marion ralhou com ele, soltando do pescoço do outro amigo para se agarrar em Marion. Ele olhou para Lucius em seguida. – Você parece um cara muuuito legal, compra vodka pra mim? Só uma batidinha? Eu te dou dinheiro, vai? – o rapaz puxou então a carteira do bolso e estendeu a Lucius, mas Marion rapidamente colocou a mão e a carteira de volta no bolso do dono.<br />
<br />
- Já vai começar com as ceninhas. Nem dê bola pra ele, que senão ele fica todo derretido em cima de você. – Henri riu, aproximando-se de Lucius e dando uma leve cotovelada de lado. – Um drink, Lucius? – ofereceu, mostrando uma garrafa de vodka barata.<br />
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- Eu queroooo! -Bil falou, agarrado ainda em Marion, esfregando o rosto nele. – Mama, me leva pra casa hoje~ Ninguém me deu uma dose, tô carente~<br />
<br />
- Hoje eu tô acompanhado, Bil. Vai com o Henri e o Kir, quando ele pegar o dinheiro da noite. – Marion então afagou a cabeça quase raspada do outro que se tremeu inteiro de propósito, e Marion não resistiu acariciar o outro abaixo do queixo, já rindo. – Na próxima venha sóbrio e aí te faço carinho até você ronronar, gatinho~<br />
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- Miau! – Bil berrou, e Marion agarrou ele e encheu de beijos pelo rosto, para entretenimento de Henri e Hugo, que caíram aos risos.<br />
<br />
- Ah! Lucius! Você vai voltar pro dormitório daqui? Sabe que tem toque de recolher né? – Marion falou, ainda fazendo cócegas em um Bil muito rendido. – Se quiser dormir comigo, fique a vontade. – piscou. – Quando digo comigo, digo na casa dos meus pais, que é pra onde eu vou daqui.  <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
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Aproveitou que o amigo estava bebendo água para pedir um pouco e beber também. Observou a aproximação mais íntima do amigo dele, pendurando-se no pescoço de Marion. Cerrou os lábios, desviando o olhar assim que o sujeito se dirigiu para sua pessoa, pedindo para que comprasse vodka para ele. Sorriu para Henri de forma discreta, acenando em negativa com a oferta da bebida. De fato, até gostaria de experimentar o que lhe era oferecido, mas sabia que devido a sua condição de saúde, não era possível. <br />
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Sorriu um pouco constrangido, encarando Marion pelo fato dele parecer ocupado em lhe manter companhia, enquanto os outros amigos dele queriam se divertir com o rapaz. Desviou o olhar por um momento, achando, no mínimo, curioso como o mais novo, Bil, parecia tão à vontade ao ponto de esfregar o próprio rosto contra o de Marion, sendo correspondido com aquelas carícias casuais. Se ocupou em beber um pouco mais de água, batendo o pé de leve ao ritmo da música do ambiente, entretido com a batida mais animada e empolgante. <br />
<br />
Quase se engasgou quando Marion lhe perguntou se iria voltar para o dormitório ou se dormiria com ele. Encarou o amigo pouco depois de verificar o horário da noite em seu celular, recordando do tal toque de recolher. Observou o tal de Bil nos braços do moreno e sorriu um pouco sem graça, sinalizando para Marion apenas com uma das mãos enquanto segurava a garrafa com água. <br />
<br />
Se não é problema para você. Eu agradeço. - respondeu, acenando novamente antes que percebesse a atenção do sujeito. - Mas você não quer sair com ele? - resolveu perguntar, incomodado com a ideia de estar atrapalhando a noite do moreno com os amigos de longa data do outro. - Eu posso chamar um carro e voltar. - avisou, ponderando que se saísse em tempo, conseguiria chegar em St. Clavier para dormir. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
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Acabou rindo descaradamente do engasgo de Lucius quando questionou se dormiriam juntos. Ao menos uma vez naquela noite tinha conseguido dar um direto de direita no moreno. Não era possível que nesse ponto das interações dos dois, ele não notasse seu interesse. Embora ele não parecesse igualmente interessado. Hugo e Henri pareciam notar que suas tentativas falhas não tinham surtido nenhum efeito, e os amigos até ergueram os copos para Marion em simpatia. Estar agarrado com Bil não estava ajudando sua conta.<br />
<br />
Arregalou os olhos quando Lucius perguntou se não preferia sair com o outro.<br />
<br />
- Eu? Não, não! Com certeza prefiro ir com você! – Marion respondeu, deixando Bil com uma carinha tristonha. – Você tem o Kir no seu coraçãozinho, eu só lhe encho de carinho porque você está um grude.<br />
<br />
- Mas ele não me dá bolaaaa~~ - Bil esperneou, sendo tirado de perto de Marion por Henri, puxado pela gola da camisa.<br />
<br />
- Vamos, vamos, você tá atrapalhando a chance do Marion... vamos dançar? Olha a batida! Tuts, tuts!<br />
<br />
E sem nem pensar duas vezes, o humor de Bil mudou da água pro vinho, e ele começou a dançar animado perto do grupo, sem preocupação alguma no mundo.<br />
<br />
- Não liga pra ele não, que quando o efeito passar, ele vai ficar todo deprê e com a cabeça toda bagunçada. A gente já conhece e dá conta do Bil. Não dispense a saída com o Marion só por causa dele. – Hugo aconselhou com paciência, dando um sorriso e uma cutucada amiga em Lucius.<br />
<br />
- Então dorme lá em casa! A gente pode dançar mais hoje a noite, e aí prometo que te dou uma toalha pra tomar um banho quente e te enrolo como um bom menino antes de dormir. Dou até um beijinho pra bons sonhos! – Marion riu, estendendo as duas mãos a frente e chamando Lucius para dançar já se mexendo no ritmo das músicas ainda mais animadas que o novo dj tocava.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
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Observou as reações do grupo de onde estava, acompanhou como, ao que tudo indicava, o tal de Bil tinha sentimentos pelo músico que se chamava Kir. Não tinha certeza se ele era músico de fato, mas entendia que ele era o responsável pelo que estava tocando enquanto dançavam. Aparentemente, o tal de Bil era muito carente de contato físico e, por isso, estava inclinado a ficar nos braços de Marion. Na verdade, depois que ele foi removido da companhia de Marion por Henri, imaginou se o rapaz não se importava qual fosse o amigo que o abraçasse. <br />
<br />
Concordou com um aceno positivo para Henri quando ele lhe recomendou não dispensar a saída com Marion. Olhou na direção de Marion, ouvindo as palavras dele e processando que o interesse dele parecia estar além de uma amizade convencional. Concluiu mentalmente que ele deveria gostar de garotos, recordando, então, dos comentários insinuantes dos amigos dele que agora conhecia pessoalmente nos vídeos do dançarino. <br />
<br />
Ficou na sua, aceitando a oferta da dança, segurando as mãos de Marion. Porém, prestou atenção na reação do outro ao, propositalmente, deslizar o indicador e o médio pelos pulsos dele ao aceitar o convite. Manteve um olhar mais atento sobre as reações do então amigo, tentando acompanhá-lo nos passos da dança, inutilmente, a julgar que ele era bem melhor que sua pessoa naquele quesito. Não era do tipo que tinha muita energia social para manter a mesma empolgação que Marion e seus amigos, contudo, estava contente por estar ali e poder observar, de forma presencial, os corpos que se moviam ao ritmo animado. Tentou recordar da energia na quadra de basquete e em como a adrenalina da competição fazia com que se concentrasse e melhorasse seus reflexos. <br />
<br />
Você vai me beijar? - sinalizou, encarando o outro, mais sério, considerando a “brincadeira” dele com o comentário sobre lhe colocar para dormir. Preferia ser direto, principalmente por ter confiado no outro a ponto de aceitar estar ali com ele e os amigos que até então não conhecia. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
Sabia que seus amigos tinham um ritmo diferente da maioria das pessoas, até o próprio Marion. Treinavam muito dança, e aquelas noites eram a chance de eles dançarem por mais hobby, socializarem, saírem com outras pessoas ou entre eles mesmos, mas Lucius parecia estar aguentando bem o tranco que era estar naquele grupo. Por isso queria dançar mais com ele, afinal, era seu convidado. Se o abandonasse para dançar com os outros não faria sentido.<br />
<br />
Sentiu um toque diferente no seu pulso quando Lucius tomou suas mãos, e então olhou para o gesto do rapaz e abriu um sorriso. Não sabia se ele tinha feito de propósito ou se tinha percebido o próprio gesto singelo. Mas já tinha sido rejeitado de tantas formas diferentes que ignorou o toque, apenas puxando o amigo para mais uma maratona de dança, com todos os movimentos que podia ensinar a ele, do shuffling a dança da minhoca tonta. Não importava muito se estavam bonitos dançando. O que fazia diferença para Marion era se ele estava se divertindo.<br />
<br />
Virou para Lucius, notando que ele estava já “perdendo a bateria” do começo da noite, e observou os gestos dele para si, até parando de mexer os pés por um breve segundo. Apesar de ficar inicialmente confuso, Marion abriu um sorriso amplo, e então estendeu as mãos para as de Lucius, trazendo-o mais para perto. Encarou-o direto, um pouco mais quieto e então arqueou uma das sobrancelhas.<br />
<br />
- Se você quiser. Quando você quiser. – deixou bem claro, para ter certeza que Lucius não estava aceitando só pela sua insistência e pela dos seus amigos. Então riu, sinalizando para ajudar a compreensão com o volume da música ficando subitamente mais alto. – Eu até diria “onde” você quiser, mas eu te beijaria inteiro, sabe?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
<br />
Esperava apenas uma resposta, mas foi pego de surpresa pela atitude do mais alto ao lhe trazer para perto. Encarou o outro de volta, sem dificuldade de ler os lábios dele pela proximidade. Estava habituado a uma intimidade mais agressiva e menos educada que a de Marion, por isso ficou um tanto sem reação quando ele ainda sinalizou, indicando que poderia lhe beijar “inteiro”. Cerrou os lábios, sentindo um calafrio lhe descer até a barriga. <br />
<br />
Estendeu uma das mãos até o próprio rosto, permanecendo parado em meio a todas aquelas outras pessoas dançantes. Não prestou mais atenção nas pessoas e deslizou os dedos para a mão dele, segurando-a sem pressão. Virou o corpo, sinalizando para que ele viesse junto e saísse do meio daquelas pessoas, ainda que a música alta não lhe incomodasse.<br />
<br />
Olhou por cima do ombro, questionando-se um tanto incerto se o outro aceitaria se afastar dali com ele. Não era do tipo indiscreto. Na verdade, o tipo de intimidade que era acostumado a ter era sempre mais reservada. Respirou fundo, esperando que o outro não percebesse o tremor leve em seus dedos pela ansiedade de estar tomando aquele passo. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
A surpresa de Lucius com a sua resposta lhe deixou com um leve quê de incerteza. Achava que ele tinha finalmente respondido aos seus avanços, mas tinha mesmo? Talvez fosse mesmo um acidente, ou talvez ele quisesse chamar sua atenção para comunicar algo. Quanto mais Lucius demorava para reagir, mais ficava com a impressão de que tinha ido longe demais com a abordagem direta. Nem todo mundo era saído como ele e seus amigos e tudo bem se Lucius não fosse, mas também não era sua intenção assustar demais.<br />
<br />
Porém o toque delicado em sua mão e o sinal de que deveriam sair dali pôs um sorriso em seu rosto. Acenou discretamente para os rapazes na pista de dança e seguiu Lucius sem hesitar, notando como ele parava para ter certeza se estava seguindo para longe do barulho, para algum lugar mais discreto. Havia um leve tremor na mão dele, o que não achava animador. Começou a tecer mil teorias: será que na verdade Lucius era um cara hetero de mente aberta que agora queria experimentar, mas tinha medo do olhar dos outros? Será que na verdade ele estava no armário ainda? Achava o jeito dele lhe tirar dali um pouco inocente, considerando o quão direto tinha sido na abordagem. Ele estaria mais seguro de não ser devorado perto da luz.<br />
<br />
- Ei, Lucius! Lucius! – chamou o outro, notando que o lugar onde tinham ido estava bem mais vazio, quieto e escuro que o resto dos lugares. Pegou a mão do moreno, segurando os dedos levemente trêmulos, com a pose confiante e o sorriso bem humorado no rosto. – Você está tremendo. Respira... expira... – falou rindo, fazendo gesto com a mão livre. – Agora... se te ofendi com a cantada e você quer me dar um murro, não era a intenção não. Mas olha... – soltou a mão de Lucius e ficou parado frente a ele, as palmas da mão do lado do corpo em uma postura toda aberta. – É com você. Entre bater ou beijar, você não ia machucar um partido como eu, né? – o tom de Marion era leve, afinal, não queria que Lucius se sentisse pressionado ou achasse que era um sujeito super sério. Até machucaria um pouco o orgulho se ele risse, mas assim não perdia a amizade.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
<br />
Ainda podia ouvir os próprios batimentos acelerados pela ansiedade do momento. O amigo sequer deveria fazer ideia do que aquilo significava para ele - e também não o culpava pelo desconhecimento. Relaxou com o toque mais gentil em sua mão, incerto de como reagir quando Marion percebeu o tremor em seus dedos. Ouviu as palavras dele, soando aos seus ouvidos como uma ordem familiar que, de uma forma estranha e peculiar, conseguia lhe fazer relaxar. Estava mais acostumado a obedecer ordens do que realizar apenas a própria vontade. <br />
<br />
Concordou com um aceno positivo enquanto a voz do amigo lhe passava segurança sobre o respeito a sua vontade. Ergueu o olhar, encarando o rosto do maior com aquele sorriso mais confiante e o ar de graça. Permanecer mais sóbrio, o brilho âmbar de sua íris denunciando sua atenção ao rosto de Marion em meio aquela penumbra. <br />
<br />
Não respondeu a pergunta do rapaz, erguendo as mãos com os dedos ainda trêmulos para o rosto do amigo. Sua pele era naturalmente mais quente e relaxou ao contato com o pescoço do mais alto, apreciando a sensação tátil ao passar com a ponta dos dedos nos pêlos curtos do cabelo raspado de Marion. Esperou por alguma reação do outro antes de cortar a distância entre ambos, juntando seus lábios aos do outro rapaz, os olhos semicerrados. <br />
<br />
A sensação não era ruim, sentia-se estranho por iniciar aquele contato físico mais íntimo. Conhecia Marion há pouco tempo, o sujeito de personalidade mais leve, divertida e amistosa não lhe passava nenhuma sensação de ameaça. Contudo, não gostava de se expor demais, ainda mais ao se sentir admitindo que estava confiando no amigo ao ponto de beijá-lo. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
Lucius era adorável, mas era muito sério. Talvez fizessem bem para Marion conversar com ele depois sobre relaxar um pouco, ou quem sabe ele não fizesse mesmo o tipo que gostava de relacionamentos casuais. Mas isso era para outro momento. Já bastava Lucius se preocupando. Mas pelo menos ele tinha decidido tomar uma atitude.<br />
<br />
Sentiu as mãos em seu rosto e nos cabelos curtos da nuca e esperou satisfeito que Lucius se aproximasse. Sorriu brevemente, deixando que ele tomasse toda a atitude, lhe dando apenas o benefício da dúvida de fechar os olhos e ficar com a cara mais ridícula enquanto esperava um beijo. Pelo menos nesse ponto, não foi decepcionado.<br />
<br />
Estendeu uma das mãos até o braço de Lucius, tocando-o com cuidado, e então moveu os lábios sobre os dele, devolvendo o beijo hesitoso e inocente.<br />
<br />
- Viu? Não foi tão ruim, foi...? – perguntou sem sair daquela postura, embora o barulho do clube não permitisse que falasse tão baixo. Beijou Lucius mais uma vez, indo suave a princípio, aproveitando o gesto mais próximo para dar um pequeno passo mais a frente e puxar de leve os braços dele para que ficassem em volta do seu pescoço, tentando deixar o espaço entre os dois ainda menor. Estava tentando não ser muito afobado, mas considerando que Lucius era muito bonito, ninguém podia lhe culpar por querer mais, deixando o beijo mais firme e intenso.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
<br />
Tensionou com o toque em seu braço, mas não se afastou enquanto o beijo iniciado era correspondido. Não estava habituado aquele tipo de gentileza, então apenas entreabriu os lábios quando se deu conta de que o amigo estava intensificando o gesto. Seguiu as orientações de Marion, mantendo os olhos ainda semicerrados ao envolvê-lo pelo pescoço. Sentiu o contato com o corpo masculino do mais alto ainda que por sobre as camadas de tecido e tensionou novamente com a proximidade. <br />
<br />
Respirou pelo nariz, inclinando a cabeça de lado para que o encaixe com a boca do outro ficasse mais confortável. Felizmente (ou não), tinha experiência o bastante para não perder o fôlego de forma breve. Misturou sua língua com a de Marion, as mãos livres chegando a tocar o cabelo do outro, entretendo-se novamente com os pelos mais curtos da nuca do moreno. Finalmente fechou os olhos por um instante, ouvindo a música animada e mais distante. <br />
<br />
Continuou beijando o amigo sem ressalvas de quando interromper o contato. Poderia manter os lábios nos dele pelo resto da noite se Marion assim desejasse. Não se sentia coagido ou intimidado pelo rapaz. Na verdade, tinha uma inusitada e calorosa sensação de cumplicidade que nunca imaginou sentir por alguém de uma forma íntima como aquela. Era novo e assustador, ao mesmo tempo, mas não era como se estivesse preso ao outro. A liberdade, de certo modo, lhe deixava inseguro. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
O contato iniciou de um jeito inusitado, mas ao menos, à medida que avançava, com receio ou não, Lucius devolvia as carícias com a mesma intensidade. Sentiu os dedos dele passarem por sua nuca meio raspada, lhe dando um arrepio agradável quando somada a sensação das línguas se enroscando. Suas mãos, vendo Lucius parecendo mais confortável com o contato, desceram dos braços até as costas, e das costas até a cintura, trazendo-o um pouco mais para perto, parando um breve instante para retomar o fôlego, sem tirar um centímetro da proximidade que tinha conseguido conquistar, antes de retomar o beijo.<br />
<br />
- Mas eita, que bitoca gostosa!! Eu quero alguém pra me pegar assim também, ô, tô muito solteiro pra ficar olhando vocês! – a voz de Bil soou bem do lado dos dois, mas bastou ele começar para Marion subitamente abrir os olhos e parar o beijo, olhando de esguelha para o amigo. – Que foi??<br />
<br />
Marion soltou um longo, longo suspiro e virou Lucius de costas para Bil, para que ele não tivesse que passar essa vergonha, já que imaginava que ele não gostava de ser visto. Mas não soltou o moreno, abraçando-o e segurando-o contra o próprio corpo.<br />
<br />
- Você não precisa ficar olhando, sabe? – Marion falou com um tom que claramente parecia uma bronca. – Vá pedir água pro Henri, você está suado. Aproveita e avisa a eles que eu já vou.<br />
<br />
-  M-mas mãe...! Tá, tá... eu vou, eu vou. – Bil respondeu, saindo a passos pouco confiantes, como se metade da energia que ele tinha no começo da noite já tivesse ido embora.<br />
<br />
Só então Marion soltou mais o abraço de Lucius, procurando o rosto dele com uma expressão que era ao mesmo tempo divertida, mas aceitava que aquilo tinha sido bem esquisito.<br />
<br />
- Desculpa por ele. – Marion pediu, então abrindo um sorriso. – Eu acho que já tive agitação o suficiente por hoje. A proposta se mantém: quer dormir lá em casa? Se não quiser, eu te levo de volta pro dormitório.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
<br />
Sentiu os ombros relaxarem e a cabeça ficar mais leve com as mãos do amigo que agora lhe tocavam a cintura. Encarou o moreno quando ele se afastou um pouco para recuperar o fôlego. Apreciou o momento para buscar oxigênio também, os lábios ainda entreabertos esperando o instante em que se conectaria com o rapaz de novo. Entretanto, foi pego de surpresa pela voz do amigo de Marion, o tal de Bil. Pensou em virar o rosto para o lado e evitar encontrar o olhar de Bil, mas ao que parecia Marion havia sido mais rápido. <br />
<br />
Não ousou se mexer de onde o amigo havia lhe colocado, de costas para o amigo dele. Estranhou o abraço naquela situação, mas não relutou, descendo os braços até conseguir apoiar as mãos nos ombros dele. Ouviu a voz de Bil se distanciar e o pedido de desculpas de Marion. Encarou o sorriso no rosto do outro e ficou um tanto quanto confuso. Ele havia se arrependido, por acaso? <br />
<br />
Deu um passo para trás depois de ouvir ele repetir aquela pergunta sobre voltar para dormir nos dormitórios ao invés de dormir na casa do rapaz. Ele havia acabado de lhe beijar, ou melhor, havia correspondido ao seu beijo, isso queria dizer que ele gostava da sua companhia, não era? Não entendia porque ele continuava a questionar se não queria que ele o levasse de volta para o dormitório em St. Clavier. Primeiro, duvidava que naquele horário, eles lhe deixariam entrar sem nenhuma advertência. Segundo, ele estava chateado com o que havia acontecido? Mas até que parte? Será que com “agitação”, ele estava falando do beijo também? Ele parecia bastante preocupado em lhe deixar confortável naquela situação, mas não sabia até que ponto ele só estava sendo condescendente. Um sujeito como ele não precisava se dar ao trabalho. <br />
<br />
Eu fiz algo errado? - resolveu sinalizar, perguntando diretamente a Marion, incerto sobre ele ser o tipo de pessoa que talvez mascarasse o próprio desconforto com aquele sorriso divertido. Ele, com certeza, parecia o tipo social mais preocupado em deixar seus amigos confortáveis que agir de forma inconsequente. Encarou o maior, o semblante sério de costume. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
Quando mais lidava com Lucius, menos entendia de fato o novo amigo. Primeiro ele pareceu ignorar seus avanços, até imaginou que ele estava pensando naquilo tudo como uma forma de amizade francesa. Depois ele passou a aceitar seus convites, mas tinha parecido meio relutante em fazer isso na frente de outras pessoas. Agora, estava dando a chance dele fugir, mas a primeira coisa que ele lhe perguntou foi se tinha feito algo de errado. Marion ergueu de leve as sobrancelhas. Talvez fosse melhor deixar tudo claro?<br />
<br />
- De jeito nenhum, inclusive, beija bem, obrigado. – Marion falou com um tom educado bem humorado, sinalizando também dado o espaço entre os dois e o volume da música ao redor, tudo para reforçar o que dizia, ainda que não soubesse expressar tudo aquilo com toda a certeza do mundo em sinais. – Eu que não tenho sido claro. – ponderou um instante. – Talvez isso te surpreenda... mas eu sou gay. – Marion riu, e então respirou fundo para não seguir fazendo piada, afinal, estava tentando se explicar pra Lucius. – E eu te acho um gostoso. E eu estou te chamando para dormir na casa dos meus pais, que é meio arriscado, mas dá para pelo menos para dar uns amassos e dormir de conchinha, ou mais, se eles não estiverem em casa.<br />
<br />
Claro que teve que parar para pensar bastante antes de ter qualquer vaga ideia de como seria explicar aquilo em língua de sinais, afinal, nunca tinha usado isso para flertar com ninguém. O resultado foi uma série de sinais muito desconjuntados, embora a fala fosse bem completa.<br />
<br />
- Só não quero que ache que é obrigado, sabe? Você não parece o tipo que transa num primeiro encontro, e longe de mim te pressionar a isso só porque somos amigos. Estou fazendo suas rotas de fuga e lhe dando escolhas. – explicou, pensando que provavelmente estava satisfeito com sua explicação. Então aproximou-se um pouco de Lucius, roubando-lhe um beijo breve. – E aí? Me conte seus limites e eu te digo quão rápido eu consigo chamar um táxi.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
<br />
Apreciou o esforço de Marion ao tentar manter a comunicação através dos sinais ainda que ficasse atrapalhado com as palavras. Continuou encarando o outro ao ser elogiado e permaneceu sério diante da afirmação do outro sobre ser gay, aquela risada dele não fazendo sentido para sua pessoa, enquanto ouvia o amigo falar sobre um assunto que julgava ser mais pessoal. <br />
<br />
Ficou levemente surpreso quando ele revelou os próprios planos, expectativas, de poder lhe dar uns “amassos” e dormir de conchinha. Apesar do nervosismo do outro, ainda conseguia ler os lábios dele com facilidade. Ouviu todo o discurso sobre suas “rotas de fuga” e opções, a declaração do amigo de que não queria lhe obrigar a nada lhe deixando com um calafrio esquisito no estômago, um do tipo agradável. <br />
<br />
Não rejeitou o beijo breve e, ao ouvir a pergunta sobre seus limites, baixou o olhar por um instante. Era estranho ouvir aquelas palavras na voz de alguém que parecia se preocupar com seu bem estar. Sorriu discretamente com o canto dos lábios antes de voltar a encarar o rapaz, sinalizando: Você e eu… podemos tomar um banho antes? <br />
<br />
Perguntou de forma sugestiva como se aquela condição fosse um de seus limites. E de fato era. Detestava pensar na ideia de ter o amigo lhe tocando sobre a pele suada de toda aquela saída para dançarem. O outro também já havia visto boa parte de seu corpo na visita à tatuadora, mas não julgava estar quite com ele, pois apesar de já ter visto muitos vídeos do dançarino nas redes sociais, não tinha uma ideia clara do físico alheio. - E você… - cutucou o outro em sinal para que ele prestasse atenção. - … não pode usar o celular. <br />
<br />
Achou melhor deixar aquela questão clara, como Marion estava sendo claro com ele. Sabia que o moreno era socialmente ativo virtualmente, mas não tinha segurança em conseguir se expor nas mídias sociais, mesmo que fosse uma única foto com o outro. Imaginava que se tirassem alguma foto juntos, mesmo que não fosse em uma situação mais íntima, e o amigo postasse em suas mídias sociais, teria que lidar com um tipo de atenção indesejada. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
Esperou uma reação de Lucius. Ele de fato era muito sério, nem para rir da sua piada sobre sair do armário. Mas o fato dele ser sério apenas ressaltou o pequeno sorriso quando terminou de questionar os interesses dele, lhe enchendo de uma breve esperança que ele iria aceitar seu convite. Não que duvidasse necessariamente que era um bom convite. Só não sabia se Lucius tinha interesse em ir tão longe.<br />
<br />
A resposta de Lucius – na verdade a proposta – era que tomassem banho primeiro. Abriu um sorriso largo, afirmando com a cabeça prontamente. Estava suado, e o amigo também. Embora não ligasse muito para essas coisas, desde que ninguém estivesse mal cheiroso de fato, podia respeitar um homem que gostava de limpeza.<br />
<br />
A outra condição era que não usasse o celular. Ergueu as sobrancelhas com a ideia de que usaria o celular em um momento íntimo, mas imaginou que se ele não era muito fã da ideia de se expor, talvez o celular aumentasse o pavor dele da saída casual. Isso ou Lucius tinha tido uma péssima experiência com uma sex tape.<br />
<br />
- Eu posso te garantir um banho longo, atenção total sem nem pensar nas notificações do celular, meu corpo todo pra você e um lençol quentinho. – garantiu com um sorriso leve no rosto, e um ar de um pouco mais de seriedade enquanto sinalizava também para reforçar o que estava dizendo a Lucius. – E o que surgir no meio do caminho a gente negocia.<br />
<br />
Puxou o moreno mais uma vez em sua direção, roubando um beijo longo dele, e então, pegando-o pela mão para que fossem arrumar o prometido táxi muito rápido como tinha dito. E Marion não demorou a cumprir a promessa, pagando o táxi no caminho para a casa dos seus pais.<br />
<br />
Seus pais moravam numa área rica. Apesar da casa não ser uma mansão, era grande o suficiente para ter piscina, uma bela cerca viva e janelas grandes. Deu uma olhada na entrada da garagem para ver se o carro estava lá, o que era certo, considerando a hora e a ausência de peças interessantes no teatro. Nem perdeu tempo fazendo um sinal de silêncio para Lucius, tirando a chave do bolso e segurando no moletom para que não fizesse muito barulho. Olhou para dentro como um ladrão tentando roubar uma galeria de arte, e entrou a passos delicados, fechando a porta atrás de si. Chamou Lucius pela sala, conseguindo ouvir o ronco distante do seu pai no silêncio aquela hora, e então passou para longe das escadas, atravessando duas salas até chegar em um quarto grande e arrumado que era suíte.<br />
<br />
- É o quarto de visitas. Mas eu troquei pelo quarto lá de cima porque é mais fácil pular a janela desse. – riu, cochichando enquanto abria a porta, trancando quando Lucius passou por ela, para garantir que não seria atrapalhado. Então tirou o moletom, largando no cesto de roupas perto da porta, abrindo a porta do banheiro enquanto tirava a calça. – Me acompanha?<br />
<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Lucius</span></div>
<br />
Duvidava que o amigo fosse capaz de fazer algo que pudesse lhe assustar, justamente por considerar que Marion era uma boa pessoa, de humor bem mais leve que o seu. Não era exatamente com as notificações do celular com o que estava preocupado, mas acreditava que Marion tinha captado o sentido de sua preocupação. Terminou correspondendo o gesto do outro, beijando-o de volta, sempre com os olhos semicerrados, acompanhando o processo que antecedeu a viagem pelo táxi para a residência do amigo. <br />
<br />
Assim que foram se aproximando da casa de Marion, fez algumas notas mentais sobre o espaço onde ele vivia. O lugar parecia ter sido retirado de um daqueles sets de filmagem de filmes adolescentes com protagonistas de famílias com dinheiro. Verificou o modelo do veículo parado na viagem e adicionou novos cifrões a sua conta mental. Só para cuidar daquele lugar, deveriam trabalhar com alguns empregados, alguém para ajudar com a faxina e alguém para limpar a piscina. Perguntou-se mentalmente se não conseguiria alguns trocados se oferecendo para aquele tipo de serviço. <br />
<br />
Arqueou a sobrancelha com o sinal de silêncio de Marion, como se fosse algum tipo de piada de mau gosto consigo. Estava acostumado a se mover sem fazer nenhum ruído para não incomodar terceiros. E, de longe, percebeu que havia outras pessoas na residência. Estranhou a falta de preocupação dos moradores e, provavelmente, os pais de Marion, com a chegada do filho naquele horário da noite sem aviso. Eles poderiam ser facilmente roubados. <br />
<br />
Ao chegarem no quarto, observou o ambiente em meio a penumbra e ficou incrédulo quanto aquele ser o quarto de visitas. Era grande o bastante para só o amigo morar ali. Concluiu, previamente, que toda aquela vida facilitava o bom humor de Marion e o fato dele parecer tão despreocupado com o que estavam prestes a fazer. Observou o rapaz já na porta do banheiro, sem parecer impressionado com o convite, e começou a se despir, removendo as peças e dobrando-as com cuidado, deixando todas separadas com seu celular e carteira. <br />
<br />
O corpo moreno era bem delineado pelos músculos do abdômen, coxas e braços, o porte atlético de quem gostava de praticar esportes era evidente, ainda que na pouca luz. Como ele tinha trancado a porta, não se preocupou com a nudez, apesar de ainda estar usando a boxer preta, esperando ser apresentado ao banheiro do amigo. Imaginava que o lugar era proporcional ao resto da casa e era grande o bastante para ambos. Estava curioso para saber quais eram os produtos que Marion gostava de usar também. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Marion</span></div>
<br />
O bom de Lucius era que pelo visto sua timidez era mais ligada ao fato de se expor. No Capitol, ele parecia infinitamente preocupado com toda a situação de estar “nos pegas” com outro cara, e pareceu desconfortável com a ideia de ser visto por Bil (embora se pensasse bem, também ficaria constrangido considerando o quão intrometido Bil era). Agora, em seu quarto, ele tinha feito apenas um passar rápido de chave e Lucius já se prontificou a tirar as roupas, deixando-as de modo organizado no quarto.<br />
<br />
Fez questão de observá-lo por cima do ombro. Ele era um pouco mais baixo, mas nada gritante, porém tinha o porte de quem praticava esportes e a tatuagem lhe deixava com uma impressão diferente, mesmo incompleta. Ele parecia sério – na verdade, ele ERA sério –, mas naquela situação não hesitou em pontuar na sua mente “sério E gostoso”. Nem percebeu quando levou o indicador ao lábio, admirando indiscretamente.<br />
<br />
Marion não estava longe do mesmo porte atlético, dançava desde que se entendia por gente, então tinha o corpo todo forte, embora não fosse um monte de músculos. As divisões do abdômen apareciam fácil com o movimento, e bem sabia que o piercing em seu umbigo chamava a atenção justo para eles. Mas a pequena tatuagem delicada no ombro certamente contrastava sua imagem e de Lucius ainda mais.<br />
<br />
- Ah, esqueci de perguntar. – falou, se desfazendo da roupa de baixo e jogando no cesto também. Tinha orgulho do bumbum pequeno e durinho, Lucius podia olhar à vontade. – Banho completo primeiro ou posso te ajudar a se lavar? O box tem espaço o suficiente para dois. – falou, indicando o banheiro com um gesto convidativo. O lugar era grande o suficiente e estava bem limpo. Não tinha nenhuma banheira, mas tinha prateleiras organizadas, gabinete para banheiro com um espelho imenso e um box de vidro com espaço para caber duas pessoas tranquilamente. Toalhas estavam enroladas cuidadosamente sobre o gabinete. Claramente Marion não voltava para casa com frequência, porque tudo estava arrumado pronto para receber uma visita.]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[[Drive][16 anos] Saving Greys [Jade (13 anos); Zazou (20 anos)]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=327</link>
			<pubDate>Tue, 28 Sep 2021 15:36:10 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=3">Lil</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=327</guid>
			<description><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Zazou</span></div>
<br />
Há três anos como mandante geral no bairro de Gris, Zazou tinha visto sua influência crescer exponencialmente de um ano e meio atrás até então. Tinha adquirido aliados, e inimigos fortes. Tudo isso fazia a fama de um homem aumentar consideravelmente. O problema era que tinha só vinte anos, e embora tivesse sido criado na criminalidade, ainda não tinha a cabeça inteiramente no lugar. Às vezes se pegava provocando as pessoas erradas que lhe olhavam atravessado. Mas sua necessidade de impor respeito e de seguir certas regras de conduta eram o que faziam tantas pessoas mais continuarem sendo coniventes com sua presença ali em Cerise.<br />
<br />
O problema daquele dia em específico era que tinha recebido informação de um trabalhador do porto que um navio tinha chegado com imigrantes traficados. Vendo os marginais do navio carregando mulheres e adolescentes, estalou a língua e fez uma cara feia, porque não gostava daquilo de forma alguma; mas também não estava no direito de mexer com os negócios de alguém, a não ser que quisesse criar outro inimigo grande.<br />
<br />
Ao invés disso, observou por um tempo de longe junto de um grupo de homens, até notar uma comoção entre os sujeitos do navio, sobre o que parecia ser um adolescente que certamente estava em péssimas condições. Estreitou os olhos e se aproximou, porque a conversa parecia muito irritante para aguentar ouvir de longe.<br />
<br />
- Vou fazer o que com ele?? É mercadoria avariada. Ou, ou, você! Olha pra mim! – o sujeito de um tapa no rosto do garoto, que estava sendo basicamente arrastado para fora do navio por outro homem. – Ah, deixa ele, vai morrer mesmo. Mais tarde a gente joga ele no porto.<br />
<br />
- E se eu jogar você no porto? – Zazou rosnou, agarrando o homem pelos cabelos, vendo os sujeitos que estavam consigo já porem as mãos nas armas. – Eu não dei permissão pra despejar corpos aqui. Especialmente um vivo.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jade</span></div>
<br />
Qadir estava com dor, com frio e com fome, mas aquele era um estado que nem lhe deixava mais tão alerta quanto deveria. Alguns anos atrás, quando corria pelas ruas do Cairo para conseguir comida e dinheiro para a família e os irmãos, talvez tivesse um instinto de sobrevivência maior para roubar o pão dos seus irmãos. Mas agora, machucado dos pés à cabeça, desnutrido, com o rosto inchado e algumas marcas de queimadura de cigarro, ele bem esperava morrer dentro do compartimento de um navio, em que entrava provavelmente pela terceira ou quarta vez para mudar de casa.<br />
<br />
Da primeira vez que tinha sido vendido, até foi bem alimentado e bem cuidado no começo, e depois só piorou até ser jogado fora. Da segunda vez, foi menos comida e mais experiências dolorosas, até também ser dispensado. Depois da terceira vez, ele já tinha desistido de resistir e de comer e esperava se livrar da dor e da fome logo.<br />
<br />
Quando o navio atracou em um novo porto, todas as pessoas com quem ele compartilhava o espaço começaram a sair enfileiradas. Ele até tentou se levantar para acompanhar, mas percebeu que estava mais fraco por não ter comido mais que alguns pedaços de pão e água no longo caminho. Ele usava alguns trapos como roupa e tinha um lenço sobre os ombros que uma das mulheres tinha lhe dado na viagem, mas era tudo.<br />
<br />
E depois que demorou a se levantar e sair, não foi surpresa que um dos homens do navio viesse para lhe arrastar pelos braços mesmo que mal conseguisse andar, tropeçando nos próprios pés e no caminho. Ouviu os gritos quando deixou o navio, embora não entendesse nada do idioma alheio, e o ouvido que estava zunindo piorou quando levou um tapa. Já esperava outro golpe, mas não veio, e se manteve em pé com as pernas trêmulas para levantar o olhar e ver que o homem que tinha lhe batido tinha os cabelos puxados por outro homem com a mesma expressão dos que costumavam lhe arrastar de um lado a outro. O garoto só segurou o lenço em volta dos ombros e esperou ser arrastado de novo para o próximo destino.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Zazou</span></div>
<br />
Embora Zazou estivesse tentando se acostumar com a situação deplorável em que muitos dos traficados chegavam no porto, o fato de estarem dispensando o adolescente em um estado tão grave como se fosse uma mercadoria lhe deixava de sangue fervendo.<br />
<br />
- Z-Zazou! N-não vamos despejar esse aqui em Gris não...! A-A gente dá um jeito...! Sumimos com ele em outro lugar...!! – o sujeito que teve os cabelos fechados tentou argumentar, antes de ser subitamente soltado, o que lhe fez suspirar de alívio.<br />
<br />
Zazou observou o garoto fraco, magro e sujo e estalou a língua, bufando com os lábios pra o absurdo que o outro homem tinha dito. Sacudiu a cabeça negativamente e empurrou o sujeito do caminho. O garoto estava acordado, e claramente a expressão dele era conformada com tudo aquilo, exceto pelo óbvio apego ao lenço em volta do pescoço, que não sabia o que significava para ele e nem lhe interessava. Só pegou-o pelo braço e olhou para o outro sujeito que carregava o garoto, esperando que ele soltasse.<br />
<br />
- Eu fico com ele. E com qualquer um que vocês forem despejar. Luca vai ficar aqui. E se algo acontecer com o Luca, algo muito pior vai acontecer com vocês. – falou com a voz muito sóbria, de quem tenha plena certeza do que estava dizendo.<br />
<br />
Silenciosamente, Zazou chamou um membro do grupo e comandou-o para carregar o garoto, que foi colocado nas costas e literalmente levado sem mais protestos. Não iria levá-lo para casa, pois não tinha exatamente uma casa; e não iria levá-lo para o hospital, porque aí levantaria perguntas demais de quem não queria lhe perguntando nada. O único lugar seguro – ou o único lugar que tinha em mente – era o bordel de uma cafetina que conhecia há mais tempo do que queria, e que tinha lhe dado um chão para dormir e uns pratos de comida ao longo dos anos. Talvez ela não fosse ficar feliz que levasse mais problemas para ela cuidar, pois não bastava todas as meninas sob a asa protetora dela, mas estava cuidando dela agora em Gris, não lhe custava fazer um favor.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jade</span></div>
<br />
Qadir não esperava muita coisa e mal levantou a cabeça quando ouviu a discussão dos dois homens. Também estava acostumado com os gritos e conversas em línguas que não entendia. De todo modo, logo logo seria levado para outro destino, então era só esperar, e o principal, melhor não olhar muito nos rostos deles, aquilo sempre lhe rendia mais algumas surras.<br />
<br />
A conversa se acalmou e o garoto esperou ser puxado de novo para o próximo lugar em que iria servir a alguém, mas foi estranhamente carregado nas costas de outro homem e a proximidade e o modo como estava sendo levado lhe deixou alerta, a ponto de ficar um pouco nervoso e quase se soltar das costas do homem.<br />
<br />
- [E-eu posso… andar…] - ele tentou argumentar com o estranho que estava lhe carregando nas costas, mas a voz era baixa e rouca, além de ser em árabe, o que provavelmente não faria muito sentido para o homem que também estava conversando em outro idioma. Por sinal, era um idioma que ainda não tinha ouvido de suas viagens pelos países próximos do Egito. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Zazou</span></div>
<br />
Notou o nervosismo do garoto ao longo do caminho. Não tinham outro modo mais confortável de levá-lo por ora, talvez se arrumassem um carro de mão. Ajudou o seu subordinado a segurá-lo, colocando-o de volta em uma posição confortável depois dele se mexer, para que pelo menos chegassem no carro que estava um pouco longe. Ouvir aquele idioma não lhe deu ideia de como responder, porque supunha que ele não falava francês. Ao invés disso, no momento em que o colocou no carro junto do outro homem, sem saber o que fazer pelo garoto e também desacostumado a ser gentil, só estendeu a mão até os cabelos escuros por um breve instante, supondo que acariciá-lo como faria com um cachorro ajudaria.<br />
<br />
De carro, o bordel era próximo, já que tudo ficava em Gris inevitavelmente. Dessa vez foi o próprio Zazou que pegou o rapaz, carregando-o nas costas enquanto o outro saía com o carro dali para prestar ajuda ao pessoal cuidando dos traficantes. Engoliu em seco enquanto entrava pela porta aberta, vendo logo olhares curiosos para si e para o rapaz em suas costas.<br />
<br />
- Não. – uma mulher muito elegante de roupas curtas com várias jóias falsas e uma maquiagem impecável disse, assim que viu Zazou e o garoto. – Zazou, não. Fora daqui. Arrume outro lugar para deixá-lo. Já tenho minhas meninas para cuidar.<br />
<br />
- Madame... ele não fala francês, e o pessoal no porto ia despejá-lo no mar... vivo. Ele tá fraco, dá pra ver, não dá? – Zazou colocou o garoto em pé devagar, apoiando-o com o braço porque não queria ficar carregando o garoto mais do que precisava. – Tenha pena dele. Ele parece ter tido uma vida de merda, e aquelas pessoas tratando ele como nada no porto... talvez tenham outros també- AI!<br />
<br />
- Ora, tenha dó de mim, moleque! Inferno! – a mulher deu um tapa na testa do traficante, olhando longamente para o adolescente no braço dele. – Lá na cozinha. Xô, sai da entrada. Não quero que atrapalhe os negócios. - ela reclamou, então estreitando os olhos. - E se trouxer mais alguém, mande entrar pelos fundos! Até parece que não conhece esse lugar!<br />
<br />
Zazou foi até a cozinha como ordenado, ajudando o adolescente a ir até lá devagar. Foram os dois seguidos por uma série de mulheres curiosas, que não fizeram nada para ajudar, mas também não ficaram no caminho.<br />
<br />
- Não fala francês? – uma loira falsa falou, animada. – [Fala espanhol? Qual seu nome?]<br />
<br />
- [Romeno? Olá!] – outra disse, animada.<br />
<br />
- [Fala Árabe? Meu nome é Zara!] – uma disse, praticamente saltando por cima do ombro de Zazou, que a afastou sem delicadeza alguma. – Ai! Seu grosso!<br />
<br />
- Por que não fazem algo por ele além de conversar? Arrumem um lugar pra ele descansar, sei lá. - Zazou reclamou, indo atrás de pão e água para o rapaz, sem saber se tinha permissão de pegar outra coisa para ele comer. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jade</span></div>
<br />
Mesmo depois de dizer que podia andar sozinho, o homem não lhe largou, ao contrário, lhe ajudou a se segurar melhor nas costas do outro homem e eles seguiram até entrar num carro. Qadir continuou se segurando ao lenço em volta do corpo porque era só o que tinha para fazer, e depois de um trajeto não muito longo, eles pararam em frente a um estabelecimento que era até familiar aos olhos de Qadir. Mais familiar ainda uma mulher cheia de jóias e brilhos que se aproximou do homem e lhe reclamou num tom de voz intenso. Qadir apenas baixou o rosto e esperou a pancada que viria, mas não aconteceu.<br />
<br />
Mais vozes intensas, mais palavras que ele não entendia, e logo estava sendo guiado para outro lugar, de um jeito até mais suave do que antes, e mais vozes se acumularam ao seu redor em idiomas que ele não entendia. Ao menos, até ouvir um som parecido com o da sua cidade natal.<br />
<br />
- [Hm… eu falo…] - ele respondeu num fio de voz, a mulher que foi empurrada para longe por um dos rapazes que tinham lhe levado até ali. O que só fez com que ele encolhesse os ombros de novo, como se não devesse ter falado.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Zazou</span></div>
<br />
O rapaz parecia desfalecido demais até para responder, mas a voz fraca fez com que a tal Zara se animasse prontamente, e então ficasse nervosa logo em seguida. Zazou notou que aquilo parecia ser uma resposta, e isso o deixou mais atento ao rapaz. Mas notou que seus modos grosseiros também tinham deixado o garoto em um estado igualmente alerta.<br />
<br />
- É árabe! Eu sabia! Espero que eu consiga lembrar de como fala direito...! – a garota exclamou, passando na frente de Zazou que carregava a água e o pão para se ajoelhar na frente do garoto, que parecia muito fraco. – [Qual seu nome...? Está seguro aqui. A gente vai cuidar de você!] – ela quase cantou aquelas palavras, delicada, tocando a mão sobre a do garoto.<br />
<br />
Zazou estendeu a caneca com água e o pão para ele, mas Zara pegou-os de suas mãos, oferecendo primeiro a água com cuidado, colocando as mãos dele em volta do copo.<br />
<br />
- [É água. E pão. Está com fome? As meninas vão preparar um lugar para você descansar também.] – ela então olhou para as outras garotas, que estavam lhe cercando o menino ainda como se ele fosse um alienígena. Zazou empurrou todas para fora, para que fizessem alguma coisa além de olhar pro garoto. Não que agora ele estivesse fazendo muito diferente. A prostituta que falava árabe então olhou do bandido intimidador para o rapazinho, e abriu um sorriso suave. – [Ele lhe trouxe aqui. Não tem jeito, mas ele é uma boa pessoa.]<br />
<br />
- O que é que cê tá me encarando? – ele rosnou, arqueando a sobrancelha para ela.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jade</span></div>
<br />
A mulher que tinha falado no idioma que ele conhecia ficou um pouco alterada quando respondeu. Aquilo fez com que o garoto olhasse curioso e temeroso na direção dela também, afinal, ela voltou a falar em um idioma que não entendia. Depois de uma comoção e de olhar estranho para todas as outras mulheres ao redor, ele viu o pão e a água na sua frente, e a mesma moça voltou a falar em um idioma que ele conhecia. O toque dela em sua mão fez com que retesasse o corpo um pouco, mas só porque era uma resposta automática. Ele a encarou de volta com os olhos grandes com marcas de olheiras fundas ao redor.<br />
<br />
- [Não sei… lugar n-novo… nome novo?] - ele respondeu, muito acostumado que já estava a receber nomes novos quando ia para outros lugares, e embora ela tivesse dito que ia “cuidar” dele, aquela era uma palavra que ele nem lembrava o que significava.<br />
<br />
A mulher gentil lhe entregou uma caneca e lhe ajudou a segurar com as duas mãos. Só quando envolveu o copo foi que percebeu como estava fraco e como o copo quase caiu, mas conseguiu segurá-lo. Ele fez um aceno pequeno com a cabeça, para ao menos dizer que tinha entendido que era comida e que estava com fome.<br />
<br />
- [Obrigado] - ele agradeceu antes de levantar a caneca para beber um pouco de água, as mãos ainda fracas, mas a necessidade de beber lhe fez até engasgar e tossir um pouco. Levantou o olhar para o homem que tinha lhe tirado do porto quando a mulher disse que ele “era uma boa pessoa”, e só imaginou que se fosse verdade, seria uma novidade para um novo dono. - [Meu dono?]<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Zazou</span></div>
<br />
Só quando o adolescente falou que não tinha nome, a garota franziu a testa, perdendo toda a leve animação de encontrar algum conterrâneo em Cerise. Ela olhou por cima do ombro para Zazou e entortou os lábios.<br />
<br />
- Eu acho que ele não tem nome. – ela falou com a voz mais baixa para o traficante. Tinha notado que ele ficava meio assustado de estar em um ambiente com as pessoas falando um idioma estranho ao seu redor.<br />
<br />
Zazou já tinha encontrado muitas pessoas traficadas, mas era a primeira vez que lidava com um adolescente, e inclusive, um sem nome. Ele olhou por cima do ombro com curiosidade, até porque se ele não tinha um nome, provavelmente não deveria ter lembranças de família. Era um indicativo talvez de que ele tivesse vivido a vida inteira como escravo, e isso lhe deixou irritadíssimo. Tinha a satisfação de ter deixado Luca no porto, porque se fosse alguém com menos capacidade de lhe segurar, teria ido de volta ao navio dar uma surra em cada um dos homens que pretendiam jogar aquele garoto fora como se não fosse nada. Porque era provável que era assim que ele se sentisse: nada.<br />
<br />
Não era um sentimento a qual Zazou era estranho.<br />
<br />
A garota tomou cuidado quando o rapaz engasgou, mas supunha que era natural com as olheiras e o descaso com o qual ele tinha sido tratado. Só foi obrigada a sorrir quando ele perguntou se Zazou era seu novo dono, o que Zara queria pagar para ver, do pouco que conhecia o líder de gangue.<br />
<br />
- Ele acha que você é o novo dono dele. Já que ele não tem nome, por que não dá um a ele? Você que o salvou, deveria batizá-lo. – ela reportou ainda numa voz tranquila, tentando não assustar mais o garoto.<br />
<br />
- Não. – Zazou rosnou, olhando para a mulher com um olhar estreito, segurando a vontade de dar um cascudo nela para não assustar o garoto. – Passa um recado pra ele, e se errar, vou dizer a madrinha que você tá pegando do bar pra encher sua garrafa de tequila no armário.<br />
<br />
- Ai, tá bem, tá bem! – ela falou, fazendo um bico, estendendo as mãos para ele se acalmar.<br />
<br />
Zazou então agachou mais próximo a ela, usando um tom de voz menos ameaçador para comunicar suas palavras, lutando com vontade para ser suave uma vez na vida, porque em geral, era o oposto do que precisava na rua.<br />
<br />
- [Ele disse que não é seu dono. Nem mestre. Você mesmo é seu dono aqui. Por isso tem que descansar, dormir, comer, e ficar bom pra ter força pra fazer o que quiser.] – ela falou com calma, e então sorriu enquanto Zazou terminava de falar. – [E que estamos proibidas de lhe dar um nome. Por que você não é bicho. Quando estiver inteiro pode escolher você mesmo.] – ela virou para Zazou, com um ar debochado. – Algo mais, dono?<br />
<br />
- Vá a merda, Zara. – ele resmungou, olhando para o garoto um instante antes de levantar. Logo as meninas deveriam arrumar um quarto para ele descansar. E dali, era responsabilidade da madrinha.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jade</span></div>
<br />
A moça que falava o seu idioma voltou a falar com o homem que devia ser seu novo dono, afinal, era ele que tinha lhe tirado do porto. Mas ele apenas baixou o olhar para o pedaço de pão e tentou comer alguma coisa, em pedaços muito pequenos, sentindo a garganta arranhar ao engolir, mas ao menos era mais comida do que tinha na longa viagem de navio. Ouviu mais conversas no idioma que não entendia e tentou não prestar muita atenção, ao menos eles não estavam gritando nem discutindo para lhe empurrar para outro lugar, ou era o que esperava.<br />
<br />
Ele ergueu a cabeça para ver o seu dono se aproximando de Zara e falando algo para ela, num tom mais baixo. Mas ao ouvir o que ela tinha a lhe dizer, piscou algumas vezes, um pouco confuso. Então o moço não era o seu novo dono? E não tinha outro dono para seguir as ordens? O que ele faria sozinho então? Ele olhou da mulher para o pedaço de pão e a caneca de água, demorando a racionalizar as coisas.<br />
<br />
- [Eu... posso usar meu nome de novo? Eu... era Qadir... antes] - ele respondeu, segurando o pedaço de pão com as duas mãos e olhando da comida para o homem que tinha lhe levado até ali. - [Obrigado, moço...]. - agradeceu ao homem no seu idioma natal, e embora não entendesse muito a nova situação em que estava, parecia menos ruim do que das últimas vezes, até então. Pegou o pão entre as mãos e mordeu de novo, engasgando mais uma vez pelo tempo que estava sem comer.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Zazou</span></div>
<br />
O olhar do garoto que parou de comer apenas para processar a informação que não teria um nome e não tinha dono foi claramente a expressão de quem não entendia o que estava acontecendo. Zazou sentiu um tique na sobrancelha, supondo que ele não devia ter paz e deveria estar passando de mão em mão há muito tempo. E sabia qual era o problema de dizer aquilo para um moleque naquele tipo de vida: é que até então ele não sabia o que era depender de si mesmo, e a perspectiva da mudança era tão dura quanto de permanecer na vida escrava. Porém esse problema, deixaria para a cafetina que cuidava dali resolver.<br />
<br />
A mulher que estava traduzindo tudo sorriu quando viu o rapaz revelar que tinha um nome e que podia usá-lo agora.<br />
- [Qadir é um nome muito bonito.] – ela comentou, notando o jeito como ele olhava para o outro e o agradecimento. Zara olhou com um ar divertido. – Qadir é o nome dele. E ele está agradecido a você.<br />
<br />
Zazou levou a mão até a nuca e coçou os fios curtos ali, sem saber o que falar, já que os dois não falavam o mesmo idioma.<br />
<br />
- Qadir... – repetiu, notando o nome muito diferente. - Zazou. – apontou para si mesmo, sem saber como se comunicar.<br />
<br />
A moça quase ignorou o traficante quando ele tentou falar sobre si, porque o garoto ainda estava engasgando com pão, e não podia bater nas costas dele para não assustá-lo.<br />
<br />
- [Pode comer devagar, Qadir.] – ela falou tranquila, abrindo um sorriso. – [E o moço diz que é Zazou... mas na verdade todas chamamos ele de Tristan quando ele não está aqui.]<br />
<br />
Zazou estreitou os olhos para a mulher, e então decidiu sair da cozinha, olhando só uma última vez para trás antes de encarar Zara, e sumir na porta.<br />
<br />
- Madrinha, a Zara roubou tequila do bar para encher a garrafa do quarto dela! – deixou o som soar da porta, e prontamente a garota ficou vermelha, bufando de raiva. Certamente tinha passado na mente dela que o outro era impossível. E talvez eventualmente Qadir fosse entender melhor sobre a vida ali em Gris.<br />
<br />
[Thread encerrada]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Zazou</span></div>
<br />
Há três anos como mandante geral no bairro de Gris, Zazou tinha visto sua influência crescer exponencialmente de um ano e meio atrás até então. Tinha adquirido aliados, e inimigos fortes. Tudo isso fazia a fama de um homem aumentar consideravelmente. O problema era que tinha só vinte anos, e embora tivesse sido criado na criminalidade, ainda não tinha a cabeça inteiramente no lugar. Às vezes se pegava provocando as pessoas erradas que lhe olhavam atravessado. Mas sua necessidade de impor respeito e de seguir certas regras de conduta eram o que faziam tantas pessoas mais continuarem sendo coniventes com sua presença ali em Cerise.<br />
<br />
O problema daquele dia em específico era que tinha recebido informação de um trabalhador do porto que um navio tinha chegado com imigrantes traficados. Vendo os marginais do navio carregando mulheres e adolescentes, estalou a língua e fez uma cara feia, porque não gostava daquilo de forma alguma; mas também não estava no direito de mexer com os negócios de alguém, a não ser que quisesse criar outro inimigo grande.<br />
<br />
Ao invés disso, observou por um tempo de longe junto de um grupo de homens, até notar uma comoção entre os sujeitos do navio, sobre o que parecia ser um adolescente que certamente estava em péssimas condições. Estreitou os olhos e se aproximou, porque a conversa parecia muito irritante para aguentar ouvir de longe.<br />
<br />
- Vou fazer o que com ele?? É mercadoria avariada. Ou, ou, você! Olha pra mim! – o sujeito de um tapa no rosto do garoto, que estava sendo basicamente arrastado para fora do navio por outro homem. – Ah, deixa ele, vai morrer mesmo. Mais tarde a gente joga ele no porto.<br />
<br />
- E se eu jogar você no porto? – Zazou rosnou, agarrando o homem pelos cabelos, vendo os sujeitos que estavam consigo já porem as mãos nas armas. – Eu não dei permissão pra despejar corpos aqui. Especialmente um vivo.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jade</span></div>
<br />
Qadir estava com dor, com frio e com fome, mas aquele era um estado que nem lhe deixava mais tão alerta quanto deveria. Alguns anos atrás, quando corria pelas ruas do Cairo para conseguir comida e dinheiro para a família e os irmãos, talvez tivesse um instinto de sobrevivência maior para roubar o pão dos seus irmãos. Mas agora, machucado dos pés à cabeça, desnutrido, com o rosto inchado e algumas marcas de queimadura de cigarro, ele bem esperava morrer dentro do compartimento de um navio, em que entrava provavelmente pela terceira ou quarta vez para mudar de casa.<br />
<br />
Da primeira vez que tinha sido vendido, até foi bem alimentado e bem cuidado no começo, e depois só piorou até ser jogado fora. Da segunda vez, foi menos comida e mais experiências dolorosas, até também ser dispensado. Depois da terceira vez, ele já tinha desistido de resistir e de comer e esperava se livrar da dor e da fome logo.<br />
<br />
Quando o navio atracou em um novo porto, todas as pessoas com quem ele compartilhava o espaço começaram a sair enfileiradas. Ele até tentou se levantar para acompanhar, mas percebeu que estava mais fraco por não ter comido mais que alguns pedaços de pão e água no longo caminho. Ele usava alguns trapos como roupa e tinha um lenço sobre os ombros que uma das mulheres tinha lhe dado na viagem, mas era tudo.<br />
<br />
E depois que demorou a se levantar e sair, não foi surpresa que um dos homens do navio viesse para lhe arrastar pelos braços mesmo que mal conseguisse andar, tropeçando nos próprios pés e no caminho. Ouviu os gritos quando deixou o navio, embora não entendesse nada do idioma alheio, e o ouvido que estava zunindo piorou quando levou um tapa. Já esperava outro golpe, mas não veio, e se manteve em pé com as pernas trêmulas para levantar o olhar e ver que o homem que tinha lhe batido tinha os cabelos puxados por outro homem com a mesma expressão dos que costumavam lhe arrastar de um lado a outro. O garoto só segurou o lenço em volta dos ombros e esperou ser arrastado de novo para o próximo destino.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Zazou</span></div>
<br />
Embora Zazou estivesse tentando se acostumar com a situação deplorável em que muitos dos traficados chegavam no porto, o fato de estarem dispensando o adolescente em um estado tão grave como se fosse uma mercadoria lhe deixava de sangue fervendo.<br />
<br />
- Z-Zazou! N-não vamos despejar esse aqui em Gris não...! A-A gente dá um jeito...! Sumimos com ele em outro lugar...!! – o sujeito que teve os cabelos fechados tentou argumentar, antes de ser subitamente soltado, o que lhe fez suspirar de alívio.<br />
<br />
Zazou observou o garoto fraco, magro e sujo e estalou a língua, bufando com os lábios pra o absurdo que o outro homem tinha dito. Sacudiu a cabeça negativamente e empurrou o sujeito do caminho. O garoto estava acordado, e claramente a expressão dele era conformada com tudo aquilo, exceto pelo óbvio apego ao lenço em volta do pescoço, que não sabia o que significava para ele e nem lhe interessava. Só pegou-o pelo braço e olhou para o outro sujeito que carregava o garoto, esperando que ele soltasse.<br />
<br />
- Eu fico com ele. E com qualquer um que vocês forem despejar. Luca vai ficar aqui. E se algo acontecer com o Luca, algo muito pior vai acontecer com vocês. – falou com a voz muito sóbria, de quem tenha plena certeza do que estava dizendo.<br />
<br />
Silenciosamente, Zazou chamou um membro do grupo e comandou-o para carregar o garoto, que foi colocado nas costas e literalmente levado sem mais protestos. Não iria levá-lo para casa, pois não tinha exatamente uma casa; e não iria levá-lo para o hospital, porque aí levantaria perguntas demais de quem não queria lhe perguntando nada. O único lugar seguro – ou o único lugar que tinha em mente – era o bordel de uma cafetina que conhecia há mais tempo do que queria, e que tinha lhe dado um chão para dormir e uns pratos de comida ao longo dos anos. Talvez ela não fosse ficar feliz que levasse mais problemas para ela cuidar, pois não bastava todas as meninas sob a asa protetora dela, mas estava cuidando dela agora em Gris, não lhe custava fazer um favor.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jade</span></div>
<br />
Qadir não esperava muita coisa e mal levantou a cabeça quando ouviu a discussão dos dois homens. Também estava acostumado com os gritos e conversas em línguas que não entendia. De todo modo, logo logo seria levado para outro destino, então era só esperar, e o principal, melhor não olhar muito nos rostos deles, aquilo sempre lhe rendia mais algumas surras.<br />
<br />
A conversa se acalmou e o garoto esperou ser puxado de novo para o próximo lugar em que iria servir a alguém, mas foi estranhamente carregado nas costas de outro homem e a proximidade e o modo como estava sendo levado lhe deixou alerta, a ponto de ficar um pouco nervoso e quase se soltar das costas do homem.<br />
<br />
- [E-eu posso… andar…] - ele tentou argumentar com o estranho que estava lhe carregando nas costas, mas a voz era baixa e rouca, além de ser em árabe, o que provavelmente não faria muito sentido para o homem que também estava conversando em outro idioma. Por sinal, era um idioma que ainda não tinha ouvido de suas viagens pelos países próximos do Egito. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Zazou</span></div>
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Notou o nervosismo do garoto ao longo do caminho. Não tinham outro modo mais confortável de levá-lo por ora, talvez se arrumassem um carro de mão. Ajudou o seu subordinado a segurá-lo, colocando-o de volta em uma posição confortável depois dele se mexer, para que pelo menos chegassem no carro que estava um pouco longe. Ouvir aquele idioma não lhe deu ideia de como responder, porque supunha que ele não falava francês. Ao invés disso, no momento em que o colocou no carro junto do outro homem, sem saber o que fazer pelo garoto e também desacostumado a ser gentil, só estendeu a mão até os cabelos escuros por um breve instante, supondo que acariciá-lo como faria com um cachorro ajudaria.<br />
<br />
De carro, o bordel era próximo, já que tudo ficava em Gris inevitavelmente. Dessa vez foi o próprio Zazou que pegou o rapaz, carregando-o nas costas enquanto o outro saía com o carro dali para prestar ajuda ao pessoal cuidando dos traficantes. Engoliu em seco enquanto entrava pela porta aberta, vendo logo olhares curiosos para si e para o rapaz em suas costas.<br />
<br />
- Não. – uma mulher muito elegante de roupas curtas com várias jóias falsas e uma maquiagem impecável disse, assim que viu Zazou e o garoto. – Zazou, não. Fora daqui. Arrume outro lugar para deixá-lo. Já tenho minhas meninas para cuidar.<br />
<br />
- Madame... ele não fala francês, e o pessoal no porto ia despejá-lo no mar... vivo. Ele tá fraco, dá pra ver, não dá? – Zazou colocou o garoto em pé devagar, apoiando-o com o braço porque não queria ficar carregando o garoto mais do que precisava. – Tenha pena dele. Ele parece ter tido uma vida de merda, e aquelas pessoas tratando ele como nada no porto... talvez tenham outros també- AI!<br />
<br />
- Ora, tenha dó de mim, moleque! Inferno! – a mulher deu um tapa na testa do traficante, olhando longamente para o adolescente no braço dele. – Lá na cozinha. Xô, sai da entrada. Não quero que atrapalhe os negócios. - ela reclamou, então estreitando os olhos. - E se trouxer mais alguém, mande entrar pelos fundos! Até parece que não conhece esse lugar!<br />
<br />
Zazou foi até a cozinha como ordenado, ajudando o adolescente a ir até lá devagar. Foram os dois seguidos por uma série de mulheres curiosas, que não fizeram nada para ajudar, mas também não ficaram no caminho.<br />
<br />
- Não fala francês? – uma loira falsa falou, animada. – [Fala espanhol? Qual seu nome?]<br />
<br />
- [Romeno? Olá!] – outra disse, animada.<br />
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- [Fala Árabe? Meu nome é Zara!] – uma disse, praticamente saltando por cima do ombro de Zazou, que a afastou sem delicadeza alguma. – Ai! Seu grosso!<br />
<br />
- Por que não fazem algo por ele além de conversar? Arrumem um lugar pra ele descansar, sei lá. - Zazou reclamou, indo atrás de pão e água para o rapaz, sem saber se tinha permissão de pegar outra coisa para ele comer. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jade</span></div>
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Mesmo depois de dizer que podia andar sozinho, o homem não lhe largou, ao contrário, lhe ajudou a se segurar melhor nas costas do outro homem e eles seguiram até entrar num carro. Qadir continuou se segurando ao lenço em volta do corpo porque era só o que tinha para fazer, e depois de um trajeto não muito longo, eles pararam em frente a um estabelecimento que era até familiar aos olhos de Qadir. Mais familiar ainda uma mulher cheia de jóias e brilhos que se aproximou do homem e lhe reclamou num tom de voz intenso. Qadir apenas baixou o rosto e esperou a pancada que viria, mas não aconteceu.<br />
<br />
Mais vozes intensas, mais palavras que ele não entendia, e logo estava sendo guiado para outro lugar, de um jeito até mais suave do que antes, e mais vozes se acumularam ao seu redor em idiomas que ele não entendia. Ao menos, até ouvir um som parecido com o da sua cidade natal.<br />
<br />
- [Hm… eu falo…] - ele respondeu num fio de voz, a mulher que foi empurrada para longe por um dos rapazes que tinham lhe levado até ali. O que só fez com que ele encolhesse os ombros de novo, como se não devesse ter falado.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Zazou</span></div>
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O rapaz parecia desfalecido demais até para responder, mas a voz fraca fez com que a tal Zara se animasse prontamente, e então ficasse nervosa logo em seguida. Zazou notou que aquilo parecia ser uma resposta, e isso o deixou mais atento ao rapaz. Mas notou que seus modos grosseiros também tinham deixado o garoto em um estado igualmente alerta.<br />
<br />
- É árabe! Eu sabia! Espero que eu consiga lembrar de como fala direito...! – a garota exclamou, passando na frente de Zazou que carregava a água e o pão para se ajoelhar na frente do garoto, que parecia muito fraco. – [Qual seu nome...? Está seguro aqui. A gente vai cuidar de você!] – ela quase cantou aquelas palavras, delicada, tocando a mão sobre a do garoto.<br />
<br />
Zazou estendeu a caneca com água e o pão para ele, mas Zara pegou-os de suas mãos, oferecendo primeiro a água com cuidado, colocando as mãos dele em volta do copo.<br />
<br />
- [É água. E pão. Está com fome? As meninas vão preparar um lugar para você descansar também.] – ela então olhou para as outras garotas, que estavam lhe cercando o menino ainda como se ele fosse um alienígena. Zazou empurrou todas para fora, para que fizessem alguma coisa além de olhar pro garoto. Não que agora ele estivesse fazendo muito diferente. A prostituta que falava árabe então olhou do bandido intimidador para o rapazinho, e abriu um sorriso suave. – [Ele lhe trouxe aqui. Não tem jeito, mas ele é uma boa pessoa.]<br />
<br />
- O que é que cê tá me encarando? – ele rosnou, arqueando a sobrancelha para ela.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jade</span></div>
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A mulher que tinha falado no idioma que ele conhecia ficou um pouco alterada quando respondeu. Aquilo fez com que o garoto olhasse curioso e temeroso na direção dela também, afinal, ela voltou a falar em um idioma que não entendia. Depois de uma comoção e de olhar estranho para todas as outras mulheres ao redor, ele viu o pão e a água na sua frente, e a mesma moça voltou a falar em um idioma que ele conhecia. O toque dela em sua mão fez com que retesasse o corpo um pouco, mas só porque era uma resposta automática. Ele a encarou de volta com os olhos grandes com marcas de olheiras fundas ao redor.<br />
<br />
- [Não sei… lugar n-novo… nome novo?] - ele respondeu, muito acostumado que já estava a receber nomes novos quando ia para outros lugares, e embora ela tivesse dito que ia “cuidar” dele, aquela era uma palavra que ele nem lembrava o que significava.<br />
<br />
A mulher gentil lhe entregou uma caneca e lhe ajudou a segurar com as duas mãos. Só quando envolveu o copo foi que percebeu como estava fraco e como o copo quase caiu, mas conseguiu segurá-lo. Ele fez um aceno pequeno com a cabeça, para ao menos dizer que tinha entendido que era comida e que estava com fome.<br />
<br />
- [Obrigado] - ele agradeceu antes de levantar a caneca para beber um pouco de água, as mãos ainda fracas, mas a necessidade de beber lhe fez até engasgar e tossir um pouco. Levantou o olhar para o homem que tinha lhe tirado do porto quando a mulher disse que ele “era uma boa pessoa”, e só imaginou que se fosse verdade, seria uma novidade para um novo dono. - [Meu dono?]<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Zazou</span></div>
<br />
Só quando o adolescente falou que não tinha nome, a garota franziu a testa, perdendo toda a leve animação de encontrar algum conterrâneo em Cerise. Ela olhou por cima do ombro para Zazou e entortou os lábios.<br />
<br />
- Eu acho que ele não tem nome. – ela falou com a voz mais baixa para o traficante. Tinha notado que ele ficava meio assustado de estar em um ambiente com as pessoas falando um idioma estranho ao seu redor.<br />
<br />
Zazou já tinha encontrado muitas pessoas traficadas, mas era a primeira vez que lidava com um adolescente, e inclusive, um sem nome. Ele olhou por cima do ombro com curiosidade, até porque se ele não tinha um nome, provavelmente não deveria ter lembranças de família. Era um indicativo talvez de que ele tivesse vivido a vida inteira como escravo, e isso lhe deixou irritadíssimo. Tinha a satisfação de ter deixado Luca no porto, porque se fosse alguém com menos capacidade de lhe segurar, teria ido de volta ao navio dar uma surra em cada um dos homens que pretendiam jogar aquele garoto fora como se não fosse nada. Porque era provável que era assim que ele se sentisse: nada.<br />
<br />
Não era um sentimento a qual Zazou era estranho.<br />
<br />
A garota tomou cuidado quando o rapaz engasgou, mas supunha que era natural com as olheiras e o descaso com o qual ele tinha sido tratado. Só foi obrigada a sorrir quando ele perguntou se Zazou era seu novo dono, o que Zara queria pagar para ver, do pouco que conhecia o líder de gangue.<br />
<br />
- Ele acha que você é o novo dono dele. Já que ele não tem nome, por que não dá um a ele? Você que o salvou, deveria batizá-lo. – ela reportou ainda numa voz tranquila, tentando não assustar mais o garoto.<br />
<br />
- Não. – Zazou rosnou, olhando para a mulher com um olhar estreito, segurando a vontade de dar um cascudo nela para não assustar o garoto. – Passa um recado pra ele, e se errar, vou dizer a madrinha que você tá pegando do bar pra encher sua garrafa de tequila no armário.<br />
<br />
- Ai, tá bem, tá bem! – ela falou, fazendo um bico, estendendo as mãos para ele se acalmar.<br />
<br />
Zazou então agachou mais próximo a ela, usando um tom de voz menos ameaçador para comunicar suas palavras, lutando com vontade para ser suave uma vez na vida, porque em geral, era o oposto do que precisava na rua.<br />
<br />
- [Ele disse que não é seu dono. Nem mestre. Você mesmo é seu dono aqui. Por isso tem que descansar, dormir, comer, e ficar bom pra ter força pra fazer o que quiser.] – ela falou com calma, e então sorriu enquanto Zazou terminava de falar. – [E que estamos proibidas de lhe dar um nome. Por que você não é bicho. Quando estiver inteiro pode escolher você mesmo.] – ela virou para Zazou, com um ar debochado. – Algo mais, dono?<br />
<br />
- Vá a merda, Zara. – ele resmungou, olhando para o garoto um instante antes de levantar. Logo as meninas deveriam arrumar um quarto para ele descansar. E dali, era responsabilidade da madrinha.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Jade</span></div>
<br />
A moça que falava o seu idioma voltou a falar com o homem que devia ser seu novo dono, afinal, era ele que tinha lhe tirado do porto. Mas ele apenas baixou o olhar para o pedaço de pão e tentou comer alguma coisa, em pedaços muito pequenos, sentindo a garganta arranhar ao engolir, mas ao menos era mais comida do que tinha na longa viagem de navio. Ouviu mais conversas no idioma que não entendia e tentou não prestar muita atenção, ao menos eles não estavam gritando nem discutindo para lhe empurrar para outro lugar, ou era o que esperava.<br />
<br />
Ele ergueu a cabeça para ver o seu dono se aproximando de Zara e falando algo para ela, num tom mais baixo. Mas ao ouvir o que ela tinha a lhe dizer, piscou algumas vezes, um pouco confuso. Então o moço não era o seu novo dono? E não tinha outro dono para seguir as ordens? O que ele faria sozinho então? Ele olhou da mulher para o pedaço de pão e a caneca de água, demorando a racionalizar as coisas.<br />
<br />
- [Eu... posso usar meu nome de novo? Eu... era Qadir... antes] - ele respondeu, segurando o pedaço de pão com as duas mãos e olhando da comida para o homem que tinha lhe levado até ali. - [Obrigado, moço...]. - agradeceu ao homem no seu idioma natal, e embora não entendesse muito a nova situação em que estava, parecia menos ruim do que das últimas vezes, até então. Pegou o pão entre as mãos e mordeu de novo, engasgando mais uma vez pelo tempo que estava sem comer.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Zazou</span></div>
<br />
O olhar do garoto que parou de comer apenas para processar a informação que não teria um nome e não tinha dono foi claramente a expressão de quem não entendia o que estava acontecendo. Zazou sentiu um tique na sobrancelha, supondo que ele não devia ter paz e deveria estar passando de mão em mão há muito tempo. E sabia qual era o problema de dizer aquilo para um moleque naquele tipo de vida: é que até então ele não sabia o que era depender de si mesmo, e a perspectiva da mudança era tão dura quanto de permanecer na vida escrava. Porém esse problema, deixaria para a cafetina que cuidava dali resolver.<br />
<br />
A mulher que estava traduzindo tudo sorriu quando viu o rapaz revelar que tinha um nome e que podia usá-lo agora.<br />
- [Qadir é um nome muito bonito.] – ela comentou, notando o jeito como ele olhava para o outro e o agradecimento. Zara olhou com um ar divertido. – Qadir é o nome dele. E ele está agradecido a você.<br />
<br />
Zazou levou a mão até a nuca e coçou os fios curtos ali, sem saber o que falar, já que os dois não falavam o mesmo idioma.<br />
<br />
- Qadir... – repetiu, notando o nome muito diferente. - Zazou. – apontou para si mesmo, sem saber como se comunicar.<br />
<br />
A moça quase ignorou o traficante quando ele tentou falar sobre si, porque o garoto ainda estava engasgando com pão, e não podia bater nas costas dele para não assustá-lo.<br />
<br />
- [Pode comer devagar, Qadir.] – ela falou tranquila, abrindo um sorriso. – [E o moço diz que é Zazou... mas na verdade todas chamamos ele de Tristan quando ele não está aqui.]<br />
<br />
Zazou estreitou os olhos para a mulher, e então decidiu sair da cozinha, olhando só uma última vez para trás antes de encarar Zara, e sumir na porta.<br />
<br />
- Madrinha, a Zara roubou tequila do bar para encher a garrafa do quarto dela! – deixou o som soar da porta, e prontamente a garota ficou vermelha, bufando de raiva. Certamente tinha passado na mente dela que o outro era impossível. E talvez eventualmente Qadir fosse entender melhor sobre a vida ali em Gris.<br />
<br />
[Thread encerrada]]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[Jogo Perigoso [Magali]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=324</link>
			<pubDate>Mon, 27 Sep 2021 18:41:38 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=87">Renaud</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=324</guid>
			<description><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
A temporada de boas óperas tinha começado, e isso significava que iria tirar tempo pra si mesmo e apreciar boa música, embora não fosse o tipo de hobby que pudesse contar com a companhia de Didier ou Isaac, ou mesmo de Sasha. Ao menos podia tirar uma noite de relaxamento, e bem precisava depois de todos os dias empenhado em concluir sua grande obra, ao menos uma vez podia dizer que merecia se presentear. Naquele dia, pôs uma calça da alfaiataria preta, reta, sapatos preto e branco da L&amp;V, camisa branca, finamente passada, gravata slim preta, e um suspensório de coleção que só usava em saídas especiais, com uma faixa adicional passando no meio peito, levou um blazer apenas porque sairia muito tarde, e provavelmente estaria mais frio. Escolheu um de seus perfumes dedicado a ocasiões marcantes, Thierry Mugler, o aroma de madeira e especiarias era uma boa companhia no início da noite, e quando voltasse a St. Clavier teria um cheiro leve e frutado pra lhe embalar. <br />
<br />
Depois de enviar mensagens para Didier avisando que tinha compromisso em um evento social, seguiu para o estacionamento da academia, e quem o via certamente comprava a ideia de que ele estava indo a um casamento a alguma festa da alta sociedade de Cerise. Mas quem podia imaginar que o jovem Blanco estava apenas indo aproveitar de mais uma apresentação do clássico Jeckyll &amp; Hyde. <br />
<br />
Chegou pontualíssimo ao teatro da cidade, onde conhecia todos os funcionários, amigos de amigos da família de sua mãe, dos quais mantinha contato pelas várias idas e vindas do local. O lado bom de conhecer tantas pessoas do teatro, é que isso dava um toque adicional  a sua experiência de assistir a peça. Deixaria para cumprimentar os atores depois da mesma, sabia que a preparação e concentração para a apresentação era indispensáveis. E como bem esperava a apresentação foi impecável, as músicas cantadas com vontade e muito bem interpretados, era um deleite aos olhos.<br />
<br />
Quando as cortinas se fecharam o próprio Renaud desceu as escadas e seguiu para os bastidores, passando pelos seguranças conhecidos, parabenizando a Ária, pela apresentação e recebendo os comentários conhecidos de que ele mesmo poderia estar ali, se criasse coragem de subir no palco. Recebeu proposta de uma saída em grupo com os conhecidos do teatro, mas tinha tirado aquela noite para si mesmo, e uma saída em grupo não combinava com o que tinha planejado. Seguiu pelos corredores,  pensando se pegaria o carro para dar uma volta e sentir o cheiro salgado da praia, ou se iria tomar um vinho em qualquer lugar bonito, quando seus ouvidos captaram uma voz diferente mas muito bem afinada, as notas postas no tempo certo, embora ainda não estivesse a pleno pulmões o arpejo estava perfeitamente ajustado. Seguiu silencioso, aquela hora todo o público já devia ter saído, avistou ao longe uma mulher imersa na sua própria música, era uma cena pouco convencional, mas se pegou ali, observando a mulher de longe cantando Dangerous Game da ópera recém apresentada, e quando a música chegou no momento de entrada do cantor, não resistiu ao ímpeto de completar a sequência:<br />
<br />
-- It's a sin with a name…!<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Havia saído naquele final de tarde para visitar o teatro de Cerise e encontrar alguns velhos conhecidos da época quando havia começado a estudar na faculdade de canto. Ficou surpresa com o convite de algumas colegas de trabalho que estavam de passagem na cidade e que pareciam ter descoberto seu paradeiro agora que Henrique havia lhe ajudado, ainda que muito a contragosto, a aprender a usar suas redes sociais. Também deveria agradecer a menina Hanna por ela ter lhe auxiliado com algumas informações sobre como usar o próprio celular e o computador da instituição onde era professora. <br />
<br />
Deixou seu colega de aluguel informado sobre o espetáculo e até perguntou se ele gostaria de ir assistir o musical com ela. Como era esperado, o corretor recusou seu convite, alertando-a mais uma vez que se seu gatinho desse muito trabalho enquanto estava fora, jogaria o animal fora. Saiu para o teatro, pegando um táxi mais cedo para poder ter tempo de entrar nos bastidores e cumprimentar suas colegas. <br />
<br />
Ajustou o próprio vestido ao se acomodar nas poltronas do mezanino a fim de ter uma visão melhor da apresentação quando esta começou. Não havia como negar que naquele ambiente se sentia segura e confiante, assistindo os cantores do musical se apresentarem por horas. Sentia um pouco de inveja por um dia já ter estado naquele papel. Contudo, sentia que estava cumprindo seu propósito ao ensinar o que sabia sobre música e performance para suas queridas alunas. Algumas sempre eram mais difíceis que outra, mas tinha um carinho profundo pela própria profissão. <br />
<br />
Aplaudiu a apresentação com um sorriso de satisfação estampado na face. Demorou para que se levantasse e fosse até os bastidores. Era como se não quisesse sair dali tão cedo. Não conhecia a Ária da apresentação, mas tinha curiosidade de trocar algumas palavras com ela. Era sempre prazeroso poder conversar sobre a apresentação com os profissionais depois do espetáculo. Por fim, acabou despedindo-se dos demais, julgando que deveria de fato retornar para casa como havia prometido a Henrique. Porém, ao retomar seu trajeto para sair, notou que o palco havia sido reajustado no que pensava ser para os ensaios do dia seguinte. Observou o piano por um momento antes que seus passos lhe guiasse automaticamente para o instrumento pesado. Passou os dedos pela proteção das teclas antes de erguê-la, testando entretida a afinação de algumas das teclas. Sorriu sem sequer se dar conta e sem se dar conta, começou a tocar a melodia de introdução de uma das suas músicas favoritas da apresentação anterior. <br />
<br />
A postura era praticamente impecável enquanto que o tom de sua voz, ainda que sem o devido aquecimento, era suave com as notas do piano. Os dedos delicados deslizavam pelas teclas com a precisão de uma profissional. Para ela, tocar e cantar ao mesmo tempo era tão natural quanto respirar. E tal como respirar, sentiu um sopro de susto lhe tomar os pulmões ao se deparar com o timbre da figura masculina que se aproximava. Parou de tocar por um breve instante ao ouvir a voz do rapaz de boa aparência. O tom de voz dele era convidativo e o olhar assertivo. Não moveu o olhar da figura masculina, os dedos mais uma vez deslizando pelo piano como se encorajando o outro a continuar. <br />
<br />
- A strange romance--! <br />
<br />
Continuou a melodia, prevendo o crescente grave da música. Era natural para a professora de música cantar sozinha, em duetos ou em grupos, por isso permaneceu bastante segura quando precisou acompanhar as notas do rapaz. Aquela performance era como uma dança e sabia muito bem quando precisava permitir que o tom mais alto fosse o dele ou o seu, ou quando precisava complementá-lo. O brilho nos olhos azuis celestes era notório como se em apenas uma música fosse capaz de analisar a capacidade vocal do moreno. Em alguns momentos, ergueu o tom de propósito como se provocasse o outro a acompanhá-la e estivesse se divertindo com isso. Os braços não pareciam cansar com as teclas do piano, ainda que precisasse cobrir a carência de alguns complementos sonoros pelo violino que normalmente acompanha aquela apresentação. <br />
<br />
- It´s a Dangerous Game! Such a dangerous game! - suas expressões faciais mudavam de acordo com a emoção evocada pela música. Sabia do que se tratava a letra e a ideia de um rapaz desconhecido estar lhe acompanhando só conseguia deixá-la mais animada com o andar daquela música. Não era difícil expor expressões de uma mulher que se sentia compelida a compartilhar um “jogo perigoso” com um rapaz a quem desconhecia o comportamento, mas que possuía uma voz aprazível aos seus ouvidos. <br />
<br />
Diminuiu o toque nas teclas, encarando o outro antes de concluir a música. Sorriu naturalmente para o estranho, começando a raciocinar sobre ele, julgando que deveria ser alguém da peça anterior que talvez não tivesse dado muita atenção. O que era estranho, a julgar que não deixaria escapar um timbre de voz como o dele. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
Imaginava que depois de sua intromissão a mulher junto ao piano fosse tomada por surpresa e parasse de tocar, mas ao invés disso, ela lhe instigou a continuar cantando, os dedos da mulher eram guiados ao piano como se houvesse uma força magnética que os ligasse a melodia. E tal qual, outra pessoa amante de musicais o mais novo se perguntou internamente: "por que não?"<br />
<br />
Fazia algum tempo desde o último dueto que tinha cantando, mas a sensação de ser desafiado a fazer algo que sabia que era bom, era algo que lhe enchia de energia, então apenas aceitou aquela dança de vozes. A acústica do teatro era perfeita, e apenas caminhou no espaço buscando ficar numa distância equilibrada para que as vozes soassem em concordância. Ajustava seu próprio tom, à medida que seguia cantando, e a garganta ia aquecendo e o som crescente saindo com cada vez mais qualidade. A ponto de que logo alcançou um ponto de conforto e jogou mais emoção na própria interpretação, estava contaminado pela forte atuação que tinham recentemente assistido, então não se ocupou de julgar a capacidade vocal da mulher, apenas se ocupou de entregar o melhor que tinha pra oferecer. Com certeza conseguiria subir mais o tom se tivesse se aquecido mais adequadamente antes, porém, subiu os tons até onde era adequado e não fosse lhe causar desconforto depois, cessou a crescente ao perceber que se fosse além daquilo iria desafinar, e simplesmente não permitiria aquilo.<br />
<br />
Decresceu o tom a medida que a música alcançava seu fim, finalizando em harmonia com a mulher estranha, era como se fossem velhos amigos de canções, e não dois sujeitos cujo o tempo de conhecimento era apenas de pouco mais de três minutos.<br />
<br />
-- It's a dangerous game…!<br />
<br />
Obviamente que aquela movimentação não esperada em um palco que deveria já está silencioso chamou atenção dos funcionários locais e logo um deles surgia no portal lateral do paco:<br />
<br />
-- O que estão-... Ah! Blanco, pensei que você já tinha ido. -- O francês tinha os cabelos castanhos e tinha marcas de maquiagem na curva da mandíbula, de quem tinha recém lavado o rosto<br />
<br />
-- Não se preocupe Romero, eu e minha amiga ainda estamos muito animados com a apresentação, então acabamos invadindo o palco, desculpe por isso. -- o jovem Blanco falou com tranquilidade, assumindo parte da culpa daquela breve aventura.<br />
<br />
-- Sem problema, amanhã os ensaios começam cedo, então tudo têm de estar no lugar. -- Romero respondeu mais despreocupado espiando de um para o outro com um olhar estreito e um sorriso simples nos lábios.<br />
<br />
-- Já estamos de saída, obrigada pelo aviso. Vá descansar homem, vocês fizeram um ótimo trabalho hoje. <br />
<br />
-- Você é sempre bem vindo, e sim, eu preciso descansar, apague as luzes quando sair.<br />
<br />
-- Certo. -- Renaud sorriu de forma educada, e logo após Romero se afastar da visão dos dois, o jovem se virou na direção de sua mais nova “amiga”: -- Acho que já tivemos uma boa porção de aventura no teatro para um noite mademoiselle. Como o jovem Romero já antecipou, eu sou um Blanco, Renaud Blanco, foi um prazer cantar ao seu lado, mesmo que brevemente. <br />
<br />
O mais novo estendeu a mão na direção da mulher de forma cortês mantendo uma distância respeitosa da mesma, aproveitando aquela situação para observar as mãos da mulher de perto, afinal não queria se meter em nenhum jogo perigoso com pessoas comprometidas: --. Desculpe por assumir toda a “culpa” por nossa breve aventura, mas eu conheço a equipe desse teatro a tempo suficiente para que eles perdoassem esse tipo de "travessura". E admito que fiquei muito encantado com suas habilidades, e por isso foi um tanto irresistível subir ao palco e cantar junto.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Sua postura mudou completamente quando ouviu a voz estranha do sujeito que parecia pronto para repreendê-los. Arqueou os ombros e segurou as mãos a frente do próprio corpo na defensiva, abrindo a boca para tentar se desculpar, porém a capacidade de reconhecimento do sujeito estranho que parecia ainda estar se livrando da própria maquiagem foi mais rápida. <br />
<br />
Fechou a boca e assistiu como os dois homens pareciam se conhecer e respeitar. Estava tão inquieta por ser pega de surpresa que nem estranhou ser chamada de “amiga” pelo recém desconhecido-conhecido Blanco. <br />
<br />
- Ah… boa noite, senhor Romero, bom trabalho. - disse mais baixo, pela própria educação. Acenou para o sujeito que se retirava para descansar pouco antes do tal rapaz da voz surpreendente e estimulante estender a própria mão e educadamente se apresentar. Sorriu e relaxou os ombros, contente por ele ter gostado de cantar em dueto com sua figura, ainda que de forma improvisada. Estendeu sua mão de dedos delicados e de unhas cortadas, pintadas com um esmalte de tom neutro apenas para proteção, as marcações de calos evidentes nas pontas dos dedos devido à constância da prática em sua profissão. - Florence, Magali Rosemond Florence. Muito prazer, monsier Blanco. <br />
