[Drive] Esbarrando no Passado [George; Lilú]
#1
George

Havia saído do trabalho para buscar os meninos na escolinha. Dessa vez, seu amigo japonês parecia ter conseguido buscar a filha no tempo certo, então resolveu passar algum tempo com seus meninos. Sabia que o armário da cozinha estava ficando vazio, então resolveu juntar os trocados e ir com Samuel e Mikhael para o mercadinho mais próximo do distrito residencial para fazer algumas compras de última hora.

Com as mochilas dos meninos no carrinho pequeno de compras, na parte inferior e Mikhael sentado na parte superior do acessório de locomoção pelos corredores do mercadinho, seguiu pelo setor de laticínios, escolhendo alguns pacotes de leite na promoção enquanto tentava fazer com que Mikhael largasse da ideia de comprar os cereais da prateleira ao lado, repletos de açúcar.

Os meninos estavam com o fardamento da escolinha. Uma blusa de botões branca e uma bermudinha azul clara. Samuel parecia bem suado e afoito, bem sabia que o garoto gostava de brincar com os coleguinhas no intervalo, assim como dificilmente parava quieto durante as aulas. Mikhael, por outro lado, ainda parecia bem arrumado, apesar dos cabelos castanho mais clarinhos estarem assanhados, como se tivessem ficado “amassados” durante a soneca dele da tarde.

- Não, meu filho. Tanto açúcar não faz bem para você. Vai ganhar no máximo um biscoito e se comer todos os legumes que eu colocar no seu prato. - avisou ao menor que logo fez uma cara de desolado, mas nada mais disse, afinal gostava muito de bons biscoitos. - Samuel, eu esqueci de pegar o molho de tomate, filho. Pode pegar para mim, por favor? - pediu para a criança que prontamente franziu o cenho, sério, como se tivesse recebido uma tarefa especial. - Mas não vá corr--! Samuel!

Sequer teve tempo de repreender o menor sobre o que já imaginava que ele iria fazer, afoito como era. O menino, por sua vez, cruzou o corredor tão rápido como brincava de pega-pega na escolinha. O mercadinho era no caminho de casa e como sempre costumava fazer compras com o pai, bem se lembrava de onde ficavam os molhos. O que o garoto não esperava era ser barrado em um encontrão com duas pernas compridas, um sapato esquisito e alto.

- Ai! Ai ai ai… - resmungou, batendo as palmas no chão e se virando para massagear o bumbum após ter caído de costas. Olhou para cima, incomodado, mas logo ainda mais estranhando encontrar uma mulher tão bonita. - Ah…

Lilú

A vida de Lilú não era uma bagunça como a maioria das pessoas deve imaginar que é, tem mais rotina do que a loira gostaria, mais serviço administrativo do que ela estudou, e mais finanças e números do que ela já quis pensar na vida. Mas acima de tudo isso estava a parte de lidar com pessoas, de todos os tipos, cores, posicionamentos, estando ou não dentro da lei, e essa era a parte mais “normal” dentro de sua rotina. Ou diria anormal? Ou vai saber quais são os parâmetros das pessoas sobre isso. Ser uma cafetina em nada mudava o fato de ter horários pra trabalho, e horários fora dele, boletos pra pagar, e salários no fim do mês pra dar conta, e assim como qualquer pessoa com uma vida mais comum e supostamente normal, a loira também precisava abastecer a despensa de casa, que era nada mais que a parte de baixo do armário da cozinha.

Naquele final de tarde, estava no telefone, agendando uma ida de bate e volta pra Paris pro dia seguinte, nada demais, apenas uma conversinha aqui e ali, com algumas pessoas conhecidas, que precisavam de um papo aqui e ali. Em contrapartida, depois de ir ao supermercado, iria pra casa arrumar algumas coisas de viagem, embora em verdade estivesse morrendo de preguiça de arrumar bagagem. Pra sua sorte ou pelo seu bom faro pra funcionários, não precisava se preocupar tanto com o clube noturno, tinha treinado bem suas meninas, e contratado bem as demais, então elas se viravam muitíssimo bem obrigada, sem que tivesse de ficar de vista grossa pra que as coisas andassem em ordem.

