09-01-2021, 03:04 PM
Mathew
Recebeu uma mensagem da irmã mais nova de Benjamin para convidar o psicólogo da instituição para qual trabalhava para um almoço com seu namorado no domingo. Estava bastante apreensivo com aquela situação, pois bem sabia o quanto Benjamin se sentia desconfortável com o grego por perto. Ainda assim, era complicado ter de conviver com os dois em seu ambiente de trabalho, ignorar a presença de Aleksei quando na verdade não lhe faltava vontade ou assunto para conversar com o amigo, e ao mesmo tempo não causar desconforto ao namorado.
Havia conversado com o psicólogo previamente, visitando-o antes do horário de trabalho acabar para poder informá-lo dos planos para um almoço no domingo. Não sabia da disponibilidade do outro, então achou melhor perguntar ao homem se ele teria algum tempo livre no final de semana. Acabou por trocar algumas novas mensagens com Mary Ann pelo telefone, gastando muito mais tempo agora com o celular devido ao planejamento sobre o tal almoço. Admirava o grego como seu amigo, apesar das brincadeiras de mau gosto que ele e Dieter costumavam pregar em sua pessoa sempre que tinham a oportunidade de fazê-lo. Pensou em convidar o professor de biologia também para evitar com que Benjamin pensasse que tinha algo específico por Aleksei Vlahos, mas o moreno mais alto sempre parecia bem mais ocupado.
No sábado, após confirmar o evento com Mary Ann e o andamento do planejamento, adiantou seus estudos, intercalando seu interesse nas matérias que deveria estudar e o lugar que escolheriam para o almoço. Pensava em algo como frutos do mar, clássico da cidade, típico e sem muitas surpresas. Na verdade, se fosse ser surpreendido, preferia que fosse positivamente, pois detestaria ter de lidar com Benjamin emburrado e lhe julgando pelo resto do dia diante de sua amizade com o psicólogo.
De noite, mencionou do almoço de domingo, sobre saírem para comer em um dos restaurantes de frutos do mar de Cerise, o mesmo lugar que havia pedido ajuda para a irmãzinha dele para escolher. Não fazia ideia de como Benjamin encararia aquela situação, mas esperava que ao menos ele desse alguma chance para o novo cenário. Já no horário noturno, após encerrar seus estudos e os afazeres em casa, encontrou com o namorado na cama, ponderando sobre como mencionaria o almoço com o psicólogo no dia seguinte.
- Benjamin. - começou, tentando chamar a atenção do inglês enquanto removia o próprio par de óculos antes de acomodar-se na cama. - O que acha de almoçarmos fora amanhã? Eu… eu convidei o Aleksei para almoçar com a gente. - comentou, pressionando os lábios ao aguardar a reação do outro diante daquela conversa. Já era de se esperar que ele imaginasse que algo assim aconteceria, porque não conseguia esconder quando estava apreensivo ou preocupado.
Benjamin
Benjamin tinha parcialmente resolvido o problema com Mathew e Aleksei em sua mente desde a última briga por conta de um almoço desavisado. Ainda não gostava do psicólogo, mas a presença dele e a proximidade que parecia até proposital com Mathew lhe deixava muito incomodado. E para piorar o seu desgosto pelo psicólogo, ainda recebeu uma bronca enorme da irmã mais nova por agir daquele jeito sem sequer estar disposto a conhecer os amigos do seu namorado. Não ficou com um ânimo muito melhor ao longo da semana, mas sabia que Mathew tinha intimidade para conversar sobre todas aquelas coisas com Mary Ann, e com as palavras dela somada à atitude de Mathew, sabia que havia alguma coisa errada ali.
As suspeitas se confirmaram quando saiu do banho para a cama na noite de sábado, depois de ter corrigido alguns exercícios de alunos a tarde inteira. Deitou-se na cama e Mathew veio logo em seguida, sugerindo que almoçassem fora no domingo. Muito especificamente na companhia de Aleksei. Franziu o cenho em irritação assim que ouviu o nome alheio, encarando o namorado a contragosto.
- Você está falando demais com Mary Ann. - respondeu, obviamente contrariado porque não teria como negar o pedido direto especificamente depois de todo o sermão da irmã. Mas não respondeu logo sobre aceitar ou não ir almoçar fora. Não ia poder negar mesmo, então era melhor nem confirmar.
Mathew
Entreabriu os lábios, inquieto diante do franzido do namorado. Fechou a boca quando ele lhe respondeu sobre conversar com a irmã mais nova dele. Cruzou as pernas, inclinando-se para a frente ao apoiar os cotovelos nos joelhos, acompanhando o outro com olhar.
- Eu não sabia como falar sobre isso direito com você porque você não parece gostar dele. - tentou se explicar, voltando-se para Benjamin enquanto pressionava os joelhos com as mãos. - Vamos, Benjamin. Vamos ser eu, você e o Aleksei. Ele não é tão ruim assim. - fez uma breve pausa, relembrando de todas as vezes que o grego lhe colocou em situações desconfortáveis. - Quero dizer, ele também é nosso colega de trabalho e meu amigo. Por que não dá uma chance pra ele? Não vai ser tão ruim assim.
Virou-se para Benjamin, sorrindo mais gentil para o inglês que já havia se deitado. Segurou a mão do loiro, trazendo-lhe os dedos até os lábios.
- Vamos, Benjamin. Por favor. - pediu, esperando que ele aceitasse, pois realmente apreciava a companhia do namorado e não queria ter de se dividir entre o convívio com ele e o psicólogo, pois certamente acabaria ficando dependente apenas de Benjamin e não achava que aquilo fosse saudável para ambos. Conhecia os amigos do inglês e não simpatizava com o japonês violento, o tal de Nakamura, Hinomura, nem se recordava direito o sobrenome dele, mas havia aprendido a conviver na presença do mesmo no decorrer dos dias trabalhando sob o mesmo teto que ele. Só desejava diminuir a irritação do inglês na presença de seu amigo. Sem mencionar que não se recordava de Aleksei possuir muitos amigos além dele e do professor de biologia e aquilo também lhe preocupava, apesar de nunca ter parado para conversar sobre o assunto diretamente com o grego.
Benjamin
Respirou fundo porque não sabia o que fazer para sair daquela situação. Mas tinha que admitir que talvez fosse até uma boa ideia ficar mais próximo de Aleksei e descobrir o que ele queria de verdade com Mathew, porque o enfermeiro parecia não perceber, mas a intimidade deles era demasiada.
