Nathan
Nathan provavelmente nunca tinha se sentido tão consciente do tipo de roupa que ia usar e onde iria usar como estava se sentindo naquele dia. Não era alguém que se preocupava muito com aparências, mas fazia bastante tempo que não se esforçava para causar uma boa impressão numa mulher tão elegante quanto Talulah. Ela já tinha lhe visto várias vezes em situações casuais na pequena cidade francesa, mas depois de tanto esforço, desencontro de ideias e gaguejos, tinha conseguido marcar um encontro com a morena. E queria causar uma impressão bem melhor do que todas as outras até então.
Mas seu guarda-roupa herdado de viagens de aventura, exploração e muitas trilhas e escaladas livres não lhe deixava com muitas opções. E só percebeu que podia ter ido comprar um par de roupas novas quando já estava se arrumando no quarto pequeno na pousada de Enzo. Nervoso era uma ótima palavra para lhe definir, como um adolescente inexperiente que estava prestes a ir ao primeiro encontro. Mas só talvez estivesse dez vezes mais nervoso do que os adolescentes que conhecia.
Saiu do quarto com a roupa menos amassada que tinha, num jeans desbotado, uma camisa básica verde com uma jaqueta por cima bege. Já tinha deixado a tipoia de lado porque se recusava a ir ao encontro com a morena com o braço imóvel - ainda incomodava, mas não ia lhe matar ficar sem o suporte por uma noite -, e seguiu pelos corredores da pousada procurando a única pessoa ali que podia lhe dar algum conselho, particularmente porque Enzo era o único na pousada.
- Será que eu devia sair agora? Eu não sei se o bar já está aberto, que horas esse lugar abre? Eu ainda tenho que levar alguma coisa pra ela, tenho que passar numa floricultura… mas eu já levei da última vez e não deu certo… - chegou à cozinha para encontrar Enzo juntando uns cacos de alguma coisa com a vassoura, algo que sequer tinha ouvido quebrar, mas não estava muito preocupado com aquilo, mas com o fato de que faltava duas horas para o horário marcado e ainda estava na pousada.
Enzo
Não teve muita movimentação naquele dia. Na verdade, não teve muita movimentação em muitos dias na pousada. Fora talvez a ocasião em que quase tinha dado sorte com um casalzinho que tinha encontrado ao acaso e as ocasionais passagens daquele jovem másculo que limpava os jardins, não tinha nada de muito interessante acontecendo na pousada. Isto é, descontando Nathan, que era seu fiel cliente e companheiro naqueles dias, e que parecia cada vez mais inquieto a medida que a data de seu encontro chegava.
Mas ele não tinha jeito mesmo com mulheres. E isso era frustrantemente heterossexual da parte dele.
Enzo tinha acabado de derrubar outra travessa de vidro próximo a seus pés, dessa vez, conseguindo escapar de tomar um corte naquela hora da noite, talvez pela presença sortuda de Nathan, que não poderia de modo algum ter o encontro atrapalhado por um velhinho desastrado. Começou a limpar os cacos de vidro no chão com a vassoura, pacientemente juntando todos os pedacinhos pequenos. Só notou Nathan na porta quando ele começou a disparar suas dúvidas de um modo até engraçadinho.
- Calma, rapaz. Vai acabar tendo um ataque cardíaco antes mesmo de chegar no seu encontro.- Enzo riu, jogando fora os cacos com uma pá e olhando em volta para garantir que não havia mais nada de errado no piso. – Primeiro, o bar está fechado agora, mas se bem lembro, ainda tem pelo menos DUAS hora para o seu encontro. E se fosse eu, não levaria presente algum para não parecer estar tentando demais, mas pagaria o jantar. E o hotel. Se é que você vai chegar até lá sem desmaiar primeiro. – o mais velho então se aproximou de Nathan, dando-lhe um par de tapinhas nas costas. – Por que não senta e toma uma dose de algo forte para relaxar? Posso lhe fazer uma massagem também. Posso lhe fazer muitas coisas, se ajudar. – ofereceu com um sorriso amigável.
Nathan
Nathan suspirou pesadamente, levando uma das mãos até a cabeça e colocando o cabelo para trás. Sabia que estava exagerando, mas já tinha sido tão desastrado das outras vezes que não via como podia melhorar a situação e minimizar os danos. Andou até a mesa, numa postura quase desolada para se sentar numa das cadeiras e apoiar a testa no tampo do móvel.
- No meu estado, já é bem óbvio que eu estou tentando demais. Eu não sei se consigo ficar meia hora conversando com ela num encontro, quem dirá terminar num hotel! - bateu de leve a testa na mesa, mais um suspiro resignado escapando. - Talvez eu não devesse nem ter marcado isso, eu já estraguei tudo da outra vez, agora vou terminar o estrago e ela não vai querer me ver. Acho que vou só virar fiel e assisti-la de longe no coral da Igreja enquanto posso. Será que se eu a seguir pros EUA pra ver o coral nas Igrejas de lá, vai ser muito assustador?
As colocações e comentários foram mais para ele mesmo do que em resposta às sugestões até amigáveis de Enzo. Ergueu a cabeça, sentando-se na postura correta e passando a mão no rosto, exasperado.
- Acho que passei tempo demais em lugares desabitados pra esquecer como lidar com mulheres. - adicionou, agora balançando a perna em nervosismo. - Eu não quero tomar nada agora, vai que piora a situação? Mas eu aceito a massagem, quem sabe me deixa mais relaxado?
Enzo
De fato estava transparecendo que estava tentando demais. E o fato de Nathan estar tão preocupado com o encontro deixava tudo mais óbvio. Porque era tão difícil para ele pensar naquela mulher como só uma pessoa e tentar relaxar no encontro? Ela poderia ser bem bonita e elegante, mas era só uma pessoa. Acabou rindo da sugestão dele.
- Na verdade, se perseguí-la, vai ser bem assustador mesmo. Talvez ela chame a polícia e você nunca mais possa vê-la de novo. – informou antes que ele achasse que era a melhor ideia de verdade. – Você está fazendo muito caso desse encontro. Sei que é muita areia pro seu caminhão tímido, mas não é mais fácil tentar tratar dela só como pessoa, Nathan?
Aproximou-se de Nathan e apoiou as mãos nos ombros dele, passando pelo pescoço, apertando com os dedos para sentir bem os pontos de pressão onde haviam nós. Ele só estaria mais duro se aquela noite de fato terminasse em um hotel. Sorriu amigável para o loiro, então fazendo uma massagem breve nos ombros, sem muito sucesso.