A loira seguiu para o supermercado o bairro, mas decidiu caminhar alguns quarteirões a mais porque queria alguma coisa diferente pra comer. Se sentia com mais disposição pra cozinhar do que de arrumar suas roupas, em verdade, estava apenas se deixando levar pela preguiça e o escapismo culinário. estava vestindo uma calça jeans de cintura alta, com rasgões e desfios na altura da coxa e joelho, uma blusinha de alças brancas, que dava folga pra ver praticamente todo o sutiã, que era do tipo simples, cor de pele, cruzado no meio das costas, ideal pra quando se tem mais de 120 de busto e os peitos pesam o dia todo sobre os ombros. O Cabelo estava preso num coque pequeno sem qualquer compromisso com a aparência, duas argolas prateadas grandes, anéis finos no dedo indicador e midinho e polegar da mão direita, na mão esquerda apenas no dedo midinho e polegar, nos pés, sandálias de salto, do tipo plantaforma, mais confortáveis pra andar, mas ainda lhe deixando com o conforto de olhar os outros de cima.

caminhava com cesta pequena, tinha escolhido, mais temperos que comida, alho, ervas finas moídas, dois tipos de pimenta, açafrão, parecia até que entendia do que estava escolhendo, em verdade só lembrava que tudo aquilo tinha um cheiro muito bom, mas se de fato a comida ficaria boa no fim, aí seria outra história. Estava na fila de massas, escolhendo o tipo de massa que prepararia, o bom é que os molhos já ficavam do lado e poupavam o tempo de procurar:

-- Talharim parece fácil de fazer, mas esses macarrão que parecem uns pasteizinhos são tão gostosos! será que eu acerto fazer? -- estava distraida com a mão na cintura quando uma criaturinha pequena bem abaixo do seu raio de visão, virou a esquina de prateleiras em alta velocidade. Por sorte estavam em um supermercado, estivesse a loira mais atenta, ela teria chutado o menino como reflexo pela aproximação rápida, normalmente isso acertaria o meio das bolas de qualquer bebâdo chato, mas sendo um garoto de um pouco mais de 1m, seria um chute na cara praticamente.

O menor caiu no chão, como uma fruta madura, depois de bater contra seu corpo, por sorte a loira só precisou se amparar na prateleira de macarrões, sem derrubar nada. Vendo que o garoto não teve qualquer reação além de um “ah” a loira, deu um sorrisinho maroto:

-- Um pouco mais rápido e o mini Schumacher aí tinha causado um acidente na prateleira aqui. -- a loira deu dois tapas sobre o tampo do mesmo: -- já pensou ter de pagar uma prateleira inteira de macarrão? é dinheiro demais pra mim e pra você! -- apontou para o menor ainda com um sorriso maroto no rosto: -- eu acho que um garoto da sua idade ia ficar ofendido se eu te oferecesse ajuda, mas eu posso me abaixar pra não ter de olhar você tãaao de cima assim.

A loira brincou, pegando um pacote de macarrão qualquer e pondo na própria cesta de compras sem maiores preocupações.

George

Samuel, agora já de pé, observou a mulher alta e bonita a sua frente que ainda havia lhe chamado de um nome esquisito. Franziu o cenho com a ideia dela de que poderia ter causado algum prejuízo ali além do que poderia pagar. Isso causaria sérios problemas para seu pai, isso era certo. Bateu a poeira de sua bermuda da escolinha e voltou de novo a atenção para a loira mais alta, observando-a pegar um pacote de macarrão.

- De-Desculpa, madame.

- Samuel! - ouviu a voz de seu pai lhe chamando, o homem se aproximando com o carrinho pequeno de compras, Mikhael no andar de cima do carrinho. George estava com uma expressão preocupada no rosto cansado, observando o menino menor para se certificar que ele estava bem. - Samuel, eu já disse que não precisa correr aqui. A comida não vai fugir, filho.