- É claro que eu não gosto dele. Ele é bonito, rico, bem sucedido e tem um interesse inexplicável em você. - retrucou, remexendo-se na cama para se sentar encostado aos dois travesseiros. - Queria saber como iria se sentir sabendo que saio o tempo todo com um amigo que é íntimo até demais de mim.
Sentiu a aproximação e o toque em sua mão, rodando os olhos e suspirando de novo, sabia que ia acabar se rendendo à insistência dele e não queria começar estragando o relacionamento recente com a irmã.
- Eu vou, Mathew. - respondeu bem a contragosto, ajustando a posição da cama para ficar deitado por fim. - Mas agradeceria se você achasse amigos feios. E que não andam lhe beijando em parques de diversão.
Ainda respondeu com um tom bem óbvio de acusação, mas a despeito de todas as implicações e o tom irritado, deitou-se próximo de Mathew, passando a mão por cima do peito dele para dormir. Seria um domingo longo, mas ainda tinha um pouco de esperanças de que não fosse tão ruim.
Mathew
Arqueou as sobrancelhas, surpreso com as colocações de Benjamin. A aparência de seus amigos era assim tão importante pra ele? Desviou o olhar sobre o comentário acerca dos amigos íntimos, pois sabia que o melhor amigo dele, Stephen, já havia sido bastante íntimo de seu namorado. Respirou fundo, recordando de que sequer havia retornado a encontrar a única amiga que havia feito naquela cidade após toda a resolução daquele caso.
Voltou a observar o namorado quando, já deitados, ele passou a mão em seu peito em sinal de que iriam dormir. Já era o bastante que ele havia aceito o convite para o almoço com Aleksei. Queria mandar uma mensagem positiva para Mary Ann, mas tinha receio de se afastar do outro e deixá-lo irritado além do que já parecia contrariado. Então apenas estendeu a mão para a cabeça do homem, respondendo-o com um afago carinhoso antes de aceitar o merecido descanso.
No dia seguinte, acordou como de costume, sempre cedo para poder arrumar o café da manhã e cuidar dos afazeres domésticos. Como era domingo, deixou que Benjamin ficasse o tempo que quisesse na cama, já bastava ele sempre ter que aturar seus roncos barulhentos de madrugada. Enquanto estava ocupado na cozinha, trocou mensagens com Mary Ann sobre o assunto da noite anterior, informando-a sobre o sucesso do pedido.
Posteriormente, aproveitando o momento de preparo do café da manhã, receoso, telefonou para o psicólogo, perguntando-se mentalmente se ele já estaria acordado naquela hora do dia. Não sabia também se ele atenderia o telefone que conseguira no trabalho, mas ao menos desejava confirmar se o convite para o almoço, local e horário, estava tudo de acordo com ele também, já que o tinha convidado. Bateu os ingredientes para algumas panquecas no liquidificador enquanto esperava ele atender a ligação, inquieto.
Benjamin
Benjamin se rendeu ao sono apenas porque era o que podia fazer. Não teve uma noite muito tranquila, provavelmente por conta dos pensamentos negativos que permeavam sua mente, mas ainda assim, dormiu mais do que o namorado na manhã de domingo, acordando apenas próximo das dez da manhã para ter o pensamento renovado de que iriam almoçar na companhia de Aleksei. Bom, talvez devesse dar mais crédito aos sentimentos de Mathew e menos à sua insegurança. Mary Ann também tinha batido na mesma tecla por horas a fio enquanto conversava com ela por celular.
Resolveu tomar logo um banho para acordar melhor e renovar o humor, para então descer até a cozinha e sentir o cheiro de panquecas e ouvir a voz de Mathew se despedindo de alguém no telefone. Alcançou a cozinha vestindo uma calça de malha confortável e uma camisa básica, apenas porque esperava ficar em casa ainda por algum tempo antes de irem para o almoço, cuja hora nem estava ciente ainda.
- Bom dia. - cumprimentou o namorado, aproximando-se direto da chaleira para se servir de uma xícara de água quente e colocar um sachê de chá de camomila, provavelmente precisaria dele. - Com quem estava falando? - perguntou sobre o telefonema que ele tinha encerrado bem antes.
Mathew
Manteve o celular apoiado entre o ombro e o queixo enquanto cozinhava, reconhecendo a voz do outro lado da linha até respirar mais aliviado. Pelo menos ele havia atendido o telefone. Perguntou sobre o almoço, o compromisso para o qual havia convidado o outro no dia anterior. Franziu o cenho diante da resposta dele sobre a própria aparência. Gostava de conversar com ele, não necessariamente de como ele se vestia ou de como se apresentava. Também não era cego e admitia que ele tinha uma boa aparência, mas não era algo que parava para admirar ou lembrava da existência todos os dias. Já ia se defender no telefone quando ele lhe acusou de não ser bom lendo as pessoas quando ouviu passos mais próximos e prontamente imaginou ser o namorado, desligando a chamada quase que imediatamente, despedindo-se bruscamente.
Contorceu-se para se livrar do celular, colocando-o de lado na mesa da cozinha para terminar as panquecas, sorrindo animado ao ser cumprimentado inicialmente por Benjamin. Aproximou-se após diminuir o fogo das panquecas para poder cumprimentar Benjamin de volta com um carinho mais íntimo, tocando-o na cintura para beijá-lo no ombro quando ouviu a pergunta enquanto ele preparava o próprio chá.
- Ah… - parou no meio do trajeto, afastando-se alguns centímetros ao processar sua resposta. - Era o Aleksei. Eu liguei para confirmar se ele iria sair conosco hoje ou se tinha esquecido. - disse, sem enxergar porque dizer algo diferente daquilo poderia ser inadequado. Já havia sofrido antes omitindo informações de Benjamin e não desejava passar por aquilo de novo. - Bom dia. - sorriu mais aliviado por ainda conseguir admitir aquilo, ainda que soubesse de como era a convivência do namorado com o amigo. - Conseguiu descansar? Você dormiu bastante. - perguntou enquanto separava as panquecas recém prontas e cheirosas.
Colocou as panquecas em um prato único na mesa, escolhendo outros pequenos para poderem se servir. Não era de se gabar, mas ao menos as panquecas sabia fazer muito bem, aquele costume canadense que sua família sempre tinha nos finais de semana logo cedo pela manhã não morreria nunca se dependesse dele e de suas irmãs. Serviu-se de duas das panquecas e uma xícara de café pelo hábito do trabalho, lembrando de buscar alguma fruta para acompanhar a refeição, estava tentando cuidar um pouco da própria saúde e não preocupar demais o namorado.