- Se você deitar no sofá, posso lhe fazer uma massagem melhor. – sugeriu, passando dos ombros para as costas, num toque mais cego, considerando que tinha a cadeira para atrapalhar. – E quanto a tomar algo, eu não recomendaria encher a cara, claro. Mas um pouco de coragem líquida nunca matou ninguém. – aproveitou para se aproximar um pouco mais, sentindo um pouco do cheiro dos cabelos castanhos. – E tenho ótimos calmantes também. Quando tenho pesadelos, tomo um e passo o dia todo bem, até faço tarefas ao redor da casa. E como bem sabe, nem reduz minha libido. – Enzo riu, então dando um tapinha no ombro do rapaz. – Levanta, assim vou magoar minhas costas.
Nathan
Nathan só gemeu numa reclamação quando Enzo confirmou que seria bem assustador perseguir a mulher. Mas talvez fosse bem o seu destino ser só um stalker já que não conseguia falar com elas. Suspirou pesadamente, a ponto do som ser ouvido em toda a cozinha, indignado consigo mesmo quando ele falou sobre tentar tratar dela só como uma "pessoa".
- E você acha que eu não tentei?! Culpa das minhas cunhadas e ex-cunhadas, e meus irmãos que não têm gosto pra mulheres! Aquelas mulheres são assustadoras arhhhh! - Nathan reclamou, respirando fundo e agora apoiando o queixo na mesa. - Ela é muita areia pra mim mesmo.
Enzo se aproximou e apoiou as mãos em seus ombros para fazer uma massagem. Até tentou relaxar mais os músculos, mas não deu muito certo ao ajustar a postura na cadeira de novo. Só levantou para ir até o sofá quando ele lhe sugeriu, jogando-se no móvel pequeno demais para ele.
- Hmm... talvez um calmante não fosse tão ruim. - ele respondeu, contra o estofado do sofá, sentindo-se ainda nervoso demais para pensar em alternativas para a sua falta de jeito com Talulah. - E tem alguma coisa que reduz a sua libido, Enzo?
Era para ser um comentário engraçado, mas estava frustrado demais com todos os cenários mentais de desastre com Talulah e sua incapacidade de conversar que só saiu mais como um lamento do que uma piada de fato.
Enzo
Não conhecia as cunhadas de Nathan, mas pelo jeito que ele falava delas, deveriam ser os piores tipos de pessoas. Já tinha conhecido sua parcela de víboras na vida. Algumas eram bem venenosas, e não tinham receio de dar o bote no que não gostavam. Outras cobras podiam apertar até sufocar. Um tipo canino como Nathan certamente ficaria traumatizado diante daqueles comportamentos extremos.
- Talvez pra sua personalidade, mas não para você. Acredite em mim, rapaz, você é o tipo de homem que toda mulher sonha. E é bonito. Muito bonito. – Enzo riu, pontuando bem que achava Nathan atraente. Mas ele deveria saber disso. Só esquecia sempre que estava com uma mulher igualmente bonita.
Seguiu o amigo até o sofá, e sem cerimônias, aproveitou para apoiar um dos joelhos no sofá e começar a fazer uma massagem nas costas largas, apertando certos pontos e nós e desfazendo-os para relaxar o rapaz. Poderia não valer nada, mas tinha mãos habilidosas. A massagem era boa. E considerando que Nathan era tipo um amuleto da sorte, não machucaria nenhuma articulação por acidente. Aproveitou para levantar a camisa dele, começando a fazer a massagem diretamente sobre a pele, descendo de leve os dedos até a curva das costas, até ele fazer uma piada sobre sua libido.
- Ahahahah! Até então, creio que não! – respondeu honesto, seguindo com a massagem dessa vez por lugares mais normais. – Pare de se preocupar em como o encontro vai ser, Nathan. Pense que é como uma de suas escaladas. Você vai estar descendo para uma caverna desconhecida, seu equipamento de segurança é limitado, mas você quer explorar assim mesmo. Parece que vai dar errado, mas se você já conseguiu chegar lá, que era o mais difícil. Então você começa a descer, com cuidado, devagar. – Enzo narrou, gradualmente abaixando o tom de voz enquanto continuava a massagem. – Uma corda se solta, você despenca de uma vez, bate contra uma rocha e se machuca. Mas você quer continuar, afinal, você não ama escalar? Mil cenários passam na sua cabeça, em nenhum deles você vai ficar bem, mas você desce, afinal, com medo ou não, nervoso ou não, machucado ou não, você queria chegar até o final. – Enzo riu, então segurando ambos os ombros do rapaz com cuidado, aproximando-se do ouvido dele. – E como a sorte está sempre do seu lado, lá dentro é bem estreito, úmido e quente. Vai valer o esforço.
Nathan
Jogado no sofá com a cabeça enterrada no braço do mesmo, estava até pensando melhor, ou ao menos, pensando menos. A massagem era boa e Nathan não costumava se importar com os avanços indiscretos de Enzo, o que era mais uma característica que definia bem a personalidade do mais velho e o deixava até engraçado.
Mas ele foi bem feliz em começar desfazendo uns nós de tensão em suas costas e fazer uma analogia do seu encontro com uma exploração numa caverna. Até fazia sentido, e já estava acostumado a cair e se machucar, a diferença era que tinha mais coragem de escalar livre ou entrar numa caverna deserta do que conversar com Talulah.
- Hm... quando você fala assim, até que parece fácil. - falou, numa voz um pouco embargada confortável com a massagem e a história que Enzo estava contando. Mas aos poucos, o tom de voz foi reduzindo e a narrativa ficou um pouco mais sugestiva especialmente quando ele falou bem na base do seu ouvido umas descrições muito propositalmente dúbias. Os pensamentos saíram imediatamente da escalada para uma Talulah casual numa camisa masculina e a sua reação foi bem pontual ao se sentar e se afastar de Enzo quase num pulo. - Então...! Eu vou aceitar um calmante. E vou pensar numa caver-- numa montanha! E escaladas livres e uma corda e um gancho, deve ser o suficiente. Eu vou... lavar o rosto e terminar de me arrumar pra sair.
Passou as mãos nos cabelos e seguiu na direção do quarto, para conferir se as roupas estavam inteiras, lavar o rosto, pegar carteira e celular e voltar até a cozinha, esperando apenas o retorno de Enzo para tomar alguma coisa e relaxar mais. É, aquilo devia ser o suficiente para se comportar como uma pessoa minimamente normal.