<br />
Riu um pouco sem graça pela definição do outro sobre o que estava fazendo ali ser uma “travessura”. Certamente no convento seria recriminada por aquele tipo de atitude. <br />
<br />
- Eu deveria agradecê-lo por me ajudar com essa “travessura”. E por me acompanhar no dueto, sua voz é bem interessante. É cantor profissional? - perguntou antes de tomar o devido cuidado antes de baixar a proteção das teclas do piano, afastando-se para observar o caminho que deveriam seguir para sair dali. Contudo, estava animada demais por encontrar um rapaz novo que apreciava música tanto quanto ela. Não queria ter de ir embora logo. - Ah, e merci pelo elogio. Sou professora de música em Limoges, é o meu trabalho, afinal. - sorriu genuinamente contente por ser elogiada por sua performance. Às vezes, chegava a sentir saudades de se apresentar, algo que não fazia há alguns anos depois de ter se tornado professora. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
A voz falada da mulher era deveras agradável também, e ela tinha um ar refinado que seria um ponto negativo se estivesse lidando com uma jovem adolescente rica, porém como não era o caso, sendo uma mulher adulta, notoriamente não sendo da alta sociedade de Cerise, podia dar um crédito a situação. Apertou a mão da mulher, suavemente, sentindo a textura dos dedos, os calos proeminentes da prática do Piano, e a doce fragrância feminina, Beaty Pompom. Renaud sabia que sua mão tinha uma textura mais áspera, e diversas pequenas marcas de guerra de brigas antigas, não era certamente o toque macio que se esperaria de uma mão de pessoa rica que nunca precisou fazer nada físico. Levou a mão da mulher próximo do próprio rosto, fazendo menção de beija-lhe o topo, mas apenas se aproximou sem de fato encostar, queria ser cortês, mas não excessivamente invasivo, embora o gesto em si já fosse suficientemente teatral para o momento:<br />
<br />
- Estou longe de ser um profissional, mas estudei música por muitos anos, além de conhecer muita gente que trabalha com teatro e eventos. -- o moreno mais novo sorriu carismático, mantendo a distância de um braço entre os dois, e levando uma das mãos ao bolso enquanto com a outra fazia pequenos gestos enquanto seguiam para fora do espaço do teatro:<br />
<br />
- Pra ser professora de uma instituição renomada como Limoges com certeza a mademoiselle tem um currículo extenso. - cerceou a mulher de elogios, e o fato dela parar justamente na entrada do teatro, e não buscar caminho para o estacionamento lhe deu uma brecha para fazer um convite e quem sabe estender aquela noite um pouco:<br />
<br />
- E admito que fiquei curioso pra saber mais do seu trabalho e perdoe a minha inconveniência, mas também queria conhecer um pouco mais da sua pessoa. Se for possível, e do seu interesse, poderíamos estender essa noite um pouco em um jantar?<br />
<br />
Renaud usou de seu ar mais cordial e educado, sorrindo e mantendo uma distância respeitosa, esperaria ter alguma brecha mais notória, para quem sabe tornar um jantar social, e uma noite de diversão mais interessante. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Estranhou a textura dos dedos do rapaz, mas não comentou nada, imaginando que talvez ele fosse um musicista também. Talvez alguém que gostava de instrumentos de cordas e não usava tanto assim a própria voz. A ideia de que o sujeito poderia ser como um dos rapazes dos romances que costumava ler, com mãos calejadas e traços misteriosos lhe fez sorrir discretamente, perdida na própria imaginação por um segundo. Encarou o rapaz, sentindo um leve arrepio na nuca apenas diante da menção dos lábios dele tocando seus dedos. Sequer conseguiu esconder o rubor de constrangimento com o gesto. <br />
<br />
- Um… jantar? - repetiu ao saírem do teatro, pensativa sobre a oportunidade. <br />
<br />
Era um rapaz de bela voz, boa aparência, que estava sendo bem educado com sua figura e poderia dividir um interesse em comum com a música. Não costumava encontrar muitos rapazes, principalmente por ser professora em Limoges. E muito menos lidar com figuras masculinas gentis, ainda mais quando dividia aluguel com alguém como Henrique. E foi pensando em Henrique que lhe ocorreu a ideia de aceitar aquele convite. <br />
<br />
- Ah, sim. - concordou com um sorriso gentil, passando a procurar o próprio celular na bolsa. - Eu só preciso avisar ao meu amigo que vou chegar um pouco mais tarde hoje. Ele deve estar me esperando. - informou, esperando se manter mais segura com a ideia de que o recém conhecido rapaz agora sabia que havia um homem lhe esperando e que não estava sozinha na cidade. Na verdade, queria falar que entraria em contato com seu irmão, já que Henrique lhe lembrava muito do comportamento de seus irmãos mais velhos, mas aquilo seria uma mentira e logo então, um pecado bem consciente de sua parte. <br />
<br />
Acompanhou o moreno, diminuindo o passo devido a dificuldade de digitar e caminhar ao mesmo tempo. Esperou que o outro avisasse sobre o lugar para onde iriam e continuou digitando, concentrada na própria tela enquanto os dedos procuravam o teclado e as letras, sem sequer se dar ao trabalho de esconder a própria tela do novo conhecido. <br />
<br />
Magali [21:45, xx, xx, ano] Henrique, boa noite. Estou saindo com um rapaz que conheci no teatro. O nome dele é Renaud Blanco. Ele é bem educado. Estamos indo no Terrance. Voltarei depois do jantar. Qualquer coisa, é só me ligar. Durma bem. Deus abençoe. <br />
<br />
Logo após enviar a mensagem, guardou o celular na bolsa e voltou sua atenção para o rapaz, sorrindo-lhe amigável. <br />
<br />
- Desculpe pela distração, não sou muito ágil com o teclado do celular. - riu um pouco sem graça. - Na verdade, meus dedos são apenas ágeis quando se trata de instrumentos. - explicou, tentando se distrair da própria falta de tato com tecnologia.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
Não podia negar que a senhorita Florence era uma mulher bonita, simples, mas atraente, de uma olhada já imaginava que ela não fosse o tipo de mulher que se entregaria a uma noite desvairada de libertinagem, porém, não impedia o jovem Blanco de explorar o terreno e trocar flertes. E Renaud sequer tinha a intenção de uma noite de sexo, queria apenas se divertir trocando cantadas, olhares e sorrisos, porque às vezes você até quer se sentir um pedaço de carne, outra vezes você quer apenas flertar pela diversão de flertar. <br />
<br />
Esperou que ela conversasse com o amigo com quem aparentemente dividia moradia, e era curioso como ela estava construindo aquela narrativa de pessoa que tinha um “porto seguro” pra onde voltar. Como se o próprio Renaud tivesse construindo uma narrativa predatória, não era o caso, claro que podia soar como um cara muito charmoso e sexualmente atrativo, mas não estava usando nenhuma daquelas qualidades no momento. Estava apenas sendo educado e cordial.<br />
<br />
-- Sem problema, tome o tempo que precisar. -- Respondeu educadamente, sorrindo cordial, para logo após guiá-la até o seu veículo, abrindo a porta para que a mulher entrasse primeiro, fechando-a em seguida, para logo após dar a volta no mesmo e ocupar o lugar do motorista. Conversaram sobre trivialidades da apresentação anterior no carro durante o trajeto até o hotel. O restaurante Terrasse que tinha quatro andares do hotel apenas para seu espaço, com um lobby de degraus amadeirados escuros, e poltronas modernas retangulares de um rosa avermelhado que contrastava com a madeira, o espaço era amplo e agradável e o lado oposto dava vista a orla de Cerise em um grande paredão de estrutura metálica com vidro.<br />
<br />
Desceu e deixou o carro com o manobrista para que ele estacionasse seu veículo, e esperou que Magali a acompanhasse para irem até a recepção do restaurante, a recepcionista reconhecendo a figura do jovem Blanco que eventualmente ia até lá para reuniões de negócios. Depois de seguirem até uma das mesas com dois lugares, um a frente do outro, o jovem Blanco ainda puxou a cadeira para que a Magali se acomodasse para só então sentar no outro lugar:<br />
<br />
-- Bem Mademoiselle Florence, o cardápio do Terranse é extenso, se tiver alguma preferência: frutos do mar, aves, carne vermelha posso sugerir algum prato da casa mais adequado, mas independente disso todos são bons. -- Comentou com um ar confiante no rosto de traços comuns.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Ficou quieta enquanto o outro lhe guiava para o veículo, colocando o cinto de segurança em si mesma antes de bloquear a tela do próprio celular. Ocupou-se em acompanhar o trajeto até o local que ele estava planejando lhe levar, entretida com o cenário no caminho, vez ou outra olhando de relance para os detalhes do carro onde estava acomodada. Parecia bem limpo, parecia ter acabado de sair de fábrica, sem nenhum chaveiro ou acessório como costumava ver nos veículos de suas colegas de trabalho. <br />
<br />
Desceu do veículo, surpresa, observando todo o ambiente que exalava exuberância e cifrões que poderiam pesar em sua conta bancária. Poderia conter em sua própria alimentação e comer algo mais reforçado quando chegasse em casa, apenas para não dormir com a sensação de insatisfação ou fome. <br />
<br />
- Merci. - agradeceu diante da gentileza dele ao puxar sua cadeira para que se acomodasse. Ficou observando ainda o lugar de forma a contemplar sua beleza, entretida com a visão marítima de onde estavam. - Ah… o que? Perdão, monsieur. O lugar é muito bonito. - respondeu, esboçando um sorriso um pouco sem graça, pois poderia jurar que ele havia falado algo que não estava prestando atenção a priori. - Oh, onde monsieur estudou? Parece um cantor profissional! Ou melhor, parece ter uma habilidade natural para a música. Sua noção de espaço e tempo em um dueto improvisado são incríveis! Na primeira vez que me aventurei em um dueto, a minha voz ficou presa, sabe? - explicou, desatando a falar, gesticulando todo o tempo, levando a mão até a própria garganta para indicar quando havia perdido a voz. - Monsieur já se apresentou antes? Uma aluna minha me disse uma vez que existe esse lugar, um sítio, só que virtual, onde as pessoas colocam vídeos e apresentações. Talvez eu possa encontrá-lo lá também. - perguntou, animada com a ideia de estar na presença de alguém que compartilhava do mesmo entusiasmo pela arte da música. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
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O moreno mais novo não ficou exatamente surpreso da mulher se pegar deslumbrada com o espaço ao seu redor, apesar de achar que o teatro e a apresentação tinham sido muito mais estonteantes, para quem não estava acostumada a frequentar restaurantes a visão do espaço poderia distrair. Sorriu entretido quando a senhorita Florence começou a questionar sobre suas base de estudo, já engatilhando uma fala sobre sua própria vivência, ela certamente gostava de falar, o que era bom, porque podia usar do que ela falava para engajar flertes. Não entendeu imediatamente o que ela quis dizer com “sítio”, seria um “site”? O sobrenome Florence era certamente francês, e todo o trejeito da mulher falando não lhe lembrava nenhum sotaque específico, então apenas abstraiu o trecho incompreensível:<br />
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- Não vai encontrar nenhuma gravação minha hospedada em nenhum lugar, como lhe disse antes não sou um profissional, meus estudos foram particulares por sete ou oito anos, estou mais próximo de um Hobbysta, na verdade. - O Blanco cruzou as pernas de forma masculina, com uma postura bastante altiva e confiante, e fez um aceno breve para que o Garçom se aproximasse da mesa dos dois: - Boa noite, eu e minha acompanhante buscamos algo interessante para o jantar, pra entrada Tartare, seguido de Civet de lapin, acompanhado de legumes gratinados, como bebida água com gás para começar. Obrigado. <br />
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O Garçom tomou nota fez um aceno com a cabeça, serviu água aos dois na mesa e depois deixou os dois a sós novamente. Logo em seguida, o moreno mais novo encarou a mulher a sua frente com um sorriso mais charmoso que carismático, os olhos escuros se estreitando discretamente: - E eu sinceramente não consigo imaginar a sua voz saindo presa dado ao que eu pude apreciar hoje. Imagino que até quando a mademoiselle desafina deve ser algo gracioso de ouvir. - elogiou sem qualquer pudor, apenas para ver que tipo de reação a mulher teria.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
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Era surpreendente como um rapaz de aparência jovem como ele poderia ter tanta noção musical e não ser um profissional na área. Deus deveria mesmo estar agindo de forma misteriosa e abençoando-o com aquela habilidade cativante - pensou. Ergueu o olhar para o garçom quando ele se aproximou para que pedissem os pratos. Respondeu com um discreto “boa noite”, mantendo as mãos sobre o colo e a boa postura de quem estava acostumada a passar horas no piano. <br />
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- Hahah! - riu do elogio, a risada limpa e suave. - Eu não sei, eu não costumo desafinar faz algum tempo. Minha educação musical foi bastante restrita para que eu me acostumasse a perceber minha própria voz e os sons ao redor. - voltou sua atenção para a direção que o garçom havia ido, sequer parecendo perceber o que poderia o jovem querer dizer com sua figura “desafinando”. - Oi, não é melhor que eu peça o meu prato também? <br />
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Estendeu a mão sobre a mesa, procurando o cardápio que aparentemente não foi necessário para o moreno fazer o pedido. Pressionou os lábios, confusa. <br />
<br />
- Monsieur deve estar bem habituado com este lugar. - levou o indicador até o próprio queixo, ponderando. - Desculpe perguntar, mas não acha que vai sair um pouco caro comermos aqui? - perguntou, desviando o olhar por um instantes, desconcertada com a própria pergunta. Recebia um bom salário como professora de Limoges, mas não era exatamente rica e não fazia ideia dos preços do lugar.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
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O moreno mais novo ouviu com atenção o relato sobre a educação musical restrita da mulher a sua frente e imaginava que conseguir um nível de maestria não se conseguia sem esforço e era isso que dividia um artista verdadeiro de um hobbysta como o próprio moreno era. Quando a senhorita Florence pareceu confusa do fato do Garçom não ter oferecido o cardápio e apenas ter aceitado sua sugestão e saído, manteve a postura e levou o braço até o apoio da poltrona, levou a mão ao queixo, de forma charmosa, e sorriu galante:<br />
<br />
- Eu frequento esse lugar em reuniões de trabalho, então já sei os melhores pratos, como eu já tinha lhe dito. E sim, esse lugar é um dos restaurantes mais caros da cidade. -  Nem fez rodeios quanto aquele ponto, porque não iria mentir, e porque queria ver que tipo de reação tiraria da mulher diante de si, não gostava de se gabar que era rico, mas também não podia negar que queria oferecer algo digno das habilidades vocais da mulher: <br />
<br />
-  Não se preocupe com isso mademoiselle Florence, que tipo de cavalheiro eu seria se lhe convidasse para um restaurante e não arcasse com os custos do mesmo. Eu a trouxe aqui, porque queria lhe oferecer algo que fosse a altura das suas habilidades, perdoe se pareço petulante, mas não nego que fiquei deslumbrado com sua atuação, por isso nada mais justo em retribuir com um jantar.<br />
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O moreno alargou mais o sorriso, usando de todo o seu charme herdado do sangue espanhol que os Blanco carregam, estava flertando um pouco mais diretamente, e estava verdadeiramente ansioso para que tipo de reação a mulher teria a suas investidas mais diretas.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
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Encarou o rapaz com um certo rubor no rosto por estar sendo tratada daquela forma por um sujeito bonito e que frequentava lugares requintados como aquele. Baixou o olhar por um momento, afastando uma mecha do cabelo escuro para trás de sua orelha, brincando com o brinco entre seus dedos, ponderando. <br />
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- E-eu agradeço muito pela sua bondade, monsieur. - respondeu, de fato sem saber como reagir ao tratamento oferecido pelo sujeito. - Eu não… costumo sair para lugares assim. Muito menos acompanhada. - admitiu, criando coragem e finalmente voltando a observar o outro. <br />
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Tentou imaginar que tipo de motivos o outro teria por lhe ter trazido naquele lugar e imediatamente se recordou de um livro que não fazia muito tempo havia terminado de ler e até ido assistir um filme na companhia de sua colega de trabalho, a senhora Lukashenko. <br />
<br />
- Desculpe perguntar, mas o monsieur já ouviu falar do livro “50 Tons de Cinza”? - perguntou sem pensar duas vezes, achando a situação no mínimo curiosa considerando o que já havia lido muitas vezes em seus livros colecionáveis de romance barato em banca de revista. Não que estivesse aguardando nenhum tipo de romance com aquele rapaz. E ele estava sendo bastante respeitoso com sua figura naquele momento. Nem todo mundo naquela cidade havia sido respeitoso com ela. Convivia com um homem que constantemente questionava suas escolhas e comportamentos. - Desculpe, é um livro bobo. Eu descobri quando me mudei para cá. O senhor não deve ter lido esse tipo de livro barato. - acenou com a mão, respondendo sua própria pergunta com um tanto de embaraço. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
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O jogo de Flertes era algo que divertia imensamente o jovem Blanco, podia não ser bom em ler pessoas no dia a dia, porém, já estava plenamente habituado a toda a linguagem corporal das pessoas quando elas estavam interessadas. A forma como a morena desviou o olhar para não ter de encará-lo diretamente, o rubor que foi quase simultâneo apenas lhe confirmando que ela estava começando a absorver seus elogios diretos. A mão levada ao cabelo, colocando-o por trás da orelha deixava mais exposto a região do pescoço e a pele alva, era um sinal claro de interesse. Se não fosse completamente deselegante da sua parte lamberia os caninos, mas apenas seguiu ouvindo a narrativa da mulher.<br />
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Porém ficou surpreso quando o assunto virou-se na direção de um literatura, principalmente pela citação para um livro justamente como “50 tons de cinza”, a sua vontade imediata era rir, mas sorriu de forma comedida: <br />
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- Não se preocupe, eu não vou tirar um contrato de sub de dentro do terno pra lhe oferecer mademoiselle Florence.  - usou um tom claro de brincadeira em sua fala, principalmente para não assustar a mulher a sua frente, com a possibilidade de está saindo com um maluco que já fica sugerindo coisas de dom e sub em um primeiro encontro pra uma pessoa que notoriamente não era da comunidade. Porém, poderia brincar não era?<br />
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- Se fosse o caso nosso primeiro encontro teria de ter um Pinot Grigio, ou Pinot Gris, como chamamos aqui na França, que não, não combina com todo prato, quem dirá com carne de veado de uma sopa de urtiga que é mais forte, ele é um vinho coringa sim, mas é refrescante e combina com comidas suaves ou cremosas. - Comentou delatando que já tinha lido o livro em questão e se lembrava bem das cenas de interesse: - Posso citar várias coisas do livro, ou mesmo falar de uvas cinzas, ou apenas ficar aqui admirando a sua pessoa, e em qualquer uma dessas opções, sei que seria uma noite agradável. <br />
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O Blanco destilou um pouco mais de charme, sem se preocupar em soar cafona, afinal, uma pessoa que gosta verdadeiramente de cinquenta tons de cinza, está entre o convencional romântico, e uma extravagância irrealista que traga emoção. Então podia se dar ao luxo de ser exagerado em algumas colocações, quantos tons de rubor podia tirar da jovem Florence?<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
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Voltou o olhar para o moreno a sua frente quando ele sorriu e mencionou não ter nenhum contrato de sub dentro do próprio terno. Inclinou a cabeça na lateral antes de ajustar o próprio par de óculos, arqueando uma sobrancelha até entender que ele deveria estar fazendo menção ao conteúdo do livro que havia citado. E logo depois ele estava falando sobre vinho e pratos chiques. Podia jurar que ele estava mencionando o vinho do livro que havia lido e acabou por sorrir até um pouco surpresa por ele ser um rapaz que, apesar de aparentar ter bastante dinheiro, ainda arrumava tempo para aquele tipo de literatura barata. <br />
<br />
Foi então que ele admitiu que todas as referências eram provenientes do livro e o elogio a sua companhia fez com que sentisse o rosto arder pela vergonha em, de fato, poder se sentir dentro de uma das cenas presentes no livro. Pressionou as próprias coxas, uma contra a outra, e voltou a ajustar o par de óculos antes de fazer menção de se levantar. <br />
<br />
- Perdão, mas… eu… eu gostaria de ir ao banheiro… - pediu como se fosse dele a permissão que precisava para se retirar. Sorriu ainda um tanto desconsertada e pensou, talvez pela segunda vez em que tinha uma experiência como aquela, que não deveria ter se dado ao trabalho de ler um livro como aquele se algum dia sairia para um jantar surpresa com um rapaz bonito e rico. <br />
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Meneou a cabeça em um pedido de “licença” antes de se retirar, quase esbarrando em um dos atendentes do rico estabelecimento antes de pedir desculpas novamente e pedir a localização do tal banheiro. Precisava esfriar um pouco a cabeça e colocar as ideias em ordem. Na inquietação momentânea, havia deixado para trás a própria bolsa e o celular. <br />
<br />
Ao chegar no banheiro, removeu o par de óculos, tomando cuidado ao molhar as mãos e levar os dedos úmidos e frios até o próprio pescoço, respirando fundo enquanto evitava pensar sobre o tal livro e a situação coincidentemente parecida na qual se encontrava. Quando se deu conta, a água havia borrado um pouco de sua maquiagem e acabou por sentir falta da própria bolsa. Sem saída, removeu a maquiagem com cuidado e auxílio de alguns lencinhos daquele banheiro luxuoso, imaginando que Henrique estaria rindo de sua falta de tato e distração naquele momento.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
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Renaud tinha certeza que os seus comentários galantes tinham acertado bem onde queria, só não esperava que a mulher de fato saísse correndo para o banheiro, será que estava sendo muito predatório? Ou será que a mulher não costumava receber elogios diretos? A verdade era que o motivo pouco importava, o que realmente divertia o jovem Blanco era saber que conseguia deixar outra pessoa desconcertada e deslumbrada apenas com um par de palavras. <br />
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Pegou a taça com água e tomou um gole breve, para molhar a garganta e foi em tempo do garçom trazer os pratos que tinha pedido, as saladas de tartare com cores vibrantes alternando entre o escuro do vinagre balsâmico, com as folhas de cor verde forte. O prato a base de coelho tinha tons róseos alaranjados, que trazia a suculência sem parecer pesado, assim como as lebres são, pequenas, leves, suaves, mas ainda assim muito apetitosas; Os legumes traziam tons fortes de laranja, amarelo e verde, ainda emanando vapor, era uma refeição completa, sem ser pesada demais para um par de cantores. <br />
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Renaud alternou o cruzar das pernas de forma masculina e manteve a taça de água entre os dedos, bebericando enquanto esperava sua companhia noturna, já que seria deselegante começar a refeição sem a pessoa que tinha convidado para o jantar. Sorriu charmoso, quando avistou sua companhia retornando, agora notando a ausência de maquiagem no pescoço e a mudança suave no tom de pele entre o rosto, e apenas esperou que ela se reacomodasse a mesa:<br />
<br />
- Estava esperando seu retorno, não começaria o jantar sem a minha acompanhante. - devolveu a taça de água a mesa: - Como estou dirigindo não pretendo beber nada alcoólico, mas se quiser algo em especial posso requisitar, se estiver curiosa, posso pedir um Pinot Gris pra saber que gosto tem, e ele harmoniza razoavelmente com carne de coelho.  <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
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Retornou ainda tentando manter a boa compostura quando se deu conta da quantidade de pratos coloridos e de boa aparência sobre a mesa. Prendeu a respiração por um momento antes de se ajustar na cadeira em que antes estava acomodada. Ouviu por alto o que o moreno dizia, só erguendo o olhar da comida para ele quando ouviu ele sugerir que pediria um vinho. O aroma dos pratos também era delicioso. Mal podia esperar para provar aqueles legumes no vapor. <br />
<br />
- Ah… - meneou a cabeça de forma negativa, pensando em quanto um vinho iria adicionar em sua conta. - Perdão, monsieur Blanco, mas isso não é comida demais? Eu acho que a conta vai ficar muito alta… quero dizer, não que monsieur não possa pagar, eu imagino que pode, com certeza. Mas é que eu não sei… o quanto poderei pagar do meu próprio jantar… quero dizer, essa comida parece deliciosa e… - fez uma breve pausa, tocando o próprio pescoço com os dedos delicados. - Perdão, eu não faço ideia do quanto este jantar vai custar. Talvez eu devesse ter conversado sobre isso antes. Desculpe. <br />
<br />
Pediu um tanto sem graça, acostumada a pedir mais desculpas do que deveria quando se via em uma situação constrangedora como aquela. Queria ter o conforto da certeza de que mesmo sozinha seria capaz de pagar por tudo aquilo, mas estava dividindo o aluguel de uma casa justamente por não se sentir capaz de administrar aquelas contas sozinha. Obviamente que poderia ter escolhido um apartamento em Limoges para viver com algumas de suas colegas de trabalho, mas já estava cansada de viver sob o modelo de um internato. <br />
<br />
Respirou fundo e pegou os talheres de forma educada e formal, acostumada com a boa etiqueta que lhe foi entregue no convento e durante o estudo de música na universidade para mulheres. Sorriu de forma discreta antes de saborear um pouco da salada primeiro, escolhendo deixar os legumes no vapor, sua parte favorita, por último. <br />
<br />
- Ah, perdão. Eu não… não costumo beber álcool. - informou, certa de que a bebida não lhe fazia muito bem. Tinha um metabolismo muito rápido e eficaz. - Eu… talvez se eu soubesse dirigir poderia ajudá-lo. - sugeriu amistosa antes de voltar a observar o moreno novamente com certa curiosidade. - O senhor trabalha com o que? - resolveu perguntar, intrigada com o ramo de negócios que aquele homem poderia ter para tratar a música como se fosse um hobbie. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
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Era até fácil de notar como a mulher a sua frente não estava habituada a encontros em restaurantes, ela parecia exacerbada pela quantidade de pratos e principalmente pelo valor que aquilo poderia custar. O jovem Blanco retornou a taça de água a mesa e manteve o sorriso charmoso estreitando os olhos na direção da figura feminina a sua frente:  - Não precisa se preocupar em pagar por nada, que tipo de acompanhante eu seria se lhe chamasse para um jantar e não me responsabilizasse pela conta. Seria muito deselegante da minha parte para um primeiro encontro. -  O moreno mais novo fez questão de ressaltar que era um encontro, apenas para tirar mais reações da mulher a sua frente: - mas não faça cerimônias, se esperarmos mais a comida vai esfriar e perder o ápice do seu sabor particular. Eu não gosto de usar motoristas, por isso eu mesmo dirijo, então não se sinta culpada por isso em particular.<br />
<br />
 Comentou em um tom suave e cordial, começando a se servir primeiro da salada e depois seguido do coelho e legumes, provando cada pequena porção e aproveitando o sabor suculento característico, que fazia daquele lugar um dos seus restaurantes preferidos. Em tempo de ouvir a pergunta de com o que trabalhava especificamente, retornou os talheres a mesa, e bebericando um breve gole de água para limpar a garganta:<br />
<br />
- Eu trabalho na área de química dos alimentos, então eu fico responsável por análise de amostras de alimentícios em geral, geralmente esse processo é feito de forma interna na própria fábrica. No entanto, tecnologias novas estão sempre sendo implementadas, e as normas de qualidade exigem testes externos para garantir segurança. Eu trabalho especificamente no laboratório da Universidade Paris-Sud, onde fico responsável principalmente pelo banco de dados. - O moreno sorriu balançando suavemente a taça de água na mão: - Eu com certeza não tenho cara de cientista que fica de jaleco em um laboratório o dia todo, mas eu gosto do meu trabalho.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
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Sentiu o rubor mais uma vez lhe tomar a face com a ideia de estar tendo um “primeiro encontro” com aquele rapaz tão charmoso e um lugar tão elegante. Com certeza, Henrique não acreditaria se contasse a ele o que estava acontecendo. Começou a se servir da salada e, comendo em pequenas porções. Ergueu o olhar novamente para o rapaz charmoso, pensativa quando ele começou a falar sobre novas tecnologias. Riu baixo com a imagem dele em um jaleco branco trabalhando em um laboratório em sua mente. Já havia observado que alguns professores de St. Clavier pareciam ter aquele perfil de cientistas pesquisadores. <br />
<br />
- Hm. Eu tenho muitos problemas com tecnologia para falar a verdade. Minhas alunas sabem muito sobre lives e canais de youtube e tutoriais… mas tudo me parece tão alienígena. - explicou, fazendo uma pausa para experimentar o coelho, surpresa com o sabor da comida antes de começar a saborear a carne de fato. - Eu queria poder lhe agradecer por ter me acompanhado no dueto hoje. Não costumo ter muita companhia quando vou cantar. Ah… - fez uma nova pausa, usando o guardanapos para limpar os lábios, removendo um pouco do próprio batom no processo. - E por me ajudar com aquele seu amigo… eu não sei o que tinha na minha cabeça para começar a tocar um piano que não era meu. Eu deveria tomar mais cuidado com a propriedade alheia. Espero que ele não tenha ficado chateado comigo. - explicou, sorrindo discreta antes de voltar a saborear do coelho, não comendo muito da carne, mas aproveitando bem mais os acompanhamentos. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
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Era no mínimo peculiar como a senhorita a sua frente engatava os assuntos e os mudava logo em seguida, como se estivesse seguindo uma conversa mental onde o jovem Blanco não estava participando. E não sabia dizer se ela fazia isso de forma consciente para fugir de suas investidas sutis, ou se era apenas falta de traquejo social para manter uma conversa. O moreno sorriu de forma discreta encarando a figura feminina a sua frente enquanto ela narrava sua falta de habilidade para uso de tecnologias em detrimento de suas alunas, e sabia bem como era, professores com doutorado que sequer sabiam ligar um datashow antes de começar a aula, era mais comum do que a mulher a sua frente poderia supor. <br />
<br />
Mas não teve como conter o arquear de sobrancelhas quando a senhorita destacou que queria lhe agradecer por ter acompanhado no dueto, talvez ela não considerasse a própria companhia em um jantar como agradecimento o suficiente. Sorriu um pouco mais descontraído quando ela ainda destacou a ajuda pra se livrar da possível bronca dos funcionários do teatro: -- Mademoiselle Florence. Por favor, não há necessidade de me agradecer por nada, muito pelo contrário, sua pequena travessura no palco, me divertiu, não a acompanharia se não tivesse me cativado com sua habilidade no piano. -- ergueu a taça de água levemente a frente apontando na direção da mulher como um aceno educado, depois retornando a peça a mesa:<br />
<br />
 -- Os funcionários do teatro de Cerise estão acostumados com minhas peripécias, afinal, eu frequento aquele lugar desde a infância, já que minha mãe trabalha com organização de eventos e muitas das companhias de artistas que vêm à cidade, chegam por intermédio da empresa dela. Então fique tranquila, não foi nem a primeira vez que alguém invadiu aquele palco, e nem será a última. <br />
<br />
O jovem Blanco se serviu do jantar, apreciando o sabor da comida pedida, mas sempre vez ou outra deixando a refeição de lado para seguir a conversa com a senhorita a sua frente, a forma séria com que ela encarava a profissão de musicista em contraste com a falta de desenvoltura social, era uma combinação bem inesperada, mas que lhe trazia certa familiaridade.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Ficou aliviada quando o rapaz elogiou sua habilidade no piano. Possuía anos de prática e não era pra menos que conseguia tocar bem dizer qualquer coisa no instrumento. Também possuía conhecimento em flauta transversal, violão e violino como pré-requisitos para que entrasse no curso de preparação para regência. Ficou atenta ao ouvir o sujeito falar sobre a própria figura materna. Baixou o olhar por um instante, não era muito próxima de sua própria mãe e sabia que não estava no trajeto profissional ou pessoal que ela gostaria, mas ainda assim se sentia muito à vontade ao ouvir terceiros falando sobre o papel de suas matriarcas na vida deles. Contudo, ficou surpresa com a ideia de que poderia subir no palco novamente. Era como se estivesse falando com algum agente empreendedor de eventos que estivesse interessado em sua performance. <br />
<br />
- Sua mãe deve ter muito orgulho. É um rapaz bem inteligente para ser bom em algo que trata como passatempo. - comentou em um tom mais tranquilo, experimentando da comida em seu prato e ficando mais uma vez surpresa em como o sabor era delicioso ao seu paladar inexperiente. - Hm. - fez uma breve pausa, não conseguia comer rápido ou em grandes porções de qualquer forma. - O que quer dizer com… “não será a última”? - resolveu perguntar para sanar sua curiosidade logo de uma vez. <br />
<br />
Ainda estava ruborizada na presença do outro, mas diante da boa comida e da conversa que se estendia, começava a se sentir mais à vontade. Ele até então havia sido bastante educado e decente, então não viu motivos para se sentir desconfortável ou tentar escapar daquela situação. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
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Para o jovem Blanco era uma diversão notar como a despeito de todos os seus elogios e flertes direto a senhorita Florence persistia muito bem. Aos poucos, tomando um pouco mais de tempo entre mudar um assunto e outro. Ocupou-se em saborear a comida enquanto ela ainda estava em ponto de ser comida sem prejuízo em seu sabor único. O comentário preciso sobre sua matriarca não o incomodava diretamente, sabia que a mulher não tinha nenhum orgulho de si, apenas cobranças, mas não era nada diferente do que se espera de uma mãe socialite parisiense. No entanto, a reação mais pontual sobre uma possível oportunidade de tocar e cantar novamente no palco deixou a musicista interessada. Pegou a taça de água em mãos e tomou um gole, estreitando os olhos escuros para mulher, fazendo um breve silêncio, antes de respondê-la:<br />
<br />
- Quis dizer que não somos os únicos indulgentes a aprontar naquele teatro - retornou a taça a mesa e uniu as duas mãos, na altura do colo: - Mas considerando as suas habilidades, acredito piamente que o palco seja seu habitat natural.<br />
<br />
Claro que se a mulher a sua frente não tivesse qualidade o suficiente para tal, sequer lançaria aquela ideia, não era de alimentar expectativas que não poderia cumprir. Flertava porque era um bom amante, e se elogiava era porque a pessoa era digna de apreciação:<br />
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- É claro, não posso me comprometer demais, no entanto, posso ser uma ponte de contatos. O que acha Mademoiselle Florence?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
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A temporada de boas óperas tinha começado, e isso significava que iria tirar tempo pra si mesmo e apreciar boa música, embora não fosse o tipo de hobby que pudesse contar com a companhia de Didier ou Isaac, ou mesmo de Sasha. Ao menos podia tirar uma noite de relaxamento, e bem precisava depois de todos os dias empenhado em concluir sua grande obra, ao menos uma vez podia dizer que merecia se presentear. Naquele dia, pôs uma calça da alfaiataria preta, reta, sapatos preto e branco da L&amp;V, camisa branca, finamente passada, gravata slim preta, e um suspensório de coleção que só usava em saídas especiais, com uma faixa adicional passando no meio peito, levou um blazer apenas porque sairia muito tarde, e provavelmente estaria mais frio. Escolheu um de seus perfumes dedicado a ocasiões marcantes, Thierry Mugler, o aroma de madeira e especiarias era uma boa companhia no início da noite, e quando voltasse a St. Clavier teria um cheiro leve e frutado pra lhe embalar. <br />
<br />
Depois de enviar mensagens para Didier avisando que tinha compromisso em um evento social, seguiu para o estacionamento da academia, e quem o via certamente comprava a ideia de que ele estava indo a um casamento a alguma festa da alta sociedade de Cerise. Mas quem podia imaginar que o jovem Blanco estava apenas indo aproveitar de mais uma apresentação do clássico Jeckyll &amp; Hyde. <br />
<br />
Chegou pontualíssimo ao teatro da cidade, onde conhecia todos os funcionários, amigos de amigos da família de sua mãe, dos quais mantinha contato pelas várias idas e vindas do local. O lado bom de conhecer tantas pessoas do teatro, é que isso dava um toque adicional  a sua experiência de assistir a peça. Deixaria para cumprimentar os atores depois da mesma, sabia que a preparação e concentração para a apresentação era indispensáveis. E como bem esperava a apresentação foi impecável, as músicas cantadas com vontade e muito bem interpretados, era um deleite aos olhos.<br />
<br />
Quando as cortinas se fecharam o próprio Renaud desceu as escadas e seguiu para os bastidores, passando pelos seguranças conhecidos, parabenizando a Ária, pela apresentação e recebendo os comentários conhecidos de que ele mesmo poderia estar ali, se criasse coragem de subir no palco. Recebeu proposta de uma saída em grupo com os conhecidos do teatro, mas tinha tirado aquela noite para si mesmo, e uma saída em grupo não combinava com o que tinha planejado. Seguiu pelos corredores,  pensando se pegaria o carro para dar uma volta e sentir o cheiro salgado da praia, ou se iria tomar um vinho em qualquer lugar bonito, quando seus ouvidos captaram uma voz diferente mas muito bem afinada, as notas postas no tempo certo, embora ainda não estivesse a pleno pulmões o arpejo estava perfeitamente ajustado. Seguiu silencioso, aquela hora todo o público já devia ter saído, avistou ao longe uma mulher imersa na sua própria música, era uma cena pouco convencional, mas se pegou ali, observando a mulher de longe cantando Dangerous Game da ópera recém apresentada, e quando a música chegou no momento de entrada do cantor, não resistiu ao ímpeto de completar a sequência:<br />
<br />
-- It's a sin with a name…!<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Havia saído naquele final de tarde para visitar o teatro de Cerise e encontrar alguns velhos conhecidos da época quando havia começado a estudar na faculdade de canto. Ficou surpresa com o convite de algumas colegas de trabalho que estavam de passagem na cidade e que pareciam ter descoberto seu paradeiro agora que Henrique havia lhe ajudado, ainda que muito a contragosto, a aprender a usar suas redes sociais. Também deveria agradecer a menina Hanna por ela ter lhe auxiliado com algumas informações sobre como usar o próprio celular e o computador da instituição onde era professora. <br />
<br />
Deixou seu colega de aluguel informado sobre o espetáculo e até perguntou se ele gostaria de ir assistir o musical com ela. Como era esperado, o corretor recusou seu convite, alertando-a mais uma vez que se seu gatinho desse muito trabalho enquanto estava fora, jogaria o animal fora. Saiu para o teatro, pegando um táxi mais cedo para poder ter tempo de entrar nos bastidores e cumprimentar suas colegas. <br />
<br />
Ajustou o próprio vestido ao se acomodar nas poltronas do mezanino a fim de ter uma visão melhor da apresentação quando esta começou. Não havia como negar que naquele ambiente se sentia segura e confiante, assistindo os cantores do musical se apresentarem por horas. Sentia um pouco de inveja por um dia já ter estado naquele papel. Contudo, sentia que estava cumprindo seu propósito ao ensinar o que sabia sobre música e performance para suas queridas alunas. Algumas sempre eram mais difíceis que outra, mas tinha um carinho profundo pela própria profissão. <br />
<br />
Aplaudiu a apresentação com um sorriso de satisfação estampado na face. Demorou para que se levantasse e fosse até os bastidores. Era como se não quisesse sair dali tão cedo. Não conhecia a Ária da apresentação, mas tinha curiosidade de trocar algumas palavras com ela. Era sempre prazeroso poder conversar sobre a apresentação com os profissionais depois do espetáculo. Por fim, acabou despedindo-se dos demais, julgando que deveria de fato retornar para casa como havia prometido a Henrique. Porém, ao retomar seu trajeto para sair, notou que o palco havia sido reajustado no que pensava ser para os ensaios do dia seguinte. Observou o piano por um momento antes que seus passos lhe guiasse automaticamente para o instrumento pesado. Passou os dedos pela proteção das teclas antes de erguê-la, testando entretida a afinação de algumas das teclas. Sorriu sem sequer se dar conta e sem se dar conta, começou a tocar a melodia de introdução de uma das suas músicas favoritas da apresentação anterior. <br />
<br />
A postura era praticamente impecável enquanto que o tom de sua voz, ainda que sem o devido aquecimento, era suave com as notas do piano. Os dedos delicados deslizavam pelas teclas com a precisão de uma profissional. Para ela, tocar e cantar ao mesmo tempo era tão natural quanto respirar. E tal como respirar, sentiu um sopro de susto lhe tomar os pulmões ao se deparar com o timbre da figura masculina que se aproximava. Parou de tocar por um breve instante ao ouvir a voz do rapaz de boa aparência. O tom de voz dele era convidativo e o olhar assertivo. Não moveu o olhar da figura masculina, os dedos mais uma vez deslizando pelo piano como se encorajando o outro a continuar. <br />
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- A strange romance--! <br />
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Continuou a melodia, prevendo o crescente grave da música. Era natural para a professora de música cantar sozinha, em duetos ou em grupos, por isso permaneceu bastante segura quando precisou acompanhar as notas do rapaz. Aquela performance era como uma dança e sabia muito bem quando precisava permitir que o tom mais alto fosse o dele ou o seu, ou quando precisava complementá-lo. O brilho nos olhos azuis celestes era notório como se em apenas uma música fosse capaz de analisar a capacidade vocal do moreno. Em alguns momentos, ergueu o tom de propósito como se provocasse o outro a acompanhá-la e estivesse se divertindo com isso. Os braços não pareciam cansar com as teclas do piano, ainda que precisasse cobrir a carência de alguns complementos sonoros pelo violino que normalmente acompanha aquela apresentação. <br />
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- It´s a Dangerous Game! Such a dangerous game! - suas expressões faciais mudavam de acordo com a emoção evocada pela música. Sabia do que se tratava a letra e a ideia de um rapaz desconhecido estar lhe acompanhando só conseguia deixá-la mais animada com o andar daquela música. Não era difícil expor expressões de uma mulher que se sentia compelida a compartilhar um “jogo perigoso” com um rapaz a quem desconhecia o comportamento, mas que possuía uma voz aprazível aos seus ouvidos. <br />
<br />
Diminuiu o toque nas teclas, encarando o outro antes de concluir a música. Sorriu naturalmente para o estranho, começando a raciocinar sobre ele, julgando que deveria ser alguém da peça anterior que talvez não tivesse dado muita atenção. O que era estranho, a julgar que não deixaria escapar um timbre de voz como o dele. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
Imaginava que depois de sua intromissão a mulher junto ao piano fosse tomada por surpresa e parasse de tocar, mas ao invés disso, ela lhe instigou a continuar cantando, os dedos da mulher eram guiados ao piano como se houvesse uma força magnética que os ligasse a melodia. E tal qual, outra pessoa amante de musicais o mais novo se perguntou internamente: "por que não?"<br />
<br />
Fazia algum tempo desde o último dueto que tinha cantando, mas a sensação de ser desafiado a fazer algo que sabia que era bom, era algo que lhe enchia de energia, então apenas aceitou aquela dança de vozes. A acústica do teatro era perfeita, e apenas caminhou no espaço buscando ficar numa distância equilibrada para que as vozes soassem em concordância. Ajustava seu próprio tom, à medida que seguia cantando, e a garganta ia aquecendo e o som crescente saindo com cada vez mais qualidade. A ponto de que logo alcançou um ponto de conforto e jogou mais emoção na própria interpretação, estava contaminado pela forte atuação que tinham recentemente assistido, então não se ocupou de julgar a capacidade vocal da mulher, apenas se ocupou de entregar o melhor que tinha pra oferecer. Com certeza conseguiria subir mais o tom se tivesse se aquecido mais adequadamente antes, porém, subiu os tons até onde era adequado e não fosse lhe causar desconforto depois, cessou a crescente ao perceber que se fosse além daquilo iria desafinar, e simplesmente não permitiria aquilo.<br />
<br />
Decresceu o tom a medida que a música alcançava seu fim, finalizando em harmonia com a mulher estranha, era como se fossem velhos amigos de canções, e não dois sujeitos cujo o tempo de conhecimento era apenas de pouco mais de três minutos.<br />
<br />
-- It's a dangerous game…!<br />
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Obviamente que aquela movimentação não esperada em um palco que deveria já está silencioso chamou atenção dos funcionários locais e logo um deles surgia no portal lateral do paco:<br />
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-- O que estão-... Ah! Blanco, pensei que você já tinha ido. -- O francês tinha os cabelos castanhos e tinha marcas de maquiagem na curva da mandíbula, de quem tinha recém lavado o rosto<br />
<br />
-- Não se preocupe Romero, eu e minha amiga ainda estamos muito animados com a apresentação, então acabamos invadindo o palco, desculpe por isso. -- o jovem Blanco falou com tranquilidade, assumindo parte da culpa daquela breve aventura.<br />
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-- Sem problema, amanhã os ensaios começam cedo, então tudo têm de estar no lugar. -- Romero respondeu mais despreocupado espiando de um para o outro com um olhar estreito e um sorriso simples nos lábios.<br />
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-- Já estamos de saída, obrigada pelo aviso. Vá descansar homem, vocês fizeram um ótimo trabalho hoje. <br />
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-- Você é sempre bem vindo, e sim, eu preciso descansar, apague as luzes quando sair.<br />
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-- Certo. -- Renaud sorriu de forma educada, e logo após Romero se afastar da visão dos dois, o jovem se virou na direção de sua mais nova “amiga”: -- Acho que já tivemos uma boa porção de aventura no teatro para um noite mademoiselle. Como o jovem Romero já antecipou, eu sou um Blanco, Renaud Blanco, foi um prazer cantar ao seu lado, mesmo que brevemente. <br />
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O mais novo estendeu a mão na direção da mulher de forma cortês mantendo uma distância respeitosa da mesma, aproveitando aquela situação para observar as mãos da mulher de perto, afinal não queria se meter em nenhum jogo perigoso com pessoas comprometidas: --. Desculpe por assumir toda a “culpa” por nossa breve aventura, mas eu conheço a equipe desse teatro a tempo suficiente para que eles perdoassem esse tipo de "travessura". E admito que fiquei muito encantado com suas habilidades, e por isso foi um tanto irresistível subir ao palco e cantar junto.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Sua postura mudou completamente quando ouviu a voz estranha do sujeito que parecia pronto para repreendê-los. Arqueou os ombros e segurou as mãos a frente do próprio corpo na defensiva, abrindo a boca para tentar se desculpar, porém a capacidade de reconhecimento do sujeito estranho que parecia ainda estar se livrando da própria maquiagem foi mais rápida. <br />
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Fechou a boca e assistiu como os dois homens pareciam se conhecer e respeitar. Estava tão inquieta por ser pega de surpresa que nem estranhou ser chamada de “amiga” pelo recém desconhecido-conhecido Blanco. <br />
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- Ah… boa noite, senhor Romero, bom trabalho. - disse mais baixo, pela própria educação. Acenou para o sujeito que se retirava para descansar pouco antes do tal rapaz da voz surpreendente e estimulante estender a própria mão e educadamente se apresentar. Sorriu e relaxou os ombros, contente por ele ter gostado de cantar em dueto com sua figura, ainda que de forma improvisada. Estendeu sua mão de dedos delicados e de unhas cortadas, pintadas com um esmalte de tom neutro apenas para proteção, as marcações de calos evidentes nas pontas dos dedos devido à constância da prática em sua profissão. - Florence, Magali Rosemond Florence. Muito prazer, monsier Blanco. <br />
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Riu um pouco sem graça pela definição do outro sobre o que estava fazendo ali ser uma “travessura”. Certamente no convento seria recriminada por aquele tipo de atitude. <br />
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- Eu deveria agradecê-lo por me ajudar com essa “travessura”. E por me acompanhar no dueto, sua voz é bem interessante. É cantor profissional? - perguntou antes de tomar o devido cuidado antes de baixar a proteção das teclas do piano, afastando-se para observar o caminho que deveriam seguir para sair dali. Contudo, estava animada demais por encontrar um rapaz novo que apreciava música tanto quanto ela. Não queria ter de ir embora logo. - Ah, e merci pelo elogio. Sou professora de música em Limoges, é o meu trabalho, afinal. - sorriu genuinamente contente por ser elogiada por sua performance. Às vezes, chegava a sentir saudades de se apresentar, algo que não fazia há alguns anos depois de ter se tornado professora. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
A voz falada da mulher era deveras agradável também, e ela tinha um ar refinado que seria um ponto negativo se estivesse lidando com uma jovem adolescente rica, porém como não era o caso, sendo uma mulher adulta, notoriamente não sendo da alta sociedade de Cerise, podia dar um crédito a situação. Apertou a mão da mulher, suavemente, sentindo a textura dos dedos, os calos proeminentes da prática do Piano, e a doce fragrância feminina, Beaty Pompom. Renaud sabia que sua mão tinha uma textura mais áspera, e diversas pequenas marcas de guerra de brigas antigas, não era certamente o toque macio que se esperaria de uma mão de pessoa rica que nunca precisou fazer nada físico. Levou a mão da mulher próximo do próprio rosto, fazendo menção de beija-lhe o topo, mas apenas se aproximou sem de fato encostar, queria ser cortês, mas não excessivamente invasivo, embora o gesto em si já fosse suficientemente teatral para o momento:<br />
<br />
- Estou longe de ser um profissional, mas estudei música por muitos anos, além de conhecer muita gente que trabalha com teatro e eventos. -- o moreno mais novo sorriu carismático, mantendo a distância de um braço entre os dois, e levando uma das mãos ao bolso enquanto com a outra fazia pequenos gestos enquanto seguiam para fora do espaço do teatro:<br />
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- Pra ser professora de uma instituição renomada como Limoges com certeza a mademoiselle tem um currículo extenso. - cerceou a mulher de elogios, e o fato dela parar justamente na entrada do teatro, e não buscar caminho para o estacionamento lhe deu uma brecha para fazer um convite e quem sabe estender aquela noite um pouco:<br />
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- E admito que fiquei curioso pra saber mais do seu trabalho e perdoe a minha inconveniência, mas também queria conhecer um pouco mais da sua pessoa. Se for possível, e do seu interesse, poderíamos estender essa noite um pouco em um jantar?<br />
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Renaud usou de seu ar mais cordial e educado, sorrindo e mantendo uma distância respeitosa, esperaria ter alguma brecha mais notória, para quem sabe tornar um jantar social, e uma noite de diversão mais interessante. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
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Estranhou a textura dos dedos do rapaz, mas não comentou nada, imaginando que talvez ele fosse um musicista também. Talvez alguém que gostava de instrumentos de cordas e não usava tanto assim a própria voz. A ideia de que o sujeito poderia ser como um dos rapazes dos romances que costumava ler, com mãos calejadas e traços misteriosos lhe fez sorrir discretamente, perdida na própria imaginação por um segundo. Encarou o rapaz, sentindo um leve arrepio na nuca apenas diante da menção dos lábios dele tocando seus dedos. Sequer conseguiu esconder o rubor de constrangimento com o gesto. <br />
<br />
- Um… jantar? - repetiu ao saírem do teatro, pensativa sobre a oportunidade. <br />
<br />
Era um rapaz de bela voz, boa aparência, que estava sendo bem educado com sua figura e poderia dividir um interesse em comum com a música. Não costumava encontrar muitos rapazes, principalmente por ser professora em Limoges. E muito menos lidar com figuras masculinas gentis, ainda mais quando dividia aluguel com alguém como Henrique. E foi pensando em Henrique que lhe ocorreu a ideia de aceitar aquele convite. <br />
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- Ah, sim. - concordou com um sorriso gentil, passando a procurar o próprio celular na bolsa. - Eu só preciso avisar ao meu amigo que vou chegar um pouco mais tarde hoje. Ele deve estar me esperando. - informou, esperando se manter mais segura com a ideia de que o recém conhecido rapaz agora sabia que havia um homem lhe esperando e que não estava sozinha na cidade. Na verdade, queria falar que entraria em contato com seu irmão, já que Henrique lhe lembrava muito do comportamento de seus irmãos mais velhos, mas aquilo seria uma mentira e logo então, um pecado bem consciente de sua parte. <br />
<br />
Acompanhou o moreno, diminuindo o passo devido a dificuldade de digitar e caminhar ao mesmo tempo. Esperou que o outro avisasse sobre o lugar para onde iriam e continuou digitando, concentrada na própria tela enquanto os dedos procuravam o teclado e as letras, sem sequer se dar ao trabalho de esconder a própria tela do novo conhecido. <br />
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Magali [21:45, xx, xx, ano] Henrique, boa noite. Estou saindo com um rapaz que conheci no teatro. O nome dele é Renaud Blanco. Ele é bem educado. Estamos indo no Terrance. Voltarei depois do jantar. Qualquer coisa, é só me ligar. Durma bem. Deus abençoe. <br />
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Logo após enviar a mensagem, guardou o celular na bolsa e voltou sua atenção para o rapaz, sorrindo-lhe amigável. <br />
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- Desculpe pela distração, não sou muito ágil com o teclado do celular. - riu um pouco sem graça. - Na verdade, meus dedos são apenas ágeis quando se trata de instrumentos. - explicou, tentando se distrair da própria falta de tato com tecnologia.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
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Não podia negar que a senhorita Florence era uma mulher bonita, simples, mas atraente, de uma olhada já imaginava que ela não fosse o tipo de mulher que se entregaria a uma noite desvairada de libertinagem, porém, não impedia o jovem Blanco de explorar o terreno e trocar flertes. E Renaud sequer tinha a intenção de uma noite de sexo, queria apenas se divertir trocando cantadas, olhares e sorrisos, porque às vezes você até quer se sentir um pedaço de carne, outra vezes você quer apenas flertar pela diversão de flertar. <br />
<br />
Esperou que ela conversasse com o amigo com quem aparentemente dividia moradia, e era curioso como ela estava construindo aquela narrativa de pessoa que tinha um “porto seguro” pra onde voltar. Como se o próprio Renaud tivesse construindo uma narrativa predatória, não era o caso, claro que podia soar como um cara muito charmoso e sexualmente atrativo, mas não estava usando nenhuma daquelas qualidades no momento. Estava apenas sendo educado e cordial.<br />
<br />
-- Sem problema, tome o tempo que precisar. -- Respondeu educadamente, sorrindo cordial, para logo após guiá-la até o seu veículo, abrindo a porta para que a mulher entrasse primeiro, fechando-a em seguida, para logo após dar a volta no mesmo e ocupar o lugar do motorista. Conversaram sobre trivialidades da apresentação anterior no carro durante o trajeto até o hotel. O restaurante Terrasse que tinha quatro andares do hotel apenas para seu espaço, com um lobby de degraus amadeirados escuros, e poltronas modernas retangulares de um rosa avermelhado que contrastava com a madeira, o espaço era amplo e agradável e o lado oposto dava vista a orla de Cerise em um grande paredão de estrutura metálica com vidro.<br />
<br />
Desceu e deixou o carro com o manobrista para que ele estacionasse seu veículo, e esperou que Magali a acompanhasse para irem até a recepção do restaurante, a recepcionista reconhecendo a figura do jovem Blanco que eventualmente ia até lá para reuniões de negócios. Depois de seguirem até uma das mesas com dois lugares, um a frente do outro, o jovem Blanco ainda puxou a cadeira para que a Magali se acomodasse para só então sentar no outro lugar:<br />
<br />
-- Bem Mademoiselle Florence, o cardápio do Terranse é extenso, se tiver alguma preferência: frutos do mar, aves, carne vermelha posso sugerir algum prato da casa mais adequado, mas independente disso todos são bons. -- Comentou com um ar confiante no rosto de traços comuns.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
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Ficou quieta enquanto o outro lhe guiava para o veículo, colocando o cinto de segurança em si mesma antes de bloquear a tela do próprio celular. Ocupou-se em acompanhar o trajeto até o local que ele estava planejando lhe levar, entretida com o cenário no caminho, vez ou outra olhando de relance para os detalhes do carro onde estava acomodada. Parecia bem limpo, parecia ter acabado de sair de fábrica, sem nenhum chaveiro ou acessório como costumava ver nos veículos de suas colegas de trabalho. <br />
<br />
Desceu do veículo, surpresa, observando todo o ambiente que exalava exuberância e cifrões que poderiam pesar em sua conta bancária. Poderia conter em sua própria alimentação e comer algo mais reforçado quando chegasse em casa, apenas para não dormir com a sensação de insatisfação ou fome. <br />
<br />
- Merci. - agradeceu diante da gentileza dele ao puxar sua cadeira para que se acomodasse. Ficou observando ainda o lugar de forma a contemplar sua beleza, entretida com a visão marítima de onde estavam. - Ah… o que? Perdão, monsieur. O lugar é muito bonito. - respondeu, esboçando um sorriso um pouco sem graça, pois poderia jurar que ele havia falado algo que não estava prestando atenção a priori. - Oh, onde monsieur estudou? Parece um cantor profissional! Ou melhor, parece ter uma habilidade natural para a música. Sua noção de espaço e tempo em um dueto improvisado são incríveis! Na primeira vez que me aventurei em um dueto, a minha voz ficou presa, sabe? - explicou, desatando a falar, gesticulando todo o tempo, levando a mão até a própria garganta para indicar quando havia perdido a voz. - Monsieur já se apresentou antes? Uma aluna minha me disse uma vez que existe esse lugar, um sítio, só que virtual, onde as pessoas colocam vídeos e apresentações. Talvez eu possa encontrá-lo lá também. - perguntou, animada com a ideia de estar na presença de alguém que compartilhava do mesmo entusiasmo pela arte da música. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
O moreno mais novo não ficou exatamente surpreso da mulher se pegar deslumbrada com o espaço ao seu redor, apesar de achar que o teatro e a apresentação tinham sido muito mais estonteantes, para quem não estava acostumada a frequentar restaurantes a visão do espaço poderia distrair. Sorriu entretido quando a senhorita Florence começou a questionar sobre suas base de estudo, já engatilhando uma fala sobre sua própria vivência, ela certamente gostava de falar, o que era bom, porque podia usar do que ela falava para engajar flertes. Não entendeu imediatamente o que ela quis dizer com “sítio”, seria um “site”? O sobrenome Florence era certamente francês, e todo o trejeito da mulher falando não lhe lembrava nenhum sotaque específico, então apenas abstraiu o trecho incompreensível:<br />
<br />
- Não vai encontrar nenhuma gravação minha hospedada em nenhum lugar, como lhe disse antes não sou um profissional, meus estudos foram particulares por sete ou oito anos, estou mais próximo de um Hobbysta, na verdade. - O Blanco cruzou as pernas de forma masculina, com uma postura bastante altiva e confiante, e fez um aceno breve para que o Garçom se aproximasse da mesa dos dois: - Boa noite, eu e minha acompanhante buscamos algo interessante para o jantar, pra entrada Tartare, seguido de Civet de lapin, acompanhado de legumes gratinados, como bebida água com gás para começar. Obrigado. <br />
<br />
O Garçom tomou nota fez um aceno com a cabeça, serviu água aos dois na mesa e depois deixou os dois a sós novamente. Logo em seguida, o moreno mais novo encarou a mulher a sua frente com um sorriso mais charmoso que carismático, os olhos escuros se estreitando discretamente: - E eu sinceramente não consigo imaginar a sua voz saindo presa dado ao que eu pude apreciar hoje. Imagino que até quando a mademoiselle desafina deve ser algo gracioso de ouvir. - elogiou sem qualquer pudor, apenas para ver que tipo de reação a mulher teria.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Era surpreendente como um rapaz de aparência jovem como ele poderia ter tanta noção musical e não ser um profissional na área. Deus deveria mesmo estar agindo de forma misteriosa e abençoando-o com aquela habilidade cativante - pensou. Ergueu o olhar para o garçom quando ele se aproximou para que pedissem os pratos. Respondeu com um discreto “boa noite”, mantendo as mãos sobre o colo e a boa postura de quem estava acostumada a passar horas no piano. <br />
<br />
- Hahah! - riu do elogio, a risada limpa e suave. - Eu não sei, eu não costumo desafinar faz algum tempo. Minha educação musical foi bastante restrita para que eu me acostumasse a perceber minha própria voz e os sons ao redor. - voltou sua atenção para a direção que o garçom havia ido, sequer parecendo perceber o que poderia o jovem querer dizer com sua figura “desafinando”. - Oi, não é melhor que eu peça o meu prato também? <br />
<br />
Estendeu a mão sobre a mesa, procurando o cardápio que aparentemente não foi necessário para o moreno fazer o pedido. Pressionou os lábios, confusa. <br />
<br />
- Monsieur deve estar bem habituado com este lugar. - levou o indicador até o próprio queixo, ponderando. - Desculpe perguntar, mas não acha que vai sair um pouco caro comermos aqui? - perguntou, desviando o olhar por um instantes, desconcertada com a própria pergunta. Recebia um bom salário como professora de Limoges, mas não era exatamente rica e não fazia ideia dos preços do lugar.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
O moreno mais novo ouviu com atenção o relato sobre a educação musical restrita da mulher a sua frente e imaginava que conseguir um nível de maestria não se conseguia sem esforço e era isso que dividia um artista verdadeiro de um hobbysta como o próprio moreno era. Quando a senhorita Florence pareceu confusa do fato do Garçom não ter oferecido o cardápio e apenas ter aceitado sua sugestão e saído, manteve a postura e levou o braço até o apoio da poltrona, levou a mão ao queixo, de forma charmosa, e sorriu galante:<br />
<br />
- Eu frequento esse lugar em reuniões de trabalho, então já sei os melhores pratos, como eu já tinha lhe dito. E sim, esse lugar é um dos restaurantes mais caros da cidade. -  Nem fez rodeios quanto aquele ponto, porque não iria mentir, e porque queria ver que tipo de reação tiraria da mulher diante de si, não gostava de se gabar que era rico, mas também não podia negar que queria oferecer algo digno das habilidades vocais da mulher: <br />
<br />
-  Não se preocupe com isso mademoiselle Florence, que tipo de cavalheiro eu seria se lhe convidasse para um restaurante e não arcasse com os custos do mesmo. Eu a trouxe aqui, porque queria lhe oferecer algo que fosse a altura das suas habilidades, perdoe se pareço petulante, mas não nego que fiquei deslumbrado com sua atuação, por isso nada mais justo em retribuir com um jantar.<br />
<br />
O moreno alargou mais o sorriso, usando de todo o seu charme herdado do sangue espanhol que os Blanco carregam, estava flertando um pouco mais diretamente, e estava verdadeiramente ansioso para que tipo de reação a mulher teria a suas investidas mais diretas.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Encarou o rapaz com um certo rubor no rosto por estar sendo tratada daquela forma por um sujeito bonito e que frequentava lugares requintados como aquele. Baixou o olhar por um momento, afastando uma mecha do cabelo escuro para trás de sua orelha, brincando com o brinco entre seus dedos, ponderando. <br />
<br />
- E-eu agradeço muito pela sua bondade, monsieur. - respondeu, de fato sem saber como reagir ao tratamento oferecido pelo sujeito. - Eu não… costumo sair para lugares assim. Muito menos acompanhada. - admitiu, criando coragem e finalmente voltando a observar o outro. <br />
<br />
Tentou imaginar que tipo de motivos o outro teria por lhe ter trazido naquele lugar e imediatamente se recordou de um livro que não fazia muito tempo havia terminado de ler e até ido assistir um filme na companhia de sua colega de trabalho, a senhora Lukashenko. <br />
<br />
- Desculpe perguntar, mas o monsieur já ouviu falar do livro “50 Tons de Cinza”? - perguntou sem pensar duas vezes, achando a situação no mínimo curiosa considerando o que já havia lido muitas vezes em seus livros colecionáveis de romance barato em banca de revista. Não que estivesse aguardando nenhum tipo de romance com aquele rapaz. E ele estava sendo bastante respeitoso com sua figura naquele momento. Nem todo mundo naquela cidade havia sido respeitoso com ela. Convivia com um homem que constantemente questionava suas escolhas e comportamentos. - Desculpe, é um livro bobo. Eu descobri quando me mudei para cá. O senhor não deve ter lido esse tipo de livro barato. - acenou com a mão, respondendo sua própria pergunta com um tanto de embaraço. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
O jogo de Flertes era algo que divertia imensamente o jovem Blanco, podia não ser bom em ler pessoas no dia a dia, porém, já estava plenamente habituado a toda a linguagem corporal das pessoas quando elas estavam interessadas. A forma como a morena desviou o olhar para não ter de encará-lo diretamente, o rubor que foi quase simultâneo apenas lhe confirmando que ela estava começando a absorver seus elogios diretos. A mão levada ao cabelo, colocando-o por trás da orelha deixava mais exposto a região do pescoço e a pele alva, era um sinal claro de interesse. Se não fosse completamente deselegante da sua parte lamberia os caninos, mas apenas seguiu ouvindo a narrativa da mulher.<br />
<br />
Porém ficou surpreso quando o assunto virou-se na direção de um literatura, principalmente pela citação para um livro justamente como “50 tons de cinza”, a sua vontade imediata era rir, mas sorriu de forma comedida: <br />
<br />
- Não se preocupe, eu não vou tirar um contrato de sub de dentro do terno pra lhe oferecer mademoiselle Florence.  - usou um tom claro de brincadeira em sua fala, principalmente para não assustar a mulher a sua frente, com a possibilidade de está saindo com um maluco que já fica sugerindo coisas de dom e sub em um primeiro encontro pra uma pessoa que notoriamente não era da comunidade. Porém, poderia brincar não era?<br />
<br />
- Se fosse o caso nosso primeiro encontro teria de ter um Pinot Grigio, ou Pinot Gris, como chamamos aqui na França, que não, não combina com todo prato, quem dirá com carne de veado de uma sopa de urtiga que é mais forte, ele é um vinho coringa sim, mas é refrescante e combina com comidas suaves ou cremosas. - Comentou delatando que já tinha lido o livro em questão e se lembrava bem das cenas de interesse: - Posso citar várias coisas do livro, ou mesmo falar de uvas cinzas, ou apenas ficar aqui admirando a sua pessoa, e em qualquer uma dessas opções, sei que seria uma noite agradável. <br />
<br />
O Blanco destilou um pouco mais de charme, sem se preocupar em soar cafona, afinal, uma pessoa que gosta verdadeiramente de cinquenta tons de cinza, está entre o convencional romântico, e uma extravagância irrealista que traga emoção. Então podia se dar ao luxo de ser exagerado em algumas colocações, quantos tons de rubor podia tirar da jovem Florence?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Voltou o olhar para o moreno a sua frente quando ele sorriu e mencionou não ter nenhum contrato de sub dentro do próprio terno. Inclinou a cabeça na lateral antes de ajustar o próprio par de óculos, arqueando uma sobrancelha até entender que ele deveria estar fazendo menção ao conteúdo do livro que havia citado. E logo depois ele estava falando sobre vinho e pratos chiques. Podia jurar que ele estava mencionando o vinho do livro que havia lido e acabou por sorrir até um pouco surpresa por ele ser um rapaz que, apesar de aparentar ter bastante dinheiro, ainda arrumava tempo para aquele tipo de literatura barata. <br />
<br />
Foi então que ele admitiu que todas as referências eram provenientes do livro e o elogio a sua companhia fez com que sentisse o rosto arder pela vergonha em, de fato, poder se sentir dentro de uma das cenas presentes no livro. Pressionou as próprias coxas, uma contra a outra, e voltou a ajustar o par de óculos antes de fazer menção de se levantar. <br />
<br />
- Perdão, mas… eu… eu gostaria de ir ao banheiro… - pediu como se fosse dele a permissão que precisava para se retirar. Sorriu ainda um tanto desconsertada e pensou, talvez pela segunda vez em que tinha uma experiência como aquela, que não deveria ter se dado ao trabalho de ler um livro como aquele se algum dia sairia para um jantar surpresa com um rapaz bonito e rico. <br />
<br />
Meneou a cabeça em um pedido de “licença” antes de se retirar, quase esbarrando em um dos atendentes do rico estabelecimento antes de pedir desculpas novamente e pedir a localização do tal banheiro. Precisava esfriar um pouco a cabeça e colocar as ideias em ordem. Na inquietação momentânea, havia deixado para trás a própria bolsa e o celular. <br />
<br />
Ao chegar no banheiro, removeu o par de óculos, tomando cuidado ao molhar as mãos e levar os dedos úmidos e frios até o próprio pescoço, respirando fundo enquanto evitava pensar sobre o tal livro e a situação coincidentemente parecida na qual se encontrava. Quando se deu conta, a água havia borrado um pouco de sua maquiagem e acabou por sentir falta da própria bolsa. Sem saída, removeu a maquiagem com cuidado e auxílio de alguns lencinhos daquele banheiro luxuoso, imaginando que Henrique estaria rindo de sua falta de tato e distração naquele momento.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
Renaud tinha certeza que os seus comentários galantes tinham acertado bem onde queria, só não esperava que a mulher de fato saísse correndo para o banheiro, será que estava sendo muito predatório? Ou será que a mulher não costumava receber elogios diretos? A verdade era que o motivo pouco importava, o que realmente divertia o jovem Blanco era saber que conseguia deixar outra pessoa desconcertada e deslumbrada apenas com um par de palavras. <br />
<br />
Pegou a taça com água e tomou um gole breve, para molhar a garganta e foi em tempo do garçom trazer os pratos que tinha pedido, as saladas de tartare com cores vibrantes alternando entre o escuro do vinagre balsâmico, com as folhas de cor verde forte. O prato a base de coelho tinha tons róseos alaranjados, que trazia a suculência sem parecer pesado, assim como as lebres são, pequenas, leves, suaves, mas ainda assim muito apetitosas; Os legumes traziam tons fortes de laranja, amarelo e verde, ainda emanando vapor, era uma refeição completa, sem ser pesada demais para um par de cantores. <br />
<br />
Renaud alternou o cruzar das pernas de forma masculina e manteve a taça de água entre os dedos, bebericando enquanto esperava sua companhia noturna, já que seria deselegante começar a refeição sem a pessoa que tinha convidado para o jantar. Sorriu charmoso, quando avistou sua companhia retornando, agora notando a ausência de maquiagem no pescoço e a mudança suave no tom de pele entre o rosto, e apenas esperou que ela se reacomodasse a mesa:<br />
<br />
- Estava esperando seu retorno, não começaria o jantar sem a minha acompanhante. - devolveu a taça de água a mesa: - Como estou dirigindo não pretendo beber nada alcoólico, mas se quiser algo em especial posso requisitar, se estiver curiosa, posso pedir um Pinot Gris pra saber que gosto tem, e ele harmoniza razoavelmente com carne de coelho.  <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
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Retornou ainda tentando manter a boa compostura quando se deu conta da quantidade de pratos coloridos e de boa aparência sobre a mesa. Prendeu a respiração por um momento antes de se ajustar na cadeira em que antes estava acomodada. Ouviu por alto o que o moreno dizia, só erguendo o olhar da comida para ele quando ouviu ele sugerir que pediria um vinho. O aroma dos pratos também era delicioso. Mal podia esperar para provar aqueles legumes no vapor. <br />
<br />
- Ah… - meneou a cabeça de forma negativa, pensando em quanto um vinho iria adicionar em sua conta. - Perdão, monsieur Blanco, mas isso não é comida demais? Eu acho que a conta vai ficar muito alta… quero dizer, não que monsieur não possa pagar, eu imagino que pode, com certeza. Mas é que eu não sei… o quanto poderei pagar do meu próprio jantar… quero dizer, essa comida parece deliciosa e… - fez uma breve pausa, tocando o próprio pescoço com os dedos delicados. - Perdão, eu não faço ideia do quanto este jantar vai custar. Talvez eu devesse ter conversado sobre isso antes. Desculpe. <br />
<br />
Pediu um tanto sem graça, acostumada a pedir mais desculpas do que deveria quando se via em uma situação constrangedora como aquela. Queria ter o conforto da certeza de que mesmo sozinha seria capaz de pagar por tudo aquilo, mas estava dividindo o aluguel de uma casa justamente por não se sentir capaz de administrar aquelas contas sozinha. Obviamente que poderia ter escolhido um apartamento em Limoges para viver com algumas de suas colegas de trabalho, mas já estava cansada de viver sob o modelo de um internato. <br />
<br />
Respirou fundo e pegou os talheres de forma educada e formal, acostumada com a boa etiqueta que lhe foi entregue no convento e durante o estudo de música na universidade para mulheres. Sorriu de forma discreta antes de saborear um pouco da salada primeiro, escolhendo deixar os legumes no vapor, sua parte favorita, por último. <br />
<br />
- Ah, perdão. Eu não… não costumo beber álcool. - informou, certa de que a bebida não lhe fazia muito bem. Tinha um metabolismo muito rápido e eficaz. - Eu… talvez se eu soubesse dirigir poderia ajudá-lo. - sugeriu amistosa antes de voltar a observar o moreno novamente com certa curiosidade. - O senhor trabalha com o que? - resolveu perguntar, intrigada com o ramo de negócios que aquele homem poderia ter para tratar a música como se fosse um hobbie. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
Era até fácil de notar como a mulher a sua frente não estava habituada a encontros em restaurantes, ela parecia exacerbada pela quantidade de pratos e principalmente pelo valor que aquilo poderia custar. O jovem Blanco retornou a taça de água a mesa e manteve o sorriso charmoso estreitando os olhos na direção da figura feminina a sua frente:  - Não precisa se preocupar em pagar por nada, que tipo de acompanhante eu seria se lhe chamasse para um jantar e não me responsabilizasse pela conta. Seria muito deselegante da minha parte para um primeiro encontro. -  O moreno mais novo fez questão de ressaltar que era um encontro, apenas para tirar mais reações da mulher a sua frente: - mas não faça cerimônias, se esperarmos mais a comida vai esfriar e perder o ápice do seu sabor particular. Eu não gosto de usar motoristas, por isso eu mesmo dirijo, então não se sinta culpada por isso em particular.<br />
<br />
 Comentou em um tom suave e cordial, começando a se servir primeiro da salada e depois seguido do coelho e legumes, provando cada pequena porção e aproveitando o sabor suculento característico, que fazia daquele lugar um dos seus restaurantes preferidos. Em tempo de ouvir a pergunta de com o que trabalhava especificamente, retornou os talheres a mesa, e bebericando um breve gole de água para limpar a garganta:<br />
<br />
- Eu trabalho na área de química dos alimentos, então eu fico responsável por análise de amostras de alimentícios em geral, geralmente esse processo é feito de forma interna na própria fábrica. No entanto, tecnologias novas estão sempre sendo implementadas, e as normas de qualidade exigem testes externos para garantir segurança. Eu trabalho especificamente no laboratório da Universidade Paris-Sud, onde fico responsável principalmente pelo banco de dados. - O moreno sorriu balançando suavemente a taça de água na mão: - Eu com certeza não tenho cara de cientista que fica de jaleco em um laboratório o dia todo, mas eu gosto do meu trabalho.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
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Sentiu o rubor mais uma vez lhe tomar a face com a ideia de estar tendo um “primeiro encontro” com aquele rapaz tão charmoso e um lugar tão elegante. Com certeza, Henrique não acreditaria se contasse a ele o que estava acontecendo. Começou a se servir da salada e, comendo em pequenas porções. Ergueu o olhar novamente para o rapaz charmoso, pensativa quando ele começou a falar sobre novas tecnologias. Riu baixo com a imagem dele em um jaleco branco trabalhando em um laboratório em sua mente. Já havia observado que alguns professores de St. Clavier pareciam ter aquele perfil de cientistas pesquisadores. <br />
<br />
- Hm. Eu tenho muitos problemas com tecnologia para falar a verdade. Minhas alunas sabem muito sobre lives e canais de youtube e tutoriais… mas tudo me parece tão alienígena. - explicou, fazendo uma pausa para experimentar o coelho, surpresa com o sabor da comida antes de começar a saborear a carne de fato. - Eu queria poder lhe agradecer por ter me acompanhado no dueto hoje. Não costumo ter muita companhia quando vou cantar. Ah… - fez uma nova pausa, usando o guardanapos para limpar os lábios, removendo um pouco do próprio batom no processo. - E por me ajudar com aquele seu amigo… eu não sei o que tinha na minha cabeça para começar a tocar um piano que não era meu. Eu deveria tomar mais cuidado com a propriedade alheia. Espero que ele não tenha ficado chateado comigo. - explicou, sorrindo discreta antes de voltar a saborear do coelho, não comendo muito da carne, mas aproveitando bem mais os acompanhamentos. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
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Era no mínimo peculiar como a senhorita a sua frente engatava os assuntos e os mudava logo em seguida, como se estivesse seguindo uma conversa mental onde o jovem Blanco não estava participando. E não sabia dizer se ela fazia isso de forma consciente para fugir de suas investidas sutis, ou se era apenas falta de traquejo social para manter uma conversa. O moreno sorriu de forma discreta encarando a figura feminina a sua frente enquanto ela narrava sua falta de habilidade para uso de tecnologias em detrimento de suas alunas, e sabia bem como era, professores com doutorado que sequer sabiam ligar um datashow antes de começar a aula, era mais comum do que a mulher a sua frente poderia supor. <br />
<br />
Mas não teve como conter o arquear de sobrancelhas quando a senhorita destacou que queria lhe agradecer por ter acompanhado no dueto, talvez ela não considerasse a própria companhia em um jantar como agradecimento o suficiente. Sorriu um pouco mais descontraído quando ela ainda destacou a ajuda pra se livrar da possível bronca dos funcionários do teatro: -- Mademoiselle Florence. Por favor, não há necessidade de me agradecer por nada, muito pelo contrário, sua pequena travessura no palco, me divertiu, não a acompanharia se não tivesse me cativado com sua habilidade no piano. -- ergueu a taça de água levemente a frente apontando na direção da mulher como um aceno educado, depois retornando a peça a mesa:<br />
<br />
 -- Os funcionários do teatro de Cerise estão acostumados com minhas peripécias, afinal, eu frequento aquele lugar desde a infância, já que minha mãe trabalha com organização de eventos e muitas das companhias de artistas que vêm à cidade, chegam por intermédio da empresa dela. Então fique tranquila, não foi nem a primeira vez que alguém invadiu aquele palco, e nem será a última. <br />
<br />
O jovem Blanco se serviu do jantar, apreciando o sabor da comida pedida, mas sempre vez ou outra deixando a refeição de lado para seguir a conversa com a senhorita a sua frente, a forma séria com que ela encarava a profissão de musicista em contraste com a falta de desenvoltura social, era uma combinação bem inesperada, mas que lhe trazia certa familiaridade.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
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Ficou aliviada quando o rapaz elogiou sua habilidade no piano. Possuía anos de prática e não era pra menos que conseguia tocar bem dizer qualquer coisa no instrumento. Também possuía conhecimento em flauta transversal, violão e violino como pré-requisitos para que entrasse no curso de preparação para regência. Ficou atenta ao ouvir o sujeito falar sobre a própria figura materna. Baixou o olhar por um instante, não era muito próxima de sua própria mãe e sabia que não estava no trajeto profissional ou pessoal que ela gostaria, mas ainda assim se sentia muito à vontade ao ouvir terceiros falando sobre o papel de suas matriarcas na vida deles. Contudo, ficou surpresa com a ideia de que poderia subir no palco novamente. Era como se estivesse falando com algum agente empreendedor de eventos que estivesse interessado em sua performance. <br />
<br />
- Sua mãe deve ter muito orgulho. É um rapaz bem inteligente para ser bom em algo que trata como passatempo. - comentou em um tom mais tranquilo, experimentando da comida em seu prato e ficando mais uma vez surpresa em como o sabor era delicioso ao seu paladar inexperiente. - Hm. - fez uma breve pausa, não conseguia comer rápido ou em grandes porções de qualquer forma. - O que quer dizer com… “não será a última”? - resolveu perguntar para sanar sua curiosidade logo de uma vez. <br />
<br />
Ainda estava ruborizada na presença do outro, mas diante da boa comida e da conversa que se estendia, começava a se sentir mais à vontade. Ele até então havia sido bastante educado e decente, então não viu motivos para se sentir desconfortável ou tentar escapar daquela situação. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
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Para o jovem Blanco era uma diversão notar como a despeito de todos os seus elogios e flertes direto a senhorita Florence persistia muito bem. Aos poucos, tomando um pouco mais de tempo entre mudar um assunto e outro. Ocupou-se em saborear a comida enquanto ela ainda estava em ponto de ser comida sem prejuízo em seu sabor único. O comentário preciso sobre sua matriarca não o incomodava diretamente, sabia que a mulher não tinha nenhum orgulho de si, apenas cobranças, mas não era nada diferente do que se espera de uma mãe socialite parisiense. No entanto, a reação mais pontual sobre uma possível oportunidade de tocar e cantar novamente no palco deixou a musicista interessada. Pegou a taça de água em mãos e tomou um gole, estreitando os olhos escuros para mulher, fazendo um breve silêncio, antes de respondê-la:<br />
<br />
- Quis dizer que não somos os únicos indulgentes a aprontar naquele teatro - retornou a taça a mesa e uniu as duas mãos, na altura do colo: - Mas considerando as suas habilidades, acredito piamente que o palco seja seu habitat natural.<br />
<br />
Claro que se a mulher a sua frente não tivesse qualidade o suficiente para tal, sequer lançaria aquela ideia, não era de alimentar expectativas que não poderia cumprir. Flertava porque era um bom amante, e se elogiava era porque a pessoa era digna de apreciação:<br />
<br />
- É claro, não posso me comprometer demais, no entanto, posso ser uma ponte de contatos. O que acha Mademoiselle Florence?]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[Memórias de uma Tarde de Verão [Aberto]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=302</link>
			<pubDate>Mon, 27 Sep 2021 16:25:18 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=86">Yure</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=302</guid>
			<description><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Yure</span></div>
<br />
Yure sabia que o verão sempre chegava mais cedo em Cerise, começava a fazer calor por volta de Março e se estendia por todo mês de abril até de fato as férias de verão. Mas já tinha posto na cabeça que queria ir a praia, mesmo que ainda não fosse a época ideal e água talvez estivesse meio fria. Queria tirar tempo pra juntar amigos e ir a praia, correr com a mascota, pegar sol, fazer castelos de areia, e coisas assim. Logo começaria o período infernal de St. Clavier, que envolvia, jogos internos, Saraus, Recitais, Eleições de Conselho Estudantil -  que estava decidido a participar -  e as derradeiras provas.<br />
 <br />
Se fosse esperar algum momento melhor, talvez esse momento nunca chegasse. Então telefonou para todos os amigos que podia, e avisou que estaria na praia durante toda a tarde. Não esperava que todos aparecessem, mas se pudesse trocar conversa e tirar fotos, e tomar um picolé gelado já estaria imensamente grato.<br />
 <br />
Estava sentado na sombra de uma das palmeiras que ornava a praia, com uma sunga de banho preta com listras laranjas, e um casaco de tecido fino típico de praia laranja neon, estava com a cara com marcas brancas de protetor solar, os pés afundados na areia, uma garrafa de água ao lado de si, e o ruivo mexia no celular esperando quem seria o primeiro a surgir para brincar consigo.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Havia recebido uma mensagem mais cedo de Yure convidando-o para ir à praia, diretamente, não em grupo nenhum. Costumava ignorar completamente qualquer convite de saídas de grupo, a não ser quando era um treino do time de basquete ou quando Yure aparecia subitamente em sua casa para arrasta-lo para alguma quest social. Felizmente, esse não parecia ser o caso. Fazia tempo que Charles não ia à praia, então decidiu que talvez essa fosse uma boa oportunidade, estava cansado de ficar apenas encharcado de cloro. Estranhamente ele havia pedido para que também levasse a Luma, estranhou, mas pensando na ideia do Ruivo e da gata interagindo era o suficiente para divertir Charles de baixo de um guarda-sol.<br />
<br />
Avisou à sua mãe por mensagem para onde estava indo, e colocou a roupa de banho UV, onde poderia facilmente esconder a bolsa de coleta e se sentir mais confortável, e colocou uma roupa de tecido fino com algumas estampas neon. Antes de sair, avisou ao amigo ruivo que estava à caminho. Colocou o telefone na mochila que estava levando, junto de outras tranqueirinhas e salgadinhos que sua nutricionista havia permitido, e a ajeitou na parte debaixo da sua cadeira, levando Luma dentro de sua caixinha de transporte no colo, e foi até o ponto de ônibus.<br />
<br />
Chegando até o ponto de encontro, não demorou até ver a figura neon na praia. Se fosse loira, até diria que podia ser doppelganger, além da identidade teria roubado as pernas. Se aproximou, não tão silencioso quanto gostaria graças à cadeira: - Foi um convite bem repentino - comentou, com o tom enjoado para não perder o hábito - Achei que iria vir com Monique - escutou os miados de Luma se tornarem mais resmungões dentro da caixinha de transporte, e virou para que ela pudesse ver o amigo ruivo - Aí, Luma. Seu bom amigo está aqui também - comentou sarcástico, lembrando do encontro passado dos dois regado à mordidas e planos de ataque.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Yure</span></div>