Benjamin
Esperava mesmo que a resposta fosse que ele estava falando com a família no Canadá, tanto que ficou mais atento à xícara enquanto Mathew deixava o celular do lado para se aproximar e responder exatamente o que Benjamin não queria ouvir. O beijo no ombro e o toque na cintura deviam ser só para amenizar o seu humor, de fato, mas uma hora teria que se acostumar, não era? Só esperava que o almoço provasse que estava mesmo pensando besteiras aquele tempo todo. Só suspirou pesado com a resposta do namorado e tomou um gole do chá, ainda quente, enquanto Mathew terminava de fazer as panquecas.
- Sim, eu dormi bem. - respondeu, tentando devolver o tom amigável a despeito de ainda não gostar da ideia do almoço. Mathew estava se esforçando, e desde a última discussão, tinha prometido que ia se esforçar também para não ser tão paranoico daquele jeito. Resignou-se aos próprios pensamentos inadequados e continuou tomando o chá, sentando-se à mesa apenas olhando as panquecas que ele tinha preparado, mas sem se servir. - As panquecas estão com um cheiro bom.
Continuou apenas tomando o chá enquanto ele se servia de duas panquecas e fruta, observando o namorado por um instante e apoiando o cotovelo na mesa, com o queixo na costa da mão. Sinceramente, para alguém que nunca tinha se firmado num relacionamento duradouro... ele mesmo estava sendo mais difícil de lidar com Mathew. E queria que aquilo desse certo, então era melhor se entender com os amigos dele também.
- Que horas está marcado? - perguntou sobre o almoço, tentando parecer menos incomodado com a ideia.
Mathew
Conhecia o namorado tempo o bastante para notar quando ele parecia desconfortável com alguma coisa e aquele assunto acerca do psicólogo já havia passado pelas discussões entre ambos diversas vezes. Enquanto mastigava uma das panquecas, ouviu a pergunta sobre o horário e bebeu um pouco do café para conseguir engolir e responder.
- Marquei para uma da tarde. Mas não se preocupe, já liguei fazendo a reserva, então não corremos o risco de não encontrar uma mesa. - sorriu, orgulhoso da própria organização. Bem, estava fazendo aquilo pelo namorado também. Queria que ele se entedesse com o psicólogo. Sabia que Aleksei podia ser irritante em alguns aspectos, odiava quando ele sempre lhe fazia parecer um completo idiota, lhe aconselhando sobre assuntos que antes pareciam complexos, mas no pensamento dele, pareciam bem óbvios e simplórios.
Terminou de comer as panquecas rápido como de costume. Não era do tipo que demorava em suas refeições quando estava de bom humor. Estava esperançoso que tudo acabaria dando certo no final. Levantou-se para colocar a louça na pia, lavando e secando as mãos antes de se aproximar do namorado novamente, tocando-lhe as costas em um afago breve.
- Coma alguma coisa, Benjamin. Eu vou cuidar de algumas coisas antes de sairmos. Também preciso de um banho. - sorriu, passando a mão livre pelos cabelos do parceiro. - Quer que eu faça alguma coisa para você? - perguntou, prestativo como de costume. Diferente do convívio durante a semana no trabalho ou quando estava muito cansado em casa, nos finais de semana estava muito mais inclinado a realizar as vontades do namorado, principalmente considerando que ele não deveria estar acostumado aquele tipo de relacionamento mais cotidiano.
Benjamin
Mathew estava obviamente muito empolgado com a ideia do almoço, embora ficasse incomodado com aquilo, sabia que era apenas porque finalmente tinha aceitado se aproximar mais do amigo dele. O máximo que tinha de aproximação com Aleksei Vlahos era nos corredores da Academia e quando tinham que tratar de algum assunto dos seus alunos, nada mais que aquilo. Tivera pouco contato e depois de perceber como ele e Mathew tinham uma intimidade exagerada, tinha se afastado ainda mais.
Não deixou o incômodo tão óbvio, concentrando-se ainda no chá, e depois da confirmação que o almoço só seria dali a três horas, bom, achou melhor se servir das panquecas também.
Começou a comer enquanto Mathew arrumava os pratos na pia, ainda estava se servindo quando ele terminou e se aproximou para tocar-lhe os cabelos e oferecer ajuda em alguma coisa. Negou com um aceno de cabeça rápido.
- Não, vou aproveitar para terminar de preencher alguns dados da disciplina. - respondeu, continuando na cozinha enquanto ele ia tomar banho e se arrumar.
Como tinha dito, ainda parou para fazer parte do trabalho da Academia e só quando o relógio já marcava mais de meio-dia foi que se arrumou, colocando uma camisa básica azul clara, com a gola redonda, os dois botões abertos perto do pescoço. Vestiu uma calça mais escura e calçou os sapatos, adicionando apenas o relógio de pulso. Não se arrumou muito mais do que aquilo, colocando apenas a carteira e o celular nos bolsos, já imaginava que Mathew ia sair com uma mochila inteira de primeiros socorros. Conferiu o horário no relógio de pulso enquanto esperava que Mathew terminasse de se arrumar.
- Mat, eu vou chamar um táxi. - avisou ao namorado, já pegando o celular para fazer a ligação.
Mathew
Concordou com um aceno de cabeça com as atividades do namorado, deixando-o em paz enquanto se arrumava para saírem. Ainda precisava organizar algumas coisas em casa antes de começar a se arrumar. Poderia acumular muito mais objetos que Benjamin, porta retratos, cartas e acessórios domésticos, mas sempre foi um homem organizado e cuidava muito bem da residência em que agora vivia com o inglês. Em breve, esperava poder se mudar com o homem para Paris e quem sabe poderia encontrar alguma moradia perto de onde estudaria ou trabalharia. Os planos para o futuro ainda eram nublados e precisava conversar com Benjamin sobre o que ele desejava também, pois não considerava mais ele fora de seu futuro para tomar aquele tipo de decisão sozinho.
Após o banho, vestiu uma calça jeans, uma camisa polo cinza, um par de sapatos e arrumou a própria bolsa. Sempre andava com sua bolsa no caso de precisar em alguma emergência, e como era um enfermeiro, não podia deixar ninguém desamparado no caso de alguma necessidade, ao menos pensava daquela forma. Lembrou de carregar o celular e arrumar o cabelo daquela vez. Geralmente tinha os fios assanhados pela falta de memória ao acordar e verificar a própria aparência no espelho antes de ir trabalhar, estava sonolento demais ao lavar o rosto.
- Certo! - concordou com o namorado ao ouvir sobre o táxi enquanto deixava o quarto para verificar as portas e janelas da casa. Retirou o celular do bolso novamente, verificando o telefone do amigo psicólogo e esboçando um sorriso, antecipando que seria um bom almoço para que finalmente ele e Benjamin se conhecessem melhor.