Enzo
Nathan pareceu relaxar sob suas mãos e aos poucos foi desfazendo os nós de tensão no corpo do loiro. Gostava que ele tinha uma carne firme, e podia sentir alguns músculos sob os dedos. Se de nada servia aquela massagem, ao menos conseguia tirar uma casquinha. Porém, se a massagem falhava em relaxar o outro completamente, suas palavras aos poucos fizeram. Isso é, até deliberadamente aproveitar a chance para provocar um pouco mais seu amigo. E pelo visto tinha conseguido.
O mais novo levantou-se num sobressalto, e tão rápido quanto tinha se acalmado, voltou a gaguejar e hesitar nas palavras. Não via nada de errado que continuasse com a imagem de uma caverna como recompensa, mas pelo visto ele estava tentando tirar aquela ideia dali.
- Pode pensar na caverna, rapaz. Mas se não der certo, pode pensar no pico de uma bela montanha. Acho que com esses você tem mais familiaridade. – Enzo sorriu amarelo, deixando que o outro fosse se arrumar.
Voltou para o quarto para pegar o prometido calmante. Infelizmente, seus remédios prescritos ficavam em potinhos muito parecidos, e ainda que não deixassem de ser calmantes, uns eram mais fortes, especialmente o para terrores noturnos. Como um bom cientista, poderia ter feito um experimento pra determinar qual era qual, mas ao invés disso, pegou um comprimido e levou até Nathan, estendendo para o moreno à sorte.
- Espero que ajude. – comentou, aproveitando para estender um copo d’água. Bom, piorar não podia... podia?
Nathan
Nathan fez exatamente o que tinha dito, apenas chegou no quarto, foi até o banheiro e lavou o rosto, passando a mão pelos cabelos e torcendo para que a imagem estivesse minimamente aceitável. Respirou fundo, era só um encontro, não precisava se preocupar tanto com aquilo, especialmente porque Talulah não era nada como as mulheres que tinha encontrado e que lhe davam raiva. Uma montanha, uma escalada numa montanha e estava tudo ok.
Voltou para a sala de recepção da pousada, onde encontrou com Enzo que tinha lhe trazido o comprimido de volta. Aceitou o calmante e o copo de água, bebendo tudo de uma vez. Conferiu só os bolsos onde estava a carteira, o celular e um canivete suíço de estimação, era o suficiente comparado às expedições em que tinha que levar uma mochila com um kit de sobrevivência inteiro.
- Obrigado pela ajuda, Enzo. Eu conto o que aconteceu depois. - disse, tentando pensar se não voltaria para casa na mesma noite ou na manhã seguinte. Mas com a sua sorte com mulheres, certamente voltaria em poucas horas.
Seguiu para o Mary Stigmata andando, apenas porque estava bem acostumado com os caminhos em Cerise e com o fato de seguir caminhando mesmo. Só no meio do caminho, já estava se sentindo um pouco mais relaxado, devia ser por conta do remédio que Enzo tinha lhe dado, então no fim das contas tinha sido uma boa alternativa. Mesmo caminhando e com a longa margem de tempo até o horário do encontro, chegou ao bar faltando cerca de vinte minutos para a hora marcada. Já estava tão relaxado que parecia estar pisando em nuvens de tão leve que se sentia.
Chegou ao bar, sorridente, tranquilo e relaxado como não se sentia há muito tempo. O local estava apenas abrindo e ele deu uma olhada ao redor para se certificar que Talulah ainda não tinha chegado. Respirou fundo, animado com a perspectiva do encontro e parou apoiado no bar primeiro.
- Ei, Barman, o que vocês têm para beber aí? Estou esperando meu encontro e acho que cheguei um pouco… adiantado.
Enzo
Enzo esperou que Nathan tomasse o remédio e deu dois tapinhas nas costas do rapaz. Ele parecia um pouco animado demais para o encontro. Era certo que aquilo lhe causaria problemas mais tarde, mas não seria o pessimista para azarar o encontro do rapaz. Na pior das hipóteses, ela sairia do encontro muito cansada dele balançar o rabinho como fazia quando estava falando sobre ela.
- Haha. Conte mesmo. De preferência amanhã! – Enzo respondeu, se despedindo do rapaz.
De volta a solidão da pousada L’eau Claire, Enzo subiu as escadas para descansar em seu quarto e aproveitou também para tomar sua dose de calmantes antes de dormir. Pegou o frasco e então olhou o rótulo, procurando os mesmos que tinha dado a Nathan. Só então, enquanto tomava sua pequena dose, franziu a testa.
- Oh? Eu disse a ele para não misturar com bebida? – se questionou, jogando os ombros antes de deitar.
O Mary Stigmata abria as portas relativamente cedo em comparação a outros bares por conta de seu funcionamento como restaurante. Não era incomum que clientes aparecessem ali cedo, mesmo pedindo por álcool, mas Joel, um dos barman, tinha dificuldades de lidar com aqueles tipinhos que começavam a noite com mais energia. Era sinal que dariam trabalho com o passar do tempo. Sorriu, pelo hábito.
- Boa noite, senhor! Que tal um coquetel para começar a noite leve, então? – ofereceu, entregando a Nathan a carta de bebidas, parecendo tão animado quanto Nathan. – E para você que tem um encontro mais tarde, algum drink com a protetora dos apaixonados, Erzulie Freda, que é um licor bem doce para atrair uma mulher bem doce que queira te dominar int- - Joel então ficou vermelho repentinamente, e abaixou a cabeça. – Ai, não cola quando não é meu chefe... mas fique a vontade. O drink é bem gostoso mesmo. – o moreno apontou, derrotado.
Otheo, que cuidava da cozinha, esticou o dedão positivo para fora em sinal de que não tinha sido tão ruim.
Nathan
Nathan se acomodou num dos bancos altos do balcão, apoiando os braços ali e ignorando o leve incômodo no ombro que já devia ter sarado - não fosse a quantidade de movimentos involuntários que devia ter evitado até então -, sorrindo para o barman animado lhe apresentando bebidas que pareceram bem convidativas. Já tinha ido até o bar, mas lembrava pouco dos drinks por causa do estresse que as piadas de Belle tinham lhe deixado - isso antes des descobrir que o homem era a mulher [?] perfeita. Mas toda a empolgação do rapaz foi cortada por ele mesmo ao desistir de imprimir tanta emoção no anúncio. Nathan deu uma risada relaxada em resposta à tentativa frustrada dele.