<br />
O ruivo cabeça de vento, não era idiota, sabia que se quisesse que um de seus melhores amigos interagisse com outros de seus bons amigos, teria de enganá-lo com uma mentira infantil. Tinha se sentado a sombra de uma das palmeiras próxima a rampa que dava acesso a areia da praia, porque sabia que seria complicado para o amigo se locomover na areia com a cadeira de rodas.<br />
<br />
Antes mesmo que pudesse sentir calor de fato, ouviu os resmungos próximos de Charles, ele realmente tinha ido, isso lhe deixou radiante e alargou o sorriso amplo: -- você veio mesmo! e trouxe a sua psicopata particular também! -- o ruivo levantou num pulo, acenando para um dos tios que trabalhava na praia, acenando que queria um guarda-sol e 1 cadeira de praia. O tio moreno apenas acenou de longe com um joinha já indo buscar um guarda-sol laranja para combinar com a dupla de marca-texto.<br />
<br />
O ruivo se adiantou e pegou o cestinho de Luma deixando perto de suas coisas e depois foi ajudar Charles a fazer a transferência para a cadeira de praia: -- Se não se importar, vou te dar uma mão, prometo não batucar na sua bunda. -- o ruivo levou o amigo sem maiores problemas, deixando-o lá e depois foi buscar a cadeira desmontando ela, para por junto debaixo do guarda sol: -- Hora de soltar o pequeno monstrinho. -- o ruivo abriu o cestinho e Luma saltou de lá como um animal selvagem e se agarrou no cordão do casaco do ruivo. Yure por reflexo se jogou pra trás, e a gata persistiu dando pequenas porradas no ruivo, até se dar conta que estava em um lugar estranho e correu pra debaixo da cadeira onde Charles estava.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Felizmente não estava tão quente quanto esperava, e Cerise por ser uma cidade turística tinha algumas daquelas rampas de acesso à praia, o que facilitava uma vida para Charles. Muito dos problemas que o loirinho tinha com praia, além de se sentir muito desconfortável, era a falta de acessibilidade. Quem diria que um dia sairia para a praia com um amigo.<br />
<br />
Torceu os lábios quando ele falou sobre ter trazido a psicopata particular, Luma apenas tinha seu jeito próprio de lidar com o ruivinho, tipo a maneira resmungona do cadeirante. Nada de errado: - Ela só deve gostar muito de você. - comentou sarcástico, vendo os acenos com um dos tios da praia. Ele realmente conhecia toda e qualquer pessoa. Se despediu brevemente enquanto a gata foi levada primeiro pra depois ser carregado pelo amigo, apoiou bem os braços nos ombros de Yure para facilitar o trabalho: - É bom mesmo, é facil de apertar seu pescoço daqui caso você tente alguma coisa - brincou, apertando um pouco de leve os braços ao redor do pescoço do amigo ruivo.<br />
<br />
Ficou confortável na cadeira, só fazendo minimos ajuste nas pernas para que ficasse mais à vontade, ou não acabasse com alguma dormência chata. Enquanto Yure correu para pegar a sua cadeira de rodas, encarou Luma que estava toda arrepiada dentro da caixinha, certamente um plano de fuga ela estava bolando. Quando o amigo voltou e decidiu “soltar o monstrinho”, foi o momento da gata lutar contra seu sequestrador: - Olha só, eu disse que ela gosta de você - comentou irônico ao ataque mortal da gata, logo depois de Luma perceber que os arredores não eram seus domínios cotidianos - Psss, aqui Luma. - bateu de leve na cadeira para chamar atenção da felina, mas ela pareceu mais interessada em planejar atacar sua próxima vítima: o pequeno siri que havia saído de um pequeno buraco.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Yure</span></div>
<br />
O ruivo começou a rir, achando graça da colocação sobre a gata ter um jeito dela de gostar dele, só se esse gostar estivesse relacionado a cortar em pedaços bem pequenos com aquelas garrinhas amoladas: -- Melhor prender ela na coleira e amarrar no guarda sol, pra ela não ir muito longe da gente. -- O ruivo pontuou, preocupado com a integridade de sua pequena algoz.<br />
<br />
E enquanto Charles cuidava de Luma, o ruivo, tirou foto do amigo escondido, e mandou para Monique, sabendo que a namorada tinha ao menos alguma simpatia pelo amigo resmungão.<br />
<br />
[xx/xx/2014] Yure ☆ﾐ(o*･ω･)ﾉ: Oi amor! (ง ื▿ ื)ว<br />
[xx/xx/2014] Yure ☆ﾐ(o*･ω･)ﾉ: Olha esse gato com sua gata na maior caixa de areia do mundo!<br />
[xx/xx/2014] Monique (# `Д´)ﾉ: Lá vem….<br />
[xx/xx/2014] Yure ☆ﾐ(o*･ω･)ﾉ: *enviando anexo*<br />
[xx/xx/2014] Yure ☆ﾐ(o*･ω･)ﾉ: Vai demorar muito?<br />
<br />
Terminando de enviar a mensagem o ruivo bloqueou a tela do celular, e deixou o aparelho de lado, já puxando o casaco laranja sobre a cabeça para ficar só de sunga, a pele do ruivo era apenas pouco bronzeada, e com certeza se não tivesse praticamente nadado em protetor solar, estaria completamente torrado ao final daquela tarde. dobrou a peça e pôs de lado junto a caixinha de Luma e os demais pertences:<br />
<br />
-- Hey Charles, quer brincar de fazer castelos de areia? a areia é macia, e acho que não fazer mal as suas costas nem nada. Vamos por favor! por favor! POR FAVOOOOOOOOR!!! -- o ruivo choramingou com aquela cara falsa dele, de quando queria convencer alguém, sabia que aquilo tinha pouco efeito em Charles mas não custava tentar.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Era engraçado ver os dois se estapeando mas seguiu a ideia do amigo e quando a gata se aproximou de novo foi fácil pegar a coleira colocar na felina e depois prender a outra ponta no guarda sol: - Feito. Agora você não vai poder dizimar a colônia de siris de Cerise. A protetora da cidade com certeza teria algum problema com você se fizesse isso. - comentou com a gata, recebendo apenas um miado resmungão como resposta, entendia a frustração da gata.<br />
<br />
Não entendeu bem por que Yure estava enfiado no celular, supôs que ou falando com Monique ou com algum grupo de chat. Só esperava que não aparecesse mais ninguém, ou considerando o ruivinho, que aparecesse muita gente. De um jeito ou de outro, a praia estava agradável sem muito movimento, bem poderia ficar sentado ali o resto da tarde com Luma em seu colo, isso é, se o amigo ruivo deixasse. A gata parecia bem irritada por ele colocar o casaco próximo da sua gloriosa caixa de areia, mas em seguida, se deitou sobre a peça de roupa e fez questão de se esfregar em cima.<br />
<br />
- Você sabe que essa chantagem não funciona comigo.  - respondeu seco às tentativas de Yure de conquistar aprovação. Mas pensando bem, fazia muito tempo que não ia à praia. Bem que poderia tentar. - Só aceito se os castelos fizerem algum sentido, e eles tem que ser do mesmo período. - comentou, aproveitando para tirar a parte de cima da roupa fina, ficando apenas com a roupa de banho UV. Não ia querer voltar com aquela peça encharcada em um ônibus, seria desconfortável o suficiente.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Yure</span></div>
<br />
Ter conseguido mesmo que a mínima aprovação de Charles para uma atividade completamente idiota e sem fins úteis era algo pra comemorar. O ruivo relevou a gata deitada sobre suas roupas, nada que uma escova pra tirar pêlos não resolvesse. Yure bateu palmas em sinal claro de aprovação pela disposição do amigo em segui-lo na brincadeira: -- Ah! Claro! sim cara, relaxa, podemos começar com período românico, influência dos arcos romanos nas construções de grande portew, séc XI elas vão parecer umas bacias engraçadas, lá pro séc XII a gente já tem umas construções mais gordinhas e altas. O que acha?<br />
<br />
Comentou com a propriedade de quem era filho de uma professora de história da arte, já tinha ouvido aquelas datas de sua mãe tantas vezes, visto tantos livros com fotos legais, que não tinha como aquelas informações não ficarem bem fixas em sua memória. Yure começou a cavar e logo afastou a areia seca, achando a areia mais úmida e densa, e começou a cavar em círculo: -- o que eu disse? parece uma grande bacia! huahuahauh! -- o ruivo começou a moldar a areia que tinha deixado fora, fazendo paredes grossas e batendo, pra deixar a areia bem assentada e depois com os dedos foi fazendo marcações de arcos, e afastando um pouco a areia para fazer os vãos: -- isso vai ficar muito legal! depois vou tirar fotos e mandar pra minha mãe! Ela vai achar dahora.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Havia planejado passar o dia em seus próprios compromissos, já que imaginava que Yure teria compromissos com os amigos como de costume. Tentava não implicar tanto com aquelas saídas dele, principalmente por ter consciência do quanto os outros amigos eram importantes para o ruivo. Contudo, não esperava o convite para ir a praia no grupo de amigos, acompanhado logo em seguida da mensagem no privado com uma foto de Charles e a gatinha Luma que parecia estar indo muito bem na adaptação pelo salvador de rodas dela. Riu da cena e chegou até a mostrar a foto para a cadelinha Mascota em seu apartamento, indicando que ela também havia sido trocada pelos bichinhos de estimação dos amigos do dono dela. <br />
<br />
[xx/xx/2014] Lukashenko s2: *enviando anexo*<br />
[xx/xx/2014] Lukashenko s2 Vai demorar muito?<br />
[xx/xx/2014] Munik: No. Escolhendo o bikini. Muita opção. <br />
[xx/xx/2014] Munik: *enviando anexo*<br />
<br />
Acabou enviando uma foto da Mascota sobre sua própria cama amontoada com diversas peças de banho, bikinis, maiôs, saídas de praia, entre outros. Parou na cozinha após escolher a peça que usaria, um bikini de top vermelho vibrante e calcinha com estampa de melancia. Demorou mais alguns minutos, enchendo a bolsa com alguns sanduíches que havia aprendido a preparar rapidamente na tal aula de economia doméstica. Sua professora não precisava saber que de fato gostava daquelas aulas, eram suas favoritas. <br />
<br />
Aproveitou que estava ainda separando alguns lanches entre os sanduíches, algumas frutas e água, e enviou mensagem para a jornalista com quem constantemente se pegava conversando sobre novas formas de fugir de Limoges. Convidou a garota para a ida até a praia, perguntando se ela não tinha nenhum contato pela praia já que parecia conhecer muita gente em muito lugar esquisito. <br />
<br />
Saiu com Joshua até o segurança estacionar perto da praia, acompanhando-a de calça social e camisa de botões, sem a gravata e o terno devido a sua benevolência com a situação do loiro naquele calor. Assim que avistou o lugar onde o ruivinho e Charles pareciam ocupados brincando na areia, despediu-se de Joshua, ficando com as bolsas de lanches e utensílios próprios, tal como a coleira que guiava a cadelinha que mais parecia uma raposa empolgada que já não parava de latir ao finalmente avistar o dono. <br />
<br />
- Aaaahhhh! Yureeee! - chamou, usando shorts jeans e uma camiseta azul pastel curta, sentindo dificuldade em equilibrar as bolsas e a guia da cadelinha que haviam combinado que ficaria em seu apartamento devido ao problema com a moradia do namorado.<br />
<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Charles era uma pessoa bem chata de se convencer, a não ser que envolvesse algo de seu interesse, sendo assim poderia ser mais flexível. Quando Yure concordou em construir os castelos de areia correspondentes à determinadas épocas, não poderia ficar mais satisfeito. A gata parecia ficar ter percebido a empolgação escondida do dono e estava observando a interação do amigo ruivo e do loiro com um pouco mais de curiosidade, dada a cauda levantada, se mexendo vagarosamente.<br />
<br />
- Certo. Podemos fazer toda a evolução dos castelos lado à lado até as melhoras feitas nos baluardes no século XVI, o que acha? - Talvez devesse tirar uma foto e mostrar para o amigo escritor depois? Certamente ele iria gostar de ver os diferentes modelos de castelos.<br />
<br />
Ajudou o amigo a tirar a areia da maneira que podia e depois moldar seguindo as instruções dele. Não que não soubesse como montar os castelos, mas nunca tinha montado castelos com Yure, então queria saber como seria: - Me mande as fotos depois, acho que o Julian também vai gostar de ver, ele está escrevendo um livro novo.<br />
<br />
Ficou mais um tempo ajudando Yure a levantar as paredes do castelo conjunto quando ouviu Luma grunhir em cima das roupas do ruivo, e antes que pudesse se perguntar por quê, ouviu a voz bem familiar da namorada dele. Traição.<br />
<br />
- Você chamou a Monique? - Perguntou com uma cara de limão azedo, mas preferindo se focar em montar o castelo. Ficaria mais irritado se Monique não tivesse o visto em situações mais expostas, como da primeira vez que foi jogar na sua casa, mas ainda assim se sentia um pouco desconfortável. Não pode evitar de suspirar emburrado. - A Mascota é maior do que parecia nas fotos.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Yure</span></div>
<br />
O ruivo estava completamente imerso na atividade de construir o castelo, rindo e às vezes cantarolando algum pedaço de música em um japonês muito errado. Concordava veemente com a cabeça quando Charles propunha modificações no castelo, e o que devia ser apenas um amontoado de areia tomou forma como um fosso fundo em estilo românico, em uma base de castelo que lembrava os baluartes góticos com pontas obtusas, que dava muito trabalho manter no local, Passou pelas curvas do rococó e por frontões que lembravam certamente arte barroca.. Fez uma área para os cavalariços ja passando dos estilos e tentando fazer curvas finas sem muito sucesso, e construiu uma vila que em parte parecia uma comunidade vinda da grécia e outra parecia algo da suíça. Era uma confusão arquitetônica tão bonita, que só poderia ser chamada de eclética.  Que apenas acenou positivamente para Charles, quando ele disse que queria as fotos, encaminhando para mãe, e para o amigo o resultado da estripulia.<br />
<br />
Tinha acabado de arrumar e tinham se passado pelo menos uns 40 minutos ali sentados conversando sobre história da arte. Até que ouviu o grito de Monique e acenou para a morena animado. Encarou o amigo com a cara de azedo e falando do tamanho da mascota: -- Ah Charles! eu te dei uma folga de quase uma hora da Monique, só eu, você e a Luma. Pensa assim, eu te chamei primeiro, que chamei ela. -- piscou para o loirinho e em seguida se levantou com cuidado pra não destruir o castelo, e correu na direção de Monique. <br />
<br />
Abraçando a mesma, com carinho e oferecendo um selinho amistoso: -- Oi! você até chegou rápido! hahah! -- Passou a mão pela cintura da namorada, e aproximou o rosto, para um beijo menos superficial, sabia que Monique gostava de ser tratada com mais apreço do que as demais pessoas, por isso um beijinho superficial não deixaria a mais nova satisfeita. Mas não se demorou na carícia, roçando a ponta do nariz contra o de Monique em um gesto costumeiro dos dois.<br />
<br />
-- Olá Mascota! Quanto tempo me bebê! Que saudade de você! Olha pra você?! Quem é o cão mais lindo da França? Da União Europeia? É você sim! meu amorzinho! -- Se abaixou para bagunçar a cadela, e encher ela de beijinhos com o tipo de empolgação que reservava apenas a cachorrinha que tinha tanto carinho. Segurou a mesma no colo, embora ela se sacudisse como uma louca, acalmou o pequeno leão para apresentar aos dois gatos:<br />
<br />
-- Charles, Luma, essa é a mascota, vocês têm de se dar bem, pelo amor de Deus! hahahah!<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Foi pega de surpresa pelo abraço com a aproximação de Yure, franzindo o cenho em resposta para a cena enquanto tentava se equilibrar segurando a guia da Mascota e as outras bolsas e sacolas que havia levado consigo. Abriu a boca para reclamar como de costume, mas logo ficou quieta ao receber o selinho do ruivo animado, o arrepio percorrendo suas costas com a mão direta em sua cintura, o rubor lhe subindo a face ao receber outro beijo do então namorado em público, na frente do amigo dele. Desviou o olhar com o roçar do nariz com o dele, mas não se afastou, apenas segurou com mais força as sacolas. <br />
<br />
Observou o ruivo se abaixar para paparicar a cadelinha que logo respondeu ao dono com a mesma hiperatividade que o sujeito tinha. Suspirou conformada, soltando a guia da cadelinha para deixar que Yure a levasse para apresentar ao amigo dele que ainda não tinha certeza se ia com a sua cara ou não. <br />
<br />
Arrumou as bolsas perto de onde avistou os itens dos outros dois, sabia reconhecer os objetos de Yure pelo menos. Aproveitou para remover a própria blusa e abrir uma das bolsas para conseguir uma garrafa de água, bebendo um pouco antes de se aproximar de onde Charles estava para poder cumprimentá-lo também. <br />
<br />
- Oi, Charles. - acenou antes de se agachar, lembrando que o ruivo havia falado antes que o amigo dele não gostava de precisar ficar falando com as pessoas olhando para cima. Encarou o castelo de areia todo excêntrico e crispou os lábios, julgando a construção. - Você ficou dando aula para ele de história da arte com castelos de areia, Lukashenko? - julgou o namorado, estendendo a garrafa de água gelada para o loirinho na areia, mais educada. - Eu pensei que seus outros amigos estivessem aqui. Trouxe até uns sanduíches naturais no caso de Misha. Eu chamei a Danielle, espero que não se importe. - avisou antes de mais nada, observando ainda entretida com a estrutura do fantástico castelo de areia. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
A cara de azedo de Charles era clara, apenas se contorcendo um pouco quando Yure insistiu que havia chamado o loirinho primeiro, então se contentou em protestar apenas com uma leve cara de abuso, o que em todos os outros casos parecia a cara cotidiana de Charles. Observou ele ir até a namorada cumprimenta-la e vê-la ficar completamente vermelha. Estava se sentindo em um bendito filme adolescente.<br />
<br />
Viu Luma sibilar bem baixinho na vista da Mascota, mas observando atentamente à como Yure tratava ela. Estava com os pelos da coluna todos arrepiados, Charles estava pronto para segurar a gata em seu colo para se acalmar um pouco, mas a postura da gata mudou completamente quando Monique se aproximou para o cumprimentar: - Oi Monique - deu um aceno de volta,  enquanto Luma descia das roupas (agora cheias de pêlos) de Yure para se jogar nos pés de Monique - Acho que ela sentiu um pouco da sua falta. E eu que propus que os castelos fossem baseados em castelos reais. Fica mais interessante de montar - admitiu, enquanto fazia um aceno negativo com a mão para recusar a água estendida, tinha a sua própria garrafa separada.<br />
<br />
Luma se espojava sobre os pés de Monique, sem se importar muito ficar cheia de areia. Parou subitamente quando Yure se aproximou com a Mascota nos braços, encarando o cão, e depois voltou a se esfregar em Monique: - Ela parece uma versão sua canina. - Charles admitiu, a energia que o animal colocava para se desprender de Yure era como assistir o ruivo tentando fazer com que a gata largasse sua perna depois de um bote - Eu não posso garantir nada da Luma.<br />
<br />
Charles ficou um pouco incomodado com a ideia de mais pessoas virem, não que não soubesse quem eram, Yure já havia falado sobre todos, mas não tinha muito ou nenhum contato com eles. Até conseguia aturar Monique, era o que dizia para si mesmo, mas não tinha tanta certeza com os outros. Pelos menos poderia ficar ali embaixo do guarda-sol enquanto eles se afogavam na água, com certeza iriam preferir ficar na água.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Yure</span></div>
<br />
O ruivo riu alto diante das reações da gata para Monique, enquanto a mascota estava plena nos braços do ruivo apenas esperando o momento do ruivo liberar o caos:<br />
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-- Eu vou deixar a mascota correr um pouco, pra gastar energia e brincar um pouco.  -- a cadela observou o ruivo, na expectativa do que estava por vir, o rapaz tirou a guia mais longa do cão, e o rabinho furioso começou a se sacudir em êxtase na expectativa. Tão logo as patinhas encostaram no chão, o cão disparou em corrida como se não houvesse amanhã rumo a água da praia: -- HEY! espere ai! ou melhor! ME ESPERE! -- o ruivo correu atrás da mascota, que correu dele pra longe no meio da areia e parou esperando que o ruiva a alcance, tão logo ele se aproximava ela disparava para longe de novo, correndo em círculos e zigue-zagueando:<br />
<br />
-- MINHA VEZ! -- o ruivo parou esperou a mascota e começou a correr pra longe da mascota, e logo o cão entendeu o motivo da corrida, e começou a latir e correr na direção do ruivo. Yure caminhou perto do mar, chapiscando água pro lado do cachorro que pariu pra latir em direção ao mar, e quando as ondas batem, a mascota fugia, e depois se aproximava, e em um momento de vacilo Yure agarrou o cão, fazendo a mascota latir e saltar no susto, que pulou em cima dele lambendo e puxando o cordão do short até arrancar e sair correndo com ele na direção de Monique: -- HEY! Espera o meu cordão!!<br />
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Logo o cachorro tinha se aproximado da morena com o troféu, e ignorou a reação exagerada da gata, e ficou ali esperando carinho e aprovação. O ruivo se aproximou uns instantes depois tocou no ombro do amigo: -- Charles! vamos tomar banho de mar? a gente fica no rasinho esperando as ondas bater na gente? -- O ruivo falou todo empolgado, olhando para o loirinho como se fosse um cachorro pedindo carinho. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
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Baixou o olhar, agachando-se ao se dar conta da predisposição da gatinha ao se jogar em seus pés. Piscou algumas vezes, incerta de que aquele animal fazia alguma ideia de que quem havia salvo ela e estava lhe protegendo era Charles e não ela. Contudo, não negou carinho ao animal, estendendo os dedos para que ela pudesse receber um pouco de afago na região da coluna até a extensão da cauda. Sorriu discreta com o comentário do loirinho sobre Luma ter sentido sua falta. Não esperava que a gatinha tivesse aquele tipo de apego. <br />
<br />
- Ela parece bem melhor desde quando resgatou ela. - decidiu que era bom elogiar o esforço do outro apenas para lembrar a si mesma que a gatinha era dele e que, se dependesse dela, Luma sequer estaria ali com eles. Torceu os lábios com essa ideia, erguendo o olhar prontamente, pegando a gatinha no braço assim que Yure passou a dar mais atenção à Mascota. <br />
<br />
Monique observou Charles e logo depois assistiu o namorado correr atrás da Mascota como se ambos dividissem a mesma sintonia de uma voltagem de 220 o tempo todo. Suspirou conformada, ainda que não conseguisse esconder o sorriso de contentamento com a cena. Arrumou uma das saídas de praia que havia trazido como uma toalha sobre a areia, permitindo que Luma descansasse mais perto do sol. Aquilo era um comportamento de gatos, não era? Gostar da brisa fresca e do calorzinho do sol? <br />
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Arrumou suas bolsas antes de remover a blusinha pastel azul que usava, deixando o top do biquíni, vermelho vibrante, à mostra. Estava calor e era bom passar um pouco de protetor solar para não ferir tanto sua pele com o sol. Aproveitou que Charles negou sua oferta de água para beber um pouco da garrafa, separando um pouco da água na mão para molhar a mesma, oferecendo os dedos molhados para a gatinha, lavando-lhe o nariz em meio ao calor do litoral. <br />
<br />
- Eu trouxe alguns lanches, caso queira experimentar. - ofereceu ao loirinho, fazendo uma pausa para observar o namorado tendo o cordão do calção roubado. Suspirou, rindo baixo com a cena. - Lukashenko tem uns amigos com algumas restrições alimentares, então eu trouxe algumas opções sem lactose, sem carne. <br />
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Avistou enquanto Mascota voltava correndo e se adiantou para segurar a cadelinha para que ela não acabasse machucando Luma sem querer, apenas por ser elétrica demais e afoita. <br />
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- Ca-Calma, Luma! Calma! Hahahahahaha! O que é isso? Um cordão?! Você roubou do Lukashenko isso?! Foi mesmo?! Boa menina! Uma boa menina você é! Hahaha! - elogiou os esforços da cadelinha, dando atenção para ela na mesma medida que estava acostumada a dar para que ela se acalmasse, segurando-a para baixo e fazendo carinho na barriga e atrás das orelhas do animal ofegante. - Pega a vasilha dela e enche de água, por favor. - ergueu o olhar, estreitando os olhos por conta da claridade do sol ao fazer o pedido ao namorado. Era importante manter a cadelinha hidratada, principalmente quando ela era tão empolgada em ficar correndo atrás do responsável dela. <br />
<br />
Observou Yure e Charles se preparando para irem tomar banho de mar e continuou dando atenção para Mascota, fazendo-lhe carinho para que se acalmasse. <br />
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- Oi, vocês dois lembraram de passar protetor solar? Depois vão ficar aí descascando feito suas cobras. - reclamou por costume, logo buscando seu frasco de protetor solar para passar em si mesma, deixando espaço em sua bolsa para criar um tipo de “ninho” em que Luma pudesse descansar e relaxar perto do cheiro de suas coisas e do calorzinho agradável daquela manhã.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Yure</span></div>
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Yure sabia que o verão sempre chegava mais cedo em Cerise, começava a fazer calor por volta de Março e se estendia por todo mês de abril até de fato as férias de verão. Mas já tinha posto na cabeça que queria ir a praia, mesmo que ainda não fosse a época ideal e água talvez estivesse meio fria. Queria tirar tempo pra juntar amigos e ir a praia, correr com a mascota, pegar sol, fazer castelos de areia, e coisas assim. Logo começaria o período infernal de St. Clavier, que envolvia, jogos internos, Saraus, Recitais, Eleições de Conselho Estudantil -  que estava decidido a participar -  e as derradeiras provas.<br />
 <br />
Se fosse esperar algum momento melhor, talvez esse momento nunca chegasse. Então telefonou para todos os amigos que podia, e avisou que estaria na praia durante toda a tarde. Não esperava que todos aparecessem, mas se pudesse trocar conversa e tirar fotos, e tomar um picolé gelado já estaria imensamente grato.<br />
 <br />
Estava sentado na sombra de uma das palmeiras que ornava a praia, com uma sunga de banho preta com listras laranjas, e um casaco de tecido fino típico de praia laranja neon, estava com a cara com marcas brancas de protetor solar, os pés afundados na areia, uma garrafa de água ao lado de si, e o ruivo mexia no celular esperando quem seria o primeiro a surgir para brincar consigo.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Havia recebido uma mensagem mais cedo de Yure convidando-o para ir à praia, diretamente, não em grupo nenhum. Costumava ignorar completamente qualquer convite de saídas de grupo, a não ser quando era um treino do time de basquete ou quando Yure aparecia subitamente em sua casa para arrasta-lo para alguma quest social. Felizmente, esse não parecia ser o caso. Fazia tempo que Charles não ia à praia, então decidiu que talvez essa fosse uma boa oportunidade, estava cansado de ficar apenas encharcado de cloro. Estranhamente ele havia pedido para que também levasse a Luma, estranhou, mas pensando na ideia do Ruivo e da gata interagindo era o suficiente para divertir Charles de baixo de um guarda-sol.<br />
<br />
Avisou à sua mãe por mensagem para onde estava indo, e colocou a roupa de banho UV, onde poderia facilmente esconder a bolsa de coleta e se sentir mais confortável, e colocou uma roupa de tecido fino com algumas estampas neon. Antes de sair, avisou ao amigo ruivo que estava à caminho. Colocou o telefone na mochila que estava levando, junto de outras tranqueirinhas e salgadinhos que sua nutricionista havia permitido, e a ajeitou na parte debaixo da sua cadeira, levando Luma dentro de sua caixinha de transporte no colo, e foi até o ponto de ônibus.<br />
<br />
Chegando até o ponto de encontro, não demorou até ver a figura neon na praia. Se fosse loira, até diria que podia ser doppelganger, além da identidade teria roubado as pernas. Se aproximou, não tão silencioso quanto gostaria graças à cadeira: - Foi um convite bem repentino - comentou, com o tom enjoado para não perder o hábito - Achei que iria vir com Monique - escutou os miados de Luma se tornarem mais resmungões dentro da caixinha de transporte, e virou para que ela pudesse ver o amigo ruivo - Aí, Luma. Seu bom amigo está aqui também - comentou sarcástico, lembrando do encontro passado dos dois regado à mordidas e planos de ataque.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Yure</span></div>
<br />
O ruivo cabeça de vento, não era idiota, sabia que se quisesse que um de seus melhores amigos interagisse com outros de seus bons amigos, teria de enganá-lo com uma mentira infantil. Tinha se sentado a sombra de uma das palmeiras próxima a rampa que dava acesso a areia da praia, porque sabia que seria complicado para o amigo se locomover na areia com a cadeira de rodas.<br />
<br />
Antes mesmo que pudesse sentir calor de fato, ouviu os resmungos próximos de Charles, ele realmente tinha ido, isso lhe deixou radiante e alargou o sorriso amplo: -- você veio mesmo! e trouxe a sua psicopata particular também! -- o ruivo levantou num pulo, acenando para um dos tios que trabalhava na praia, acenando que queria um guarda-sol e 1 cadeira de praia. O tio moreno apenas acenou de longe com um joinha já indo buscar um guarda-sol laranja para combinar com a dupla de marca-texto.<br />
<br />
O ruivo se adiantou e pegou o cestinho de Luma deixando perto de suas coisas e depois foi ajudar Charles a fazer a transferência para a cadeira de praia: -- Se não se importar, vou te dar uma mão, prometo não batucar na sua bunda. -- o ruivo levou o amigo sem maiores problemas, deixando-o lá e depois foi buscar a cadeira desmontando ela, para por junto debaixo do guarda sol: -- Hora de soltar o pequeno monstrinho. -- o ruivo abriu o cestinho e Luma saltou de lá como um animal selvagem e se agarrou no cordão do casaco do ruivo. Yure por reflexo se jogou pra trás, e a gata persistiu dando pequenas porradas no ruivo, até se dar conta que estava em um lugar estranho e correu pra debaixo da cadeira onde Charles estava.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Felizmente não estava tão quente quanto esperava, e Cerise por ser uma cidade turística tinha algumas daquelas rampas de acesso à praia, o que facilitava uma vida para Charles. Muito dos problemas que o loirinho tinha com praia, além de se sentir muito desconfortável, era a falta de acessibilidade. Quem diria que um dia sairia para a praia com um amigo.<br />
<br />
Torceu os lábios quando ele falou sobre ter trazido a psicopata particular, Luma apenas tinha seu jeito próprio de lidar com o ruivinho, tipo a maneira resmungona do cadeirante. Nada de errado: - Ela só deve gostar muito de você. - comentou sarcástico, vendo os acenos com um dos tios da praia. Ele realmente conhecia toda e qualquer pessoa. Se despediu brevemente enquanto a gata foi levada primeiro pra depois ser carregado pelo amigo, apoiou bem os braços nos ombros de Yure para facilitar o trabalho: - É bom mesmo, é facil de apertar seu pescoço daqui caso você tente alguma coisa - brincou, apertando um pouco de leve os braços ao redor do pescoço do amigo ruivo.<br />
<br />
Ficou confortável na cadeira, só fazendo minimos ajuste nas pernas para que ficasse mais à vontade, ou não acabasse com alguma dormência chata. Enquanto Yure correu para pegar a sua cadeira de rodas, encarou Luma que estava toda arrepiada dentro da caixinha, certamente um plano de fuga ela estava bolando. Quando o amigo voltou e decidiu “soltar o monstrinho”, foi o momento da gata lutar contra seu sequestrador: - Olha só, eu disse que ela gosta de você - comentou irônico ao ataque mortal da gata, logo depois de Luma perceber que os arredores não eram seus domínios cotidianos - Psss, aqui Luma. - bateu de leve na cadeira para chamar atenção da felina, mas ela pareceu mais interessada em planejar atacar sua próxima vítima: o pequeno siri que havia saído de um pequeno buraco.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Yure</span></div>
<br />
O ruivo começou a rir, achando graça da colocação sobre a gata ter um jeito dela de gostar dele, só se esse gostar estivesse relacionado a cortar em pedaços bem pequenos com aquelas garrinhas amoladas: -- Melhor prender ela na coleira e amarrar no guarda sol, pra ela não ir muito longe da gente. -- O ruivo pontuou, preocupado com a integridade de sua pequena algoz.<br />
<br />
E enquanto Charles cuidava de Luma, o ruivo, tirou foto do amigo escondido, e mandou para Monique, sabendo que a namorada tinha ao menos alguma simpatia pelo amigo resmungão.<br />
<br />
[xx/xx/2014] Yure ☆ﾐ(o*･ω･)ﾉ: Oi amor! (ง ื▿ ื)ว<br />
[xx/xx/2014] Yure ☆ﾐ(o*･ω･)ﾉ: Olha esse gato com sua gata na maior caixa de areia do mundo!<br />
[xx/xx/2014] Monique (# `Д´)ﾉ: Lá vem….<br />
[xx/xx/2014] Yure ☆ﾐ(o*･ω･)ﾉ: *enviando anexo*<br />
[xx/xx/2014] Yure ☆ﾐ(o*･ω･)ﾉ: Vai demorar muito?<br />
<br />
Terminando de enviar a mensagem o ruivo bloqueou a tela do celular, e deixou o aparelho de lado, já puxando o casaco laranja sobre a cabeça para ficar só de sunga, a pele do ruivo era apenas pouco bronzeada, e com certeza se não tivesse praticamente nadado em protetor solar, estaria completamente torrado ao final daquela tarde. dobrou a peça e pôs de lado junto a caixinha de Luma e os demais pertences:<br />
<br />
-- Hey Charles, quer brincar de fazer castelos de areia? a areia é macia, e acho que não fazer mal as suas costas nem nada. Vamos por favor! por favor! POR FAVOOOOOOOOR!!! -- o ruivo choramingou com aquela cara falsa dele, de quando queria convencer alguém, sabia que aquilo tinha pouco efeito em Charles mas não custava tentar.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Era engraçado ver os dois se estapeando mas seguiu a ideia do amigo e quando a gata se aproximou de novo foi fácil pegar a coleira colocar na felina e depois prender a outra ponta no guarda sol: - Feito. Agora você não vai poder dizimar a colônia de siris de Cerise. A protetora da cidade com certeza teria algum problema com você se fizesse isso. - comentou com a gata, recebendo apenas um miado resmungão como resposta, entendia a frustração da gata.<br />
<br />
Não entendeu bem por que Yure estava enfiado no celular, supôs que ou falando com Monique ou com algum grupo de chat. Só esperava que não aparecesse mais ninguém, ou considerando o ruivinho, que aparecesse muita gente. De um jeito ou de outro, a praia estava agradável sem muito movimento, bem poderia ficar sentado ali o resto da tarde com Luma em seu colo, isso é, se o amigo ruivo deixasse. A gata parecia bem irritada por ele colocar o casaco próximo da sua gloriosa caixa de areia, mas em seguida, se deitou sobre a peça de roupa e fez questão de se esfregar em cima.<br />
<br />
- Você sabe que essa chantagem não funciona comigo.  - respondeu seco às tentativas de Yure de conquistar aprovação. Mas pensando bem, fazia muito tempo que não ia à praia. Bem que poderia tentar. - Só aceito se os castelos fizerem algum sentido, e eles tem que ser do mesmo período. - comentou, aproveitando para tirar a parte de cima da roupa fina, ficando apenas com a roupa de banho UV. Não ia querer voltar com aquela peça encharcada em um ônibus, seria desconfortável o suficiente.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Yure</span></div>
<br />
Ter conseguido mesmo que a mínima aprovação de Charles para uma atividade completamente idiota e sem fins úteis era algo pra comemorar. O ruivo relevou a gata deitada sobre suas roupas, nada que uma escova pra tirar pêlos não resolvesse. Yure bateu palmas em sinal claro de aprovação pela disposição do amigo em segui-lo na brincadeira: -- Ah! Claro! sim cara, relaxa, podemos começar com período românico, influência dos arcos romanos nas construções de grande portew, séc XI elas vão parecer umas bacias engraçadas, lá pro séc XII a gente já tem umas construções mais gordinhas e altas. O que acha?<br />
<br />
Comentou com a propriedade de quem era filho de uma professora de história da arte, já tinha ouvido aquelas datas de sua mãe tantas vezes, visto tantos livros com fotos legais, que não tinha como aquelas informações não ficarem bem fixas em sua memória. Yure começou a cavar e logo afastou a areia seca, achando a areia mais úmida e densa, e começou a cavar em círculo: -- o que eu disse? parece uma grande bacia! huahuahauh! -- o ruivo começou a moldar a areia que tinha deixado fora, fazendo paredes grossas e batendo, pra deixar a areia bem assentada e depois com os dedos foi fazendo marcações de arcos, e afastando um pouco a areia para fazer os vãos: -- isso vai ficar muito legal! depois vou tirar fotos e mandar pra minha mãe! Ela vai achar dahora.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Havia planejado passar o dia em seus próprios compromissos, já que imaginava que Yure teria compromissos com os amigos como de costume. Tentava não implicar tanto com aquelas saídas dele, principalmente por ter consciência do quanto os outros amigos eram importantes para o ruivo. Contudo, não esperava o convite para ir a praia no grupo de amigos, acompanhado logo em seguida da mensagem no privado com uma foto de Charles e a gatinha Luma que parecia estar indo muito bem na adaptação pelo salvador de rodas dela. Riu da cena e chegou até a mostrar a foto para a cadelinha Mascota em seu apartamento, indicando que ela também havia sido trocada pelos bichinhos de estimação dos amigos do dono dela. <br />
<br />
[xx/xx/2014] Lukashenko s2: *enviando anexo*<br />
[xx/xx/2014] Lukashenko s2 Vai demorar muito?<br />
[xx/xx/2014] Munik: No. Escolhendo o bikini. Muita opção. <br />
[xx/xx/2014] Munik: *enviando anexo*<br />
<br />
Acabou enviando uma foto da Mascota sobre sua própria cama amontoada com diversas peças de banho, bikinis, maiôs, saídas de praia, entre outros. Parou na cozinha após escolher a peça que usaria, um bikini de top vermelho vibrante e calcinha com estampa de melancia. Demorou mais alguns minutos, enchendo a bolsa com alguns sanduíches que havia aprendido a preparar rapidamente na tal aula de economia doméstica. Sua professora não precisava saber que de fato gostava daquelas aulas, eram suas favoritas. <br />
<br />
Aproveitou que estava ainda separando alguns lanches entre os sanduíches, algumas frutas e água, e enviou mensagem para a jornalista com quem constantemente se pegava conversando sobre novas formas de fugir de Limoges. Convidou a garota para a ida até a praia, perguntando se ela não tinha nenhum contato pela praia já que parecia conhecer muita gente em muito lugar esquisito. <br />
<br />
Saiu com Joshua até o segurança estacionar perto da praia, acompanhando-a de calça social e camisa de botões, sem a gravata e o terno devido a sua benevolência com a situação do loiro naquele calor. Assim que avistou o lugar onde o ruivinho e Charles pareciam ocupados brincando na areia, despediu-se de Joshua, ficando com as bolsas de lanches e utensílios próprios, tal como a coleira que guiava a cadelinha que mais parecia uma raposa empolgada que já não parava de latir ao finalmente avistar o dono. <br />
<br />
- Aaaahhhh! Yureeee! - chamou, usando shorts jeans e uma camiseta azul pastel curta, sentindo dificuldade em equilibrar as bolsas e a guia da cadelinha que haviam combinado que ficaria em seu apartamento devido ao problema com a moradia do namorado.<br />
<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
Charles era uma pessoa bem chata de se convencer, a não ser que envolvesse algo de seu interesse, sendo assim poderia ser mais flexível. Quando Yure concordou em construir os castelos de areia correspondentes à determinadas épocas, não poderia ficar mais satisfeito. A gata parecia ficar ter percebido a empolgação escondida do dono e estava observando a interação do amigo ruivo e do loiro com um pouco mais de curiosidade, dada a cauda levantada, se mexendo vagarosamente.<br />
<br />
- Certo. Podemos fazer toda a evolução dos castelos lado à lado até as melhoras feitas nos baluardes no século XVI, o que acha? - Talvez devesse tirar uma foto e mostrar para o amigo escritor depois? Certamente ele iria gostar de ver os diferentes modelos de castelos.<br />
<br />
Ajudou o amigo a tirar a areia da maneira que podia e depois moldar seguindo as instruções dele. Não que não soubesse como montar os castelos, mas nunca tinha montado castelos com Yure, então queria saber como seria: - Me mande as fotos depois, acho que o Julian também vai gostar de ver, ele está escrevendo um livro novo.<br />
<br />
Ficou mais um tempo ajudando Yure a levantar as paredes do castelo conjunto quando ouviu Luma grunhir em cima das roupas do ruivo, e antes que pudesse se perguntar por quê, ouviu a voz bem familiar da namorada dele. Traição.<br />
<br />
- Você chamou a Monique? - Perguntou com uma cara de limão azedo, mas preferindo se focar em montar o castelo. Ficaria mais irritado se Monique não tivesse o visto em situações mais expostas, como da primeira vez que foi jogar na sua casa, mas ainda assim se sentia um pouco desconfortável. Não pode evitar de suspirar emburrado. - A Mascota é maior do que parecia nas fotos.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Yure</span></div>
<br />
O ruivo estava completamente imerso na atividade de construir o castelo, rindo e às vezes cantarolando algum pedaço de música em um japonês muito errado. Concordava veemente com a cabeça quando Charles propunha modificações no castelo, e o que devia ser apenas um amontoado de areia tomou forma como um fosso fundo em estilo românico, em uma base de castelo que lembrava os baluartes góticos com pontas obtusas, que dava muito trabalho manter no local, Passou pelas curvas do rococó e por frontões que lembravam certamente arte barroca.. Fez uma área para os cavalariços ja passando dos estilos e tentando fazer curvas finas sem muito sucesso, e construiu uma vila que em parte parecia uma comunidade vinda da grécia e outra parecia algo da suíça. Era uma confusão arquitetônica tão bonita, que só poderia ser chamada de eclética.  Que apenas acenou positivamente para Charles, quando ele disse que queria as fotos, encaminhando para mãe, e para o amigo o resultado da estripulia.<br />
<br />
Tinha acabado de arrumar e tinham se passado pelo menos uns 40 minutos ali sentados conversando sobre história da arte. Até que ouviu o grito de Monique e acenou para a morena animado. Encarou o amigo com a cara de azedo e falando do tamanho da mascota: -- Ah Charles! eu te dei uma folga de quase uma hora da Monique, só eu, você e a Luma. Pensa assim, eu te chamei primeiro, que chamei ela. -- piscou para o loirinho e em seguida se levantou com cuidado pra não destruir o castelo, e correu na direção de Monique. <br />
<br />
Abraçando a mesma, com carinho e oferecendo um selinho amistoso: -- Oi! você até chegou rápido! hahah! -- Passou a mão pela cintura da namorada, e aproximou o rosto, para um beijo menos superficial, sabia que Monique gostava de ser tratada com mais apreço do que as demais pessoas, por isso um beijinho superficial não deixaria a mais nova satisfeita. Mas não se demorou na carícia, roçando a ponta do nariz contra o de Monique em um gesto costumeiro dos dois.<br />
<br />
-- Olá Mascota! Quanto tempo me bebê! Que saudade de você! Olha pra você?! Quem é o cão mais lindo da França? Da União Europeia? É você sim! meu amorzinho! -- Se abaixou para bagunçar a cadela, e encher ela de beijinhos com o tipo de empolgação que reservava apenas a cachorrinha que tinha tanto carinho. Segurou a mesma no colo, embora ela se sacudisse como uma louca, acalmou o pequeno leão para apresentar aos dois gatos:<br />
<br />
-- Charles, Luma, essa é a mascota, vocês têm de se dar bem, pelo amor de Deus! hahahah!<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
<br />
Foi pega de surpresa pelo abraço com a aproximação de Yure, franzindo o cenho em resposta para a cena enquanto tentava se equilibrar segurando a guia da Mascota e as outras bolsas e sacolas que havia levado consigo. Abriu a boca para reclamar como de costume, mas logo ficou quieta ao receber o selinho do ruivo animado, o arrepio percorrendo suas costas com a mão direta em sua cintura, o rubor lhe subindo a face ao receber outro beijo do então namorado em público, na frente do amigo dele. Desviou o olhar com o roçar do nariz com o dele, mas não se afastou, apenas segurou com mais força as sacolas. <br />
<br />
Observou o ruivo se abaixar para paparicar a cadelinha que logo respondeu ao dono com a mesma hiperatividade que o sujeito tinha. Suspirou conformada, soltando a guia da cadelinha para deixar que Yure a levasse para apresentar ao amigo dele que ainda não tinha certeza se ia com a sua cara ou não. <br />
<br />
Arrumou as bolsas perto de onde avistou os itens dos outros dois, sabia reconhecer os objetos de Yure pelo menos. Aproveitou para remover a própria blusa e abrir uma das bolsas para conseguir uma garrafa de água, bebendo um pouco antes de se aproximar de onde Charles estava para poder cumprimentá-lo também. <br />
<br />
- Oi, Charles. - acenou antes de se agachar, lembrando que o ruivo havia falado antes que o amigo dele não gostava de precisar ficar falando com as pessoas olhando para cima. Encarou o castelo de areia todo excêntrico e crispou os lábios, julgando a construção. - Você ficou dando aula para ele de história da arte com castelos de areia, Lukashenko? - julgou o namorado, estendendo a garrafa de água gelada para o loirinho na areia, mais educada. - Eu pensei que seus outros amigos estivessem aqui. Trouxe até uns sanduíches naturais no caso de Misha. Eu chamei a Danielle, espero que não se importe. - avisou antes de mais nada, observando ainda entretida com a estrutura do fantástico castelo de areia. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Charles</span></div>
<br />
A cara de azedo de Charles era clara, apenas se contorcendo um pouco quando Yure insistiu que havia chamado o loirinho primeiro, então se contentou em protestar apenas com uma leve cara de abuso, o que em todos os outros casos parecia a cara cotidiana de Charles. Observou ele ir até a namorada cumprimenta-la e vê-la ficar completamente vermelha. Estava se sentindo em um bendito filme adolescente.<br />
<br />
Viu Luma sibilar bem baixinho na vista da Mascota, mas observando atentamente à como Yure tratava ela. Estava com os pelos da coluna todos arrepiados, Charles estava pronto para segurar a gata em seu colo para se acalmar um pouco, mas a postura da gata mudou completamente quando Monique se aproximou para o cumprimentar: - Oi Monique - deu um aceno de volta,  enquanto Luma descia das roupas (agora cheias de pêlos) de Yure para se jogar nos pés de Monique - Acho que ela sentiu um pouco da sua falta. E eu que propus que os castelos fossem baseados em castelos reais. Fica mais interessante de montar - admitiu, enquanto fazia um aceno negativo com a mão para recusar a água estendida, tinha a sua própria garrafa separada.<br />
<br />
Luma se espojava sobre os pés de Monique, sem se importar muito ficar cheia de areia. Parou subitamente quando Yure se aproximou com a Mascota nos braços, encarando o cão, e depois voltou a se esfregar em Monique: - Ela parece uma versão sua canina. - Charles admitiu, a energia que o animal colocava para se desprender de Yure era como assistir o ruivo tentando fazer com que a gata largasse sua perna depois de um bote - Eu não posso garantir nada da Luma.<br />
<br />
Charles ficou um pouco incomodado com a ideia de mais pessoas virem, não que não soubesse quem eram, Yure já havia falado sobre todos, mas não tinha muito ou nenhum contato com eles. Até conseguia aturar Monique, era o que dizia para si mesmo, mas não tinha tanta certeza com os outros. Pelos menos poderia ficar ali embaixo do guarda-sol enquanto eles se afogavam na água, com certeza iriam preferir ficar na água.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Yure</span></div>
<br />
O ruivo riu alto diante das reações da gata para Monique, enquanto a mascota estava plena nos braços do ruivo apenas esperando o momento do ruivo liberar o caos:<br />
<br />
-- Eu vou deixar a mascota correr um pouco, pra gastar energia e brincar um pouco.  -- a cadela observou o ruivo, na expectativa do que estava por vir, o rapaz tirou a guia mais longa do cão, e o rabinho furioso começou a se sacudir em êxtase na expectativa. Tão logo as patinhas encostaram no chão, o cão disparou em corrida como se não houvesse amanhã rumo a água da praia: -- HEY! espere ai! ou melhor! ME ESPERE! -- o ruivo correu atrás da mascota, que correu dele pra longe no meio da areia e parou esperando que o ruiva a alcance, tão logo ele se aproximava ela disparava para longe de novo, correndo em círculos e zigue-zagueando:<br />
<br />
-- MINHA VEZ! -- o ruivo parou esperou a mascota e começou a correr pra longe da mascota, e logo o cão entendeu o motivo da corrida, e começou a latir e correr na direção do ruivo. Yure caminhou perto do mar, chapiscando água pro lado do cachorro que pariu pra latir em direção ao mar, e quando as ondas batem, a mascota fugia, e depois se aproximava, e em um momento de vacilo Yure agarrou o cão, fazendo a mascota latir e saltar no susto, que pulou em cima dele lambendo e puxando o cordão do short até arrancar e sair correndo com ele na direção de Monique: -- HEY! Espera o meu cordão!!<br />
<br />
Logo o cachorro tinha se aproximado da morena com o troféu, e ignorou a reação exagerada da gata, e ficou ali esperando carinho e aprovação. O ruivo se aproximou uns instantes depois tocou no ombro do amigo: -- Charles! vamos tomar banho de mar? a gente fica no rasinho esperando as ondas bater na gente? -- O ruivo falou todo empolgado, olhando para o loirinho como se fosse um cachorro pedindo carinho. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Monique</span></div>
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Baixou o olhar, agachando-se ao se dar conta da predisposição da gatinha ao se jogar em seus pés. Piscou algumas vezes, incerta de que aquele animal fazia alguma ideia de que quem havia salvo ela e estava lhe protegendo era Charles e não ela. Contudo, não negou carinho ao animal, estendendo os dedos para que ela pudesse receber um pouco de afago na região da coluna até a extensão da cauda. Sorriu discreta com o comentário do loirinho sobre Luma ter sentido sua falta. Não esperava que a gatinha tivesse aquele tipo de apego. <br />
<br />
- Ela parece bem melhor desde quando resgatou ela. - decidiu que era bom elogiar o esforço do outro apenas para lembrar a si mesma que a gatinha era dele e que, se dependesse dela, Luma sequer estaria ali com eles. Torceu os lábios com essa ideia, erguendo o olhar prontamente, pegando a gatinha no braço assim que Yure passou a dar mais atenção à Mascota. <br />
<br />
Monique observou Charles e logo depois assistiu o namorado correr atrás da Mascota como se ambos dividissem a mesma sintonia de uma voltagem de 220 o tempo todo. Suspirou conformada, ainda que não conseguisse esconder o sorriso de contentamento com a cena. Arrumou uma das saídas de praia que havia trazido como uma toalha sobre a areia, permitindo que Luma descansasse mais perto do sol. Aquilo era um comportamento de gatos, não era? Gostar da brisa fresca e do calorzinho do sol? <br />
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Arrumou suas bolsas antes de remover a blusinha pastel azul que usava, deixando o top do biquíni, vermelho vibrante, à mostra. Estava calor e era bom passar um pouco de protetor solar para não ferir tanto sua pele com o sol. Aproveitou que Charles negou sua oferta de água para beber um pouco da garrafa, separando um pouco da água na mão para molhar a mesma, oferecendo os dedos molhados para a gatinha, lavando-lhe o nariz em meio ao calor do litoral. <br />
<br />
- Eu trouxe alguns lanches, caso queira experimentar. - ofereceu ao loirinho, fazendo uma pausa para observar o namorado tendo o cordão do calção roubado. Suspirou, rindo baixo com a cena. - Lukashenko tem uns amigos com algumas restrições alimentares, então eu trouxe algumas opções sem lactose, sem carne. <br />
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Avistou enquanto Mascota voltava correndo e se adiantou para segurar a cadelinha para que ela não acabasse machucando Luma sem querer, apenas por ser elétrica demais e afoita. <br />
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- Ca-Calma, Luma! Calma! Hahahahahaha! O que é isso? Um cordão?! Você roubou do Lukashenko isso?! Foi mesmo?! Boa menina! Uma boa menina você é! Hahaha! - elogiou os esforços da cadelinha, dando atenção para ela na mesma medida que estava acostumada a dar para que ela se acalmasse, segurando-a para baixo e fazendo carinho na barriga e atrás das orelhas do animal ofegante. - Pega a vasilha dela e enche de água, por favor. - ergueu o olhar, estreitando os olhos por conta da claridade do sol ao fazer o pedido ao namorado. Era importante manter a cadelinha hidratada, principalmente quando ela era tão empolgada em ficar correndo atrás do responsável dela. <br />
<br />
Observou Yure e Charles se preparando para irem tomar banho de mar e continuou dando atenção para Mascota, fazendo-lhe carinho para que se acalmasse. <br />
<br />
- Oi, vocês dois lembraram de passar protetor solar? Depois vão ficar aí descascando feito suas cobras. - reclamou por costume, logo buscando seu frasco de protetor solar para passar em si mesma, deixando espaço em sua bolsa para criar um tipo de “ninho” em que Luma pudesse descansar e relaxar perto do cheiro de suas coisas e do calorzinho agradável daquela manhã.]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[[Drive] Beauty and the Beat [Magali; Laverne]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=299</link>
			<pubDate>Mon, 27 Sep 2021 16:16:27 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=3">Lil</a>]]></dc:creator>
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			<description><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
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Em geral, Laverne se sentiria chateada de receber uma ligação de seus pais pedindo como favor alguém para tocar piano em uma festa para os amigos da família. Os dois eram musicistas, poderiam muito bem fazer isso por conta própria ou pedir para alguém fazer. Mas retornaria para casa em breve por um final de semana, e aparentemente eles queriam lhe exibir como a filha pródiga que conquistou uma bolsa em Limoges-Collet, a famosa academia irmã de St. Clavier. Não tinha ideia se gostava ou não disso.<br />
<br />
A liberdade que tinha era que era a única pessoa no clube de ciências, e podia se dedicar a ele sempre que queria – o que significava sempre –, mas na necessidade de ensaiar algumas músicas para apresentar na festa de seus pais, podia tirar um tempo para tocar no piano da sala de música com uma pilha de partituras que carregava embaixo do braço.<br />
<br />
E tinha um adicional na sala de música. Aparentemente, a professora de música agora, Magali Florence, era uma moça jovem e com um conhecimento profundo de música. As meninas que estavam no clube de música tinham melhorado bastante. Então talvez ela pudesse lhe ajudar com seu sincero problema de falta de emotividade e delicadeza. Por isso entrou na sala de música no horário da professora Florence, e após um par de batidas na porta, entrou e parou para esperar permissão.<br />
<br />
- Professora Florence, preciso de permissão para usar sua sala de música para praticar essas partituras. E se tiver tempo, quero ajuda com as partituras também. – Laverne falou, a expressão séria de sempre. - Por favor. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Estava com certa dificuldade em entender como o próprio celular funcionava. Havia baixado um aplicativo por sugestão de Hanna para poder criar suas próprias playlists e ainda encontrar playlists de outras pessoas. Spotify era o nome do programa, mas estava com problemas de entender como ajustar seu perfil e entender como os gêneros e playlists poderiam ser organizados. Aparentemente, seguir a sugestão de Jackie para tentar usar músicas da cultura pop havia começado a empolgar as alunas para aprenderem sobre teoria musical de forma mais prática. <br />
<br />
Organizava algumas das partituras escritas pelas alunas enquanto ensaiava as notas no piano. Corrigia com uma caneta vermelha, apontando os tons que precisavam ser ajustados para harmonizar a música. Parou para verificar o próprio celular, procurando pela música original de Britney Spears, Criminal, no Spotify. Era uma letra curiosa para uma de suas alunas escolher para tocar. E foi no momento que ouviu as batidas na porta e esta foi aberta e acabou perdendo a atenção do próprio celular que começava a tocar a letra da música pop em alto e bom som. <br />
<br />
- Ahhh! - exasperou-se, tentando pausar a música, demorando mais do que o esperado para pausar a música por perder tempo ainda ao bloquear e desbloquear a tela principal. - Ah… oi? Permissão? Claro, mademoiselle, claro que pode sim. - observou o semblante sério da garota antes de colocar o celular de lado. - Alguma coisa errada? - perguntou ao ajustar o próprio par de óculos, genuinamente preocupada com a seriedade da mais nova. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
<br />
Foi impossível não ouvir de dentro da sala a música ficando cada vez mais alta, e o gritinho desesperado da professora lhe deu um susto momentâneo, mas acabou espiando pela porta o que ela estava fazendo quando recebeu permissão para usar a sala de música. Não tinha nem ideia do porquê do pânico repentino quando a música começou a tocar, mas franziu de leve a testa enquanto entrava na sala e fechava a porta atrás de si, encarando a mulher mais velha.<br />
<br />
Curioso que se fosse tão claro que pudesse usar a sala, certamente não teria permitido permissão. Mas sabia que havia algumas normas de conduta na escola. E algo no comportamento da professora denunciavam que ela estava se comportando como uma criminosa com aquele celular, o que ficou bem na sua cabeça.<br />
<br />
- Tem sim. Por que desligou o som do celular? Não é proibido tocar música na sala de música. – Laverne falou muito diretamente, com o semblante fechado. Mas não perdeu tempo esperando a resposta, e apenas caminhou silenciosamente até o piano, colocando as partituras no suporte, à altura dos seus olhos. – Você está ocupada agora? Como eu disse, preciso de ajuda para praticar com as partituras. – então Laverne deu uma longa pausa, e olhou para a professora. – Por favor.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Ficou um tanto surpresa com a pergunta da mais nova, ainda mais pelo semblante fechado da mesma, mas não deixou de esboçar um sorriso amigável quando ela voltou a perguntar se estava ocupada. De fato, estava ocupada, mas jamais negaria ajuda a alguma de suas alunas. O sorriso ficou um pouco sem graça e o olhar se tornou mais compreensivo quando ela levou algum tempo até lhe pedir “por favor”. <br />
<br />
- Claro, posso ajudar sim. - respondeu, animada. Separou o próprio celular, bloqueando a tela e deixando o aparelho de lado enquanto se voltava mais uma vez para a aluna. - Ah, e sobre o celular, eu estava tentando montar uma partitura com uma música mais moderna de uma cantora de pop chamada Britney. Suas colegas parecem gostar, então achei que seria interessante para treinar os ouvidos. - explicou-se ainda que ela não tivesse insistido em alguma explicação que precisaria dar. <br />
<br />
Aproximou-se do piano onde a garota havia deixado as partituras e ajustou o próprio par de óculos, curiosa com o arranjo. Observou a aluna que era mais alta que sua figura, os cabelos dela eram um dos tons mais bonitos de ruivo que já havia visto em sua vida, tinham um bom contraste com a expressão mais séria dela. <br />
<br />
- Qual é a sua questão, mademoiselle… Laverne… - arriscou, certa de que não esqueceria o nome de uma aluna alta e de traços tão marcantes como ela. Ergueu o indicador ao próprio queixo, esperando uma confirmação. - Acertei? - sorriu, amistosa. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
<br />
Ficou satisfeita ao ouvir que a professora poderia lhe ajudar a praticar as partituras, porém, a explicação seguinte sobre estar preparando material para as outras meninas fez com que franzisse a testa de leve. Afinal, ela estava ocupada ou não estava ocupada? Estava atrapalhando ou não estava? Pelo menos ela já tinha parado o celular e lhe dado o aval para praticar, o que provavelmente queria dizer que estava tudo bem ali.<br />
<br />
- Interessante. Acho que seus métodos devem funcionar. Notei uma melhora no clube de música depois que você veio trabalhar aqui. - falou com o mesmo semblante, encarando a mais velha. - Mas eu perguntei porque precisou desligar, não o que estava fazendo. - Laverne adicionou com um leve franzido da testa, e então abriu as partituras, procurando a que queria praticar. - De todo modo, se você não está mais fazendo isso e se dispôs a me ajudar, acho que não importa. <br />
<br />
A garota sentou-se ao piano, notando a professora muito próxima, curvando-se para olhar as partituras. Ela parecia ser o tipo bastante sociável e paciente, o que era bom, considerando que sabia que pecava bastante nesse aspecto.<br />
<br />
- Acertou. Laverne Salomé. Magali Florence, certo? - confirmou, pois talvez fosse o caso de estar chamando a outra pelo nome errado. Mas tinha verificado antes de ir até a sala de música. Apontou a partitura aberta. - Eu preciso tocar algumas peças à pedido dos meus pais e uma festa em breve. Mas dentre os pedidos deles, está Rhapsody in Blue do Gershwin. Eles disseram que seria meu desafio. - ela comentou, observando todas as anotações que tinha feito na partitura, todas as idas e vindas, correções, acidentes e dinâmicas. - As outras peças são rápidas, posso disfarçar, mas Gershwin tem uma influência de jazz, é mais emocional e repentino. Eu sei que estou tocando certo, mas meus pais dizem que “certo” não necessariamente quer dizer “bem”. Acho melhor deixar você ouvir.<br />
<br />
Laverne então rapidamente moveu os pulsos e os dedos, aquecendo brevemente, então começou a tocar a peça, seguindo inteiramente a métrica anotada na partitura. Ela tocou apenas a parte inicial, que era mais lenta, o que já era impressionante porque certamente aquela partitura era bastante difícil. Mas se havia uma coisa curiosa era que a ruiva tocava absolutamente tudo de acordo com a partitura, inclusive as pausas e tempos, com a precisão de um metrônomo. Apesar de relaxada, a expressão corporal também não mudava, assim como a expressão séria, como se ela estivesse lendo um livro técnico. Suas mãos eram bem treinadas e ágeis, mas certamente faltava alguma coisa. Ela parou depois de alguns minutos.<br />
<br />
- O que acha?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Ficou contente com o comentário da aluna sobre a melhora nas aulas de música com a sua presença. Era muito satisfatório para sua figura que as alunas se sentissem satisfeitas com seu método de ensino. Contudo, logo após o comentário, ela lhe corrigiu sobre o objetivo de sua explicação ser desnecessário. Consentiu apenas com a cabeça, deixando que a garota falasse, concordando mais uma vez com ela quando mencionou seu nome de forma correta. <br />
<br />
Uniu as mãos a frente do próprio corpo, erguendo o olhar por um instante, puxando da memória a melodia da partitura da qual ela falava. Sorriu animada, era uma partitura bem divertida, mas um tanto “difícil” para alguém que ainda estava estudando música pela variação constante de ritmos e arranjos. Ao menos a garota tinha uma boa noção de onde vinha a origem daquela escolha musical, sinal de que ela deveria ter pesquisado sobre a partitura antes de meramente executá-la. <br />
<br />
- Certo, mademoiselle. - concordou com ela, dando um passo para trás e cruzando os braços à frente do próprio corpo, mantendo sempre a boa postura enquanto assistia a mais nova tocar a partitura da qual os pais dela pareciam preocupados não estar “certa”. <br />
<br />
Manteve o dedo indicador como um velho hábito, para cima e para baixo, acompanhando mentalmente o tempo e as notas da música que conforme eram tocadas por Laverne, a memória lhe retornava com a partitura que originalmente já havia se deparado. Assistiu a moça no piano tocar de forma perfeitamente técnica, mas comparada a outros músicos que já assistira, ela parecia um tanto mecânica demais. Era notório o conhecimento que ela possuía na música, mas ainda assim ela não transparecia “aproveitar” da melodia e do próprio sucesso em executar a partitura de forma correta. Esperou até ela terminar e lhe perguntar sua opinião. <br />
<br />
- É a sua respiração. - respondeu como se fosse algo simples de se notar. Ao menos era uma boa forma de tentar fazer com alguém aparentemente objetiva como aquela ruivinha enxergasse a falta de “performance” na própria apresentação. - Músicas que são mais “emocionais” e repentinas são melhor executadas quando usamos um reflexo mais orgânico do nosso próprio corpo. <br />
<br />
Aproximou-se, pedindo licença antes de sentar ao lado da moça no banco, ajustando o par de óculos antes de ajustar também a própria postura. <br />
<br />
- É um pouco difícil de se acostumar na primeira vez, mas… os seus olhos estão aqui. - indicou, erguendo a mão e sinalizando o olhar da moça para a partitura no piano. - Suas mãos aqui. - sinalizou novamente, sem tocar na garota, colocando sua própria mão no piano e começando a tocar algumas notas da partitura sem olhar para o piano. - Você já consegue fazer o processo de leitura sem precisar do contato visual com o instrumento. - fez uma pequena pausa, levando a mão que antes sinalizava para o espaço abaixo do próprio peito. - Inspirar e expirar é um processo mais natural… - demonstrou, o gesto fazendo seus ombros relaxarem e sua linguagem corporal mudar por apenas um mero momento. - ... e se usar isto para marcar o seu ritmo, sua performance vai melhorar. - explicou, esboçando um sorriso mais compreensivo antes de se levantar, dando espaço para a mais nova. - Quer tentar? - ofereceu, sem tirar os olhos da moça. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
<br />
Laverne não esperava uma resposta tão pronta sobre o problema do jeito que tocava, mas franziu a testa quando ouviu qual era.<br />
<br />
- Eu não vou conseguir segurar a respiração por seis minutos, mademoiselle. – respondeu, olhando de esguelha para a professora, logo depois ouvindo a explicação sobre ter que usar reflexos mais “orgânicos” do corpo. Laverne encarou a mulher, pois não achava que precisava explicar para ela que certamente não era composta de matéria inorgânica.<br />
<br />
Deu espaço para a professora, e então seguiu as mãos dela, ainda com o cenho franzido. Afirmou que sim, que já conseguia seguir a partitura sem olhar para as teclas do piano, mas estava se perguntando se a professora achava que seu nível de piano era baixo. Mas não reclamou disso. Se ela tinha conseguido fazer as meninas do clube de música tocarem melhor, então deveria saber o que estava fazendo.<br />
<br />
- Marcar o ritmo da performance com a respiração...? – Laverne estranhou a sugestão, porque se bem lembrava, a música pedia um metrônomo relativamente rápido. – Eu vou fazer do seu modo. – Laverne ainda parecia ter algo a dizer sobre isso, mas já tinha tentado de tudo, não lhe custava tentar mais isso.<br />
<br />
Então marcou o ritmo com a mão, movendo-a em 1, 2, e 3, antes de começar a tocar e respirar simultaneamente. Mas Laverne não respirou como lhe era natural. Ao invés disso, inspirou e expirou curtinho pela boca no ritmo rápido de um metrônomo, o que lhe fez mais parecer uma grávida em fim de trabalho de parto. Só que tocar daquele jeito não parecia certo. Menos ainda quando sentiu a cabeça ficar leve demais.<br />
<br />
- Professora, acho que assim eu vou desmaiar antes do fim da performance. – ela falou, arregalando os olhos e parando subitamente de tocar com uma espalmada para se segurar no piano.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Ficou impressionada em como a aluna não conseguia manter um ritmo de respiração mais orgânico e menos mecânico como a maioria de suas alunas faziam. Talvez ela estivesse pensando demais em como tocar e não no que a música poderia significar como ritmo? Tinha a suspeita de que a capacidade dela de abstração não era assim tão fluída quanto a maioria de suas alunas. Contudo, não havia como negar a habilidade dela para entender a técnica musical. <br />
<br />
Sorriu um tanto sem jeito diante da performance da aluna, entendendo a mão para lhe fazer um breve afago nas costas em um gesto mais amistoso. <br />
<br />
- Tudo bem, Samolé. Vamos tentar de outro jeito então. - avisou e se levantou para pegar um lápis e uma borracha em meio aos papéis que carregava anteriormente na chegada da garota naquela sala. Aproximou-se do piano mais uma vez e observou a partitura a sua frente. - A mademoiselle já criou alguma partitura?<br />
<br />
Estendeu a mão para a partitura a frente das duas, tomando-a de seu local para lê-la rapidamente. <br />
<br />
- Quando nós tocamos piano, nós usamos dois tipos de escalas, certo? O que você pode criar é uma escala complementar para sua respiração. Ela não precisa ter a mesma composição musical que as outras duas, mas você precisa ter uma equivalência do que o seu corpo pode produzir sem que desmaie. - ofereceu a ideia, estendendo o lápis para a garota. - O que acha? Quer tentar? - sorriu gentil como de costume.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
<br />
A mão nas costas de apoio foi até positivo, porque sabia que tinha falhado miseravelmente naquele teste. Mas a professora deveria ter outros métodos, porque logo ela voltou com um lápis e borracha, e claro que deu espaço para que ela se acomodasse do seu lado se quisesse. Só estranhou a pergunta sobre criar partituras.<br />
<br />
- Já escrevi partituras, mas nunca criei nada autoral. Até os arranjos, eu costumo pegar de outros intérpretes. Meus pais nunca ficam satisfeitos quando tento criar algo do zero. – ela comentou, mas não de modo triste ou frustrado. Era apenas óbvio que uma pessoa que tinha imensa dificuldade de colocar seus sentimentos no instrumento não conseguiria escrever um arranjo emotivo para ser tocado, e embora fosse capaz de criar música a partir de escalas e usando sequências lógicas, sua música não seria nada além de matemática aplicada.<br />
<br />
A ideia de Magali, entretanto, fez com que Laverne encarasse a mulher por um instante, atenta. Fazer uma partitura para a respiração, como um complemento para a música. A ruiva entreabriu os lábios, interessada, mas os olhos estavam distantes, como se ela estivesse pensando nas possibilidades daquela sugestão. Então, abriu um sorriso, tão animada que virou prontamente para o piano e a partitura, olhando o papel atentamente. Laverne pegou o lápis sem sequer olhar para a professora.<br />
<br />
- Posso criar uma partitura de ritmo, como se fosse para uma bateria, mas uso para respiração. Posso aproveitar algumas dessas pausas e ralentandos, e depois intensificar com o ritmo da música. É uma ideia brilhante, professor Florence. Não é que você é mesmo esperta? – a garota comentou, enquanto usava o lápis para adicionar um ou dois x que indicavam a respiração em cima das linhas já prontas da mão esquerda. – O tempo de uma respiração longa... o tempo de uma respiração curta... – ela falou, respirando fundo e contando com estalos nos dedos, rapidamente anotando os tempos e colocando respirações longas e curtas como se de fato fosse uma partitura de ritmo, e a garota estivesse experimentando com padrões conhecidos. – O que acha? As respirações devem ser silenciosas, claro. Não acho que nenhum dos convidados dos meus pais vá querer ouvir meu nariz como instrumento de ritmo. Devo testar?<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Ficou um pouco preocupada quando a garota falou sobre os pais dela ficarem insatisfeitos quando ela tentava criar algo. Contudo, ficou contente com a animação repentina da garota ao parecer mais confortável com a solução proposta. Sorriu para a ruiva ao ser elogiada pela mesma. Estava ali para auxilia-la no final das contas. Era satisfatório conseguir diminuir a frustração de suas alunas, pelo menos com a música. Ainda ficou surpresa com a velocidade do pensamento de Laverne ao conseguir criar uma adaptação à partitura de forma rápida ainda que improvisada. <br />
<br />
- Claro. Vá em frente. - encorajou a garota, atenta aos sons que ela produzia através da respiração dela. Sabia que havia algumas canções que utilizavam de sons mais nasais, o que não seria o caso dela. Porém, se a ideia de uma terceira partitura desse certo, certamente ela pareceria tocar o instrumento de uma forma mais orgânica que mecânica. <br />
<br />
Observou a ruiva em silêncio, ajustando os óculos por um instante ao se atentar para a postura e o mover das mãos dela. Pelo exercício musical, ela parecia ter bastante prática com o instrumento. Ouviu a música, notando as nuances das notas, tocadas em um ritmo como se fosse gravado. Ao menos esperava que o auxílio da respiração dessa vez pudesse ajudar a garota com a própria “interpretação” musical. Estava contente de estar ali ajudando Laverne. Não era todos os dias que uma de suas alunas lhe procurava, muito menos alguém já experiente como a ruiva era. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
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Com a permissão da professora, deu uma olhada na partitura. Diferente do que provavelmente muita gente fazia de forma lógica, que era respirar fundo antes de tocar, Laverne nem tinha pensado na parte de respirar antes como parte da interpretação, começando apenas a dedilhar, dessa vez olhando a partitura mais atentamente para ver onde deveria respirar.<br />
<br />
Enquanto a música ainda ia mais lenta, a garota pareceu conseguir tocar seguindo ritmo da respiração como tinha planejado, e por um instante talvez, apesar da postura fica que variava apenas pela mecânica do movimento necessário para que ela tocasse e a falta de expressão no rosto, pelo menos com a respiração, ela parecia mais relaxada ao piano que antes, e ao invés de um robô, ela desceu a escala de um tipo de maníaco leitor de partituras, o que era uma interpretação, por assim dizer.<br />
<br />
Porém, ao chegar na parte mais rápida da música, foi difícil para Laverne manter a respiração como deveria, afinal, tinha partes muito difíceis para tocar ao piano e ainda estava tentando ler uma terceira linha de ritmo. Chegou em parte da música, sem concluir, e quando viu que não estava acertando completamente a partitura, decidiu fazer uma pausa.<br />
<br />
- Hm. Pelo visto vou ter que fazer ajustes ainda. É difícil tocar Gershwin com duas mãos e ainda manter o ritmo da respiração. Agora entendo porque meus pais dizem que interpretar a música é tão difícil. São três instrumentos para comandar ao mesmo tempo. – a garota ponderou, o cenho levemente franzido enquanto observava o papel. Então voltou-se devagar para a professora. – Mas o que acha, professora Florence? Eu acho que foi bem melhor, e que talvez precise pegar o ritmo com o tempo, mas já notei diferenças antes e depois.  <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
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Ficou satisfeita com a resposta de Laverne a sua sugestão, observando-a em silêncio enquanto ela tocava. A garota com certeza tinha um raciocínio bem eficiente para música, principalmente ao improvisar partituras. Levou uma das mãos até o próprio queixo e ponderou por um momento, considerando que ela havia parado justamente quando começou a errar algumas notas da partitura. Esperou até que a garota terminasse de falar e pedisse sua opinião. Sorriu novamente amistosa para a garota antes de responder: <br />
<br />
- A mademoiselle tem ótimos reflexos e raciocínio, com certeza. - começou, fazendo uma pausa antes de abrir a boca para falar novamente. - Já pensou em tocar mais a frente de um espelho? - gesticulou, indicando que havia um espelho grande no meio da sala que havia requisitado para a diretora para seus próprios ensaios. - Ou pode filmar seu treinamento? - sugeriu, imaginando o que seria mais fácil para ela. - Quando estamos nos apresentando para os outros, não temos uma visão apropriada de nossa própria imagem, isso dificulta para que possamos corrigir alguns maus hábitos como má postura ou expressão corporal e da face que são muito “monótonas”. - encarou a garota ainda com um sorriso no rosto, porém com um ar um pouco mais sério. - E eu sugiro não interromper a partitura até terminá-la. Com o tempo, isso cria um mal hábito de parar de tocar quando não estamos satisfeitos com alguns pequenos resultados. Em uma apresentação, isso não pode acontecer. Portanto, para evitar esse tipo de reflexo, eu sugiro evitar de parar de tocar a partitura completa, mesmo quando estiver ensaiando. <br />
<br />
Levantou-se devagar, caminhando até o espelho para poder afastar a cortina fina que o cobria. Gesticulou para que a garota de sardinhas se aproximasse e fez uma nova pausa para ajustar seus próprios óculos. <br />
<br />
- Já fez algum ensaio de expressão? - perguntou de antemão para a mais nova, esperando que ela não estivesse desconfortável com seu comentário anterior. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
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A professora Florence lhe elogiou de uma forma um tanto óbvia. Sabia que era habilidosa, isso não necessitava confirmação. Porém, em seguida, ela prosseguiu em dar outra dica para que melhorasse a interpretação: tocar frente ao espelho. Franziu a testa, entendendo que ao ver a própria imagem, talvez pudesse ficar mais atenta ao que estava com as costas ou com o rosto, mas não necessariamente entendia o que ela queria dizer com uma expressão “monótona”.<br />
<br />
- Acho filmar mais plausível, professora Florence. Pelo que estou entendendo, quer que eu toque a partitura e preste atenção na minha imagem ao mesmo tempo, isso enquanto aperto das teclas certas sem errar e tento me adaptar a uma partitura de respiração. – Laverne ponderou, depois de ouvir todas as sugestões. - Sei que sou muito boa, mas meu par de olhos tem apenas 20% de visão periférica, e uma dependência de foco no objeto caso precise prestar atenção. Eu não sou capaz de olhar duas partituras e eu mesma simultaneamente, não agora. Talvez quando eu decorar a partitura. – então ponderou mais um pouco, ainda com a mesma expressão de leve desagrado com o cenho franzido. – E eu não sei o que quer dizer com expressões “monótonas”.<br />
<br />
Ela não parecia ofendida com aquela colocação, só intrigada pelas sugestões da professora. Então levantou do piano com o chamado dela para que se aproximasse do espelho, observando sua figura no uniforme, mas não dando muita atenção geral se sua aparência estava boa ou não.<br />
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- Nunca fiz nenhum ensaio de expressão. Do que se trata?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
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Acompanhou o raciocínio da aluna de que tudo aquilo parecia muito para a coordenação humana. Compreendia o que ela queria dizer, principalmente pela forma mais direta da mais nova lhe dirigir a palavra e o ar mais seguro e confiante dela ao falar sobre si própria. Sorriu compreensiva, considerando que ela apenas estava considerando a própria visão no processo de percepção. <br />
- Aqui. - segurou a mão da aluna em um gesto mais delicado, apontando para o espelho para que ela prestasse atenção no próprio reflexo. Soltou-lhe a mão e observou o reflexo dela, a mocinha era alta e bonita ao seu modo. Gostava das sardas no rosto de Larvene, lhe faziam lembrar dos vários sinais que tinha. - Nesse momento, o que pode dizer sobre sua própria linguagem corporal? O que está se passando pela sua cabeça agora? - perguntou, aguardando a resposta de forma educada, não esperando se ofender com nenhuma palavra da garota.<br />
<br />
Após a breve pausa para ouvir a resposta dela, foi até a partitura que ela havia deixado no piano e retornou a passos rápidos. <br />
<br />
- Um ensaio de expressão consiste em utilizar de sua expressão corporal e visual para traduzir algum conceito ou emoção, evocando este e tornando-o perceptível para terceiros. É um tipo de reflexo que usamos quando queremos transmitir o que sentimos para o público mesmo quando não podemos usar palavras. É um tipo de mecanismo muito natural que aprendemos a desenvolver desde crianças, quando nossa mãe nos sorri e sorrimos de volta. Ou quando alguém espirra e nosso nariz começa a coçar. - explicou, fazendo pequenas pausas enquanto revisava rapidamente com o olhar a partitura. - Esta partitura é uma das obras mais famosas de Gershwin, um pianista que influenciou também o cinema em Hollywood. Infelizmente, ele veio a falecer por conta de uma doença, mas em sua biografia, esta música é usada como trilha sonora. Imagine que quando a mademoiselle está tocando Rhapsody In Blue não está apenas comunicando notas, mas a história da vida de um pianista. <br />
<br />
Respirou fundo, fazendo uma nova pausa para poder ficar ao lado do espelho e de frente para a mocinha, observando-a ainda com um sorriso gentil no rosto. <br />
<br />
- Então? Podemos ensaiar algumas expressões? Seu corpo precisa se conectar ao seu cérebro para que a história dessa partitura seja contada, mesmo que não use nenhuma palavra. - ofereceu, amistosa. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
<br />
Laverne quase se assustou quando a professora decidiu pegar sua mão daquele jeito delicado, franzindo a testa e encarando a mais velha, vendo como ela calmamente lhe pedia para prestar atenção na própria expressão. Os ombros estavam tensos e as costas eretas como deveriam estar, e sua cara certamente ainda demonstrava sua indignação com o toque em sua mão.<br />
<br />
- Posso dizer que estou confusa, professora Florence. Não sei o que minha mão tem haver com o espelho. Eu acredito que bastava ser instruída, minha visão é perfeita, não preciso de guia. - Laverne comentou, então apontando para o espelho com a outra mão. - Eu acho que isso é perfeitamente comunicado na minha expressão, mas agora também está comunicado na fala. <br />
<br />
Laverne acompanhou a professora com a partitura explicando todo o conceito do ensaio de expressão. Era um conceito mais realizável do que os ensaios com seus pais que costumavam só esperar que soubesse transmitir as emoções na música. Por toda uma vida havia considerado que era só uma questão de dinâmicas bem ensaiadas, mas agora começava a entender que era algo de expressão corporal também. Mas como isso funcionava numa gravação, bom, seria uma lição para outra aula. <br />
<br />
- Isso é como atuação, professora Florence? Não sou boa atriz. - admitiu, apertando os lábios. - Posso tentar, mas vai ter que me instruir no que fazer. Não pesquisei a fundo a vida de Gershwin. Não sei porque compôs essa música. Só sei que é a fusão de música clássica com jazz, e que jazz é mais sentimental, usualmente. Mas imaginei que era a dinâmica, e os vocais, e letras.  - se explicou.<br />
<br />
Então parou como se não estivesse acreditando na mais velha, piscou um par de vezes e franziu a testa. <br />
<br />
- Perdão, professora, mas onde acha que meu cérebro está? - Laverne perguntou, erguendo as sobrancelhas. Então apontou para o próprio rosto. - Descrença.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Piscou algumas vezes com o comentário da aluna sobre o gesto de ter segurado-lhe a mão. Ajustou os óculos novamente, terminando de escutar as palavras dela. Sorriu um pouco sem graça ao observar a expressão de indignação dela, concordando com um aceno positivo para o fato dela conseguir comunicar o próprio desgosto bem com a expressão facial. Segurou a partitura contra o próprio corpo, observando a mais nova com um ar mais compreensivo quando ela admitiu que não era uma boa atriz. Teve ainda que segurar o riso com a resposta dela sobre onde o cérebro estava. Achou cômica a ideia de que era óbvio que o cérebro dela estava na cabeça, mas ainda assim as expressões faciais da mocinha não pareciam relaxar. <br />
<br />
- Perdão, Salomé. - baixou a partitura, observando melhor as notas antes de continuar. - Bem, isso não é exatamente atuação, mas é uma base para expressão corporal. Mas não se preocupe, minha intenção não é deixá-la desconfortável. Desculpe pelo… - ergueu a mão, apontando para ela em um breve gesto. - … não quis ser invasiva. - fez uma breve pausa, ajustando os óculos como um hábito. - Primeiro, eu vou pedir para que respire fundo algumas vezes, sua postura está um pouco tensa, Salomé. - gesticulou para os próprios ombros, indicando para que a mais alta relaxasse. - Vamos lá? <br />
<br />
Respirou fundo juntamente com a aluna, movendo os ombros em seguida como se estivesse se livrando de qualquer tensão que existisse sobre eles. Relaxou e, de novo, ajustou os óculos, terminando um ciclo de cinco respirações profundas antes de voltar a sorrir para a ruiva. <br />
<br />
- Já que vai estar tocando na presença dos seus pais, eu imagino, pode me contar o motivo porquê Rhapsody in Blue do Gershwin é um desafio? A mademoiselle parece ter uma boa coordenação motora e percepção musical. Esta partitura é complexa, mas não compreendo por que seria um “desafio”. Poderia explicar melhor para que eu possa ajudá-la? - pediu educadamente, buscando compreender melhor qual era o objetivo da aluna ali e se estava assumindo corretamente que o problema da outra era com a própria linguagem corporal e a expressão facial ao transmitir as próprias emoções com a música. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
<br />
Laverne encarou a professora enquanto ela pedia desculpas pelo comportamento invasivo que a aluna não estava acostumada, especialmente com professores de música. Estava acostumada a sentar do lado dos professores de piano, mas não que pegassem sua mão e guiassem.<br />
<br />
- Está desculpada, professora Florence. – Laverne respondeu com a mesma seriedade, e então ouviu sobre o pedido para que respirasse, considerando que estava tensa. Não se via tensa, ou talvez tivesse se acostumado aquele estado, mas como tinha sido ela a ir atrás da professora, o certo seria obedecê-la. Ela até tinha algumas ideias interessantes.<br />
<br />
Acompanhou na respiração, respirando profundamente, embora seu cérebro não necessariamente parasse de funcionar, pensando em qual o objetivo de relaxar naquele momento, e se deveria voltar em outro momento para pedir dicas. Entendia porque oxigenar o corpo ajudava a relaxar a tensão muscular, mas ainda tinha mais impedimentos de concentração. Admitia, entretanto, que ficou um pouco mais calma.<br />
<br />
- Meus pais são musicistas, professora. E embora eu seja muito boa no piano, tenho dificuldade de criar interpretações de peças emocionais. Não é que eu não saiba tocá-las. Sei ler as dinâmicas perfeitamente, mas eles nunca ficam satisfeitos com minhas leituras. – ela falou muito claramente, de modo direto e sério. Não tinha nada a esconder ali sobre sua relação com seus pais e música, ou a professora não poderia lhe ajudar. – E não sei se é algo de todos vocês que são músicos, mas as explicações deles são muito abstratas para que eu entenda. Já ouvi todos os “imagine que está numa progressão, subindo escadas”, “você deve derramar os sentimentos que você tem pela música nas teclas”, “a partitura está lida, mas eu não sinto você nela”. No que isso deveria me ajudar? Eu gosto da ler partituras, elas são matemáticas. As dinâmicas foram escritas para serem interpretadas como estão escritas. Por que preciso adicionar ainda mais? E como esse “mais” soa?<br />
<br />
Laverne franziu de leve a testa, de um jeito que toda a respiração para relaxar já tinha sido irrelevante, pois ela acabou por cruzar os braços e tensionar os ombros de novo.<br />
<br />
- Já vi diversos músicos tocando a mesma canção. Eu sei que as dinâmicas não são iguais. Mas não quero reinventar a roda. Eu só quero tocar a música bem. – Laverne concluiu a explicação, soando um pouco mais frustrada que a expressão corporal demonstrava.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Observou a aluna, ouvindo com atenção a narrativa sobre os pais dela. Cruzou os braços na frente do próprio corpo, usando a mão livre fechada contra os próprios lábios, pensativa. Tentou puxar pela memória quem seriam os pais da garota, provavelmente já teria ouvido falar sobre eles ou até encontrado com os dois em algum evento ou concerto, mas entendia o que ela queria dizer com músicas “emocionais”. Como havia começado a aprender sobre música em um convento, já havia ouvido muito do que a garota falava sobre a música e os sentimentos que ela poderia evocar. Encarou a mais nova com um ar mais compreensivo quando ela se distanciou dela mesma ao considerá-la e aos próprios pais como “músicos” enquanto ela deveria ser algo diferente. Baixou a mão do rosto para o próprio pescoço, dando mais atenção a comparação da ruiva sobre as partituras serem matemáticas e sobre não encontrar sentido nas frases que foram aconselhadas a ela. <br />
<br />
- Tudo bem. - respondeu primeiramente, descruzando os braços antes de suspirar aliviada após ouvir todo o relato da moça. - Pois bem, Salomé, primeiro… - gesticulou após arrumar a partitura em mãos em um rolo, apontando-o para a garota. - … obrigada por dividir essa situação sua com seus pais comigo. - começou, arrumando os óculos logo em seguida. - A música parece ser algo em comum entre vocês e é muito bom ver o empenho da mademoiselle com o propósito de melhorar sua performance. Mas… - fez uma nova pausa, buscando melhor as palavras para se dirigir a aluna. - … a música… ela pode ser encarada de diferentes formas pelas pessoas. Nós temos ritmos diferentes ao falar, ao agir, e temos também sensações diferentes ao apreciar uma partitura. <br />
<br />
Caminhou até a aluna, desenrolando a partitura para mostrá-la novamente para a ruiva, ficando ao lado dela. <br />
<br />