Assim que o táxi chegou, informou o endereço do restaurante ao qual se encontrariam com Aleksei. Era um ambiente mais boêmio e tranquilo, perto da orla, um tanto distante do distrito residencial. Durante o trajeto, comentou sobre os pratos que havia pesquisado do cardápio e que poderiam experimentar naquele almoço, a grande maioria incluía frutos do mar e, para sua alegria, lula frita, uma das especiarias favoritas e que não tinha oportunidade todos os dias de comer.
- Acho que é aqui. - informou ao namorado assim que saíram do táxi, indicando o restante do trajeto que teriam de fazer a pé devido ao restaurante não ficar acessível às vias de veículos comuns. Não muito distante, havia um restaurante de esquina com grandes janelas de vidro que permitiam a visão interna do ambiente. Era um ambiente amplo e bem iluminado que no final de semana parecia bem frequentado. - É aquele ali. - apontou, verificando no próprio celular o endereço do lugar antes de segurar a mão do inglês, guiando-o ao se aproximar. Estava mesmo empolgado com aquele encontro e com a comida também.
Aleksei
O pedido de Mathew para que fossem almoçar no domingo tinha sido no mínimo interessante, especialmente porque envolvia também o namorado dele, Benjamin, que sempre se sentia ameaçado por sua presença. Não tirava a razão do inglês, afinal, ele fazia muitas coisas de propósito apenas para fazer com que o inglês ficasse enciumado, que reafirmasse o relacionamento com Mathew - e claro, para se divertir com todo o espetáculo que o enfermeiro tirava disso.
Enquanto se arrumava no fim da manhã do domingo, riu em frente ao espelho, especialmente porque Mathew tinha pedido para que ele "não parecesse tão bonito". Usou uma roupa muito básica que já estava acostumado a repetir, com uma camisa de gola alta vinho e uma calça social de gabardine preta. Colocou ainda o blazer conjunto da calça para pegar o próprio carro e ir até o restaurante em que tinham marcado o almoço, às 13h.
Chegou no local um pouco adiantado, o valet ficando com as chaves de seu carro para estacionar, enquanto seguia para a mesa reservada com uma recepcionista. Não usava os óculos falsos naquele dia, mas talvez devesse ter colocado o acessório só para se esforçar em "parecer menos bonito". Dispensou o garçom enquanto as suas companhias não chegavam, sentado a uma mesa de quatro lugares com poltronas acolchoadas confortáveis. Sentou-se com as pernas bem cruzadas, analisando a carta de vinhos, mesmo que estivesse ali dirigindo. Não teve muito tempo para escolher uma bebida, logo avistou Mathew se aproximando com a animação usual, acompanhado de Benjamin, com uma expressão socialmente satisfeita.
- Boa tarde, Mathew, Vaughn... - levantou-se para cumprimentar os dois, mantendo o sobrenome do professor apenas porque não tinha intimidade suficiente, estendendo a mão para cumprimentá-los.
- Só Benjamin está bom. Boa tarde, Dr. Vlahos, certo? - Benjamin respondeu, tentando manter-se mais sensato logo no início da conversa. Mas o sorriso foi bem forçado especialmente ao encarar o psicólogo de perto. Como é que Mathew não queria que se preocupasse com um homem tão bonito daquele perto de seu namorado?
- Só Aleksei, por favor. - Aleksei devolveu a cortesia, notando facilmente o desconforto do inglês antes de se sentarem.
Mathew
Não ficou surpreso com a pontualidade do psicólogo, mas torceu os lábios diante da forma com a qual ele havia escolhido ir até ali. Havia dito para ele tentar não parecer tão bonito e era daquela forma que ele surgia? Certamente poderia mostrar algumas das roupas de seu vestuário para que ele entendesse o recado. Ainda assim, não deixou de cumprimentá-lo, sorrindo mais abertamente assim que ele e seu namorado aceitaram ser chamados pelos primeiros nomes.
- Boa tarde. - sentou-se a mesa, dando espaço para ficar entre Aleksei e Benjamin, logo localizando o garçom não muito distante. - Oi, Aleksei. O que houve com seus óculos? É estranho te encontrar sem eles.
Comentou casualmente, notando aquele detalhe. Jurava que já o tinha encontrado antes sem aqueles óculos, mas sempre estranhava pelo fato de estar habituado mais com o grego no ambiente de trabalho em que ele usava os óculos com frequência. Verificou o horário em seu celular só para ter certeza que não estavam atrasados. Sabia que o psicólogo era bem educado com seus horários e ficaria incomodado em deixá-lo esperando depois de convidá-lo para aquela saída.
Olhou para os lados, pensativo sobre o garçom. Sabia que o grego gostava de alguns pratos da culinária local, mas não tinha muito certeza sobre Benjamin pois não saíam muito para jantar devido ao trabalho de ambos e por seu hábito de preferir pedir comida e comer em casa.
- Já pediu alguma coisa? - perguntou ao amigo, mais calmo ao se dar conta de que talvez ele já tivesse feito algum pedido.
Aleksei
Aleksei encarou a dupla que se acomodou à mesa, achando ainda mais interessante como Benjamin parecia desconfortável e Mathew era incapaz de notar aquilo. Mas não fez nenhum comentário a mais, achando a cena inteira muito divertida para lhe distrair em mais um fim de semana em que não tinha a oportunidade de viajar até Paris.
- Eu só uso óculos durante o trabalho, Mathew. - ele respondeu, como se aquilo fosse um detalhe que o enfermeiro já devesse ter notado. Mas não se ateve ao detalhe, negando com um aceno de cabeça sobre ter feito o pedido e deixando Mathew se preocupar em procurar o garçom. Benjamin estava mais interessado em olhar o menu demoradamente e eventualmente lhe encarar de volta para perceber que estava sendo observado. - Estava esperando por vocês. Pode ficar à vontade, eu vou pedir uma salada.
A última coisa que precisava era pedir pratos com frutos do mar e já imaginava que os outros dois iam fazer aquilo, afinal, era a especialidade da cidade e do restaurante. Mas voltou a atenção para Benjamin primeiro, ignorando a presença de Mathew.
- Então, Benjamin, como estão as coisas na sua vida de casado com o Mathew aqui? - perguntou ao inglês que pareceu travar por um instante ao olhar o cardápio para então levantar o rosto e encará-lo de volta com outro sorriso forçado.
- Nós não somos casados, Aleksei. - Benjamin corrigiu de imediato, tentando não parecer tão incomodado como já estava com a presença alheia. Voltou a atenção para o namorado sentado ao seu lado. - Mas não lhe culpo por não saber de detalhes, Mathew aqui é especialista em esquecer de comentar coisas importantes para os amigos sobre mim. Vou pedir uma salada de entrada também.