- Hahaha! Não se preocupe, você se saiu bem, eu vou aceitar seu conselho, me veja um drink leve e dessa protetora dos apaixonados, estou precisando de todas as forças do universo pra me ajudar no encontro hoje. - ele disse, esperando que o garoto lhe trouxesse a tal bebida e olhando ao redor para se certificar, de novo, que Talulah não estava por ali ou não estava chegando. Olhou o relógio de pulso e ainda faltava algum tempo para o horário marcado. Podia imaginar que no mínimo, ela seria uma mulher bem pontual… embora não se importasse de esperar a noite toda por ela.
Com o pouco movimento no horário cedo, o drink chegou bem rápido e ele fez um brinde sozinho no ar, com o barman, torcendo para que aquela tal protetora também ajudasse na sua causa perdida. Deu uma boa golada na bebida doce, fazendo uma careta breve em seguida quando sentiu que não era apenas doce.
- Você não mentiu quando disse que era doce… mas fraco também não é. - Nathan respondeu, mesmo que estivesse bem acostumado com bebidas puras de suas viagens para o meio do nada. - É muito bom. Mas eu provavelmente não devia estar bebendo uma coisa doce e rosa quando meu encontro chegar, não é? O que ela ia pensar de mim?
Talulah
Joel serviu o drink como mandava a etiqueta, bolada por seu chefe, em um copinho de dose impecavelmente limpo, de cristal, com desenhos detalhados, porque afinal, a loa do amor era uma mulher que gostava de luxo. Só que também era forte, e a primeira coisa que Nathan sentiu foi isso. O barman apenas ergueu os ombros sem poder fazer nada, afinal, não haviam muitas bebidas caseiras ali naquele bar que fossem fracas. Mas eram todas bem saborosas, pelo menos.
- Se fosse fraco, não lhe daria o chute que você precisava. – Joel respondeu, colocando uma segunda dose no copo antes mesmo de Nathan perguntar. Ainda era cedo o suficiente para Otheo não se incomodar com as doses duplas. E até imaginava que apesar da animação, de outras vezes que tinha visto Nathan no bar, ele precisaria de toda a ajuda possível. Especialmente ao ver a mulher que ele estava esperando entrar silenciosamente o bar.
Talulah andou até os dois, ouvindo aquele comentário bobo de Nathan e parando atrás dele, espiando o copo de dose com a bebida rosa.
- Eu não teria passado nenhum julgamento sobre a bebida doce e rosa, mas agora que ouvi isso, estou me perguntando que impressão você tem de mim, Nathan. – a mulher respondeu com muita calma, chegando próximo ao rapaz.
Estava com um vestido simples azul marinho de mangas curtas com um cinto fino na cintura, e nos pés, uma sandália delicada clara. Os cabelos longos estavam presos em um rabo de cavalo baixo com uma presilha discreta, e o rosto numa maquiagem natural.
- Chegou há muito tempo? – ela perguntou, sem se preocupar em desculpar pelo atraso. Olhando o relógio no pulso, estava certa que tinha chegado pontualmente no horário combinado. Ao menos ele sabia esperar.
Nathan
Provavelmente o que Joel tinha dito era verdade. Precisava de mais do que um chute para deixar todo aquele problema de dicção perto de mulheres, muito especificamente uma mulher como Talulah. Mas já estava se sentindo consideravelmente melhor desde que saíra da pousada e devia ser por conta do calmante. Tinha que agradecer a Enzo depois pela ajuda e o adicional da bebida forte só fez com que ficasse um pouco mais animado, o rosto até levemente avermelhado pelo calor.
Levou a segunda dose aos lábios assim que servida, mas foi um erro quase premeditado, ao ouvir a voz feminina às suas costas e sentir o líquido forte descer pelo lado errado. Devolveu o copo ao balcão e com muito esforço, engoliu tudo de uma vez, com sorte, sem cuspir nada. Se já estava vermelho antes, era possível ver o tom intenso até nas orelhas e na base do pescoço.
- Eu não...! Eu... tenho... - parou de tentar explicar algo quando ela falou sobre que impressão ele teria dela, e ao invés de se engasgar e ficar ainda mais embaraçado do que antes, abriu um sorriso bem mais natural... ou não tão natural quanto ele esperava. - Oi. - e nem foi gaguejado.
Ignorou a bebida que estava no balcão, olhando para a mulher que destoava completamente daquele bar e demorando um pouco a responder quando ela perguntou se tinha chegado há muito tempo.
- Ah, n-não... eu não... - pigarregou, levando uma mão aos lábios e desviando o olhar que devia ter sido bem mais indiscreto. Olhou para a bebida, para o barman e voltou para Talulah, o sorriso bobo bem notável toda vez que a encarava de volta. - Eu cheguei há pouco tempo. Vamos... vamos sentar? Você quer pedir alguma coisa? Posso pedir alguma coisa pra você?
Ficou de pé diante dela, sem saber se pedia alguma coisa logo ao barman, ou se ia até uma das mesas para que se acomodassem, ou se apenas esperava a resposta dela para continuar. De todo modo, não conseguiu desviar a atenção da morena de um jeito que não tinha feito muito bem até então.
Talulah
Achou divertido como apenas sua presença fazia com que Nathan se desmontasse inteiro. Pode ouvir nitidamente o som da bebida descendo de uma vez pela garganta, e ele não fazia questão de esconder o rubor. O sorriso também não ajudou muito, parecia uma tentativa boba de disfarçar a cena anterior. Até Joel sacudiu a cabeça negativamente.
Talulah observou atentamente a desviada de olhar de Nathan, os olhos violeta seguindo os dele em direção a Joel, mas sequer mudando de expressão. Não deveria ter bebido tanto ainda, mas certamente tinha chegado nessa intenção. Bom, se isso o fizesse falar um pouco, poderia arrumar outras maneiras de se entreter ao longo da noite. Nathan era um rapaz bom, só extremamente confuso e nervoso, perto dela.
Assentiu silenciosamente para o convite de sentarem-se a alguma mesa, e então ouviu ele perguntar se podia pedir por ela.
- Eu peço. – respondeu prontamente, em uma voz suave, mas numa resposta propositalmente seca. Então abriu um sorriso suave enquanto sentava a uma das mesas do bar. – Acho que não quero arriscar seu gosto em bebidas. – ela adicionou, esperando que Nathan também sentasse . – Pareceu difícil de engolir.
Talulah então acomodou-se na cadeira, ereta, não conseguindo desfazer a pose autoritária a despeito da expressão suave. Mas supunha que Nathan não ligava.