Mas foi justamente quando estava pronto para se dirigir a outra pessoa ali presente no corredor para perguntar se o menino não havia incomodado quando George se deu conta do quão familiar era a fisionomia alheia, assim como o uso daquelas roupas, principalmente a blusa que deixava transparecer o sutiã. Estreitou o olhar, intrigado por menos instantes até sua memória não falhar, deixando-o surpreso com aquele encontro repentino.

- Ah… Livié?

A memória de sua amiga de infância ainda era bastante vívida em sua mente. A adolescente de uniforme escolar, disposição animada e imprevisível. Talvez pudesse estar enganado a respeito daquela figura, a mulher era mais alta, mas ambos haviam crescido, afinal. Fazia anos que não ouvia falar da garota, desde que havia noivado e se casado com sua falecida esposa. Samuel observou o pai, curioso e desconfiado, sem entender o motivo da surpresa na feição do próprio pai enquanto que Mikhael, o irmão mais novo, parecia encantado com a figura da mulher bonita no corredor.

Lilú

Não se incomodava com crianças andando por ai desacompanhada dos pais, porque quando mais nova, fazia isso o tempo todo, e em seu bairro as crianças ficavam largadas nas varandas de casa e nas calçadas jogando e brincando enquanto o tempo estava bom. furtando as vezes e pulando muros mas quem criança não apronta no fim das contas? E com a roupinha de escolinha, ele já tinha cumprido a cota de tortura diária.

Mas para sua surpresa a voz do que seria o pai do garoto não lhe pareceu tão estranha aos ouvidos, tinha aquela sensação de familiaridade que não sabia dizer de onde vinha. Mas não era uma pessoa de se preocupar demais com vozes conhecidas, de noite todos eram estranhos em seu trabalho, então podia ser alguém da noite em sua vida pacata diurna. Estava prestes a sair do corredor de massas quando o som do carrinho vindo e fechando o caminho trouxe consigo uma criança pequena o suficiente pra saber que não estava no saldão de promoções no supermercado, e uma pessoa que a muito tempo não via, mas que era impossível esquecer o rosto:

-- ora, ora, é estranho ouvir as pessoas falando meu nome civil. -- a loira pôs o braço na cintura em uma posição relaxada, um sorriso amplo no rosto, e encarou a figura do amigo de longa data, depois teve de levar a mão para cobrir os lábios do risinho: -- George meu amigo, ninguém te avisou que esse bigode não combina com você?

A loira se abaixou sobre um dos joelhos ficando mais próxima da altura do pequeno Samuel, então repousou a palma da mão sobre o ombro do garoto em um toque suave: -- Hey, Samuel, certo? Vamos dar uma ajudinha pro seu pai? Porque você não vai na seção de banho e pega um barbeador bem bonito pra ele? Aquele que tem 3 lâminas embalagem verdinha. Vai lá! -- deu dois tapinhas incentivando o menor a cair na sua conversa, mas ia ser engraçado se o menor realmente fosse, embora ele estivesse com uma cara de quem estava mais confuso do que de fato absorvendo a ideia que seu velho pai podia ter amigas e não somente amigos barrigudos e com bigode. Meu deus do céu, e que bigode é esse?

George

Fez uma pausa em sua aproximação, notando que de fato a mulher a sua frente era sua amiga de infância, a tal garota com quem sempre saía depois da escola para poder vadiar pela cidade em seu horário livre. Talvez a vida como pai tivesse lhe deixado com tantas responsabilidades durante tanto tempo que aquele período de sua vida parecia agora tão distante. Ainda assim, conseguia reconhecer a mulher como a figura vivaz e expressiva como quando eram mais jovens.

Samuel olhou para a loira e depois para seu pai, desconfiado das intenções da figura feminina enquanto seu pai cobria o bigodes com a mão, parecendo então perceber que aquela parte de seu rosto deveria mesmo chamar a atenção de alguém do passado, justamente do tempo de quando nem fazia a barba direito ainda.