Mathew
Concordou com a resposta do outro sobre só usar óculos no trabalho, voltando sua atenção para o cardápio ao ouvir que ele pediria apenas uma salada. Considerou observar o que o namorado pediria, mas seus olhos foram diretamente para a opção de aperitivos com lula frita. Contudo, acabou erguendo o olhar assim que Aleksei perguntou sobre a vida de casados dos dois. Sentiu o rubor lhe tomar parcialmente a face. Obviamente já havia pensado sobre o assunto do matrimônio, ainda mais com o casamento de seu irmão Gerald, mas diante de seu objetivo atual de conseguir se tornar um médico, resolveu que aquele desejo ficaria para discussões posteriores.
- Nós não--
Já ia responder ao grego ao mesmo tempo que Benjamin, mas ele acabou respondendo primeiro. Sorriu discreto diante da resposta pouco antes de ouvir seu complemento. Não conseguiu esconder o semblante boquiaberto com a resposta do namorado. Ele havia mesmo acabado de falar que esquecia de falar detalhes sobre ele para os amigos? Sabia muito bem do que ele estava falando e a quem estava fazendo referência, mas Aleksei era seu amigo bem antes de conhecer a enfermeira ruiva cereja e bem se recordava que já havia falado bem mais para ele sobre a vida com Benjamin que para a moça. Deveria ser alguma coisa da profissão do homem que lhe fazia conseguir falar tanto sobre tanta coisa.
Pensou em responder aquela sentença, mas apenas pressionou os lábios, voltando sua atenção para o cardápio novamente. Não havia sentido em responder aquele comentário. Ainda conseguia se recordar de como Benjamin havia lidado com todo aquele caos que havia criado. A última coisa que desejava era retomar o assunto e tornar o almoço ainda mais tenso para ele.
- Eu vou pedir essa porção de lula frita. - comentou antes de chamar o garçom para fazerem os pedidos das duas saladas e a porção de lula frita. Era seu dia de folga e estava mesmo ansioso por poder enfim experimentar aquele seu prato favorito que só conseguia comer em alguns restaurantes bem específicos de sua cidade natal. - Falando em casamento, meu irmão mais velho vai se casar esse ano finalmente. Acho que não tenho muitos amigos casados. O Dieter é viúvo. Você já foi casado, Aleksei? Eu nunca perguntei isso. Acho. - perguntou a fim de mudar de assunto e também pela própria curiosidade. Em suas conversas com o grego, recordava de sempre falar muito sobre si mesmo, sobre seu relacionamento com Benjamin ou sobre problemas pessoais, mas quase nunca falavam sobre Aleksei.
Aleksei
A resposta de Benjamin foi extremamente incisiva e Aleksei manteve a boa expressão suave para apreciar a cara de Mathew que se contorceu em surpresa com aquelas palavras. O inglês podia parecer bem tranquilo de longe, mas dava para notar muito facilmente o incômodo dele ali e talvez se apertasse mais alguns botões ele quisesse lhe bater até o fim do almoço. Aquela ideia era interessante, tirá-lo do sério.
As palavras duras tinham incomodado bastante Mathew, então por que não dar uma colher de chá para o enfermeiro?
- Na verdade, sempre que nos encontramos, ele só sabe falar de você, Benjamin. O "casado" foi só pela força da expressão. Afinal, os dois parecem tão firmes. - Aleksei respondeu, recebendo outro olhar um tanto desconfortável do inglês por cima do cardápio.
Daquela vez o professor de inglês não retrucou suas palavras, mas os dois foram interrompidos por Mathew ao mudar de assunto decidindo o que pedir do cardápio. Sorriu com a escolha previsível do enfermeiro, já tinha dispensado o cardápio com o prato principal em mente, mas voltou a atenção para Mathew com a pergunta sobre seu status de relacionamento. Sorriu com os lábios fechados, especialmente por lembrar de outras coisas com a ideia de casamento.
- Não, nunca fui casado. Não acho que sou um homem de casamento. - respondeu, apoiando o cotovelo na mesa e o queixo nos dedos longos. - E você, Benjamin? Nunca pensou em casamento? Você tem um ar de quem gostaria de casar e ter uma família.
- Não, nunca pensei em casar e nem vou pensar. - a resposta de Benjamin mais uma vez foi bem direta, quando ele fechou o cardápio deixando-o de lado. Aleksei já esperava aquele tipo de reação, especialmente porque sabia que o inglês não tinha o perfil para casamento. Mas era bom implicar com ele e com as expectativas de Mathew também. - Vou pedir bouillabaisse.
Aleksei apenas concordou com um aceno de cabeça e fez um sinal para que o garçom se aproximasse, fazendo o pedido dos outros dois e adicionando o próprio pedido com uma entrada com salada e o prato principal de pato ao molho de laranja. Adicionou ainda o pedido de um vinho próprio de Cerise, voltando-se para Benjamin mais uma vez depois que o garçom se afastou.
- Você toma vinho, Benjamin? - Aleksei perguntou, bem a tempo do garçom voltar com a garrafa.
- Sim, obrigado. - Benjamin não pensou duas vezes antes de aceitar o vinho, para que aquilo desse certo, seria bem melhor beber um pouco mais. Ou seria uma boa ideia, ou uma péssima ideia.
De qualquer modo, o sorriso de Aleksei foi evidente quando o inglês aceitou o vinho.
Mathew
Parou de observar o cardápio quando Aleksei revelou que falava bastante sobre Benjamin em suas conversas. Baixou o olhar, sentindo o par de óculos escorregar pelo nariz com o leve rubor. Não que aquilo não fosse verdade, mas não precisava que o namorado soubesse.
Já estava prestes a concordar com o psicólogo sobre ele não ser muito de casamentos. De todo modo, imaginava ele se saindo muito bem em uma cerimônia. Ele sempre parecia pronto para algum tipo de evento, de qualquer forma. Contudo, sua atenção foi tomada quando a pergunta foi direcionada a Benjamin sobre um matrimônio. Entreabriu os lábios por um momento, observando o namorado ao seu lado falar sobre nunca desejar se casar.
Não havia como negar que já havia pensado sobre aquilo. Ainda mais com o casamento de seu irmão mais velho, fora criado em uma família em que o matrimônio carregava um significado muito importante. Baixou o olhar para o cardápio fechado sobre a mesa e fechou a boca, ajustando os óculos no lugar. Voltou sua atenção para o inglês novamente quando ele avisou que beberia vinho. Não comentou nada sobre beber. Na verdade, preferia evitar o álcool perto do grego e do australiano sempre que possível, não tinha lembranças muito boas de momentos embriagado na presença dos dois. E não queria ter mais nenhuma crise de asma desnecessária, ainda que tivesse começado a carregar o medicamento consigo na bolsa no caso de qualquer emergência.