- É uma boa hora para dizer que não bebo álcool. Mas ouvi falar que a comida desse bar é muito boa, e que a música é bem diferente. – comentou, observando ao redor a decoração que certamente não combinava com sua religião, mas conseguia apreciar e respeitar aquela releitura da cultura de Nova Orleans. Conversando em inglês e em um bar cheio de fotos da Louisiana (apesar das caveiras) até se sentia em casa.
Nathan
Nathan só concordou prontamente quando ela disse que podia fazer o próprio pedido, mas sorriu sem graça, levantando a mão até a nuca quando ela disse que não confiava em seu gosto para bebidas. Deu de ombros de leve, tentando disfarçar o constrangimento que já estava bem estranho com a animação idiota que não era tão natural aos outros encontros dos dois.
- N-não devia confiar mesmo... - respondeu, de novo, quase sem gaguejar. - Estou acostumado... com bebidas muito ruins. M-mas essa é boa... é doce. - e não adiantou muito comentar aquilo sobre o licor já que, assim que se acomodaram numa mesa, sentando-se de frente para ela, ela deixou bem claro que não bebia álcool. - Ah, d-desculpe. Eu não sabia... m-mas... eu devia ter imaginado.
Sorriu com a mesma expressão idiota de novo, encarando-a de frente e agora apoiando o cotovelo na mesa e o queixo na mão. Estava começando a imaginar que a bebida e o remédio de Enzo tinham mesmo lhe ajudado a relaxar um pouco mais, tanto que conseguia formar uma frase inteira sem se confundir todo com a morena. Talvez, tivesse ajudado até demais quando, depois de alguns segundos provavelmente incômodos encarando a mulher, deixou escapar:
- Você é muito bonita. - comentou, ignorando a aproximação do garçom que pareceu um tanto desconsertado de ouvir a sentença no meio. Mas Nathan que pareceu não prestar atenção na presença alheia, mesmo quando ele estendeu o cardápio para Talulah. - Mais... do que as outras mulheres que eu conheci.
Talulah
Nathan podia ser bem engraçado com aquela empolgação dele, e até com o jeito para pedir desculpas pelas coisas que não tinha como saber, como o fato dela não beber álcool. Por mais que fosse como mandava a sua igreja, bem sabia que tinham umas ovelhas desgarradas. Mas naquela situação em particular, começou a notar algo diferente nele. Estreitou os olhos sem saber exatamente o que, analítica. Ele estava mais... relaxado? Será que havia bebido demais antes que ela chegasse, e aquele era o efeito de um álcool francês estranho que havia provado?
Observou a pose em que ele se apoiou na mesa. Até se sentiu em um filme antigo com feitiços, e ele, alvo de poção do amor, só podia.
O garçom foi chegando enquanto Nathan se ocupava em lhe elogiar, apenas para adicionar outro comentário depois que fez Talulah lhe lançar um olhar longo e ajeitar a postura na cadeira.
- Uma porção de amendoim cozido, por favor. E um coquetel desse aqui, mas pode trocar a tequila por água tônica. Obrigada. Nathan? – esperou o rapaz pedir, ou dispensar o garçom, que parecia saber que o momento em que ele tinha chegado era mais particular. Porém, pouco incomodada e mais com o estado atual do homem com quem tinha ido ter um encontro, finalmente voltou-se para ele novamente, quando ficaram a sós. – Esqueci de dizer “obrigada” pelo elogio anterior. E esqueci também de lhe repreender por continuar comparando as mulheres que conheceu. Tenho certeza que foram todas muito diferentes.
A morena repreendeu em um tom firme, mas naturalmente suave. Talulah não tinha uma expressão severa, mas o olhar poderia ser muito incômodo.
- A não ser que o valor do meu elogio dependa apenas da inferioridade das outras mulheres que você conheceu. – a morena falou calmamente, o olhar fixo no rapaz.
Nathan
A única coisa que Nathan podia ver, aparentemente, era Talulah a sua frente, pois não deu muita atenção ao garçom nem quando a morena pegou o cardápio e fez um pedido, inclusive perguntando se ele queria algo também. Sem desviar a atenção dela, Nathan apenas respondeu com um breve "Hm?" como se estivesse perdido demais em pensamentos para poder sequer entender o que ela tinha perguntado. O garçom se afastou e ela voltou a lhe encarar mais direta, agradecendo pelo elogio, o que lhe colocou um sorriso mais idiota ainda no rosto e reclamando sobre compará-la com outras mulheres.
- Ah- n-não... é que... eram todas diferentes, mas você é mais incrível do que as outras. - respondeu, falando mais facilmente do que das outras vezes, mas com menos firmeza. O olhar intenso de Talulah não parecia mais lhe incomodar tanto ou lhe deixar tão nervoso quanto das vezes anteriores, ao contrário, até gostava dela estar lhe observando tão atentamente, podia até contar os detalhes no rosto alheio. - Você... não precisa de ninguém pra ser assim...
Ele suspirou longamente, como quem estava muito imerso nos próprios pensamentos, sentindo o olhar divagar um pouco enquanto o corpo todo relaxava completamente. Era estranho, mas era bom, afinal, nunca tinha encontrado Talulah para estar se sentindo tão bem como aquela vez. Talvez só precisasse de um encontro mesmo para conseguir se entender com a morena.
- Seus olhos... parecem lilases. Eu nunca vi olhos assim... ahhh! Lembra as kurinji, na Índia... em... hm... não lembro.. - comentou, ainda com o sorriso meio idiota, agora apoiando o queixo em ambas as mãos. - Eu não sei... por que você aceitou sair com um cara... como eu. Eu nem consigo f-falar com você direito...
Talulah
A distração óbvia dele de tudo ao redor e o foco intenso apenas em si foi deixando cada vez mais claro que aquilo não era efeito de álcool apenas. Isso é, se fosse de álcool pra começar. Isso ficou mais claro quando passou a ficar mais atenta as palavras de Nathan. Tinha feito rondas o suficiente e tinha vivido no ghetto o suficiente para saber que aquele comportamento não era só de alcoolismo. Aliás, pela lerdeza das respostas dele, achou que ele deveria ter fumado um pouco, mas não sentia cheiro, nem via sinais nos olhos nem em outros comportamentos. Só estava certa de que ele havia utilizado algo.
Ao menos naquele estado ele conseguia reconhecer o erro apontado de ter feito o elogio a partir de ter denegrido outras mulheres. Era bom que ele parasse com aquele comportamento.