- Aqui. Quando eu olho para esta partitura, eu recordo da história do compositor e de toda sua jornada e importância para o cinema e o jazz. - olhou para a ruivinha, sorrindo amistosa. - A mademoiselle enxerga a matemática por trás da partitura. - estendeu a partitura para ela, gesticulando para que segurasse a partitura. - Vamos fazer assim… por que, ao invés de buscar “atuar” as emoções que outras pessoas têm ao tocar esta partitura, não transformamos ela em algo que possa fazer sentido para a mademoiselle? Hm? <br />
<br />
Afastou-se para o quadro da sala de música, buscando o giz para poder anotar o título da partitura no cabeçalho, animada com a ideia que atravessava sua cabeça.<br />
<br />
- Todo enunciado matemático possui um problema de interpretação, certo? Vamos transformar essa partitura em uma grande equação! Cada nota possui um registro numérico de tempo e alguns registros possuem variações que são divididas pelo compasso da partitura ou as marcações de repetição ou distanciamento de tempos. - começou a escrever a parte mais importante e essencial da partitura do quadro, recordando cada uma das anotações da partitura sem precisar sequer conferir as folhas novamente. Ao terminar, pegou outro giz e estendeu para a ruivinha ainda com um sorriso amigável no rosto delicado. - Acha que consegue transformar isso em uma equação? <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
<br />
Arqueou a sobrancelha para o agradecimento da professora.<br />
<br />
- Não precisa agradecer, professora. Estou lhe contando minha frustração, não deveria ser algo pelo qual alguém agradece. Embora seja necessário, afinal, eu que lhe pedi ajuda. – ela respondeu de um modo seco e muito direto. As palavras da professora Florence lhe faziam sentido, entretanto, no ponto de que cada um interpretava a leitura musical, como cada um agia de forma diferente. Talvez porque era uma pessoa muito mais seca e menos dramática que seus pais, e mal tinha sido criada com eles nos teatros, se apegando mais a sua avó e aos livros de ciências, que era incapaz de ver a música da forma que eles viam. E não ajudava que eles não eram claros sobre o que queriam.<br />
<br />
Podia não ser boa interpretando pessoas em geral, mas podia ver claramente que a professora tinha uma ideia nova, e observou-a com curiosidade, embora a expressão se mantivesse perfeitamente séria. Enquanto isso ela foi falando sobre tempo na partitura, e as marcações de pausa e repetição, pensando aparentemente na partitura que tinha trazido. Laverne começou a se interessar gradualmente, tanto que aos poucos o rosto foi perdendo parte da seriedade, e ela escorregou para a ponta do banco.<br />
<br />
- “Acha que consegue”? Está me subestimando? Professora Florence, eu lhe pedi ajuda com interpretação porque sou horrível lidando com essas questões abstratas das ciências humanas. – ela então levantou do banco do piano e caminhou até o quadro, cruzando os braços e levando a mão até o queixo. – Mas eu sou a pessoa mais competente do departamento de exatas e ciências, à exceção das bolsistas que precisam ser competentes, porque elas dependem disso para estarem aqui. Talvez eu devesse ter tido isso, e me escapou à mente? – ela complementou sem um pingo de hesitação e humildade, como se aquelas palavras fossem óbvias. – Eu permito que me subestime na sua disciplina, mas lhe digo com certeza que consigo.<br />
<br />
Laverne sequer olhou para a professora, ao invés disso abrindo a partitura, que era enorme e folheando atenta por uns instantes.<br />
<br />
- Eu poderia só considerar a matemática básica envolvida na partitura e utilizar as frações equivalentes como elementos das notas, criando equações padronizadas para cada trecho que se repete da partitura. Mas essa peça tem poucos trechos repetitivos, e em pelo menos quatro trechos longos, as fórmulas de compasso mudam, já que as batidas por minuto da música se intensificam. – Laverne começou, disparando sozinha enquanto tirava o giz da mão da professora, começando a escrever o primeiro trecho da música. – Se eu considerar as duas claves do piano e mudanças de frequência causadas por acidentes... é um universo a explorar.<br />
<br />
Ela tentou transformar as duas primeiras linhas em elementos representativos utilizando a letra n para representar as notas, f para fórmula do compasso, e embora até ficasse uma equação bonita, não parecia funcional.<br />
<br />
- Vou precisar de tempo. Acho que posso identificar os intervalos e frequências como uma fórmula, mas quero simplificar. Talvez precise de logaritmos para calcular o tamanho dos intervalos, e então refazer a função. As composições são feitas de acordo com o “sentimento” do autor, mas existe um universo matemático por trás da representação escrita desses intervalos. O som se torna agradável porque encontramos o padrão matemático. Quem sabe não encontro Fibonacci nessa música? Eu não pesquisei tão a fundo. – a garota então fechou a partitura de uma vez, e então abriu um sorriso largo pela primeira vez desde que tinha chegado ali naquela sala. – Professora Florence, eu sou um gênio! – então virou para a mulher mais velha. – E mademoiselle até tem boas ideias também.<br />
<br />
Então deu meia volta, deixando o giz de volta na mão da professora.<br />
<br />
- Eu devo passar na biblioteca, provavelmente não precisarei de mais do que três dias, se eu cortar o tempo de almoço. Quando fizer progressos, prometo trazer para você os resultados. Obrigada. – ela falou, sequer esperando resposta para sair agitada pela porta, em um humor completamente diferente do que tinha chegado, e uma esperança renovada de que podia tornar aquela música sua.<br />
<br />
[Pode encerrar Jana!]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
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Em geral, Laverne se sentiria chateada de receber uma ligação de seus pais pedindo como favor alguém para tocar piano em uma festa para os amigos da família. Os dois eram musicistas, poderiam muito bem fazer isso por conta própria ou pedir para alguém fazer. Mas retornaria para casa em breve por um final de semana, e aparentemente eles queriam lhe exibir como a filha pródiga que conquistou uma bolsa em Limoges-Collet, a famosa academia irmã de St. Clavier. Não tinha ideia se gostava ou não disso.<br />
<br />
A liberdade que tinha era que era a única pessoa no clube de ciências, e podia se dedicar a ele sempre que queria – o que significava sempre –, mas na necessidade de ensaiar algumas músicas para apresentar na festa de seus pais, podia tirar um tempo para tocar no piano da sala de música com uma pilha de partituras que carregava embaixo do braço.<br />
<br />
E tinha um adicional na sala de música. Aparentemente, a professora de música agora, Magali Florence, era uma moça jovem e com um conhecimento profundo de música. As meninas que estavam no clube de música tinham melhorado bastante. Então talvez ela pudesse lhe ajudar com seu sincero problema de falta de emotividade e delicadeza. Por isso entrou na sala de música no horário da professora Florence, e após um par de batidas na porta, entrou e parou para esperar permissão.<br />
<br />
- Professora Florence, preciso de permissão para usar sua sala de música para praticar essas partituras. E se tiver tempo, quero ajuda com as partituras também. – Laverne falou, a expressão séria de sempre. - Por favor. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Estava com certa dificuldade em entender como o próprio celular funcionava. Havia baixado um aplicativo por sugestão de Hanna para poder criar suas próprias playlists e ainda encontrar playlists de outras pessoas. Spotify era o nome do programa, mas estava com problemas de entender como ajustar seu perfil e entender como os gêneros e playlists poderiam ser organizados. Aparentemente, seguir a sugestão de Jackie para tentar usar músicas da cultura pop havia começado a empolgar as alunas para aprenderem sobre teoria musical de forma mais prática. <br />
<br />
Organizava algumas das partituras escritas pelas alunas enquanto ensaiava as notas no piano. Corrigia com uma caneta vermelha, apontando os tons que precisavam ser ajustados para harmonizar a música. Parou para verificar o próprio celular, procurando pela música original de Britney Spears, Criminal, no Spotify. Era uma letra curiosa para uma de suas alunas escolher para tocar. E foi no momento que ouviu as batidas na porta e esta foi aberta e acabou perdendo a atenção do próprio celular que começava a tocar a letra da música pop em alto e bom som. <br />
<br />
- Ahhh! - exasperou-se, tentando pausar a música, demorando mais do que o esperado para pausar a música por perder tempo ainda ao bloquear e desbloquear a tela principal. - Ah… oi? Permissão? Claro, mademoiselle, claro que pode sim. - observou o semblante sério da garota antes de colocar o celular de lado. - Alguma coisa errada? - perguntou ao ajustar o próprio par de óculos, genuinamente preocupada com a seriedade da mais nova. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
<br />
Foi impossível não ouvir de dentro da sala a música ficando cada vez mais alta, e o gritinho desesperado da professora lhe deu um susto momentâneo, mas acabou espiando pela porta o que ela estava fazendo quando recebeu permissão para usar a sala de música. Não tinha nem ideia do porquê do pânico repentino quando a música começou a tocar, mas franziu de leve a testa enquanto entrava na sala e fechava a porta atrás de si, encarando a mulher mais velha.<br />
<br />
Curioso que se fosse tão claro que pudesse usar a sala, certamente não teria permitido permissão. Mas sabia que havia algumas normas de conduta na escola. E algo no comportamento da professora denunciavam que ela estava se comportando como uma criminosa com aquele celular, o que ficou bem na sua cabeça.<br />
<br />
- Tem sim. Por que desligou o som do celular? Não é proibido tocar música na sala de música. – Laverne falou muito diretamente, com o semblante fechado. Mas não perdeu tempo esperando a resposta, e apenas caminhou silenciosamente até o piano, colocando as partituras no suporte, à altura dos seus olhos. – Você está ocupada agora? Como eu disse, preciso de ajuda para praticar com as partituras. – então Laverne deu uma longa pausa, e olhou para a professora. – Por favor.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Ficou um tanto surpresa com a pergunta da mais nova, ainda mais pelo semblante fechado da mesma, mas não deixou de esboçar um sorriso amigável quando ela voltou a perguntar se estava ocupada. De fato, estava ocupada, mas jamais negaria ajuda a alguma de suas alunas. O sorriso ficou um pouco sem graça e o olhar se tornou mais compreensivo quando ela levou algum tempo até lhe pedir “por favor”. <br />
<br />
- Claro, posso ajudar sim. - respondeu, animada. Separou o próprio celular, bloqueando a tela e deixando o aparelho de lado enquanto se voltava mais uma vez para a aluna. - Ah, e sobre o celular, eu estava tentando montar uma partitura com uma música mais moderna de uma cantora de pop chamada Britney. Suas colegas parecem gostar, então achei que seria interessante para treinar os ouvidos. - explicou-se ainda que ela não tivesse insistido em alguma explicação que precisaria dar. <br />
<br />
Aproximou-se do piano onde a garota havia deixado as partituras e ajustou o próprio par de óculos, curiosa com o arranjo. Observou a aluna que era mais alta que sua figura, os cabelos dela eram um dos tons mais bonitos de ruivo que já havia visto em sua vida, tinham um bom contraste com a expressão mais séria dela. <br />
<br />
- Qual é a sua questão, mademoiselle… Laverne… - arriscou, certa de que não esqueceria o nome de uma aluna alta e de traços tão marcantes como ela. Ergueu o indicador ao próprio queixo, esperando uma confirmação. - Acertei? - sorriu, amistosa. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
<br />
Ficou satisfeita ao ouvir que a professora poderia lhe ajudar a praticar as partituras, porém, a explicação seguinte sobre estar preparando material para as outras meninas fez com que franzisse a testa de leve. Afinal, ela estava ocupada ou não estava ocupada? Estava atrapalhando ou não estava? Pelo menos ela já tinha parado o celular e lhe dado o aval para praticar, o que provavelmente queria dizer que estava tudo bem ali.<br />
<br />
- Interessante. Acho que seus métodos devem funcionar. Notei uma melhora no clube de música depois que você veio trabalhar aqui. - falou com o mesmo semblante, encarando a mais velha. - Mas eu perguntei porque precisou desligar, não o que estava fazendo. - Laverne adicionou com um leve franzido da testa, e então abriu as partituras, procurando a que queria praticar. - De todo modo, se você não está mais fazendo isso e se dispôs a me ajudar, acho que não importa. <br />
<br />
A garota sentou-se ao piano, notando a professora muito próxima, curvando-se para olhar as partituras. Ela parecia ser o tipo bastante sociável e paciente, o que era bom, considerando que sabia que pecava bastante nesse aspecto.<br />
<br />
- Acertou. Laverne Salomé. Magali Florence, certo? - confirmou, pois talvez fosse o caso de estar chamando a outra pelo nome errado. Mas tinha verificado antes de ir até a sala de música. Apontou a partitura aberta. - Eu preciso tocar algumas peças à pedido dos meus pais e uma festa em breve. Mas dentre os pedidos deles, está Rhapsody in Blue do Gershwin. Eles disseram que seria meu desafio. - ela comentou, observando todas as anotações que tinha feito na partitura, todas as idas e vindas, correções, acidentes e dinâmicas. - As outras peças são rápidas, posso disfarçar, mas Gershwin tem uma influência de jazz, é mais emocional e repentino. Eu sei que estou tocando certo, mas meus pais dizem que “certo” não necessariamente quer dizer “bem”. Acho melhor deixar você ouvir.<br />
<br />
Laverne então rapidamente moveu os pulsos e os dedos, aquecendo brevemente, então começou a tocar a peça, seguindo inteiramente a métrica anotada na partitura. Ela tocou apenas a parte inicial, que era mais lenta, o que já era impressionante porque certamente aquela partitura era bastante difícil. Mas se havia uma coisa curiosa era que a ruiva tocava absolutamente tudo de acordo com a partitura, inclusive as pausas e tempos, com a precisão de um metrônomo. Apesar de relaxada, a expressão corporal também não mudava, assim como a expressão séria, como se ela estivesse lendo um livro técnico. Suas mãos eram bem treinadas e ágeis, mas certamente faltava alguma coisa. Ela parou depois de alguns minutos.<br />
<br />
- O que acha?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Ficou contente com o comentário da aluna sobre a melhora nas aulas de música com a sua presença. Era muito satisfatório para sua figura que as alunas se sentissem satisfeitas com seu método de ensino. Contudo, logo após o comentário, ela lhe corrigiu sobre o objetivo de sua explicação ser desnecessário. Consentiu apenas com a cabeça, deixando que a garota falasse, concordando mais uma vez com ela quando mencionou seu nome de forma correta. <br />
<br />
Uniu as mãos a frente do próprio corpo, erguendo o olhar por um instante, puxando da memória a melodia da partitura da qual ela falava. Sorriu animada, era uma partitura bem divertida, mas um tanto “difícil” para alguém que ainda estava estudando música pela variação constante de ritmos e arranjos. Ao menos a garota tinha uma boa noção de onde vinha a origem daquela escolha musical, sinal de que ela deveria ter pesquisado sobre a partitura antes de meramente executá-la. <br />
<br />
- Certo, mademoiselle. - concordou com ela, dando um passo para trás e cruzando os braços à frente do próprio corpo, mantendo sempre a boa postura enquanto assistia a mais nova tocar a partitura da qual os pais dela pareciam preocupados não estar “certa”. <br />
<br />
Manteve o dedo indicador como um velho hábito, para cima e para baixo, acompanhando mentalmente o tempo e as notas da música que conforme eram tocadas por Laverne, a memória lhe retornava com a partitura que originalmente já havia se deparado. Assistiu a moça no piano tocar de forma perfeitamente técnica, mas comparada a outros músicos que já assistira, ela parecia um tanto mecânica demais. Era notório o conhecimento que ela possuía na música, mas ainda assim ela não transparecia “aproveitar” da melodia e do próprio sucesso em executar a partitura de forma correta. Esperou até ela terminar e lhe perguntar sua opinião. <br />
<br />
- É a sua respiração. - respondeu como se fosse algo simples de se notar. Ao menos era uma boa forma de tentar fazer com alguém aparentemente objetiva como aquela ruivinha enxergasse a falta de “performance” na própria apresentação. - Músicas que são mais “emocionais” e repentinas são melhor executadas quando usamos um reflexo mais orgânico do nosso próprio corpo. <br />
<br />
Aproximou-se, pedindo licença antes de sentar ao lado da moça no banco, ajustando o par de óculos antes de ajustar também a própria postura. <br />
<br />
- É um pouco difícil de se acostumar na primeira vez, mas… os seus olhos estão aqui. - indicou, erguendo a mão e sinalizando o olhar da moça para a partitura no piano. - Suas mãos aqui. - sinalizou novamente, sem tocar na garota, colocando sua própria mão no piano e começando a tocar algumas notas da partitura sem olhar para o piano. - Você já consegue fazer o processo de leitura sem precisar do contato visual com o instrumento. - fez uma pequena pausa, levando a mão que antes sinalizava para o espaço abaixo do próprio peito. - Inspirar e expirar é um processo mais natural… - demonstrou, o gesto fazendo seus ombros relaxarem e sua linguagem corporal mudar por apenas um mero momento. - ... e se usar isto para marcar o seu ritmo, sua performance vai melhorar. - explicou, esboçando um sorriso mais compreensivo antes de se levantar, dando espaço para a mais nova. - Quer tentar? - ofereceu, sem tirar os olhos da moça. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
<br />
Laverne não esperava uma resposta tão pronta sobre o problema do jeito que tocava, mas franziu a testa quando ouviu qual era.<br />
<br />
- Eu não vou conseguir segurar a respiração por seis minutos, mademoiselle. – respondeu, olhando de esguelha para a professora, logo depois ouvindo a explicação sobre ter que usar reflexos mais “orgânicos” do corpo. Laverne encarou a mulher, pois não achava que precisava explicar para ela que certamente não era composta de matéria inorgânica.<br />
<br />
Deu espaço para a professora, e então seguiu as mãos dela, ainda com o cenho franzido. Afirmou que sim, que já conseguia seguir a partitura sem olhar para as teclas do piano, mas estava se perguntando se a professora achava que seu nível de piano era baixo. Mas não reclamou disso. Se ela tinha conseguido fazer as meninas do clube de música tocarem melhor, então deveria saber o que estava fazendo.<br />
<br />
- Marcar o ritmo da performance com a respiração...? – Laverne estranhou a sugestão, porque se bem lembrava, a música pedia um metrônomo relativamente rápido. – Eu vou fazer do seu modo. – Laverne ainda parecia ter algo a dizer sobre isso, mas já tinha tentado de tudo, não lhe custava tentar mais isso.<br />
<br />
Então marcou o ritmo com a mão, movendo-a em 1, 2, e 3, antes de começar a tocar e respirar simultaneamente. Mas Laverne não respirou como lhe era natural. Ao invés disso, inspirou e expirou curtinho pela boca no ritmo rápido de um metrônomo, o que lhe fez mais parecer uma grávida em fim de trabalho de parto. Só que tocar daquele jeito não parecia certo. Menos ainda quando sentiu a cabeça ficar leve demais.<br />
<br />
- Professora, acho que assim eu vou desmaiar antes do fim da performance. – ela falou, arregalando os olhos e parando subitamente de tocar com uma espalmada para se segurar no piano.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Ficou impressionada em como a aluna não conseguia manter um ritmo de respiração mais orgânico e menos mecânico como a maioria de suas alunas faziam. Talvez ela estivesse pensando demais em como tocar e não no que a música poderia significar como ritmo? Tinha a suspeita de que a capacidade dela de abstração não era assim tão fluída quanto a maioria de suas alunas. Contudo, não havia como negar a habilidade dela para entender a técnica musical. <br />
<br />
Sorriu um tanto sem jeito diante da performance da aluna, entendendo a mão para lhe fazer um breve afago nas costas em um gesto mais amistoso. <br />
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- Tudo bem, Samolé. Vamos tentar de outro jeito então. - avisou e se levantou para pegar um lápis e uma borracha em meio aos papéis que carregava anteriormente na chegada da garota naquela sala. Aproximou-se do piano mais uma vez e observou a partitura a sua frente. - A mademoiselle já criou alguma partitura?<br />
<br />
Estendeu a mão para a partitura a frente das duas, tomando-a de seu local para lê-la rapidamente. <br />
<br />
- Quando nós tocamos piano, nós usamos dois tipos de escalas, certo? O que você pode criar é uma escala complementar para sua respiração. Ela não precisa ter a mesma composição musical que as outras duas, mas você precisa ter uma equivalência do que o seu corpo pode produzir sem que desmaie. - ofereceu a ideia, estendendo o lápis para a garota. - O que acha? Quer tentar? - sorriu gentil como de costume.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
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A mão nas costas de apoio foi até positivo, porque sabia que tinha falhado miseravelmente naquele teste. Mas a professora deveria ter outros métodos, porque logo ela voltou com um lápis e borracha, e claro que deu espaço para que ela se acomodasse do seu lado se quisesse. Só estranhou a pergunta sobre criar partituras.<br />
<br />
- Já escrevi partituras, mas nunca criei nada autoral. Até os arranjos, eu costumo pegar de outros intérpretes. Meus pais nunca ficam satisfeitos quando tento criar algo do zero. – ela comentou, mas não de modo triste ou frustrado. Era apenas óbvio que uma pessoa que tinha imensa dificuldade de colocar seus sentimentos no instrumento não conseguiria escrever um arranjo emotivo para ser tocado, e embora fosse capaz de criar música a partir de escalas e usando sequências lógicas, sua música não seria nada além de matemática aplicada.<br />
<br />
A ideia de Magali, entretanto, fez com que Laverne encarasse a mulher por um instante, atenta. Fazer uma partitura para a respiração, como um complemento para a música. A ruiva entreabriu os lábios, interessada, mas os olhos estavam distantes, como se ela estivesse pensando nas possibilidades daquela sugestão. Então, abriu um sorriso, tão animada que virou prontamente para o piano e a partitura, olhando o papel atentamente. Laverne pegou o lápis sem sequer olhar para a professora.<br />
<br />
- Posso criar uma partitura de ritmo, como se fosse para uma bateria, mas uso para respiração. Posso aproveitar algumas dessas pausas e ralentandos, e depois intensificar com o ritmo da música. É uma ideia brilhante, professor Florence. Não é que você é mesmo esperta? – a garota comentou, enquanto usava o lápis para adicionar um ou dois x que indicavam a respiração em cima das linhas já prontas da mão esquerda. – O tempo de uma respiração longa... o tempo de uma respiração curta... – ela falou, respirando fundo e contando com estalos nos dedos, rapidamente anotando os tempos e colocando respirações longas e curtas como se de fato fosse uma partitura de ritmo, e a garota estivesse experimentando com padrões conhecidos. – O que acha? As respirações devem ser silenciosas, claro. Não acho que nenhum dos convidados dos meus pais vá querer ouvir meu nariz como instrumento de ritmo. Devo testar?<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Ficou um pouco preocupada quando a garota falou sobre os pais dela ficarem insatisfeitos quando ela tentava criar algo. Contudo, ficou contente com a animação repentina da garota ao parecer mais confortável com a solução proposta. Sorriu para a ruiva ao ser elogiada pela mesma. Estava ali para auxilia-la no final das contas. Era satisfatório conseguir diminuir a frustração de suas alunas, pelo menos com a música. Ainda ficou surpresa com a velocidade do pensamento de Laverne ao conseguir criar uma adaptação à partitura de forma rápida ainda que improvisada. <br />
<br />
- Claro. Vá em frente. - encorajou a garota, atenta aos sons que ela produzia através da respiração dela. Sabia que havia algumas canções que utilizavam de sons mais nasais, o que não seria o caso dela. Porém, se a ideia de uma terceira partitura desse certo, certamente ela pareceria tocar o instrumento de uma forma mais orgânica que mecânica. <br />
<br />
Observou a ruiva em silêncio, ajustando os óculos por um instante ao se atentar para a postura e o mover das mãos dela. Pelo exercício musical, ela parecia ter bastante prática com o instrumento. Ouviu a música, notando as nuances das notas, tocadas em um ritmo como se fosse gravado. Ao menos esperava que o auxílio da respiração dessa vez pudesse ajudar a garota com a própria “interpretação” musical. Estava contente de estar ali ajudando Laverne. Não era todos os dias que uma de suas alunas lhe procurava, muito menos alguém já experiente como a ruiva era. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
<br />
Com a permissão da professora, deu uma olhada na partitura. Diferente do que provavelmente muita gente fazia de forma lógica, que era respirar fundo antes de tocar, Laverne nem tinha pensado na parte de respirar antes como parte da interpretação, começando apenas a dedilhar, dessa vez olhando a partitura mais atentamente para ver onde deveria respirar.<br />
<br />
Enquanto a música ainda ia mais lenta, a garota pareceu conseguir tocar seguindo ritmo da respiração como tinha planejado, e por um instante talvez, apesar da postura fica que variava apenas pela mecânica do movimento necessário para que ela tocasse e a falta de expressão no rosto, pelo menos com a respiração, ela parecia mais relaxada ao piano que antes, e ao invés de um robô, ela desceu a escala de um tipo de maníaco leitor de partituras, o que era uma interpretação, por assim dizer.<br />
<br />
Porém, ao chegar na parte mais rápida da música, foi difícil para Laverne manter a respiração como deveria, afinal, tinha partes muito difíceis para tocar ao piano e ainda estava tentando ler uma terceira linha de ritmo. Chegou em parte da música, sem concluir, e quando viu que não estava acertando completamente a partitura, decidiu fazer uma pausa.<br />
<br />
- Hm. Pelo visto vou ter que fazer ajustes ainda. É difícil tocar Gershwin com duas mãos e ainda manter o ritmo da respiração. Agora entendo porque meus pais dizem que interpretar a música é tão difícil. São três instrumentos para comandar ao mesmo tempo. – a garota ponderou, o cenho levemente franzido enquanto observava o papel. Então voltou-se devagar para a professora. – Mas o que acha, professora Florence? Eu acho que foi bem melhor, e que talvez precise pegar o ritmo com o tempo, mas já notei diferenças antes e depois.  <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Ficou satisfeita com a resposta de Laverne a sua sugestão, observando-a em silêncio enquanto ela tocava. A garota com certeza tinha um raciocínio bem eficiente para música, principalmente ao improvisar partituras. Levou uma das mãos até o próprio queixo e ponderou por um momento, considerando que ela havia parado justamente quando começou a errar algumas notas da partitura. Esperou até que a garota terminasse de falar e pedisse sua opinião. Sorriu novamente amistosa para a garota antes de responder: <br />
<br />
- A mademoiselle tem ótimos reflexos e raciocínio, com certeza. - começou, fazendo uma pausa antes de abrir a boca para falar novamente. - Já pensou em tocar mais a frente de um espelho? - gesticulou, indicando que havia um espelho grande no meio da sala que havia requisitado para a diretora para seus próprios ensaios. - Ou pode filmar seu treinamento? - sugeriu, imaginando o que seria mais fácil para ela. - Quando estamos nos apresentando para os outros, não temos uma visão apropriada de nossa própria imagem, isso dificulta para que possamos corrigir alguns maus hábitos como má postura ou expressão corporal e da face que são muito “monótonas”. - encarou a garota ainda com um sorriso no rosto, porém com um ar um pouco mais sério. - E eu sugiro não interromper a partitura até terminá-la. Com o tempo, isso cria um mal hábito de parar de tocar quando não estamos satisfeitos com alguns pequenos resultados. Em uma apresentação, isso não pode acontecer. Portanto, para evitar esse tipo de reflexo, eu sugiro evitar de parar de tocar a partitura completa, mesmo quando estiver ensaiando. <br />
<br />
Levantou-se devagar, caminhando até o espelho para poder afastar a cortina fina que o cobria. Gesticulou para que a garota de sardinhas se aproximasse e fez uma nova pausa para ajustar seus próprios óculos. <br />
<br />
- Já fez algum ensaio de expressão? - perguntou de antemão para a mais nova, esperando que ela não estivesse desconfortável com seu comentário anterior. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
<br />
A professora Florence lhe elogiou de uma forma um tanto óbvia. Sabia que era habilidosa, isso não necessitava confirmação. Porém, em seguida, ela prosseguiu em dar outra dica para que melhorasse a interpretação: tocar frente ao espelho. Franziu a testa, entendendo que ao ver a própria imagem, talvez pudesse ficar mais atenta ao que estava com as costas ou com o rosto, mas não necessariamente entendia o que ela queria dizer com uma expressão “monótona”.<br />
<br />
- Acho filmar mais plausível, professora Florence. Pelo que estou entendendo, quer que eu toque a partitura e preste atenção na minha imagem ao mesmo tempo, isso enquanto aperto das teclas certas sem errar e tento me adaptar a uma partitura de respiração. – Laverne ponderou, depois de ouvir todas as sugestões. - Sei que sou muito boa, mas meu par de olhos tem apenas 20% de visão periférica, e uma dependência de foco no objeto caso precise prestar atenção. Eu não sou capaz de olhar duas partituras e eu mesma simultaneamente, não agora. Talvez quando eu decorar a partitura. – então ponderou mais um pouco, ainda com a mesma expressão de leve desagrado com o cenho franzido. – E eu não sei o que quer dizer com expressões “monótonas”.<br />
<br />
Ela não parecia ofendida com aquela colocação, só intrigada pelas sugestões da professora. Então levantou do piano com o chamado dela para que se aproximasse do espelho, observando sua figura no uniforme, mas não dando muita atenção geral se sua aparência estava boa ou não.<br />
<br />
- Nunca fiz nenhum ensaio de expressão. Do que se trata?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Acompanhou o raciocínio da aluna de que tudo aquilo parecia muito para a coordenação humana. Compreendia o que ela queria dizer, principalmente pela forma mais direta da mais nova lhe dirigir a palavra e o ar mais seguro e confiante dela ao falar sobre si própria. Sorriu compreensiva, considerando que ela apenas estava considerando a própria visão no processo de percepção. <br />
- Aqui. - segurou a mão da aluna em um gesto mais delicado, apontando para o espelho para que ela prestasse atenção no próprio reflexo. Soltou-lhe a mão e observou o reflexo dela, a mocinha era alta e bonita ao seu modo. Gostava das sardas no rosto de Larvene, lhe faziam lembrar dos vários sinais que tinha. - Nesse momento, o que pode dizer sobre sua própria linguagem corporal? O que está se passando pela sua cabeça agora? - perguntou, aguardando a resposta de forma educada, não esperando se ofender com nenhuma palavra da garota.<br />
<br />
Após a breve pausa para ouvir a resposta dela, foi até a partitura que ela havia deixado no piano e retornou a passos rápidos. <br />
<br />
- Um ensaio de expressão consiste em utilizar de sua expressão corporal e visual para traduzir algum conceito ou emoção, evocando este e tornando-o perceptível para terceiros. É um tipo de reflexo que usamos quando queremos transmitir o que sentimos para o público mesmo quando não podemos usar palavras. É um tipo de mecanismo muito natural que aprendemos a desenvolver desde crianças, quando nossa mãe nos sorri e sorrimos de volta. Ou quando alguém espirra e nosso nariz começa a coçar. - explicou, fazendo pequenas pausas enquanto revisava rapidamente com o olhar a partitura. - Esta partitura é uma das obras mais famosas de Gershwin, um pianista que influenciou também o cinema em Hollywood. Infelizmente, ele veio a falecer por conta de uma doença, mas em sua biografia, esta música é usada como trilha sonora. Imagine que quando a mademoiselle está tocando Rhapsody In Blue não está apenas comunicando notas, mas a história da vida de um pianista. <br />
<br />
Respirou fundo, fazendo uma nova pausa para poder ficar ao lado do espelho e de frente para a mocinha, observando-a ainda com um sorriso gentil no rosto. <br />
<br />
- Então? Podemos ensaiar algumas expressões? Seu corpo precisa se conectar ao seu cérebro para que a história dessa partitura seja contada, mesmo que não use nenhuma palavra. - ofereceu, amistosa. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
<br />
Laverne quase se assustou quando a professora decidiu pegar sua mão daquele jeito delicado, franzindo a testa e encarando a mais velha, vendo como ela calmamente lhe pedia para prestar atenção na própria expressão. Os ombros estavam tensos e as costas eretas como deveriam estar, e sua cara certamente ainda demonstrava sua indignação com o toque em sua mão.<br />
<br />
- Posso dizer que estou confusa, professora Florence. Não sei o que minha mão tem haver com o espelho. Eu acredito que bastava ser instruída, minha visão é perfeita, não preciso de guia. - Laverne comentou, então apontando para o espelho com a outra mão. - Eu acho que isso é perfeitamente comunicado na minha expressão, mas agora também está comunicado na fala. <br />
<br />
Laverne acompanhou a professora com a partitura explicando todo o conceito do ensaio de expressão. Era um conceito mais realizável do que os ensaios com seus pais que costumavam só esperar que soubesse transmitir as emoções na música. Por toda uma vida havia considerado que era só uma questão de dinâmicas bem ensaiadas, mas agora começava a entender que era algo de expressão corporal também. Mas como isso funcionava numa gravação, bom, seria uma lição para outra aula. <br />
<br />
- Isso é como atuação, professora Florence? Não sou boa atriz. - admitiu, apertando os lábios. - Posso tentar, mas vai ter que me instruir no que fazer. Não pesquisei a fundo a vida de Gershwin. Não sei porque compôs essa música. Só sei que é a fusão de música clássica com jazz, e que jazz é mais sentimental, usualmente. Mas imaginei que era a dinâmica, e os vocais, e letras.  - se explicou.<br />
<br />
Então parou como se não estivesse acreditando na mais velha, piscou um par de vezes e franziu a testa. <br />
<br />
- Perdão, professora, mas onde acha que meu cérebro está? - Laverne perguntou, erguendo as sobrancelhas. Então apontou para o próprio rosto. - Descrença.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Piscou algumas vezes com o comentário da aluna sobre o gesto de ter segurado-lhe a mão. Ajustou os óculos novamente, terminando de escutar as palavras dela. Sorriu um pouco sem graça ao observar a expressão de indignação dela, concordando com um aceno positivo para o fato dela conseguir comunicar o próprio desgosto bem com a expressão facial. Segurou a partitura contra o próprio corpo, observando a mais nova com um ar mais compreensivo quando ela admitiu que não era uma boa atriz. Teve ainda que segurar o riso com a resposta dela sobre onde o cérebro estava. Achou cômica a ideia de que era óbvio que o cérebro dela estava na cabeça, mas ainda assim as expressões faciais da mocinha não pareciam relaxar. <br />
<br />
- Perdão, Salomé. - baixou a partitura, observando melhor as notas antes de continuar. - Bem, isso não é exatamente atuação, mas é uma base para expressão corporal. Mas não se preocupe, minha intenção não é deixá-la desconfortável. Desculpe pelo… - ergueu a mão, apontando para ela em um breve gesto. - … não quis ser invasiva. - fez uma breve pausa, ajustando os óculos como um hábito. - Primeiro, eu vou pedir para que respire fundo algumas vezes, sua postura está um pouco tensa, Salomé. - gesticulou para os próprios ombros, indicando para que a mais alta relaxasse. - Vamos lá? <br />
<br />
Respirou fundo juntamente com a aluna, movendo os ombros em seguida como se estivesse se livrando de qualquer tensão que existisse sobre eles. Relaxou e, de novo, ajustou os óculos, terminando um ciclo de cinco respirações profundas antes de voltar a sorrir para a ruiva. <br />
<br />
- Já que vai estar tocando na presença dos seus pais, eu imagino, pode me contar o motivo porquê Rhapsody in Blue do Gershwin é um desafio? A mademoiselle parece ter uma boa coordenação motora e percepção musical. Esta partitura é complexa, mas não compreendo por que seria um “desafio”. Poderia explicar melhor para que eu possa ajudá-la? - pediu educadamente, buscando compreender melhor qual era o objetivo da aluna ali e se estava assumindo corretamente que o problema da outra era com a própria linguagem corporal e a expressão facial ao transmitir as próprias emoções com a música. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
<br />
Laverne encarou a professora enquanto ela pedia desculpas pelo comportamento invasivo que a aluna não estava acostumada, especialmente com professores de música. Estava acostumada a sentar do lado dos professores de piano, mas não que pegassem sua mão e guiassem.<br />
<br />
- Está desculpada, professora Florence. – Laverne respondeu com a mesma seriedade, e então ouviu sobre o pedido para que respirasse, considerando que estava tensa. Não se via tensa, ou talvez tivesse se acostumado aquele estado, mas como tinha sido ela a ir atrás da professora, o certo seria obedecê-la. Ela até tinha algumas ideias interessantes.<br />
<br />
Acompanhou na respiração, respirando profundamente, embora seu cérebro não necessariamente parasse de funcionar, pensando em qual o objetivo de relaxar naquele momento, e se deveria voltar em outro momento para pedir dicas. Entendia porque oxigenar o corpo ajudava a relaxar a tensão muscular, mas ainda tinha mais impedimentos de concentração. Admitia, entretanto, que ficou um pouco mais calma.<br />
<br />
- Meus pais são musicistas, professora. E embora eu seja muito boa no piano, tenho dificuldade de criar interpretações de peças emocionais. Não é que eu não saiba tocá-las. Sei ler as dinâmicas perfeitamente, mas eles nunca ficam satisfeitos com minhas leituras. – ela falou muito claramente, de modo direto e sério. Não tinha nada a esconder ali sobre sua relação com seus pais e música, ou a professora não poderia lhe ajudar. – E não sei se é algo de todos vocês que são músicos, mas as explicações deles são muito abstratas para que eu entenda. Já ouvi todos os “imagine que está numa progressão, subindo escadas”, “você deve derramar os sentimentos que você tem pela música nas teclas”, “a partitura está lida, mas eu não sinto você nela”. No que isso deveria me ajudar? Eu gosto da ler partituras, elas são matemáticas. As dinâmicas foram escritas para serem interpretadas como estão escritas. Por que preciso adicionar ainda mais? E como esse “mais” soa?<br />
<br />
Laverne franziu de leve a testa, de um jeito que toda a respiração para relaxar já tinha sido irrelevante, pois ela acabou por cruzar os braços e tensionar os ombros de novo.<br />
<br />
- Já vi diversos músicos tocando a mesma canção. Eu sei que as dinâmicas não são iguais. Mas não quero reinventar a roda. Eu só quero tocar a música bem. – Laverne concluiu a explicação, soando um pouco mais frustrada que a expressão corporal demonstrava.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Magali</span></div>
<br />
Observou a aluna, ouvindo com atenção a narrativa sobre os pais dela. Cruzou os braços na frente do próprio corpo, usando a mão livre fechada contra os próprios lábios, pensativa. Tentou puxar pela memória quem seriam os pais da garota, provavelmente já teria ouvido falar sobre eles ou até encontrado com os dois em algum evento ou concerto, mas entendia o que ela queria dizer com músicas “emocionais”. Como havia começado a aprender sobre música em um convento, já havia ouvido muito do que a garota falava sobre a música e os sentimentos que ela poderia evocar. Encarou a mais nova com um ar mais compreensivo quando ela se distanciou dela mesma ao considerá-la e aos próprios pais como “músicos” enquanto ela deveria ser algo diferente. Baixou a mão do rosto para o próprio pescoço, dando mais atenção a comparação da ruiva sobre as partituras serem matemáticas e sobre não encontrar sentido nas frases que foram aconselhadas a ela. <br />
<br />
- Tudo bem. - respondeu primeiramente, descruzando os braços antes de suspirar aliviada após ouvir todo o relato da moça. - Pois bem, Salomé, primeiro… - gesticulou após arrumar a partitura em mãos em um rolo, apontando-o para a garota. - … obrigada por dividir essa situação sua com seus pais comigo. - começou, arrumando os óculos logo em seguida. - A música parece ser algo em comum entre vocês e é muito bom ver o empenho da mademoiselle com o propósito de melhorar sua performance. Mas… - fez uma nova pausa, buscando melhor as palavras para se dirigir a aluna. - … a música… ela pode ser encarada de diferentes formas pelas pessoas. Nós temos ritmos diferentes ao falar, ao agir, e temos também sensações diferentes ao apreciar uma partitura. <br />
<br />
Caminhou até a aluna, desenrolando a partitura para mostrá-la novamente para a ruiva, ficando ao lado dela. <br />
<br />
- Aqui. Quando eu olho para esta partitura, eu recordo da história do compositor e de toda sua jornada e importância para o cinema e o jazz. - olhou para a ruivinha, sorrindo amistosa. - A mademoiselle enxerga a matemática por trás da partitura. - estendeu a partitura para ela, gesticulando para que segurasse a partitura. - Vamos fazer assim… por que, ao invés de buscar “atuar” as emoções que outras pessoas têm ao tocar esta partitura, não transformamos ela em algo que possa fazer sentido para a mademoiselle? Hm? <br />
<br />
Afastou-se para o quadro da sala de música, buscando o giz para poder anotar o título da partitura no cabeçalho, animada com a ideia que atravessava sua cabeça.<br />
<br />
- Todo enunciado matemático possui um problema de interpretação, certo? Vamos transformar essa partitura em uma grande equação! Cada nota possui um registro numérico de tempo e alguns registros possuem variações que são divididas pelo compasso da partitura ou as marcações de repetição ou distanciamento de tempos. - começou a escrever a parte mais importante e essencial da partitura do quadro, recordando cada uma das anotações da partitura sem precisar sequer conferir as folhas novamente. Ao terminar, pegou outro giz e estendeu para a ruivinha ainda com um sorriso amigável no rosto delicado. - Acha que consegue transformar isso em uma equação? <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Laverne</span></div>
<br />
Arqueou a sobrancelha para o agradecimento da professora.<br />
<br />
- Não precisa agradecer, professora. Estou lhe contando minha frustração, não deveria ser algo pelo qual alguém agradece. Embora seja necessário, afinal, eu que lhe pedi ajuda. – ela respondeu de um modo seco e muito direto. As palavras da professora Florence lhe faziam sentido, entretanto, no ponto de que cada um interpretava a leitura musical, como cada um agia de forma diferente. Talvez porque era uma pessoa muito mais seca e menos dramática que seus pais, e mal tinha sido criada com eles nos teatros, se apegando mais a sua avó e aos livros de ciências, que era incapaz de ver a música da forma que eles viam. E não ajudava que eles não eram claros sobre o que queriam.<br />
<br />
Podia não ser boa interpretando pessoas em geral, mas podia ver claramente que a professora tinha uma ideia nova, e observou-a com curiosidade, embora a expressão se mantivesse perfeitamente séria. Enquanto isso ela foi falando sobre tempo na partitura, e as marcações de pausa e repetição, pensando aparentemente na partitura que tinha trazido. Laverne começou a se interessar gradualmente, tanto que aos poucos o rosto foi perdendo parte da seriedade, e ela escorregou para a ponta do banco.<br />
<br />
- “Acha que consegue”? Está me subestimando? Professora Florence, eu lhe pedi ajuda com interpretação porque sou horrível lidando com essas questões abstratas das ciências humanas. – ela então levantou do banco do piano e caminhou até o quadro, cruzando os braços e levando a mão até o queixo. – Mas eu sou a pessoa mais competente do departamento de exatas e ciências, à exceção das bolsistas que precisam ser competentes, porque elas dependem disso para estarem aqui. Talvez eu devesse ter tido isso, e me escapou à mente? – ela complementou sem um pingo de hesitação e humildade, como se aquelas palavras fossem óbvias. – Eu permito que me subestime na sua disciplina, mas lhe digo com certeza que consigo.<br />
<br />
Laverne sequer olhou para a professora, ao invés disso abrindo a partitura, que era enorme e folheando atenta por uns instantes.<br />
<br />
- Eu poderia só considerar a matemática básica envolvida na partitura e utilizar as frações equivalentes como elementos das notas, criando equações padronizadas para cada trecho que se repete da partitura. Mas essa peça tem poucos trechos repetitivos, e em pelo menos quatro trechos longos, as fórmulas de compasso mudam, já que as batidas por minuto da música se intensificam. – Laverne começou, disparando sozinha enquanto tirava o giz da mão da professora, começando a escrever o primeiro trecho da música. – Se eu considerar as duas claves do piano e mudanças de frequência causadas por acidentes... é um universo a explorar.<br />
<br />
Ela tentou transformar as duas primeiras linhas em elementos representativos utilizando a letra n para representar as notas, f para fórmula do compasso, e embora até ficasse uma equação bonita, não parecia funcional.<br />
<br />
- Vou precisar de tempo. Acho que posso identificar os intervalos e frequências como uma fórmula, mas quero simplificar. Talvez precise de logaritmos para calcular o tamanho dos intervalos, e então refazer a função. As composições são feitas de acordo com o “sentimento” do autor, mas existe um universo matemático por trás da representação escrita desses intervalos. O som se torna agradável porque encontramos o padrão matemático. Quem sabe não encontro Fibonacci nessa música? Eu não pesquisei tão a fundo. – a garota então fechou a partitura de uma vez, e então abriu um sorriso largo pela primeira vez desde que tinha chegado ali naquela sala. – Professora Florence, eu sou um gênio! – então virou para a mulher mais velha. – E mademoiselle até tem boas ideias também.<br />
<br />
Então deu meia volta, deixando o giz de volta na mão da professora.<br />
<br />
- Eu devo passar na biblioteca, provavelmente não precisarei de mais do que três dias, se eu cortar o tempo de almoço. Quando fizer progressos, prometo trazer para você os resultados. Obrigada. – ela falou, sequer esperando resposta para sair agitada pela porta, em um humor completamente diferente do que tinha chegado, e uma esperança renovada de que podia tornar aquela música sua.<br />
<br />
[Pode encerrar Jana!]]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[[Drive] Destruído [Renaud, Isaac, Didier, Aleksei, Tamotsu, Sasha]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=297</link>
			<pubDate>Mon, 27 Sep 2021 16:05:17 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=3">Lil</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=297</guid>
			<description><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
Depois de uma tarde e noite muito não convencional em casa, Renaud tinha voltado a St. Clavier, e o jovem francês estava estranhamente animado, mais do que estivera nos últimos dias. Mesmo que tivesse passado por bons momentos na companhia de pessoas que tinha muita estima dentro da academia masculina, ainda assim, aquela última noite tinha ascendido em si um tipo de sentimento novo que não se lembrava se já tinha sentido antes, mas que queria muito sentir de novo. O humor estava tão bom que tinha avisado ao secretário que apareceria na sala do conselho estudantil, justificando que arrastaria Didier também para não ser taxado de quem estava indo “atrapalhar” o serviço, sabia que o loiro devia ter pilhas de papéis pra assinar. E claro que depois que o namorado se desocupasse dos primeiranistas desesperados com as provas de final de ano letivo, poderia se juntar aos dois morenos na sala do conselho, estava mais compreensivo com os mais novos, então não se opôs ao fato de Didier dar atenção primeiro aos mais novos, pra depois ter o restante do tempo para ficar com Renaud.<br />
<br />
Fez um esforço extra pra se vestir, pondo calça social e blusa de botões, pra não aparecer sem o uniforme ou certamente receberia uma bronca do amigo secretário por estar dando um “mal exemplo”, mas abotoar a camisa já tinha sido o máximo de esforço que conseguia, tentar dar um nó de gravata nunca pareceu um malabarismo tão difícil. No caminho passou na sala do Dr. Vlahos pra saber se ele teria alguma janela pra conversarem, e tinha certeza que se o homem não estivesse prestes a começar um atendimento com um outro aluno, eles conversariam ali mesmo. Mas o psicólogo pelo menos já podia notar que o humor do jovem Blanco estava melhor do que o usual, o que significava que alguma coisa “boa” tinha acontecido e não era uma emergência como das vezes anteriores. Renaud ainda se ocupou de parar um tempo na sala do conselho disciplinar e conversar com seu Frater, claro que não poderia entrar em muitos detalhes de sua vida pessoal considerando que Nataniel estava por lá, mas ainda foi fácil pra seu irmão notar que apesar de ter saído sequestrado da academia masculina, a conversa tinha tido um saldo positivo no final das contas. E tinha prometido de contar-lhe tudo que tinha conversado com sua mãe em detalhes posteriormente quando não tivesse de dar atenção ao seu “namorado enjoado”.<br />
<br />
Finalmente ao chegar na sala do conselho estudantil depois de dias sem frequentar o local, era no mínimo “estranho”, tinha dito que apareceria ali, porém tinha falado sem pensar sobre o que de fato significava “voltar ali”, e só naquele momento parado em frente a porta foi que o moreno mais novo se tocou que a última vez que tinha estado naquele lugar tinha sido durante a briga dele e de Didier, que agora parecia ter ocorrido 10 anos no passado. Antes que pudesse seguir divagando, a porta se abriu num solavanco com uma cabeleira ruiva por trás de uma pilha de pastas e papéis, que logo reconheceu sendo o jovem Lukashenko:<br />
<br />
– Eu já sei, não vou correr! Não vou!! JURO!!! Nem tô enxergando pra onde eu ando, como posso correr? Ahn-- Ren--...! Quer dizer… Vice-Presidente Blanco! Quanto tempo que não te vejo! WoW!! você ainda tem as mãos! Nossa! E disseram que você estava na pior, sabe, todo mundo falando como as suas mãos tinham derretido e tals... Mas que bom que foi só caó dos terceiranistas, Espero que ‘cê fique melhor! Té mais! – o ruivo desatou a falar e antes que jovem Blanco conseguisse assimilar tudo que ele falava, em verdade estava desacostumado com a velocidade com que o mais novo falava. E logo ele já estava seguindo pelo corredor para o restante das salas do setor administrativo entregar todos os memorandos e demais documentos.<br />
<br />
– Deve ser bem cansativo lidar com toda essa energia que o Lukashenko têm, por todos esses dias, não sei se fico com mais pena dele ou de você Zac. – o moreno mais novo adentrou na sala do conselho, encostando a porta atrás de si: – O Didier vem mais tarde, vamos dizer que ele está envolvido em um aulão de revisão com os primeiranistas, então vai ter de se contentar apenas com a minha companhia aqui, embora eu não consiga assinar papéis. – O mais novo deu um risinho singelo, mas era notório a mudança de humor pra quem tinha passado os últimos dias sumido, ou cabisbaixo e desanimado pra qualquer coisa.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Isaac</span></div>
<br />
Isaac queria que o trabalho no Conselho depois dos jogos internos fosse menor, mas era o completo oposto. Com a formatura em vista nos próximos meses, os campeonatos específicos de verão de alguns clubes e as eleições para a chapa do próximo ano letivo, o trabalho só se acumulava, e muito. Mais ainda porque Renaud estava com problemas para lhe ajudar, Didier era o problema, e tinha Yure para ensinar as coisas. No fim das contas, o ruivo estava se saindo bem melhor do que tinha previsto e estava lhe ajudando mais do que esperava nas últimas semanas com pilhas de trabalho.<br />
<br />
Claro que ele ficava com alguns trabalhos mais simples, de organização e contato com os grupos e entender como a mecânica do conselho estudantil funcionava, mas já era muito para Isaac que tinha que trabalhar sempre com previsões orçamentárias e propostas para a administração que beneficiassem os alunos. Naquela sexta, foi surpresa receber uma mensagem de Renaud avisando que iria ao Conselho e que levaria Didier junto para trabalharem, embora tivesse imaginado que Renaud não fosse voltar tão logo para a academia com a mensagem de que tinha ido passar uma noite com a mãe na casa da família. Isaac só respondeu com uma mensagem formal que era esperada e seguiu com o trabalho, enchendo Yure de papeladas para levar para todos os outros grupos e setores da Academia.<br />
<br />
Só quando o ruivo saiu pela porta depois de reforçar pela décima vez para ele não correr, que Renaud entrou na sala, e a primeira coisa que Isaac colocou o olho foi a gravata com um nó extremamente mal-executado. O impulso de se levantar e ir consertar foi tanto que ele nem ouviu o primeiro comentário de Renaud, e se aproximou para ajustar a peça de roupa sem nem pedir licença.<br />
<br />
- É bom ter você de volta, mesmo sem assinar papeis. - Isaac respondeu, e a expressão fechada só denunciava o desagrado com a roupa torta. Ele não parou no nó da gravata, ajustou os botões, as dobras da roupa, a camisa dentro da calça, as lapelas do terno, as abotoaduras dos punhos e ainda observou as bandagens um tanto mal-feitas. Mas com a roupa toda arrumada, ele finalmente levantou o olhar para Renaud, encarando a expressão mais suave do que tinha visto nos últimos dias e o rosto com um pouco mais de cor. - Você parece melhor. Tomou os remédios na hora certa hoje? E as refeições? Eu vou pegar o kit de primeiros socorros para arrumar isso. - ele apontou para os curativos nas mãos e esperou que Renau lhe acompanhasse enquanto ele se movia para fazer o que tinha dito.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
Não era surpresa ver o amigo com aquela expressão fechada, afinal ele deveria estar trabalhando triplicado, mas sabia que parte daquela irritação era porque estava profanando o sagrado código de vestimenta da academia, e para alguém com “toc” como o secretário, a sua imagem deveria ser algo de franzir as sobrancelhas. Nem se opôs ao mais velho invadir seu espaço pessoal para arrumar sua gravata, e ergueu um pouco o pescoço para que ele fizesse o nó com mais espaço. Nem conseguia levar aquela situação a sério, e acabou lembrando do que sua mãe tinha comentado de manhã sobre serem “namorados”, não tinha como negar, imagina e alguém visse os dois naquela cena hilária digna de um filme de comédia romântica:<br />
<br />
– Sim, e sim. É estranhamente bom estar de volta. Obrigado pelos ajustes.– o mais novo respondeu de forma direta, porque sabia que tinha pedido pro amigo lhe cobrar aquelas questões diariamente, já que não dava pra confiar na própria memória e noção do tempo como antigamente. Porém a situação toda era uma oportunidade boa demais para deixar passar sem fazer alguma brincadeira, e ver que tipo de reação poderia tirar do sempre sério “secretário máscara de ferro”: <br />
<br />
– Sabe, é por esse tipo de “interação” que a minha mãe acha que você é quem é meu namorado.– O jovem Blanco acompanhou o amigo até a mesa, esperando que Isaac trouxesse o material de primeiros socorros pra trocar suas bandagens, e aquela altura mesmo que o machucado ardesse e incomodasse, a situação toda contribuia para que Renaud ignorasse aquele ponto, e mantivesse o ar mais leve: <br />
<br />
– E pensando bem, depois do almoço onde você insistiu em me dá comida na boca, talvez uma boa parcela de alunos da academia também alimente a hipótese que nós “finalmente” assumimos um relacionamento. Se bem, que não seria uma má ideia, considerando o quanto você é bonito, bom de cama, e com certeza tem o melhor cafuné dessa academia, se eu estivesse solteiro até pensaria seriamente em investir nessa ideia.  – o moreno falou com um falso tom sério, mas que certamente seu amigo não perceberia que tudo aquilo era brincadeira, ou pelo menos a uma parte. Já que não tinha mentido sobre nenhum dos atributos do moreno mais alto, muito menos sobre o fato de agora não ser mais um cara solteiro.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Isaac</span></div>
<br />
A roupa arrumada de Renaud colocou uma expressão mais suave no rosto de Isaac, a resposta positiva dele para as suas perguntas e a postura mais segura também deixaram o secretário mais satisfeito com o estado de Renaud. Podia ser péssimo para perceber trejeitos emocionais das pessoas ao redor, mas para alguém que conhecia tão bem quanto Renaud, dava para deduzir que ele estava bem. Melhor do que nos últimos dias e em meio à crise.<br />
<br />
Isaac tirou o kit de primeiros socorros de um dos armários e quando estava voltando para a mesa, o comentário sobre a mãe do outro ter achado que eram namorados até lhe fez derrubar a caixa no meio do caminho, com uma expressão de surpresa e de estranhamento.<br />
<br />
- Nós não somos namorados. - Isaac apontou o óbvio, abaixando-se para pegar a caixa e levá-la para a mesa como se nada tivesse acontecido, enquanto Renaud apontava todos os outros detalhes que podiam indicar um relacionamento entre os dois, o que era quase perturbador. Ele tirou os materiais da caixa e esperou que Renaud lhe estendesse a mão, enquanto terminava a justificativa com um comentário pontual que não passou despercebido ao secretário. - Você não conseguia comer sozinho, lhe ajudar era só lógico. Eu sou bonito, e bom de cama, e não tenho dados suficientes pra dizer que tenho o melhor cafuné da academia. Mas nunca pensei em você como namorado, sempre achei que você e o Didier já eram isso. Pelo jeito que falou de não estar mais solteiro, agora é verdade?<br />
<br />
Isaac tinha tirado as bandagens e jogou no lixo, vendo o estado das mãos machucadas com a pomada para melhorar. Pegou bandagens novas na caixa e fez o trabalho de um modo mais leve do que era costume quando lidava com os machucados de Renaud.<br />
<br />
- E como foi a noite com a sua mãe? Ela está bem? - ele perguntou, principalmente porque tivera a oportunidade de conhecer a mulher quando viajaram a Paris.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
O moreno mais novo nem tentou conter o risinho diante da reação exagerada de Isaac aos seus comentários, ter derrubado a caixinha de primeiros socorros certamente era um clichê, mas um muito bom, e vê-lo no time correto dentro da cena no mundo real, fora de um filme de comédia romântica classe B, era muito melhor. Renaud manteve o ar leve no rosto, embora ainda tivesse as olheiras e traços bem marcados de cansaço, ainda assim, estava sustentando a melhor aparência que tinha em dias, e aquilo até o próprio Isaac podia notar, afinal se conheciam a uns bons anos.  O moreno mais novo estendeu as mãos na direção do outro quando foi pedido, e logo percebeu como o secretário estava mais “gentil” no trato dos seus machucados, em verdade, tinha um uns dois oceanos de diferença no tratamento, e aquilo era mais uma pequena prova de que mesmo denso o secretário conseguia perceber algumas coisas ao seu redor, e a prova foi que ele também notou o ponto de que o Vice-presidente não estava mais solteiro em sua fala anterior.<br />
<br />
Era o momento de Renaud ser o protagonista do seu próprio filme clichê romântico, e quando perguntado sobre estar de fato namorando com Didier, o moreno mais mais novo sorriu inconscientemente, muito mais feliz do que era possível vê-lo em qualquer outro momento:<br />
<br />
– Oficialmente, sim, com direito a pedido formal, e declaração romântica digna do romantismo do séc XVIII, ou quase isso. – Admitiu pondo uma expressão provavelmente inédita para o secretário, afinal, não era “comum” ver o jovem Blanco dando risinhos como um rapaz bobo apaixonado de dezenove anos que de fato ele era. E em seguida, o moreno mais novo esperou que seu amigo cuidasse dos machucados, enquanto pensava em como responder como tinha sido sua noite na companhia de sua mãe:<br />
<br />
– Ela está aparentemente bem, pelo menos até quando a gente se despediu de manhã. –  Renaud começou o relato pela parte mais fácil que era dizer o óbvio, que a sua mãe estava bem, sobre a estadia em si, não tinha porque dá rodeios, podia ser sincero, só tinha de escolher palavras mais objetivas pra o amigo entender melhor sua situação: –  Foi tudo bem inesperado, não sabia que ela viria pra Cerise, quem dirá que eu teria de ir dormir em casa, mas nós conversamos muito, primeiro foi desconfortável, depois tornou-se mais tolerável, e só depois ficou mais confortável. Chegamos a conclusão que nenhum de nós dois é bom em falar como se sente. Ela me pediu desculpas sobre o nosso desentendimento em Paris, e algumas outras coisas.<br />
<br />
Renaud parou a própria narrativa e encarou o amigo, talvez parecendo mais normal do que nunca, afinal, nem estava interpretando papel de nada ali, nem estava xavecando, e nem abatido, estava apenas sendo ele, falando sobre problemas da sua própria família em um tom normal: – Eu não esperava por nada do que aconteceu, mas acho que o saldo foi positivo no final das contas.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Isaac</span></div>
<br />
Isaac olhou torto para a expressão sorridente de Renaud que era tão estranha, mas continuou com os curativos com atenção. O que mais captou da informação dele foi algo com que já estava bem familiarizado.<br />
<br />
- Espero que não seja romantismo do século XVIII, ou vocês dois vão morrer jovens. - Isaac respondeu, sobre a época literária que ele entendia apenas um pouco. - E acho que já passaram da fase de tentar se matar nas gangues.<br />
<br />
Ele terminou de enfaixar as duas mãos, colocando pedaços de esparadrapos para finalizar e guardando os materiais de volta na caixa. Mas não devolveu ao armário, ficando diante de Renaud enquanto ele narrava sobre como a mãe estava e sobre como tinha sido o encontro dos dois. Não podia tirar muitas conclusões das poucas informações, mas Renaud parecia de bom humor, e o relato foi bem conciso.<br />
<br />
- Parece que foi um bom encontro. Melhor do que quando estávamos em Paris. - ele disse, e só tinha como parâmetro o que tinha visto de Renaud com a família na viagem breve, e tudo parecia excessivamente formal até para ele, que tinha pais muito atenciosos em contraste. Fez um aceno positivo com a cabeça quando ele disse que o saldo tinha sido positivo. - Isso é bom. Ela vai ficar em Cerise? Se for dormir em casa de novo, lembre dos horários dos remédios e das refeições.<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
Não tinha como evitar achar graça da forma como o amigo destacava justamente o ponto mais trágico do movimento literário que tinha citado, apenas a cargo de hipérbole, mas se fosse de outra forma não seria o bom e velho Isaac. Concordou com um aceno de cabeça de que não queria ter de morrer jovem, agora queria poder viver bastante pra ter tempo de aproveitar coisas com Didier, principalmente quando não estivessem mais presos a instituição masculina, mas aí era um tópico que tinha decidido pensar depois pra não ter que gerar ansiedade com um futuro que embora próximo, não era imediato. <br />
<br />
– Nossas interações não eram muito mais profundas do que a amostra que você viu em Paris, apenas multiplique aquilo por dezenove anos, muita formalidade pouca pessoalidade. – pontuou muito diretamente até para que o amigo tivesse noção melhor de como aquela noite tinha sido inédita para o jovem Blanco, e mesmo agora, ainda não tinha absorvido tudo que tinha sido dito, tanto por ele próprio, quanto da própria mãe para ele. Quando veio a pergunta mais direta se ela estenderia a permanência na cidade, Renaud fez uma expressão mais neutra, o que já antecipava uma resposta negativa:<br />
<br />
– Quem dera, mas ela já disse que tinha de voltar pra Paris, talvez eu tenha de falar com meu pai que tá voltando de viagem sabe-se lá de onde-...! – Antes que Renaud pudesse terminar o relato, seu celular estava tocando e tinha noção que naquele horário não tinha qualquer medicamento ou alimentação pendente, puxou o aparelho com as pontas dos dedos e deixou sobre a mesa, notando que era uma ligação do assessor de seu pai, o que provavelmente queria dizer que o homem já estava de volta ao paí, muito mais cedo do que tinha julgado: –  vou atender no viva voz, porque não tenho como segurar o aparelho, mas pode ficar aí, não tem problema não. –  avisou para que Isaac não se sentisse invadindo sua privacidade ouvindo uma ligação de telefone, atendeu a chamada, e logo de cara dava pra ouvir o som de vento e de espaço amplo como se o outro estivesse num aeroporto ou coisa assim:<br />
<br />
–  Renaud? – a voz do homem do outro lado da linha soou com certa urgência, e talvez em dias normais Renaud tivesse desconfiado daquilo logo no primeiro momento, mas sua resposta foi apenas automática em perguntar o óbvio:<br />
<br />
– Oi Germand, já chegaram em Paris?<br />
<br />
– Onde você está? Está sozinho? – O fato de Germand não tentar esconder que havia urgência na situação deixou o jovem Blanco alerta, de que algo tinha acontecido, mas sequer podia imaginar o que seria:<br />
<br />
– Em St. Clavier, onde mais eu estaria? O que houve?<br />
<br />
– Tente ficar calmo, o que eu vou falar não é fácil de ouvir. – Pedir pra alguém ficar calmo não é a melhor forma de começar uma conversa, e automaticamente o corpo do Blanco ficou tenso: –  A polícia parisiense acabou de nos informar assim que desembarcamos no aeroporto, que a madame Capuccine sofreu um acidente de carro na interestadual entre Cerise e Paris, e que ela não resistiu… quando os paramédicos chegaram lá não tinha mais nada a se fazer.<br />
<br />
Embora tudo que tivesse de ser dito, tinha sido dito, as palavras não fizeram sentido na cabeça de Renaud, afinal, tinha conversado com a mulher na manhã daquele mesmo dia:<br />
<br />
“como assim não tinha resistido?”<br />
<br />
“o que quer dizer não resistir?”<br />
<br />
– … –  Renaud não sabia o que responder, a expressão estava congelada numa de surpresa, os olhos escuros vidrados na tela do aparelho, o rosto ficou pálido de pronto, era como se tudo estivesse travando ao seu redor e enrijecendo a ponto do ar ser duro como concreto para se respirar.<br />
<br />
– Eu e o seu pai estamos cuidando de tudo que envolve a polícia e o translado do corpo[...] <br />
<br />
“Translado do corpo?”<br />
<br />
[...] principalmente entender como isso tudo aconteceu, um motorista da família deve ir até St. Clavier pra lhe buscar, arrume suas coisas, vai te levar para a casa da família [...]<br />
<br />
“Do corpo da minha mãe?”<br />
<br />
[...] quando tivermos mais detalhes sobre todo o ocorrido, vamos avisar a todos da família. [...]<br />
<br />
“Do corpo…”<br />
<br />
[...] Renaud você ainda está aí? Renaud…?[...]<br />
<br />
A sala toda derretia e esfarelava ao seu redor, tornando-se uma imagem distorcida como se tudo convergisse para o aparelho celular, e nada mais existisse, os sons se afastaram, a voz de Gemand ficou miúda e distante, as imagens correram pra longe, a respiração fugiu, e tudo ficou em silêncio.<br />
<br />
“morto”<br />
<br />
– AAAAAAAAAAARRRGHHHHHHH! – O grito rasgou-lhe as entranhas saindo a plenos pulmões, Renaud se levantou de solavanco como um raio, e marretou contra o aparelho celular com a lateral dos punhos, com toda a força que tinha no corpo, fazendo o aparelho em pedaços. Renaud estava completamente fora de si.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Isaac</span></div>
<br />
- Pelo menos vocês tiveram chance de conversar. - Isaac respondeu, para só então pegar a caixa de primeiros socorros e levar de volta até o armário, enquanto o outro dizia que a mãe já tinha que voltar a Paris. Aquilo só lhe levou de novo ao fato de que ele estaria nos dormitórios e podia precisar de ajuda. - Se precisar de alguma coisa mais tarde, mande mensagem. E vou lhe ligar nas horas dos remédios.<br />
<br />
Na cabeça de Isaac, se ele estava com a mãe ou a família em casa, certamente eles teriam responsabilidade de lembrar dos horários. Claro que o mesmo não valia para Sasha e Didier, já que não confiava na pontualidade dos dois, por isso no dormitório, se sentia mais na obrigação de lembrar daqueles detalhes. Só concordou com um aceno de cabeça breve quando Renaud disse que ia atender a ligação no viva-voz e seguiu até as prateleiras de arquivos para pegar as pastas de orçamento necessárias pra continuar fazendo as previsões.<br />
<br />
Ele não deu muita atenção à conversa de Renaud, embora pudesse ouvir um homem falando do outro lado. Isaac não queria invadir a privacidade do outro de todo modo, então manteve o foco no trabalho para deixar que Renaud conversasse, inclusive, até ficou mais tempo olhando os arquivos de costas para o mais novo.<br />
<br />
Até ouvir uma informação muito pontual do outro lado do telefone que lhe fez congelar onde estava. Primeiro foi o aviso do acidente, e então que a mulher não tinha resistido e que os médicos tinham chegado ao local sem ter o que fazer. Isaac engoliu em seco, sentindo as mãos geladas com os arquivos em mãos, e não se virou para Renaud de imediato. As informações continuaram vindo do outro lado e ele não ouviu também uma resposta do mais novo. Isaac se virou só para ver as costas de um Renaud que não tinha se movido um dedo enquanto olhava para o celular sobre a mesa. Ele engoliu em seco, sem saber o que fazer exatamente, não era muito bom naquelas situações. A voz do homem do outro lado chamou pelo nome de Renaud, mas ele não respondeu.<br />
<br />
- Renaud? - Isaac tentou chamar por ele também, ainda com as pastas em mãos, mas a resposta veio num grito ensurdecedor que invadiu toda a sala, acompanhado do som seco das batidas intensas das mãos dele contra a mesa e o celular, quebrando o aparelho com muita facilidade.<br />
<br />
Isaac demorou mais do que gostaria para reagir, com o choque da notícia somado ao choque de Renaud. Largou a pasta no chão e cobriu o curto espaço na direção do outro, agarrando-o pelo tronco e puxando-o para trás para impedir que ele continuasse batendo na mesa e acabasse machucando ainda mais as mãos queimadas.<br />
<br />
- Renaud! Pare com isso! - ele precisou falar mais alto para tentar se fazer ouvir contra o grito, colocando força em volta do corpo do outro para tentar segurá-lo.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
Renaud estava quase que totalmente desconectado da realidade, os seus olhos estavam vidrados e focados único e exclusivamente na mesa e no celular que estava sobre ela instantes atrás, que agora jazia despedaçado com a tela totalmente trincada no chão. Não havia raciocínio em suas ações, apenas um instinto colérico de pura violência. <br />
<br />
Não havia qualquer sentido lógico em porquê estava fazendo aquilo, o corpo estava apenas reagindo a explosão de ira que tinha dentro de si. E o que estivesse em sua frente iria sentir toda sua fúria. O moreno ignorou completamente que havia outra pessoa na sala, e seguiu castigando a superfície da mesa em marretadas repetidas sobre a mesma. Tanto que na foi surpresa o móvel ceder sobre a raiva que o mais novo despejava sobre a mesma.<br />
<br />
Mesmo que Isaac o chamasse por seu nome, as palavras não chegaram aos ouvidos de Renaud, e seguiria gritando e destruindo as coisas à sua frente, no entanto, o moreno mais novo percebeu quando foi puxado para trás e impedindo de continuar golpeando as coisas a sua frente. E a reação instintiva foi se debater para se soltar sem entender o que, ou quem exatamente o estava puxando.<br />
<br />
Ser impedido de descontar toda aquele caos que sentia nos objetos à sua frente, deixava Renaud ainda mais e mais inquieto, e isso era perceptível pelo quanto ele se mexia, e botava força no sentido de seguir para frente. A ponto do mais novo firmar os pés no chão, e girar os braços com violência para tentar se soltar.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Isaac</span></div>
<br />
Renaud não lhe ouviu com os primeiros chamados, como Isaac até tinha previsto, e segurou-o com a força que tinha para que ele pelo menos parasse de se machucar. Claro que não adiantou muita coisa, Renaud podia estar sob efeito de medicamentos pesados, mas ainda era muito forte, e imaginou que com uma descarga de adrenalina, ele teria bastante força para revidar até se ver bem exausto.<br />
<br />
Isaac até conseguiu puxá-lo para longe da mesa que já estava cedendo com os golpes, mas ele se debateu ainda mais intensamente, continuando a gritar e empregar força ao ponto em que nem adiantou que Isaac desse um impulso para trás, sentiu quando Renaud travou os pés no chão e fez força no sentido contrário, puxando-os para frente com mais facilidade do que o secretário conseguia se manter firme no chão. Os braços em volta do moreno cederam um pouco e devia ter colocado mais força, porque foi fácil para Renaud girar o corpo e se debater, acertando-lhe na altura do ombro para que o largasse de vez. Isaac sentiu a dor da cotovelada no ombro e foi jogado um passo para o lado, mas isso lhe fez dar uma boa olhada na reação do mais novo, em busca de descarregar de novo a irritação, a despeito dos machucados nas mãos, e daquela vez, ele precisou calcular melhor como tentaria contê-lo. Obviamente, gritar pelo nome dele e pedir para parar não daria certo.<br />
<br />
Isaac não deu muito tempo para que Renaud conseguisse destruir mais coisas na sala do conselho, e precisou dar uns passos para trás quando ele pegou até uma das cadeiras pesadas. Mas deu a volta pelo mais novo e, já que ele não estava interessado em lhe acertar, mas acertar os móveis na sala, se aproximou por trás de novo, passando os braços por cima dos de Renaud e puxando-os para trás, para fazer uma trava e impedir que ele continuasse acertando as coisas.<br />
<br />
- Renaud! Me escute!! - ele insistiu, falando mais próximo do outro, os braços firmes em volta dos de Renaud para impedir que ele se mexesse, mas certamente não funcionaria.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
A sensação de estar livre foi mais intensa para Renaud do que se preocupar com o que tinha tentado lhe segurar. O corpo se movia apenas guiado pelo impulso de extravasar a turbulência que residia dentro de si, por todo corpo a sensação de calor e febre se alastrava, a respiração fervia nos pulmões e os grunhidos de pura raiva rasgavam de dentro para fora. Pegou o objeto mais próximo, que era uma cadeira da mesa de reuniões e a ergueu com as duas mãos acima da cabeça, quase acertando as luminárias do teto, e acertou contra a mesa com toda força, entortando o metal, e fazendo ranger as articulações da cadeira, golpeou repetidas vezes, até que o próprio objeto escorregou da mão do Blanco.<br />
<br />
Estava prestes a erguer os braços novamente para golpear mesmo com as mãos nuas, mas foi impedido de prosseguir pelos braços sendo presos. O corpo fervia por cada centímetro, e sua reação imediata o fez aplicar ainda mais força para se livrar, cerrando os dentes, e soltando o ar pelo nariz bufando, jogando o peso do corpo para frente com violência, mas sem sucesso daquela vez para se soltar. A voz de Isaac não chegou aos ouvidos do jovem Blanco de forma inteligível, mas a presença dele finalmente surgiu na compreensão, como algo no seu caminho, algo que precisava sumir.<br />
<br />
Renaud grunhiu de forma ameaçadora o som vindo do fundo de sua garganta num som rouco, longo e arrastado, espiando por cima do ombro, o olhar escuro sem brilho, as veias dilatadas que deixava sua esclera vermelha. Naquele ponto viu que existia alguém ali, mas não reconheceu como sendo o secretário seu amigo.<br />
<br />
Por isso, o rapaz se debateu, intensamente, jogando a cabeça para trás com o intuito de cabecear o rosto do outro, e se livrar do aperto dele. A intensidade com que jogava o corpo para trás era tamanha, que sequer estava prestando atenção no próprio equilíbrio. Queria apenas se livrar de sua prisão e tornar a descarregar toda a dor que perpassava o seu corpo para fora.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Isaac</span></div>
<br />
A nova tentativa de segurar Renaud foi mais eficaz ao impedi-lo de mover os braços, desse jeito ele tinha pouca liberdade para se mover e não podia machucar as mãos ainda mais feridas. Àquela altura, as bandagens já estavam frouxas e vermelhas do sangue das feridas de queimaduras, e Isaac realmente queria que ele parasse de se machucar. Mas mesmo que a nova chave de braço tivesse funcionado melhor, sentiu o peso de Renaud para frente e depois para trás, quando ele jogou a cabeça para tentar lhe acertar. Reagiu ao mesmo tempo, jogando a cabeça e o corpo para trás e se livrando do golpe, embora a intensidade dos movimentos dele já estivesse colocando muito esforço em seus braços e lhe fazendo suar.<br />
<br />
Isaac nem tentou se fazer ouvir de novo, o olhar injetado de Renaud quando virou a cabeça para trás já mostrava que ele não conseguia distinguir absolutamente nada nem racionalizar. O secretário sabia que ia ter dificuldade de segurá-lo ainda em pé, e com os puxões e empurrões intensos, podiam bater em mais móveis ou cair. E foi a breve noção de que os dois cairiam que deu uma ideia a Isaac: era melhor prendê-lo usando o corpo todo contra o chão. Com um dos impulsos de Renaud para tentar se livrar, indo para o lado, Isaac só ajustou o pé no chão e ao invés de fazer força contrária, ele se jogou na mesma direção que Renaud, e com a força combinada dos dois e o desequilíbrio, foi fácil cair no chão com um baque forte contra o ombro, tanto seu quanto de Renaud, e a perspectiva da queda lhe colocou num modo de tensão, incapaz de tentar se amparar da queda com os braços, ele colocou mais força na trava que prendia os braços de Renaud e o outro não conseguiu se soltar no processo.<br />
<br />
Isaac ignorou a dor que assolou o ombro e o corpo todo tensionado, aproveitou que estavam no chão e antes que Renaud continuasse se debatendo, ele se virou sobre o corpo do mais novo, pressionando-o contra o chão usando os braços travados em volta dos dele, o próprio tronco empurrando-o para baixo, os quadris sobre os dele, e os pés buscando travar as pernas dele no chão também - embora fosse difícil empregar muita força com as pernas naquela posição. Naquela postura, sentindo a dor nos braços por estarem travados em volta dos de Renaud, ele ainda encarou o outro de cima, numa distância segura para que ele não jogasse a cabeça para trás para tentar lhe acertar de novo, e de novo, tentou se fazer ouvir.<br />
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- Renaud, pare com isso! Você precisa me ouvir!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
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Depois de uma tarde e noite muito não convencional em casa, Renaud tinha voltado a St. Clavier, e o jovem francês estava estranhamente animado, mais do que estivera nos últimos dias. Mesmo que tivesse passado por bons momentos na companhia de pessoas que tinha muita estima dentro da academia masculina, ainda assim, aquela última noite tinha ascendido em si um tipo de sentimento novo que não se lembrava se já tinha sentido antes, mas que queria muito sentir de novo. O humor estava tão bom que tinha avisado ao secretário que apareceria na sala do conselho estudantil, justificando que arrastaria Didier também para não ser taxado de quem estava indo “atrapalhar” o serviço, sabia que o loiro devia ter pilhas de papéis pra assinar. E claro que depois que o namorado se desocupasse dos primeiranistas desesperados com as provas de final de ano letivo, poderia se juntar aos dois morenos na sala do conselho, estava mais compreensivo com os mais novos, então não se opôs ao fato de Didier dar atenção primeiro aos mais novos, pra depois ter o restante do tempo para ficar com Renaud.<br />
<br />
Fez um esforço extra pra se vestir, pondo calça social e blusa de botões, pra não aparecer sem o uniforme ou certamente receberia uma bronca do amigo secretário por estar dando um “mal exemplo”, mas abotoar a camisa já tinha sido o máximo de esforço que conseguia, tentar dar um nó de gravata nunca pareceu um malabarismo tão difícil. No caminho passou na sala do Dr. Vlahos pra saber se ele teria alguma janela pra conversarem, e tinha certeza que se o homem não estivesse prestes a começar um atendimento com um outro aluno, eles conversariam ali mesmo. Mas o psicólogo pelo menos já podia notar que o humor do jovem Blanco estava melhor do que o usual, o que significava que alguma coisa “boa” tinha acontecido e não era uma emergência como das vezes anteriores. Renaud ainda se ocupou de parar um tempo na sala do conselho disciplinar e conversar com seu Frater, claro que não poderia entrar em muitos detalhes de sua vida pessoal considerando que Nataniel estava por lá, mas ainda foi fácil pra seu irmão notar que apesar de ter saído sequestrado da academia masculina, a conversa tinha tido um saldo positivo no final das contas. E tinha prometido de contar-lhe tudo que tinha conversado com sua mãe em detalhes posteriormente quando não tivesse de dar atenção ao seu “namorado enjoado”.<br />
<br />
Finalmente ao chegar na sala do conselho estudantil depois de dias sem frequentar o local, era no mínimo “estranho”, tinha dito que apareceria ali, porém tinha falado sem pensar sobre o que de fato significava “voltar ali”, e só naquele momento parado em frente a porta foi que o moreno mais novo se tocou que a última vez que tinha estado naquele lugar tinha sido durante a briga dele e de Didier, que agora parecia ter ocorrido 10 anos no passado. Antes que pudesse seguir divagando, a porta se abriu num solavanco com uma cabeleira ruiva por trás de uma pilha de pastas e papéis, que logo reconheceu sendo o jovem Lukashenko:<br />
<br />
– Eu já sei, não vou correr! Não vou!! JURO!!! Nem tô enxergando pra onde eu ando, como posso correr? Ahn-- Ren--...! Quer dizer… Vice-Presidente Blanco! Quanto tempo que não te vejo! WoW!! você ainda tem as mãos! Nossa! E disseram que você estava na pior, sabe, todo mundo falando como as suas mãos tinham derretido e tals... Mas que bom que foi só caó dos terceiranistas, Espero que ‘cê fique melhor! Té mais! – o ruivo desatou a falar e antes que jovem Blanco conseguisse assimilar tudo que ele falava, em verdade estava desacostumado com a velocidade com que o mais novo falava. E logo ele já estava seguindo pelo corredor para o restante das salas do setor administrativo entregar todos os memorandos e demais documentos.<br />
<br />
– Deve ser bem cansativo lidar com toda essa energia que o Lukashenko têm, por todos esses dias, não sei se fico com mais pena dele ou de você Zac. – o moreno mais novo adentrou na sala do conselho, encostando a porta atrás de si: – O Didier vem mais tarde, vamos dizer que ele está envolvido em um aulão de revisão com os primeiranistas, então vai ter de se contentar apenas com a minha companhia aqui, embora eu não consiga assinar papéis. – O mais novo deu um risinho singelo, mas era notório a mudança de humor pra quem tinha passado os últimos dias sumido, ou cabisbaixo e desanimado pra qualquer coisa.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Isaac</span></div>
<br />
Isaac queria que o trabalho no Conselho depois dos jogos internos fosse menor, mas era o completo oposto. Com a formatura em vista nos próximos meses, os campeonatos específicos de verão de alguns clubes e as eleições para a chapa do próximo ano letivo, o trabalho só se acumulava, e muito. Mais ainda porque Renaud estava com problemas para lhe ajudar, Didier era o problema, e tinha Yure para ensinar as coisas. No fim das contas, o ruivo estava se saindo bem melhor do que tinha previsto e estava lhe ajudando mais do que esperava nas últimas semanas com pilhas de trabalho.<br />
<br />
Claro que ele ficava com alguns trabalhos mais simples, de organização e contato com os grupos e entender como a mecânica do conselho estudantil funcionava, mas já era muito para Isaac que tinha que trabalhar sempre com previsões orçamentárias e propostas para a administração que beneficiassem os alunos. Naquela sexta, foi surpresa receber uma mensagem de Renaud avisando que iria ao Conselho e que levaria Didier junto para trabalharem, embora tivesse imaginado que Renaud não fosse voltar tão logo para a academia com a mensagem de que tinha ido passar uma noite com a mãe na casa da família. Isaac só respondeu com uma mensagem formal que era esperada e seguiu com o trabalho, enchendo Yure de papeladas para levar para todos os outros grupos e setores da Academia.<br />
<br />
Só quando o ruivo saiu pela porta depois de reforçar pela décima vez para ele não correr, que Renaud entrou na sala, e a primeira coisa que Isaac colocou o olho foi a gravata com um nó extremamente mal-executado. O impulso de se levantar e ir consertar foi tanto que ele nem ouviu o primeiro comentário de Renaud, e se aproximou para ajustar a peça de roupa sem nem pedir licença.<br />
<br />
- É bom ter você de volta, mesmo sem assinar papeis. - Isaac respondeu, e a expressão fechada só denunciava o desagrado com a roupa torta. Ele não parou no nó da gravata, ajustou os botões, as dobras da roupa, a camisa dentro da calça, as lapelas do terno, as abotoaduras dos punhos e ainda observou as bandagens um tanto mal-feitas. Mas com a roupa toda arrumada, ele finalmente levantou o olhar para Renaud, encarando a expressão mais suave do que tinha visto nos últimos dias e o rosto com um pouco mais de cor. - Você parece melhor. Tomou os remédios na hora certa hoje? E as refeições? Eu vou pegar o kit de primeiros socorros para arrumar isso. - ele apontou para os curativos nas mãos e esperou que Renau lhe acompanhasse enquanto ele se movia para fazer o que tinha dito.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
Não era surpresa ver o amigo com aquela expressão fechada, afinal ele deveria estar trabalhando triplicado, mas sabia que parte daquela irritação era porque estava profanando o sagrado código de vestimenta da academia, e para alguém com “toc” como o secretário, a sua imagem deveria ser algo de franzir as sobrancelhas. Nem se opôs ao mais velho invadir seu espaço pessoal para arrumar sua gravata, e ergueu um pouco o pescoço para que ele fizesse o nó com mais espaço. Nem conseguia levar aquela situação a sério, e acabou lembrando do que sua mãe tinha comentado de manhã sobre serem “namorados”, não tinha como negar, imagina e alguém visse os dois naquela cena hilária digna de um filme de comédia romântica:<br />
<br />
– Sim, e sim. É estranhamente bom estar de volta. Obrigado pelos ajustes.– o mais novo respondeu de forma direta, porque sabia que tinha pedido pro amigo lhe cobrar aquelas questões diariamente, já que não dava pra confiar na própria memória e noção do tempo como antigamente. Porém a situação toda era uma oportunidade boa demais para deixar passar sem fazer alguma brincadeira, e ver que tipo de reação poderia tirar do sempre sério “secretário máscara de ferro”: <br />
<br />
– Sabe, é por esse tipo de “interação” que a minha mãe acha que você é quem é meu namorado.– O jovem Blanco acompanhou o amigo até a mesa, esperando que Isaac trouxesse o material de primeiros socorros pra trocar suas bandagens, e aquela altura mesmo que o machucado ardesse e incomodasse, a situação toda contribuia para que Renaud ignorasse aquele ponto, e mantivesse o ar mais leve: <br />
<br />
– E pensando bem, depois do almoço onde você insistiu em me dá comida na boca, talvez uma boa parcela de alunos da academia também alimente a hipótese que nós “finalmente” assumimos um relacionamento. Se bem, que não seria uma má ideia, considerando o quanto você é bonito, bom de cama, e com certeza tem o melhor cafuné dessa academia, se eu estivesse solteiro até pensaria seriamente em investir nessa ideia.  – o moreno falou com um falso tom sério, mas que certamente seu amigo não perceberia que tudo aquilo era brincadeira, ou pelo menos a uma parte. Já que não tinha mentido sobre nenhum dos atributos do moreno mais alto, muito menos sobre o fato de agora não ser mais um cara solteiro.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Isaac</span></div>
<br />
A roupa arrumada de Renaud colocou uma expressão mais suave no rosto de Isaac, a resposta positiva dele para as suas perguntas e a postura mais segura também deixaram o secretário mais satisfeito com o estado de Renaud. Podia ser péssimo para perceber trejeitos emocionais das pessoas ao redor, mas para alguém que conhecia tão bem quanto Renaud, dava para deduzir que ele estava bem. Melhor do que nos últimos dias e em meio à crise.<br />
<br />
Isaac tirou o kit de primeiros socorros de um dos armários e quando estava voltando para a mesa, o comentário sobre a mãe do outro ter achado que eram namorados até lhe fez derrubar a caixa no meio do caminho, com uma expressão de surpresa e de estranhamento.<br />
<br />
- Nós não somos namorados. - Isaac apontou o óbvio, abaixando-se para pegar a caixa e levá-la para a mesa como se nada tivesse acontecido, enquanto Renaud apontava todos os outros detalhes que podiam indicar um relacionamento entre os dois, o que era quase perturbador. Ele tirou os materiais da caixa e esperou que Renaud lhe estendesse a mão, enquanto terminava a justificativa com um comentário pontual que não passou despercebido ao secretário. - Você não conseguia comer sozinho, lhe ajudar era só lógico. Eu sou bonito, e bom de cama, e não tenho dados suficientes pra dizer que tenho o melhor cafuné da academia. Mas nunca pensei em você como namorado, sempre achei que você e o Didier já eram isso. Pelo jeito que falou de não estar mais solteiro, agora é verdade?<br />
<br />
Isaac tinha tirado as bandagens e jogou no lixo, vendo o estado das mãos machucadas com a pomada para melhorar. Pegou bandagens novas na caixa e fez o trabalho de um modo mais leve do que era costume quando lidava com os machucados de Renaud.<br />