Ficou quieto até que o garçom trouxesse os pedidos. Ainda estava processando a ideia de que Benjamin não desejava se casar e sequer pensava a respeito do assunto. Não queria tocar naquele assunto ali também, na frente do grego, o que poderia parecer mais uma sessão de terapia de casal que um almoço entre amigos. Pelo menos o atendimento no estabelecimento não era demorado para que as saladas chegassem acompanhadas de sua lula frita. Para acompanhar, pediu uma garrafa de água com gás, estava tentando ser um pouco mais saudável, afinal.
Um sorriso animado se formou no rosto do canadense assim que a lula frita foi colocada sobre a mesa. Era sua comida preferida e fazia tanto tempo que não experimentava um pouco que temia confundir o sabor e acabar achando que aquela lula pudesse ser ruim se comparada aquela que comia em sua casa do outro lado do oceano.
- Quer experimentar? - ofereceu primeiro ao namorado antes de pegar uma porção com seu garfo para levar até a boca, corando com o sabor delicioso do molho absorvido pela fritura crocante, a carna macia da lula sendo mastigada até se dissolver em sua boca. - Hmmm. - sorriu com a boca fechada, voltando sua atenção para Aleksei logo depois. - Quer? - ofereceu não apenas por educação, mas porque amava demais aquele prato para não desejar que seu amigo e namorado também pudessem provar.
Aleksei
O modo como Benjamin respondia e como Mathew reagia era interessante de se observar, mas quanto mais conversavam, mais palpável ficava o desconforto do inglês. Bom, não podia tirar a culpa dele, afinal, sabia que era um homem muito bonito e interessante para despertar ciúmes alheios. E claro, tinha uma boa porção de culpa em incitar ainda mais aquele lado do inglês. Mas gostava de se dar algum crédito, considerando toda a ladainha que aquele relacionamento tinha sido até se efetivar. Ciúmes era sempre uma boa ferramenta para dar alguns empurrõezinhos.
Mathew, por outro lado, parecia pego no meio do fogo cruzado. Cada negativa de Benjamin para as suas perguntas deixavam o enfermeiro desconfortável, isso porque sabia como ele gostava de se vangloriar pelo namorado inglês e como queria ter uma vidinha tradicional e com tudo que tinha direito do mais cafona e brega possível.
Não demorou para que o garçom trouxesse as entradas com salada. Notou como Benjamin já tinha se familiarizado com o vinho, bebendo meia taça antes de ter algo mais para comer. Tomou o tempo para começar a se servir, voltando, de novo, a atenção para Benjamin.
- Sei que você é inglês, Benjamin. Já visitou muitos lugares na Europa? O Mathew aqui não parece ter tido a oportunidade ainda de conhecer outros países além da França.
- Já visitei alguns países, gosto de estudar idiomas, mesmo que minha especialidade seja em ensinar inglês para outros. - Benjamin explicou, voltando a atenção para Mathew logo ao seu lado. - Ele disse que não visitou outros lugares? Eu acho que ele está sempre muito preocupado estudando para lembrar que pode viajar facilmente aqui.
- É verdade, Mathew está sempre estudando. - Aleksei voltou a atenção para o enfermeiro, bem a tempo do garçom trazer o prato que ele tinha pedido. A sua resposta inicial foi apenas se recostar à cadeira e se afastar um pouco do cheiro mais forte, embora o tempero disfarçasse mais aquilo.
Benjamin negou rapidamente com um aceno de cabeça, tomando um pouco mais do vinho, e automaticamente olhou para Aleksei quando Mathew ofereceu para ele provar também. O olhar era tão incisivo que o grego entendeu facilmente que ele não queria que aceitasse. Devia aceitar, só para abrir a boca e esperar que Mathew lhe alimentasse diretamente. Se não fosse fruto do mar.
- Não, eu não como frutos do mar. - respondeu, casualmente, servindo-se da salada para observar um Benjamin um pouco mais satisfeito com sua resposta, e de novo, puxando conversa com o inglês. - Mas então, Benjamin, o que pretende fazer quando Mathew passar no vestibular de medicina? Vai se mudar com ele para Paris?
Mathew
Pareceu um pouco mais animado com a iniciativa de Aleksei de mudar de assunto e tratar sobre viagens. De fato, não viajara muito desde que havia chegado na Europa. Seu foco sempre estava nos estudos, mas havia muito mais motivos pessoais naquele seu objetivo que simplesmente ser aprovado de novo em uma seleção para o curso de medicina.
Parou de procurar algo no cardápio ao ser observado por Benjamin, acompanhado do comentário sobre sempre estar ocupado estudando. Bem, aquilo não era nenhuma novidade, então concordou com um aceno positivo de sua cabeça, esboçando um sorriso discreto sobre o namorado lembrar que sempre estava ocupado estudando, não que aquilo fosse necessariamente algo ruim.
- Ah… - fez uma pausa, observando o grego até arquear uma sobrancelha, recordando muito bem que já haviam saído para almoçar em um restaurante que servia frutos do mar. - Desculpe, eu não me lembrava que não comia.
Pediu e voltou a comer, saboreando o tempero naquele seu petisco favorito. Poderia comer lula frita uma semana inteira e não reclamaria. Apenas a balança e sua família ficaria muito preocupada se soubesse que havia se rendido aquele vício novamente. Voltou sua atenção para Aleksei quando ele retornou a questionar Benjamin sobre os planos do mesmo, dessa vez sobre sua possível aprovação na universidade de Paris e a mudança de ares.
- Nós ainda não conversamos sobre os detalhes desse processo. - adiantou-se a responder, bebendo um pouco de água logo em seguida para evitar engasgar com o tempero da lula ainda em sua boca. - Hm. Primeiro, eu preciso passar no processo de seleção e a entrevista. Vamos com calma. - respondeu, tentando evitar a ansiedade desnecessária por se sentir atrapalhando os planos pessoais de seu namorado ou a carreira dele. A última coisa que desejava naquele momento de sua vida era impedir que o inglês desse continuidade a própria carreira profissional por sua causa.
Aleksei
A pergunta sobre o que fazer quando Mathew fosse para Paris pegou Benjamin um tanto desprevenido. Ele olhou do psiquiatra para Mathew que foi um pouco mais rápido para responder sobre não terem decidido ainda o que fazer, que a prioridade era que ele fosse aceito na universidade primeiro.