- Não sei o que são as kurinji. É a primeira vez que ouço essa comparação. Geralmente quando estou na América, costumo ouvir mais que lembram os olhos da Elizabeth Taylor. Mas são azuis. É só como a luz bate neles. Olhe. – explicou calmamente, esperando que ele atendesse o pedido de lhe encarar para verificar novamente se não havia nenhum traço de vermelho nos olhos de Nathan. Ergueu de leve as sobrancelhas quando questionada sobre porque saiu com um homem como ele que não conseguia se comunicar. – Saí com você porque assumi que apesar das falhas deprimentes em se comunicar, e da inabilidade de me elogiar se me comparar com as outras mulheres, você tem uma boa índole, boas intenções, e genuinamente tem interesse em mim. É só dolorosamente desajeitado em demonstrar isso. – disparou com a voz suave, sem nenhuma hesitação em ser brutalmente honesta com Nathan, ainda mais nesse estado. Queria saber como ele reagiria.
Nathan
Provavelmente, estava se sentindo bem demais. Demais para não conseguir discernir o que estava saindo da sua boca, e demais para se achar relaxado a ponto de quase querer bocejar. Seria uma ofensa fazer aquilo na companhia da mulher em quem tinha tanto interesse e com quem mal conseguia conversar. Mas riu quase automático em resposta quando ela disse que na América, as pessoas a comparavam com Elizabeth Taylor.
- Hahaha, não, você é mais bonita que a Elizabeth Taylor... hahaha! - ele respondeu, o rosto bem apoiado nas duas mãos, com os cotovelos sobre a mesa. - As Kurinji... elas aparecem na índia... a cada doze anos... eu vi uma vez, muitos anos atrás, eu acho... é um campo de flores lilás... muito bonito. Como os seus olhos. Elas vão aparecer de novo, um dia...! Eu posso te mostrar! - ele apenas reforçou a ideia, quando ela mesma lhe pediu para encará-la diretamente.
E olhar para a mulher pareceu lhe deixar apenas mais imerso no próprio estado forçadamente relaxado. O calmante de Enzo tinha sido bem mais eficaz do que ele tinha esperado, pelo visto. Talvez fosse aquilo que lhe impedisse de perceber o sentido das palavras de Talulah, mas ouvir dela que tinha uma boa índole e que estava realmente interessado lhe deixaram mais animado do que alarmado. O rosto ficou quente com o sangue subindo à cabeça e o sorriso idiota permaneceu ali.
- Obrigado... eu estou mesmo interessado em você. Eu só não sou... muito... bom. Conversando. Você... viu. - daquela vez, ele precisou esfregar os olhos, sentindo o corpo leve como se fosse dormir.
Talulah
Talulah sorriu suavemente para a reação dele quando ela mesma admitiu que lhe comparavam com Elizabeth Taylor. Sua pouca modéstia até lhe trouxe bom humor para a cena toda. Provavelmente seus amigos teriam rido, especialmente Jack. A explicação das kurinji foi agradável. Se ele conseguisse ter dito aquilo sem estar muito chapado de alguma coisa, provavelmente teria se deixado levar e o encontro seria mais agradável. O garçom chegou com seu pedido mais ou menos nessa hora e Talulah sorriu para o rapaz.
- Poderia trazer o amendoim em uma embalagem descartável? – a morena perguntou calmamente, antes do rapaz ir embora com o amendoim, deixando apenas seu drink. Talulah deu um gole calmo na bebida e depois afastou o copo para que ficasse longe do centro da mesa e perto de sua outra mão.
Encarou-o longamente enquanto ele confessava que não era muito bom em falar com ela. Não era nenhuma surpresa nesse ponto, mas talvez dessa vez ele tivesse extrapolado. Quando notou que o sono começava a passar da euforia que ele estava antes e que as pálpebras começavam a cair, com a firmeza de quem estava acostumada a mandar, bateu com a palma fechada na mesa, fazendo muito barulho, o suficiente para chamar a atenção ao redor. Lançou um olhar em volta de si, o rosto sério, e até o barman deu as costas para a mesa.
- Nathan! Não. Durma. – ela chamou com o tom firme e a voz um pouco mais alta que o normal, encarando-o diretamente. Baixou o tom em seguida, mas ainda parecia bem firme. – Preste muita atenção. O que você consumiu antes de vir aqui? Além do álcool. – ela perguntou, já sentindo que não teria muita paciência para analisar essa informação observando Nathan. Era capaz dele dormir antes que conseguisse sua resposta. – Você achava que eu passaria o nosso encontro todo sem notar que você está alterado?
Nathan
Nathan sequer percebeu a aproximação do garçom e o pedido de Talulah para que ele colocasse o amendoim numa embalagem descartável. Estava fazendo o maior esforço possível para não fechar os olhos, não queria perder a chance de conversar mais com Talulah e de encará-la ainda mais, especialmente agora que conseguia dizer mais palavras do que gaguejar. Mas passou bem perto de cochilar de verdade quando ouviu o som forte na mesa e a voz firme, o que lhe fez quase pular na cadeira e se sentar numa posição bem reta, forçando os olhos abertos e as mãos juntas na frente do corpo, sobre as pernas, para encarar uma Talulah com uma expressão ainda mais afiada e séria.
- Sim! - a resposta dele foi automática.
O tom e a postura da morena fizeram com que o corpo estremecesse, provavelmente aquela seria uma reação de medo, mas no estado em que estava, era mais uma reação de excitação diante da atitude nova da morena consigo.
- Eu não vou... não vou dormir. - ele tentou dizer num tom mais firme, mas ainda estava obviamente cambaleando sob o efeito da medicação. Forçou um sorriso bobo de novo, quando ela pediu para prestar atenção. - Eu vou... prestar atenção. Não tem como... não prestar atenção... em você. - continuou com o sorriso idiota no rosto, mas piscou algumas vezes tentando manter a consciência um pouco mais focada para as perguntas que ela tinha feito. Era mais fácil prestar atenção na voz feminina com aquele tom. - Eu não comi... nada, eu estava nervoso, e não sabia o que fazer... e o Enzo disse que eu podia tomar um calmante. E pensar numa caverna... mas eu achei melhor pensar numa montanha, tipo escalada livre e com corda que solta e adrenalina. E fazer uma massagem pra relaxar, porque eu estava tenso.
A postura que tinha se ajustado diante do ímpeto de Talulah foi lentamente se desfazendo, os ombros caindo e os olhos pesando mais.