<br />
- E como foi a noite com a sua mãe? Ela está bem? - ele perguntou, principalmente porque tivera a oportunidade de conhecer a mulher quando viajaram a Paris.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
O moreno mais novo nem tentou conter o risinho diante da reação exagerada de Isaac aos seus comentários, ter derrubado a caixinha de primeiros socorros certamente era um clichê, mas um muito bom, e vê-lo no time correto dentro da cena no mundo real, fora de um filme de comédia romântica classe B, era muito melhor. Renaud manteve o ar leve no rosto, embora ainda tivesse as olheiras e traços bem marcados de cansaço, ainda assim, estava sustentando a melhor aparência que tinha em dias, e aquilo até o próprio Isaac podia notar, afinal se conheciam a uns bons anos.  O moreno mais novo estendeu as mãos na direção do outro quando foi pedido, e logo percebeu como o secretário estava mais “gentil” no trato dos seus machucados, em verdade, tinha um uns dois oceanos de diferença no tratamento, e aquilo era mais uma pequena prova de que mesmo denso o secretário conseguia perceber algumas coisas ao seu redor, e a prova foi que ele também notou o ponto de que o Vice-presidente não estava mais solteiro em sua fala anterior.<br />
<br />
Era o momento de Renaud ser o protagonista do seu próprio filme clichê romântico, e quando perguntado sobre estar de fato namorando com Didier, o moreno mais mais novo sorriu inconscientemente, muito mais feliz do que era possível vê-lo em qualquer outro momento:<br />
<br />
– Oficialmente, sim, com direito a pedido formal, e declaração romântica digna do romantismo do séc XVIII, ou quase isso. – Admitiu pondo uma expressão provavelmente inédita para o secretário, afinal, não era “comum” ver o jovem Blanco dando risinhos como um rapaz bobo apaixonado de dezenove anos que de fato ele era. E em seguida, o moreno mais novo esperou que seu amigo cuidasse dos machucados, enquanto pensava em como responder como tinha sido sua noite na companhia de sua mãe:<br />
<br />
– Ela está aparentemente bem, pelo menos até quando a gente se despediu de manhã. –  Renaud começou o relato pela parte mais fácil que era dizer o óbvio, que a sua mãe estava bem, sobre a estadia em si, não tinha porque dá rodeios, podia ser sincero, só tinha de escolher palavras mais objetivas pra o amigo entender melhor sua situação: –  Foi tudo bem inesperado, não sabia que ela viria pra Cerise, quem dirá que eu teria de ir dormir em casa, mas nós conversamos muito, primeiro foi desconfortável, depois tornou-se mais tolerável, e só depois ficou mais confortável. Chegamos a conclusão que nenhum de nós dois é bom em falar como se sente. Ela me pediu desculpas sobre o nosso desentendimento em Paris, e algumas outras coisas.<br />
<br />
Renaud parou a própria narrativa e encarou o amigo, talvez parecendo mais normal do que nunca, afinal, nem estava interpretando papel de nada ali, nem estava xavecando, e nem abatido, estava apenas sendo ele, falando sobre problemas da sua própria família em um tom normal: – Eu não esperava por nada do que aconteceu, mas acho que o saldo foi positivo no final das contas.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Isaac</span></div>
<br />
Isaac olhou torto para a expressão sorridente de Renaud que era tão estranha, mas continuou com os curativos com atenção. O que mais captou da informação dele foi algo com que já estava bem familiarizado.<br />
<br />
- Espero que não seja romantismo do século XVIII, ou vocês dois vão morrer jovens. - Isaac respondeu, sobre a época literária que ele entendia apenas um pouco. - E acho que já passaram da fase de tentar se matar nas gangues.<br />
<br />
Ele terminou de enfaixar as duas mãos, colocando pedaços de esparadrapos para finalizar e guardando os materiais de volta na caixa. Mas não devolveu ao armário, ficando diante de Renaud enquanto ele narrava sobre como a mãe estava e sobre como tinha sido o encontro dos dois. Não podia tirar muitas conclusões das poucas informações, mas Renaud parecia de bom humor, e o relato foi bem conciso.<br />
<br />
- Parece que foi um bom encontro. Melhor do que quando estávamos em Paris. - ele disse, e só tinha como parâmetro o que tinha visto de Renaud com a família na viagem breve, e tudo parecia excessivamente formal até para ele, que tinha pais muito atenciosos em contraste. Fez um aceno positivo com a cabeça quando ele disse que o saldo tinha sido positivo. - Isso é bom. Ela vai ficar em Cerise? Se for dormir em casa de novo, lembre dos horários dos remédios e das refeições.<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
Não tinha como evitar achar graça da forma como o amigo destacava justamente o ponto mais trágico do movimento literário que tinha citado, apenas a cargo de hipérbole, mas se fosse de outra forma não seria o bom e velho Isaac. Concordou com um aceno de cabeça de que não queria ter de morrer jovem, agora queria poder viver bastante pra ter tempo de aproveitar coisas com Didier, principalmente quando não estivessem mais presos a instituição masculina, mas aí era um tópico que tinha decidido pensar depois pra não ter que gerar ansiedade com um futuro que embora próximo, não era imediato. <br />
<br />
– Nossas interações não eram muito mais profundas do que a amostra que você viu em Paris, apenas multiplique aquilo por dezenove anos, muita formalidade pouca pessoalidade. – pontuou muito diretamente até para que o amigo tivesse noção melhor de como aquela noite tinha sido inédita para o jovem Blanco, e mesmo agora, ainda não tinha absorvido tudo que tinha sido dito, tanto por ele próprio, quanto da própria mãe para ele. Quando veio a pergunta mais direta se ela estenderia a permanência na cidade, Renaud fez uma expressão mais neutra, o que já antecipava uma resposta negativa:<br />
<br />
– Quem dera, mas ela já disse que tinha de voltar pra Paris, talvez eu tenha de falar com meu pai que tá voltando de viagem sabe-se lá de onde-...! – Antes que Renaud pudesse terminar o relato, seu celular estava tocando e tinha noção que naquele horário não tinha qualquer medicamento ou alimentação pendente, puxou o aparelho com as pontas dos dedos e deixou sobre a mesa, notando que era uma ligação do assessor de seu pai, o que provavelmente queria dizer que o homem já estava de volta ao paí, muito mais cedo do que tinha julgado: –  vou atender no viva voz, porque não tenho como segurar o aparelho, mas pode ficar aí, não tem problema não. –  avisou para que Isaac não se sentisse invadindo sua privacidade ouvindo uma ligação de telefone, atendeu a chamada, e logo de cara dava pra ouvir o som de vento e de espaço amplo como se o outro estivesse num aeroporto ou coisa assim:<br />
<br />
–  Renaud? – a voz do homem do outro lado da linha soou com certa urgência, e talvez em dias normais Renaud tivesse desconfiado daquilo logo no primeiro momento, mas sua resposta foi apenas automática em perguntar o óbvio:<br />
<br />
– Oi Germand, já chegaram em Paris?<br />
<br />
– Onde você está? Está sozinho? – O fato de Germand não tentar esconder que havia urgência na situação deixou o jovem Blanco alerta, de que algo tinha acontecido, mas sequer podia imaginar o que seria:<br />
<br />
– Em St. Clavier, onde mais eu estaria? O que houve?<br />
<br />
– Tente ficar calmo, o que eu vou falar não é fácil de ouvir. – Pedir pra alguém ficar calmo não é a melhor forma de começar uma conversa, e automaticamente o corpo do Blanco ficou tenso: –  A polícia parisiense acabou de nos informar assim que desembarcamos no aeroporto, que a madame Capuccine sofreu um acidente de carro na interestadual entre Cerise e Paris, e que ela não resistiu… quando os paramédicos chegaram lá não tinha mais nada a se fazer.<br />
<br />
Embora tudo que tivesse de ser dito, tinha sido dito, as palavras não fizeram sentido na cabeça de Renaud, afinal, tinha conversado com a mulher na manhã daquele mesmo dia:<br />
<br />
“como assim não tinha resistido?”<br />
<br />
“o que quer dizer não resistir?”<br />
<br />
– … –  Renaud não sabia o que responder, a expressão estava congelada numa de surpresa, os olhos escuros vidrados na tela do aparelho, o rosto ficou pálido de pronto, era como se tudo estivesse travando ao seu redor e enrijecendo a ponto do ar ser duro como concreto para se respirar.<br />
<br />
– Eu e o seu pai estamos cuidando de tudo que envolve a polícia e o translado do corpo[...] <br />
<br />
“Translado do corpo?”<br />
<br />
[...] principalmente entender como isso tudo aconteceu, um motorista da família deve ir até St. Clavier pra lhe buscar, arrume suas coisas, vai te levar para a casa da família [...]<br />
<br />
“Do corpo da minha mãe?”<br />
<br />
[...] quando tivermos mais detalhes sobre todo o ocorrido, vamos avisar a todos da família. [...]<br />
<br />
“Do corpo…”<br />
<br />
[...] Renaud você ainda está aí? Renaud…?[...]<br />
<br />
A sala toda derretia e esfarelava ao seu redor, tornando-se uma imagem distorcida como se tudo convergisse para o aparelho celular, e nada mais existisse, os sons se afastaram, a voz de Gemand ficou miúda e distante, as imagens correram pra longe, a respiração fugiu, e tudo ficou em silêncio.<br />
<br />
“morto”<br />
<br />
– AAAAAAAAAAARRRGHHHHHHH! – O grito rasgou-lhe as entranhas saindo a plenos pulmões, Renaud se levantou de solavanco como um raio, e marretou contra o aparelho celular com a lateral dos punhos, com toda a força que tinha no corpo, fazendo o aparelho em pedaços. Renaud estava completamente fora de si.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Isaac</span></div>
<br />
- Pelo menos vocês tiveram chance de conversar. - Isaac respondeu, para só então pegar a caixa de primeiros socorros e levar de volta até o armário, enquanto o outro dizia que a mãe já tinha que voltar a Paris. Aquilo só lhe levou de novo ao fato de que ele estaria nos dormitórios e podia precisar de ajuda. - Se precisar de alguma coisa mais tarde, mande mensagem. E vou lhe ligar nas horas dos remédios.<br />
<br />
Na cabeça de Isaac, se ele estava com a mãe ou a família em casa, certamente eles teriam responsabilidade de lembrar dos horários. Claro que o mesmo não valia para Sasha e Didier, já que não confiava na pontualidade dos dois, por isso no dormitório, se sentia mais na obrigação de lembrar daqueles detalhes. Só concordou com um aceno de cabeça breve quando Renaud disse que ia atender a ligação no viva-voz e seguiu até as prateleiras de arquivos para pegar as pastas de orçamento necessárias pra continuar fazendo as previsões.<br />
<br />
Ele não deu muita atenção à conversa de Renaud, embora pudesse ouvir um homem falando do outro lado. Isaac não queria invadir a privacidade do outro de todo modo, então manteve o foco no trabalho para deixar que Renaud conversasse, inclusive, até ficou mais tempo olhando os arquivos de costas para o mais novo.<br />
<br />
Até ouvir uma informação muito pontual do outro lado do telefone que lhe fez congelar onde estava. Primeiro foi o aviso do acidente, e então que a mulher não tinha resistido e que os médicos tinham chegado ao local sem ter o que fazer. Isaac engoliu em seco, sentindo as mãos geladas com os arquivos em mãos, e não se virou para Renaud de imediato. As informações continuaram vindo do outro lado e ele não ouviu também uma resposta do mais novo. Isaac se virou só para ver as costas de um Renaud que não tinha se movido um dedo enquanto olhava para o celular sobre a mesa. Ele engoliu em seco, sem saber o que fazer exatamente, não era muito bom naquelas situações. A voz do homem do outro lado chamou pelo nome de Renaud, mas ele não respondeu.<br />
<br />
- Renaud? - Isaac tentou chamar por ele também, ainda com as pastas em mãos, mas a resposta veio num grito ensurdecedor que invadiu toda a sala, acompanhado do som seco das batidas intensas das mãos dele contra a mesa e o celular, quebrando o aparelho com muita facilidade.<br />
<br />
Isaac demorou mais do que gostaria para reagir, com o choque da notícia somado ao choque de Renaud. Largou a pasta no chão e cobriu o curto espaço na direção do outro, agarrando-o pelo tronco e puxando-o para trás para impedir que ele continuasse batendo na mesa e acabasse machucando ainda mais as mãos queimadas.<br />
<br />
- Renaud! Pare com isso! - ele precisou falar mais alto para tentar se fazer ouvir contra o grito, colocando força em volta do corpo do outro para tentar segurá-lo.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
Renaud estava quase que totalmente desconectado da realidade, os seus olhos estavam vidrados e focados único e exclusivamente na mesa e no celular que estava sobre ela instantes atrás, que agora jazia despedaçado com a tela totalmente trincada no chão. Não havia raciocínio em suas ações, apenas um instinto colérico de pura violência. <br />
<br />
Não havia qualquer sentido lógico em porquê estava fazendo aquilo, o corpo estava apenas reagindo a explosão de ira que tinha dentro de si. E o que estivesse em sua frente iria sentir toda sua fúria. O moreno ignorou completamente que havia outra pessoa na sala, e seguiu castigando a superfície da mesa em marretadas repetidas sobre a mesma. Tanto que na foi surpresa o móvel ceder sobre a raiva que o mais novo despejava sobre a mesma.<br />
<br />
Mesmo que Isaac o chamasse por seu nome, as palavras não chegaram aos ouvidos de Renaud, e seguiria gritando e destruindo as coisas à sua frente, no entanto, o moreno mais novo percebeu quando foi puxado para trás e impedindo de continuar golpeando as coisas a sua frente. E a reação instintiva foi se debater para se soltar sem entender o que, ou quem exatamente o estava puxando.<br />
<br />
Ser impedido de descontar toda aquele caos que sentia nos objetos à sua frente, deixava Renaud ainda mais e mais inquieto, e isso era perceptível pelo quanto ele se mexia, e botava força no sentido de seguir para frente. A ponto do mais novo firmar os pés no chão, e girar os braços com violência para tentar se soltar.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Isaac</span></div>
<br />
Renaud não lhe ouviu com os primeiros chamados, como Isaac até tinha previsto, e segurou-o com a força que tinha para que ele pelo menos parasse de se machucar. Claro que não adiantou muita coisa, Renaud podia estar sob efeito de medicamentos pesados, mas ainda era muito forte, e imaginou que com uma descarga de adrenalina, ele teria bastante força para revidar até se ver bem exausto.<br />
<br />
Isaac até conseguiu puxá-lo para longe da mesa que já estava cedendo com os golpes, mas ele se debateu ainda mais intensamente, continuando a gritar e empregar força ao ponto em que nem adiantou que Isaac desse um impulso para trás, sentiu quando Renaud travou os pés no chão e fez força no sentido contrário, puxando-os para frente com mais facilidade do que o secretário conseguia se manter firme no chão. Os braços em volta do moreno cederam um pouco e devia ter colocado mais força, porque foi fácil para Renaud girar o corpo e se debater, acertando-lhe na altura do ombro para que o largasse de vez. Isaac sentiu a dor da cotovelada no ombro e foi jogado um passo para o lado, mas isso lhe fez dar uma boa olhada na reação do mais novo, em busca de descarregar de novo a irritação, a despeito dos machucados nas mãos, e daquela vez, ele precisou calcular melhor como tentaria contê-lo. Obviamente, gritar pelo nome dele e pedir para parar não daria certo.<br />
<br />
Isaac não deu muito tempo para que Renaud conseguisse destruir mais coisas na sala do conselho, e precisou dar uns passos para trás quando ele pegou até uma das cadeiras pesadas. Mas deu a volta pelo mais novo e, já que ele não estava interessado em lhe acertar, mas acertar os móveis na sala, se aproximou por trás de novo, passando os braços por cima dos de Renaud e puxando-os para trás, para fazer uma trava e impedir que ele continuasse acertando as coisas.<br />
<br />
- Renaud! Me escute!! - ele insistiu, falando mais próximo do outro, os braços firmes em volta dos de Renaud para impedir que ele se mexesse, mas certamente não funcionaria.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Renaud</span></div>
<br />
A sensação de estar livre foi mais intensa para Renaud do que se preocupar com o que tinha tentado lhe segurar. O corpo se movia apenas guiado pelo impulso de extravasar a turbulência que residia dentro de si, por todo corpo a sensação de calor e febre se alastrava, a respiração fervia nos pulmões e os grunhidos de pura raiva rasgavam de dentro para fora. Pegou o objeto mais próximo, que era uma cadeira da mesa de reuniões e a ergueu com as duas mãos acima da cabeça, quase acertando as luminárias do teto, e acertou contra a mesa com toda força, entortando o metal, e fazendo ranger as articulações da cadeira, golpeou repetidas vezes, até que o próprio objeto escorregou da mão do Blanco.<br />
<br />
Estava prestes a erguer os braços novamente para golpear mesmo com as mãos nuas, mas foi impedido de prosseguir pelos braços sendo presos. O corpo fervia por cada centímetro, e sua reação imediata o fez aplicar ainda mais força para se livrar, cerrando os dentes, e soltando o ar pelo nariz bufando, jogando o peso do corpo para frente com violência, mas sem sucesso daquela vez para se soltar. A voz de Isaac não chegou aos ouvidos do jovem Blanco de forma inteligível, mas a presença dele finalmente surgiu na compreensão, como algo no seu caminho, algo que precisava sumir.<br />
<br />
Renaud grunhiu de forma ameaçadora o som vindo do fundo de sua garganta num som rouco, longo e arrastado, espiando por cima do ombro, o olhar escuro sem brilho, as veias dilatadas que deixava sua esclera vermelha. Naquele ponto viu que existia alguém ali, mas não reconheceu como sendo o secretário seu amigo.<br />
<br />
Por isso, o rapaz se debateu, intensamente, jogando a cabeça para trás com o intuito de cabecear o rosto do outro, e se livrar do aperto dele. A intensidade com que jogava o corpo para trás era tamanha, que sequer estava prestando atenção no próprio equilíbrio. Queria apenas se livrar de sua prisão e tornar a descarregar toda a dor que perpassava o seu corpo para fora.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Isaac</span></div>
<br />
A nova tentativa de segurar Renaud foi mais eficaz ao impedi-lo de mover os braços, desse jeito ele tinha pouca liberdade para se mover e não podia machucar as mãos ainda mais feridas. Àquela altura, as bandagens já estavam frouxas e vermelhas do sangue das feridas de queimaduras, e Isaac realmente queria que ele parasse de se machucar. Mas mesmo que a nova chave de braço tivesse funcionado melhor, sentiu o peso de Renaud para frente e depois para trás, quando ele jogou a cabeça para tentar lhe acertar. Reagiu ao mesmo tempo, jogando a cabeça e o corpo para trás e se livrando do golpe, embora a intensidade dos movimentos dele já estivesse colocando muito esforço em seus braços e lhe fazendo suar.<br />
<br />
Isaac nem tentou se fazer ouvir de novo, o olhar injetado de Renaud quando virou a cabeça para trás já mostrava que ele não conseguia distinguir absolutamente nada nem racionalizar. O secretário sabia que ia ter dificuldade de segurá-lo ainda em pé, e com os puxões e empurrões intensos, podiam bater em mais móveis ou cair. E foi a breve noção de que os dois cairiam que deu uma ideia a Isaac: era melhor prendê-lo usando o corpo todo contra o chão. Com um dos impulsos de Renaud para tentar se livrar, indo para o lado, Isaac só ajustou o pé no chão e ao invés de fazer força contrária, ele se jogou na mesma direção que Renaud, e com a força combinada dos dois e o desequilíbrio, foi fácil cair no chão com um baque forte contra o ombro, tanto seu quanto de Renaud, e a perspectiva da queda lhe colocou num modo de tensão, incapaz de tentar se amparar da queda com os braços, ele colocou mais força na trava que prendia os braços de Renaud e o outro não conseguiu se soltar no processo.<br />
<br />
Isaac ignorou a dor que assolou o ombro e o corpo todo tensionado, aproveitou que estavam no chão e antes que Renaud continuasse se debatendo, ele se virou sobre o corpo do mais novo, pressionando-o contra o chão usando os braços travados em volta dos dele, o próprio tronco empurrando-o para baixo, os quadris sobre os dele, e os pés buscando travar as pernas dele no chão também - embora fosse difícil empregar muita força com as pernas naquela posição. Naquela postura, sentindo a dor nos braços por estarem travados em volta dos de Renaud, ele ainda encarou o outro de cima, numa distância segura para que ele não jogasse a cabeça para trás para tentar lhe acertar de novo, e de novo, tentou se fazer ouvir.<br />
<br />
- Renaud, pare com isso! Você precisa me ouvir!]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[Rir é pecado? [Xavier]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=295</link>
			<pubDate>Sun, 26 Sep 2021 18:06:49 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=48">Diodoro</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=295</guid>
			<description><![CDATA[Diodoro não era o tipo de pessoa que trabalhava distraído. Não costumeiramente. Porém, havia um tempo desde que tinham recebido algum convidado ilustre – vulgo, um morto – na funerária para todas as preparações para o funeral. Ao menos desde que tinha contratado Xavier, o máximo que tinha organizado foi um funeral em casa, e assim tinha evitado que o funcionário assustado se assustasse mais ainda. Mas não bastasse não querer assombrar Xavier com os eventos de um embalsamamento, tinha sido contratado por uma daquelas pequenas famílias com dinheiro de Cerise que faziam exigências por terceiros e achavam tudo ruim. Se estava sentindo pressão? Nunca. Só não tinha tomado café da manhã, e claramente estava enchendo o corpo de café. Sua mãe lhe mataria se soubesse. <br />
<br />
Com toda sua habilidade, ficou trancado até quase 11 da manhã na sala dos fundos entre todos os processos, inclusive maquiagem. Fez a limpeza de tudo sem a ajuda de Xavier, para que ele não ficasse assustado demais com sangue no piso e afins. Agora, se ele tivesse que ver o velho monsieur Reynold para lhe ajudar a alocá-lo para um caixão, ele estaria até bem corado e saudável. <br />
<br />
Saiu ainda um pouco nervoso com a reação de Xavier, porém impecavelmente limpo da sala, e a bata de trabalho ficou na porta, retornando a suas roupas pretas e dando um passo desatento, sem ver o rabo de Miro no caminho, que deu um MIAU rasgado e arranhou sua perna, lhe fazendo cair para frente e bater a testa direto no portal que dava para a recepção da funerária.<br />
<br />
- <span style="color: darkslategray;" class="mycode_color">...!!</span> – Diodoro mordeu a língua para não xingar, que era pecado, e se agachou no chão levando a mão a testa que estava quente o suficiente para que soubesse que ia ganhar um belo galo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[Diodoro não era o tipo de pessoa que trabalhava distraído. Não costumeiramente. Porém, havia um tempo desde que tinham recebido algum convidado ilustre – vulgo, um morto – na funerária para todas as preparações para o funeral. Ao menos desde que tinha contratado Xavier, o máximo que tinha organizado foi um funeral em casa, e assim tinha evitado que o funcionário assustado se assustasse mais ainda. Mas não bastasse não querer assombrar Xavier com os eventos de um embalsamamento, tinha sido contratado por uma daquelas pequenas famílias com dinheiro de Cerise que faziam exigências por terceiros e achavam tudo ruim. Se estava sentindo pressão? Nunca. Só não tinha tomado café da manhã, e claramente estava enchendo o corpo de café. Sua mãe lhe mataria se soubesse. <br />
<br />
Com toda sua habilidade, ficou trancado até quase 11 da manhã na sala dos fundos entre todos os processos, inclusive maquiagem. Fez a limpeza de tudo sem a ajuda de Xavier, para que ele não ficasse assustado demais com sangue no piso e afins. Agora, se ele tivesse que ver o velho monsieur Reynold para lhe ajudar a alocá-lo para um caixão, ele estaria até bem corado e saudável. <br />
<br />
Saiu ainda um pouco nervoso com a reação de Xavier, porém impecavelmente limpo da sala, e a bata de trabalho ficou na porta, retornando a suas roupas pretas e dando um passo desatento, sem ver o rabo de Miro no caminho, que deu um MIAU rasgado e arranhou sua perna, lhe fazendo cair para frente e bater a testa direto no portal que dava para a recepção da funerária.<br />
<br />
- <span style="color: darkslategray;" class="mycode_color">...!!</span> – Diodoro mordeu a língua para não xingar, que era pecado, e se agachou no chão levando a mão a testa que estava quente o suficiente para que soubesse que ia ganhar um belo galo.]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[[Drive] Juicy [Dia; Natalia]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=293</link>
			<pubDate>Sun, 26 Sep 2021 17:48:33 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=3">Lil</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=293</guid>
			<description><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Depois de tudo o que havia acontecido nos últimos meses, havia terminado com um perfil mais discreto, optando por diminuir suas saídas noturnas e visitas aos clientes alternativos, atendendo apenas em questões emergenciais. Saiu depois de atender alguns pacientes no hospital geral de Cerise e acabou por passar no mercado para tentar comprar alguns vegetais. Não queria dar o braço a torcer, mas sabia que o sujeito grandão e de poucas palavras até que tinha um pouco de razão ao lhe julgar por seus hábitos alimentares. E, após tentar xavecar uma das novas enfermeiras do hospital, acabou recebendo de brinde uma receita para sopa de legumes que talvez fosse fácil demais para alguém como ela conseguir errar. <br />
<br />
Abriu a tela do próprio celular, verificando a lista de itens, adicionando um pote de sorvete de creme em sua cestinha de compras como uma sobremesa merecida para os dias quentes. Estava usando uma regata branca por baixo do blazer do conjunto bege. O cabelo retocado de um azul pastel preso em um coque alto e os brincos dourados em argolas finas nas orelhas. Estava com um par de sapatilhas confortáveis brancas, a bolsa, também branca, era carregada em seu ombro, sem parecer pesar muito. <br />
<br />
Estava presa em seu próprio mundinho, atravessando uma ilha de frutinhas da época quando ouviu algumas senhoras passando e comentando sobre como estavam na época de morangos. Teve a ideia de comprar alguns já que estava levando o sorvete de creme. Bem, ninguém poderia lhe julgar e dizer que não estava pensando em comer frutinhas saudáveis. Guardou o celular no bolso, avistando algumas mulheres amontoadas próximas ao que parecia ser o anúncio do supermercado de uma promoção de frutas da estação. Devido a ser mais alta que as senhorinhas, esticou a ponta dos pés, tentando entender o que era tão vantajoso para que aquelas idosas estivessem se espremendo. Não entendia também porque elas queriam tanto aquelas frutas e perdiam tanto tempo comparando-as. Aos seus olhos, eram todas boas frutas. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Dia</span></div>
<br />
Ultimamente, Dia sentia que lhe faltava tempo para relaxar. Tinha passado por diversas experiências desagradáveis, a começar pelo inquilino com quem brigava o tempo todo, depois as tragédias familiares, e por fim, o emprego em Limoges Collet que sempre gerava pequenos estresses, ainda mais quando tinham coisas acontecendo com os Blanco, que era quando as fofocas rolavam.<br />
<br />
Por isso, naquele dia, tinha ido ao mercado determinada a comprar comida para uma boa tarde para relaxar. Isso exigia ingredientes frescos para um almoço gostoso e frutas para vários drinks que poderia beber enquanto assistia uma maratona de Velozes e Furiosos que passaria na televisão. Claramente não pareciam os planos de uma dama delicada com uma blusa estampada e uma pantacourt de alfaiataria azul, carregando uma bolsa e uma cestinha. Mas tinha ido fazer compras de tênis – mesmo que brancos – então estava pronta para pisar em alguns pés.<br />
<br />
Tinha pego ingredientes para o almoço e uma garrafa de licor, mas ainda faltavam algumas frutas. Para sua sorte, estava na época de morangos, era óbvio que as velhinhas estavam em desespero atrás deles, amontoando a ilha e não deixando ninguém chegar perto. Dia certamente não estava com vontade de dar cotoveladas, então, lhe restava usar estratégia.<br />
<br />
Notou uma mulher de cabelos azul claro olhando para os morangos também, e então se aproximou, sem reconhecer inicialmente quem era.<br />
<br />
- Minha nossa!! Como assim promoção relâmpago de papel higiênico?? Dois pacotes por 5 euros?? Eu vou lá agora! E as uvas, ein? Acabaram de chegar?? – Dia falou, alto próximo ao amontoado de mulheres, umas que imediatamente pararam o alvoroço nas frutas e levantaram a cabeça para olhar em volta, se afastando, até que sobrou espaço o suficiente para que coubessem tanto Dia quanto a mulher ali para escolher alguns morangos. – Ah. Você... é a doutora que atendeu meu sobrinho. Um menino que queimou as mãos. – ela exclamou surpresa, notando o rosto da mulher quando finalmente andou até os morangos. – Ou melhor, se quiser morangos, pegue agora, antes que elas voltem das promoções fake. – Dia falou, pegando um par de caixinhas e colocando na sacola rapidamente.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Voltou os olhos para a dona da voz feminina que anunciava a promoção relâmpago de papel higiênico, imaginando se, agora, aquele estabelecimento estava pagando mulheres para avisarem dos produtos mais em conta. Arqueou uma sobrancelha ao observar as senhorinhas partindo na velocidade que o corpo delas permitia para não perderem a tal promoção, finalmente permitindo, então, que chegasse aos morangos que desejava. Pegou uma caixinha, satisfeita, com um sorriso nos lábios, até ter sua atenção roubada mais uma vez pela dona daquela voz feminina. <br />
<br />
- Ah…- abriu a boca, pronta para responder a mulher, fechando-a logo em seguida quando se recordou quem era o sobrinho dela e da peculiaridade do caso em questão. Ela era de uma família importante, não era? Pressionou os lábios, forçando um sorriso e agradecendo mentalmente que ela ainda lhe dizia para aproveitar e levar os morangos que queria. - C-Claro. Haha. A senhora é a madame… Blanco, não é? - riu baixo, dando espaço para que as outras pessoas ali presentes também se servissem das frutas em oferta. <br />
<br />
Esperou que ela escolhesse as caixas que iria levar e ficou em silêncio, observando a atitude da mulher ao ser relembrada. Tinha uma boa memória e o caso do sobrinho da mulher não era comum, então, apesar da aparência mais comum dela, não era difícil de recordar o nome da morena junto a de um sujeito peculiar na ficha de cadastro do rapaz Blanco mais jovem. <br />
<br />
- Eu nunca imaginei que a senhora faria compras pessoalmente no mercado. - sorriu mais amigável. Piscou algumas vezes, recordando da figura do loiro mais alto que parecia discutir com ela na sala de espera. - Aquele seu namorado está bem? Ele parecia bem nervoso lá no hospital. - jogou verde para colher maduro. A mulher era uma gracinha, não lhe custava nada saber se o loirinho iria aparecer atrás de alguma prateleira para entortar seu braço e afastá-la da morena. Era sempre melhor se garantir primeiro. Já tinha bastante experiência com gigantes de semblante assassino por uma vida. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Dia</span></div>
<br />
Bem lembrava que tinha sido bem rude naquele dia em que Renaud tinha ido até o hospital. Ainda não tinha certeza se a doutora era muito intrometida, ou se era o trabalho dela fazer todas aquelas perguntas desnecessárias, mas ao menos ela tinha tratado seu sobrinho. Não custava fazer uma gentileza. Nesse caso, liberar espaço para ela pegar alguns morangos numa ilha de supermercado.<br />
<br />
- Mademoiselle Blanco. Madame é minha mãe, prefiro que não confunda. – falou de um jeito muito pontuado, embora logo em seguida tenha devolvido um sorriso breve ao rosto. – Perdão. É a segunda vez que sou rude com você, doutora. No dia em que meu sobrinho foi internado, lembro de ter sido um pouco grosseira. Espero que me perdoe, os ânimos estavam exaltados naquele dia. Obrigada pelo cuidado com Renaud.<br />
<br />
Dia tentou fazer um pouco de conversa casual apenas porque estava entediada, e ainda tinha uma fila de caixa para enfrentar. Não custava aproveitar para agradecer os cuidados ao sobrinho. Porém, começava a achar que a doutora de fato era meio intrometida, ou não tinha papas na língua. Acabou rindo discretamente.<br />
<br />
- Meu sobrenome cria expectativas, mas sou só uma professora que faz compras e carrega sacolas por conta própria. – comentou de volta, mas logo, a conversa com a médica lhe fez disfarçar menos a cara de desgosto quando um arrepio percorreu sua nuca, sendo chamada de “namorada” de Wilbert. – Mon dieu, não! Ele é um conhecido, não namorado. Preferia que nem conhecido fosse, para ser sincera. Ele era professor de St. Clavier. Se estava nervoso era porque ia perder o emprego depois de Renaud se acidentar na aula dele. – Dia comentou, com um leve ar de vingada.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Sorriu um pouco sem graça ao conversar com a mulher, sentindo que o humor dela parecia oscilar entre o educada sorridente e o ofendida nervosa. Concordou com um aceno positivo de cabeça ao ser repreendida por chamá-la de “senhora”. Imaginou se ela tinha algum problema em ser considerada mais velha do que realmente era. Meneou a mão em negação quando ela lhe pediu desculpas pela grosseria no hospital. Sonhava que todas as pessoas que eram familiares ou conhecidos de seus pacientes mais “ilíticos” fossem grosseiros como ela. <br />
<br />
Pensou em se despedir depois dela ter lhe agradecido pelo cuidado com o sobrinho, mas observou a risada discreta e mudou de ideia, sorrindo de volta para a morena de ar comum. Ficou mais aliviada por ela não ser nenhuma dondoca metida a besta, terminando por fantasiar em sua cabeça um plot de romance investigativo breve em que a mulher deveria ser a filha bastarda da família e por isso vivia uma vida simples longe dos holofotes que seu sobrenome carregava. <br />
<br />
Segurou a própria cestinha de compras contra o próprio corpo quando a mulher lhe corrigiu sobre o homem não ser namorado dela. Sorriu ainda que intimidada pelo gênio da mulher, animada com a ideia de que ela talvez não tivesse um namorado. Bem, ela era uma professora e o sujeito era um professor demitido, imaginou ainda na história fantástica sobre a filha bastarda da família Blanco, se ela não teria mexido os pauzinhos para demiti-lo e se tudo aquilo não era um plano, talvez pelo sujeito ser alguém que a ameaçava ou uma ameaça para a carreira dela. Foi então que lhe veio a pergunta: <br />
<br />
- Mas a mademoiselle é professora de quê? - perguntou finalmente, passando a língua pelos lábios ao retornar a falar: - Talvez a mademoiselle seja professora de química. - enfatizou, arqueando as sobrancelhas descaradamente antes de se dar conta de que estava falando com uma Blanco, ainda que fosse uma bastarda. - Ah, perdão, perdão. Força do hábito. - riu um pouco sem graça, seguindo a morena com uma distância segura entre ambas, evitando invadir o espaço da mulher. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Dia</span></div>
<br />
Não sabia o que percorria na cabecinha da mulher toda vez que ela olhava para si, mas sentia que ela estava tecendo teorias sobre tudo que tinha acontecido naquele dia do hospital. O olhar da médica era bem analítico, embora a atitude em si parecesse bem relaxada. Talvez isso confirmasse a sua teoria de que ela era só intrometida.<br />
<br />
Até ia responder do que era professora, mas junto da pergunta, ouviu um comentário seguido de um erguer de sobrancelhas que parecia o tipo de cantada que ouviria do palhaço da classe, se tivesse estudado em um colégio misto ao invés de Limoges Collet. Apesar da breve expressão surpresa encarando a médica, Dia logo abriu um sorriso com os lábios cerrados e ergueu uma sobrancelha.<br />
<br />
- Se isso foi uma cantada, doutora, foi um pouco básica. – respondeu, notando que ela mantinha uma distância amigável, sem invadir demais o seu espaço. Apreciava isso. – Não, sou professora de Economia Doméstica. A aula é mais interessante que o nome, acredite. – explicou, então parecendo surpresa consigo mesma. – Ah, e os meus modos? O seu nome, doutora? Só percebi agora, você lembra meu nome do hospital, mas eu não lembro o seu e não perguntei. Perdão.  <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Sorriu mais abertamente ao ser repreendida, piscando algumas vezes em surpresa quando ela, finalmente, perguntou seu nome. Afastou alguns fios claros de seu cabelo para trás da orelha, recordando como seu sobrenome era complicado para algumas pessoas na França. <br />
<br />
- Arlovskaya. Natalia Arlovskaya, mas pode me chamar por Natalia, a maioria dos meus pacientes prefere me chamar pelo nome. - explicou, dando uma olhada nem um pouco discreta no que ela estava comprando. - Mas você é uma professora de economia doméstica, não é? Isso quer dizer que sabe como preparar alguns pratos caseiros bem legais, não é? <br />
<br />
Levou a mão com as unhas bem feitas com esmalte nude para o próprio queixo, batendo nos lábios com o polegar como se estivesse pensando. Estalou os dedos, animada com a própria ideia repentina. <br />
<br />
- Olha só, por que não me agradece me mostrando que tipo de comida eu mesma possa fazer que não cause um incêndio na minha cozinha? - pediu sem nenhuma ressalva. Ela parecia estar de bom humor com aquela conversa, então achou de bom tom testar a sorte. Se falhasse, pelo menos havia conseguido bons morangos com a ajuda de uma morena gostosa. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Dia</span></div>
<br />
Arlovskaya certamente não era um nome que ouvia todos os dias. Não tinha nem certeza se conseguia pronunciar sem parecer meio boba. Ainda bem que ela parecia estar consciente que havia disparidades entre o nome dela e os fonemas franceses.<br />
<br />
- Natalia então. Não sei se consigo falar o seu sobrenome sem lhe ofender no processo. – Dia comentou de forma honesta, notando o olhar interessado da doutora em suas compras em seguida. Não era possível que ela fosse julgar até suas compras. Porém ela logo comentou de suas habilidades gastronômicas. – Oui, mademoiselle. Não faço coisas muito complexas, mas cozinhar? Sei sim.<br />
<br />
Só que a ideia repentina de Natalia não era nada menos que lhe fazer uma professora/chef pessoal naquele momento. Dia arqueou a sobrancelha e encarou a loira com os olhos azuis inflexíveis.<br />
<br />
- Mas já lhe agradeci, doutora. Além da conta do hospital e da satisfação de ter feito um bom trabalho, você precisa de outro agradecimento? – Dia perguntou com um ar educado, mas não sem humor. Era muito descaramento para que ela ficasse brava. – Não deveria ser você quem me agradece, já que sem mim, não teria nenhum morango na sua cestinha? Ah, sou a próxima. – ela falou, indo pagar as pequenas compras que tinha no caixa.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Cerrou os lábios, rindo pra dentro ao receber aquela resposta de morena. Prendeu a respiração, observando sua tentativa frustrada de prolongar aquela interação indo embora para pagar as próprias contas no caixa. Acabou por suspirar, conformada com a despedida da mulher, apenas acenando em resposta para que ela pudesse seguir o próprio caminho para o caixa.<br />
<br />
Encarou os morangos bonitos em seus itens e sorriu mais animada, escolhendo dar meia volta para comprar uma latinha de chantilly para que pudesse aproveitar melhor aquelas frutinhas apetitosas. Ao menos a morena tinha razão que havia conseguido comprar aqueles moranguinhos bonitos através da intervenção, ainda que não intencional, dela. <br />
<br />
Estava acostumada com aqueles foras e ser dispensada pelas mulheres que encontrava no decorrer do seu dia, principalmente as mais bonitas e charmosas como a morena. Mas talvez estivesse saindo demais com seu amigo beato de Igreja para pensar que aquilo poderia ter sido um livramento divino. Com certeza, se envolver com alguém daquela família de Cerise não deveria ser nada “divertido” para sua estadia na cidade. <br />
<br />
[thread encerrada?]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Depois de tudo o que havia acontecido nos últimos meses, havia terminado com um perfil mais discreto, optando por diminuir suas saídas noturnas e visitas aos clientes alternativos, atendendo apenas em questões emergenciais. Saiu depois de atender alguns pacientes no hospital geral de Cerise e acabou por passar no mercado para tentar comprar alguns vegetais. Não queria dar o braço a torcer, mas sabia que o sujeito grandão e de poucas palavras até que tinha um pouco de razão ao lhe julgar por seus hábitos alimentares. E, após tentar xavecar uma das novas enfermeiras do hospital, acabou recebendo de brinde uma receita para sopa de legumes que talvez fosse fácil demais para alguém como ela conseguir errar. <br />
<br />
Abriu a tela do próprio celular, verificando a lista de itens, adicionando um pote de sorvete de creme em sua cestinha de compras como uma sobremesa merecida para os dias quentes. Estava usando uma regata branca por baixo do blazer do conjunto bege. O cabelo retocado de um azul pastel preso em um coque alto e os brincos dourados em argolas finas nas orelhas. Estava com um par de sapatilhas confortáveis brancas, a bolsa, também branca, era carregada em seu ombro, sem parecer pesar muito. <br />
<br />
Estava presa em seu próprio mundinho, atravessando uma ilha de frutinhas da época quando ouviu algumas senhoras passando e comentando sobre como estavam na época de morangos. Teve a ideia de comprar alguns já que estava levando o sorvete de creme. Bem, ninguém poderia lhe julgar e dizer que não estava pensando em comer frutinhas saudáveis. Guardou o celular no bolso, avistando algumas mulheres amontoadas próximas ao que parecia ser o anúncio do supermercado de uma promoção de frutas da estação. Devido a ser mais alta que as senhorinhas, esticou a ponta dos pés, tentando entender o que era tão vantajoso para que aquelas idosas estivessem se espremendo. Não entendia também porque elas queriam tanto aquelas frutas e perdiam tanto tempo comparando-as. Aos seus olhos, eram todas boas frutas. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Dia</span></div>
<br />
Ultimamente, Dia sentia que lhe faltava tempo para relaxar. Tinha passado por diversas experiências desagradáveis, a começar pelo inquilino com quem brigava o tempo todo, depois as tragédias familiares, e por fim, o emprego em Limoges Collet que sempre gerava pequenos estresses, ainda mais quando tinham coisas acontecendo com os Blanco, que era quando as fofocas rolavam.<br />
<br />
Por isso, naquele dia, tinha ido ao mercado determinada a comprar comida para uma boa tarde para relaxar. Isso exigia ingredientes frescos para um almoço gostoso e frutas para vários drinks que poderia beber enquanto assistia uma maratona de Velozes e Furiosos que passaria na televisão. Claramente não pareciam os planos de uma dama delicada com uma blusa estampada e uma pantacourt de alfaiataria azul, carregando uma bolsa e uma cestinha. Mas tinha ido fazer compras de tênis – mesmo que brancos – então estava pronta para pisar em alguns pés.<br />
<br />
Tinha pego ingredientes para o almoço e uma garrafa de licor, mas ainda faltavam algumas frutas. Para sua sorte, estava na época de morangos, era óbvio que as velhinhas estavam em desespero atrás deles, amontoando a ilha e não deixando ninguém chegar perto. Dia certamente não estava com vontade de dar cotoveladas, então, lhe restava usar estratégia.<br />
<br />
Notou uma mulher de cabelos azul claro olhando para os morangos também, e então se aproximou, sem reconhecer inicialmente quem era.<br />
<br />
- Minha nossa!! Como assim promoção relâmpago de papel higiênico?? Dois pacotes por 5 euros?? Eu vou lá agora! E as uvas, ein? Acabaram de chegar?? – Dia falou, alto próximo ao amontoado de mulheres, umas que imediatamente pararam o alvoroço nas frutas e levantaram a cabeça para olhar em volta, se afastando, até que sobrou espaço o suficiente para que coubessem tanto Dia quanto a mulher ali para escolher alguns morangos. – Ah. Você... é a doutora que atendeu meu sobrinho. Um menino que queimou as mãos. – ela exclamou surpresa, notando o rosto da mulher quando finalmente andou até os morangos. – Ou melhor, se quiser morangos, pegue agora, antes que elas voltem das promoções fake. – Dia falou, pegando um par de caixinhas e colocando na sacola rapidamente.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Voltou os olhos para a dona da voz feminina que anunciava a promoção relâmpago de papel higiênico, imaginando se, agora, aquele estabelecimento estava pagando mulheres para avisarem dos produtos mais em conta. Arqueou uma sobrancelha ao observar as senhorinhas partindo na velocidade que o corpo delas permitia para não perderem a tal promoção, finalmente permitindo, então, que chegasse aos morangos que desejava. Pegou uma caixinha, satisfeita, com um sorriso nos lábios, até ter sua atenção roubada mais uma vez pela dona daquela voz feminina. <br />
<br />
- Ah…- abriu a boca, pronta para responder a mulher, fechando-a logo em seguida quando se recordou quem era o sobrinho dela e da peculiaridade do caso em questão. Ela era de uma família importante, não era? Pressionou os lábios, forçando um sorriso e agradecendo mentalmente que ela ainda lhe dizia para aproveitar e levar os morangos que queria. - C-Claro. Haha. A senhora é a madame… Blanco, não é? - riu baixo, dando espaço para que as outras pessoas ali presentes também se servissem das frutas em oferta. <br />
<br />
Esperou que ela escolhesse as caixas que iria levar e ficou em silêncio, observando a atitude da mulher ao ser relembrada. Tinha uma boa memória e o caso do sobrinho da mulher não era comum, então, apesar da aparência mais comum dela, não era difícil de recordar o nome da morena junto a de um sujeito peculiar na ficha de cadastro do rapaz Blanco mais jovem. <br />
<br />
- Eu nunca imaginei que a senhora faria compras pessoalmente no mercado. - sorriu mais amigável. Piscou algumas vezes, recordando da figura do loiro mais alto que parecia discutir com ela na sala de espera. - Aquele seu namorado está bem? Ele parecia bem nervoso lá no hospital. - jogou verde para colher maduro. A mulher era uma gracinha, não lhe custava nada saber se o loirinho iria aparecer atrás de alguma prateleira para entortar seu braço e afastá-la da morena. Era sempre melhor se garantir primeiro. Já tinha bastante experiência com gigantes de semblante assassino por uma vida. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Dia</span></div>
<br />
Bem lembrava que tinha sido bem rude naquele dia em que Renaud tinha ido até o hospital. Ainda não tinha certeza se a doutora era muito intrometida, ou se era o trabalho dela fazer todas aquelas perguntas desnecessárias, mas ao menos ela tinha tratado seu sobrinho. Não custava fazer uma gentileza. Nesse caso, liberar espaço para ela pegar alguns morangos numa ilha de supermercado.<br />
<br />
- Mademoiselle Blanco. Madame é minha mãe, prefiro que não confunda. – falou de um jeito muito pontuado, embora logo em seguida tenha devolvido um sorriso breve ao rosto. – Perdão. É a segunda vez que sou rude com você, doutora. No dia em que meu sobrinho foi internado, lembro de ter sido um pouco grosseira. Espero que me perdoe, os ânimos estavam exaltados naquele dia. Obrigada pelo cuidado com Renaud.<br />
<br />
Dia tentou fazer um pouco de conversa casual apenas porque estava entediada, e ainda tinha uma fila de caixa para enfrentar. Não custava aproveitar para agradecer os cuidados ao sobrinho. Porém, começava a achar que a doutora de fato era meio intrometida, ou não tinha papas na língua. Acabou rindo discretamente.<br />
<br />
- Meu sobrenome cria expectativas, mas sou só uma professora que faz compras e carrega sacolas por conta própria. – comentou de volta, mas logo, a conversa com a médica lhe fez disfarçar menos a cara de desgosto quando um arrepio percorreu sua nuca, sendo chamada de “namorada” de Wilbert. – Mon dieu, não! Ele é um conhecido, não namorado. Preferia que nem conhecido fosse, para ser sincera. Ele era professor de St. Clavier. Se estava nervoso era porque ia perder o emprego depois de Renaud se acidentar na aula dele. – Dia comentou, com um leve ar de vingada.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Sorriu um pouco sem graça ao conversar com a mulher, sentindo que o humor dela parecia oscilar entre o educada sorridente e o ofendida nervosa. Concordou com um aceno positivo de cabeça ao ser repreendida por chamá-la de “senhora”. Imaginou se ela tinha algum problema em ser considerada mais velha do que realmente era. Meneou a mão em negação quando ela lhe pediu desculpas pela grosseria no hospital. Sonhava que todas as pessoas que eram familiares ou conhecidos de seus pacientes mais “ilíticos” fossem grosseiros como ela. <br />
<br />
Pensou em se despedir depois dela ter lhe agradecido pelo cuidado com o sobrinho, mas observou a risada discreta e mudou de ideia, sorrindo de volta para a morena de ar comum. Ficou mais aliviada por ela não ser nenhuma dondoca metida a besta, terminando por fantasiar em sua cabeça um plot de romance investigativo breve em que a mulher deveria ser a filha bastarda da família e por isso vivia uma vida simples longe dos holofotes que seu sobrenome carregava. <br />
<br />
Segurou a própria cestinha de compras contra o próprio corpo quando a mulher lhe corrigiu sobre o homem não ser namorado dela. Sorriu ainda que intimidada pelo gênio da mulher, animada com a ideia de que ela talvez não tivesse um namorado. Bem, ela era uma professora e o sujeito era um professor demitido, imaginou ainda na história fantástica sobre a filha bastarda da família Blanco, se ela não teria mexido os pauzinhos para demiti-lo e se tudo aquilo não era um plano, talvez pelo sujeito ser alguém que a ameaçava ou uma ameaça para a carreira dela. Foi então que lhe veio a pergunta: <br />
<br />
- Mas a mademoiselle é professora de quê? - perguntou finalmente, passando a língua pelos lábios ao retornar a falar: - Talvez a mademoiselle seja professora de química. - enfatizou, arqueando as sobrancelhas descaradamente antes de se dar conta de que estava falando com uma Blanco, ainda que fosse uma bastarda. - Ah, perdão, perdão. Força do hábito. - riu um pouco sem graça, seguindo a morena com uma distância segura entre ambas, evitando invadir o espaço da mulher. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Dia</span></div>
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Não sabia o que percorria na cabecinha da mulher toda vez que ela olhava para si, mas sentia que ela estava tecendo teorias sobre tudo que tinha acontecido naquele dia do hospital. O olhar da médica era bem analítico, embora a atitude em si parecesse bem relaxada. Talvez isso confirmasse a sua teoria de que ela era só intrometida.<br />
<br />
Até ia responder do que era professora, mas junto da pergunta, ouviu um comentário seguido de um erguer de sobrancelhas que parecia o tipo de cantada que ouviria do palhaço da classe, se tivesse estudado em um colégio misto ao invés de Limoges Collet. Apesar da breve expressão surpresa encarando a médica, Dia logo abriu um sorriso com os lábios cerrados e ergueu uma sobrancelha.<br />
<br />
- Se isso foi uma cantada, doutora, foi um pouco básica. – respondeu, notando que ela mantinha uma distância amigável, sem invadir demais o seu espaço. Apreciava isso. – Não, sou professora de Economia Doméstica. A aula é mais interessante que o nome, acredite. – explicou, então parecendo surpresa consigo mesma. – Ah, e os meus modos? O seu nome, doutora? Só percebi agora, você lembra meu nome do hospital, mas eu não lembro o seu e não perguntei. Perdão.  <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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Sorriu mais abertamente ao ser repreendida, piscando algumas vezes em surpresa quando ela, finalmente, perguntou seu nome. Afastou alguns fios claros de seu cabelo para trás da orelha, recordando como seu sobrenome era complicado para algumas pessoas na França. <br />
<br />
- Arlovskaya. Natalia Arlovskaya, mas pode me chamar por Natalia, a maioria dos meus pacientes prefere me chamar pelo nome. - explicou, dando uma olhada nem um pouco discreta no que ela estava comprando. - Mas você é uma professora de economia doméstica, não é? Isso quer dizer que sabe como preparar alguns pratos caseiros bem legais, não é? <br />
<br />
Levou a mão com as unhas bem feitas com esmalte nude para o próprio queixo, batendo nos lábios com o polegar como se estivesse pensando. Estalou os dedos, animada com a própria ideia repentina. <br />
<br />
- Olha só, por que não me agradece me mostrando que tipo de comida eu mesma possa fazer que não cause um incêndio na minha cozinha? - pediu sem nenhuma ressalva. Ela parecia estar de bom humor com aquela conversa, então achou de bom tom testar a sorte. Se falhasse, pelo menos havia conseguido bons morangos com a ajuda de uma morena gostosa. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Dia</span></div>
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Arlovskaya certamente não era um nome que ouvia todos os dias. Não tinha nem certeza se conseguia pronunciar sem parecer meio boba. Ainda bem que ela parecia estar consciente que havia disparidades entre o nome dela e os fonemas franceses.<br />
<br />
- Natalia então. Não sei se consigo falar o seu sobrenome sem lhe ofender no processo. – Dia comentou de forma honesta, notando o olhar interessado da doutora em suas compras em seguida. Não era possível que ela fosse julgar até suas compras. Porém ela logo comentou de suas habilidades gastronômicas. – Oui, mademoiselle. Não faço coisas muito complexas, mas cozinhar? Sei sim.<br />
<br />
Só que a ideia repentina de Natalia não era nada menos que lhe fazer uma professora/chef pessoal naquele momento. Dia arqueou a sobrancelha e encarou a loira com os olhos azuis inflexíveis.<br />
<br />
- Mas já lhe agradeci, doutora. Além da conta do hospital e da satisfação de ter feito um bom trabalho, você precisa de outro agradecimento? – Dia perguntou com um ar educado, mas não sem humor. Era muito descaramento para que ela ficasse brava. – Não deveria ser você quem me agradece, já que sem mim, não teria nenhum morango na sua cestinha? Ah, sou a próxima. – ela falou, indo pagar as pequenas compras que tinha no caixa.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Cerrou os lábios, rindo pra dentro ao receber aquela resposta de morena. Prendeu a respiração, observando sua tentativa frustrada de prolongar aquela interação indo embora para pagar as próprias contas no caixa. Acabou por suspirar, conformada com a despedida da mulher, apenas acenando em resposta para que ela pudesse seguir o próprio caminho para o caixa.<br />
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Encarou os morangos bonitos em seus itens e sorriu mais animada, escolhendo dar meia volta para comprar uma latinha de chantilly para que pudesse aproveitar melhor aquelas frutinhas apetitosas. Ao menos a morena tinha razão que havia conseguido comprar aqueles moranguinhos bonitos através da intervenção, ainda que não intencional, dela. <br />
<br />
Estava acostumada com aqueles foras e ser dispensada pelas mulheres que encontrava no decorrer do seu dia, principalmente as mais bonitas e charmosas como a morena. Mas talvez estivesse saindo demais com seu amigo beato de Igreja para pensar que aquilo poderia ter sido um livramento divino. Com certeza, se envolver com alguém daquela família de Cerise não deveria ser nada “divertido” para sua estadia na cidade. <br />
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[thread encerrada?]]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[[Drive] There and Back Again [Diodoro; Natalia]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=291</link>
			<pubDate>Sun, 26 Sep 2021 17:44:53 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=3">Lil</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=291</guid>
			<description><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Diodoro levou a mão até a testa. Tinha voltado quase no fim da tarde do velório organizado para uma senhora cujo marido tinha falecido. Depois de dar uma volta na cidade com o homem que transportava os cadáveres até a funerária, deixando o defunto no crematório, teve que sentar atrás de sua mesa para organizar umas documentações atrasadas. Geralmente pedia para sua irmã ajudar nesses casos, mas já tinha um tempo que deixava Brigida resolver tudo de casa e trabalhar vendendo planos funerais, afinal, quase sempre estava na funerária recebendo os defuntos e ocasionalmente a gama de amigos estranhos que tinha adquirido ao longo daquele tempo.<br />
<br />
Miro já tinha ido fazer sua ronda no cemitério, e tinha jogado uma lagartixa morta nos seus pés, basicamente lhe chamando de incompetente, mas nem teve tempo de agradecer o presente e jogar o bichinho fora, com tanta coisa para fazer. Só o que conseguia pensar é que depois de tanto tempo preenchendo documentos, estava faminto demais para pensar. Na verdade, até pensou, mas não pensou em nada bom (como se algo de bom corresse em sua mente). Naquele momento de fome lembrou de Natália, que provavelmente seria gentil de lhe acompanhar para um hambúrguer se estivesse livre no hospital. Não tinha notícias dela há mais tempo do que de Karen, por exemplo.<br />
<br />
Acabou deixando o trabalho de lado para limpar a funerária, triste que não via a amiga há muito tempo. Talvez não visse mais. E de certa forma, essa era uma triste perda.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Estava exausta de toda a situação dos últimos meses. Do medo de ser encontrada pelo sujeito que havia ajudado a encontrar, da polícia lhe colocar atrás das grades se descobrissem no que estava metida, de seus clientes perderem a confiança no seu trabalho, de não conseguir mais trabalhar como uma médica no Hospital Geral de Cerise ou, pior ainda, não poder mais trabalhar como médica. Havia trocado de apartamento novamente e sequer havia se dado ao trabalho de arrumar todas as caixas de seus pertences. Havia se abarrotado de trabalho no hospital para tentar não ficar tão ansiosa com as incertezas de estar “presa” à Cerise naquele momento. Ao menos no hospital tinha uma maior sensação de controle. O ponto ruim: a comida era horrível para o seu paladar. <br />
<br />
Saiu de mais um plantão e deixou o veículo no estacionamento do hospital juntamente com seu celular, escolhendo usar o transporte público sem seus aparelhos, queria poder deixar a sensação de que poderia ser chamada pelo aparelho por algum de seus contatos ou pela polícia a qualquer momento por um momento e esfriar a cabeça. Desceu no ponto de ônibus mais próximo da funerária da família Leoni e seguiu andando até encontrar a entrada do estabelecimento. Podia agradecer a sua perfeita memória e prontidão ao fazer questão de memorizar todas as rotas possíveis para aquele lugar. Buscou o celular por reflexo para conferir o horário, mas acabou especulando que deveria ser mais tarde pelo lugar parecer fechado. Arrumou os cabelos atrás da orelha, os fios voltando ao loiro platinado original por sua falta de interesse momentâneo em mantê-los na coloração azulada, esta presente agora mais próxima das pontas. Estava com seus sapatos em que havia deixado o hospital, o salto médio, um conjunto bege de tecido mais leve e uma camisa preta. Pensou alguns instantes antes de pressionar a campainha do lugar, imaginando se alguém ainda estaria ali naquele horário. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Entre a pilha de papéis na qual trabalhava antes, a vassoura, a fome e o roçar do gato na sua perna, ficava difícil saber se estava ouvindo coisas ou se de fato tinham apertado a campainha. O local estava claramente fechado a essa hora, exceto pela luz da recepção acesa, já que ainda estava ali, fazendo uma limpeza rápida. O fato de terem apertado mesmo assim para serem atendidos levou Diodoro a pensar se a visita não era algum dos seus conhecidos: ou Karen, que teria ido até ali para tirar um cochilo, ou Hanna, que seria mais provável entrar pela porta da frente. Mas ainda era cedo demais para qualquer um dos dois.<br />
<br />
Largou a vassoura um instante e foi até a parte de trás olhar o monitor de segurança que tinham instalado depois daquele incidente infeliz da cicatriz, e para sua surpresa, havia uma mulher na porta que não era Hanna, e nem Brigida, e nem Filippa.<br />
<br />
Diodoro apressou o passo até a porta e então, abriu de súbito, encarando Natalia – de todas as pessoas – como se tivesse visto um espírito. Estendeu a mão para segurar o pulso dela, puxando-a para dentro e fechando a porta em seguida, antes que alguém decidisse aparecer e achar que estavam abertos para trabalho de fato.<br />
<br />
O agente funerário não pode evitar senão de abrir um sorriso suave com os lábios cerrados, vendo que era ela mesma ali.<br />
<br />
- Pensei em hambúrguer. – disse, então levando uma mão enluvada a testa, o semblante cansado como sempre, não fosse pela suavidade do sorriso ainda nos lábios. – Em você.   <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Pensou que talvez estivesse de fato correta sobre ninguém estar ali naquele horário, mas podia notar a luz acesa da recepção o que só poderia indicar uma coisa: alguém ainda deveria estar fechando o horário de trabalho. Por isso, resolveu insistir na campainha, imaginando se não seria Brigida ali enquanto o agente fúnebre não estaria descansando no apartamento dele. O sujeito sempre parecia estar precisando de um descanso, afinal. Olhou ao seu redor para se certificar de que não havia sido seguida ou que não havia nenhum transeunte na rua ainda naquele horário quando ouviu o ruído da porta sendo aberta de supetão. Levou um dos braços a frente do próprio corpo na defensiva, esboçando uma expressão de surpresa ao encontrar Diodoro Leoni a sua frente. Já estava baixando o braço e esboçando um sorriso para responder à recepção do outro quando sentiu o puxão em seu pulso para que entrasse na funerária. <br />
<br />
- …! - ficou sem reação com a ação mais impulsiva do outro, ainda mais ao acompanhar com o olhar ele fechando a porta por onde havia acabado de entrar. Encarou o sorriso no rosto alheio e fechou a própria boca, ouvindo as palavras de reencontro sobre hambúrguer e sobre si. <br />
<br />
Por um momento, sentiu os ombros relaxando com a ideia de estar ali finalmente e de poder reencontrar Diodoro, ver que ele estava bem e que também parecia esperar por sua presença. Era uma sensação agradável e calorosa, como se estar ali lhe trouxesse a lembrança de um dia ter alguém lhe esperando e preocupado com seu bem estar. Sorriu de volta para ele, sequer notando o rubor que tomava sua face enquanto começava a rir. <br />
<br />
- Você tem que aceitar o que é perfeito, Diodoro! - riu ao usar a frase que ele mesmo destacou um dia ao saírem para comer juntos. Estendeu a mão livre para afastar a dele da testa, encarando-o com um sorriso de contentamento no rosto. Aproximou-se, cortando a distância entre ambos para poder abraçar o moreno, apertando-o com força para que ele se certificasse que estava ali de fato. Demorou alguns minutos, apreciando o contato ainda que ele pudesse se sentir desconfortável. A verdade é que também queria ter certeza de que nada havia acontecido com o sujeito em seu tempo ausente. - Se um fantasma tem esse tipo de força, a gente chama a Igreja para exorcizar? - não conseguiu evitar a brincadeira, falando com o rosto contra o ombro do outro.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Quando Natalia começou a relaxar do susto de ter sido puxada para dentro da funerária daquela forma - o que admitia não ter sido a melhor ideia do mundo, considerando que ela tinha saído em fuga dali da última vez -, pode notar que ela estava mesmo bem, e ali. Viu o corpo dela relaxar aos poucos e se sentiu igualmente mais aliviado com a presença da mulher ali. E o riso com a piada feita com suas palavras antigas acabou lhe arrancando um sorriso suave antes que percebesse.<br />
<br />
Só não esperava o abraço apertado, tanto que ficou um tempo com os braços abertos sem saber o que fazer, mas sentindo o calor e carinho da amiga, devolvida a ele inteira, abraçou Natalia de volta, embora sem a mesma força que ela tinha. Se sentia um pouco nervoso no abraço, mas se sentia bem.<br />
<br />
- Eu deixo assombrar. - Diodoro respondeu calmamente, soltando um longo suspiro, afastando-se um pouco de Natalia para encará-la, aquecendo os braços da mulher com as mãos por um instante. - Mas melhor viva. Você não comprou plano funerário. - adicionou, rindo por um instante tão breve que a risada poderia ter sido uma alucinação da cabeça de Natalia. Mas de fato Diodoro estava parecendo bem feliz em vê-la. <br />
<br />
Convidou-a com a mão a entrar e se acomodar, indo até uma cafeteira no canto para pegar café para ela. Então não levou muito tempo para retomar o semblante sério costumeiro, entregando o café e sentando-se próximo dela em sua mesa de trabalho.<br />
<br />
- Pode contar…? - questionou, embora imaginasse que se ela não tinha dado detalhes anteriores, certamente não daria agora. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Foi pega de surpresa pelo riso de Diodoro, mas acabou sorrindo também por reflexo, rindo logo em seguida. Era bom demais poder estar de volta e ser recebida daquela forma pelo moreno. Sentiu-se confortável com as mãos, ainda que cobertas por aquelas luvas que mais pareciam fazer parte da pele do amigo, mantendo o contato consigo. Seguiu o sujeito, relaxando mais ainda quando ele lhe ofereceu a bebida quente, ainda que não gostasse tanto da cafeína. <br />
<br />
Sequer deu o primeiro gole e ouviu a pergunta de Diodoro, obviamente querendo saber sobre o que teria feito em seu período ausente. Usou a mão livre para apontar para o agente fúnebre, pensativa, antes de responder: <br />
<br />
- Vamos dizer que “temos um novo xerife na cidade”, está bem? Hm. - fez uma pausa, provando do café antes de continuar. - Viu o grandão por aí esses dias? - perguntou antes de continuar. - É bom ele tomar cuidado também. Eu estava certa. O cara não era qualquer um. - gesticulou, girando o indicador por sobre o ombro, indicando que estava falando do passado. - E não sendo qualquer um, não é qualquer cachorro que mandam para caçar um sujeito desses. - revirou os olhos, lembrando do sujeito que havia conhecido no hospital. - Urgh. Se encontrar com ele, pede pra ele tomar cuidado, por favor. Eu queria falar pessoalmente com ele, mas não estou podendo me dar ao luxo de procurá-lo diretamente no momento. - deu de ombros, pensativa. - E como você está? <br />
Bebeu um pouco mais do café, mexendo o copo plástico devagar para poder buscar se haveria pó no fundo. Só então lhe ocorreu o sentido do que o moreno havia lhe dito assim que o encontrou, e terminou por abafar o riso, divertindo-se. <br />
<br />
- Dio, você está com fome, não é? - encarou o sujeito, rindo abertamente. - Você pensa em mim quando está com fome, Dio?! É para eu me sentir feliz ou intrigada com isso? - brincou, apoiando o cotovelo sobre a mesa e a mão no rosto. - Desculpe, não resisti. - acenou, indicando para que ele falasse. - Mas me diz aí, como você está? Além de com fome, é claro. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Quando se tratava de dar detalhes da própria vida, Natalia era tão esclarecedora quanto o próprio Diodoro. Então podia assumir que havia alguém novo na cidade que era encrenca, e que não seria uma encrenca que passaria rápido. Não lhe afetava, mas afetava Natalia e afetava Karen. Mas sem saber dos detalhes, não tinha como repassar aquela informação. No máximo poderia dizer a ele que Natalia tinha alguma informação importante para ele, mas no mais, quanto menos soubesse, melhor seria. A única coisa que fez foi discordar que tinha visto o amigo recentemente.<br />
<br />
Concordou silenciosamente que ela não estava em posição de procurar Karen, achando até melhor que ela não fosse pelo simples fato de que ela sabia o que estava acontecendo e mal tinha voltado. Não queria que ela se escondesse de novo. Encarou Natalia quando ela questionou sobre como ele estava.<br />
<br />
Ia responder outra coisa, mas ela apontou sobre sua fome, que não era mentira. Concordou silenciosamente. Franziu a testa quando ela questionou se ele pensava nela quando estava com fome. Errado não estava, mas também não estava inteiramente certo.<br />
<br />
- Solitário. – respondeu sem hesitação, suspirando longamente em seguida. – E com fome. – adicionou, apoiando os dedos cruzados sobre a mesa, sentado em sua cadeira de um jeito cansado. – Por isso você. – explicou o motivo pelo qual estava pensando em Natalia. Então piscou algumas vezes, pensativo. – Quer jantar?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Levou o copo plástico de café aos lábios enquanto observava o amigo admitir que estava solitário. Solitário e com fome, seria uma boa descrição para o seu perfil se tivesse alguma conta em mídia social. Terminou de tomar seu café e deixou o copinho de lado, levantando-se de onde estava para poder se aproximar de Diodoro novamente. Estendeu a mão para os cabelos do moreno, afagando os fios mais curtos com um sorriso no rosto. <br />
<br />
- Awwn, com você? Sempre, meu bem. - riu baixinho, inclinando-se para poder beijar o topo da cabeça dele. - Ah, desculpe… - arrumou o cabelo do outro antes de se afastar, recordando-se que ele não era exatamente o tipo de cara que ficava confortável com tanto contato físico. - Vamos de hambúrguer? Eu estou sem carro hoje. Vamos de ônibus? <br />
<br />
Arrumou a própria bolsa, observando melhor o chão à procura do gatinho de Diodoro. Agachou-se em silêncio, chamando pelo animal, estava curiosa em também verificar como ele estava. <br />
<br />
- A gente também pode sair para experimentar alguma comida nova, se quiser. Quer ir em algum lugar novo? - perguntou, ainda procurando pelo gatinho. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Dificilmente esperava o toque de Natalia em seus cabelos, lhe afagando de um jeito que lhe fez franzir a testa imediatamente, porque seria daquela forma que seus irmãos mais velhos lhe tratariam, incluindo sua mãe com um beijo no topo da cabeça que pôs uma expressão ainda mais sombria no rosto cansado de Diodoro. Mas ele não se afastou, apenas encarando a loira de volta, afinal, não era como se ficasse realmente ofendido com o toque carinhoso dela. O olhar, entretanto, mudou completamente para um olhar de animação quando ela mesma que mencionou hambúrguer. E o agente funerário assentiu silenciosamente com a cabeça antes de se levantar, muito menos letárgico que antes.<br />
<br />
Natalia pareceu procurar Miro, o que provavelmente significava que ela logo veria a lagartixa morta embaixo de sua mesa e o gato, que estava passeando a esmo e tinha ido se esconder quando ela tinha chegado, mas agora olhava desconfiado da porta por trás do balcão. Ela sugeriu que poderiam ir de ônibus ou provar algo novo, mas honestamente preferia comer hambúrguer, por mais clichê que fosse.<br />
<br />
- Carteira. – falou, indo pegar a carteira para que saíssem para pegar o ônibus. Deixou o gato na funerária com água, comida e acesso ao cemitério e de volta por uma das janelas, o que daria a ele um modo de se entreter sem ir para casa naquela noite. O ponto de ônibus era próximo, e não demorou a passar um para o qual Diodoro deu a mão, sequer dizendo a Natalia para onde estavam indo.<br />
<br />
Chamou-a para lhe acompanhar, e sentou-se em um assento com espaço para ela. Mas a viagem foi curta, e algum tempo depois, ele chamou a loira para descer e um ponto próximo a alguns restaurantes, um deles que parecia servir diversos tipos de comidas rápidas, como saladas, hambúrgueres, batatas e outros lanches simples. Podia ter algo que ela gostasse ali também.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Seguiu o sujeito, animada com a ideia de que poderiam sair juntos mais uma vez para comer. Esperou que ele pegasse a própria carteira enquanto passava o tempo fazendo carinho em Miro, pouco se incomodando se o gatinho estava preguiçoso demais para lutar contra seus afagos na barriguinha dele. Caminhou juntamente com Diodoro, tomando o devido cuidado em evitar o olhar de outras pessoas enquanto andava com ele. Não ficou quieta, claro, desatando a falar sobre o próprio trabalho e como seus pacientes estavam no hospital. Falou sobre o cadeirante que deveria começar a fazer hemodiálise e sobre como a situação dele era um caso bastante peculiar. Falou sobre o caso da nova paciente que era uma gracinha de cabelos brancos e muito delicada. <br />
<br />
Sentou ao lado do moreno no ônibus, dando atenção a paisagem pelo trajeto breve que faziam. Continuou comentando sobre os ocorridos do hospital, dessa vez sobre a enfermeira ruivinha e a irmãzinha dela que viviam cuidando uma da outra. Comentou como gostava da criança por ela não parecer uma criança, mas que na verdade sabia como aquilo era algo anormal porque crianças deveriam se comportar como crianças. Desceu do ônibus e finalmente deu uma folga para as orelhas de Diodoro assim que seu olfato foi capturado pelo aroma doce e de frituras daquela região. <br />
<br />
Apertou a alça da bolsa contra o próprio estômago, mas se conteve, ainda que o brilho em seus olhos claros denunciasse todo o seu desejo por aquelas delícias de rua. Estava de olho especialmente na barraquinha de falafel e batatas. Segurou a barra da manga do casaco do outro, chamando-lhe a atenção. <br />
<br />
- Que tipo de hambúrguer vamos comer hoje? - perguntou, sendo educada com o sujeito que imaginava estar com mais fome que a sua figura naquele momento. Estava angustiada algumas horas atrás, mas poderia conter a sua própria fome por muito mais horas se fosse necessário. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Embora não fosse uma pessoa de muita conversa, não tinha nada contra ouvir as histórias de Natalia sobre o hospital. As dela certamente eram mais interessante que as dele, sobre os casos dos pacientes jovens, nenhum deles com nenhuma propensão a morrer em breve, e ficava feliz com isso. Além do que, achava muito nobre que ela vivia salvando vidas e ajudando os que precisavam, e embora soubesse que em sua profissão fazia o mesmo, o trabalho na funerária era bem mais sombrio.<br />
<br />
Diodoro também ouviu sobre a colega de trabalho de Natalia e a menina ruivinha que não parecia criança, e lembrou dos seus sobrinhos, afinal, eles eram crianças que se portavam como crianças, mas ela tinha sido até uma boa visita à sua casa, e talvez devesse chama-la mais vezes. Aproveitou e também falou que tinha contratado um funcionário novo para a funerária, claro que não tão explícito como ela, e sim, cortando a fala em vários pedacinhos, até formar uma informação difícil de decifrar.<br />
<br />
Quando desceram, notou que a atenção de Natalia ia para vários lugares que não pelo caminho, mas admitia que o cheiro das comidas naquela rua era muito bom. Notou como o olhar dela brilhava para uma barraca de falafel e batatas fritas, e embora não fosse o tradicional hambúrguer que tinha chamado ela para comer, ouviu a pergunta cheia de consideração dela, e foi impossível não ceder a vontade de Natalia.<br />
<br />
- Quer provar...? – falou, apontando para a barraca na qual ela tinha tomado interesse antes. – Comeria qualquer um. É mais... pela sua companhia. – explicou muito diretamente. Não era como se escondesse que gostava de estar com Natalia, quando já tinha chamado ela de amiga e ficado muito feliz com seu retorno. – Escolha.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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- Quero! - respondeu quase de imediato quando o sujeito perguntou, indicando justamente a barraquinha que havia chamado sua atenção. Sorriu animada com a ideia de comer algo gorduroso e gostoso com o moreno e não hesitou em lhe segurar a mão, convidando-o a lhe acompanhar enquanto fazia o pedido para a vendedora da barraquinha, pedindo uma porção de falafel com fritas. - Não se preocupe, ainda vou ter espaço para poder comer hambúrguer com você, Dio. <br />
<br />
Explicou para o amigo antes de soltar a mão dele para receber o pedido que havia feito, pagando pela comida com um grande sorriso de agradecimento no rosto. Deu a primeira mordida em um falafel, aproveitando da crosta de massa frita antes de arrumar o papel que envolvia seu pedido para oferecer o mesmo para Diodoro. <br />
<br />
- Aqui. Você deveria experimentar também. Tá muito bom. - continuou seguindo o amigo, voltando o pensamento e a memória impecável ao que ele havia comentado antes enquanto tagarelava sobre sua própria vida. - Por que contratou alguém novo? Quer dar mais tempo para sua irmã passar com os filhos? Ela parece ser uma boa mãe e os meninos parecem gostar de você. - comentou, ocupando a própria boca com algumas fritas, dando mais espaço para ouvir o outro dessa vez. Preocupava-se com a família do sujeito também, imaginava, portanto, que ele talvez ficasse preocupado com a irmã dele acabar se envolvendo demais com o trabalho da funerária e algum dia topar com um dos amigos mais perigosos dele. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
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A satisfação de Natalia de poderem ir até a barraquinha de falafel já valia sacrificar o seu possível hambúrguer. Não pôde protestar sobre ela lhe arrastar pela mão, e em um passo já estavam ali pedindo falafel e fritas. Até considerou que seria uma boa mudança, pois podia ver no cardápio um kebab que incluía carne e batata frita. Seria aquilo uma versão de hambúrguer que ainda não tinha provado?<br />
<br />
- Hm – Diodoro respondeu, não em descrença, mas ponderando se ele mesmo conseguiria comer muito mais coisas depois de comer as fritas com os falafel que a médica tinha acabado de pedir. Ao menos pelo que viu, era um pedido individual, e poderia provar antes de pensar se abdicaria da sua comida de segurança por isso. Bom, ao menos Natalia tinha gostado, isso era certo.<br />
<br />
Estendeu a mão para pegar uma bolinha de falafel, assoprando antes de levar até a boca. Era bem crocante, não tinha nada de carne e o tempero era forte. Não era nada que tivesse provado antes, porque não era exatamente aventureiro, mas foi óbvio quando suas sobrancelhas se ergueram em surpresa ao sabor da comida.<br />
<br />
- Hmm. – foi a única coisa que disse, os olhos claros divagando de volta para a barraca enquanto caminhavam, pensando se deveria voltar e pedir uma porção para si. Mas provavelmente preferia comer carne.<br />
<br />
Pediu dois hambúrgueres em outra barraca e puxou banquinhos para uma mesinha ao ar livre para esperar a comida. Pegou uma batata frita dela enquanto ela lhe questionava sobre o novo funcionário, negando com a cabeça para as suposições de Natalia.<br />
<br />
- Ele precisava. – Diodoro respondeu simplesmente, então supondo que não era bem uma explicação contratar alguém que precisava de um emprego. – Quebrou a perna. Demitiram ele. Aí contratei. – explicou melhor, embora estivesse incerto se era uma grande explicação.  <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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Ficou ainda mais animada ao assistir a disposição do moreno em apreciar a fritura que havia escolhido. Notou o olhar de quem parecia interessado com o falafel e apenas riu baixinho ao mastigar quieta. Diodoro conseguia ser bem óbvio no que desejava quando se tratava de comida. Agradeceu assim que conseguiram os banquinhos e a mesinha para aproveitarem do prato principal: hambúrgueres. <br />
<br />
Observou o sujeito, permanecendo quieta enquanto ele explicava sobre o novo empregado da funerária. Contudo, achou estranho o fato do sujeito ter sido contratado por ter quebrado a perna. Ou pelo menos era o que conseguia entender do discurso do amigo de poucas palavras. <br />
<br />
- Espera. - pediu para o moreno, chupando o óleo e os farelos do falafel dos próprios dedos antes de apontar para ele, indicando que prestasse atenção. - Você.  Você contratou um homem aleijado para poder trabalhar na funerária? E como foi que ele quebrou a perna? Uma pessoa com uma perna quebrada com deveria estar repousando e- Ahhhh! - fez um pequeno alarde, batendo a mão na mesinha e os pés no chão antes de empurrar de leve o ombro do moreno, terminando por apontar novamente para ele. - Você! Não me diga que você quebrou a perna dele e por isso se sentiu culpado e contratou ele!? Foi isso?! - questionou, interessada mais naquele novo funcionário agora com a ideia dele ter sido alguma vítima de Diodoro.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
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Natalia parecia muito interessada em seu novo funcionário. Mas até entendia. Nada de novo acontecia na funerária, exceto pessoas mortas chegando e saindo, o que não era exatamente um evento positivo. Ter outra pessoa trabalhando lá que não fosse sua irmã ocasionalmente intrometida na sua vida, ou que não fosse um criminoso, isso era novidade.<br />
<br />
Só foi obrigado a franzir a testa quando Natalia falou como se Xavier estivesse aleijado e fosse algo que demoraria a recuperar. Talvez tivesse pintado o quadro muito mais dramático do que era. Obviamente uma pessoa com a perna quebrada deveria estar repousando, mas a questão era que o rapaz não teve direito a isso no emprego anterior, e por isso foi demitido.<br />
<br />
Diodoro arregalou os olhos claros quando ela lhe acusou de ter sido o responsável por quebrar a perna do funcionário. Já não bastava a polícia achar que ele era um criminoso só por andar todo de preto e ter uma cicatriz gigante no rosto.<br />
<br />
- Não. Ele não queria repousar... então eu o fiz repousar. – Diodoro colocou com um olhar muito direto para Natalia, que se ela não o conhecesse, poderia pegar aquela explicação como se fosse uma confissão de assassinato. – Caiu na vala. No cemitério. – explicou mais claramente antes que ela achasse que o funcionário era um fantasma, no mau sentido. - ... Torceu o tornozelo. – Diodoro franziu a testa, supondo que suas explicações não eram melhores do que a de qualquer assassino profissional.<br />
<br />
O hambúrguer chegou nesse meio tempo, e Diodoro pegou primeiro o pão para dar uma mordida generosa.<br />
<br />
- Hmm. – mastigou, muito feliz, embora não demonstrasse quase nada no rosto. Ergueu o olhar para Natalia, um tanto intrigado com o fato dela achar que ele seria capaz de machucar alguém. – Pareço... um chefe ruim?<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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Riu abafada pelas batatas que acompanhavam seu falafel, ao ouvir que Diodoro havia “feito o sujeito descansar”. Procurou algum guardanapo para poder segurar melhor a comida entre os dedos, sujando os lábios com os farelos da fritura enquanto ouvia, interessada, sobre o novo empregado do amigo fúnebre. Porém, quando esperava que o outro fosse esclarecer a situação, ouviu a continuação da mesma sobre o estranho ter caído na vala. Engasgou, rindo e tossindo logo depois para tentar se recompor.  <br />
<br />
- Ele-ah-cofcof-torceu o tornozelo?! Cofcof - riu enquanto lágrimas se formavam em seus olhos pensando em como aquele cenário era cômico e trágico ao mesmo tempo. Encarou o hambúrguer com animação e logo pareceu parar de prestar atenção em Diodoro para começar a comer quando ouviu o questionamento sobre o moreno ser um “chefe ruim”. Parou o hambúrguer no meio do caminho para sua boca, encarando o sujeito com um ar mais pensativo. - Eu não acho que você parece um “chefe”, Dio. Tipo, um “boss”, sabe? - brincou, recordando um pouco do linguajar de alguns sujeitos periculosos que já havia encontrado em sua vida. - Mas definitivamente você não é uma pessoa ruim. <br />
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Começou a mastigar o hambúrguer, usando o polegar para limpar o canto dos lábios, evitando que o molho escolhido para a carne não escorresse. <br />
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- Esse cara te fez pensar isso? - questionou, uma sobrancelha arqueada e um ar um tanto desconfiada, até mesmo protetiva. - E como é que ele foi cair em uma vala no cemitério? Ele é adulto? Tipo adulto velho já? Ou é um pivete? Parece coisa daqueles jovens góticos de filmes trash de terror antigo esse negócio de ir para um cemitério se acidentar. - deu de ombros. - Sua família sabe que arrumou um empregado novo para a funerária? - resolveu perguntar, aproveitando para ouvir as explicações enquanto desfrutava de seu combinado de carne, pão e molhos.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
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Diodoro encarou ela de volta enquanto ouvia Natalia lhe definir como um “Boss”. Não sabia exatamente qual era a diferença entre os dois, mas se a mulher dizia que tinha uma, algo no seu coração dizia para não procurar saber. Era satisfatório o suficiente que ela não achasse que ele era uma pessoa ruim. Ao menos tinha a decência de não rir do novo funcionário, isso era seu ponto positivo. Tudo bem que tinha que ser muito tonto para cair em uma vala no cemitério, mas ele tinha se machucado de verdade.<br />
<br />
Sacudiu a cabeça negativamente quando ela perguntou se o novo funcionário tinha dado a entender que Diodoro era um chefe ruim. Na verdade, era mais uma soma geral dos comentários que recebia com as reações.<br />
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- Não... acho. – Dio tentou lembrar se Xavier tinha reagido mal além do susto inicial com suas roupas todas pretas. – Todos acham que sou mafioso. – adicionou, com um suspiro longo, terminando de comer e limpando a boca com um guardanapo, oferecendo para Natalia também, embora ela parecesse feliz em lamber os dedos. – Não sei. É um garoto. – deu de ombros, pensando só que na noite que conheceu Xavier ele estava bem assustado. Tinha mais alguma coisa para comentar? Afirmou com a cabeça que sua família sabia que tinha contratado alguém. – Brigaram comigo. Porque não é família. – Diodoro arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços, pensando que os negócios dos Leoni não escondiam em nada o nepotismo por trás.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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Estreitou o olhar quando percebeu que Dio havia demorando um pouco para lhe responder se o novo funcionário o fazia pensar que era uma pessoa ruim. Contudo, relevou a informação, considerando que o homem sempre parecia um pouco mais lento com a escolha do próprio vocabulário. Ergueu o indicador como se pedisse permissão para falar, pegando o guardanapo para limpar a própria saliva dos dedos, refletindo se não devia interessante comer algo doce como sobremesa daquela noite ao reencontrar o bom amigo que havia feito em Cerise. <br />
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- Primeiro. Você parece um mafioso até abrir a boca… na maioria das vezes. - sorriu para o moreno, compreensiva com o nervosismo dele. - Deve ser muito difícil para você desafiar o modo de pensar da sua família, parece ter desafiado eles com a sua ex-noiva, e agora contratando esse rapaz. Isso parece te incomodar. - apontou para os braços cruzados do sujeito, paciente. - Bem, o importante é que o rapaz seja um bom sujeito também. Ele já assinou o contrato de trabalho? Qual o nome dele? E sobrenome? - perguntou, cruzando as pernas e apoiando os braços sobre os joelhos. Se fosse algum sobrenome que estivesse na lista de seus pacientes, regulares ou não, poderia muito bem ter algum julgamento prévio sobre o garoto. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
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Diodoro não sabia bem o que pensar quando ela disse que ele parecia um mafioso até abrir a boca. Sabia que não era muito bonito, e que a cicatriz lhe deixava ainda pior, mas bem sabia que não era comunicativo e que isso às vezes complementava o mal-entendido. Aliás, estava se colocando pra baixo enquanto Natalia tentava fazer um elogio? Isso era algo bastante próprio de sua personalidade.<br />
<br />
Notou como Natalia estava inquieta, provavelmente pensando em sobremesa, mas mesmo assim, ela seguia pensando nas suas dificuldades em lidar com a família. Lembrar do relacionamento fracassado e o fato de sempre se incomodar quando ia contra a vontade de sua família parecia talvez ter alguma relação que ela tinha feito antes mesmo dele.<br />
<br />
- Hm. Me incomoda. A pressão. – Diodoro confessou, de forma muito direta, então chamando o homem da barraca ao lado que vendia alguns docinhos, erguendo a mão brevemente e indicando Natalia, até o homem trazer o cardápio muito sorridente para a mulher. – Mas... não é culpa da família... o noivado. É minha. Sou estável... demais. – o agente funerário comentou, e então abriu um sorriso amargo muito breve, antes de olhar no cardápio que estava com Natalia e pedir uma tortinha.<br />
<br />
Era irônico que sentia a pressão da família, e que entendia seus próprios erros, mas ainda era amigo de um par de criminosos (uma delas a sua frente), e estava ali calmamente indo comer um doce.<br />
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- Três. – respondeu o nome do sujeito, embora imaginasse que Natalia fosse ficar tão confusa quanto ele na primeira vez que ouviu. – Xavier. Terceiro. Apelido moderno, hm?  - Diodoro abriu um sorriso breve e depois voltou a seriedade usual. Certamente havia ironia na opinião dele sobre o apelido do novo funcionário.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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Sorriu um pouco sem graça quando o amigo admitiu que se incomodava com a pressão da família. Concordou com um aceno positivo, entendo a posição do sujeito, pensando na própria família e em como as expectativas dos pais lhe fizeram ter muitos problemas durante a adolescência e o início da vida adulta. Respirou fundo quando, no discurso do moreno, ele parecia se culpar novamente, concluindo que era “estável” demais e por isso havia noivado com a mulher. <br />