Aleksei continuou comendo a sua entrada, assim como Benjamin, agora mais interessado no prato até que o garçom viesse servir o prato principal dos dois. O desconforto do inglês ainda permanecia o mesmo e Aleksei precisou conter a vontade de rir diante da incapacidade dele de lidar com a suposta "ameaça" ao próprio relacionamento. Deu um tempo apenas para que o inglês começasse a se servir do prato principal.
- Vocês formam um belo casal, acho que se dariam muito bem em Paris. - a resposta foi no tempo ideal para que notasse o engasgar breve de Benjamin ao levar um pouco do caldo à boca. Ele se adiantou para cobrir a boca com um guardanapo.
- E você, Aleksei? Pretende trabalhar em Cerise pelo resto da carreira? - Benjamin aproveitou a chance para desviar a atenção de si mesmo, tomando um gole generoso do vinho ao qual Aleksei fez questão de reabastecer.
- Acho que não, sou uma pessoa que gosta de uma mudança de ares. - respondeu, um pouco mais sincero do que a conversa demandava. Tomou vinho também em meio às garfadas do prato que tinha pedido. - Atuar numa escola está sendo uma experiência nova e interessante até então.
Mathew
Olhou preocupado para Benjamin assim que ele deu sinais de engasgar com o caldo do prato logo após que ficasse animado com o elogio de seu amigo sobre serem um belo casal. Era bom ser reconhecido ao lado de Benjamin como um par, pois por muitas vezes se sentia inferior ao inglês - ainda que não revelasse isso com frequência para o homem. Sabia que ele tinha uma vida muito mais estável que a sua e havia passado por muitas outras experiências de relacionamentos que aquele. Certamente, ele deveria ser o mais preparado ali e ele ser considerado algum tipo de fracasso.
- Sério, Aleksei? E para onde você pretende ir daqui? Já pensou em Paris também? - perguntou, genuinamente animado com a ideia de poder continuar encontrando o grego. Ele era seu amigo, afinal, era normal que considerasse a companhia dele agradável e agora que Benjamin havia dado aquela oportunidade a saídas juntos, talvez fosse mais proveitoso que apenas se encontrar com o homem para falar do namorado. - Se algum dia for para o Canadá, pode me avisar, minha família iria adorar te conhecer!
Sugeriu, animado com a ideia de que algum dia sua família também pudesse conhecer os amigos que havia feito ali. Talvez pudessem conhecer Dieter também, seu pai certamente gostaria de conhecer o professor, talvez levá-lo para caçar com seu avô nas montanhas. Não lembrava da última vez que havia ido caçar com os mais velhos, não era assim tão empolgado com a ideia de caçar na neve, mas era uma tradição dos homens da família, então aceitava os costumes como um bom Morrisson.
- Ah, é verdade, Aleksei. Você acompanha as crianças, mas não me lembro de já chegarmos a conversar sobre onde estudou. - comentou, bebendo um pouco mais de sua água e ajustando os óculos no lugar. - Como foi que acabou se tornando um doutor? Psiquiatra, não é? Onde foi mesmo que se formou? - perguntou dessa vez, curioso diante da ausência daquela informação. Gostava de saber um pouco mais sobre seus amigos e só então percebera que quase nunca conversava sobre os problemas do outro, geralmente apenas falava dos seus, com frequência.
Aleksei
Benjamin ainda não tinha bebido muito, mas Aleksei até notou um breve rubor no rosto dele e pensou em atribuir àquilo ao prato quente do qual ele se servia. Seria interessante se o efeito da bebida fosse inesperado. Mas era ainda muito engraçado como Benjamin reagia de modo desconfortável a cada pergunta interessada de Mathew, como aquele olhar de lado que ele lançou ao enfermeiro ao lhe perguntar sobre para que lugar iria depois.
- Não tenho planos por enquanto. Talvez eu volte para Amsterdã, foi onde fiz meu mestrado. - respondeu o grego, comendo porções pequenas, mas até Aleksei precisou parar de comer quando ouviu o convite inesperado para ir ao Canadá e a reação de Benjamin foi mais óbvia ao beber de novo o resto do vinho de uma só vez. Sorriu, voltando a atenção para Mathew. - Bom, eu certamente vou lembrar do conv-
- Mais vinho, por favor. - o pedido de Benjamin foi obviamente para lhe impedir de completar a resposta. O inglês estendeu a taça em sua direção e estava com uma expressão mais obviamente desagradada com a ideia de que o "amigo" de Mathew fosse visitar a família dele.
Aleksei apenas concordou com um aceno de cabeça, reabastecendo a taça do inglês quando Mathew voltou a curiosidade para si de novo. Benjamin podia ter se servido do prato principal, mas ele se preocupou em tomar mais um gole do vinho.
- A escolha do curso foi do meu pai. Mas eu aproveitei a área que mais me interessava para conhecer melhor as pessoas. - lançou um olhar de Mathew para Benjamin que ainda estava interessado no vinho, voltando a olhar para o enfermeiro. - Eu me formei na Universidade de Atenas e fiz mestrado e doutorado na Holanda.
- Eu não sei como ainda não sabe onde o Aleksei se formou, considerando o tanto que vocês conversam o tempo todo. - Benjamin quase interrompeu a resposta de Aleksei, finalmente voltando a se servir do bouillabaisse.
O sorriso de Aleksei foi quase automático. Então ele ficava mais conversador quando ficava bêbado? E a resistência a álcool dele era aparentemente baixa. Tinham chegado apenas ao fim da primeira garrafa - e Aleksei só tinha se servido de uma taça.
Mathew
Notou como o inglês estava bebendo rapidamente ao ponto de interromper Aleksei para pedir mais vinho. Sorriu para o grego em resposta a positiva dele sobre ir ao Canadá e conhecer sua família. Percebeu os olhares de Aleksei entre ele e o namorado e baixou o olhar para a taça de vinho de Benjamin.
- É porque quando conversamos, eu sempre falo mais de mim mesmo ou de nós, Benjamin. Na verdade, quase não conversamos sobre você, Aleksei. - olhou para o amigo e riu baixo antes de estender a mão por sobre a do namorado, tocando-lhe o pulso devagar, sem fazer pressão. - Não beba tão rápido, Benjamin, pode passar mal.
Aconselhou o namorado, ciente do histórico dele em todos os momentos em que havia ingerido bebida em demasia. Lembrava de quando ainda sequer eram namorados e de quando fora passear com os amigos dele apenas para descobrir que ele e o professor Hinomura já haviam dormido juntos. E não queria admitir, mas não confiava em bebida na presença do grego, muito menos se Dieter estivesse ali. Olhou para os lados por um instante com aquela possibilidade antes de soltar o pulso de Benjamin, mais interessado em ainda se alimentar com as lulas fritas.