- Eu... finalmente estamos num encontro. De verdade... - ele pareceu só associar o "encontro" na última sentença dela.
Talulah
O estado de Nathan já estava tão alterado que ele sequer percebia que do total foco em sua pessoa, ele aos poucos desfalecia sobre a cadeira em que estava sentado, como se a qualquer momento fosse dormir profundamente. Não moveu um centímetro da posição altiva em que estava para a narrativa contada com cada vez mais sonolência, apenas acompanhando os movimentos do corpo do moreno com o os olhos, não tirando-o do foco por um instante. Se era sua atenção que ele queria, a tinha.
- Espero que não esteja mentindo para mim sobre o calmante, Nathan. Não gosto de mentiras. – ela falou com a voz calma e pontual, sabendo que provavelmente ele pegaria metade do que ela estava dizendo com o corpo pedindo por descanso como o dele parecia estar. – Mas que não tenha sido ingenuidade misturar remédios e álcool. Espero o mínimo de juízo de você. – Talulah não tinha receio algum de espetá-lo usando a admiração que ele sentia. Na verdade, era até mais confortável assim. Nathan mal falava de tão nervoso. Daria o mínimo benefício da dúvida.
O garçom chegou com a comida da morena e a conta, que ela pagou sem dizer mais uma palavra antes de se levantar e bater com a palma da mão na mesa próxima a Nathan.
- Levante-se. Vou lhe deixar em casa. Se for sozinho no táxi é capaz de dormir. – ela falou com o tom mais contundente que o anterior. – Conte sobre esse “Enzo” que lhe passou o calmante.
Nathan
Nathan não sentia como se fosse dormir a qualquer instante, mas sentia os braços moles e pálpebras pesadas. Estava mais fora do controle do próprio corpo do que apenas sonolento. O que era um péssimo resultado num encontro com Talulah... mais ainda agora que tinha confirmado que estavam num encontro e ele tinha desperdiçado a chance.
- Não...! Eu não... ia mentir... pra você... nunca... - ele respondeu, ainda mais lento, a ponto de se curvar até que o queixo estivesse encostado no tampo da mesa. - Eu achei... que era leve... não era... hm. Precisava me acalmar. Senão... não ia conversar com você...
Ele nem teve condições de perceber quando o garçom se aproximou com a conta e ela pagou. A única coisa que lhe acordou da situação foi o tapa na mesa próximo de seu rosto, que fez com que erguesse o corpo de vez, abrindo os olhos mais na surpresa do chamado dela. Mas a reação dele foi sorrir de novo para a mulher.
- Hm, eu... posso lhe deixar em casa. É... a coisa certa... a fazer. Mas... nós já vamos? Acabamos de chegar aqui e... - ele só fez um esforço para se colocar de pé, ainda tendo que se apoiar um pouco na cadeira para que não cambaleasse muito. Mal completou o comentário sobre ter acabado de chegar no encontro, ela lhe perguntou sobre Enzo. - É... um amigo. Dono da pousada... de muitos muitos muitos anos... ele sempre... dá em cima de mim... e de todo mundo. E... ele é um bom homem. Inofensivo... eu acho que bebi demais? Eu não devia beber... não é bom escalar depois de beber... hmmm...
Talulah
Supunha que se aquele fosse um encontro normal, ele teria sido bem cavalheiro, oferecendo para deixá-la “em casa”, ou pelo menos guiá-la até o hotel de forma segura. Só que aquele não era um encontro normal, pois ele estava gradualmente perdendo o controle do próprio corpo, e ela, infelizmente, era uma militar de férias com um péssimo histórico com entorpecentes. Embora geralmente não fosse lhe incomodar, estava começando a ficar irritada com o fato de não ter aproveitado a noite como deveria apenas porque tinha que cuidar do moreno.
A história do tal Enzo só lhe deixou ainda mais de olhos abertos. Até entendia que ele descrevia o homem como o dono de uma pousada com ânimos elevados para ambos os sexos, mas de boa índole; porém tudo que conseguia ler era que o sujeito – amigo de longa data de Nathan – era um suspeito de dar ao moreno drogas mais fortes que as que ele tinha pedido. Não queria assumir nada dali, mas bem poderia ter sido um tipo de boa noite cinderela que fez efeito no momento errado. Tinha que questionar o tal homem.
- Está mais que na hora de ir, Nathan. – ela respondeu calmamente, deixando ele esquecer a pergunta sobre Enzo.
Ela pacientemente esperou que Nathan a seguisse para ver o quanto ele ainda conseguia andar sem tropeçar, já que pelo menos assim ele conseguiria se manter acordado. Chamou um táxi e apenas abriu a porta para que o outro entrasse, ajudando-o pelo menos a não bater a cabeça. Entrou em seguida.
- Diga ao motorista o endereço da pousada, Nathan. – ela falou num tom firme, esperando que ele ainda não estivesse grogue o suficiente para esquecer. O motorista olhou para os dois pelo retrovisor e abriu um sorriso. Mas antes que ele fizesse qualquer gracinha sobre a situação de Talulah supostamente cuidando de um Nathan bêbado, ela encarou o motorista pelo retrovisor com os olhos claros e penetrantes. O homem engoliu em seco, e guardou qualquer comentário para si mesmo.
Nathan
Àquela altura do seu estado físico e mental, Nathan apenas concordou com tudo o que Talulah disse e a acompanhou na medida do possível. Já não conseguia discernir muito bem o que estava ouvindo e respondendo, mas fez um esforço para entrar no táxi e se manter acordado, embora o banco traseiro do carro fosse muito mais agradável do que a mesa à qual estava sentado dentro do bar. Mal se sentou e encostou a cabeça ao apoio no banco traseiro, ouviu o tom firme da mulher outra vez e ergueu o corpo, tentando manter os olhos bem abertos.
- Hm...? Que...? Ah...! A pousada...! L'eau Claire. Fica... na praia. Ali... não na praia, mas perto da praia.. e do porto... - ele suspirou longamente, sem dar muita certeza ao motorista de onde ficava o local, mas o homem começou a dirigir de todo jeito e com a aura de Talulah bem próxima deles, ele encontraria a pousada mesmo que não fizesse ideia de onde ficava.
E o balanço do carro só deu mais espaço para que Nathan encostasse a cabeça no encosto do banco e até pendesse para os lados, a depender da curva, na direção de Talulah, ou na direção da janela fechada ao seu lado. Nem o espaço pequeno para as suas pernas estava incomodando. Mas antes que pudesse perceber o passar do tempo, o carro tinha parado exatamente na entrada da pousada e ele só abriu os olhos por conta do balanço que tinha cessado.