<br />
- Obrigada. - agradeceu pelo cardápio, tocando no ombro de Dio ao indicar que também estava grata por ele chamar a atenção do sujeito que lhe trouxe as informações. Arqueou uma sobrancelha ao ouvir o nome do sujeito que estava trabalhando na funerária, associando o apelido com algum tipo de codenome que os sujeitos com quem trabalhava costumavam usar. - Vou dar uma olhada depois entre os meus clientes para verificar se esse cara tá na lista de beneficiados. - respondeu apenas, erguendo o olhar do cardápio para encarar Diodoro, tentando deixar claro que preferia saber com que tipo de pessoas estranhas ele se envolvia. Talvez estivesse sendo um tanto quanto protetiva, mas preferia se certificar de que o sujeito não estava se envolvendo em nenhuma armadilha, ainda mais dado o tipo de amigos que ele já tinha. <br />
<br />
Devolveu o cardápio pro sujeito que lhe atendia, escolhendo por pedir um crepe para si, enquanto Dio escolhia a tortinha. Observou melhor o moreno em silêncio, cruzando os braços e apoiando os cotovelos nos joelhos ao se inclinar para observá-lo melhor de baixo para cima. <br />
<br />
- Eu acho que todo mundo já teve algum relacionamento denso que não deu certo ou já se frustrou com algum caso alguma vez na vida, Dio. - começou com o tom tranquilo de quem parecia não entender o motivo do outro se culpar tanto. - Não tem problema você estar sozinho agora. Quero dizer, se você quisesse estar com alguém, de certo que você estaria com alguém. Poxa, você não é um galã de novela feito o gostoso do seu pai, mas os genes estão aí. - deu de ombros. - O que eu quero dizer é… você… - apontou para o moreno, séria. - … você quer estar com alguém? - perguntou, imaginando que o sujeito não precisava continuar se culpando por ser quem era ou pelo que havia acontecido em sua vida. Se ele era amigo seu e do tal de Karen, mais cedo ou mais tarde, descobriria que aquele tipo de culpa não ajudava em nada. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
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Apesar da aparência de Xavier, e do jeito extremamente rude, ele só parecia um moleque ignorante, nada mais que isso. O currículo que ele tinha trazido para a funerária também parecia ter sido feito com o jeito dele, um tipo de honestidade grosseira. Mas supunha que a funerária costumava atrair pessoas que nada eram como pareciam: Diodoro, Xavier, a médica que era bandida, e o bandido que tinha coração... e Hanna, de quem não conseguia discernir nenhum traço de caráter, exceto a disposição dela a se divertir com a cara dos outros.<br />
<br />
Concordou silenciosamente que ela buscasse informações sobre seu novo funcionário.<br />
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Inesperadamente, Natalia fez o pedido do crepe para o sujeito da barraca e então, se curvou para lhe observar, de um jeito que por um instante não entendeu por que. Então encarou a loira diretamente, ouvindo toda a conversa dela sobre falhar em relacionamentos. O elogio ao seu pai lhe fez estranhar um pouco, mas fora isso, toda a conversa de Natalia parecia apenas plausível dado que tinha comentado do antigo relacionamento que não tinha dado certo. Respirou fundo, pensando na resposta mais adequada para a pergunta de Natalia.<br />
<br />
- Não gosto de ficar só. – Diodoro respondeu inicialmente, e então olhou Natalia longamente, antes de amenizar a expressão usualmente séria que tinha no rosto, até sorrir muito brevemente com os lábios cerrados. – Mas estou feliz com você. – confessou, então levando a mão até a nuca, a expressão muito calma. – De ter amigos preocupados. – adicionou, lembrando também de Karen, e até ocasionalmente de Hanna. Pior para Diodoro era não ter amigos fora as pessoas de sua família. Mas agora estava com um círculo de amizade bem incomum, mas que lhe satisfazia imensamente.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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Prestou atenção na resposta do amigo enquanto deslizava os dedos pelo próprio queixo, pensativa. Encarou-o de volta, sendo pega de surpresa pelo sorriso repentino e a confissão da felicidade alheia por sua presença. Ajustou a própria postura, sorrindo com o leve rubor que lhe tomava a face, compreensiva e satisfeita por ele parecer a cada encontro mais e mais honesto com os próprios sentimentos. <br />
<br />
Levantou-se, arrastando o próprio banquinho para sentar ao lado do moreno, estendendo o braço pelas costas dele, abraçando-o de lado ao se sentar, pendendo a cabeça para o ombro alheio. <br />
<br />
- Oh, Dio… - suspirou, conformada com a personalidade dele, mais quieto, porém honesto. - Eu também sou feliz por ter um amigo que nem você. - ficou onde estava, observando o movimento ao redor por um instante antes de deixar o abraço para segurar a mão do moreno, ainda apoiada no ombro dele. - É engraçado. - riu baixo enquanto se distraía com a mão do outro, tentando estalar os dedos dele como de costume. - Isso não parece muito a sua cara. Aceitar um estranho no negócio da sua família. Sua irmã disse que você estava agindo diferente também quando fui lá na sua casa, o almoço abençoado em alemão, lembra? - brincou, recordando da risada do amigo com seu constrangimento. - Talvez… você não seja tão “estável” assim quanto pensa, Dio… <br />
<br />
Afastou-se por um instante assim que seu crepe chegou, estendendo as mãos para poder pegar o doce embalado no pacote de papel branco fino. Deu uma mordida generosa antes de oferecer a sobremesa também para o moreno para que ele experimentasse o sabor. Sabia que ele também gostava daquela mistura de fritura com chocolate. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
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A reação de Natália foi bem diferente do que esperava. Ela pareceu genuinamente surpresa com suas palavras. Talvez estivesse sendo direto demais? Não que fosse de esconder quando gostava de alguém. E gostava da companhia de Natália, simples assim.<br />
<br />
Só não esperava que ela viesse sentar ao seu lado. Ficou completamente tenso com a aproximação da loira e o braço em volta do seu ombro. Estava desacostumado com tanta camaradagem, e diferente das aproximações inconvenientes de Hanna, ela parecia estar sendo só carinhosa. Apesar de ainda se incomodar com a mão dela na sua logo em seguida, deixou, na medida do possível, que ela estalasse seus dedos.<br />
<br />
Era reconfortante ter alguém próximo que não fosse sua família, que não estivesse só tentando tirar sarro da sua cara, ou só fosse uma grande bagunça de conflitos éticos. Na verdade, cada um dos seus novos amigos tinha algo a lhe oferecer, e embora nenhum deles fosse exatamente “apropriado” (pelo menos pelo que diria a polícia, se descobrissem), ter conhecido todos tinha lhe permitido se aproximar de pessoas... vivas. Até Xavier, que mal tinha conhecido. Era como Natalia disse, não era bem a sua cara contratar alguém que não era da família.<br />
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Só não esperava ouvir ela dizer que não era “estável” como se descrevia.<br />
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Diodoro ergueu as sobrancelhas em surpresa genuína, e então parou para pensar novamente sobre o que Natalia estava dizendo. Não que fosse um elogio. Mas tinha passado muito tempo pensando que sua estabilidade emocional era mais que isso, era inércia. Estava constantemente freando avanços, mudanças, e preso as mesmas situações e valores e a sua família. Mas aos poucos tinha mudado, não era? Nem percebeu quando se pegou sorrindo. Não um sorriso breve e irônico, mas um sorriso maior, suave, que quase não combinava com as olheiras de Diodoro.<br />
<br />
Virou direto para o crepe quando a amiga lhe ofereceu um pedaço, e deu uma mordida, escondendo a boca suja de chocolate atrás da mão, embora a expressão mais alegre fosse difícil de escapar do olhar dos outros.<br />
<br />
- Talvez... – Diodoro respondeu, logo depois de mastigar o pedaço. - ... ficasse melhor morango também. – falou sobre o crepe, embora estivesse brincando com a frase da amiga de anteriormente. – Nat. – tentou chamá-la pelo apelido, mas em uma rara ocasião, não conseguiu olhar para a loira diretamente enquanto a chamava por um apelido assim como ela lhe chamava de Dio. Na verdade, estava sendo orgulhoso demais com a tentativa. Mas não demorou dois segundos para o senso de vergonha lhe voltar, e o rosto sorridente se desfez em um breve pânico, e um rubor muito evidente que ele tentou disfarçar comendo a tortinha que tinha pedido.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
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Diodoro levou a mão até a testa. Tinha voltado quase no fim da tarde do velório organizado para uma senhora cujo marido tinha falecido. Depois de dar uma volta na cidade com o homem que transportava os cadáveres até a funerária, deixando o defunto no crematório, teve que sentar atrás de sua mesa para organizar umas documentações atrasadas. Geralmente pedia para sua irmã ajudar nesses casos, mas já tinha um tempo que deixava Brigida resolver tudo de casa e trabalhar vendendo planos funerais, afinal, quase sempre estava na funerária recebendo os defuntos e ocasionalmente a gama de amigos estranhos que tinha adquirido ao longo daquele tempo.<br />
<br />
Miro já tinha ido fazer sua ronda no cemitério, e tinha jogado uma lagartixa morta nos seus pés, basicamente lhe chamando de incompetente, mas nem teve tempo de agradecer o presente e jogar o bichinho fora, com tanta coisa para fazer. Só o que conseguia pensar é que depois de tanto tempo preenchendo documentos, estava faminto demais para pensar. Na verdade, até pensou, mas não pensou em nada bom (como se algo de bom corresse em sua mente). Naquele momento de fome lembrou de Natália, que provavelmente seria gentil de lhe acompanhar para um hambúrguer se estivesse livre no hospital. Não tinha notícias dela há mais tempo do que de Karen, por exemplo.<br />
<br />
Acabou deixando o trabalho de lado para limpar a funerária, triste que não via a amiga há muito tempo. Talvez não visse mais. E de certa forma, essa era uma triste perda.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Estava exausta de toda a situação dos últimos meses. Do medo de ser encontrada pelo sujeito que havia ajudado a encontrar, da polícia lhe colocar atrás das grades se descobrissem no que estava metida, de seus clientes perderem a confiança no seu trabalho, de não conseguir mais trabalhar como uma médica no Hospital Geral de Cerise ou, pior ainda, não poder mais trabalhar como médica. Havia trocado de apartamento novamente e sequer havia se dado ao trabalho de arrumar todas as caixas de seus pertences. Havia se abarrotado de trabalho no hospital para tentar não ficar tão ansiosa com as incertezas de estar “presa” à Cerise naquele momento. Ao menos no hospital tinha uma maior sensação de controle. O ponto ruim: a comida era horrível para o seu paladar. <br />
<br />
Saiu de mais um plantão e deixou o veículo no estacionamento do hospital juntamente com seu celular, escolhendo usar o transporte público sem seus aparelhos, queria poder deixar a sensação de que poderia ser chamada pelo aparelho por algum de seus contatos ou pela polícia a qualquer momento por um momento e esfriar a cabeça. Desceu no ponto de ônibus mais próximo da funerária da família Leoni e seguiu andando até encontrar a entrada do estabelecimento. Podia agradecer a sua perfeita memória e prontidão ao fazer questão de memorizar todas as rotas possíveis para aquele lugar. Buscou o celular por reflexo para conferir o horário, mas acabou especulando que deveria ser mais tarde pelo lugar parecer fechado. Arrumou os cabelos atrás da orelha, os fios voltando ao loiro platinado original por sua falta de interesse momentâneo em mantê-los na coloração azulada, esta presente agora mais próxima das pontas. Estava com seus sapatos em que havia deixado o hospital, o salto médio, um conjunto bege de tecido mais leve e uma camisa preta. Pensou alguns instantes antes de pressionar a campainha do lugar, imaginando se alguém ainda estaria ali naquele horário. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Entre a pilha de papéis na qual trabalhava antes, a vassoura, a fome e o roçar do gato na sua perna, ficava difícil saber se estava ouvindo coisas ou se de fato tinham apertado a campainha. O local estava claramente fechado a essa hora, exceto pela luz da recepção acesa, já que ainda estava ali, fazendo uma limpeza rápida. O fato de terem apertado mesmo assim para serem atendidos levou Diodoro a pensar se a visita não era algum dos seus conhecidos: ou Karen, que teria ido até ali para tirar um cochilo, ou Hanna, que seria mais provável entrar pela porta da frente. Mas ainda era cedo demais para qualquer um dos dois.<br />
<br />
Largou a vassoura um instante e foi até a parte de trás olhar o monitor de segurança que tinham instalado depois daquele incidente infeliz da cicatriz, e para sua surpresa, havia uma mulher na porta que não era Hanna, e nem Brigida, e nem Filippa.<br />
<br />
Diodoro apressou o passo até a porta e então, abriu de súbito, encarando Natalia – de todas as pessoas – como se tivesse visto um espírito. Estendeu a mão para segurar o pulso dela, puxando-a para dentro e fechando a porta em seguida, antes que alguém decidisse aparecer e achar que estavam abertos para trabalho de fato.<br />
<br />
O agente funerário não pode evitar senão de abrir um sorriso suave com os lábios cerrados, vendo que era ela mesma ali.<br />
<br />
- Pensei em hambúrguer. – disse, então levando uma mão enluvada a testa, o semblante cansado como sempre, não fosse pela suavidade do sorriso ainda nos lábios. – Em você.   <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Pensou que talvez estivesse de fato correta sobre ninguém estar ali naquele horário, mas podia notar a luz acesa da recepção o que só poderia indicar uma coisa: alguém ainda deveria estar fechando o horário de trabalho. Por isso, resolveu insistir na campainha, imaginando se não seria Brigida ali enquanto o agente fúnebre não estaria descansando no apartamento dele. O sujeito sempre parecia estar precisando de um descanso, afinal. Olhou ao seu redor para se certificar de que não havia sido seguida ou que não havia nenhum transeunte na rua ainda naquele horário quando ouviu o ruído da porta sendo aberta de supetão. Levou um dos braços a frente do próprio corpo na defensiva, esboçando uma expressão de surpresa ao encontrar Diodoro Leoni a sua frente. Já estava baixando o braço e esboçando um sorriso para responder à recepção do outro quando sentiu o puxão em seu pulso para que entrasse na funerária. <br />
<br />
- …! - ficou sem reação com a ação mais impulsiva do outro, ainda mais ao acompanhar com o olhar ele fechando a porta por onde havia acabado de entrar. Encarou o sorriso no rosto alheio e fechou a própria boca, ouvindo as palavras de reencontro sobre hambúrguer e sobre si. <br />
<br />
Por um momento, sentiu os ombros relaxando com a ideia de estar ali finalmente e de poder reencontrar Diodoro, ver que ele estava bem e que também parecia esperar por sua presença. Era uma sensação agradável e calorosa, como se estar ali lhe trouxesse a lembrança de um dia ter alguém lhe esperando e preocupado com seu bem estar. Sorriu de volta para ele, sequer notando o rubor que tomava sua face enquanto começava a rir. <br />
<br />
- Você tem que aceitar o que é perfeito, Diodoro! - riu ao usar a frase que ele mesmo destacou um dia ao saírem para comer juntos. Estendeu a mão livre para afastar a dele da testa, encarando-o com um sorriso de contentamento no rosto. Aproximou-se, cortando a distância entre ambos para poder abraçar o moreno, apertando-o com força para que ele se certificasse que estava ali de fato. Demorou alguns minutos, apreciando o contato ainda que ele pudesse se sentir desconfortável. A verdade é que também queria ter certeza de que nada havia acontecido com o sujeito em seu tempo ausente. - Se um fantasma tem esse tipo de força, a gente chama a Igreja para exorcizar? - não conseguiu evitar a brincadeira, falando com o rosto contra o ombro do outro.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Quando Natalia começou a relaxar do susto de ter sido puxada para dentro da funerária daquela forma - o que admitia não ter sido a melhor ideia do mundo, considerando que ela tinha saído em fuga dali da última vez -, pode notar que ela estava mesmo bem, e ali. Viu o corpo dela relaxar aos poucos e se sentiu igualmente mais aliviado com a presença da mulher ali. E o riso com a piada feita com suas palavras antigas acabou lhe arrancando um sorriso suave antes que percebesse.<br />
<br />
Só não esperava o abraço apertado, tanto que ficou um tempo com os braços abertos sem saber o que fazer, mas sentindo o calor e carinho da amiga, devolvida a ele inteira, abraçou Natalia de volta, embora sem a mesma força que ela tinha. Se sentia um pouco nervoso no abraço, mas se sentia bem.<br />
<br />
- Eu deixo assombrar. - Diodoro respondeu calmamente, soltando um longo suspiro, afastando-se um pouco de Natalia para encará-la, aquecendo os braços da mulher com as mãos por um instante. - Mas melhor viva. Você não comprou plano funerário. - adicionou, rindo por um instante tão breve que a risada poderia ter sido uma alucinação da cabeça de Natalia. Mas de fato Diodoro estava parecendo bem feliz em vê-la. <br />
<br />
Convidou-a com a mão a entrar e se acomodar, indo até uma cafeteira no canto para pegar café para ela. Então não levou muito tempo para retomar o semblante sério costumeiro, entregando o café e sentando-se próximo dela em sua mesa de trabalho.<br />
<br />
- Pode contar…? - questionou, embora imaginasse que se ela não tinha dado detalhes anteriores, certamente não daria agora. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Foi pega de surpresa pelo riso de Diodoro, mas acabou sorrindo também por reflexo, rindo logo em seguida. Era bom demais poder estar de volta e ser recebida daquela forma pelo moreno. Sentiu-se confortável com as mãos, ainda que cobertas por aquelas luvas que mais pareciam fazer parte da pele do amigo, mantendo o contato consigo. Seguiu o sujeito, relaxando mais ainda quando ele lhe ofereceu a bebida quente, ainda que não gostasse tanto da cafeína. <br />
<br />
Sequer deu o primeiro gole e ouviu a pergunta de Diodoro, obviamente querendo saber sobre o que teria feito em seu período ausente. Usou a mão livre para apontar para o agente fúnebre, pensativa, antes de responder: <br />
<br />
- Vamos dizer que “temos um novo xerife na cidade”, está bem? Hm. - fez uma pausa, provando do café antes de continuar. - Viu o grandão por aí esses dias? - perguntou antes de continuar. - É bom ele tomar cuidado também. Eu estava certa. O cara não era qualquer um. - gesticulou, girando o indicador por sobre o ombro, indicando que estava falando do passado. - E não sendo qualquer um, não é qualquer cachorro que mandam para caçar um sujeito desses. - revirou os olhos, lembrando do sujeito que havia conhecido no hospital. - Urgh. Se encontrar com ele, pede pra ele tomar cuidado, por favor. Eu queria falar pessoalmente com ele, mas não estou podendo me dar ao luxo de procurá-lo diretamente no momento. - deu de ombros, pensativa. - E como você está? <br />
Bebeu um pouco mais do café, mexendo o copo plástico devagar para poder buscar se haveria pó no fundo. Só então lhe ocorreu o sentido do que o moreno havia lhe dito assim que o encontrou, e terminou por abafar o riso, divertindo-se. <br />
<br />
- Dio, você está com fome, não é? - encarou o sujeito, rindo abertamente. - Você pensa em mim quando está com fome, Dio?! É para eu me sentir feliz ou intrigada com isso? - brincou, apoiando o cotovelo sobre a mesa e a mão no rosto. - Desculpe, não resisti. - acenou, indicando para que ele falasse. - Mas me diz aí, como você está? Além de com fome, é claro. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
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Quando se tratava de dar detalhes da própria vida, Natalia era tão esclarecedora quanto o próprio Diodoro. Então podia assumir que havia alguém novo na cidade que era encrenca, e que não seria uma encrenca que passaria rápido. Não lhe afetava, mas afetava Natalia e afetava Karen. Mas sem saber dos detalhes, não tinha como repassar aquela informação. No máximo poderia dizer a ele que Natalia tinha alguma informação importante para ele, mas no mais, quanto menos soubesse, melhor seria. A única coisa que fez foi discordar que tinha visto o amigo recentemente.<br />
<br />
Concordou silenciosamente que ela não estava em posição de procurar Karen, achando até melhor que ela não fosse pelo simples fato de que ela sabia o que estava acontecendo e mal tinha voltado. Não queria que ela se escondesse de novo. Encarou Natalia quando ela questionou sobre como ele estava.<br />
<br />
Ia responder outra coisa, mas ela apontou sobre sua fome, que não era mentira. Concordou silenciosamente. Franziu a testa quando ela questionou se ele pensava nela quando estava com fome. Errado não estava, mas também não estava inteiramente certo.<br />
<br />
- Solitário. – respondeu sem hesitação, suspirando longamente em seguida. – E com fome. – adicionou, apoiando os dedos cruzados sobre a mesa, sentado em sua cadeira de um jeito cansado. – Por isso você. – explicou o motivo pelo qual estava pensando em Natalia. Então piscou algumas vezes, pensativo. – Quer jantar?<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Levou o copo plástico de café aos lábios enquanto observava o amigo admitir que estava solitário. Solitário e com fome, seria uma boa descrição para o seu perfil se tivesse alguma conta em mídia social. Terminou de tomar seu café e deixou o copinho de lado, levantando-se de onde estava para poder se aproximar de Diodoro novamente. Estendeu a mão para os cabelos do moreno, afagando os fios mais curtos com um sorriso no rosto. <br />
<br />
- Awwn, com você? Sempre, meu bem. - riu baixinho, inclinando-se para poder beijar o topo da cabeça dele. - Ah, desculpe… - arrumou o cabelo do outro antes de se afastar, recordando-se que ele não era exatamente o tipo de cara que ficava confortável com tanto contato físico. - Vamos de hambúrguer? Eu estou sem carro hoje. Vamos de ônibus? <br />
<br />
Arrumou a própria bolsa, observando melhor o chão à procura do gatinho de Diodoro. Agachou-se em silêncio, chamando pelo animal, estava curiosa em também verificar como ele estava. <br />
<br />
- A gente também pode sair para experimentar alguma comida nova, se quiser. Quer ir em algum lugar novo? - perguntou, ainda procurando pelo gatinho. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
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Dificilmente esperava o toque de Natalia em seus cabelos, lhe afagando de um jeito que lhe fez franzir a testa imediatamente, porque seria daquela forma que seus irmãos mais velhos lhe tratariam, incluindo sua mãe com um beijo no topo da cabeça que pôs uma expressão ainda mais sombria no rosto cansado de Diodoro. Mas ele não se afastou, apenas encarando a loira de volta, afinal, não era como se ficasse realmente ofendido com o toque carinhoso dela. O olhar, entretanto, mudou completamente para um olhar de animação quando ela mesma que mencionou hambúrguer. E o agente funerário assentiu silenciosamente com a cabeça antes de se levantar, muito menos letárgico que antes.<br />
<br />
Natalia pareceu procurar Miro, o que provavelmente significava que ela logo veria a lagartixa morta embaixo de sua mesa e o gato, que estava passeando a esmo e tinha ido se esconder quando ela tinha chegado, mas agora olhava desconfiado da porta por trás do balcão. Ela sugeriu que poderiam ir de ônibus ou provar algo novo, mas honestamente preferia comer hambúrguer, por mais clichê que fosse.<br />
<br />
- Carteira. – falou, indo pegar a carteira para que saíssem para pegar o ônibus. Deixou o gato na funerária com água, comida e acesso ao cemitério e de volta por uma das janelas, o que daria a ele um modo de se entreter sem ir para casa naquela noite. O ponto de ônibus era próximo, e não demorou a passar um para o qual Diodoro deu a mão, sequer dizendo a Natalia para onde estavam indo.<br />
<br />
Chamou-a para lhe acompanhar, e sentou-se em um assento com espaço para ela. Mas a viagem foi curta, e algum tempo depois, ele chamou a loira para descer e um ponto próximo a alguns restaurantes, um deles que parecia servir diversos tipos de comidas rápidas, como saladas, hambúrgueres, batatas e outros lanches simples. Podia ter algo que ela gostasse ali também.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
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Seguiu o sujeito, animada com a ideia de que poderiam sair juntos mais uma vez para comer. Esperou que ele pegasse a própria carteira enquanto passava o tempo fazendo carinho em Miro, pouco se incomodando se o gatinho estava preguiçoso demais para lutar contra seus afagos na barriguinha dele. Caminhou juntamente com Diodoro, tomando o devido cuidado em evitar o olhar de outras pessoas enquanto andava com ele. Não ficou quieta, claro, desatando a falar sobre o próprio trabalho e como seus pacientes estavam no hospital. Falou sobre o cadeirante que deveria começar a fazer hemodiálise e sobre como a situação dele era um caso bastante peculiar. Falou sobre o caso da nova paciente que era uma gracinha de cabelos brancos e muito delicada. <br />
<br />
Sentou ao lado do moreno no ônibus, dando atenção a paisagem pelo trajeto breve que faziam. Continuou comentando sobre os ocorridos do hospital, dessa vez sobre a enfermeira ruivinha e a irmãzinha dela que viviam cuidando uma da outra. Comentou como gostava da criança por ela não parecer uma criança, mas que na verdade sabia como aquilo era algo anormal porque crianças deveriam se comportar como crianças. Desceu do ônibus e finalmente deu uma folga para as orelhas de Diodoro assim que seu olfato foi capturado pelo aroma doce e de frituras daquela região. <br />
<br />
Apertou a alça da bolsa contra o próprio estômago, mas se conteve, ainda que o brilho em seus olhos claros denunciasse todo o seu desejo por aquelas delícias de rua. Estava de olho especialmente na barraquinha de falafel e batatas. Segurou a barra da manga do casaco do outro, chamando-lhe a atenção. <br />
<br />
- Que tipo de hambúrguer vamos comer hoje? - perguntou, sendo educada com o sujeito que imaginava estar com mais fome que a sua figura naquele momento. Estava angustiada algumas horas atrás, mas poderia conter a sua própria fome por muito mais horas se fosse necessário. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Embora não fosse uma pessoa de muita conversa, não tinha nada contra ouvir as histórias de Natalia sobre o hospital. As dela certamente eram mais interessante que as dele, sobre os casos dos pacientes jovens, nenhum deles com nenhuma propensão a morrer em breve, e ficava feliz com isso. Além do que, achava muito nobre que ela vivia salvando vidas e ajudando os que precisavam, e embora soubesse que em sua profissão fazia o mesmo, o trabalho na funerária era bem mais sombrio.<br />
<br />
Diodoro também ouviu sobre a colega de trabalho de Natalia e a menina ruivinha que não parecia criança, e lembrou dos seus sobrinhos, afinal, eles eram crianças que se portavam como crianças, mas ela tinha sido até uma boa visita à sua casa, e talvez devesse chama-la mais vezes. Aproveitou e também falou que tinha contratado um funcionário novo para a funerária, claro que não tão explícito como ela, e sim, cortando a fala em vários pedacinhos, até formar uma informação difícil de decifrar.<br />
<br />
Quando desceram, notou que a atenção de Natalia ia para vários lugares que não pelo caminho, mas admitia que o cheiro das comidas naquela rua era muito bom. Notou como o olhar dela brilhava para uma barraca de falafel e batatas fritas, e embora não fosse o tradicional hambúrguer que tinha chamado ela para comer, ouviu a pergunta cheia de consideração dela, e foi impossível não ceder a vontade de Natalia.<br />
<br />
- Quer provar...? – falou, apontando para a barraca na qual ela tinha tomado interesse antes. – Comeria qualquer um. É mais... pela sua companhia. – explicou muito diretamente. Não era como se escondesse que gostava de estar com Natalia, quando já tinha chamado ela de amiga e ficado muito feliz com seu retorno. – Escolha.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
- Quero! - respondeu quase de imediato quando o sujeito perguntou, indicando justamente a barraquinha que havia chamado sua atenção. Sorriu animada com a ideia de comer algo gorduroso e gostoso com o moreno e não hesitou em lhe segurar a mão, convidando-o a lhe acompanhar enquanto fazia o pedido para a vendedora da barraquinha, pedindo uma porção de falafel com fritas. - Não se preocupe, ainda vou ter espaço para poder comer hambúrguer com você, Dio. <br />
<br />
Explicou para o amigo antes de soltar a mão dele para receber o pedido que havia feito, pagando pela comida com um grande sorriso de agradecimento no rosto. Deu a primeira mordida em um falafel, aproveitando da crosta de massa frita antes de arrumar o papel que envolvia seu pedido para oferecer o mesmo para Diodoro. <br />
<br />
- Aqui. Você deveria experimentar também. Tá muito bom. - continuou seguindo o amigo, voltando o pensamento e a memória impecável ao que ele havia comentado antes enquanto tagarelava sobre sua própria vida. - Por que contratou alguém novo? Quer dar mais tempo para sua irmã passar com os filhos? Ela parece ser uma boa mãe e os meninos parecem gostar de você. - comentou, ocupando a própria boca com algumas fritas, dando mais espaço para ouvir o outro dessa vez. Preocupava-se com a família do sujeito também, imaginava, portanto, que ele talvez ficasse preocupado com a irmã dele acabar se envolvendo demais com o trabalho da funerária e algum dia topar com um dos amigos mais perigosos dele. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
A satisfação de Natalia de poderem ir até a barraquinha de falafel já valia sacrificar o seu possível hambúrguer. Não pôde protestar sobre ela lhe arrastar pela mão, e em um passo já estavam ali pedindo falafel e fritas. Até considerou que seria uma boa mudança, pois podia ver no cardápio um kebab que incluía carne e batata frita. Seria aquilo uma versão de hambúrguer que ainda não tinha provado?<br />
<br />
- Hm – Diodoro respondeu, não em descrença, mas ponderando se ele mesmo conseguiria comer muito mais coisas depois de comer as fritas com os falafel que a médica tinha acabado de pedir. Ao menos pelo que viu, era um pedido individual, e poderia provar antes de pensar se abdicaria da sua comida de segurança por isso. Bom, ao menos Natalia tinha gostado, isso era certo.<br />
<br />
Estendeu a mão para pegar uma bolinha de falafel, assoprando antes de levar até a boca. Era bem crocante, não tinha nada de carne e o tempero era forte. Não era nada que tivesse provado antes, porque não era exatamente aventureiro, mas foi óbvio quando suas sobrancelhas se ergueram em surpresa ao sabor da comida.<br />
<br />
- Hmm. – foi a única coisa que disse, os olhos claros divagando de volta para a barraca enquanto caminhavam, pensando se deveria voltar e pedir uma porção para si. Mas provavelmente preferia comer carne.<br />
<br />
Pediu dois hambúrgueres em outra barraca e puxou banquinhos para uma mesinha ao ar livre para esperar a comida. Pegou uma batata frita dela enquanto ela lhe questionava sobre o novo funcionário, negando com a cabeça para as suposições de Natalia.<br />
<br />
- Ele precisava. – Diodoro respondeu simplesmente, então supondo que não era bem uma explicação contratar alguém que precisava de um emprego. – Quebrou a perna. Demitiram ele. Aí contratei. – explicou melhor, embora estivesse incerto se era uma grande explicação.  <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Ficou ainda mais animada ao assistir a disposição do moreno em apreciar a fritura que havia escolhido. Notou o olhar de quem parecia interessado com o falafel e apenas riu baixinho ao mastigar quieta. Diodoro conseguia ser bem óbvio no que desejava quando se tratava de comida. Agradeceu assim que conseguiram os banquinhos e a mesinha para aproveitarem do prato principal: hambúrgueres. <br />
<br />
Observou o sujeito, permanecendo quieta enquanto ele explicava sobre o novo empregado da funerária. Contudo, achou estranho o fato do sujeito ter sido contratado por ter quebrado a perna. Ou pelo menos era o que conseguia entender do discurso do amigo de poucas palavras. <br />
<br />
- Espera. - pediu para o moreno, chupando o óleo e os farelos do falafel dos próprios dedos antes de apontar para ele, indicando que prestasse atenção. - Você.  Você contratou um homem aleijado para poder trabalhar na funerária? E como foi que ele quebrou a perna? Uma pessoa com uma perna quebrada com deveria estar repousando e- Ahhhh! - fez um pequeno alarde, batendo a mão na mesinha e os pés no chão antes de empurrar de leve o ombro do moreno, terminando por apontar novamente para ele. - Você! Não me diga que você quebrou a perna dele e por isso se sentiu culpado e contratou ele!? Foi isso?! - questionou, interessada mais naquele novo funcionário agora com a ideia dele ter sido alguma vítima de Diodoro.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Natalia parecia muito interessada em seu novo funcionário. Mas até entendia. Nada de novo acontecia na funerária, exceto pessoas mortas chegando e saindo, o que não era exatamente um evento positivo. Ter outra pessoa trabalhando lá que não fosse sua irmã ocasionalmente intrometida na sua vida, ou que não fosse um criminoso, isso era novidade.<br />
<br />
Só foi obrigado a franzir a testa quando Natalia falou como se Xavier estivesse aleijado e fosse algo que demoraria a recuperar. Talvez tivesse pintado o quadro muito mais dramático do que era. Obviamente uma pessoa com a perna quebrada deveria estar repousando, mas a questão era que o rapaz não teve direito a isso no emprego anterior, e por isso foi demitido.<br />
<br />
Diodoro arregalou os olhos claros quando ela lhe acusou de ter sido o responsável por quebrar a perna do funcionário. Já não bastava a polícia achar que ele era um criminoso só por andar todo de preto e ter uma cicatriz gigante no rosto.<br />
<br />
- Não. Ele não queria repousar... então eu o fiz repousar. – Diodoro colocou com um olhar muito direto para Natalia, que se ela não o conhecesse, poderia pegar aquela explicação como se fosse uma confissão de assassinato. – Caiu na vala. No cemitério. – explicou mais claramente antes que ela achasse que o funcionário era um fantasma, no mau sentido. - ... Torceu o tornozelo. – Diodoro franziu a testa, supondo que suas explicações não eram melhores do que a de qualquer assassino profissional.<br />
<br />
O hambúrguer chegou nesse meio tempo, e Diodoro pegou primeiro o pão para dar uma mordida generosa.<br />
<br />
- Hmm. – mastigou, muito feliz, embora não demonstrasse quase nada no rosto. Ergueu o olhar para Natalia, um tanto intrigado com o fato dela achar que ele seria capaz de machucar alguém. – Pareço... um chefe ruim?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Riu abafada pelas batatas que acompanhavam seu falafel, ao ouvir que Diodoro havia “feito o sujeito descansar”. Procurou algum guardanapo para poder segurar melhor a comida entre os dedos, sujando os lábios com os farelos da fritura enquanto ouvia, interessada, sobre o novo empregado do amigo fúnebre. Porém, quando esperava que o outro fosse esclarecer a situação, ouviu a continuação da mesma sobre o estranho ter caído na vala. Engasgou, rindo e tossindo logo depois para tentar se recompor.  <br />
<br />
- Ele-ah-cofcof-torceu o tornozelo?! Cofcof - riu enquanto lágrimas se formavam em seus olhos pensando em como aquele cenário era cômico e trágico ao mesmo tempo. Encarou o hambúrguer com animação e logo pareceu parar de prestar atenção em Diodoro para começar a comer quando ouviu o questionamento sobre o moreno ser um “chefe ruim”. Parou o hambúrguer no meio do caminho para sua boca, encarando o sujeito com um ar mais pensativo. - Eu não acho que você parece um “chefe”, Dio. Tipo, um “boss”, sabe? - brincou, recordando um pouco do linguajar de alguns sujeitos periculosos que já havia encontrado em sua vida. - Mas definitivamente você não é uma pessoa ruim. <br />
<br />
Começou a mastigar o hambúrguer, usando o polegar para limpar o canto dos lábios, evitando que o molho escolhido para a carne não escorresse. <br />
<br />
- Esse cara te fez pensar isso? - questionou, uma sobrancelha arqueada e um ar um tanto desconfiada, até mesmo protetiva. - E como é que ele foi cair em uma vala no cemitério? Ele é adulto? Tipo adulto velho já? Ou é um pivete? Parece coisa daqueles jovens góticos de filmes trash de terror antigo esse negócio de ir para um cemitério se acidentar. - deu de ombros. - Sua família sabe que arrumou um empregado novo para a funerária? - resolveu perguntar, aproveitando para ouvir as explicações enquanto desfrutava de seu combinado de carne, pão e molhos.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Diodoro encarou ela de volta enquanto ouvia Natalia lhe definir como um “Boss”. Não sabia exatamente qual era a diferença entre os dois, mas se a mulher dizia que tinha uma, algo no seu coração dizia para não procurar saber. Era satisfatório o suficiente que ela não achasse que ele era uma pessoa ruim. Ao menos tinha a decência de não rir do novo funcionário, isso era seu ponto positivo. Tudo bem que tinha que ser muito tonto para cair em uma vala no cemitério, mas ele tinha se machucado de verdade.<br />
<br />
Sacudiu a cabeça negativamente quando ela perguntou se o novo funcionário tinha dado a entender que Diodoro era um chefe ruim. Na verdade, era mais uma soma geral dos comentários que recebia com as reações.<br />
<br />
- Não... acho. – Dio tentou lembrar se Xavier tinha reagido mal além do susto inicial com suas roupas todas pretas. – Todos acham que sou mafioso. – adicionou, com um suspiro longo, terminando de comer e limpando a boca com um guardanapo, oferecendo para Natalia também, embora ela parecesse feliz em lamber os dedos. – Não sei. É um garoto. – deu de ombros, pensando só que na noite que conheceu Xavier ele estava bem assustado. Tinha mais alguma coisa para comentar? Afirmou com a cabeça que sua família sabia que tinha contratado alguém. – Brigaram comigo. Porque não é família. – Diodoro arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços, pensando que os negócios dos Leoni não escondiam em nada o nepotismo por trás.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Estreitou o olhar quando percebeu que Dio havia demorando um pouco para lhe responder se o novo funcionário o fazia pensar que era uma pessoa ruim. Contudo, relevou a informação, considerando que o homem sempre parecia um pouco mais lento com a escolha do próprio vocabulário. Ergueu o indicador como se pedisse permissão para falar, pegando o guardanapo para limpar a própria saliva dos dedos, refletindo se não devia interessante comer algo doce como sobremesa daquela noite ao reencontrar o bom amigo que havia feito em Cerise. <br />
<br />
- Primeiro. Você parece um mafioso até abrir a boca… na maioria das vezes. - sorriu para o moreno, compreensiva com o nervosismo dele. - Deve ser muito difícil para você desafiar o modo de pensar da sua família, parece ter desafiado eles com a sua ex-noiva, e agora contratando esse rapaz. Isso parece te incomodar. - apontou para os braços cruzados do sujeito, paciente. - Bem, o importante é que o rapaz seja um bom sujeito também. Ele já assinou o contrato de trabalho? Qual o nome dele? E sobrenome? - perguntou, cruzando as pernas e apoiando os braços sobre os joelhos. Se fosse algum sobrenome que estivesse na lista de seus pacientes, regulares ou não, poderia muito bem ter algum julgamento prévio sobre o garoto. <br />
<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Diodoro não sabia bem o que pensar quando ela disse que ele parecia um mafioso até abrir a boca. Sabia que não era muito bonito, e que a cicatriz lhe deixava ainda pior, mas bem sabia que não era comunicativo e que isso às vezes complementava o mal-entendido. Aliás, estava se colocando pra baixo enquanto Natalia tentava fazer um elogio? Isso era algo bastante próprio de sua personalidade.<br />
<br />
Notou como Natalia estava inquieta, provavelmente pensando em sobremesa, mas mesmo assim, ela seguia pensando nas suas dificuldades em lidar com a família. Lembrar do relacionamento fracassado e o fato de sempre se incomodar quando ia contra a vontade de sua família parecia talvez ter alguma relação que ela tinha feito antes mesmo dele.<br />
<br />
- Hm. Me incomoda. A pressão. – Diodoro confessou, de forma muito direta, então chamando o homem da barraca ao lado que vendia alguns docinhos, erguendo a mão brevemente e indicando Natalia, até o homem trazer o cardápio muito sorridente para a mulher. – Mas... não é culpa da família... o noivado. É minha. Sou estável... demais. – o agente funerário comentou, e então abriu um sorriso amargo muito breve, antes de olhar no cardápio que estava com Natalia e pedir uma tortinha.<br />
<br />
Era irônico que sentia a pressão da família, e que entendia seus próprios erros, mas ainda era amigo de um par de criminosos (uma delas a sua frente), e estava ali calmamente indo comer um doce.<br />
<br />
- Três. – respondeu o nome do sujeito, embora imaginasse que Natalia fosse ficar tão confusa quanto ele na primeira vez que ouviu. – Xavier. Terceiro. Apelido moderno, hm?  - Diodoro abriu um sorriso breve e depois voltou a seriedade usual. Certamente havia ironia na opinião dele sobre o apelido do novo funcionário.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Sorriu um pouco sem graça quando o amigo admitiu que se incomodava com a pressão da família. Concordou com um aceno positivo, entendo a posição do sujeito, pensando na própria família e em como as expectativas dos pais lhe fizeram ter muitos problemas durante a adolescência e o início da vida adulta. Respirou fundo quando, no discurso do moreno, ele parecia se culpar novamente, concluindo que era “estável” demais e por isso havia noivado com a mulher. <br />
<br />
- Obrigada. - agradeceu pelo cardápio, tocando no ombro de Dio ao indicar que também estava grata por ele chamar a atenção do sujeito que lhe trouxe as informações. Arqueou uma sobrancelha ao ouvir o nome do sujeito que estava trabalhando na funerária, associando o apelido com algum tipo de codenome que os sujeitos com quem trabalhava costumavam usar. - Vou dar uma olhada depois entre os meus clientes para verificar se esse cara tá na lista de beneficiados. - respondeu apenas, erguendo o olhar do cardápio para encarar Diodoro, tentando deixar claro que preferia saber com que tipo de pessoas estranhas ele se envolvia. Talvez estivesse sendo um tanto quanto protetiva, mas preferia se certificar de que o sujeito não estava se envolvendo em nenhuma armadilha, ainda mais dado o tipo de amigos que ele já tinha. <br />
<br />
Devolveu o cardápio pro sujeito que lhe atendia, escolhendo por pedir um crepe para si, enquanto Dio escolhia a tortinha. Observou melhor o moreno em silêncio, cruzando os braços e apoiando os cotovelos nos joelhos ao se inclinar para observá-lo melhor de baixo para cima. <br />
<br />
- Eu acho que todo mundo já teve algum relacionamento denso que não deu certo ou já se frustrou com algum caso alguma vez na vida, Dio. - começou com o tom tranquilo de quem parecia não entender o motivo do outro se culpar tanto. - Não tem problema você estar sozinho agora. Quero dizer, se você quisesse estar com alguém, de certo que você estaria com alguém. Poxa, você não é um galã de novela feito o gostoso do seu pai, mas os genes estão aí. - deu de ombros. - O que eu quero dizer é… você… - apontou para o moreno, séria. - … você quer estar com alguém? - perguntou, imaginando que o sujeito não precisava continuar se culpando por ser quem era ou pelo que havia acontecido em sua vida. Se ele era amigo seu e do tal de Karen, mais cedo ou mais tarde, descobriria que aquele tipo de culpa não ajudava em nada. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Apesar da aparência de Xavier, e do jeito extremamente rude, ele só parecia um moleque ignorante, nada mais que isso. O currículo que ele tinha trazido para a funerária também parecia ter sido feito com o jeito dele, um tipo de honestidade grosseira. Mas supunha que a funerária costumava atrair pessoas que nada eram como pareciam: Diodoro, Xavier, a médica que era bandida, e o bandido que tinha coração... e Hanna, de quem não conseguia discernir nenhum traço de caráter, exceto a disposição dela a se divertir com a cara dos outros.<br />
<br />
Concordou silenciosamente que ela buscasse informações sobre seu novo funcionário.<br />
<br />
Inesperadamente, Natalia fez o pedido do crepe para o sujeito da barraca e então, se curvou para lhe observar, de um jeito que por um instante não entendeu por que. Então encarou a loira diretamente, ouvindo toda a conversa dela sobre falhar em relacionamentos. O elogio ao seu pai lhe fez estranhar um pouco, mas fora isso, toda a conversa de Natalia parecia apenas plausível dado que tinha comentado do antigo relacionamento que não tinha dado certo. Respirou fundo, pensando na resposta mais adequada para a pergunta de Natalia.<br />
<br />
- Não gosto de ficar só. – Diodoro respondeu inicialmente, e então olhou Natalia longamente, antes de amenizar a expressão usualmente séria que tinha no rosto, até sorrir muito brevemente com os lábios cerrados. – Mas estou feliz com você. – confessou, então levando a mão até a nuca, a expressão muito calma. – De ter amigos preocupados. – adicionou, lembrando também de Karen, e até ocasionalmente de Hanna. Pior para Diodoro era não ter amigos fora as pessoas de sua família. Mas agora estava com um círculo de amizade bem incomum, mas que lhe satisfazia imensamente.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Natalia</span></div>
<br />
Prestou atenção na resposta do amigo enquanto deslizava os dedos pelo próprio queixo, pensativa. Encarou-o de volta, sendo pega de surpresa pelo sorriso repentino e a confissão da felicidade alheia por sua presença. Ajustou a própria postura, sorrindo com o leve rubor que lhe tomava a face, compreensiva e satisfeita por ele parecer a cada encontro mais e mais honesto com os próprios sentimentos. <br />
<br />
Levantou-se, arrastando o próprio banquinho para sentar ao lado do moreno, estendendo o braço pelas costas dele, abraçando-o de lado ao se sentar, pendendo a cabeça para o ombro alheio. <br />
<br />
- Oh, Dio… - suspirou, conformada com a personalidade dele, mais quieto, porém honesto. - Eu também sou feliz por ter um amigo que nem você. - ficou onde estava, observando o movimento ao redor por um instante antes de deixar o abraço para segurar a mão do moreno, ainda apoiada no ombro dele. - É engraçado. - riu baixo enquanto se distraía com a mão do outro, tentando estalar os dedos dele como de costume. - Isso não parece muito a sua cara. Aceitar um estranho no negócio da sua família. Sua irmã disse que você estava agindo diferente também quando fui lá na sua casa, o almoço abençoado em alemão, lembra? - brincou, recordando da risada do amigo com seu constrangimento. - Talvez… você não seja tão “estável” assim quanto pensa, Dio… <br />
<br />
Afastou-se por um instante assim que seu crepe chegou, estendendo as mãos para poder pegar o doce embalado no pacote de papel branco fino. Deu uma mordida generosa antes de oferecer a sobremesa também para o moreno para que ele experimentasse o sabor. Sabia que ele também gostava daquela mistura de fritura com chocolate. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
A reação de Natália foi bem diferente do que esperava. Ela pareceu genuinamente surpresa com suas palavras. Talvez estivesse sendo direto demais? Não que fosse de esconder quando gostava de alguém. E gostava da companhia de Natália, simples assim.<br />
<br />
Só não esperava que ela viesse sentar ao seu lado. Ficou completamente tenso com a aproximação da loira e o braço em volta do seu ombro. Estava desacostumado com tanta camaradagem, e diferente das aproximações inconvenientes de Hanna, ela parecia estar sendo só carinhosa. Apesar de ainda se incomodar com a mão dela na sua logo em seguida, deixou, na medida do possível, que ela estalasse seus dedos.<br />
<br />
Era reconfortante ter alguém próximo que não fosse sua família, que não estivesse só tentando tirar sarro da sua cara, ou só fosse uma grande bagunça de conflitos éticos. Na verdade, cada um dos seus novos amigos tinha algo a lhe oferecer, e embora nenhum deles fosse exatamente “apropriado” (pelo menos pelo que diria a polícia, se descobrissem), ter conhecido todos tinha lhe permitido se aproximar de pessoas... vivas. Até Xavier, que mal tinha conhecido. Era como Natalia disse, não era bem a sua cara contratar alguém que não era da família.<br />
<br />
Só não esperava ouvir ela dizer que não era “estável” como se descrevia.<br />
<br />
Diodoro ergueu as sobrancelhas em surpresa genuína, e então parou para pensar novamente sobre o que Natalia estava dizendo. Não que fosse um elogio. Mas tinha passado muito tempo pensando que sua estabilidade emocional era mais que isso, era inércia. Estava constantemente freando avanços, mudanças, e preso as mesmas situações e valores e a sua família. Mas aos poucos tinha mudado, não era? Nem percebeu quando se pegou sorrindo. Não um sorriso breve e irônico, mas um sorriso maior, suave, que quase não combinava com as olheiras de Diodoro.<br />
<br />
Virou direto para o crepe quando a amiga lhe ofereceu um pedaço, e deu uma mordida, escondendo a boca suja de chocolate atrás da mão, embora a expressão mais alegre fosse difícil de escapar do olhar dos outros.<br />
<br />
- Talvez... – Diodoro respondeu, logo depois de mastigar o pedaço. - ... ficasse melhor morango também. – falou sobre o crepe, embora estivesse brincando com a frase da amiga de anteriormente. – Nat. – tentou chamá-la pelo apelido, mas em uma rara ocasião, não conseguiu olhar para a loira diretamente enquanto a chamava por um apelido assim como ela lhe chamava de Dio. Na verdade, estava sendo orgulhoso demais com a tentativa. Mas não demorou dois segundos para o senso de vergonha lhe voltar, e o rosto sorridente se desfez em um breve pânico, e um rubor muito evidente que ele tentou disfarçar comendo a tortinha que tinha pedido.]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[[Drive] Novos Problemas, Novos Planos [Otheo; Fleur; Giulio]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=284</link>
			<pubDate>Wed, 22 Sep 2021 20:08:52 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=3">Lil</a>]]></dc:creator>
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			<description><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
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Não era sempre que Otheo acordava antes das dez da manhã, considerando o horário de funcionamento do bar. Embora estivesse um tanto cansado do trabalho na noite anterior e sentindo vontade apenas de que naquela noite pudesse passar as horas de sono agarrado com Giulio, prendeu as tranças em um rabo de cavalo alto e colocou uma camisa estampada, shorts coloridos e um tênis branco para fazer um caminho longo andando até a Antique.<br />
<br />
Naquela noite, celebraria o aniversário de Joel no bar, com todos os funcionários e clientes regulares, então a melhor opção, era que comprasse para ele uma torta de um dos sabores que ele gostasse. Com tantos anos de convivência, sabia o suficiente de Joel para arriscar lhe dar um bolo, e o suficiente da tia Margot para saber que ela prepararia um jantar gostoso, mas esqueceria o bolo.<br />
<br />
Otheo se abanou com um panfleto que ganhou no caminho até a loja, e então entrou na Antique com um tanto de calor, parando à porta e respirando fundo o ar mais fresco de dentro do estabelecimento.<br />
<br />
- Bonjou! – cumprimentou os funcionários, dando uma olhada na vitrine, que não tinha nenhuma torta inteira para sua infelicidade. Pensou em pedir para Fleur, mas tinha corrido por aí que Arman, o filho dela, tinha se envolvido em um acidente recente em St. Clavier. Não sabia se ela estava trabalhando regularmente. – Hmmm. E agora...?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
Os primeiros dias depois do acidente trágico de Arman tinham sido estranhamente comuns, porque a despeito de todo o ódio da mãe protetora que era Fleur, para a academia, para o diretor, para a falta de segurança e para o tal aluno perturbado que tinha cegado o seu filho de um olho, Arman parecia estar bem, simples assim. Como qualquer outro aspecto da vida dele, ele levou o acidente com mais tranquilidade do que ela esperava, não parecia fazer muita diferença que ele tivesse com um olho cego, ou pelo menos, as coisas demoraram longos dias até que ele compreendesse a extensão do ferimento.<br />
<br />
Foi apenas depois de voltar a tirar fotos que Arman pareceu perceber o que estava acontecendo com a sua capacidade de visão e como o olho esquerdo tinha que se adaptar a enxergar novos níveis de cores, profundidades e distâncias. A crise que ele tivera em casa e que só Carbella tinha visto, Fleur só podia imaginar, mas por mais apático que Arman costumasse ser em muitas situações, ela conseguia perceber que ele não estava bem. O que mais lhe frustrava, era não poder ajudar em nada.<br />
<br />
Naquele dia, depois de algum tempo tentando lidar com a recuperação do olho, Arman tinha decidido ir a Paris por conta de uma exposição numa galeria que estava usando suas peças. Até tinha se oferecido para acompanhá-lo, mas tinha sido prontamente negada, talvez fosse bom para ele rever o trabalho, falar com outros artistas, ter novas perspectivas. Sozinha com a sua preocupação, com Dieter ocupado com o trabalho, assim como Carbella, a melhor alternativa para Fleur naquele fim de manhã foi ir para a Antique e se distrair com o trabalho.<br />
<br />
Quando ela chegou à padaria, já passava das dez da manhã. Cumprimentou casualmente alguns dos clientes regulares e seus olhos pousaram nas roupas extravagantes de Otheo, com quem não conversava havia algum tempo. O sorriso para a escolha do guarda-roupa do amigo foi mais genuíno.<br />
<br />
- Essa é uma visão incomum. Você nunca chega à Antique antes de mim, Otheo. - ela passou ao lado do moreno, para ir até o outro lado do balcão, cumprimentando os funcionários e indo preparar um café para si mesma. - Indeciso?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
<br />
Como se por providência de algum dos seus deuses, ao invés de um cliente, enquanto refletia sobre como fazer para pedir uma torta inteira ainda para aquele dia, a própria Fleur entrou na loja, e abriu um largo sorriso para a presença da mulher, que logo assumiu seu lugar atrás do balcão como era natural.<br />
<br />
- Precisado. – Otheo respondeu prontamente, aproximando-se de onde Fleur estava para não tomar muito espaço na loja. Ele ocupava muito espaço naturalmente. – Bonjou, Fleur. É aniversário do Joel e não tem nenhuma torta inteira na vitrine. Sei que um Frankenstein de fatias seria gostoso igual, mas o rapaz merece algo menos de última hora. Mesmo... que seja de última hora. – Otheo explicou com um riso amarelo. – Acha que é possível fazer uma torta simples para ele para hoje à noite ainda?<br />
<br />
Otheo até faria cara de pidão, mas ele sabia que as circunstâncias dela eram mais complicadas que as suas.<br />
<br />
- Mas não precisa se não tiver tempo, soube que tem circunstâncias complicadas para lidar. Como está o seu filho? – Otheo questionou de um modo suave, um pouco preocupado.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
Fleur organizou algumas coisas atrás do balcão num modo quase automático, dando algumas instruções aqui e ali para seus funcionários enquanto Otheo se aproximava de onde ela estava, explicando a situação que precisava de uma torta de última hora para o funcionário mais dedicado do bar. Ela sorriu para o homem exótico e conhecido de longa data.<br />
<br />
- Você deveria sair daqui sem torta para aprender a se programar. - ela reclamou, estreitando os olhos na direção dele. - Mas eu concordo que o Joel merece mais do que um chefe desnaturado. Acho que posso tirar alguns minutos do meu tempo para lhe ajudar.<br />
<br />
Ela já ia se virar para a cozinha para dar novas instruções, quando Otheo apontou que ela tinha passado por algumas circunstâncias complicadas com Arman. Fleur suspirou longamente, se virando para o balcão de novo e voltando a encarar Otheo.<br />
<br />
- Está bem, na medida do possível, tentando se reajustar. - respondeu Fleur. - Ele viajou para Paris sozinho esse fim de semana, para pegar umas peças que estavam em exibição numa galeria. Eu acho que- - Fleur parou a sentença no meio, suspirando longamente e apoiando os braços em cima do balcão. - Eu realmente não sei o que fazer para ajudá-lo, Otheo. - ela suspirou, numa expressão abatida. Levou as duas mãos até o rosto, pressionando os olhos antes de passar as mãos pelo cabelo, colocando-o para trás para tentar se recompor. - Bom, qual o sabor da torta que vai querer?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
<br />
A expressão de Otheo claramente pareceu sentir a luvada direta na sua falta de planejamento, mas Fleur era muito maternal e boa de negócios para perder uma venda de uma torta inteira. Mas que merecia aquela, merecia. Joel de fato precisava ser mais respeitado, ainda mais depois do tanto que cuidou do bar sozinho enquanto ajustava seu ritmo com Giulio.<br />
<br />
- Eu mereço cada palavra. E você merece cada um dos meus centavos! Mèci, Fleur! Você é um anjo! – agradeceu, aproximando-se do balcão para ver os sabores de torta e pensar qual que Joel acharia mais gostosa.<br />
<br />
Fleur, discretamente, confessou que de fato aquele era um favor puxado, já que ela estava com dificuldade de lidar com Arman depois do acidente que ele teve em St. Clavier. Abriu um sorriso compreensivo para ela e estendeu a mão por cima do balcão, pegando a dela com carinho e apertando de leve.<br />
<br />
- Eu não sei se posso ajudar, madame, mas estou aqui se quiser conversar. Quem sabe se eu souber o que você está passando? Você é boa demais pra se preocupar assim sozinha. – deu um beijo breve no punho de Fleur. – E sabe, eu não sei se você ouviu por aí, mas meu namorado é um homem com treinamento em ouvir e dar conselhos direto no coração? Que tal assim: fraisier para hoje a noite, você está convidada para a festa do Joel, e se não puder, deixo sua fatia e pode vir à minha casa jantar comigo e Giulio e conversar? Hm?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
Antes que Fleur pudesse pensar no que fazer primeiro atrás do balcão, Otheo lhe segurou a mão num gesto de apoio, o que ela não estava exatamente dispensando naquele momento. Ela só arqueou uma sobrancelha quando viu o beijo galante no pulso e se rendeu a uma risada breve.<br />
<br />
- Devia estar agindo assim com outras pessoas além do seu namorado, Otheo? - Fleur retrucou num tom de falsa acusação. - Sinceramente, eu não sei se eu ou qualquer outra pessoa pode ajudar o Arman agora, mas eu estou precisando de um ouvido amigo. Eu vou dispensar a festa do Joel por agora, obrigada, mas o que acha de irmos até a minha casa? Posso fazer a sua torta no conforto da minha cozinha e garantir que estarei em casa quando Arman voltar. Pode convidar o Giulio para nos encontrar lá também, não vou cobrar pelo lanche da tarde.<br />
<br />
Ela só esperou pela confirmação de Otheo para a sua sugestão antes de ir até a cozinha dar novas instruções aos funcionários da Antique e pegar alguns materiais para a torta que não teria em casa. A caminhada até o distrito residencial era longa, mas estava precisando de longas caminhadas e companhias para espairecer um pouco mais.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
<br />
Otheo riu, afinal, deveria mesmo estar contendo os gestos muito carinhosos com Fleur. Embora Giulio fosse italiano, ele iria entender a afabilidade. O convite de Fleur entretanto foi para que fossem os dois até a casa dela, onde poderiam conversar confortavelmente. Provavelmente seria melhor para ela estar em casa para cozinhar.<br />
<br />
- Ah, isso quer dizer que vou ter a chance de observar e aprender sua receita? Pois aceito sim o convite. – Otheo falou, então pegando o celular para enviar uma mensagem para Giulio, convidando-o a lhe encontrar na casa de madame Johnson e lhe dando o endereço caso não soubesse. Supunha que não tinha que explicar muito, afinal, como professor de St. Clavier, ele era quem estava mais inteirado.<br />
<br />
Esperou a mulher pegar os ingredientes que faltavam e dar instruções aos funcionários para ficar livre para irem. Ofereceu-se para carregar a sacola e estendeu o braço a ela como um cavalheiro, embora bem soubesse que pela própria altura, segurar em seu braço as vezes era mais desconfortável que confortável. No caminho, conversou casualmente sobre os negócios naquele momento, e sobre o aniversário quase esquecido de Joel, e em um pulo, estavam na casa de Fleur, no aguardo de Giulio.<br />
<br />
- Bom, o bolo agora está a seu cuidado, Fleur. Não sei nada sobre confeitaria. Até o bolo de oferenda eu compro a vocês. Mas se me instruir, eu vou ser mais do que prestativo. – sorriu.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
- Isso quer dizer que teremos chance de trocar algumas receitas. Está perto do horário do almoço, então você pode fazer alguma coisa enquanto eu cuido da torta. - Fleur se adiantou em propor a troca de serviços. - Mas eu já vou adiantando, mesmo que decore minha receita, só vai ser tão boa quanto a minha quando se tornar mãe, Otheo.<br />
<br />
Ela deu uma risada breve para o homem e aceitou o braço para seguir até em casa. A conversa no caminho foi mais tranquila e com assuntos banais que não pesaram tanto na mente já cansada da mulher. Quando chegaram à sua casa, ela abriu a porta e deu espaço para que Otheo entrasse primeiro com a sacola de ingredientes, seguindo diretamente até a cozinha.<br />
<br />
- Agora que estamos aqui, não seria divertido se Dieter chegasse e nos visse casualmente preparando a comida? Vocês ainda não tiveram a chance de se conhecerem por mim, pelo menos. - disse a loira, separando os itens para preparar a torta em cima da mesa grande da cozinha. - Fique à vontade para escolher um prato para o almoço. E pode usar o que quiser também da cozinha e dos armários, a casa é sua, Otheo.<br />
<br />
Ela deixou que ele andasse pela cozinha, e não sabia quanto tempo Giulio ainda demoraria para chegar ali, mas deu a volta na mesa para ficar de frente para Otheo enquanto começava a preparar a torta.<br />
<br />
- Bom, o quanto você já sabe sobre o acidente do Arman? - ela perguntou logo, sabendo que ele teria mais detalhes de como Arman tinha se machucado já que estava num relacionamento com Giulio que agora ensinava em St. Clavier. Seria mais fácil tentar explicar o que estava passando a partir dali.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
<br />
Otheo ficou um pouco decepcionado que jamais faria um bolo tão bom quanto o de Fleur, mas podia impressioná-la com o almoço, se ela deixasse. Só precisava saber o que poderia cozinhar na casa dela, dependeria bastante dos ingredientes. Só fez questão de comprar um pouco de pimenta no caminho, afinal, dificilmente uma lady francesa teria uma pimenta ardida o suficiente sobrando na dispensa, mesmo que fosse uma boa cozinheira.<br />
<br />
- Dieter? Esse é o nome do felizardo? Tch. Homem de sorte, mesmo. – falou com uma leve indignação e a mão no peito, como se também não estivesse em um relacionamento. – Ficaria feliz de conhecê-lo, ainda não tive a chance. Se ele não for ciumento, claro. Não quero ser expulso a vassouradas. – Otheo falou, concordando silenciosamente com a cabeça quando Fleur disse que tinha liberdade para ver o que tinha ao redor e preparar algo para comerem. Acabou encontrando frango com osso e alguns ingredientes simples, e temperou o frango rapidamente, deixando-o descansar para preparar o arroz.<br />
<br />
Fleur pelo visto precisava mesmo conversar sobre Arman, pois não demorou para retomar o assunto.<br />
<br />
- Soube que outro aluno de St. Clavier machucou o olho dele. E que pelo visto o dano tinha sido imenso. Embora não conheça muito Arman, sei que ele é um artista, e muito reservado. Então imagino que tenha sido difícil para ele, e mais difícil para você. – comentou, então colocando o arroz em uma panela com alho e um pouco de óleo para fazer um arroz refogado. – Ah, também ouvi falar que os alunos andaram espalhando pela escola que você foi lá e deu um soco no diretor. Eu ri, mas esse rumor achei mais duvidoso.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
Fleur conseguia se mover e fazer as coisas muito mais naturalmente em sua cozinha, claro, por isso enquanto Otheo se familiarizava aqui e ali, ela começou o preparo da torta com muito mais agilidade, todos os ingredientes em mãos sobre a mesa. Até ficou surpresa com a quantidade de informações que Otheo sabia do acidente de Arman, e acabou deixando uma risada breve escapar aos lábios quando ele duvidou da veracidade do rumor do soco no diretor.<br />
<br />
- Bom, eu acho que o diretor St. Clavier ia gostar de rir do assunto também, mas devia estar com o queixo dolorido. - Fleur comentou, só reafirmando a veracidade do rumor, e mesmo que sua atitude tivesse sido apenas passional, era bom lembrar da sensação. De todo modo, não mudava a situação com Arman. - Eu ainda achei que tinha sido um acidente quando ouvi a notícia, mas foi intencional, ele queria mesmo machucar o Arman, e a intenção dele fez o Arman perder a visão do olho direito. Eu descobri que esse aluno estuda há algum tempo em St. Clavier, é problemático, faz acompanhamento psicológico, claro que ele deve ser de uma família rica pra ficarem encobrindo as coisas, então… não me arrependo da minha conversa com o diretor. <br />
<br />
A mulher suspirou pesadamente ao lembrar da situação e se distraiu um pouco do preparo da torta.<br />
<br />
- Você conhece o Arman, Otheo, ele nem pareceu se importar com o olho machucado quando estava no hospital. E parecia que estava tudo bem nos primeiros dias que ele estava se recuperando e voltou para casa. Mas o médico avisou que ele podia sentir diferença e ter um tempo para se adaptar, além de esforçar mais o outro olho. - Fleur seguiu com o relato, agora muito interessada em observar os ingredientes da torta ao misturá-los. - Eu sabia que não estava bem, Otheo. Quase me deixei levar pelo jeito dele. Até chegar em casa um dia e encontrar Carbella com ele no ateliê. Todas as pinturas estavam jogadas e as coisas quebradas e rasgadas, Otheo… eu não lembro da última vez que me senti tão desesperada por não poder fazer nada. - mais um longo suspiro escapou aos lábios de Fleur e ela precisou parar a torta, levando as duas mãos ao rosto e pressionando o espaço entre os olhos. - Ele disse que não consegue mais pintar, nem tirar fotos, nem enxergar nada como antes. Eu não sei o que fazer pra ajudar.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
<br />
Ficou surpreso em ouvir de Fleur que a história do soco do diretor tinha sido de verdade. Não era incomum que ouvisse rumores de todo lugar: trabalhava em um bar. Um professor bêbado, um aluno maior de idade, todos eram fontes de informação. E Giulio só precisava confirmar, se assim quisesse. Talvez um dia achassem que seu namorado era um fofoqueiro. Era bom tomar cuidado com isso.<br />
<br />
Otheo só não sabia muitos detalhes. Não tinha ideia de que tinha sido intencional, e que Arman tinha sido machucado pelo outro estudante de propósito. Pior era saber que além de proposital, o rapaz tinha conseguido tirar a visão do olho de Arman. Para ele, que trabalhava com fotografia e pintura e dependia bastante dos olhos, isso deveria ter sido um choque e tanto. Só que, como Fleur continuou explicando enquanto Otheo mexia o molho para por o frango, a situação enganosa de achar que a tranquilidade inicial de Arman era aceitação do que tinha acontecido. Na verdade, era só uma gradual percepção do que tinha acontecido. E supunha, como alguém que também apreciava arte, que quando ele retomou o que gostava e percebeu a diferença causada pelo olho, foi que sofreu o baque de verdade.<br />
<br />
- Bom, você está ao lado dele, já é bastante coisa, Fleur, por mais difícil que seja. – Otheo pensou, inchando as bochechas por um instante enquanto mexia o arroz na panela antes de deixar para ferver e secar, ao mesmo tempo que se movia para cortar algumas verduras. – Eu nem consigo imaginar como é difícil para o Arman. Se eu perdesse a audição de um ouvido e não conseguisse tocar mais como antes, eu ficaria frustrado. Mas sou um adulto. Ele está terminando os estudos agora, ainda tem muito o que desenvolver, eu só penso como deve ser complicado para ele. – falou, supondo que sentia certa empatia pela situação do rapaz. Era ainda mais difícil se conformar quando se era tão jovem. – Mas depois desse evento no ateliê, como ele está? No dia a dia mesmo...<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
Fleur sabia que não tinha muito o que poderia fazer para ajudar o filho a se recuperar naquela situação específica, mas era exatamente o que lhe deixava inconformada. Arman nunca tinha sido um rapaz muito expressivo, então ela tinha aprendido aos poucos como interpretar as reações dele e sabia que mesmo que parecesse bem, ele estava num lugar bem distante.<br />
<br />
- Eu sei que ele não está bem, e nem teria como, não é? Mesmo que o Arman seja daquele jeito calado, ele sempre ficava mais imerso nas fotos e nas pinturas, até falava demais quando estava interessado. - disse Fleur, levemente distraída entre os próprios pensamentos e o preparo do creme de recheio da torta. - Ele quebrou uma das lentes da câmera dele, nos últimos dias, não tem pintado nada, nem tirou fotos novas, se possível, está ainda mais quieto, só fazendo o necessário no dia-a-dia. Queria que tivesse algum jeito dele se sentir inspirado de novo, talvez seja mais difícil para ele do que era para o pai dele.<br />
<br />
Antes de seguir o preparo ou ouvir alguma resposta de Otheo, o som da campainha lhe fez deixar a torta de lado por uns instantes.<br />
<br />
- Seu namorado chegou mais rápido do que eu imaginei. Vou abrir a porta, pode continuar o almoço. - ela limpou as mãos num dos panos de prato para ir receber Giulio. Mesmo que não fosse a pessoa mais religiosa da cidade, até ela sabia quem era o jovem ex-padre de Cerise que tinha se tornado a conversa da cidade há alguns meses. - Olá, Giulio, espero que tenha sido fácil achar a casa. Ah, posso te chamar de Giulio?<br />
<br />
- Sim, Giulio está bom. Não foi difícil, e muita gente na vizinhança a conhece, acho que nem se eu tentasse, ia me perder. - Giulio sorriu amigável. - Otheo está aqui?<br />
<br />
- Está, pagando parcialmente pelo meu serviço com o almoço, se quiser se juntar a ele. - Fleur fez um aceno na direção da cozinha. - Por favor, fique à vontade.<br />
<br />
- Obrigado, madame.<br />
<br />
- Eu sei que sou mais velha do que você, mas não precisa apontar. - respondeu a mulher, fechando a porta depois que Giulio passou, com uma expressão sem graça. - Pode me chamar de Fleur.<br />
<br />
- C-certo, Fleur. Com licença. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
<br />
Sabia que no caso de Fleur, se Arman já era um enigma no dia a dia, agora ele tinha se tornado um quebra-cabeças muito difícil de montar. Mas surpreendeu-se de saber que ele tinha também seus acessos de fúria, porque era só assim que podia enxergar a lente quebrada, ou evitar as artes que lembravam a ele a visão que perdeu de um olho. Não sabia bem o que sugerir, senão talvez ele ter contato com algumas exposições de artistas em posições semelhantes? Será que conhecia alguns? Pior era pensar nesses casos e indicar a Arman sem parecer exatamente um tipo de auto-ajuda que seria pior que melhor no caso dele.<br />
<br />
Mas enquanto pensava, a campainha anunciou a chegada de alguém, que logo confirmou ser Giulio. Aproveitou que não estava fazendo nada além de colocar os pedaços de frango para cozinhar no molho e lavou as mãos para ir também receber o moreno.<br />
<br />
- Giulio, bem vindo. – Otheo falou da entrada, abrindo um largo sorriso para o namorado. – Venha nos ajudar no almoço. – falou, puxando uma cadeira à mesa para o moreno sentar, colocando uma tábua sobre a mesma e dando uma faca e alguns legumes para ele cortar. – Desculpe lhe fazer trabalhar assim que chegou. – riu, deixando um beijo breve sobre o topo da cabeça do namorado. – Fleur está fazendo um bolo para o aniversário do Joel. E eu estou aqui fazendo companhia, ouvindo sobre o Arman, lembra dele? Fleur, será que ele se sentiria disposto em ver algumas exposições de artistas que tiveram que se readaptar também...?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
Giulio foi pego logo no embalo da cozinha de Fleur, sentando-se na cadeira depois de cumprimentar Otheo brevemente com um sorriso e sendo instruído a cortar os legumes. Mas embora tivesse se adaptado rápido à atividade de fazer a comida depois de colocar a bolsa com materiais de aula pendurada no encosto da cadeira, se viu no meio da conversa que Otheo e Fleur tinham começado sem ele, e só pelo comentário de Otheo foi que ele demorou alguns segundos para assimilar que era de Arman que estavam falando. Era difícil não lembrar dele quando trabalhava em St. Clavier e a situação do rapaz tinha se difundido em mil e uma versões entre os alunos da academia.<br />
<br />
- Ah, sim, eu lembro… - Giulio só teve o tempo breve de concordar, enquanto começava a cortar os legumes, voltando a atenção para Fleur que estava preparando a torta e deu de ombros.<br />
<br />
- Nesse ponto, Otheo, eu acho que não custa tentar, o que quer que seja. Se conhecer esses artistas, me avise, posso passar pra ele, ou se você quiser conversar com ele pessoalmente. <br />
<br />
- Arman é um artista, não é? - perguntou Giulio. - Ele não tem aulas comigo, mas eu soube o que aconteceu. É verdade que ele perdeu mesmo a visão de um dos olhos? Deve estar sendo difícil se adaptar.<br />
<br />
- Sim, é verdade. - Fleur suspirou. - Ele teve sorte que não foi nada mais grave, afinal, o outro rapaz furou o olho dele e podia ter ido mais longe. Ele ainda enxerga bem com o outro olho, só precisa… se achar. Como mãe, é difícil ficar só esperando.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
<br />
Otheo seguiu cozinhando o ensopado que almoçariam, finalmente juntando tudo para os sabores se misturarem de verdade. Era bem ágil fazendo a comida, afinal, tinha anos de experiência cozinhando no Mary Stigmata quando não estava no comando do piano ou do bar. Uma pena que a comida não fosse ser tão saborosa, considerando a  preocupação de Fleur, que deixaria qualquer um sem sentir o bom sabor dos alimentos. Queria ter outra forma de ajuda-la, mas o caso de Arman era complicado.<br />
<br />
- Não fale como se você estivesse só esperando, Fleur. Você está preocupada e procurando formas de ajudar o seu filho. Lembre que são os olhos do Arman, e é ele quem tem que se readaptar gradualmente. Em alguns momentos só o que você vai poder fazer é esperar, é muito difícil mesmo. – Otheo comentou com um tom leve, embora fosse bem honesto nas palavras. – Ele está se recuperando, e vai se achar. Vou pedir muito a Erzulie, e se ela não quiser atender uma mãe que se preocupa com o filho, Ogou vai.<br />
<br />
Otheo mexeu um pouco a comida, pensativo.<br />
<br />
- Eu acho que, como artista, talvez ver outras perspectivas possa ajudar. Nem que seja para tirar o foco dele da mudança da visão... – ponderou.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
Fleur seguiu preparando a torta mais lentamente do que de costume, distraída entre a comida, o pensamento em Arman e as sugestões que Otheo lhe lançava. Ainda sentia-se muito incomodada pelo estado do filho, mas era bom poder conversar com outras pessoas que lhe ofereciam alternativas, e principalmente que lhe reforçavam que ela estava, sim, fazendo algo pelo filho, mesmo que não parecesse ter tanto retorno quanto ela gostaria.<br />
<br />
- Falando como italiano, posso dizer que não tem nada mais forte do que o desejo de uma mãe proteger o filho. - Giulio adicionou, tocando de leve no ombro de Fleur que estava ao seu alcance na mesa, recebendo um olhar quase curioso da mulher de volta. Mas ele logo retornou aos vegetais e virou o rosto brevemente para Otheo. - Otheo está certo, você está fazendo mais do que só esperar, e até o Arman deve sentir a sua dedicação. E se voltar ao mundo das artes deixá-lo mais frustrado porque não consegue se adaptar muito rápido, por que não testar outras perspectivas em geral? O Arman segue a carreira de artista há muito tempo?<br />
<br />
- Desde antes de achar as fotos do pai dele no meu guarda-roupa. - Fleur respondeu, esquecendo um pouco do preparo da torta. - Ele tira fotos e pinta há tanto tempo que eu nem sei o que sugeriria para ele além disso.<br />
<br />
- Eu não estou dizendo que ele não vai voltar a pintar ou tirar fotos, mas pode ser uma boa oportunidade para ver que o mundo dele não precisa se resumir a isso. Se seguir em contato com o mundo das artes o deixa incomodado, que tente outras coisas. - Giulio seguiu com o trabalho, tanto distraído com os vegetais quanto Fleur e a torta. - Por que não faz alguma coisa com ele também?<br />
<br />
- Alguma coisa com ele? - o questionamento de Fleur foi bem num tom de confusão. - Eu nem sei o que faria com ele nessa idade.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
<br />
Sorriu para a afirmação do namorado sobre família. Giulio era o italiano mais discreto que conhecia, mas supunha que ele tinha seus laços muito fortes com os familiares. As palavras dele eram boas também, de alguém que estava acostumado a confortar pessoas. Os anos de igreja com certeza tinham contribuído, e o trabalho voluntário reforçava essa empatia.<br />
<br />
Giulio inclusive fazia um bom ponto sobre Fleur participar da vida de Arman agora, no começo. Achar algo que os dois pudessem fazer juntos, para que ela voltasse a se aproximar dele, era uma boa sugestão. Afinal, uma das preocupações da mulher era que ela não sabia como lidar com Arman agora. Imaginava que depois de adulto como era o caso dele, era mais difícil para se aproximar e pedir para ele se abrir ou coisa parecida.<br />
<br />
- Talvez ele esteja velho para livros de colorir, mas existem muitas coisas que vocês podem fazer juntos. – brincou, aproximando-se de Fleur um tanto pensativo. – Eu gosto da sugestão de Giulio. Outras atividades podem tirar o foco da arte e mostrar a ele novas perspectivas... além de serem momentos em que vocês possam interagir melhor. – ponderou. – Pode ser só uma volta em um bairro que nunca tenham ido... ou até uma cidade vizinha. Algum festival próximo. Dá pra fazer trabalhos voluntários, ou construir algo juntos na cidade. Acho que vai ser importante vocês estarem juntos mais um pouco agora. E talvez traga algum alívio pra você, acompanhando Arman ainda mais de perto, talvez.<br />
<br />
Otheo pensou, e então tirou do fogo a comida, colocando-a para servir à mesa.<br />
<br />
- Bom, mas não vamos pensar nisso de estômagos vazios.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
Fleur não voltou ao preparo da torta de imediato, a mente agora divagando entre o que podia fazer por Arman e o que podia fazer com ele. Otheo também concordou com a sugestão de Giulio, e antes que ela pudesse pensar mais sobre o que sugerir, foi o ex-padre que pareceu muito interessado em algum dos comentários de Otheo.<br />
<br />
- Ah sim, dá pra fazer trabalhos voluntários! - a empolgação de Giulio foi notável tanto no tom quanto no olhar. - Não sei se ele já teve a chance de visitar o orfanato na cidade? Acho que as crianças iam gostar de desenhar e pintar com um artista de verdade, o que acha? Ah, mas eu acabei de sugerir uma coisa longe das artes. - ele voltou uma das mãos ao queixo, de modo pensativo. - E o que ele acha de ONGs? Eu tenho visitado alguns lugares que precisam de ajuda por conta das situações extremas, nós costumamos levar comida e roupas e ajudar nos locais atingidos por desastres naturais ou em situação de tensão política. Ajuda extra é sempre bem-vinda! Você e o Arman podiam ir também, eu posso indicar alguns… <br />
<br />
Giulio só cessou a empolgação quando deu conta da expressão um pouco surpresa de Fleur e a sugestão de Otheo de que era melhor não pensarem demais com o estômago vazio. O rosto do ex-padre assumiu um tom um pouco avermelhado e um sorriso sem graça.<br />
<br />
- Desculpe, acho que me deixei levar demais. - ele adicionou, notando que não tinha terminado a sua parte muito simples do almoço. - Eu só vou terminar isso aqui.<br />
<br />
- Não precisa se desculpar, eu agradeço pela sugestão, qualquer ajuda é bem-vinda. - respondeu Fleur com um sorriso amigável. - Bom, vamos aproveitar o almoço do Otheo e eu termino a sua torta depois. E Giulio, veja se dá um jeito nesse seu homem que esquece o aniversário do melhor funcionário que tem e quer resolver tudo de última hora.<br />
<br />
A única resposta de Giulio foi sorrir sem graça para o comentário de Fleur e ele ajudou Otheo a servir o almoço enquanto Fleur deixava os materiais da torta descansando antes de voltar ao trabalho.<br />
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[thread encerrada]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
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Não era sempre que Otheo acordava antes das dez da manhã, considerando o horário de funcionamento do bar. Embora estivesse um tanto cansado do trabalho na noite anterior e sentindo vontade apenas de que naquela noite pudesse passar as horas de sono agarrado com Giulio, prendeu as tranças em um rabo de cavalo alto e colocou uma camisa estampada, shorts coloridos e um tênis branco para fazer um caminho longo andando até a Antique.<br />
<br />
Naquela noite, celebraria o aniversário de Joel no bar, com todos os funcionários e clientes regulares, então a melhor opção, era que comprasse para ele uma torta de um dos sabores que ele gostasse. Com tantos anos de convivência, sabia o suficiente de Joel para arriscar lhe dar um bolo, e o suficiente da tia Margot para saber que ela prepararia um jantar gostoso, mas esqueceria o bolo.<br />
<br />
Otheo se abanou com um panfleto que ganhou no caminho até a loja, e então entrou na Antique com um tanto de calor, parando à porta e respirando fundo o ar mais fresco de dentro do estabelecimento.<br />
<br />
- Bonjou! – cumprimentou os funcionários, dando uma olhada na vitrine, que não tinha nenhuma torta inteira para sua infelicidade. Pensou em pedir para Fleur, mas tinha corrido por aí que Arman, o filho dela, tinha se envolvido em um acidente recente em St. Clavier. Não sabia se ela estava trabalhando regularmente. – Hmmm. E agora...?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
Os primeiros dias depois do acidente trágico de Arman tinham sido estranhamente comuns, porque a despeito de todo o ódio da mãe protetora que era Fleur, para a academia, para o diretor, para a falta de segurança e para o tal aluno perturbado que tinha cegado o seu filho de um olho, Arman parecia estar bem, simples assim. Como qualquer outro aspecto da vida dele, ele levou o acidente com mais tranquilidade do que ela esperava, não parecia fazer muita diferença que ele tivesse com um olho cego, ou pelo menos, as coisas demoraram longos dias até que ele compreendesse a extensão do ferimento.<br />
<br />
Foi apenas depois de voltar a tirar fotos que Arman pareceu perceber o que estava acontecendo com a sua capacidade de visão e como o olho esquerdo tinha que se adaptar a enxergar novos níveis de cores, profundidades e distâncias. A crise que ele tivera em casa e que só Carbella tinha visto, Fleur só podia imaginar, mas por mais apático que Arman costumasse ser em muitas situações, ela conseguia perceber que ele não estava bem. O que mais lhe frustrava, era não poder ajudar em nada.<br />
<br />
Naquele dia, depois de algum tempo tentando lidar com a recuperação do olho, Arman tinha decidido ir a Paris por conta de uma exposição numa galeria que estava usando suas peças. Até tinha se oferecido para acompanhá-lo, mas tinha sido prontamente negada, talvez fosse bom para ele rever o trabalho, falar com outros artistas, ter novas perspectivas. Sozinha com a sua preocupação, com Dieter ocupado com o trabalho, assim como Carbella, a melhor alternativa para Fleur naquele fim de manhã foi ir para a Antique e se distrair com o trabalho.<br />
<br />
Quando ela chegou à padaria, já passava das dez da manhã. Cumprimentou casualmente alguns dos clientes regulares e seus olhos pousaram nas roupas extravagantes de Otheo, com quem não conversava havia algum tempo. O sorriso para a escolha do guarda-roupa do amigo foi mais genuíno.<br />
<br />
- Essa é uma visão incomum. Você nunca chega à Antique antes de mim, Otheo. - ela passou ao lado do moreno, para ir até o outro lado do balcão, cumprimentando os funcionários e indo preparar um café para si mesma. - Indeciso?<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
<br />
Como se por providência de algum dos seus deuses, ao invés de um cliente, enquanto refletia sobre como fazer para pedir uma torta inteira ainda para aquele dia, a própria Fleur entrou na loja, e abriu um largo sorriso para a presença da mulher, que logo assumiu seu lugar atrás do balcão como era natural.<br />
<br />
- Precisado. – Otheo respondeu prontamente, aproximando-se de onde Fleur estava para não tomar muito espaço na loja. Ele ocupava muito espaço naturalmente. – Bonjou, Fleur. É aniversário do Joel e não tem nenhuma torta inteira na vitrine. Sei que um Frankenstein de fatias seria gostoso igual, mas o rapaz merece algo menos de última hora. Mesmo... que seja de última hora. – Otheo explicou com um riso amarelo. – Acha que é possível fazer uma torta simples para ele para hoje à noite ainda?<br />
<br />
Otheo até faria cara de pidão, mas ele sabia que as circunstâncias dela eram mais complicadas que as suas.<br />
<br />
- Mas não precisa se não tiver tempo, soube que tem circunstâncias complicadas para lidar. Como está o seu filho? – Otheo questionou de um modo suave, um pouco preocupado.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
Fleur organizou algumas coisas atrás do balcão num modo quase automático, dando algumas instruções aqui e ali para seus funcionários enquanto Otheo se aproximava de onde ela estava, explicando a situação que precisava de uma torta de última hora para o funcionário mais dedicado do bar. Ela sorriu para o homem exótico e conhecido de longa data.<br />
<br />
- Você deveria sair daqui sem torta para aprender a se programar. - ela reclamou, estreitando os olhos na direção dele. - Mas eu concordo que o Joel merece mais do que um chefe desnaturado. Acho que posso tirar alguns minutos do meu tempo para lhe ajudar.<br />
<br />
Ela já ia se virar para a cozinha para dar novas instruções, quando Otheo apontou que ela tinha passado por algumas circunstâncias complicadas com Arman. Fleur suspirou longamente, se virando para o balcão de novo e voltando a encarar Otheo.<br />
<br />
- Está bem, na medida do possível, tentando se reajustar. - respondeu Fleur. - Ele viajou para Paris sozinho esse fim de semana, para pegar umas peças que estavam em exibição numa galeria. Eu acho que- - Fleur parou a sentença no meio, suspirando longamente e apoiando os braços em cima do balcão. - Eu realmente não sei o que fazer para ajudá-lo, Otheo. - ela suspirou, numa expressão abatida. Levou as duas mãos até o rosto, pressionando os olhos antes de passar as mãos pelo cabelo, colocando-o para trás para tentar se recompor. - Bom, qual o sabor da torta que vai querer?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
<br />
A expressão de Otheo claramente pareceu sentir a luvada direta na sua falta de planejamento, mas Fleur era muito maternal e boa de negócios para perder uma venda de uma torta inteira. Mas que merecia aquela, merecia. Joel de fato precisava ser mais respeitado, ainda mais depois do tanto que cuidou do bar sozinho enquanto ajustava seu ritmo com Giulio.<br />
<br />
- Eu mereço cada palavra. E você merece cada um dos meus centavos! Mèci, Fleur! Você é um anjo! – agradeceu, aproximando-se do balcão para ver os sabores de torta e pensar qual que Joel acharia mais gostosa.<br />
<br />
Fleur, discretamente, confessou que de fato aquele era um favor puxado, já que ela estava com dificuldade de lidar com Arman depois do acidente que ele teve em St. Clavier. Abriu um sorriso compreensivo para ela e estendeu a mão por cima do balcão, pegando a dela com carinho e apertando de leve.<br />
<br />
- Eu não sei se posso ajudar, madame, mas estou aqui se quiser conversar. Quem sabe se eu souber o que você está passando? Você é boa demais pra se preocupar assim sozinha. – deu um beijo breve no punho de Fleur. – E sabe, eu não sei se você ouviu por aí, mas meu namorado é um homem com treinamento em ouvir e dar conselhos direto no coração? Que tal assim: fraisier para hoje a noite, você está convidada para a festa do Joel, e se não puder, deixo sua fatia e pode vir à minha casa jantar comigo e Giulio e conversar? Hm?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
Antes que Fleur pudesse pensar no que fazer primeiro atrás do balcão, Otheo lhe segurou a mão num gesto de apoio, o que ela não estava exatamente dispensando naquele momento. Ela só arqueou uma sobrancelha quando viu o beijo galante no pulso e se rendeu a uma risada breve.<br />
<br />
- Devia estar agindo assim com outras pessoas além do seu namorado, Otheo? - Fleur retrucou num tom de falsa acusação. - Sinceramente, eu não sei se eu ou qualquer outra pessoa pode ajudar o Arman agora, mas eu estou precisando de um ouvido amigo. Eu vou dispensar a festa do Joel por agora, obrigada, mas o que acha de irmos até a minha casa? Posso fazer a sua torta no conforto da minha cozinha e garantir que estarei em casa quando Arman voltar. Pode convidar o Giulio para nos encontrar lá também, não vou cobrar pelo lanche da tarde.<br />
<br />