Bebeu um pouco mais de água antes de voltar sua atenção para Aleksei, usando do guardanapo na própria boca antes de continuar, ponderando sua curiosidade para tentar não parecer invasivo demais e causar desconforto a Benjamin e ao amigo.
- E por que resolveu vir para Cerise, Aleksei? O Dieter sempre foi professor que eu saiba, mas já você já atendeu em algum lugar fora daqui? - perguntou, aproveitando da oportunidade, afinal de contas, já que estava com o namorado ao seu lado, não havia porque comentar sobre seu relacionamento ou sobre suas dúvidas pessoais naquele momento.
Benjamin
Benjamin apenas olhou para o namorado pelo canto do olho, imaginando exatamente outra situação em que Mathew tinha conversado demais com uma amiga, mas não tinha falado tanto do relacionamento dos dois - não tinha falado nada, na verdade. Olhou para o enfermeiro um tanto irritado quando ele ainda lhe aconselhou a não beber tanto.
- Eu acho que você sabe selecionar bem os amigos para quem fala de mim, Mat. - Benjamin riu forçadamente para o namorado, bebendo um pouco mais do vinho quando o enfermeiro perguntou a Aleksei sobre o motivo dele ter decidido ir até ali. - É, Aleksei, você não parece o tipo de pessoa que combina com Cerise. Parece alguém que gosta de cidade grande.
Aleksei apenas observava a troca de comentários entre os dois, contendo a vontade de rir das reações que estava tirando do inglês com o rosto já avermelhado.
- Só queria mudar de ares um pouco, mas eu sempre atendi pacientes, embora fossem mais adultos do que adolescentes. - respondeu, quase não dando atenção ao seu prato com pato. Mas fez um sinal para que o garçom trouxesse outra garrafa de vinho e aproveitou para terminar o pouco que ainda restava na sua taça. - Por que acha que eu sou uma pessoa de cidade grande, Benjamin?
- Já conheci muita gente igual a você, você só não combina com esses lugares pequenos. Também não é do tipo que parece gostar de um relacionamento sério, e disso eu entendo bem - o inglês respondeu, bem confiante das próprias palavras. - Só não entendo por que é que está tão interessado no Mathew.
Aleksei não conseguiu exatamente esconder a surpresa - que seria facilmente interpretada como diversão no arquear de sobrancelhas e no sorriso escondido atrás da taça de vinho. E nem tinha sido um litro de vinho ainda para que o inglês chegasse naquele assunto.
Mathew
Estranhou o olhar lançado para si, mas apenas resolveu seguir com a situação. Ele ainda fazia questão de lhe recordar do problema todo que havia causado por não falar sobre o relacionamento dos dois para a ruiva cereja. Baixou o olhar para seu prato, terminando as lulas fritas. Não havia pedido nada do prato principal e não estava nem com tanta fome assim, havia ido ali pela oportunidade de uma conversa amigável entre os dois e a chance de comer lula fruta, pelo menos a comida havia conseguido lhe satisfazer com sucesso.
Todavia, quase chegou a engasgar na própria água ao ouvir o questionamento e a especulação do namorado para com seu amigo grego. Arqueou uma sobrancelha antes de voltar sua atenção para Benjamin, descrente que ele havia feito mesmo aquele tipo de pergunta para Aleksei.
- Benjamin, nós estamos em um relacionamento sério, não estamos? E que tipo de pergunta é essa? Eu e ele somos só amigos. Só porque ele escuta boa parte dos meus problemas e quase não fala nada sobre ele mesmo, não quer dizer que não haja motivos para sermos amigos. - defendeu Aleksei, descrente também sobre o namorado ainda trazer a tona a sua memória a lembrança de todos os possíveis casos que ele já teria tido ali em Cerise. Fez uma careta até mesmo a lembrar de Hinomura.
Estendeu a mão para afastar a taça de vinho do inglês do homem, franzindo o cenho no processo ao se dar conta de que Aleksei já havia pedido uma segunda garrafa.
- Por que pediu outra garrafa? Benjamin, é melhor beber água. - tentou aconselhar o namorado, recordando de quando o grego havia lhe drogado com a ajuda do professor australiano. Apesar de considerá-lo ainda seu amigo, não confiava em beber nada alcoólico na presença de nenhum dos dois.
Aleksei
Aleksei queria ter respondido, mas por que não dar tempo para que Mathew associasse a informação antes? Além do mais, não teve como falar algo a mais quando o enfermeiro engasgou com a água ao ouvir as palavras bem incisivas do namorado. Deixou que ele respondesse, apenas observando a interação e aproveitando para se servir do novo vinho que o garçom tinha deixado na mesa dos dois, colocando também na taça de Benjamin enquanto Mathew parecia bem focado em tentar explicar ao namorado que não havia nada entre eles.
- Eu acho que há mais motivos para que ajam como mais do que amigos. - Benjamin respondeu muito diretamente. Era verdade que a bebida parecia cortar todos os filtros educados do inglês, o que deixava as coisas mais interessantes. - Você parece especialista em não perceber quando outras pessoas estão interessadas em você Mat.
O inglês tentou beber o vinho recém-abastecido, mas Mathew foi mais rápido em tirar a taça de perto dele, indicando que bebesse água.
- Eu não sou uma criança, Mathew. - Benjamin respondeu, fazendo questão de usar o nome inteiro dele, pegando a taça de volta para beber e se virando para Aleksei, até então, calado. - Vai dizer que não estava mesmo se insinuando para o Mat todas as vezes que os vi juntos?
Aleksei arqueou as sobrancelhas numa falsa surpresa. Aquilo estava muito divertido para deixar que acabasse ali mesmo. Desviou o olhar e levou a taça à boca, numa óbvia tentativa de se fingir de desentendido.
- Bom... o que quer dizer exatamente com “se insinuando”? - perguntou, retornando o olhar divertido para Benjamin. Foi fácil notar a raiva estampada no rosto do inglês e ele apenas se levantou, deixando a taça de lado.
- Eu vou ao banheiro. - não esperou resposta de Mathew ou de Aleksei, passando direto pelo enfermeiro para ir até o banheiro a passos até bem firmes para quem estava levemente afetado pelo álcool.
Aleksei o acompanhou com o olhar, voltando a atenção para Mathew em seguida.
- Ora, ora… eu não sabia que o inglês podia se alterar desse jeito. - o grego riu com o próprio comentário, tomando mais um gole breve do vinho.