- Chegamos? Ah... eu posso deixar você e... ir... pra L'eau Claire... - ele se voltou para Talulah, com um sorriso idiota e sonolento no rosto, como se tivessem chegado para deixá-la em casa e só então voltar para a L'eau Claire. - Devíamos fazer isso de... novo… eu quero sair de novo… com você…
Talulah
Talulah tinha experiência de viagem apenas o suficiente para saber que todo local podia ser achado. Mesmo com aquelas instruções inúteis de Nathan. Se sabia o nome da pousada, ela teria um endereço. Foi tentando tirar a mente da situação pelo caminho, observando as paisagens e ocasionalmente aparando Nathan para que não caísse completamente por cima do seu corpo, mas não o afastou totalmente, deixando que o balanço do carro os guiasse. Quando deu por si, estavam na frente da pousada, e tirou alguns trocados da bolsa para pagar o motorista do táxi.
- Obrigada, irmão. Tenha uma boa noite. – ela falou, então abrindo a porta e saindo enquanto ignorava a cena de Nathan, exceto talvez por lançar-lhe um olhar por cima do ombro quando ele disse que deveriam fazer isso de novo. – Não, Nathan. Definitivamente não vamos fazer isso de novo. – respondeu com muita serenidade, sabendo que se sua resposta não acordasse o moreno, ele estava muito mal. – Venha comigo.
Ajudou Nathan como podia a sair do carro, e então até chegar a entrada da pousada. Tocou a campainha por ser um pouco tarde e tudo estar fechado. Pelo visto era um lugar mais suspeito do que esperava. Amigo de longa data. Talvez Talulah tivesse julgado Nathan mal.
Quem abriu a porta foi um senhor, e Talulah amenizou um pouco a expressão.
- Boa noite, senhor. Vim trazer esse rapaz. Ele disse que é hóspede aqui. – ela falou calmamente, encarando o homem de modo direto.
Enzo, que tinha aberto a porta, olhou para ela e Nathan, sentindo um leve frio na espinha que não sabia dizer exatamente o que era.
- Oh, sim. Nathan. Suponho que o encontro dele tenha sido com você, mademoiselle? Pobre rapaz, estava tão nervoso. Não o julgue demais, ele não leva jeito com as mulheres. Desde muito tempo atrás. Deixe eu lhe ajudar. – o dono da pousada falou pacientemente, indo até Nathan para pegá-lo. – Meu nome é Enz-
No momento em que Enzo começou a se identificar, sentiu o calafrio ainda mais intensamente. Tanto que engasgou com as próprias palavras. Estava indo ajudar Nathan, mas acabou usando o corpo grande do rapaz para se esconder um pouco, olhando para a moça com a curiosidade de um biólogo prestes a ser devorado por algum predador. E os olhos dela eram lindos. Mas por deus, como eram afiados.
- Enzo. Leve Nathan para o quarto. Ele tomou um calmante no começo da noite, está ficando sonolento. Precisamos conversar sobre isso, acredito. – Talulah pontuou calmamente o que queria na voz serena, sequer piscando enquanto falava com Enzo.
Enzo se encolheu ainda mais a medida que Talulah lhe encarava, notando como ela já tinha entrado na pousada e definitivamente não iria sair até conversarem.
- Não me deixe sozinho com ela. – Enzo implorou baixinho para Nathan, com a voz trêmula.
Nathan
De metade da viagem de táxi em diante, Nathan já não conseguia raciocinar mais nada. Não ouviu a resposta de Talulah que eles não teriam aquele tipo de encontro de novo, e só continuou murmurando algumas coisas um pouco sem sentido sobre saírem outras vezes e sobre o que poderiam fazer. Nem soube exatamente como saiu do táxi, mas logo a pessoa que estava ao seu lado não era mais Talulah, e sim Enzo. Passou o braço por cima dos ombros do mais velho, jogando praticamente todo o peso do corpo no apoio do homem, também sem assimilar uma palavra sequer da conversa dele com Talulah ou perceber que a morena ainda estava lá.
- Enzooo!! Você... devia conhecê-la... - ele começou a falar na voz completamente embargada, enquanto um braço estava em volta dos ombros do amigo de longa data, a outra mão ele levantou até o rosto de Enzo, como se quisesse chamar a atenção dele para si. - Ela é... incrível... e bonita... elegante... forte... você... ia gostar dela... eu nunca vi... uma mulher assim e... eu quero sair com ela de novo... de novo... de novo...
As palavras foram ficando mais baixas e indistintas, ao ponto que Nathan mal estava entreabrindo os lábios. Estava mais arrastando os pés do que andando de fato e naquele estado, o peso só aumentou sobre o apoio dos ombros de Enzo. Provavelmente, seria impossível subir escadas daquele jeito. Se ficasse jogado no chão, conseguiria dormir tranquilamente até o dia seguinte ainda mais confortável do que já tinha dormido em algumas expedições.
Talulah
Enzo geralmente ficaria bem feliz de ter Nathan se apoiando em seu corpo, de ouvir aquelas histórias bobas dele sobre aquelas mulheres totalmente idealizadas que ele criava, mas o dono da pousada se sentia na mira de uma mordida direto na jugular, e se sequer olhasse para Nathan, podia ser que perdesse a vida. Apesar do moreno puxar seu rosto, seus olhos ainda estavam fixos na morena, e os adjetivos que ele usava certamente não cabiam ali.
Logo, Nathan começou a pesar e Enzo se sentiu no impulso de arrastá-lo para um dos quartos de baixo que estavam vagos antes que ele começasse a dormir de verdade, e perdesse qualquer chance de arrastá-lo de forma segura. Deu os passos na direção dos quartos, Talulah lhe seguindo de uma distância que consideraria impecavelmente constante, deixando apenas o som do salto no assoalho marcar a presença dela.
Enzo deitou Nathan na cama e então sentou-se na beirada da cama onde estavam, afagando a cabeleira do amigo por um instante.
- Ahh, meu rapaz... foi bom ter te conhecido. – Enzo falou com a voz suave, então levantando de onde estava para se atender a moça, que seguia lhe encarando seriamente.
Enzo passou pela porta e então, Talulah pegou a maçaneta da porta, olhando por cima do ombro por um instante.
- Boa noite. – ela adicionou na voz suave antes de fechar a porta atrás de si.
[Thread encerrada]