Ela só esperou pela confirmação de Otheo para a sua sugestão antes de ir até a cozinha dar novas instruções aos funcionários da Antique e pegar alguns materiais para a torta que não teria em casa. A caminhada até o distrito residencial era longa, mas estava precisando de longas caminhadas e companhias para espairecer um pouco mais.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
<br />
Otheo riu, afinal, deveria mesmo estar contendo os gestos muito carinhosos com Fleur. Embora Giulio fosse italiano, ele iria entender a afabilidade. O convite de Fleur entretanto foi para que fossem os dois até a casa dela, onde poderiam conversar confortavelmente. Provavelmente seria melhor para ela estar em casa para cozinhar.<br />
<br />
- Ah, isso quer dizer que vou ter a chance de observar e aprender sua receita? Pois aceito sim o convite. – Otheo falou, então pegando o celular para enviar uma mensagem para Giulio, convidando-o a lhe encontrar na casa de madame Johnson e lhe dando o endereço caso não soubesse. Supunha que não tinha que explicar muito, afinal, como professor de St. Clavier, ele era quem estava mais inteirado.<br />
<br />
Esperou a mulher pegar os ingredientes que faltavam e dar instruções aos funcionários para ficar livre para irem. Ofereceu-se para carregar a sacola e estendeu o braço a ela como um cavalheiro, embora bem soubesse que pela própria altura, segurar em seu braço as vezes era mais desconfortável que confortável. No caminho, conversou casualmente sobre os negócios naquele momento, e sobre o aniversário quase esquecido de Joel, e em um pulo, estavam na casa de Fleur, no aguardo de Giulio.<br />
<br />
- Bom, o bolo agora está a seu cuidado, Fleur. Não sei nada sobre confeitaria. Até o bolo de oferenda eu compro a vocês. Mas se me instruir, eu vou ser mais do que prestativo. – sorriu.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
- Isso quer dizer que teremos chance de trocar algumas receitas. Está perto do horário do almoço, então você pode fazer alguma coisa enquanto eu cuido da torta. - Fleur se adiantou em propor a troca de serviços. - Mas eu já vou adiantando, mesmo que decore minha receita, só vai ser tão boa quanto a minha quando se tornar mãe, Otheo.<br />
<br />
Ela deu uma risada breve para o homem e aceitou o braço para seguir até em casa. A conversa no caminho foi mais tranquila e com assuntos banais que não pesaram tanto na mente já cansada da mulher. Quando chegaram à sua casa, ela abriu a porta e deu espaço para que Otheo entrasse primeiro com a sacola de ingredientes, seguindo diretamente até a cozinha.<br />
<br />
- Agora que estamos aqui, não seria divertido se Dieter chegasse e nos visse casualmente preparando a comida? Vocês ainda não tiveram a chance de se conhecerem por mim, pelo menos. - disse a loira, separando os itens para preparar a torta em cima da mesa grande da cozinha. - Fique à vontade para escolher um prato para o almoço. E pode usar o que quiser também da cozinha e dos armários, a casa é sua, Otheo.<br />
<br />
Ela deixou que ele andasse pela cozinha, e não sabia quanto tempo Giulio ainda demoraria para chegar ali, mas deu a volta na mesa para ficar de frente para Otheo enquanto começava a preparar a torta.<br />
<br />
- Bom, o quanto você já sabe sobre o acidente do Arman? - ela perguntou logo, sabendo que ele teria mais detalhes de como Arman tinha se machucado já que estava num relacionamento com Giulio que agora ensinava em St. Clavier. Seria mais fácil tentar explicar o que estava passando a partir dali.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
<br />
Otheo ficou um pouco decepcionado que jamais faria um bolo tão bom quanto o de Fleur, mas podia impressioná-la com o almoço, se ela deixasse. Só precisava saber o que poderia cozinhar na casa dela, dependeria bastante dos ingredientes. Só fez questão de comprar um pouco de pimenta no caminho, afinal, dificilmente uma lady francesa teria uma pimenta ardida o suficiente sobrando na dispensa, mesmo que fosse uma boa cozinheira.<br />
<br />
- Dieter? Esse é o nome do felizardo? Tch. Homem de sorte, mesmo. – falou com uma leve indignação e a mão no peito, como se também não estivesse em um relacionamento. – Ficaria feliz de conhecê-lo, ainda não tive a chance. Se ele não for ciumento, claro. Não quero ser expulso a vassouradas. – Otheo falou, concordando silenciosamente com a cabeça quando Fleur disse que tinha liberdade para ver o que tinha ao redor e preparar algo para comerem. Acabou encontrando frango com osso e alguns ingredientes simples, e temperou o frango rapidamente, deixando-o descansar para preparar o arroz.<br />
<br />
Fleur pelo visto precisava mesmo conversar sobre Arman, pois não demorou para retomar o assunto.<br />
<br />
- Soube que outro aluno de St. Clavier machucou o olho dele. E que pelo visto o dano tinha sido imenso. Embora não conheça muito Arman, sei que ele é um artista, e muito reservado. Então imagino que tenha sido difícil para ele, e mais difícil para você. – comentou, então colocando o arroz em uma panela com alho e um pouco de óleo para fazer um arroz refogado. – Ah, também ouvi falar que os alunos andaram espalhando pela escola que você foi lá e deu um soco no diretor. Eu ri, mas esse rumor achei mais duvidoso.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
Fleur conseguia se mover e fazer as coisas muito mais naturalmente em sua cozinha, claro, por isso enquanto Otheo se familiarizava aqui e ali, ela começou o preparo da torta com muito mais agilidade, todos os ingredientes em mãos sobre a mesa. Até ficou surpresa com a quantidade de informações que Otheo sabia do acidente de Arman, e acabou deixando uma risada breve escapar aos lábios quando ele duvidou da veracidade do rumor do soco no diretor.<br />
<br />
- Bom, eu acho que o diretor St. Clavier ia gostar de rir do assunto também, mas devia estar com o queixo dolorido. - Fleur comentou, só reafirmando a veracidade do rumor, e mesmo que sua atitude tivesse sido apenas passional, era bom lembrar da sensação. De todo modo, não mudava a situação com Arman. - Eu ainda achei que tinha sido um acidente quando ouvi a notícia, mas foi intencional, ele queria mesmo machucar o Arman, e a intenção dele fez o Arman perder a visão do olho direito. Eu descobri que esse aluno estuda há algum tempo em St. Clavier, é problemático, faz acompanhamento psicológico, claro que ele deve ser de uma família rica pra ficarem encobrindo as coisas, então… não me arrependo da minha conversa com o diretor. <br />
<br />
A mulher suspirou pesadamente ao lembrar da situação e se distraiu um pouco do preparo da torta.<br />
<br />
- Você conhece o Arman, Otheo, ele nem pareceu se importar com o olho machucado quando estava no hospital. E parecia que estava tudo bem nos primeiros dias que ele estava se recuperando e voltou para casa. Mas o médico avisou que ele podia sentir diferença e ter um tempo para se adaptar, além de esforçar mais o outro olho. - Fleur seguiu com o relato, agora muito interessada em observar os ingredientes da torta ao misturá-los. - Eu sabia que não estava bem, Otheo. Quase me deixei levar pelo jeito dele. Até chegar em casa um dia e encontrar Carbella com ele no ateliê. Todas as pinturas estavam jogadas e as coisas quebradas e rasgadas, Otheo… eu não lembro da última vez que me senti tão desesperada por não poder fazer nada. - mais um longo suspiro escapou aos lábios de Fleur e ela precisou parar a torta, levando as duas mãos ao rosto e pressionando o espaço entre os olhos. - Ele disse que não consegue mais pintar, nem tirar fotos, nem enxergar nada como antes. Eu não sei o que fazer pra ajudar.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
<br />
Ficou surpreso em ouvir de Fleur que a história do soco do diretor tinha sido de verdade. Não era incomum que ouvisse rumores de todo lugar: trabalhava em um bar. Um professor bêbado, um aluno maior de idade, todos eram fontes de informação. E Giulio só precisava confirmar, se assim quisesse. Talvez um dia achassem que seu namorado era um fofoqueiro. Era bom tomar cuidado com isso.<br />
<br />
Otheo só não sabia muitos detalhes. Não tinha ideia de que tinha sido intencional, e que Arman tinha sido machucado pelo outro estudante de propósito. Pior era saber que além de proposital, o rapaz tinha conseguido tirar a visão do olho de Arman. Para ele, que trabalhava com fotografia e pintura e dependia bastante dos olhos, isso deveria ter sido um choque e tanto. Só que, como Fleur continuou explicando enquanto Otheo mexia o molho para por o frango, a situação enganosa de achar que a tranquilidade inicial de Arman era aceitação do que tinha acontecido. Na verdade, era só uma gradual percepção do que tinha acontecido. E supunha, como alguém que também apreciava arte, que quando ele retomou o que gostava e percebeu a diferença causada pelo olho, foi que sofreu o baque de verdade.<br />
<br />
- Bom, você está ao lado dele, já é bastante coisa, Fleur, por mais difícil que seja. – Otheo pensou, inchando as bochechas por um instante enquanto mexia o arroz na panela antes de deixar para ferver e secar, ao mesmo tempo que se movia para cortar algumas verduras. – Eu nem consigo imaginar como é difícil para o Arman. Se eu perdesse a audição de um ouvido e não conseguisse tocar mais como antes, eu ficaria frustrado. Mas sou um adulto. Ele está terminando os estudos agora, ainda tem muito o que desenvolver, eu só penso como deve ser complicado para ele. – falou, supondo que sentia certa empatia pela situação do rapaz. Era ainda mais difícil se conformar quando se era tão jovem. – Mas depois desse evento no ateliê, como ele está? No dia a dia mesmo...<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
Fleur sabia que não tinha muito o que poderia fazer para ajudar o filho a se recuperar naquela situação específica, mas era exatamente o que lhe deixava inconformada. Arman nunca tinha sido um rapaz muito expressivo, então ela tinha aprendido aos poucos como interpretar as reações dele e sabia que mesmo que parecesse bem, ele estava num lugar bem distante.<br />
<br />
- Eu sei que ele não está bem, e nem teria como, não é? Mesmo que o Arman seja daquele jeito calado, ele sempre ficava mais imerso nas fotos e nas pinturas, até falava demais quando estava interessado. - disse Fleur, levemente distraída entre os próprios pensamentos e o preparo do creme de recheio da torta. - Ele quebrou uma das lentes da câmera dele, nos últimos dias, não tem pintado nada, nem tirou fotos novas, se possível, está ainda mais quieto, só fazendo o necessário no dia-a-dia. Queria que tivesse algum jeito dele se sentir inspirado de novo, talvez seja mais difícil para ele do que era para o pai dele.<br />
<br />
Antes de seguir o preparo ou ouvir alguma resposta de Otheo, o som da campainha lhe fez deixar a torta de lado por uns instantes.<br />
<br />
- Seu namorado chegou mais rápido do que eu imaginei. Vou abrir a porta, pode continuar o almoço. - ela limpou as mãos num dos panos de prato para ir receber Giulio. Mesmo que não fosse a pessoa mais religiosa da cidade, até ela sabia quem era o jovem ex-padre de Cerise que tinha se tornado a conversa da cidade há alguns meses. - Olá, Giulio, espero que tenha sido fácil achar a casa. Ah, posso te chamar de Giulio?<br />
<br />
- Sim, Giulio está bom. Não foi difícil, e muita gente na vizinhança a conhece, acho que nem se eu tentasse, ia me perder. - Giulio sorriu amigável. - Otheo está aqui?<br />
<br />
- Está, pagando parcialmente pelo meu serviço com o almoço, se quiser se juntar a ele. - Fleur fez um aceno na direção da cozinha. - Por favor, fique à vontade.<br />
<br />
- Obrigado, madame.<br />
<br />
- Eu sei que sou mais velha do que você, mas não precisa apontar. - respondeu a mulher, fechando a porta depois que Giulio passou, com uma expressão sem graça. - Pode me chamar de Fleur.<br />
<br />
- C-certo, Fleur. Com licença. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
<br />
Sabia que no caso de Fleur, se Arman já era um enigma no dia a dia, agora ele tinha se tornado um quebra-cabeças muito difícil de montar. Mas surpreendeu-se de saber que ele tinha também seus acessos de fúria, porque era só assim que podia enxergar a lente quebrada, ou evitar as artes que lembravam a ele a visão que perdeu de um olho. Não sabia bem o que sugerir, senão talvez ele ter contato com algumas exposições de artistas em posições semelhantes? Será que conhecia alguns? Pior era pensar nesses casos e indicar a Arman sem parecer exatamente um tipo de auto-ajuda que seria pior que melhor no caso dele.<br />
<br />
Mas enquanto pensava, a campainha anunciou a chegada de alguém, que logo confirmou ser Giulio. Aproveitou que não estava fazendo nada além de colocar os pedaços de frango para cozinhar no molho e lavou as mãos para ir também receber o moreno.<br />
<br />
- Giulio, bem vindo. – Otheo falou da entrada, abrindo um largo sorriso para o namorado. – Venha nos ajudar no almoço. – falou, puxando uma cadeira à mesa para o moreno sentar, colocando uma tábua sobre a mesma e dando uma faca e alguns legumes para ele cortar. – Desculpe lhe fazer trabalhar assim que chegou. – riu, deixando um beijo breve sobre o topo da cabeça do namorado. – Fleur está fazendo um bolo para o aniversário do Joel. E eu estou aqui fazendo companhia, ouvindo sobre o Arman, lembra dele? Fleur, será que ele se sentiria disposto em ver algumas exposições de artistas que tiveram que se readaptar também...?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
Giulio foi pego logo no embalo da cozinha de Fleur, sentando-se na cadeira depois de cumprimentar Otheo brevemente com um sorriso e sendo instruído a cortar os legumes. Mas embora tivesse se adaptado rápido à atividade de fazer a comida depois de colocar a bolsa com materiais de aula pendurada no encosto da cadeira, se viu no meio da conversa que Otheo e Fleur tinham começado sem ele, e só pelo comentário de Otheo foi que ele demorou alguns segundos para assimilar que era de Arman que estavam falando. Era difícil não lembrar dele quando trabalhava em St. Clavier e a situação do rapaz tinha se difundido em mil e uma versões entre os alunos da academia.<br />
<br />
- Ah, sim, eu lembro… - Giulio só teve o tempo breve de concordar, enquanto começava a cortar os legumes, voltando a atenção para Fleur que estava preparando a torta e deu de ombros.<br />
<br />
- Nesse ponto, Otheo, eu acho que não custa tentar, o que quer que seja. Se conhecer esses artistas, me avise, posso passar pra ele, ou se você quiser conversar com ele pessoalmente. <br />
<br />
- Arman é um artista, não é? - perguntou Giulio. - Ele não tem aulas comigo, mas eu soube o que aconteceu. É verdade que ele perdeu mesmo a visão de um dos olhos? Deve estar sendo difícil se adaptar.<br />
<br />
- Sim, é verdade. - Fleur suspirou. - Ele teve sorte que não foi nada mais grave, afinal, o outro rapaz furou o olho dele e podia ter ido mais longe. Ele ainda enxerga bem com o outro olho, só precisa… se achar. Como mãe, é difícil ficar só esperando.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
<br />
Otheo seguiu cozinhando o ensopado que almoçariam, finalmente juntando tudo para os sabores se misturarem de verdade. Era bem ágil fazendo a comida, afinal, tinha anos de experiência cozinhando no Mary Stigmata quando não estava no comando do piano ou do bar. Uma pena que a comida não fosse ser tão saborosa, considerando a  preocupação de Fleur, que deixaria qualquer um sem sentir o bom sabor dos alimentos. Queria ter outra forma de ajuda-la, mas o caso de Arman era complicado.<br />
<br />
- Não fale como se você estivesse só esperando, Fleur. Você está preocupada e procurando formas de ajudar o seu filho. Lembre que são os olhos do Arman, e é ele quem tem que se readaptar gradualmente. Em alguns momentos só o que você vai poder fazer é esperar, é muito difícil mesmo. – Otheo comentou com um tom leve, embora fosse bem honesto nas palavras. – Ele está se recuperando, e vai se achar. Vou pedir muito a Erzulie, e se ela não quiser atender uma mãe que se preocupa com o filho, Ogou vai.<br />
<br />
Otheo mexeu um pouco a comida, pensativo.<br />
<br />
- Eu acho que, como artista, talvez ver outras perspectivas possa ajudar. Nem que seja para tirar o foco dele da mudança da visão... – ponderou.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
Fleur seguiu preparando a torta mais lentamente do que de costume, distraída entre a comida, o pensamento em Arman e as sugestões que Otheo lhe lançava. Ainda sentia-se muito incomodada pelo estado do filho, mas era bom poder conversar com outras pessoas que lhe ofereciam alternativas, e principalmente que lhe reforçavam que ela estava, sim, fazendo algo pelo filho, mesmo que não parecesse ter tanto retorno quanto ela gostaria.<br />
<br />
- Falando como italiano, posso dizer que não tem nada mais forte do que o desejo de uma mãe proteger o filho. - Giulio adicionou, tocando de leve no ombro de Fleur que estava ao seu alcance na mesa, recebendo um olhar quase curioso da mulher de volta. Mas ele logo retornou aos vegetais e virou o rosto brevemente para Otheo. - Otheo está certo, você está fazendo mais do que só esperar, e até o Arman deve sentir a sua dedicação. E se voltar ao mundo das artes deixá-lo mais frustrado porque não consegue se adaptar muito rápido, por que não testar outras perspectivas em geral? O Arman segue a carreira de artista há muito tempo?<br />
<br />
- Desde antes de achar as fotos do pai dele no meu guarda-roupa. - Fleur respondeu, esquecendo um pouco do preparo da torta. - Ele tira fotos e pinta há tanto tempo que eu nem sei o que sugeriria para ele além disso.<br />
<br />
- Eu não estou dizendo que ele não vai voltar a pintar ou tirar fotos, mas pode ser uma boa oportunidade para ver que o mundo dele não precisa se resumir a isso. Se seguir em contato com o mundo das artes o deixa incomodado, que tente outras coisas. - Giulio seguiu com o trabalho, tanto distraído com os vegetais quanto Fleur e a torta. - Por que não faz alguma coisa com ele também?<br />
<br />
- Alguma coisa com ele? - o questionamento de Fleur foi bem num tom de confusão. - Eu nem sei o que faria com ele nessa idade.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Otheo</span></div>
<br />
Sorriu para a afirmação do namorado sobre família. Giulio era o italiano mais discreto que conhecia, mas supunha que ele tinha seus laços muito fortes com os familiares. As palavras dele eram boas também, de alguém que estava acostumado a confortar pessoas. Os anos de igreja com certeza tinham contribuído, e o trabalho voluntário reforçava essa empatia.<br />
<br />
Giulio inclusive fazia um bom ponto sobre Fleur participar da vida de Arman agora, no começo. Achar algo que os dois pudessem fazer juntos, para que ela voltasse a se aproximar dele, era uma boa sugestão. Afinal, uma das preocupações da mulher era que ela não sabia como lidar com Arman agora. Imaginava que depois de adulto como era o caso dele, era mais difícil para se aproximar e pedir para ele se abrir ou coisa parecida.<br />
<br />
- Talvez ele esteja velho para livros de colorir, mas existem muitas coisas que vocês podem fazer juntos. – brincou, aproximando-se de Fleur um tanto pensativo. – Eu gosto da sugestão de Giulio. Outras atividades podem tirar o foco da arte e mostrar a ele novas perspectivas... além de serem momentos em que vocês possam interagir melhor. – ponderou. – Pode ser só uma volta em um bairro que nunca tenham ido... ou até uma cidade vizinha. Algum festival próximo. Dá pra fazer trabalhos voluntários, ou construir algo juntos na cidade. Acho que vai ser importante vocês estarem juntos mais um pouco agora. E talvez traga algum alívio pra você, acompanhando Arman ainda mais de perto, talvez.<br />
<br />
Otheo pensou, e então tirou do fogo a comida, colocando-a para servir à mesa.<br />
<br />
- Bom, mas não vamos pensar nisso de estômagos vazios.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Fleur</span></div>
<br />
Fleur não voltou ao preparo da torta de imediato, a mente agora divagando entre o que podia fazer por Arman e o que podia fazer com ele. Otheo também concordou com a sugestão de Giulio, e antes que ela pudesse pensar mais sobre o que sugerir, foi o ex-padre que pareceu muito interessado em algum dos comentários de Otheo.<br />
<br />
- Ah sim, dá pra fazer trabalhos voluntários! - a empolgação de Giulio foi notável tanto no tom quanto no olhar. - Não sei se ele já teve a chance de visitar o orfanato na cidade? Acho que as crianças iam gostar de desenhar e pintar com um artista de verdade, o que acha? Ah, mas eu acabei de sugerir uma coisa longe das artes. - ele voltou uma das mãos ao queixo, de modo pensativo. - E o que ele acha de ONGs? Eu tenho visitado alguns lugares que precisam de ajuda por conta das situações extremas, nós costumamos levar comida e roupas e ajudar nos locais atingidos por desastres naturais ou em situação de tensão política. Ajuda extra é sempre bem-vinda! Você e o Arman podiam ir também, eu posso indicar alguns… <br />
<br />
Giulio só cessou a empolgação quando deu conta da expressão um pouco surpresa de Fleur e a sugestão de Otheo de que era melhor não pensarem demais com o estômago vazio. O rosto do ex-padre assumiu um tom um pouco avermelhado e um sorriso sem graça.<br />
<br />
- Desculpe, acho que me deixei levar demais. - ele adicionou, notando que não tinha terminado a sua parte muito simples do almoço. - Eu só vou terminar isso aqui.<br />
<br />
- Não precisa se desculpar, eu agradeço pela sugestão, qualquer ajuda é bem-vinda. - respondeu Fleur com um sorriso amigável. - Bom, vamos aproveitar o almoço do Otheo e eu termino a sua torta depois. E Giulio, veja se dá um jeito nesse seu homem que esquece o aniversário do melhor funcionário que tem e quer resolver tudo de última hora.<br />
<br />
A única resposta de Giulio foi sorrir sem graça para o comentário de Fleur e ele ajudou Otheo a servir o almoço enquanto Fleur deixava os materiais da torta descansando antes de voltar ao trabalho.<br />
<br />
[thread encerrada]]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[[Drive] Onesided Friendship [Mathew; Aleksei; Vivien]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=282</link>
			<pubDate>Wed, 22 Sep 2021 20:06:48 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=3">Lil</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=282</guid>
			<description><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Finalmente, após toda a confusão que se seguiu na cidade de Cerise durante os últimos meses, conseguiu a oportunidade de ir visitar Aleksei, um dos amigos que havia feito inicialmente na cidade, juntamente com o professor de biologia, Dieter. Arrumou-se para ir até o lugar onde ele deveria estar vivendo. Pelo que havia descoberto com as fofocas do colégio, o sujeito estava vivendo com o então ex-diretor de St. Clavier. Não gostava do sujeito, mas seu namorado também não era muito fã de Aleksei, então julgou que não havia porque a sua opinião importar naquele relacionamento do psiquiatra. Estava preocupado com o amigo desde quando ele havia começado a se comportar de uma forma esquisita no trabalho. Ele sempre parecia mais cansado que o normal e sempre que tocava no assunto, ele desviava das perguntas. <br />
<br />
Arrumou-se e saiu para passar no mercado e comprar um vinho e uma torta na Antique. Não gostava de visitar as pessoas de mãos vazias, ainda mais quando não havia conseguido avisar que estaria indo visitar o sujeito. Evitou entrar nos detalhes sobre sua visita com Benjamin, pois sabia que apenas irritaria o inglês e discutiriam sobre a necessidade dele levar um vinho para aquele encontro. Se pudesse, claro, marcaria um encontro apenas com o psiquiatra e o professor de biologia, mas ao que parecia, o senhor Dieter estava com os próprios planos agora que se enroscava com a tal dona da Antique. Tinha um pouco de receio de comentar qualquer coisa com a mulher por ela parecer severa, mas imaginou que combinavam muito bem pelo ar do professor sempre ser despojado e brincalhão. Eles deveriam se completar bem. Só não fazia ideia do que o psiquiatra enxergava no diretor irresponsável de St. Clavier. Diretor não. Ex-diretor. <br />
<br />
Parou a frente do condomínio, tirando o próprio celular do bolso para verificar se aquele era o endereço correto antes de informar na portaria que era um amigo do senhor Aleksei que deveria estar residindo no apartamento de número específico segundo as informações que havia conseguido em St. Clavier sobre o endereço do senhor Vivien. Aguardou a permissão para poder entrar no condomínio enquanto ajustava o próprio par de óculos, os fios loiros levemente assanhados como de costume e a barba por fazer. Estava correndo contra o tempo nos últimos dias devido ao vestibular para a bolsa de estudos em Medicina de Paris.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
A última semana tinha sido uma montanha-russa para Aleksei, desde a morte de Kyle até o lento ajuste na sua rotina agora morando na companhia de Vivien, oficialmente, seguidos de problemas na sua medicação, de visitas inesperadas e assuntos pendentes do trabalho e da administração de St. Clavier. A sua vida profissional e a de Vivien estavam uma verdadeira bagunça, mas ao menos tudo parecia fazer mais sentido na companhia do francês. Mesmo se esforçando para lhe manter companhia, Vivien tinha assuntos urgentes para resolver tanto em relação ao fim da carreira política que tinha apenas declinado no último mês, assim como problemas administrativos em St. Clavier que estava então sob o controle do Conselho Administrativo até então.<br />
<br />
Por isso, naquela manhã, depois de se certificar que Aleksei teria pelo menos alguma coisa leve no café da manhã antes de tomar os remédios, ele precisou sair para St. Clavier para continuar todos os procedimentos burocráticos. Aleksei se viu sozinho no apartamento que lhe parecia mais familiar do que a própria casa. Ao menos não tinha más lembranças ali da presença de Kyle, era um lugar seguro.<br />
<br />
Se a semana já tinha trazido surpresas interessantes como a visita de Maud e de Dieter, a ligação no interfone naquele dia trouxe mais uma surpresa para Aleksei com o anúncio do porteiro da visita de Mathew. Ele permitiu a entrada e por um instante, ficou até aliviado que teria companhia enquanto Vivien demoraria sabe-se lá quantas horas para retornar de St. Clavier.<br />
<br />
Aleksei seguiu até a porta de entrada, parando ali para esperar Mathew aparecer no elevador. Depois de apenas uma semana do fim da perseguição, sua aparência debilitada ainda era facilmente perceptível com o rosto pálido e os traços de olheiras no rosto bonito. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
O enfermeiro recebeu permissão na portaria para subir e não tardou em tomar o elevador, indicando o andar que iria descer. Parou ao sair da caixa metálica para dar de cara com o psicólogo, um dos primeiros amigos que havia feito naquela cidadezinha. Ele não parecia muito bem, visto as olheiras e a falta do rubor saudável bastante natural dele. Entretanto, não parecia que ele parecia mais inquieto. Sorriu abertamente ao encontrar Aleksei, sorrindo de orelha a orelha ao se aproximar para tocar o ombro do sujeito, dando-lhe algumas tapinhas. <br />
<br />
- Então, é aqui que o senhor está se escondendo? Era mais fácil te encontrar quando trabalhávamos no mesmo lugar. - riu do próprio comentário, estendendo a mão para tocar no rosto do amigo, parando antes de fazê-lo, imaginando que talvez ele pudesse ficar desconfortável. Apontou para os próprios olhos em um gesto simples, mantendo o sorriso no rosto. - Tem dormido melhor esses dias? Tá comendo direito? Eu trouxe um vinho para você. Eu não fazia ideia de qual era o seu favorito, então trouxe o que eu geralmente compro quando vou jantar com Benjamin. Ele é bom, eu acho. <br />
<br />
Não resistiu ao adentrar no apartamento em observar os detalhes do lugar que não parecia muito a cara do consultório mais simples, objetivo, limpo e prático. Não que o lugar fosse sujo, pelo contrário, mas não se lembrava do consultório do homem ter um cheiro específico de produto de limpeza geralmente utilizado por senhorinhas que lhe recomendavam promoções no supermercado. Gostava daquele novo perfume no ar, não tinha como negar. <br />
<br />
- Que lugar bonito. Está aqui há muito tempo? - resolveu perguntar, imaginando se o tal ex-diretor não estaria ali também.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
O semblante descontraído de Mathew e naturalmente preocupado era quase uma distração inesperada para Aleksei. O enfermeiro parecia muito satisfeito só de estar ali lhe visitando, o que acabou colocando um sorriso em resposta no rosto do psiquiatra. A presença quase ingênua de Mathew era uma mudança de ares bem diferente para os ares mais carregados das últimas semanas, e até mesmo quando ele foi invasivo ao levar a mão até o seu ombro e o seu rosto, Aleksei reagiu menos do que o esperado ao contrair os músculos em uma tensão breve.<br />
<br />
- Bom, sinto muito que seus dias vão ser desinteressantes sem mim por perto, Mathew. - Aleksei respondeu, dando um passo para o lado, deixando o caminho para convidá-lo a entrar. Antes de fazê-lo, deu uma olhada breve no presente que ele tinha escolhido para lhe trazer e quase teve vontade de rir com a escolha, ao segurar a garrafa. - Obrigado pelo presente, mas talvez não seja uma boa ideia beber no meu estado atual. Estou dormindo e comendo o quanto é possível, não posso exigir demais.<br />
<br />
Aleksei deixou que Mathew entrasse na casa e fechou a porta quando ele passou, acompanhando a visita até a sala e parando ainda com o vinho na mão na intenção de levar até a cozinha.<br />
<br />
- Guarde os elogios para o Vivien quando ele voltar, o apartamento é dele. Eu vim para cá há pouco menos de uma semana. - respondeu o grego, muito ciente mentalmente de quantos dias tinham se passado desde a morte de Kyle. A lembrança lhe fez divagar por um momento no caminho entre a sala e a cozinha, e ele voltou o olhar para o vinho que ainda tinha em mãos. - Eu vou deixar na cozinha, aceita água? Café? <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Manteve o sorriso, sentindo-se mais confortável com a resposta mais típica do amigo. Contudo, ficou um pouco mais preocupado por ele ainda estar precisando de cuidados com a própria saúde. Não fazia ideia de quais remédios ele estava tomando. Acabou por estreitar o olhar e fazer uma careta quase que automática ao pensar no diretor, ou ex-diretor, de St. Clavier. <br />
<br />
- Eu gosto de água. - respondeu, ajustando os óculos para observar melhor a iluminação natural do lugar. - Falando nele, por que ele está te ajudando agora? - resolveu perguntar, nunca havia passado por sua cabeça que o psicólogo estaria junto com o diretor ou que o sujeito estaria ajudando Aleksei por baixo dos panos. - Ele parece um cara educado, mas nunca conversamos de verdade, além do trabalho, claro. Não sabia que vocês se conheciam. Por que nunca convidou ele para quando fomos sair? Ele não bebe? - resolveu perguntar por curiosidade, aproveitando para escolher um lugar confortável para se sentar no sofá. <br />
<br />
Sacou o celular do bolso e rapidamente enviou uma mensagem para Benjamin, informando que já havia chegado no apartamento em que o psicólogo estava e aparentemente ele estava bem. Para mudar rapidamente de assunto, por saber que o namorado não gostava muito do psicólogo, resolveu perguntar o que iriam comer no jantar e se o inglês tinha muito trabalho naquela noite ou se poderiam ver um filme juntos, o tipo de programa caseiro que gostava de aproveitar. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
Aleksei só concordou com um aceno de cabeça quando ele optou pela água e foi buscar um copo na cozinha enquanto Mathew se fazia confortável na sala adjacente. O gesto de colocar a água no copo foi quase detido pelos movimentos de Aleksei quando ele ouviu a pergunta muito ingênua de Mathew sobre o motivo pelo qual Vivien o estava ajudando. Era até engraçado pensar que o relacionamento deles, de fato, nunca tinha sido óbvio para as pessoas de fora.<br />
<br />
Aleksei trouxe a água de volta à sala para o enfermeiro e se sentou numa das poltronas vazias, entretido com as suposições de Mathew sobre Vivien e o relacionamento dos dois. Bom, pelo menos era algo com que se distrair minimamente dado o seu estado nos últimos dias.<br />
<br />
- Por que será que ele está me ajudando, Mathew? - Aleksei não resistiu à pergunta retórica, que no caso de Mathew, não devia ser tão retórica. - Não sei, talvez porque eu seja um funcionário muito valioso? Ou porque ele não quer que eu denuncie ele ou a academia pela falta de segurança do último mês? Ou porque na verdade nós sempre tivemos um relacionamento íntimo e o Vivien na verdade é um sádico que gosta de me torturar nas horas vagas? Eu posso ter síndrome de estocolmo também, o que acha?<br />
<br />
Por mais estressantes que tivessem sido os últimos dias, era engraçado sentir um pouco de alívio e distração com a capacidade dedutiva de Mathew. Até ficou curioso por um momento para descobrir o que o enfermeiro achava que havia entre ele e Vivien.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Estranhou o tom da pergunta do amigo, mas agradeceu pelo copo com água. Começou a beber em silêncio, mantendo o líquido da boca ainda ao afastar o copo, pensativo sobre porquê ele estava lhe questionando tanto sobre algo que ele deveria saber. Foi então que lhe ocorreu que talvez ele estivesse tentando lhe ajudar a chegar em suas próprias conclusões. <br />
<br />
- Arg-cof cof coff!!! O-cof-que?! - engasgou exasperado, tampando a própria boca e o nariz quando a água retornou pelo canal nasal, causando desconforto maior assim que engasgou. Ainda bem que não havia pedido café. Encarou o psicólogo, sem entender aquelas perguntas, ainda mais quando ele cogitou a possibilidade do ex-diretor estar lhe torturando. - Ele tá te batendo?! <br />
<br />
Deixou o copo de lado, buscando o próprio celular de antemão, ficando mais atento à possível presença do ex-diretor, imaginando se ele não poderia chegar a qualquer momento. Desde quando havia sido assediado em St. Clavier, desconfiava que o homem não era correto, sendo conivente com aquele tipo de comportamento nocivo. <br />
<br />
- Você sabe que pode ficar lá em casa, não sabe? O Benjamin vai reclamar no começo, mas eu falo com ele, não se preocupe. É por isso que perdeu peso? E essas olheiras? Ele não te deixa dormir? - fez uma breve pausa. - E o que você quer dizer com síndrome de estocolmo?! Você tá apaixonado por ele? Aleksei, ele bate em você!? - indagou, encarando o amigo, perdido com a ideia de que tudo aquilo estava acontecendo sem que soubesse de nada. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
Era divertido brincar com Mathew, mas Aleksei certamente não esperava aquela reação exagerada. Menos ainda quando as opções que tinha sugerido ao enfermeiro eram tão absurdas quanto as que tinha listado. Na verdade, a resposta dele foi tão inesperada que, em uma semana apenas que estava começando a se acostumar com a rotina livre da perseguição de Kyle, Aleksei precisou esconder os lábios com um sorriso divertido. Era inesperado que ele estivesse mesmo achando graça da situação e talvez só Mathew tivesse aquela habilidade. <br />
<br />
- Bom, não nos últimos dias. - Aleksei respondeu, sobre a pergunta dele se Vivien estava lhe batendo. O mais irônico é que das opções absurdas que tinha dado a Mathew, podia responder com uma sinceridade distorcida e divertida. - Mas não é como se eu estivesse em condições de fugir, não é?<br />
<br />
Talvez não fosse uma boa ideia alimentar a visão que Mathew tinha de Vivien, claro, mas estava há tanto tempo sem um bom entretenimento que ele não teve como resistir à tentação. Era bom também sentir aquela casualidade e descontração que tinham sido impossíveis no último mês.<br />
<br />
- Eu agradeço pela oferta, Mathew, mas não sei se consigo sair mais do lado do Vivien. - a resposta foi, igualmente, num sentido dúbio, e o sorriso do psiquiatra se alargou um pouco quando o enfermeiro perguntou sobre a síndrome de estocolmo e muito pontualmente se estava apaixonado por Vivien. - Olha, eu lembro bem de ter agido como um adolescente apaixonado, se é que isso responde à sua dúvida. E sobre as surras, como eu disse, não nos últimos dias, ainda estou muito debilitado do último mês.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Sentiu o sangue correr mais rápido daquela injustiça com seu amigo, mas logo empalidece, chegando a conclusão de que Aleksei deveria mesmo estar sofrendo de síndrome de estocolmo. Notou o gesto de esconder o rosto do outro e chegou a pensar que talvez ele estivesse tentando esconder alguma marca que poderia servir de prova contra o ex-diretor. <br />
<br />
Não hesitou ao se aproximar, estendendo as mãos para o rosto de Aleksei para poder lhe segurar a face. Encarou-o com seriedade, procurando no rosto dele alguma marca recente de pancada. Notou, com o toque, como a mandíbula dele parecia mais visível, o que indicava que ele havia perdido peso. Usou os polegares para segurar o rosto do psiquiatra no lugar, virando seu próprio rosto ao observar as laterais da cabeça dele. Aproveitou que ele estava sentado e começou a procurar por marcas de pancada no couro cabeludo. <br />
<br />
- Isso é muito sério, Aleksei! Se ele te bate, você já deveria ter ido para a polícia! Eu não sou psicólogo, mas você deveria saber que isso não é saudável! - soltou o rosto do amigo, partindo para as mãos dele, investigando se não havia nenhuma marca ali pelos pulsos. - E você tá magro! O que você anda comendo ultimamente? Tá tomando algum suplemento alimentar? E, afinal de contas, por que você está aqui? Ele não te deixa sair, é isso? - perguntou, sentando-se novamente, os braços cruzados, indignado com a situação.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
Aleksei não conseguia acreditar que Mathew ia mesmo comprar aquela ideia de que Vivien estava lhe mantendo cativo, mas pelo visto, ainda podia ser surpreendido, ou podia se considerar um ótimo ator, porque antes mesmo de receber alguma resposta, notou a mudança de expressão do enfermeiro para uma que só podia classificar como indignada.<br />
<br />
Ele até pensou em cortar a brincadeira e explicar que nada daquilo era verdade, afinal, Mathew também devia ter visto no noticiário que o criminoso que fora morto em Cerise tinha ligação com Aleksei e era melhor explicar tudo devidamente. Mas antes de dar qualquer resposta capaz de esclarecer a situação, Mathew se aproximou de repente, levando as mãos até o seu rosto para avaliar o seu estado físico, e embora Aleksei pudesse ver com muita precisão que era Mathew ali a sua frente, o seu corpo reagiu automático ao avanço.<br />
<br />
A tentativa de explicar algo sumiu completamente da mente de Aleksei que, por um instante, processou o fato de que ia ser atacado de algum modo. Todo o corpo do psiquiatra se retesou e ele prendeu a respiração enquanto Mathew movia as mãos pelo seu rosto. O grego engoliu em seco, fechou as mãos sobre o colo, tentando esconder o breve tremor que surgiu ali, para encarar Mathew de volta e confirmar que era ele ali e não alguma sombra de Kyle. Aquela realização só veio de fato quando ouviu a voz de Mathew de novo e ele soltou seu rosto.<br />
<br />
Mais uma tentativa de explicar a situação foi por água abaixo quando ele rapidamente buscou seus pulsos. Mas daquela vez, Aleksei foi mais pontual em reagir, livrando-se dos toques de Mathew e, em resposta, segurando as mãos dele daquela vez. Seus dedos estavam um pouco gelados.<br />
<br />
- Mathew, acalme-se, nada disso é verdade. - disse Aleksei, soltando os pulsos dele. - Eu não achei que você ia acreditar tão fácil nessas alternativas absurdas, eu estava só brincando com a sua ingenuidade. É claro que Vivien não está me mantendo em cativeiro e eu não estou com nenhuma síndrome. Bom, não de estocolmo, pelo menos. - ele sorriu um pouco fraco, unindo as duas mãos sobre as pernas cruzadas. - Desculpe-me pelos velhos hábitos. Mas se lhe deixar menos irritado comigo, pelo menos sua reação me divertiu um pouco, eu estava precisando da descontração.<br />
<br />
Aleksei pensou em levantar para pegar água, mas sentiu que as pernas não colaborariam naquele momento, então só ajustou a posição, apoiando o cotovelo na mesa.<br />
<br />
- Eu imagino que você viu nos noticiários sobre o assassino que foi morto pela polícia no fim de semana passado, e um aluno de St. Clavier que era meu paciente e foi vítima dele também. - ele começou a explicar o que já era de conhecimento público, para só então adicionar a informação que não estava rolando solta pela mídia. - Na verdade, Kyle Bailey era um ex-paciente meu, ele era um serial killer que nunca foi condenado pelos crimes nos EUA e que ficou obcecado comigo. Ele veio para Cerise por minha causa, Mathew. Todo o tempo em que ele esteve aqui, na verdade, estava me perseguindo.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
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Ficou surpreso pelo toque em suas mãos e pelas reações do psicólogo. Ficou quieto enquanto ele pedia para que se acalmasse. Franziu o cenho quando ele disse que tudo não passava de uma brincadeira, mas não reclamou, achando melhor ouvir o que ele tinha para falar primeiro. Afastou-se no sofá, dando espaço para o amigo falar sobre o assassino que havia sido morto pela polícia. Arqueou uma sobrancelha, chocado com a ideia de que o sujeito era um ex-paciente obcecado com Aleksei. <br />
<br />
- Bem, a polícia fez o trabalho dela. E você não deveria mais ficar pensando nisso. - disse ao loiro, observando as reações dele com mais atenção. - Você está seguro agora, não é? E eu ainda não sei direito o que o diretor tem a ver com tudo isso, mas… bem, se ele está te ajudando, não deve ser uma pessoa tão ruim assim. - coçou a própria nuca, baixando o olhar. - Desculpe por não ter sido de muita ajuda para você nesse período. Eu deveria ter notado que alguma coisa estava errada com você. Bem, eu até tinha notado, mas não consegui ajudar muito. - fez uma breve pausa, antes de sorrir para o psicólogo, mais gentil. - Eu fico aliviado que tudo acabou e agora você vai poder se recuperar, dar mais atenção para sua própria saúde. <br />
<br />
Respirou fundo e suspirou, os ombros rebaixados em meio a má postura que normalmente costumava ter. Observou de novo o cenário daquela residência por um momento, antes de retornar a atenção para o psicólogo.<br />
<br />
- Vai… morar aqui agora? Não parece muito a sua cara. - riu baixo, imaginando que aquele assunto sobre o assassino fosse algo desagradável para o grego. - Na verdade, parece mais a casa dos meus pais lá no Canadá, minha mãe gosta dessas coisas que juntam poeira. Nunca imaginei que o diretor fosse uma senhorinha acumuladora por dentro. - brincou, imaginando o diretor visitando algum antiquário. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
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Aleksei ficou mais tranquilo quando Mathew se acomodou de novo no sofá, assimilando o que tinha acabado de explicar. Pelo menos já tinha esclarecido que não tinha nada de síndrome de estocolmo com Vivien, talvez aquela ideia ainda lhe fizesse rir no futuro. Ele só concordou com um aceno de cabeça quando Mathew apontou que a polícia tinha feito o trabalho e que estava seguro. Também não foi surpresa que ele estivesse se desculpando por não ter ajudado, não era como se alguém pudesse tê-lo feito.<br />
<br />
- Não se desculpe por isso, ninguém além da polícia podia me ajudar, na verdade. - Aleksei esclareceu. - Foi um mês longo e complicado. Kyle era perigoso, se ele descobrisse sobre todos os meus amigos próximos, podia usá-los contra mim; se eu fosse para um programa de proteção, ele podia fazer algo com as pessoas em St. Clavier. Ele até usou um dos meus pacientes para tentar me atingir... eu estava num beco sem saída. - ele suspirou longamente pela lembrança do que tivera que enfrentar, desviando o olhar de Mathew por um minuto.<br />
<br />
O olhar de Aleksei se focou por um instante na mesa de centro da sala e ele até deixou passar despercebido o comentário de Mathew de que ele podia se recuperar, dar atenção à saúde. Só voltou a atenção para o enfermeiro quando ele perguntou se ia morar ali, e ergueu o rosto para dar uma olhada ao redor também no apartamento que não tinha nada a ver, de fato, com seu estilo. De volta à conversa, Aleksei acabou rindo da comparação de Mathew de que Vivien era uma senhorinha acumuladora por dentro.<br />
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- Não, eu gosto de Cerise, mas no momento só me traz más lembranças. Você veio na hora certa, porque vou me mudar para Paris no fim de semana. Aliás, nós vamos. - ele corrigiu aquele detalhe com uma sensação de satisfação que não tivera em muito tempo. - O Vivien não tem só a ver com a situação, Mathew, ele tem a ver comigo. Nós nos conhecemos há mais de dez anos, ele me ajudou como podia no caso do Kyle, agora eu posso dizer com convicção que estamos juntos. - era estranho dizer aquilo em voz alta, para uma pessoa que estivera completamente alheia ao seu relacionamento com Vivien, mas lhe causava uma sensação de realização a ponto de sorrir naturalmente da ideia. - Juntos, como um casal, antes que você questione. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
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Ouviu o relato do grego e sentiu um leve rubor tomar seu rosto ao ser indiretamente referenciado como um “amigo próximo”. Contudo, baixou o olhar, ajustando os óculos, concluindo que apesar de tudo o que Aleksei estava dizendo fazer sentido, ainda queria ter sido capaz de ajudá-lo de alguma forma. Notou o olhar do loiro que parava para observar aquele ambiente e ficou até mais tranquilo ao ouvir o riso dele diante de sua colocação sobre viver ali. Entretanto, o sorriso sumiu de sua face com a revelação de que o sujeito se mudaria para Paris. Ficou triste com a notícia, não era bom em esconder suas reações, mas ainda assim também não permaneceu muito absorto em seus próprios sentimentos, surpreso com a ideia de que Vivien St. Clavier e o amigo se conheciam já há mais de dez anos. <br />
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- Vocês estão juntos há mais de dez anos já? Mas… ele é não é um político também? E, espera um pouco, ele não ia se casar!? Eu juro que tinha ouvido falar algo sobre um casamento dele com uma mulher! - encarou o grego, indignado. - Ele é seu namorado agora? Como foi que- QUANDO foi que isso aconteceu? <br />
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Estava acostumado em ser o último a saber das coisas que aconteciam com seus amigos, até mesmo com sua família, mas isso nunca arruinava sua surpresa ao começar a juntar os fatos, percebendo como os relacionamentos das pessoas ao seu redor eram bem mais complexos do que imaginava. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
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A mudança rápida de expressão de Mathew era uma boa distração para Aleksei, que não se sentia tão impelido a tentar ler demais numa pessoa que era um livro aberto como o enfermeiro. Por isso gostava da companhia dele, sem ter que se esforçar muito para entender o que ele sentia em relação a qualquer coisa. Mas nenhuma das expressões de surpresa enquanto contava a situação com Kyle superou a indignação de quando ele assimilou, em etapas, o seu relacionamento com Vivien. O grego não teve opção senão rir da reação exagerada, levando uma mão para cobrir os lábios no processo.<br />
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- Não estamos juntos há dez anos, nós nos conhecemos há mais de dez anos. - Aleksei corrigiu primeiro. - Sim, ele tinha uma carreira política, sim, ele casou, sim, ele se divorciou e sim, é meu... namorado agora. Ainda é estranho colocar assim. Mas aconteceu oficialmente só na semana passada, depois que o Kyle morreu, então... ainda tenho tempo para me acostumar.<br />
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Aleksei deu alguns instantes para que Mathew se acostumasse com as informações que tinha acabado de confessar, e era estranho ele mesmo assimilar aquilo colocado de um jeito tão natural, mas talvez precisasse de uma conversa casual daquela para ver tudo de uma perspectiva mais simples.<br />
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- Acho que está tudo mais claro agora? - perguntou Aleksei. - Sinto muito que não pude contar nada do que estava acontecendo antes, Mathew. Mas foi melhor assim. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
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Ficou mais aliviado quando o amigo começou a rir. Era bom assistir um Aleksei mais descontraído e menos inquieto com sua aproximação. Precisava se vigiar para não invadir o espaço pessoal do sujeito que ainda parecia precisar de um bom tempo de recuperação depois do ocorrido com o assassino e ex-paciente dele. <br />
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- Desculpa, só é estranho imaginar o diretor, desculpa, ex-diretor, sendo namorado de alguém, eu pensava que ele era um daqueles sujeitos de carreira política clássica, sabe? Esposa e filhos, família tradicional? - suspirou, ajustando os próprios óculos. - Bem, se você se apaixonou por ele, eu posso fazer um esforço também e tolerar o sujeito, não é segredo para você que não vou muito com a cara dele. - desviou o olhar, coçando a própria nuca. <br />
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Voltou para seu assento anterior, sentando-se na frente do grego no sofá, encarando o sujeito que realmente parecia ter perdido alguns quilos nas últimas semanas. <br />
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- Ele sabe cozinhar, pelo menos? Não vai me dizer que ele é um daqueles caras ricos que manda algum restaurante fazer todas as suas refeições e trazer aqui, não é? - perguntou, preocupado com a alimentação do amigo. - Se quiser, eu posso trazer alguns pratos que sei fazer, bem, eu não sei nada sobre pratos chiques, mas eu sou bom com comida caseira, pelo menos o Benjamin nunca reclamou. - explicou, rindo um pouco da breve lembrança doméstica de cozinhar pensando no que o namorado gostaria de comer. - E conta melhor isso de você estar com ele agora. Quando, quero dizer, como foi que vocês resolveram ser namorados? Ele vai voltar a dar aula? Você vai se aposentar da carreira de psicólogo? E o senhor St. Clavier é professor também, não é? Ele ensina o que? <br />
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Tinha que admitir. Às vezes, se sentia como um filho que estava acabando de receber a notícia de que os pais teriam um novo bebê e não fazia ideia de como é que aquilo havia chegado naquele ponto. Não fazia ideia de como a vida de seu amigo era complicada e isso lhe fazia se sentir mal, imaginando que esse tempo todo estava sendo um péssimo amigo, falando mais sobre seus próprios problemas que de fato conversando com o sujeito sobre assuntos em comum. Isso lhe fazia lembrar um pouco também da ruiva cereja, por quem ainda tinha uma admiração pelo esforço e carreira dela, mas que não se sentia ainda pronto para tentar se aproximar novamente da mulher que sempre havia visto apenas como uma amiga.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
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- Bom saber que ele tinha uma fachada convincente de homem de política com família tradicional cristã. - Aleksei respondeu, relaxado, dando uma risada descontraída especialmente quando Mathew apontou que não gostava muito de Vivien.<br />
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Era engraçado conversar com Mathew sobre o assunto, porque enquanto estivera tenso imaginando que todo o assunto de Kyle ressurgiria, seguido de perguntas que lhe seriam desconfortáveis e podiam até servir de gatilho, Mathew estava tão interessado no seu relacionamento com Vivien que pareceu esquecer completamente que estivera sendo perseguido por um serial killer por um mês. Era refrescante, ter que conversar sem se referir ao ex-militar, mais ainda, por falarem de algo tão banal quanto o seu relacionamento com Vivien que tinha passado por maus bocados até se concretizar.<br />
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- Eu sou a pessoa que sempre manda um restaurante fazer as refeições, Mathew. - esclareceu o grego com uma risada breve. - Mas por mais surpreendente que seja, o Vivien é bom na cozinha. Você pode não gostar muito dele, mas ele cuida bem de mim, não precisa se preocupar, não estou passando fome... na medida do possível. - ele precisou adicionar, já que ainda estava se readaptando a uma alimentação adequada. Mas as perguntas de Mathew foram bem além, uma por cima da outra, que naquele estado, Aleksei demorou a acompanhar. Ele levantou uma mão para tentar sinalizar para que Mathew contivesse a empolgação. - Calma. Vamos por partes. Eu obviamente não estou em condições de cuidar de outros pacientes agora, não pretendo me "aposentar", mas vou me afastar dos pacientes por um tempo. Vou para Paris fazer o meu tratamento agora. E o Vivien tem formação em antropologia, ele tem contatos em Sorbonne também para dar aulas e seminários, nós vamos dar um jeito de organizar as coisas por lá. E sobre meu relacionamento com ele, bom... já é uma história bem antiga. Nós nos relacionamos por pouco tempo no Japão há mais de dez anos, tivemos alguns encontros ao acaso e quando vim para St. Clavier, eu nem sabia que ele era o diretor, foi outra estranha coincidência. - ele adicionou, levando uma mão ao queixo, um pouco pensativo. - Bom… eu acho que eu já estava interessado nele há mais tempo do que posso lembrar agora.<br />
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Certamente, aquela era uma informação que nem os amigos mais antigos do grego sabiam. Menos ainda Vivien, é claro. Mas foi tão natural só dizer aquilo ao enfermeiro que ele se sentiu até estranho.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
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Arqueou uma sobrancelha sobre a tal “fachada hétero cristã” do ex-diretor de St. Clavier, mas ficou mais tranquilo com a risada que se seguiu do amigo. Estreitou o olhar para o amigo quando ele falou que era a pessoa que pedia para os restaurantes fazerem os pratos. Ao menos o homem não deixava o grego com fome. Ficou mais tranquilo quando ele lhe pediu calma. Observou a expressão do homem ao falar que daria início ao próprio tratamento. Ficou surpreso com as informações que lhe foram repassadas, principalmente quando descobriu que os dois haviam se conhecido em outro país. <br />
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- Mas que estranho, vocês se conheceram em outro país e agora estão juntos. Quais as chances de um relacionamento desses acontecer? - comentou, curioso para saber como os dois se conheceram. - E o que vocês estavam fazendo no Japão? Ele estudou antropologia no Japão? Que curioso. Eu nunca visitei a Ásia. Não sei se Benjamin gostaria de visitar algum dia, talvez a Nova Zelândia, Austrália, o Dieter é de lá, não é? <br />
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Sorriu abertamente para o amigo, animado com a ideia de algum dia poderem talvez fazer uma viagem juntos. Na verdade, tinha até planos em pedir o namorado em casamento, mas só o faria quando conseguisse adentrar a faculdade de medicina finalmente. <br />
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- Peraí. - fez uma pequena pausa, lembrando de um pequeno detalhe sobre a possibilidade dos dois manterem um relacionamento ainda que não oficial enquanto estavam trabalhando em St. Clavier. - Vocês já estavam saindo quando eu comecei a trabalhar lá em St. Clavier? Vocês não fizeram nada por lá não, né? - respirou fundo, inquieto. - Argh… uma vez eu recebi uma advertência por… “ruídos obscenos" quando eu estava começando a sair com o Benjamin, logo quando a gente se conheceu. - levou uma das mãos até a própria cabeça, bagunçando mais um pouco os cabelos loiros. - Ah… uma adolescência inteira cuidando dos meus sobrinhos para fazer isso na vida adulta em outro país. - suspirou, conformado e sem nenhum pudor em contar para o amigo que havia sido repreendido por transar no prédio dos professores em locais públicos com o namorado inglês.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
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Aleksei se convenceu logo de que Mathew nem lembraria da existência de Kyle, por isso não se importou em continuar com a conversa sobre Vivien, e a curiosidade do canadense parecia infindável.<br />
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- Não faço ideia das chances e nem acredito em destino, mas dados os acontecimentos recentes, estou grato pela coincidência. - Aleksei respondeu. - Hm... eu tinha acabado de chegar ao Japão por conta do meu mestrado, fiz intercâmbio lá por um ano. O Vivien era salaryman lá, mas estava voltando para Cerise quando cheguei, então só convivemos por pouco mais de um mês. E sim, Dieter é da Austrália, é um país bonito, mas se vocês não ficarem confortáveis no calor, é uma péssima escolha. Eu particularmente já tenho resistência por todos os anos na Grécia.<br />
<br />
Antes que eles pudessem seguir a conversa sobre os destinos de viagens, que Aleksei já tinha conhecido bastante, Mathew chegou a uma realização sobre o relacionamento dele com Vivien e, outra vez, o grego foi obrigado a conter uma risada breve, tanto pela presunção sobre o seu relacionamento com Vivien, quanto sobre os "ruídos obscenos".<br />
<br />
- Eu acabei de dizer que nós só estamos oficialmente juntos há uma semana, Mathew. - Aleksei se adiantou em corrigir o enfermeiro. - E sobre os seus "ruídos obscenos", eu acho que não tem nenhum funcionário em St. Clavier que não tenha ouvido sobre isso. Bom saber que você e o inglês estão explorando todas as possibilidades do seu relacionamento, mas tentem não extrapolar e acabar indo parar na delegacia por atentado ao pudor, hein?<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Ficou chocado com a informação de que o herdeiro da família St. Clavier havia ido para o Japão trabalhar como salaryman. Entretanto, acabou constrangido com a menção de que poderia ter ido parar na polícia por atentado ao pudor. <br />
<br />
- Muita coisa mudou desde que vim pra cá, sabe? Normalmente eu não consideraria nunca parar na polícia por atentado ao pudor, mas dada a minha sorte, acho que é uma chance provável de acabar na polícia ou no hospital. - riu de si mesmo, fazendo uma breve pausa antes de voltar sua atenção de novo para o amigo. - Fico feliz de que esteja indo para Paris, Aleksei. Pelo menos não é tão distante e posso te visitar quando eu e Benjamin fomos visitar a cidade. <br />
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Parou de novo, estendendo a mão para coçar a própria bochecha e arrumar os óculos mais uma vez, pensativo sobre o que havia acabado de dizer. Antes que Aleksei pudesse dizer algo sobre o assunto, estendeu a mão, sinalizando que precisava se explicar. <br />
<br />
- Quero dizer, se for tudo bem para vocês, é claro. E-eu estou estudando faz um tempo para conseguir uma bolsa de estudos, se tudo der certo, vamos acabar tendo que nos mudar para lá também. - respirou fundo, encarando o grego. - Na verdade, eu ainda não conversei direito sobre isso com Benjamin. Eu me sinto meio mal que ele tenha que deixar a profissão dele de lado para ficar comigo caso eu precise me mudar para Paris. Isso não aconteceu com vocês? Bem, o que eu quero dizer é que a carreira de vocês é bem sólida, isso não te deixa ansioso? - perguntou mais de forma amistosa, sem conseguir evitar o comentário sobre o próprio relacionamento. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
- Bom, no hospital você já passou e eu estava lá. Então quando for parar na delegacia, por favor, me dê o prazer de filmar e mandar para o seu inglês de novo. - respondeu Aleksei, lembrando que ele e Dieter também tinham arranjado uma foto especial de presente de natal para Benjamin que envolvia Mathew e uma ruiva. - Eu gostaria de uma visita em Paris quando você for para lá, também, Mathew. É muito fácil conversar com você, eu estava precisando de uma companhia assim depois do mês de estresse, tenho certeza que Vivien não vai se importar.<br />
<br />
Talvez ele se importasse, mas se fosse o caso, seria ainda mais divertido para Aleksei ver a reação dele sempre que Mathew fizesse alguma visita inconveniente e o pensamento lhe fez sorrir brevemente de novo.<br />
<br />
- Primeiro, você já devia ter conversado com o Benjamin sobre isso, afinal, vocês já até moram juntos, então é bom ele estar preparado para essas mudanças se você realmente tiver que ir para Paris. - disse Aleksei, com a sensação casual de que estava de volta ao seu consultório no meio de uma sessão. - Mas seu namorado tem cara de que se adapta fácil, e se ele sabe que você está estudando pra isso, também já imagina que vai ter que se mudar eventualmente. Ou quem sabe, ele está planejando lhe deixar até lá? - claro, era ainda mais interessante sugerir alguma coisa para deixar Mathew incomodado com a perspectiva. - Não tenho esse problema com Vivien, ele não vai poder continuar na direção de St. Clavier, não tem nada que o prenda aqui. Eu tenho investimentos e outras fontes de renda além do trabalho de terapeuta, então posso tomar meu tempo para me estabelecer, de todo modo, ele disse que iria comigo e eu não vou insistir no contrário.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Franziu o cenho com o comentário sobre sua ida acidental para o hospital. Também já havia sido preso, acidentalmente. Porém, sorriu mais contente pelo grego admitir que gostava de sua companhia. Era uma sensação boa de reciprocidade, pois também gostava de conversar com ele e com o biólogo, ainda que, na maior parte do tempo, fosse julgado por ambos. <br />
<br />
Concordou com um aceno em silêncio, coçando a própria nuca quando Aleksei fez questão de lhe lembrar que já deveria ter conversado sobre o assunto com Benjamin. Entretanto, encarou assustado o psicólogo com a possibilidade de que, talvez, Benjamin estivesse planejando se ver livre de sua pessoa assim que conseguisse a bolsa de medicina em Paris. Não imaginava que fosse algo imediato, mas não imaginava sua vida mais longe do outro homem. Talvez ele sequer tivesse pensado sobre o assunto, ou talvez tivesse pensado e estava feliz com a ideia de se ver livre de sua presença enquanto estaria vivendo em Paris. <br />
<br />
Baixou o olhar, desanimado com a ideia. Conseguir se tornar um bom médico era seu sonho desde que era criança, mas também queria poder viver o momento com o inglês. Se não pudesse conciliar os dois, não sabia ao certo o que faria, se seria obrigado a escolher ou se acabaria novamente frustrado e sem perspectivas. <br />
- Vocês pensam em se casar também? - resolver perguntar, imaginando que era algo natural para se pensar. Bem, o relacionamento dos dois parecia ter apenas iniciado, mas imaginava que em meio a toda aquela confiança e sentimento no meio do inferno que foram as últimas semanas, não haveria porquê para não considerarem a possibilidade. Ficaria feliz em pensar em ir em um casamento futuro do amigo. Contudo, imaginou que seria mais realista pensar que, talvez, Dieter fosse o primeiro a se casar novamente com a dona da tal padaria Antique. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Vivien</span></div>
<br />
Vivien estava detestando a nova rotina de resolver problemas em St. Clavier. Porque em geral, seu posto de diretor significava não ter que fazer muito, exceto anúncios, cerimônias e diplomacia. E naquele dia, tinha deixado Aleksei em seu apartamento com a perspectiva da visita de Mathew Morrisson, o enfermeiro e amigo do psicólogo. Apesar de não nutrir muita simpatia pelo enfermeiro, estava preocupado com Aleksei e conversar com os dois parecia um tipo de diplomacia mais agradável que o inferno burocrático de St. Clavier.<br />
<br />
Quando finalmente foi liberado dos trabalhos do dia, decidiu ir direto para o apartamento, considerando que Aleksei ainda não tinha lhe dado nenhum sinal de que o enfermeiro tinha ido embora. Talvez devesse ter comprado alguma coisa para ser um bom anfitrião, mas podia oferecer café, chá ou alguns biscoitos caso precisasse.<br />
<br />
Ouviu apenas de longe a conversa quando finalmente chegou do elevador e entrou no apartamento, dando apenas algumas batidinhas leves na porta para anunciar sua chegada ao par. Mas pegou Mathew fazendo uma pergunta muito inoportuna, o que lhe fez erguer de leve o queixo e olhar para o sujeito longamente.<br />
<br />
- Não sabia que iria se casar, monsieur Morrisson. Parabéns? – Vivien respondeu por Aleksei, erguendo de leve uma sobrancelha. Não que quisesse cortar o assunto completamente, mas o grego mal tinha se acostumado a ser seu namorado, talvez fosse um grande susto se admitisse que não tinha nada contra tê-lo como marido. E o enfermeiro estava adiantando em muito os planos.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
Mathew não chegou a se desesperar com a sua ideia de que Benjamin poderia já estar pensando em deixá-lo, mas o jeito como ele mudava as expressões deixava claro que a ideia o preocupava. Aleksei quase se sentiu culpado por colocar a dúvida na mente do enfermeiro, mas tinha que admitir que estava se divertindo com a situação geral. Claro, não precisava continuar torturando o enfermeiro mentalmente daquele jeito, mas pelo menos sabia que ainda tinha jeito.<br />
<br />
- Não se preocupe, Mathew, eu tenho certeza que do jeito que o inglês gosta de você, vai lhe seguir até Paris. É só pedir com jeitinho. - Aleksei adicionou, com um sorriso breve, e foi bem em tempo de prestar atenção nas batidas leves da porta e ouvir os passos que ele já sabia que anunciavam a chegada de Vivien. Voltou-se para Mathew antes de sequer pensar em se levantar. - Ah, eu acho que é o Viv-<br />
<br />
Talvez Mathew estivesse muito assustado com a ideia de que Benjamin podia lhe abandonar, porque ele pareceu não ouvir a tentativa de pergunta de Aleksei, cortando-o no mesmo instante perguntando se “eles” pensavam em se casar. A surpresa se mostrou no rosto de Aleksei mais do que ele queria, o que lhe impediu de responder rápido. Quem interveio foi Vivien, congratulando Mathew por um suposto casamento, só então fazendo Aleksei ter alguma reação, ao desviar o olhar do enfermeiro para Vivien que tinha acabado de aparecer na sala.<br />
<br />
- Ah, Vivi… en. - Aleksei ainda demorou um pouco a processar a situação, mas então se levantou, mostrando o sorriso entretido de Vivien para Mathew, seguindo o desvio de assunto. - É uma boa ideia, se você pedir o inglês em casamento, vai ter certeza de que ele vai com você para Paris se precisar, não é, Mathew?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Esperava ouvir a resposta de seu amigo, mas foi pego de surpresa quando o dono do apartamento parecia finalmente ter chegado. Arqueou os ombros e franziu a sobrancelha em reflexo à presença de Vivien St. Clavier, mas acabou por sentir o rubor lhe tomando a face com a ideia de que poderia se casar com Benjamin. Claro que já havia pensado na possibilidade de pedir o inglês em casamento, mas não era sobre isso que estava falando. <br />
<br />
- E-eu não-- - franziu o cenho de novo, olhando para Aleksei dessa vez, surpreso que o outro ainda estava apoiando o apoio desnecessário do ex-diretor. - Mas… casamento, Aleksei… - fez uma breve pausa, ignorando por um momento a presença de Vivien enquanto ajustava o próprio par de óculos. - … mas e se ele não estiver pronto para isso agora? Quero dizer, a gente se dá muito bem junto, brigamos às vezes, mas nada além do normal, mas casamento… e a minha família… se eles souberem, vão querer vir todos para cá… <br />
<br />
Fez uma pausa, observando finalmente como o ex-diretor parecia estranho em sua presença. Não pelo comportamento dele, mas por nunca tê-lo imaginado em um apartamento tão aconchegante como aquele. Relaxou um pouco, recordando que de fato aquele imóvel era do sujeito e que agora ele e seu amigo eram namorados. <br />
<br />
- Ah, desculpe. É muito bonito seu apartamento, dire- fez uma nova pausa, erguendo a mão em sinal de correção própria. - … senhor Clavier? - olhou para o homem em sinal de dúvida, esperando que ele lhe corrigisse se estivesse usando a forma de tratamento errada agora que ele não era mais diretor ou seu superior. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Vivien</span></div>
<br />
O francês não pode senão sorrir com a entonação de Aleksei ao falar seu nome, como quem claramente tinha adicionado o “en” só para não revelar seu apelido ao enfermeiro. Não que se importasse, desde que o outro não pensasse em lhe chamar por menos que o seu sobrenome. Mathew rapidamente lhe distraiu, todo nervoso com a possibilidade de um casamento com... Benjamin Vaughn? Sempre pensava que o jovem professor inglês o enfermeiro era um pouco de desperdício, mas já não tinha moral para criticar o rumo do romance de ninguém.<br />
<br />
- Um casal estável e uma família participativa. Parece-me um bom caso para casamento, monsieur Morrisson. – continuou, apenas para desviar completamente o assunto da ideia de um casamento seu com Aleksei... pelo menos por ora.<br />
<br />
Vivien agradecia o elogio ao apartamento – já que esses eram muito raros –, mas podia dispensar a lembrança que não era mais diretor em St. Clavier, e sim, o irritante Soren Halstein. Bom, não que estivesse insatisfeito com o que havia conquistado com isso.<br />
<br />
- Monsieur St. Clavier está ótimo. – deu um sorriso comercial antes de olhar ao redor. – Merci, monsieur Morrisson. Só espero que não se incomode com a bagunça, ultimamente não tenho tido tempo de limpar, mas acho que você compreende. – Morrisson podia não ser a pessoa mais bem relacionada do campus, mas já deveria ter chegado até ele a fofoca de que o antigo Diretor estava respondendo muitos pais por todo o caso recente na escola, além de tentando deixar tudo pronto para o novo diretor. – Alek... sei. Vou tomar um banho e volto em breve para me juntar a vocês. – Vivien brincou de volta com o grego, beijando-lhe o topo da cabeça antes de sair em direção ao quarto para seu banho merecido.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
- Eu concordo com Vivien, Mathew. Se a sua família até faria questão de vir para a cerimônia, acho que é indicativo suficiente de que vocês formam um belo casal. - Aleksei adicionou ao comentário de Vivien, ainda de pé ao lado do francês, mesmo que estivesse encarando o seu convidado inusitado. Só voltou a olhar para Vivien quando ele lhe chamou com aquela pausa no nome e disse que iria tomar um banho.<br />
<br />
Se foi estranho para Aleksei a tentativa de chamar Vivien pelo apelido na frente de Mathew, pareceu ainda mais estranho quando ele naturalmente se aproximou para lhe beijar o topo da cabeça antes de sair. Estranho para a reação de Aleksei, mas obviamente bem natural para Vivien. Ele finalmente se virou de novo para o enfermeiro, voltando a se sentar para fazer companhia a ele.<br />
<br />
- Bom, eu não vou estar em Cerise, mas vou lhe mandar o meu endereço em Paris. Aceito o convite para o seu casamento com o inglês. Inclusive, aceito o convite para ser o seu padrinho também, o que acha que o Benjamin ia pensar disso? - ele sugeriu, com um tom jocoso de quem estava muito entretido com a conversa como não tinha estado nos últimos dias.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Por um instante, sentiu como se a conversa sobre seu suposto casamento fosse fonte de entretenimento para os dois, mas ao invés de ficar irritado com eles por isso, ficou inquieto com a ideia que, de fato, sua família viria para seu casamento e ainda ficariam perguntando sobre a família de Benjamin, o que já seria bem complicado de lidar. <br />
<br />
Arqueou uma sobrancelha, no entanto, com o pedido de desculpas do ex-diretor sobre a “bagunça” na casa, acabou esboçando um sorriso mais divertido. O homem, apesar de não ter muita simpatia por ele, havia lhe lembrado um pouco de sua própria mãe ao receber alguma visita em casa. Entretanto, ficou um pouco boquiaberto com o gesto dele ao beijar Aleksei, ainda que no topo da cabeça. Não se lembrava de presenciar nenhum tipo de afeição daquele tipo, nem da parte de seu amigo ou do ex-diretor. <br />
<br />
- O Benjamin? - repetiu o nome do namorado, desviando o olhar diante da pergunta de Aleksei, recordando-se prontamente que havia prometido ao inglês que voltaria para almoçar com ele na casa de ambos. - Ah! E-eu preciso ir! Eu disse que ia almoçar com o Benjamin! - fez uma pequena pausa antes de se levantar para verificar se havia alguma mensagem perdida do namorado em seu celular. <br />
<br />
Aproximou-se do grego como se fosse se despedir com um abraço, mas se recordou da reação do homem com a realização do gesto ao chegar ali e recuou, escolhendo estender a mão e cumprimentá-lo mais amistosamente, deixando o espaço pessoal do outro livre. <br />
<br />
- Não se preocupe, eu não pensaria em outros padrinhos que não você e Dieter. Benjamin e eu, com certeza, vamos discutir muito sobre isso. Mas vocês são pessoas importantes para mim. Não vejo como me casar um dia e vocês não estarem lá! - declarou, esboçando um sorriso sincero de quem se orgulhava de se considerar amigo do grego e do australiano. <br />
<br />
Despediu-se por fim, partindo para casa ao encontro do namorado. Era reconfortante saber que, na medida do possível, ele estava bem e se recuperando. Além disso, esperava que o ex-diretor de Cerise cuidasse melhor de seu amigo do que fizera com os alunos da instituição. Ainda guardava um pouco de raiva do sujeito, mas conhecer o apartamento do sujeito parecia ter lhe mostrado nossas expectativas sobre o tipo de sujeito que Vivien St. Clavier deveria ser.<br />
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[Thread encerrada]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
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Finalmente, após toda a confusão que se seguiu na cidade de Cerise durante os últimos meses, conseguiu a oportunidade de ir visitar Aleksei, um dos amigos que havia feito inicialmente na cidade, juntamente com o professor de biologia, Dieter. Arrumou-se para ir até o lugar onde ele deveria estar vivendo. Pelo que havia descoberto com as fofocas do colégio, o sujeito estava vivendo com o então ex-diretor de St. Clavier. Não gostava do sujeito, mas seu namorado também não era muito fã de Aleksei, então julgou que não havia porque a sua opinião importar naquele relacionamento do psiquiatra. Estava preocupado com o amigo desde quando ele havia começado a se comportar de uma forma esquisita no trabalho. Ele sempre parecia mais cansado que o normal e sempre que tocava no assunto, ele desviava das perguntas. <br />
<br />
Arrumou-se e saiu para passar no mercado e comprar um vinho e uma torta na Antique. Não gostava de visitar as pessoas de mãos vazias, ainda mais quando não havia conseguido avisar que estaria indo visitar o sujeito. Evitou entrar nos detalhes sobre sua visita com Benjamin, pois sabia que apenas irritaria o inglês e discutiriam sobre a necessidade dele levar um vinho para aquele encontro. Se pudesse, claro, marcaria um encontro apenas com o psiquiatra e o professor de biologia, mas ao que parecia, o senhor Dieter estava com os próprios planos agora que se enroscava com a tal dona da Antique. Tinha um pouco de receio de comentar qualquer coisa com a mulher por ela parecer severa, mas imaginou que combinavam muito bem pelo ar do professor sempre ser despojado e brincalhão. Eles deveriam se completar bem. Só não fazia ideia do que o psiquiatra enxergava no diretor irresponsável de St. Clavier. Diretor não. Ex-diretor. <br />
<br />
Parou a frente do condomínio, tirando o próprio celular do bolso para verificar se aquele era o endereço correto antes de informar na portaria que era um amigo do senhor Aleksei que deveria estar residindo no apartamento de número específico segundo as informações que havia conseguido em St. Clavier sobre o endereço do senhor Vivien. Aguardou a permissão para poder entrar no condomínio enquanto ajustava o próprio par de óculos, os fios loiros levemente assanhados como de costume e a barba por fazer. Estava correndo contra o tempo nos últimos dias devido ao vestibular para a bolsa de estudos em Medicina de Paris.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
A última semana tinha sido uma montanha-russa para Aleksei, desde a morte de Kyle até o lento ajuste na sua rotina agora morando na companhia de Vivien, oficialmente, seguidos de problemas na sua medicação, de visitas inesperadas e assuntos pendentes do trabalho e da administração de St. Clavier. A sua vida profissional e a de Vivien estavam uma verdadeira bagunça, mas ao menos tudo parecia fazer mais sentido na companhia do francês. Mesmo se esforçando para lhe manter companhia, Vivien tinha assuntos urgentes para resolver tanto em relação ao fim da carreira política que tinha apenas declinado no último mês, assim como problemas administrativos em St. Clavier que estava então sob o controle do Conselho Administrativo até então.<br />
<br />
Por isso, naquela manhã, depois de se certificar que Aleksei teria pelo menos alguma coisa leve no café da manhã antes de tomar os remédios, ele precisou sair para St. Clavier para continuar todos os procedimentos burocráticos. Aleksei se viu sozinho no apartamento que lhe parecia mais familiar do que a própria casa. Ao menos não tinha más lembranças ali da presença de Kyle, era um lugar seguro.<br />
<br />
Se a semana já tinha trazido surpresas interessantes como a visita de Maud e de Dieter, a ligação no interfone naquele dia trouxe mais uma surpresa para Aleksei com o anúncio do porteiro da visita de Mathew. Ele permitiu a entrada e por um instante, ficou até aliviado que teria companhia enquanto Vivien demoraria sabe-se lá quantas horas para retornar de St. Clavier.<br />
<br />
Aleksei seguiu até a porta de entrada, parando ali para esperar Mathew aparecer no elevador. Depois de apenas uma semana do fim da perseguição, sua aparência debilitada ainda era facilmente perceptível com o rosto pálido e os traços de olheiras no rosto bonito. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
O enfermeiro recebeu permissão na portaria para subir e não tardou em tomar o elevador, indicando o andar que iria descer. Parou ao sair da caixa metálica para dar de cara com o psicólogo, um dos primeiros amigos que havia feito naquela cidadezinha. Ele não parecia muito bem, visto as olheiras e a falta do rubor saudável bastante natural dele. Entretanto, não parecia que ele parecia mais inquieto. Sorriu abertamente ao encontrar Aleksei, sorrindo de orelha a orelha ao se aproximar para tocar o ombro do sujeito, dando-lhe algumas tapinhas. <br />
<br />
- Então, é aqui que o senhor está se escondendo? Era mais fácil te encontrar quando trabalhávamos no mesmo lugar. - riu do próprio comentário, estendendo a mão para tocar no rosto do amigo, parando antes de fazê-lo, imaginando que talvez ele pudesse ficar desconfortável. Apontou para os próprios olhos em um gesto simples, mantendo o sorriso no rosto. - Tem dormido melhor esses dias? Tá comendo direito? Eu trouxe um vinho para você. Eu não fazia ideia de qual era o seu favorito, então trouxe o que eu geralmente compro quando vou jantar com Benjamin. Ele é bom, eu acho. <br />
<br />
Não resistiu ao adentrar no apartamento em observar os detalhes do lugar que não parecia muito a cara do consultório mais simples, objetivo, limpo e prático. Não que o lugar fosse sujo, pelo contrário, mas não se lembrava do consultório do homem ter um cheiro específico de produto de limpeza geralmente utilizado por senhorinhas que lhe recomendavam promoções no supermercado. Gostava daquele novo perfume no ar, não tinha como negar. <br />
<br />
- Que lugar bonito. Está aqui há muito tempo? - resolveu perguntar, imaginando se o tal ex-diretor não estaria ali também.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
O semblante descontraído de Mathew e naturalmente preocupado era quase uma distração inesperada para Aleksei. O enfermeiro parecia muito satisfeito só de estar ali lhe visitando, o que acabou colocando um sorriso em resposta no rosto do psiquiatra. A presença quase ingênua de Mathew era uma mudança de ares bem diferente para os ares mais carregados das últimas semanas, e até mesmo quando ele foi invasivo ao levar a mão até o seu ombro e o seu rosto, Aleksei reagiu menos do que o esperado ao contrair os músculos em uma tensão breve.<br />
<br />
- Bom, sinto muito que seus dias vão ser desinteressantes sem mim por perto, Mathew. - Aleksei respondeu, dando um passo para o lado, deixando o caminho para convidá-lo a entrar. Antes de fazê-lo, deu uma olhada breve no presente que ele tinha escolhido para lhe trazer e quase teve vontade de rir com a escolha, ao segurar a garrafa. - Obrigado pelo presente, mas talvez não seja uma boa ideia beber no meu estado atual. Estou dormindo e comendo o quanto é possível, não posso exigir demais.<br />
<br />
Aleksei deixou que Mathew entrasse na casa e fechou a porta quando ele passou, acompanhando a visita até a sala e parando ainda com o vinho na mão na intenção de levar até a cozinha.<br />
<br />
- Guarde os elogios para o Vivien quando ele voltar, o apartamento é dele. Eu vim para cá há pouco menos de uma semana. - respondeu o grego, muito ciente mentalmente de quantos dias tinham se passado desde a morte de Kyle. A lembrança lhe fez divagar por um momento no caminho entre a sala e a cozinha, e ele voltou o olhar para o vinho que ainda tinha em mãos. - Eu vou deixar na cozinha, aceita água? Café? <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Manteve o sorriso, sentindo-se mais confortável com a resposta mais típica do amigo. Contudo, ficou um pouco mais preocupado por ele ainda estar precisando de cuidados com a própria saúde. Não fazia ideia de quais remédios ele estava tomando. Acabou por estreitar o olhar e fazer uma careta quase que automática ao pensar no diretor, ou ex-diretor, de St. Clavier. <br />
<br />
- Eu gosto de água. - respondeu, ajustando os óculos para observar melhor a iluminação natural do lugar. - Falando nele, por que ele está te ajudando agora? - resolveu perguntar, nunca havia passado por sua cabeça que o psicólogo estaria junto com o diretor ou que o sujeito estaria ajudando Aleksei por baixo dos panos. - Ele parece um cara educado, mas nunca conversamos de verdade, além do trabalho, claro. Não sabia que vocês se conheciam. Por que nunca convidou ele para quando fomos sair? Ele não bebe? - resolveu perguntar por curiosidade, aproveitando para escolher um lugar confortável para se sentar no sofá. <br />
<br />
Sacou o celular do bolso e rapidamente enviou uma mensagem para Benjamin, informando que já havia chegado no apartamento em que o psicólogo estava e aparentemente ele estava bem. Para mudar rapidamente de assunto, por saber que o namorado não gostava muito do psicólogo, resolveu perguntar o que iriam comer no jantar e se o inglês tinha muito trabalho naquela noite ou se poderiam ver um filme juntos, o tipo de programa caseiro que gostava de aproveitar. <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
Aleksei só concordou com um aceno de cabeça quando ele optou pela água e foi buscar um copo na cozinha enquanto Mathew se fazia confortável na sala adjacente. O gesto de colocar a água no copo foi quase detido pelos movimentos de Aleksei quando ele ouviu a pergunta muito ingênua de Mathew sobre o motivo pelo qual Vivien o estava ajudando. Era até engraçado pensar que o relacionamento deles, de fato, nunca tinha sido óbvio para as pessoas de fora.<br />
<br />
Aleksei trouxe a água de volta à sala para o enfermeiro e se sentou numa das poltronas vazias, entretido com as suposições de Mathew sobre Vivien e o relacionamento dos dois. Bom, pelo menos era algo com que se distrair minimamente dado o seu estado nos últimos dias.<br />
<br />
- Por que será que ele está me ajudando, Mathew? - Aleksei não resistiu à pergunta retórica, que no caso de Mathew, não devia ser tão retórica. - Não sei, talvez porque eu seja um funcionário muito valioso? Ou porque ele não quer que eu denuncie ele ou a academia pela falta de segurança do último mês? Ou porque na verdade nós sempre tivemos um relacionamento íntimo e o Vivien na verdade é um sádico que gosta de me torturar nas horas vagas? Eu posso ter síndrome de estocolmo também, o que acha?<br />
<br />
Por mais estressantes que tivessem sido os últimos dias, era engraçado sentir um pouco de alívio e distração com a capacidade dedutiva de Mathew. Até ficou curioso por um momento para descobrir o que o enfermeiro achava que havia entre ele e Vivien.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Estranhou o tom da pergunta do amigo, mas agradeceu pelo copo com água. Começou a beber em silêncio, mantendo o líquido da boca ainda ao afastar o copo, pensativo sobre porquê ele estava lhe questionando tanto sobre algo que ele deveria saber. Foi então que lhe ocorreu que talvez ele estivesse tentando lhe ajudar a chegar em suas próprias conclusões. <br />
<br />
- Arg-cof cof coff!!! O-cof-que?! - engasgou exasperado, tampando a própria boca e o nariz quando a água retornou pelo canal nasal, causando desconforto maior assim que engasgou. Ainda bem que não havia pedido café. Encarou o psicólogo, sem entender aquelas perguntas, ainda mais quando ele cogitou a possibilidade do ex-diretor estar lhe torturando. - Ele tá te batendo?! <br />
<br />
Deixou o copo de lado, buscando o próprio celular de antemão, ficando mais atento à possível presença do ex-diretor, imaginando se ele não poderia chegar a qualquer momento. Desde quando havia sido assediado em St. Clavier, desconfiava que o homem não era correto, sendo conivente com aquele tipo de comportamento nocivo. <br />
<br />
- Você sabe que pode ficar lá em casa, não sabe? O Benjamin vai reclamar no começo, mas eu falo com ele, não se preocupe. É por isso que perdeu peso? E essas olheiras? Ele não te deixa dormir? - fez uma breve pausa. - E o que você quer dizer com síndrome de estocolmo?! Você tá apaixonado por ele? Aleksei, ele bate em você!? - indagou, encarando o amigo, perdido com a ideia de que tudo aquilo estava acontecendo sem que soubesse de nada. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
Era divertido brincar com Mathew, mas Aleksei certamente não esperava aquela reação exagerada. Menos ainda quando as opções que tinha sugerido ao enfermeiro eram tão absurdas quanto as que tinha listado. Na verdade, a resposta dele foi tão inesperada que, em uma semana apenas que estava começando a se acostumar com a rotina livre da perseguição de Kyle, Aleksei precisou esconder os lábios com um sorriso divertido. Era inesperado que ele estivesse mesmo achando graça da situação e talvez só Mathew tivesse aquela habilidade. <br />
<br />
- Bom, não nos últimos dias. - Aleksei respondeu, sobre a pergunta dele se Vivien estava lhe batendo. O mais irônico é que das opções absurdas que tinha dado a Mathew, podia responder com uma sinceridade distorcida e divertida. - Mas não é como se eu estivesse em condições de fugir, não é?<br />
<br />
Talvez não fosse uma boa ideia alimentar a visão que Mathew tinha de Vivien, claro, mas estava há tanto tempo sem um bom entretenimento que ele não teve como resistir à tentação. Era bom também sentir aquela casualidade e descontração que tinham sido impossíveis no último mês.<br />
<br />
- Eu agradeço pela oferta, Mathew, mas não sei se consigo sair mais do lado do Vivien. - a resposta foi, igualmente, num sentido dúbio, e o sorriso do psiquiatra se alargou um pouco quando o enfermeiro perguntou sobre a síndrome de estocolmo e muito pontualmente se estava apaixonado por Vivien. - Olha, eu lembro bem de ter agido como um adolescente apaixonado, se é que isso responde à sua dúvida. E sobre as surras, como eu disse, não nos últimos dias, ainda estou muito debilitado do último mês.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Sentiu o sangue correr mais rápido daquela injustiça com seu amigo, mas logo empalidece, chegando a conclusão de que Aleksei deveria mesmo estar sofrendo de síndrome de estocolmo. Notou o gesto de esconder o rosto do outro e chegou a pensar que talvez ele estivesse tentando esconder alguma marca que poderia servir de prova contra o ex-diretor. <br />
<br />
Não hesitou ao se aproximar, estendendo as mãos para o rosto de Aleksei para poder lhe segurar a face. Encarou-o com seriedade, procurando no rosto dele alguma marca recente de pancada. Notou, com o toque, como a mandíbula dele parecia mais visível, o que indicava que ele havia perdido peso. Usou os polegares para segurar o rosto do psiquiatra no lugar, virando seu próprio rosto ao observar as laterais da cabeça dele. Aproveitou que ele estava sentado e começou a procurar por marcas de pancada no couro cabeludo. <br />
<br />
- Isso é muito sério, Aleksei! Se ele te bate, você já deveria ter ido para a polícia! Eu não sou psicólogo, mas você deveria saber que isso não é saudável! - soltou o rosto do amigo, partindo para as mãos dele, investigando se não havia nenhuma marca ali pelos pulsos. - E você tá magro! O que você anda comendo ultimamente? Tá tomando algum suplemento alimentar? E, afinal de contas, por que você está aqui? Ele não te deixa sair, é isso? - perguntou, sentando-se novamente, os braços cruzados, indignado com a situação.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
Aleksei não conseguia acreditar que Mathew ia mesmo comprar aquela ideia de que Vivien estava lhe mantendo cativo, mas pelo visto, ainda podia ser surpreendido, ou podia se considerar um ótimo ator, porque antes mesmo de receber alguma resposta, notou a mudança de expressão do enfermeiro para uma que só podia classificar como indignada.<br />
<br />
Ele até pensou em cortar a brincadeira e explicar que nada daquilo era verdade, afinal, Mathew também devia ter visto no noticiário que o criminoso que fora morto em Cerise tinha ligação com Aleksei e era melhor explicar tudo devidamente. Mas antes de dar qualquer resposta capaz de esclarecer a situação, Mathew se aproximou de repente, levando as mãos até o seu rosto para avaliar o seu estado físico, e embora Aleksei pudesse ver com muita precisão que era Mathew ali a sua frente, o seu corpo reagiu automático ao avanço.<br />
<br />
A tentativa de explicar algo sumiu completamente da mente de Aleksei que, por um instante, processou o fato de que ia ser atacado de algum modo. Todo o corpo do psiquiatra se retesou e ele prendeu a respiração enquanto Mathew movia as mãos pelo seu rosto. O grego engoliu em seco, fechou as mãos sobre o colo, tentando esconder o breve tremor que surgiu ali, para encarar Mathew de volta e confirmar que era ele ali e não alguma sombra de Kyle. Aquela realização só veio de fato quando ouviu a voz de Mathew de novo e ele soltou seu rosto.<br />
<br />
Mais uma tentativa de explicar a situação foi por água abaixo quando ele rapidamente buscou seus pulsos. Mas daquela vez, Aleksei foi mais pontual em reagir, livrando-se dos toques de Mathew e, em resposta, segurando as mãos dele daquela vez. Seus dedos estavam um pouco gelados.<br />
<br />
- Mathew, acalme-se, nada disso é verdade. - disse Aleksei, soltando os pulsos dele. - Eu não achei que você ia acreditar tão fácil nessas alternativas absurdas, eu estava só brincando com a sua ingenuidade. É claro que Vivien não está me mantendo em cativeiro e eu não estou com nenhuma síndrome. Bom, não de estocolmo, pelo menos. - ele sorriu um pouco fraco, unindo as duas mãos sobre as pernas cruzadas. - Desculpe-me pelos velhos hábitos. Mas se lhe deixar menos irritado comigo, pelo menos sua reação me divertiu um pouco, eu estava precisando da descontração.<br />
<br />
Aleksei pensou em levantar para pegar água, mas sentiu que as pernas não colaborariam naquele momento, então só ajustou a posição, apoiando o cotovelo na mesa.<br />
<br />
- Eu imagino que você viu nos noticiários sobre o assassino que foi morto pela polícia no fim de semana passado, e um aluno de St. Clavier que era meu paciente e foi vítima dele também. - ele começou a explicar o que já era de conhecimento público, para só então adicionar a informação que não estava rolando solta pela mídia. - Na verdade, Kyle Bailey era um ex-paciente meu, ele era um serial killer que nunca foi condenado pelos crimes nos EUA e que ficou obcecado comigo. Ele veio para Cerise por minha causa, Mathew. Todo o tempo em que ele esteve aqui, na verdade, estava me perseguindo.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Ficou surpreso pelo toque em suas mãos e pelas reações do psicólogo. Ficou quieto enquanto ele pedia para que se acalmasse. Franziu o cenho quando ele disse que tudo não passava de uma brincadeira, mas não reclamou, achando melhor ouvir o que ele tinha para falar primeiro. Afastou-se no sofá, dando espaço para o amigo falar sobre o assassino que havia sido morto pela polícia. Arqueou uma sobrancelha, chocado com a ideia de que o sujeito era um ex-paciente obcecado com Aleksei. <br />
<br />
- Bem, a polícia fez o trabalho dela. E você não deveria mais ficar pensando nisso. - disse ao loiro, observando as reações dele com mais atenção. - Você está seguro agora, não é? E eu ainda não sei direito o que o diretor tem a ver com tudo isso, mas… bem, se ele está te ajudando, não deve ser uma pessoa tão ruim assim. - coçou a própria nuca, baixando o olhar. - Desculpe por não ter sido de muita ajuda para você nesse período. Eu deveria ter notado que alguma coisa estava errada com você. Bem, eu até tinha notado, mas não consegui ajudar muito. - fez uma breve pausa, antes de sorrir para o psicólogo, mais gentil. - Eu fico aliviado que tudo acabou e agora você vai poder se recuperar, dar mais atenção para sua própria saúde. <br />
<br />
Respirou fundo e suspirou, os ombros rebaixados em meio a má postura que normalmente costumava ter. Observou de novo o cenário daquela residência por um momento, antes de retornar a atenção para o psicólogo.<br />
<br />
- Vai… morar aqui agora? Não parece muito a sua cara. - riu baixo, imaginando que aquele assunto sobre o assassino fosse algo desagradável para o grego. - Na verdade, parece mais a casa dos meus pais lá no Canadá, minha mãe gosta dessas coisas que juntam poeira. Nunca imaginei que o diretor fosse uma senhorinha acumuladora por dentro. - brincou, imaginando o diretor visitando algum antiquário. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
Aleksei ficou mais tranquilo quando Mathew se acomodou de novo no sofá, assimilando o que tinha acabado de explicar. Pelo menos já tinha esclarecido que não tinha nada de síndrome de estocolmo com Vivien, talvez aquela ideia ainda lhe fizesse rir no futuro. Ele só concordou com um aceno de cabeça quando Mathew apontou que a polícia tinha feito o trabalho e que estava seguro. Também não foi surpresa que ele estivesse se desculpando por não ter ajudado, não era como se alguém pudesse tê-lo feito.<br />
<br />
- Não se desculpe por isso, ninguém além da polícia podia me ajudar, na verdade. - Aleksei esclareceu. - Foi um mês longo e complicado. Kyle era perigoso, se ele descobrisse sobre todos os meus amigos próximos, podia usá-los contra mim; se eu fosse para um programa de proteção, ele podia fazer algo com as pessoas em St. Clavier. Ele até usou um dos meus pacientes para tentar me atingir... eu estava num beco sem saída. - ele suspirou longamente pela lembrança do que tivera que enfrentar, desviando o olhar de Mathew por um minuto.<br />
<br />
O olhar de Aleksei se focou por um instante na mesa de centro da sala e ele até deixou passar despercebido o comentário de Mathew de que ele podia se recuperar, dar atenção à saúde. Só voltou a atenção para o enfermeiro quando ele perguntou se ia morar ali, e ergueu o rosto para dar uma olhada ao redor também no apartamento que não tinha nada a ver, de fato, com seu estilo. De volta à conversa, Aleksei acabou rindo da comparação de Mathew de que Vivien era uma senhorinha acumuladora por dentro.<br />
<br />
- Não, eu gosto de Cerise, mas no momento só me traz más lembranças. Você veio na hora certa, porque vou me mudar para Paris no fim de semana. Aliás, nós vamos. - ele corrigiu aquele detalhe com uma sensação de satisfação que não tivera em muito tempo. - O Vivien não tem só a ver com a situação, Mathew, ele tem a ver comigo. Nós nos conhecemos há mais de dez anos, ele me ajudou como podia no caso do Kyle, agora eu posso dizer com convicção que estamos juntos. - era estranho dizer aquilo em voz alta, para uma pessoa que estivera completamente alheia ao seu relacionamento com Vivien, mas lhe causava uma sensação de realização a ponto de sorrir naturalmente da ideia. - Juntos, como um casal, antes que você questione. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Ouviu o relato do grego e sentiu um leve rubor tomar seu rosto ao ser indiretamente referenciado como um “amigo próximo”. Contudo, baixou o olhar, ajustando os óculos, concluindo que apesar de tudo o que Aleksei estava dizendo fazer sentido, ainda queria ter sido capaz de ajudá-lo de alguma forma. Notou o olhar do loiro que parava para observar aquele ambiente e ficou até mais tranquilo ao ouvir o riso dele diante de sua colocação sobre viver ali. Entretanto, o sorriso sumiu de sua face com a revelação de que o sujeito se mudaria para Paris. Ficou triste com a notícia, não era bom em esconder suas reações, mas ainda assim também não permaneceu muito absorto em seus próprios sentimentos, surpreso com a ideia de que Vivien St. Clavier e o amigo se conheciam já há mais de dez anos. <br />
<br />
- Vocês estão juntos há mais de dez anos já? Mas… ele é não é um político também? E, espera um pouco, ele não ia se casar!? Eu juro que tinha ouvido falar algo sobre um casamento dele com uma mulher! - encarou o grego, indignado. - Ele é seu namorado agora? Como foi que- QUANDO foi que isso aconteceu? <br />
<br />
Estava acostumado em ser o último a saber das coisas que aconteciam com seus amigos, até mesmo com sua família, mas isso nunca arruinava sua surpresa ao começar a juntar os fatos, percebendo como os relacionamentos das pessoas ao seu redor eram bem mais complexos do que imaginava. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
A mudança rápida de expressão de Mathew era uma boa distração para Aleksei, que não se sentia tão impelido a tentar ler demais numa pessoa que era um livro aberto como o enfermeiro. Por isso gostava da companhia dele, sem ter que se esforçar muito para entender o que ele sentia em relação a qualquer coisa. Mas nenhuma das expressões de surpresa enquanto contava a situação com Kyle superou a indignação de quando ele assimilou, em etapas, o seu relacionamento com Vivien. O grego não teve opção senão rir da reação exagerada, levando uma mão para cobrir os lábios no processo.<br />
<br />
- Não estamos juntos há dez anos, nós nos conhecemos há mais de dez anos. - Aleksei corrigiu primeiro. - Sim, ele tinha uma carreira política, sim, ele casou, sim, ele se divorciou e sim, é meu... namorado agora. Ainda é estranho colocar assim. Mas aconteceu oficialmente só na semana passada, depois que o Kyle morreu, então... ainda tenho tempo para me acostumar.<br />
<br />
Aleksei deu alguns instantes para que Mathew se acostumasse com as informações que tinha acabado de confessar, e era estranho ele mesmo assimilar aquilo colocado de um jeito tão natural, mas talvez precisasse de uma conversa casual daquela para ver tudo de uma perspectiva mais simples.<br />
<br />
- Acho que está tudo mais claro agora? - perguntou Aleksei. - Sinto muito que não pude contar nada do que estava acontecendo antes, Mathew. Mas foi melhor assim. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Ficou mais aliviado quando o amigo começou a rir. Era bom assistir um Aleksei mais descontraído e menos inquieto com sua aproximação. Precisava se vigiar para não invadir o espaço pessoal do sujeito que ainda parecia precisar de um bom tempo de recuperação depois do ocorrido com o assassino e ex-paciente dele. <br />
<br />
- Desculpa, só é estranho imaginar o diretor, desculpa, ex-diretor, sendo namorado de alguém, eu pensava que ele era um daqueles sujeitos de carreira política clássica, sabe? Esposa e filhos, família tradicional? - suspirou, ajustando os próprios óculos. - Bem, se você se apaixonou por ele, eu posso fazer um esforço também e tolerar o sujeito, não é segredo para você que não vou muito com a cara dele. - desviou o olhar, coçando a própria nuca. <br />
<br />
Voltou para seu assento anterior, sentando-se na frente do grego no sofá, encarando o sujeito que realmente parecia ter perdido alguns quilos nas últimas semanas. <br />
<br />
- Ele sabe cozinhar, pelo menos? Não vai me dizer que ele é um daqueles caras ricos que manda algum restaurante fazer todas as suas refeições e trazer aqui, não é? - perguntou, preocupado com a alimentação do amigo. - Se quiser, eu posso trazer alguns pratos que sei fazer, bem, eu não sei nada sobre pratos chiques, mas eu sou bom com comida caseira, pelo menos o Benjamin nunca reclamou. - explicou, rindo um pouco da breve lembrança doméstica de cozinhar pensando no que o namorado gostaria de comer. - E conta melhor isso de você estar com ele agora. Quando, quero dizer, como foi que vocês resolveram ser namorados? Ele vai voltar a dar aula? Você vai se aposentar da carreira de psicólogo? E o senhor St. Clavier é professor também, não é? Ele ensina o que? <br />
<br />
Tinha que admitir. Às vezes, se sentia como um filho que estava acabando de receber a notícia de que os pais teriam um novo bebê e não fazia ideia de como é que aquilo havia chegado naquele ponto. Não fazia ideia de como a vida de seu amigo era complicada e isso lhe fazia se sentir mal, imaginando que esse tempo todo estava sendo um péssimo amigo, falando mais sobre seus próprios problemas que de fato conversando com o sujeito sobre assuntos em comum. Isso lhe fazia lembrar um pouco também da ruiva cereja, por quem ainda tinha uma admiração pelo esforço e carreira dela, mas que não se sentia ainda pronto para tentar se aproximar novamente da mulher que sempre havia visto apenas como uma amiga.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
- Bom saber que ele tinha uma fachada convincente de homem de política com família tradicional cristã. - Aleksei respondeu, relaxado, dando uma risada descontraída especialmente quando Mathew apontou que não gostava muito de Vivien.<br />
<br />
Era engraçado conversar com Mathew sobre o assunto, porque enquanto estivera tenso imaginando que todo o assunto de Kyle ressurgiria, seguido de perguntas que lhe seriam desconfortáveis e podiam até servir de gatilho, Mathew estava tão interessado no seu relacionamento com Vivien que pareceu esquecer completamente que estivera sendo perseguido por um serial killer por um mês. Era refrescante, ter que conversar sem se referir ao ex-militar, mais ainda, por falarem de algo tão banal quanto o seu relacionamento com Vivien que tinha passado por maus bocados até se concretizar.<br />
<br />
- Eu sou a pessoa que sempre manda um restaurante fazer as refeições, Mathew. - esclareceu o grego com uma risada breve. - Mas por mais surpreendente que seja, o Vivien é bom na cozinha. Você pode não gostar muito dele, mas ele cuida bem de mim, não precisa se preocupar, não estou passando fome... na medida do possível. - ele precisou adicionar, já que ainda estava se readaptando a uma alimentação adequada. Mas as perguntas de Mathew foram bem além, uma por cima da outra, que naquele estado, Aleksei demorou a acompanhar. Ele levantou uma mão para tentar sinalizar para que Mathew contivesse a empolgação. - Calma. Vamos por partes. Eu obviamente não estou em condições de cuidar de outros pacientes agora, não pretendo me "aposentar", mas vou me afastar dos pacientes por um tempo. Vou para Paris fazer o meu tratamento agora. E o Vivien tem formação em antropologia, ele tem contatos em Sorbonne também para dar aulas e seminários, nós vamos dar um jeito de organizar as coisas por lá. E sobre meu relacionamento com ele, bom... já é uma história bem antiga. Nós nos relacionamos por pouco tempo no Japão há mais de dez anos, tivemos alguns encontros ao acaso e quando vim para St. Clavier, eu nem sabia que ele era o diretor, foi outra estranha coincidência. - ele adicionou, levando uma mão ao queixo, um pouco pensativo. - Bom… eu acho que eu já estava interessado nele há mais tempo do que posso lembrar agora.<br />
<br />
Certamente, aquela era uma informação que nem os amigos mais antigos do grego sabiam. Menos ainda Vivien, é claro. Mas foi tão natural só dizer aquilo ao enfermeiro que ele se sentiu até estranho.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Arqueou uma sobrancelha sobre a tal “fachada hétero cristã” do ex-diretor de St. Clavier, mas ficou mais tranquilo com a risada que se seguiu do amigo. Estreitou o olhar para o amigo quando ele falou que era a pessoa que pedia para os restaurantes fazerem os pratos. Ao menos o homem não deixava o grego com fome. Ficou mais tranquilo quando ele lhe pediu calma. Observou a expressão do homem ao falar que daria início ao próprio tratamento. Ficou surpreso com as informações que lhe foram repassadas, principalmente quando descobriu que os dois haviam se conhecido em outro país. <br />
<br />
- Mas que estranho, vocês se conheceram em outro país e agora estão juntos. Quais as chances de um relacionamento desses acontecer? - comentou, curioso para saber como os dois se conheceram. - E o que vocês estavam fazendo no Japão? Ele estudou antropologia no Japão? Que curioso. Eu nunca visitei a Ásia. Não sei se Benjamin gostaria de visitar algum dia, talvez a Nova Zelândia, Austrália, o Dieter é de lá, não é? <br />
<br />
Sorriu abertamente para o amigo, animado com a ideia de algum dia poderem talvez fazer uma viagem juntos. Na verdade, tinha até planos em pedir o namorado em casamento, mas só o faria quando conseguisse adentrar a faculdade de medicina finalmente. <br />
<br />
- Peraí. - fez uma pequena pausa, lembrando de um pequeno detalhe sobre a possibilidade dos dois manterem um relacionamento ainda que não oficial enquanto estavam trabalhando em St. Clavier. - Vocês já estavam saindo quando eu comecei a trabalhar lá em St. Clavier? Vocês não fizeram nada por lá não, né? - respirou fundo, inquieto. - Argh… uma vez eu recebi uma advertência por… “ruídos obscenos" quando eu estava começando a sair com o Benjamin, logo quando a gente se conheceu. - levou uma das mãos até a própria cabeça, bagunçando mais um pouco os cabelos loiros. - Ah… uma adolescência inteira cuidando dos meus sobrinhos para fazer isso na vida adulta em outro país. - suspirou, conformado e sem nenhum pudor em contar para o amigo que havia sido repreendido por transar no prédio dos professores em locais públicos com o namorado inglês.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
Aleksei se convenceu logo de que Mathew nem lembraria da existência de Kyle, por isso não se importou em continuar com a conversa sobre Vivien, e a curiosidade do canadense parecia infindável.<br />
<br />
- Não faço ideia das chances e nem acredito em destino, mas dados os acontecimentos recentes, estou grato pela coincidência. - Aleksei respondeu. - Hm... eu tinha acabado de chegar ao Japão por conta do meu mestrado, fiz intercâmbio lá por um ano. O Vivien era salaryman lá, mas estava voltando para Cerise quando cheguei, então só convivemos por pouco mais de um mês. E sim, Dieter é da Austrália, é um país bonito, mas se vocês não ficarem confortáveis no calor, é uma péssima escolha. Eu particularmente já tenho resistência por todos os anos na Grécia.<br />
<br />
Antes que eles pudessem seguir a conversa sobre os destinos de viagens, que Aleksei já tinha conhecido bastante, Mathew chegou a uma realização sobre o relacionamento dele com Vivien e, outra vez, o grego foi obrigado a conter uma risada breve, tanto pela presunção sobre o seu relacionamento com Vivien, quanto sobre os "ruídos obscenos".<br />
<br />
- Eu acabei de dizer que nós só estamos oficialmente juntos há uma semana, Mathew. - Aleksei se adiantou em corrigir o enfermeiro. - E sobre os seus "ruídos obscenos", eu acho que não tem nenhum funcionário em St. Clavier que não tenha ouvido sobre isso. Bom saber que você e o inglês estão explorando todas as possibilidades do seu relacionamento, mas tentem não extrapolar e acabar indo parar na delegacia por atentado ao pudor, hein?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Ficou chocado com a informação de que o herdeiro da família St. Clavier havia ido para o Japão trabalhar como salaryman. Entretanto, acabou constrangido com a menção de que poderia ter ido parar na polícia por atentado ao pudor. <br />
<br />
- Muita coisa mudou desde que vim pra cá, sabe? Normalmente eu não consideraria nunca parar na polícia por atentado ao pudor, mas dada a minha sorte, acho que é uma chance provável de acabar na polícia ou no hospital. - riu de si mesmo, fazendo uma breve pausa antes de voltar sua atenção de novo para o amigo. - Fico feliz de que esteja indo para Paris, Aleksei. Pelo menos não é tão distante e posso te visitar quando eu e Benjamin fomos visitar a cidade. <br />
<br />
Parou de novo, estendendo a mão para coçar a própria bochecha e arrumar os óculos mais uma vez, pensativo sobre o que havia acabado de dizer. Antes que Aleksei pudesse dizer algo sobre o assunto, estendeu a mão, sinalizando que precisava se explicar. <br />
<br />
- Quero dizer, se for tudo bem para vocês, é claro. E-eu estou estudando faz um tempo para conseguir uma bolsa de estudos, se tudo der certo, vamos acabar tendo que nos mudar para lá também. - respirou fundo, encarando o grego. - Na verdade, eu ainda não conversei direito sobre isso com Benjamin. Eu me sinto meio mal que ele tenha que deixar a profissão dele de lado para ficar comigo caso eu precise me mudar para Paris. Isso não aconteceu com vocês? Bem, o que eu quero dizer é que a carreira de vocês é bem sólida, isso não te deixa ansioso? - perguntou mais de forma amistosa, sem conseguir evitar o comentário sobre o próprio relacionamento. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
- Bom, no hospital você já passou e eu estava lá. Então quando for parar na delegacia, por favor, me dê o prazer de filmar e mandar para o seu inglês de novo. - respondeu Aleksei, lembrando que ele e Dieter também tinham arranjado uma foto especial de presente de natal para Benjamin que envolvia Mathew e uma ruiva. - Eu gostaria de uma visita em Paris quando você for para lá, também, Mathew. É muito fácil conversar com você, eu estava precisando de uma companhia assim depois do mês de estresse, tenho certeza que Vivien não vai se importar.<br />
<br />
Talvez ele se importasse, mas se fosse o caso, seria ainda mais divertido para Aleksei ver a reação dele sempre que Mathew fizesse alguma visita inconveniente e o pensamento lhe fez sorrir brevemente de novo.<br />
<br />
- Primeiro, você já devia ter conversado com o Benjamin sobre isso, afinal, vocês já até moram juntos, então é bom ele estar preparado para essas mudanças se você realmente tiver que ir para Paris. - disse Aleksei, com a sensação casual de que estava de volta ao seu consultório no meio de uma sessão. - Mas seu namorado tem cara de que se adapta fácil, e se ele sabe que você está estudando pra isso, também já imagina que vai ter que se mudar eventualmente. Ou quem sabe, ele está planejando lhe deixar até lá? - claro, era ainda mais interessante sugerir alguma coisa para deixar Mathew incomodado com a perspectiva. - Não tenho esse problema com Vivien, ele não vai poder continuar na direção de St. Clavier, não tem nada que o prenda aqui. Eu tenho investimentos e outras fontes de renda além do trabalho de terapeuta, então posso tomar meu tempo para me estabelecer, de todo modo, ele disse que iria comigo e eu não vou insistir no contrário.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Franziu o cenho com o comentário sobre sua ida acidental para o hospital. Também já havia sido preso, acidentalmente. Porém, sorriu mais contente pelo grego admitir que gostava de sua companhia. Era uma sensação boa de reciprocidade, pois também gostava de conversar com ele e com o biólogo, ainda que, na maior parte do tempo, fosse julgado por ambos. <br />
<br />
Concordou com um aceno em silêncio, coçando a própria nuca quando Aleksei fez questão de lhe lembrar que já deveria ter conversado sobre o assunto com Benjamin. Entretanto, encarou assustado o psicólogo com a possibilidade de que, talvez, Benjamin estivesse planejando se ver livre de sua pessoa assim que conseguisse a bolsa de medicina em Paris. Não imaginava que fosse algo imediato, mas não imaginava sua vida mais longe do outro homem. Talvez ele sequer tivesse pensado sobre o assunto, ou talvez tivesse pensado e estava feliz com a ideia de se ver livre de sua presença enquanto estaria vivendo em Paris. <br />
<br />
Baixou o olhar, desanimado com a ideia. Conseguir se tornar um bom médico era seu sonho desde que era criança, mas também queria poder viver o momento com o inglês. Se não pudesse conciliar os dois, não sabia ao certo o que faria, se seria obrigado a escolher ou se acabaria novamente frustrado e sem perspectivas. <br />
- Vocês pensam em se casar também? - resolver perguntar, imaginando que era algo natural para se pensar. Bem, o relacionamento dos dois parecia ter apenas iniciado, mas imaginava que em meio a toda aquela confiança e sentimento no meio do inferno que foram as últimas semanas, não haveria porquê para não considerarem a possibilidade. Ficaria feliz em pensar em ir em um casamento futuro do amigo. Contudo, imaginou que seria mais realista pensar que, talvez, Dieter fosse o primeiro a se casar novamente com a dona da tal padaria Antique. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Vivien</span></div>
<br />
Vivien estava detestando a nova rotina de resolver problemas em St. Clavier. Porque em geral, seu posto de diretor significava não ter que fazer muito, exceto anúncios, cerimônias e diplomacia. E naquele dia, tinha deixado Aleksei em seu apartamento com a perspectiva da visita de Mathew Morrisson, o enfermeiro e amigo do psicólogo. Apesar de não nutrir muita simpatia pelo enfermeiro, estava preocupado com Aleksei e conversar com os dois parecia um tipo de diplomacia mais agradável que o inferno burocrático de St. Clavier.<br />
<br />
Quando finalmente foi liberado dos trabalhos do dia, decidiu ir direto para o apartamento, considerando que Aleksei ainda não tinha lhe dado nenhum sinal de que o enfermeiro tinha ido embora. Talvez devesse ter comprado alguma coisa para ser um bom anfitrião, mas podia oferecer café, chá ou alguns biscoitos caso precisasse.<br />
<br />
Ouviu apenas de longe a conversa quando finalmente chegou do elevador e entrou no apartamento, dando apenas algumas batidinhas leves na porta para anunciar sua chegada ao par. Mas pegou Mathew fazendo uma pergunta muito inoportuna, o que lhe fez erguer de leve o queixo e olhar para o sujeito longamente.<br />
<br />
- Não sabia que iria se casar, monsieur Morrisson. Parabéns? – Vivien respondeu por Aleksei, erguendo de leve uma sobrancelha. Não que quisesse cortar o assunto completamente, mas o grego mal tinha se acostumado a ser seu namorado, talvez fosse um grande susto se admitisse que não tinha nada contra tê-lo como marido. E o enfermeiro estava adiantando em muito os planos.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
Mathew não chegou a se desesperar com a sua ideia de que Benjamin poderia já estar pensando em deixá-lo, mas o jeito como ele mudava as expressões deixava claro que a ideia o preocupava. Aleksei quase se sentiu culpado por colocar a dúvida na mente do enfermeiro, mas tinha que admitir que estava se divertindo com a situação geral. Claro, não precisava continuar torturando o enfermeiro mentalmente daquele jeito, mas pelo menos sabia que ainda tinha jeito.<br />
<br />
- Não se preocupe, Mathew, eu tenho certeza que do jeito que o inglês gosta de você, vai lhe seguir até Paris. É só pedir com jeitinho. - Aleksei adicionou, com um sorriso breve, e foi bem em tempo de prestar atenção nas batidas leves da porta e ouvir os passos que ele já sabia que anunciavam a chegada de Vivien. Voltou-se para Mathew antes de sequer pensar em se levantar. - Ah, eu acho que é o Viv-<br />
<br />
Talvez Mathew estivesse muito assustado com a ideia de que Benjamin podia lhe abandonar, porque ele pareceu não ouvir a tentativa de pergunta de Aleksei, cortando-o no mesmo instante perguntando se “eles” pensavam em se casar. A surpresa se mostrou no rosto de Aleksei mais do que ele queria, o que lhe impediu de responder rápido. Quem interveio foi Vivien, congratulando Mathew por um suposto casamento, só então fazendo Aleksei ter alguma reação, ao desviar o olhar do enfermeiro para Vivien que tinha acabado de aparecer na sala.<br />
<br />
- Ah, Vivi… en. - Aleksei ainda demorou um pouco a processar a situação, mas então se levantou, mostrando o sorriso entretido de Vivien para Mathew, seguindo o desvio de assunto. - É uma boa ideia, se você pedir o inglês em casamento, vai ter certeza de que ele vai com você para Paris se precisar, não é, Mathew?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Esperava ouvir a resposta de seu amigo, mas foi pego de surpresa quando o dono do apartamento parecia finalmente ter chegado. Arqueou os ombros e franziu a sobrancelha em reflexo à presença de Vivien St. Clavier, mas acabou por sentir o rubor lhe tomando a face com a ideia de que poderia se casar com Benjamin. Claro que já havia pensado na possibilidade de pedir o inglês em casamento, mas não era sobre isso que estava falando. <br />
<br />
- E-eu não-- - franziu o cenho de novo, olhando para Aleksei dessa vez, surpreso que o outro ainda estava apoiando o apoio desnecessário do ex-diretor. - Mas… casamento, Aleksei… - fez uma breve pausa, ignorando por um momento a presença de Vivien enquanto ajustava o próprio par de óculos. - … mas e se ele não estiver pronto para isso agora? Quero dizer, a gente se dá muito bem junto, brigamos às vezes, mas nada além do normal, mas casamento… e a minha família… se eles souberem, vão querer vir todos para cá… <br />
<br />
Fez uma pausa, observando finalmente como o ex-diretor parecia estranho em sua presença. Não pelo comportamento dele, mas por nunca tê-lo imaginado em um apartamento tão aconchegante como aquele. Relaxou um pouco, recordando que de fato aquele imóvel era do sujeito e que agora ele e seu amigo eram namorados. <br />
<br />
- Ah, desculpe. É muito bonito seu apartamento, dire- fez uma nova pausa, erguendo a mão em sinal de correção própria. - … senhor Clavier? - olhou para o homem em sinal de dúvida, esperando que ele lhe corrigisse se estivesse usando a forma de tratamento errada agora que ele não era mais diretor ou seu superior. <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Vivien</span></div>
<br />
O francês não pode senão sorrir com a entonação de Aleksei ao falar seu nome, como quem claramente tinha adicionado o “en” só para não revelar seu apelido ao enfermeiro. Não que se importasse, desde que o outro não pensasse em lhe chamar por menos que o seu sobrenome. Mathew rapidamente lhe distraiu, todo nervoso com a possibilidade de um casamento com... Benjamin Vaughn? Sempre pensava que o jovem professor inglês o enfermeiro era um pouco de desperdício, mas já não tinha moral para criticar o rumo do romance de ninguém.<br />
<br />
- Um casal estável e uma família participativa. Parece-me um bom caso para casamento, monsieur Morrisson. – continuou, apenas para desviar completamente o assunto da ideia de um casamento seu com Aleksei... pelo menos por ora.<br />
<br />
Vivien agradecia o elogio ao apartamento – já que esses eram muito raros –, mas podia dispensar a lembrança que não era mais diretor em St. Clavier, e sim, o irritante Soren Halstein. Bom, não que estivesse insatisfeito com o que havia conquistado com isso.<br />
<br />
- Monsieur St. Clavier está ótimo. – deu um sorriso comercial antes de olhar ao redor. – Merci, monsieur Morrisson. Só espero que não se incomode com a bagunça, ultimamente não tenho tido tempo de limpar, mas acho que você compreende. – Morrisson podia não ser a pessoa mais bem relacionada do campus, mas já deveria ter chegado até ele a fofoca de que o antigo Diretor estava respondendo muitos pais por todo o caso recente na escola, além de tentando deixar tudo pronto para o novo diretor. – Alek... sei. Vou tomar um banho e volto em breve para me juntar a vocês. – Vivien brincou de volta com o grego, beijando-lhe o topo da cabeça antes de sair em direção ao quarto para seu banho merecido.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Aleksei</span></div>
<br />
- Eu concordo com Vivien, Mathew. Se a sua família até faria questão de vir para a cerimônia, acho que é indicativo suficiente de que vocês formam um belo casal. - Aleksei adicionou ao comentário de Vivien, ainda de pé ao lado do francês, mesmo que estivesse encarando o seu convidado inusitado. Só voltou a olhar para Vivien quando ele lhe chamou com aquela pausa no nome e disse que iria tomar um banho.<br />
<br />
Se foi estranho para Aleksei a tentativa de chamar Vivien pelo apelido na frente de Mathew, pareceu ainda mais estranho quando ele naturalmente se aproximou para lhe beijar o topo da cabeça antes de sair. Estranho para a reação de Aleksei, mas obviamente bem natural para Vivien. Ele finalmente se virou de novo para o enfermeiro, voltando a se sentar para fazer companhia a ele.<br />
<br />
- Bom, eu não vou estar em Cerise, mas vou lhe mandar o meu endereço em Paris. Aceito o convite para o seu casamento com o inglês. Inclusive, aceito o convite para ser o seu padrinho também, o que acha que o Benjamin ia pensar disso? - ele sugeriu, com um tom jocoso de quem estava muito entretido com a conversa como não tinha estado nos últimos dias.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Mathew</span></div>
<br />
Por um instante, sentiu como se a conversa sobre seu suposto casamento fosse fonte de entretenimento para os dois, mas ao invés de ficar irritado com eles por isso, ficou inquieto com a ideia que, de fato, sua família viria para seu casamento e ainda ficariam perguntando sobre a família de Benjamin, o que já seria bem complicado de lidar. <br />
<br />
Arqueou uma sobrancelha, no entanto, com o pedido de desculpas do ex-diretor sobre a “bagunça” na casa, acabou esboçando um sorriso mais divertido. O homem, apesar de não ter muita simpatia por ele, havia lhe lembrado um pouco de sua própria mãe ao receber alguma visita em casa. Entretanto, ficou um pouco boquiaberto com o gesto dele ao beijar Aleksei, ainda que no topo da cabeça. Não se lembrava de presenciar nenhum tipo de afeição daquele tipo, nem da parte de seu amigo ou do ex-diretor. <br />
<br />
- O Benjamin? - repetiu o nome do namorado, desviando o olhar diante da pergunta de Aleksei, recordando-se prontamente que havia prometido ao inglês que voltaria para almoçar com ele na casa de ambos. - Ah! E-eu preciso ir! Eu disse que ia almoçar com o Benjamin! - fez uma pequena pausa antes de se levantar para verificar se havia alguma mensagem perdida do namorado em seu celular. <br />
<br />
Aproximou-se do grego como se fosse se despedir com um abraço, mas se recordou da reação do homem com a realização do gesto ao chegar ali e recuou, escolhendo estender a mão e cumprimentá-lo mais amistosamente, deixando o espaço pessoal do outro livre. <br />
<br />
- Não se preocupe, eu não pensaria em outros padrinhos que não você e Dieter. Benjamin e eu, com certeza, vamos discutir muito sobre isso. Mas vocês são pessoas importantes para mim. Não vejo como me casar um dia e vocês não estarem lá! - declarou, esboçando um sorriso sincero de quem se orgulhava de se considerar amigo do grego e do australiano. <br />
<br />
Despediu-se por fim, partindo para casa ao encontro do namorado. Era reconfortante saber que, na medida do possível, ele estava bem e se recuperando. Além disso, esperava que o ex-diretor de Cerise cuidasse melhor de seu amigo do que fizera com os alunos da instituição. Ainda guardava um pouco de raiva do sujeito, mas conhecer o apartamento do sujeito parecia ter lhe mostrado nossas expectativas sobre o tipo de sujeito que Vivien St. Clavier deveria ser.<br />
<br />
[Thread encerrada]]]></content:encoded>
		</item>
		<item>
			<title><![CDATA[[Drive] Stop Right Now [Diodoro; Hanna; Xavier]]]></title>
			<link>http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=279</link>
			<pubDate>Wed, 22 Sep 2021 20:03:18 +0000</pubDate>
			<dc:creator><![CDATA[<a href="http://academiastclavier.com.br/member.php?action=profile&uid=3">Lil</a>]]></dc:creator>
			<guid isPermaLink="false">http://academiastclavier.com.br/showthread.php?tid=279</guid>
			<description><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Diodoro estava acostumado com o trabalho solitário, desde preparar papelada à embalsamar, à fazer a faxina, exceto quando Brigida tinha algum cliente para atender ou ex-cliente para buscar com o carro funerário. Para isso, tinham um funcionário extra, que só fazia o serviço de transporte. Agora, entretanto, tinha mais do que motivos para não ver a irmã no trabalho, ela que tinha protestado bastante com a nova contratação de Diodoro sem consultar ninguém da família, e ele, o novo funcionário, que era a presença estranha dentro da funerária.<br />
<br />
Mas não era ruim. Ter Xavier ali era diferente das visitas ocasionais de seus amigos em horas inoportunas, e embora não conversassem muito, e ele não tivesse tempo o suficiente no trabalho para ver nenhum caso complicado que fizesse ele desistir de estar em uma funerária, Diodoro se sentia um tanto menos sozinho no silêncio de estar do ladinho do cemitério.<br />
<br />
Entretanto, Xavier era seu funcionário, e de vez em quando sentia falta dos amigos. Natalia tinha retornado, e inteira, muito para sua satisfação. Karen ocasionalmente estava em seu apartamento, uma coisa a qual ainda tinha que se acostumar por completo. Só faltava Hanna. Mas conhecendo Hanna – de quem sabia muito menos do que dos outros dois, que eram pessoas genuinamente perigosas, talvez – ela deveria estar bem. Do pouco que entendia dela, notava que ela não se abalava com muito. Na verdade, o interesse dela era mais provocar? De todo modo, a preocupação breve até existiu. Mas logo foi negligenciada em prol de separar boletos por ordem alfabética.<br />
<br />
Deveria mesmo ter um sistema de controle no computador, assim como Hanna disse.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Xavier/Hanna</span></div>
<br />
Xavier tinha achado uma oportunidade estranha depois de muita confusão com um agente funerário que gostava de se fantasiar de assassino mafioso, talvez fosse moda no ramo. Era irônico pensar que ele não queria se vestir daquele jeito nem parecer um criminoso, mas a sua cara de poucos amigos já tinha lhe levado para maus bocados. Então talvez ele só se encaixasse muito bem fazendo trabalhos gerais naquela funerária numa pequena cidade do interior. Era mais calmo do que o porto, com certeza, às vezes, calmo até demais.<br />
<br />
Nos primeiros dias em que começou a trabalhar na funerária, ele descobriu que o lugar era muito silencioso não só por envolver gente morta, mas até o agente funerário parecia meio morto e falava muito pouco. Das poucas vezes que tinha recebido instruções do que fazer e do que limpar, ele era tão objetivo que Xavier não entendia o que era para fazer até ouvir mais verbos numa sentença.<br />
<br />
Era bom, ao menos, trabalhar no horário comercial, assim ele não precisava se preocupar com aqueles calafrios estranhos quando passava na entrada da sala em que eles embalsamavam os corpos, e numa cidade pequena como Cerise, não devia haver muitas vítimas estranhas para chegarem ali.<br />
<br />
Mas nem tudo eram flores trabalhando naquele lugar com a situação familiar que tinha. Depois de ter que tomar conta do pai descontrolado numa longa noite cansativa e uma manhã ainda mais exaustiva, ele só conseguiu chegar ao novo trabalho no período da tarde, oferecendo os serviços até mais tarde na noite para compensar o sumiço pela manhã. Ao menos ele estava com a cara inteira naquele dia.<br />
<br />
O serviço até o fim da noite foi cansativo, já que ele teve que limpar todos os caixões que estavam dispostos na parte da frente da funerária. Ao menos ele tinha passado longe da sala dos cadáveres, e quando finalmente terminou o serviço, a noite já ia alta. Diodoro tinha saído da mesa em que costumava ficar para o que Xavier imaginou ser o banheiro - ele tinha usado só uma palavra que o rapaz nem entendeu -, então Xavier apenas abriu a porta de entrada e deixou a chave de volta na mesinha, indo até a entrada do corredor para anunciar que estava de saída.<br />
<br />
- Ei, chefe, tô saindo. - ele avisou, sem a menor pretensão de seguir pelo corredor e passar perto de cadáveres àquela altura da noite, mas ele não teve nem tempo de se virar, quando sentiu um calafrio intenso percorrer o corpo, seguido de um suspiro na nuca e finalmente, uma voz muito baixa e perto demais.<br />
<br />
- Finalmente uma pessoa viva aqui… <br />
<br />
A resposta foi apenas esperada. O grito de desespero irrompeu na funerária, seguido logo do pulo assustado de Xavier até bater num dos caixões que pendeu para o lado, caindo com um baque seco e alto no meio da funerária, convenientemente por cima de onde o rapaz caiu. Se o caixão estivesse aberto, ele já podia deitar e se considerar morto ali mesmo. Não ajudou em nada os olhos arregalados pousarem num fantasma com a cara ensanguentada pronto para lhe levar para o inferno com um sorriso digno do diabo.<br />
<br />
- Ora, ora, e não é que você é bem vivo mesmo?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Depois de organizar todos os boletos, e de assistir enquanto seu novo funcionário diligente bem limpava os caixões, o café que tinha tomado até então bateu no seu sistema. Diodoro levantou só avisando que iria sair por um instante e foi até o banheiro, deixando as luvas de lado um instante para esvaziar a bexiga.<br />
<br />
Mas enquanto achava que uma ida rápida ao banheiro seria um momento de paz, tudo que ouviu foi um berro desesperado, um baque enorme, Miro miando alto de susto em algum lugar e a surpresa foi tão grande que Diodoro quase aguou todo o chão do banheiro. Os olhos claros ficaram bem abertos, e o moreno se moveu rápido como dava para se mover do seu ritmo usual, depois de pelo menos lavar as mãos e pegar as luvas.<br />
<br />
Quando chegou na sala, encontrou Xavier no chão, e a sua frente, Hanna, que há muito não via na funerária, com o lábio cortado como alguém que tinha se metido em encrenca novamente. Diodoro então passou a ajudar Xavier a se levantar rapidamente, e foi até seu paletó pendurado para pegar um lenço e gelo da pequena geladeira nos fundos, voltando com ele para o lábio da morena.<br />
<br />
- Não assombre ele. – pediu com um tom suspirado, vendo o dano ao caixão que tinha caído no chão. – Estão bem? – perguntou aos dois, esperando que pelo menos ela estivesse viva e ele não tivesse morrido do coração. Só tinha uma maca livre.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Xavier/Hanna</span></div>
<br />
O baque alto e a expressão de puro desespero do rapaz de cabelos descoloridos só colocaram um sorriso mais satisfeito em Hanna. Ela levou uma das mãos delicadas até os lábios, cobrindo-os, ao rir um pouco mais da situação do homem que parecia ter visto um verdadeiro fantasma. Tanto que ele não conseguiu nem reagir, o que deu espaço para que Hanna se curvasse na direção do homem mau-encarado.<br />
<br />
- Eu posso levá-lo para o céu, sabia? - ela sorriu, levando a mão até o queixo de Xavier, que sentiu a ponta do dedo gelado tocando em seu rosto, o que lhe causou um tremor intenso e lhe fez ficar completamente sem reação. Antes que Xavier pudesse processar a voz de Diodoro chegando à sala e perguntando se estavam bem, ele sentiu o cenário rodar e desmaiou ali mesmo.<br />
<br />
A única reação de Hanna foi rir do rapaz que desmaiou de susto, levantando-se para encarar Diodoro com uma expressão muito entretida no rosto.<br />
<br />
- Olha só o que você fez, matou o rapaz de susto. - ela acusou Diodoro, passando por cima do caixão e de Xavier, para alcançar o agente funerário, estendendo as mãos para apoiar as duas sobre um dos ombros dele, o queixo nas mãos, olhando para um Xavier desacordado. - Que pena que ele desmaiou, teria sido bom uma diversão a três, hm? Estava sentindo sua falta, Diodoro.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Bem achou que Xavier estava com medo, mas não imaginava que sua presença fosse o suficiente para desmaiar o funcionário. Não era a toa que ele estava tão pesado, ele não tinha forças para manter a postura. E Hanna, delicada como ela, passou por cima do caixão caído e do corpo caído apenas para lhe cumprimentar de pertinho, o que arrancou um estreitar direto dos olhos do agente funerário.<br />
<br />
- Parece entretida, Hanna. – Diodoro comentou, embora tivesse ficado um pouco sentido com a acusação dela de que ele tinha terminado de assustar Xavier. Não era mentira. Se você achava que via um fantasma e de repente também via um ceifador, claramente era demais. Suspirou longamente, então, puxou o descanso para pés embaixo de sua mesa para elevar as pernas de Xavier, e pegou seu blazer para dobrar e amortecer embaixo da cabeça dele. – O papel. – apontou para ela o papel em cima da mesa, que queria que ela pegasse para abanar Xavier.<br />
<br />
A última coisa que queria era ter que tentar levantar o rapaz com Hanna para levar até a maca. Ele provavelmente ficaria ainda mais chocado se acordasse de um desmaio numa mesa onde deitam gente morta.<br />
<br />
- Está bem? – perguntou a morena, depois de cuidar de Xavier primeiro.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Hanna</span></div>
<br />
Hanna só sorriu mais largamente quando Diodoro apontou como ela parecia entretida, o que não era mentira. O rapaz medroso tinha lhe divertido naquele fim de noite frustrante que ela tivera. Pegou o papel que Diodoro tinha indicado, mas não fez nada com ele, começando a mexer nos itens em cima da mesa na funerária enquanto Diodoro arrumava um apoio para as pernas do rapaz na esperança de que ele acordasse.<br />
<br />
- Você podia tentar jogar água fria nele, acho que é o suficiente para acordar. - ela sugeriu, passando os dedos pela superfície da mesa e andando a esmo na sala. Ela deu de ombros quando ele perguntou se estava bem, com o vermelho do sangue no canto do lábio, era pelo menos um indicativo de que não estava completamente inteira. - Melhor agora que me diverti um pouco. Quem é o rapaz? Namorado novo? O que fez com o grandalhão de cicatriz?<br />
<br />
Ela puxou a cadeira da mesa de trabalho de Diodoro para se sentar, cruzando as pernas e ficando numa distância segura da vista do rapaz, caso ele acordasse para se assustar com a sua tez naturalmente pálida.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Quase revirou os olhos quando Hanna pegou o papel e não fez absolutamente nada com ele, apenas dando uma volta na sua mesa e tentando achar alguma coisa nova com que brincar, agora que o brinquedo humano estava desmaiado. Diodoro aproximou-se da menina, segurando o rosto dela um pouco para cima para limpar o rastro de sangue da boca com o lenço com gelo que tinha buscado anteriormente. Pressionou o mesmo longamente contra o corte no lábio dela, e então, puxou a mão da garota para fazer o mesmo, tirando o papel inútil dos dedos dela em uma troca bem direta.<br />
<br />
Diodoro voltou para Xavier que ainda estava desmaiado e o abanou, uma vez que a garota não parecia inclinada a fazer isso.<br />
<br />
- Não. Choque. Frio é melhor pra você. – explicou, apontando para a própria boca na direção do machucado que estava em Hanna. Franziu a testa quando, não suficiente, ela acusou Xavier de ser seu novo namorado, como se a primeira opção e o palpite mais correto seria dele ser um funcionário. – Funcionário. – respondeu, mas não se incomodou de falar do grandalhão de cicatriz, afinal, mal era da sua conta onde ele andava, quanto mais da de Hanna. Mas agora que ela tinha aparecido na sua funerária e causado confusão, era melhor Diodoro saber o que tinha levado ela ali. – O que aconteceu? – falou, esperando uma explicação da morena sobre o machucado dessa vez.   <br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Hanna</span></div>
<br />
Hanna não achou nada além de alguns papeis e canetas para ficar mexendo na mesa de Diodoro, mas ele se aproximou para lhe atrapalhar, levando um lenço com gelo até o canto do seu lábio que tinha o corte. Ela soltou um “tch” breve em resposta a pressão do gesto e o incômodo na área que tinha sido atingida, segurando pano no lugar dele quando foi indicado. Hanna podia bem gostar de implicar com Diodoro, mas gostava dos cuidados que ele dispensava mesmo desde quando nem lhe conhecia direito. Bom, não que ele conhecesse bem então.<br />
<br />
Ela só fez uma careta em reprovação quando ele negou acordar o rapaz de cabelos descoloridos com água gelada, e ainda cuidou para que ele estivesse confortável, abanando-o, o que só colocou um sorriso mais divertido no rosto de Hanna quando ele tentou explicar que ele era um funcionário.<br />
<br />
- Funcionário? Mesmo? A essa hora, Diodoro? - ela relaxou a mão e desceu o pano com gelo da boca, sem nem passar cinco minutos com ele ali. - Eu não sabia que você gostava de exploração, mas não estou surpresa. Posso ajudar?<br />
<br />
Com o sorriso ainda muito interessado no funcionário desmaiado, ela nem parou para responder o que tinha acontecido, era só mais um tapa ordinário de um cliente violento ordinário.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
O fato de que Hanna ainda pedia confirmação de verdade se o homem era um funcionário, já que estava lá até mais tarde no trabalho, fez com que o moreno virasse para ela imediatamente, estreitando os olhos. Sabia que Xavier estava ali até aquela hora por vontade própria, mas estava tão acostumado a trabalhar com pessoas da sua família que foi inevitável não pensar que estava falhando em reforçar ao funcionário novo que o horário dele tinha acabado.<br />
<br />
- Gelo. – reforçou para morena que já tinha tirado o gelo da boca enquanto ainda abanava o homem caído no chão. Mas ele não parecia dar sinal de quem iria acordar. Quem sabe seria melhor movê-lo para algum lugar mais confortável, como o sofá dos fundos onde geralmente cochilava quando tinha muito trabalho. – Ele quis ficar. – adicionou, parando então de abanar Xavier e tirando a luva para aproximar a mão do rosto dele e verificar se estava respirando direito. Vai que o homem tinha tido um ataque cardíaco ali e estava abanando já o defunto. Mas pelo visto estava vivo: só estava confirmando gradualmente que o rapaz era bem medroso.<br />
<br />
Olhou longamente para Hanna com a oferta de ajudá-lo com Xavier. Ela já tinha conseguido não ajudar para começar.<br />
<br />
- Consegue levantar? – perguntou, apontando para as pernas de Xavier. Com ajuda de Hanna, talvez pudesse carregá-lo para os fundos para descansar em um lugar mais macio.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Hanna/Xavier</span></div>
<br />
Hanna não deu muita atenção ao aviso dele para que voltasse a colocar o gelo na boca, mas o rapaz que tinha desmaiado parecia que ou estava morto, ou tinha aproveitado a oportunidade para só dormir. Ela só soltou um "hmmm" sugestivo com um sorriso de lábios fechados para Diodoro quando ele disse que o rapaz que decidiu ficar. Até Diodoro pareceu preocupado com o estado do rapaz a ponto de sentir a respiração dele, e ele obviamente não tinha entendido a sua proposição em ajudá-lo na parte da exploração.<br />
<br />
- Eu disse que ia ajudar a explorá-lo, Diodoro. - Hanna esclareceu, mas se levantou e deu a volta no rapaz, até as pernas dele. Claro que, com o seu porte, ela só se colocou ali convenientemente para afastar uma perna para cada lado e se colocar entre as duas, abaixando-se sem muita pretensão de ajudá-lo a levantar o rapaz, passando a mão pela perna dele e pela coxa antes que Diodoro fosse lhe atrapalhar. - Desse ângulo também serve, o que acha? Talvez com o estímulo certo, ele acorde, hm?<br />
<br />
Ela subiu a mão um pouco mais pela coxa dele, devagar o suficiente para que Diodoro pudesse interferir. Mas antes de qualquer reação do agente funerário, o murmúrio de cansaço e dor alcançou os ouvidos de Hanna e ela voltou a atenção para o rapaz inconsciente que retornava ao mundo dos vivos.<br />
<br />
- Arh... merda. - Xavier pressionou os olhos com força, levando uma mão até a nuca, sentindo o corpo todo dolorido. Ele tentou se erguer apenas o suficiente para abrir os olhos e avistar o mesmo rosto que tinha lhe assustado alguns instantes atrás. Não havia bem mais sangue no rosto feminino pálido? - Mas o qu-<br />
<br />
- Bu. - Hanna inclinou o rosto para frente apenas o suficiente para que Xavier acordasse de uma vez, no susto, jogando-se para trás até sentir a parte de trás da cabeça bater contra a mesa.<br />
<br />
- ARH! Que porra! - ele levou as duas mãos até o topo da cabeça, os olhos lacrimejando de dor, enquanto Hanna se entregava a uma risada entretida.<br />
<br />
- Eu gostei dele, Diodoro, ele parece divertido. - disse Hanna, ainda agachada diante do rapaz.<br />
<br />
- O qu- - Xavier desviou finalmente o olhar da jovem pálida para Diodoro ao seu lado, o que só reforçou a sensação de susto por uns instantes. - O que tá acontecendo?!<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Diodoro não estava explorando ninguém. E não tinha a mente rápida da Hanna de pensar maldades, ou teria notado que tinha acabado de dar total acesso a morena para ficar entre as pernas de Xavier. Isso sequer tinha passado na sua cabeça até ouvir o tom insinuante dela enquanto sugeria o “estímulo certo”.<br />
<br />
O agente funerário virou para ela como um animal em alerta, e estendeu a mão para segurar o pulso dela, até apertando com certa força antes de folgar, pelo susto. Já ia repreender a garota por tocar o funcionário daquela forma inadequada, ainda mais com ele inconsciente, mas quando pensou em abrir a boca, ouviu um grunhido de Xavier, e mais rápido do que jamais pudesse reagir, o rapaz deu uma guinada para trás e bateu a cabeça, o que fez Diodoro começar a questionar se o tanto que ele se acidentava era normal, ou se teria que fazer uma poupança para os acidentes de trabalho.<br />
<br />
- Hanna, Xavier. Xavier, Hanna. Viva. Minha... amiga. – Diodoro apresentou, soltando enfim o pulso de Hanna e estendendo a mão para ajudar o funcionário a se levantar, se ele quisesse. – Ela prega peças. Não acredite nela. – falou, suspirando longamente e finalmente se levantando do chão. – Está bem? – aproveitou e criou uma barreirinha com a mão entre Hanna e o funcionário, para que ela ficasse a uma distância segura.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Hanna/Xavier</span></div>
<br />
- Eu disse pra não me chamar assim! - Xavier retrucou, massageando a cabeça onde tinha atingido a mesa. - É “Três”!<br />
<br />
- “Três”? Ou “a três”? Por que o número está ficando bem conveniente agora. - Hanna adicionou, agachada diante de Xavier e apoiando o queixo na mão. Ela abriu um sorriso enorme quando notou o rosto do outro assumir uma coloração avermelhada mesmo com o cenho franzido e a expressão de irritação. - Eu gostei mesmo de você, Três. Quer ser meu amigo também? É assim que chamavam na época do Diodoro, hm?<br />
<br />
- Eu… eu não- - se fosse possível, ele franziu ainda mais o cenho de Hanna para Diodoro, imaginando a relação estranha dos dois, e então se colocou de pé quase num salto, mantendo a distância tanto de Hanna quanto de Diodoro. - Já deu minha hora!<br />
<br />
Ele nem esperou uma resposta do chefe, só praticamente correu para sair da funerária sem nem pegar qualquer pertence, teria que voltar ali no outro dia mesmo e o horário já estava avançado, já não bastava os acidentes. Só quando saiu da funerária foi que começou a imaginar que teria que descontar muito do salário se quisesse pagar pelo caixão quebrado. E tudo culpa da tal amiga de Diodoro.<br />
<br />
 - Ahhh, ele fugiu. - Hanna se levantou e se virou para Diodoro depois que Xavier deixou o lugar. - Então, o que temos para hoje? Já que o nosso terceiro fugiu, vamos ter que ficar só os dois.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Diodoro sequer disfarçou a revirada nos olhos quando Hanna fez uma piada com o apelido de Xavier. Parecia que ele estava pedindo. A reação dele, entretanto, foi bem diferente da usual cara de emburrado, então admitia que até tinha achado divertido, não fosse o caixão caído e o galo que ficaria na cabeça do funcionário. Só estreitou os olhos quando ela deturpou o significado de “amigo”, pois quando dizia “amigo”, estava significado exatamente isso e nada mais.<br />
<br />
- Boa noite. – Diodoro falou quando notou o pânico e a vontade de fugir de Xavier, que sequer deu tempo para que pensasse e disparou para fora dali. Ao menos o pé dele estava melhor? Só tinha que dar jeito em Hanna, que parecia decidida e dedicada a atormentar seus momentos de paz na funerária. Mas admitia que sentia falta até dela. Diodoro ignorou toda a conotação das palavras de Hanna e levantou, começando a arrumar a bagunça deixada pelo funcionário. – Pizza? – perguntou de volta a morena, e então pegou a chave para fechar as portas da funerária. – E gelo. – apontou para a boca dela, que ela sequer tinha se dado o trabalho de colocar gelo antes de ir atormentar Xavier. – Você dorme na sala.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Hanna</span></div>
<br />
Hanna acompanhou o agente funerário quando ele terminou de arrumar a bagunça e saiu da funerária, para fechar as portas e fazerem o trajeto que ela agora conhecia até o apartamento de Diodoro. E era a sua intenção desde o início, também, dormir em algum lugar que não fosse um quarto de motel vazio, nem os dormitórios de Limoges-Collet com muitas regras e olhos para o seu estado.<br />
<br />
- Pizza então. - ela tomou a ousadia de segurar o braço dele, na altura do cotovelo, e se manter perto o suficiente para parecerem um casal. Mas não fez nada mais do que aquilo, o que seria bem esperado da jovem tentando no mínimo apalpar Diodoro para irritá-lo. - Vai deixar uma dama dormindo na sala? No estado em que estou? - o questionamento seguiu com um tom de falsa indignação - Como quer que eu acorde mais disposta amanhã depois de dormir no sofá? Ou a sua intenção é que eu passe o resto da semana hospedada no seu apartamento até me recuperar por completo e voltar aos dormitórios?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Esperava uma caminhada tranquila até o apartamento, mas como nada do que esperava nunca dava certo, Hanna não demorou para agarrar seu braço, o que quase fez Diodoro pular para o lado. Olhou para ela desconfiado, mas notou que pelo visto, a única intenção dela era se apoiar. Com alguma desconfiança, suspirou longamente e deixou com que a morena seguisse agarrada em seu braço. Qualquer gracinha e daria um tapinha na mão dela.<br />
<br />
Franziu a testa e abriu a boca prontamente para dizer “sim” quando ela questionou se era verdade que dormiria na sala naquele estado. Porém se conteve e deu uma olhada longa nela de esguelha, se questionando se seria certo deixá-la dormir no sofá desconfortável.<br />
<br />
- Quero que melhore logo. – respondeu sério, como se fosse o óbvio. Ela podia começar fazendo o favor de não achar que ele desejava mal a ela. – Só hoje... a cama. – respondeu, franzindo a testa enquanto finalmente chegavam aonde seu apartamento ficava. – Eu durmo no sofá. – adicionou, antes que ela ficasse feliz por dormirem os dois na cama e ela poder lhe irritar a noite inteira. Ainda tinha que pagar a pizza, seria demais assim.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Hanna</span></div>
<br />
Hanna até sorriu quando Diodoro quase saltou para o lado como um gato assustado quando ela lhe segurou o braço, mas não fez mais do que aquilo, e se divertiu com a reação alerta do agente funerário para qualquer um de seus gestos mais ousados. O sorriso só se alargou depois do falso tom de indignação quando ele disse que podia ficar na cama naquela noite, e antes que pudesse adicionar os comentários engraçados sobre os dois dividirem a cama, ele completou que dormiria no sofá.<br />
<br />
- Eu lembro bem da sua cama e cabe nós dois lá, Diodoro. Eu prometo que não mordo… - ela adicionou, com um sorriso malicioso que só não foi tão pontual por causa do machucado no canto dos lábios. Mas ela já sabia qual seria a resposta e quando chegaram ao apartamento, ela se fez bem confortável entrando antes mesmo de Diodoro e esperando que ele fechasse a porta depois de passar. - Eu posso usar o seu banheiro enquanto pede a pizza, não é? Quatro queijos para mim, por favor.<br />
<br />
E de novo, sem nem esperar alguma resposta de Diodoro ou pelo menos instrução para roupas que pudesse usar e toalhas, nem mesmo uma brincadeirinha sobre os dois dividirem o banho, ela foi até o banheiro para se livrar dos rastros do início da noite e se sentir um pouco mais revigorada. Nem ficou surpresa de abrir a porta do banheiro para ver que o dono do apartamento tinha lhe deixado uma toalha limpa e um par de roupas dele. Daquela vez, ela usou até mesmo a calça antes de sair do banho. <br />
<br />
- Nada como um banho quente e um lugar confortável pra dormir. - ela suspirou satisfeita, voltando para a sala e se sentando no sofá onde Diodoro esperava a pizza, estendendo as pernas folgada sobre as do agente funerário. - Obrigada pela ajuda, Diodoro.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Diodoro nem deu uma resposta a Hanna sobre dividirem a cama. Seu olhar longo provavelmente dizia tudo. Já estava sendo muito gentil deixando que ela fosse agarrada em seu braço. Não era que quisesse ser uma pessoa ruim com ela, mas ela lhe provocava de graça e não era muito honesta, então era difícil não ter que impor esses limites.<br />
<br />
Quando chegaram no apartamento, ela foi direto para o banho, sem nenhuma gracinha a mais. Concordou silenciosamente que ela se dirigisse ao banheiro, e sem demora, dobrou as roupas limpas sobre a cama, saindo dali antes que ela aparecesse de toalha querendo lhe irritar. Pediu a pizza nesse meio tempo, o homem do outro lado estranhando o pedido de quatro queijos para o Diodoro, que costumava sempre pedir sabores bem tradicionais, assim como toda sua família.<br />
<br />
Sentou-se no sofá, e Hanna logo apareceu, inteiramente vestida, e parecendo muito mais confortável enquanto se acomodava no sofá, jogando as pernas sobre as suas e mantendo uma distância respeitosa. Franziu a testa, abrindo a boca para falar alguma coisa, mas não havia nada que falasse que não lhe comprometesse ou poderia ser usado como brecha para Hanna lhe provocar. Tirou a luva e estendeu as costas da mão até a testa dela, mas a temperatura estava normal.<br />
<br />
Ela até tinha lhe agradecido!<br />
<br />
Encarou a morena longamente, um tanto inquieto. Talvez aquela tivesse sido uma noite mais difícil para Hanna que as demais. Talvez até ela tivesse um lado sério. Soltou um longo suspiro, e então novamente levou a mão até Hanna, mas dessa vez, lhe deu um par de tapinhas amigáveis nas costas e fez um breve carinho sobre o mesmo lugar.<br />
<br />
 - Sempre. – respondeu calmamente, imaginando que a pizza chegaria logo, mas até ligou a televisão para matar o tempo dos dois enquanto isso.<br />
<br />
[thread encerrada]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Diodoro estava acostumado com o trabalho solitário, desde preparar papelada à embalsamar, à fazer a faxina, exceto quando Brigida tinha algum cliente para atender ou ex-cliente para buscar com o carro funerário. Para isso, tinham um funcionário extra, que só fazia o serviço de transporte. Agora, entretanto, tinha mais do que motivos para não ver a irmã no trabalho, ela que tinha protestado bastante com a nova contratação de Diodoro sem consultar ninguém da família, e ele, o novo funcionário, que era a presença estranha dentro da funerária.<br />
<br />
Mas não era ruim. Ter Xavier ali era diferente das visitas ocasionais de seus amigos em horas inoportunas, e embora não conversassem muito, e ele não tivesse tempo o suficiente no trabalho para ver nenhum caso complicado que fizesse ele desistir de estar em uma funerária, Diodoro se sentia um tanto menos sozinho no silêncio de estar do ladinho do cemitério.<br />
<br />
Entretanto, Xavier era seu funcionário, e de vez em quando sentia falta dos amigos. Natalia tinha retornado, e inteira, muito para sua satisfação. Karen ocasionalmente estava em seu apartamento, uma coisa a qual ainda tinha que se acostumar por completo. Só faltava Hanna. Mas conhecendo Hanna – de quem sabia muito menos do que dos outros dois, que eram pessoas genuinamente perigosas, talvez – ela deveria estar bem. Do pouco que entendia dela, notava que ela não se abalava com muito. Na verdade, o interesse dela era mais provocar? De todo modo, a preocupação breve até existiu. Mas logo foi negligenciada em prol de separar boletos por ordem alfabética.<br />
<br />
Deveria mesmo ter um sistema de controle no computador, assim como Hanna disse.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Xavier/Hanna</span></div>
<br />
Xavier tinha achado uma oportunidade estranha depois de muita confusão com um agente funerário que gostava de se fantasiar de assassino mafioso, talvez fosse moda no ramo. Era irônico pensar que ele não queria se vestir daquele jeito nem parecer um criminoso, mas a sua cara de poucos amigos já tinha lhe levado para maus bocados. Então talvez ele só se encaixasse muito bem fazendo trabalhos gerais naquela funerária numa pequena cidade do interior. Era mais calmo do que o porto, com certeza, às vezes, calmo até demais.<br />
<br />
Nos primeiros dias em que começou a trabalhar na funerária, ele descobriu que o lugar era muito silencioso não só por envolver gente morta, mas até o agente funerário parecia meio morto e falava muito pouco. Das poucas vezes que tinha recebido instruções do que fazer e do que limpar, ele era tão objetivo que Xavier não entendia o que era para fazer até ouvir mais verbos numa sentença.<br />
<br />
Era bom, ao menos, trabalhar no horário comercial, assim ele não precisava se preocupar com aqueles calafrios estranhos quando passava na entrada da sala em que eles embalsamavam os corpos, e numa cidade pequena como Cerise, não devia haver muitas vítimas estranhas para chegarem ali.<br />
<br />
Mas nem tudo eram flores trabalhando naquele lugar com a situação familiar que tinha. Depois de ter que tomar conta do pai descontrolado numa longa noite cansativa e uma manhã ainda mais exaustiva, ele só conseguiu chegar ao novo trabalho no período da tarde, oferecendo os serviços até mais tarde na noite para compensar o sumiço pela manhã. Ao menos ele estava com a cara inteira naquele dia.<br />
<br />
O serviço até o fim da noite foi cansativo, já que ele teve que limpar todos os caixões que estavam dispostos na parte da frente da funerária. Ao menos ele tinha passado longe da sala dos cadáveres, e quando finalmente terminou o serviço, a noite já ia alta. Diodoro tinha saído da mesa em que costumava ficar para o que Xavier imaginou ser o banheiro - ele tinha usado só uma palavra que o rapaz nem entendeu -, então Xavier apenas abriu a porta de entrada e deixou a chave de volta na mesinha, indo até a entrada do corredor para anunciar que estava de saída.<br />
<br />
- Ei, chefe, tô saindo. - ele avisou, sem a menor pretensão de seguir pelo corredor e passar perto de cadáveres àquela altura da noite, mas ele não teve nem tempo de se virar, quando sentiu um calafrio intenso percorrer o corpo, seguido de um suspiro na nuca e finalmente, uma voz muito baixa e perto demais.<br />
<br />
- Finalmente uma pessoa viva aqui… <br />
<br />
A resposta foi apenas esperada. O grito de desespero irrompeu na funerária, seguido logo do pulo assustado de Xavier até bater num dos caixões que pendeu para o lado, caindo com um baque seco e alto no meio da funerária, convenientemente por cima de onde o rapaz caiu. Se o caixão estivesse aberto, ele já podia deitar e se considerar morto ali mesmo. Não ajudou em nada os olhos arregalados pousarem num fantasma com a cara ensanguentada pronto para lhe levar para o inferno com um sorriso digno do diabo.<br />
<br />
- Ora, ora, e não é que você é bem vivo mesmo?<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Depois de organizar todos os boletos, e de assistir enquanto seu novo funcionário diligente bem limpava os caixões, o café que tinha tomado até então bateu no seu sistema. Diodoro levantou só avisando que iria sair por um instante e foi até o banheiro, deixando as luvas de lado um instante para esvaziar a bexiga.<br />
<br />
Mas enquanto achava que uma ida rápida ao banheiro seria um momento de paz, tudo que ouviu foi um berro desesperado, um baque enorme, Miro miando alto de susto em algum lugar e a surpresa foi tão grande que Diodoro quase aguou todo o chão do banheiro. Os olhos claros ficaram bem abertos, e o moreno se moveu rápido como dava para se mover do seu ritmo usual, depois de pelo menos lavar as mãos e pegar as luvas.<br />
<br />
Quando chegou na sala, encontrou Xavier no chão, e a sua frente, Hanna, que há muito não via na funerária, com o lábio cortado como alguém que tinha se metido em encrenca novamente. Diodoro então passou a ajudar Xavier a se levantar rapidamente, e foi até seu paletó pendurado para pegar um lenço e gelo da pequena geladeira nos fundos, voltando com ele para o lábio da morena.<br />
<br />
- Não assombre ele. – pediu com um tom suspirado, vendo o dano ao caixão que tinha caído no chão. – Estão bem? – perguntou aos dois, esperando que pelo menos ela estivesse viva e ele não tivesse morrido do coração. Só tinha uma maca livre.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Xavier/Hanna</span></div>
<br />
O baque alto e a expressão de puro desespero do rapaz de cabelos descoloridos só colocaram um sorriso mais satisfeito em Hanna. Ela levou uma das mãos delicadas até os lábios, cobrindo-os, ao rir um pouco mais da situação do homem que parecia ter visto um verdadeiro fantasma. Tanto que ele não conseguiu nem reagir, o que deu espaço para que Hanna se curvasse na direção do homem mau-encarado.<br />
<br />
- Eu posso levá-lo para o céu, sabia? - ela sorriu, levando a mão até o queixo de Xavier, que sentiu a ponta do dedo gelado tocando em seu rosto, o que lhe causou um tremor intenso e lhe fez ficar completamente sem reação. Antes que Xavier pudesse processar a voz de Diodoro chegando à sala e perguntando se estavam bem, ele sentiu o cenário rodar e desmaiou ali mesmo.<br />
<br />
A única reação de Hanna foi rir do rapaz que desmaiou de susto, levantando-se para encarar Diodoro com uma expressão muito entretida no rosto.<br />
<br />
- Olha só o que você fez, matou o rapaz de susto. - ela acusou Diodoro, passando por cima do caixão e de Xavier, para alcançar o agente funerário, estendendo as mãos para apoiar as duas sobre um dos ombros dele, o queixo nas mãos, olhando para um Xavier desacordado. - Que pena que ele desmaiou, teria sido bom uma diversão a três, hm? Estava sentindo sua falta, Diodoro.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
<br />
Bem achou que Xavier estava com medo, mas não imaginava que sua presença fosse o suficiente para desmaiar o funcionário. Não era a toa que ele estava tão pesado, ele não tinha forças para manter a postura. E Hanna, delicada como ela, passou por cima do caixão caído e do corpo caído apenas para lhe cumprimentar de pertinho, o que arrancou um estreitar direto dos olhos do agente funerário.<br />
<br />
- Parece entretida, Hanna. – Diodoro comentou, embora tivesse ficado um pouco sentido com a acusação dela de que ele tinha terminado de assustar Xavier. Não era mentira. Se você achava que via um fantasma e de repente também via um ceifador, claramente era demais. Suspirou longamente, então, puxou o descanso para pés embaixo de sua mesa para elevar as pernas de Xavier, e pegou seu blazer para dobrar e amortecer embaixo da cabeça dele. – O papel. – apontou para ela o papel em cima da mesa, que queria que ela pegasse para abanar Xavier.<br />
<br />
A última coisa que queria era ter que tentar levantar o rapaz com Hanna para levar até a maca. Ele provavelmente ficaria ainda mais chocado se acordasse de um desmaio numa mesa onde deitam gente morta.<br />
<br />
- Está bem? – perguntou a morena, depois de cuidar de Xavier primeiro.<br />
<br />
<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Hanna</span></div>
<br />
Hanna só sorriu mais largamente quando Diodoro apontou como ela parecia entretida, o que não era mentira. O rapaz medroso tinha lhe divertido naquele fim de noite frustrante que ela tivera. Pegou o papel que Diodoro tinha indicado, mas não fez nada com ele, começando a mexer nos itens em cima da mesa na funerária enquanto Diodoro arrumava um apoio para as pernas do rapaz na esperança de que ele acordasse.<br />
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- Você podia tentar jogar água fria nele, acho que é o suficiente para acordar. - ela sugeriu, passando os dedos pela superfície da mesa e andando a esmo na sala. Ela deu de ombros quando ele perguntou se estava bem, com o vermelho do sangue no canto do lábio, era pelo menos um indicativo de que não estava completamente inteira. - Melhor agora que me diverti um pouco. Quem é o rapaz? Namorado novo? O que fez com o grandalhão de cicatriz?<br />
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Ela puxou a cadeira da mesa de trabalho de Diodoro para se sentar, cruzando as pernas e ficando numa distância segura da vista do rapaz, caso ele acordasse para se assustar com a sua tez naturalmente pálida.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
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Quase revirou os olhos quando Hanna pegou o papel e não fez absolutamente nada com ele, apenas dando uma volta na sua mesa e tentando achar alguma coisa nova com que brincar, agora que o brinquedo humano estava desmaiado. Diodoro aproximou-se da menina, segurando o rosto dela um pouco para cima para limpar o rastro de sangue da boca com o lenço com gelo que tinha buscado anteriormente. Pressionou o mesmo longamente contra o corte no lábio dela, e então, puxou a mão da garota para fazer o mesmo, tirando o papel inútil dos dedos dela em uma troca bem direta.<br />
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Diodoro voltou para Xavier que ainda estava desmaiado e o abanou, uma vez que a garota não parecia inclinada a fazer isso.<br />
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- Não. Choque. Frio é melhor pra você. – explicou, apontando para a própria boca na direção do machucado que estava em Hanna. Franziu a testa quando, não suficiente, ela acusou Xavier de ser seu novo namorado, como se a primeira opção e o palpite mais correto seria dele ser um funcionário. – Funcionário. – respondeu, mas não se incomodou de falar do grandalhão de cicatriz, afinal, mal era da sua conta onde ele andava, quanto mais da de Hanna. Mas agora que ela tinha aparecido na sua funerária e causado confusão, era melhor Diodoro saber o que tinha levado ela ali. – O que aconteceu? – falou, esperando uma explicação da morena sobre o machucado dessa vez.   <br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Hanna</span></div>
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Hanna não achou nada além de alguns papeis e canetas para ficar mexendo na mesa de Diodoro, mas ele se aproximou para lhe atrapalhar, levando um lenço com gelo até o canto do seu lábio que tinha o corte. Ela soltou um “tch” breve em resposta a pressão do gesto e o incômodo na área que tinha sido atingida, segurando pano no lugar dele quando foi indicado. Hanna podia bem gostar de implicar com Diodoro, mas gostava dos cuidados que ele dispensava mesmo desde quando nem lhe conhecia direito. Bom, não que ele conhecesse bem então.<br />
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Ela só fez uma careta em reprovação quando ele negou acordar o rapaz de cabelos descoloridos com água gelada, e ainda cuidou para que ele estivesse confortável, abanando-o, o que só colocou um sorriso mais divertido no rosto de Hanna quando ele tentou explicar que ele era um funcionário.<br />
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- Funcionário? Mesmo? A essa hora, Diodoro? - ela relaxou a mão e desceu o pano com gelo da boca, sem nem passar cinco minutos com ele ali. - Eu não sabia que você gostava de exploração, mas não estou surpresa. Posso ajudar?<br />
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Com o sorriso ainda muito interessado no funcionário desmaiado, ela nem parou para responder o que tinha acontecido, era só mais um tapa ordinário de um cliente violento ordinário.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
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O fato de que Hanna ainda pedia confirmação de verdade se o homem era um funcionário, já que estava lá até mais tarde no trabalho, fez com que o moreno virasse para ela imediatamente, estreitando os olhos. Sabia que Xavier estava ali até aquela hora por vontade própria, mas estava tão acostumado a trabalhar com pessoas da sua família que foi inevitável não pensar que estava falhando em reforçar ao funcionário novo que o horário dele tinha acabado.<br />
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- Gelo. – reforçou para morena que já tinha tirado o gelo da boca enquanto ainda abanava o homem caído no chão. Mas ele não parecia dar sinal de quem iria acordar. Quem sabe seria melhor movê-lo para algum lugar mais confortável, como o sofá dos fundos onde geralmente cochilava quando tinha muito trabalho. – Ele quis ficar. – adicionou, parando então de abanar Xavier e tirando a luva para aproximar a mão do rosto dele e verificar se estava respirando direito. Vai que o homem tinha tido um ataque cardíaco ali e estava abanando já o defunto. Mas pelo visto estava vivo: só estava confirmando gradualmente que o rapaz era bem medroso.<br />
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Olhou longamente para Hanna com a oferta de ajudá-lo com Xavier. Ela já tinha conseguido não ajudar para começar.<br />
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- Consegue levantar? – perguntou, apontando para as pernas de Xavier. Com ajuda de Hanna, talvez pudesse carregá-lo para os fundos para descansar em um lugar mais macio.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Hanna/Xavier</span></div>
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Hanna não deu muita atenção ao aviso dele para que voltasse a colocar o gelo na boca, mas o rapaz que tinha desmaiado parecia que ou estava morto, ou tinha aproveitado a oportunidade para só dormir. Ela só soltou um "hmmm" sugestivo com um sorriso de lábios fechados para Diodoro quando ele disse que o rapaz que decidiu ficar. Até Diodoro pareceu preocupado com o estado do rapaz a ponto de sentir a respiração dele, e ele obviamente não tinha entendido a sua proposição em ajudá-lo na parte da exploração.<br />
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- Eu disse que ia ajudar a explorá-lo, Diodoro. - Hanna esclareceu, mas se levantou e deu a volta no rapaz, até as pernas dele. Claro que, com o seu porte, ela só se colocou ali convenientemente para afastar uma perna para cada lado e se colocar entre as duas, abaixando-se sem muita pretensão de ajudá-lo a levantar o rapaz, passando a mão pela perna dele e pela coxa antes que Diodoro fosse lhe atrapalhar. - Desse ângulo também serve, o que acha? Talvez com o estímulo certo, ele acorde, hm?<br />
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Ela subiu a mão um pouco mais pela coxa dele, devagar o suficiente para que Diodoro pudesse interferir. Mas antes de qualquer reação do agente funerário, o murmúrio de cansaço e dor alcançou os ouvidos de Hanna e ela voltou a atenção para o rapaz inconsciente que retornava ao mundo dos vivos.<br />
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- Arh... merda. - Xavier pressionou os olhos com força, levando uma mão até a nuca, sentindo o corpo todo dolorido. Ele tentou se erguer apenas o suficiente para abrir os olhos e avistar o mesmo rosto que tinha lhe assustado alguns instantes atrás. Não havia bem mais sangue no rosto feminino pálido? - Mas o qu-<br />
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- Bu. - Hanna inclinou o rosto para frente apenas o suficiente para que Xavier acordasse de uma vez, no susto, jogando-se para trás até sentir a parte de trás da cabeça bater contra a mesa.<br />
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- ARH! Que porra! - ele levou as duas mãos até o topo da cabeça, os olhos lacrimejando de dor, enquanto Hanna se entregava a uma risada entretida.<br />
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- Eu gostei dele, Diodoro, ele parece divertido. - disse Hanna, ainda agachada diante do rapaz.<br />
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- O qu- - Xavier desviou finalmente o olhar da jovem pálida para Diodoro ao seu lado, o que só reforçou a sensação de susto por uns instantes. - O que tá acontecendo?!<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
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Diodoro não estava explorando ninguém. E não tinha a mente rápida da Hanna de pensar maldades, ou teria notado que tinha acabado de dar total acesso a morena para ficar entre as pernas de Xavier. Isso sequer tinha passado na sua cabeça até ouvir o tom insinuante dela enquanto sugeria o “estímulo certo”.<br />
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O agente funerário virou para ela como um animal em alerta, e estendeu a mão para segurar o pulso dela, até apertando com certa força antes de folgar, pelo susto. Já ia repreender a garota por tocar o funcionário daquela forma inadequada, ainda mais com ele inconsciente, mas quando pensou em abrir a boca, ouviu um grunhido de Xavier, e mais rápido do que jamais pudesse reagir, o rapaz deu uma guinada para trás e bateu a cabeça, o que fez Diodoro começar a questionar se o tanto que ele se acidentava era normal, ou se teria que fazer uma poupança para os acidentes de trabalho.<br />
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- Hanna, Xavier. Xavier, Hanna. Viva. Minha... amiga. – Diodoro apresentou, soltando enfim o pulso de Hanna e estendendo a mão para ajudar o funcionário a se levantar, se ele quisesse. – Ela prega peças. Não acredite nela. – falou, suspirando longamente e finalmente se levantando do chão. – Está bem? – aproveitou e criou uma barreirinha com a mão entre Hanna e o funcionário, para que ela ficasse a uma distância segura.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Hanna/Xavier</span></div>
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- Eu disse pra não me chamar assim! - Xavier retrucou, massageando a cabeça onde tinha atingido a mesa. - É “Três”!<br />
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- “Três”? Ou “a três”? Por que o número está ficando bem conveniente agora. - Hanna adicionou, agachada diante de Xavier e apoiando o queixo na mão. Ela abriu um sorriso enorme quando notou o rosto do outro assumir uma coloração avermelhada mesmo com o cenho franzido e a expressão de irritação. - Eu gostei mesmo de você, Três. Quer ser meu amigo também? É assim que chamavam na época do Diodoro, hm?<br />
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- Eu… eu não- - se fosse possível, ele franziu ainda mais o cenho de Hanna para Diodoro, imaginando a relação estranha dos dois, e então se colocou de pé quase num salto, mantendo a distância tanto de Hanna quanto de Diodoro. - Já deu minha hora!<br />
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Ele nem esperou uma resposta do chefe, só praticamente correu para sair da funerária sem nem pegar qualquer pertence, teria que voltar ali no outro dia mesmo e o horário já estava avançado, já não bastava os acidentes. Só quando saiu da funerária foi que começou a imaginar que teria que descontar muito do salário se quisesse pagar pelo caixão quebrado. E tudo culpa da tal amiga de Diodoro.<br />
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 - Ahhh, ele fugiu. - Hanna se levantou e se virou para Diodoro depois que Xavier deixou o lugar. - Então, o que temos para hoje? Já que o nosso terceiro fugiu, vamos ter que ficar só os dois.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
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Diodoro sequer disfarçou a revirada nos olhos quando Hanna fez uma piada com o apelido de Xavier. Parecia que ele estava pedindo. A reação dele, entretanto, foi bem diferente da usual cara de emburrado, então admitia que até tinha achado divertido, não fosse o caixão caído e o galo que ficaria na cabeça do funcionário. Só estreitou os olhos quando ela deturpou o significado de “amigo”, pois quando dizia “amigo”, estava significado exatamente isso e nada mais.<br />
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- Boa noite. – Diodoro falou quando notou o pânico e a vontade de fugir de Xavier, que sequer deu tempo para que pensasse e disparou para fora dali. Ao menos o pé dele estava melhor? Só tinha que dar jeito em Hanna, que parecia decidida e dedicada a atormentar seus momentos de paz na funerária. Mas admitia que sentia falta até dela. Diodoro ignorou toda a conotação das palavras de Hanna e levantou, começando a arrumar a bagunça deixada pelo funcionário. – Pizza? – perguntou de volta a morena, e então pegou a chave para fechar as portas da funerária. – E gelo. – apontou para a boca dela, que ela sequer tinha se dado o trabalho de colocar gelo antes de ir atormentar Xavier. – Você dorme na sala.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Hanna</span></div>
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Hanna acompanhou o agente funerário quando ele terminou de arrumar a bagunça e saiu da funerária, para fechar as portas e fazerem o trajeto que ela agora conhecia até o apartamento de Diodoro. E era a sua intenção desde o início, também, dormir em algum lugar que não fosse um quarto de motel vazio, nem os dormitórios de Limoges-Collet com muitas regras e olhos para o seu estado.<br />
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- Pizza então. - ela tomou a ousadia de segurar o braço dele, na altura do cotovelo, e se manter perto o suficiente para parecerem um casal. Mas não fez nada mais do que aquilo, o que seria bem esperado da jovem tentando no mínimo apalpar Diodoro para irritá-lo. - Vai deixar uma dama dormindo na sala? No estado em que estou? - o questionamento seguiu com um tom de falsa indignação - Como quer que eu acorde mais disposta amanhã depois de dormir no sofá? Ou a sua intenção é que eu passe o resto da semana hospedada no seu apartamento até me recuperar por completo e voltar aos dormitórios?<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
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Esperava uma caminhada tranquila até o apartamento, mas como nada do que esperava nunca dava certo, Hanna não demorou para agarrar seu braço, o que quase fez Diodoro pular para o lado. Olhou para ela desconfiado, mas notou que pelo visto, a única intenção dela era se apoiar. Com alguma desconfiança, suspirou longamente e deixou com que a morena seguisse agarrada em seu braço. Qualquer gracinha e daria um tapinha na mão dela.<br />
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Franziu a testa e abriu a boca prontamente para dizer “sim” quando ela questionou se era verdade que dormiria na sala naquele estado. Porém se conteve e deu uma olhada longa nela de esguelha, se questionando se seria certo deixá-la dormir no sofá desconfortável.<br />
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- Quero que melhore logo. – respondeu sério, como se fosse o óbvio. Ela podia começar fazendo o favor de não achar que ele desejava mal a ela. – Só hoje... a cama. – respondeu, franzindo a testa enquanto finalmente chegavam aonde seu apartamento ficava. – Eu durmo no sofá. – adicionou, antes que ela ficasse feliz por dormirem os dois na cama e ela poder lhe irritar a noite inteira. Ainda tinha que pagar a pizza, seria demais assim.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Hanna</span></div>
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Hanna até sorriu quando Diodoro quase saltou para o lado como um gato assustado quando ela lhe segurou o braço, mas não fez mais do que aquilo, e se divertiu com a reação alerta do agente funerário para qualquer um de seus gestos mais ousados. O sorriso só se alargou depois do falso tom de indignação quando ele disse que podia ficar na cama naquela noite, e antes que pudesse adicionar os comentários engraçados sobre os dois dividirem a cama, ele completou que dormiria no sofá.<br />
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- Eu lembro bem da sua cama e cabe nós dois lá, Diodoro. Eu prometo que não mordo… - ela adicionou, com um sorriso malicioso que só não foi tão pontual por causa do machucado no canto dos lábios. Mas ela já sabia qual seria a resposta e quando chegaram ao apartamento, ela se fez bem confortável entrando antes mesmo de Diodoro e esperando que ele fechasse a porta depois de passar. - Eu posso usar o seu banheiro enquanto pede a pizza, não é? Quatro queijos para mim, por favor.<br />
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E de novo, sem nem esperar alguma resposta de Diodoro ou pelo menos instrução para roupas que pudesse usar e toalhas, nem mesmo uma brincadeirinha sobre os dois dividirem o banho, ela foi até o banheiro para se livrar dos rastros do início da noite e se sentir um pouco mais revigorada. Nem ficou surpresa de abrir a porta do banheiro para ver que o dono do apartamento tinha lhe deixado uma toalha limpa e um par de roupas dele. Daquela vez, ela usou até mesmo a calça antes de sair do banho. <br />
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- Nada como um banho quente e um lugar confortável pra dormir. - ela suspirou satisfeita, voltando para a sala e se sentando no sofá onde Diodoro esperava a pizza, estendendo as pernas folgada sobre as do agente funerário. - Obrigada pela ajuda, Diodoro.<br />
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<div style="text-align: center;" class="mycode_align"><span style="font-weight: bold;" class="mycode_b">Diodoro</span></div>
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Diodoro nem deu uma resposta a Hanna sobre dividirem a cama. Seu olhar longo provavelmente dizia tudo. Já estava sendo muito gentil deixando que ela fosse agarrada em seu braço. Não era que quisesse ser uma pessoa ruim com ela, mas ela lhe provocava de graça e não era muito honesta, então era difícil não ter que impor esses limites.<br />
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Quando chegaram no apartamento, ela foi direto para o banho, sem nenhuma gracinha a mais. Concordou silenciosamente que ela se dirigisse ao banheiro, e sem demora, dobrou as roupas limpas sobre a cama, saindo dali antes que ela aparecesse de toalha querendo lhe irritar. Pediu a pizza nesse meio tempo, o homem do outro lado estranhando o pedido de quatro queijos para o Diodoro, que costumava sempre pedir sabores bem tradicionais, assim como toda sua família.<br />
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Sentou-se no sofá, e Hanna logo apareceu, inteiramente vestida, e parecendo muito mais confortável enquanto se acomodava no sofá, jogando as pernas sobre as suas e mantendo uma distância respeitosa. Franziu a testa, abrindo a boca para falar alguma coisa, mas não havia nada que falasse que não lhe comprometesse ou poderia ser usado como brecha para Hanna lhe provocar. Tirou a luva e estendeu as costas da mão até a testa dela, mas a temperatura estava normal.<br />
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Ela até tinha lhe agradecido!<br />
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Encarou a morena longamente, um tanto inquieto. Talvez aquela tivesse sido uma noite mais difícil para Hanna que as demais. Talvez até ela tivesse um lado sério. Soltou um longo suspiro, e então novamente levou a mão até Hanna, mas dessa vez, lhe deu um par de tapinhas amigáveis nas costas e fez um breve carinho sobre o mesmo lugar.<br />
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 - Sempre. – respondeu calmamente, imaginando que a pizza chegaria logo, mas até ligou a televisão para matar o tempo dos dois enquanto isso.<br />
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