- Faz muito tempo que uso bigode. - respondeu, baixando o olhar como quando era só um adolescente. Não estava certo ainda de como se aproximar da mulher a julgar todo o período em que havia passado distante da mesma. Ela havia sumido durante um tempo e depois que havia se juntado com a mãe de seus filhos, não ouviu mais falar de sua amiga. - Ah, essa é uma velha amiga do papai, o nome dela é Livié. - fez uma pausa, novamente incerto sobre como proceder ali. - Desculpe, ainda te chamam de Lilú?

Resolveu perguntar enquanto o pequeno Mikhael já se adiantava para apontar o dedo para a loira, balançando as perninhas curtas no carrinho de compras.

- Lilú! Lilú! - o pequeno sorriu, animado com a sonoridade daquele nome. George respirou fundo e passou a mão pela cabeça da criança antes de se dirigir a mulher:

- Este é Mikhael, meu caçula. Samuel foi pego correndo no corredor? - perguntou a loira enquanto o mais velho parecia ter sumido de sua visão novamente. - Samuel! Onde é que aquele menino se meteu? - mal sabia ele que a criança já havia se afastado para ir buscar o tal item cortante sugerido pela mulher bonita mais velha.

Lilú

A loira deu uma boa risada quando o mais velho cobriu o bigode e direcionou o olhar para baixo, podiam se passar mais de 10 anos, mas mesmo assim, ainda conseguia enxergar facilmente os gestos e manias do amigo de longa data. Ainda podia chama-lo de amigo não podia? Se aproximou mais do carrinho de compra enquanto George apresentava o seu filho mais novo. E era curioso que ele tivesse dois filhos, o tempo passava em uma lufada de vento pelo visto:

-- Olá Mikhael, que nome complicado o senhor tem, não é? Já consegue falar o próprio nome direitinho? Aposto que sim! -- a loira estendeu a mão até a cabeça do mais novo, fazendo-lhe um cafuné gostoso, em seguida descendo para as bochechas redondas, apertando e fazendo a criança fazer boca de peixinho, enquanto simultaneamente a loira repetia a mesma careta fazendo graça para o menor: -- sim! até prefiro que me chamem de Lilú, faz parecer que os boletos que chegam pra Livié nem são pra mim! Hahaha!

A loira manteve o ar de riso enquanto se aproximava do mais velho, levando a mão ao rosto dele, segurando-o pelo queixo e lançando um olhar curioso de sempre, como se estivesse analisando o estrago que o bigode fazia no rosto do amigo: -- nem parece que você é só um ano mais velho que eu George! bote na conta do bigode viu! -- brincou enquanto se aproximava pra depositar um beijo gentil na face direita do amigo, não tomar excesso de ousadias em um reecontro, pelo menos não na frente das crianças pequenas:

-- E então, nem vou perguntar o que veio fazer, é meio óbvio, vamos as perguntas que interessam, você têm a noite livre? Seria uma desperdício enorme se tentássemos por 10 anos de conversa em dia em uma fila de supermercado. Posso lhe convidar pra ir jantar lá em casa, ou posso me convidar pra ir jantar na sua casa. Não é Mikhael? é uma boa ideia não é? -- perguntou para o menor tocando com o indicador na ponta do nariz da criança menor.

George

Mikhael sorriu com o cafuné, parecendo mais inquieto quando ela apertou suas bochechas, como se quisesse morder a mão da mulher que havia acabado de lhe fazer uma gracinha, mas nada violento, apenas porque ela parecia gostar da brincadeira tanto quanto ele. George, por sua vez, com a aproximação repentina, ficou corado e não se moveu, incerto de que, após tanto tempo sem sequer topar com a loira, ela podia lhe tratar com toda aquela intimidade. Era como se ainda fossem os dois adolescentes da época em que estudavam juntos.

- Noite livre? - repetiu, sem entender o objetivo dela com aquela conversa. Lilú era uma boa amiga da época que era só um garoto, e mesmo assim era estranho reencontrá-la depois de ter passado por tantos problemas. - Eu estou comprando alguns ingredientes para fazer o jantar dos meninos. Pode jantar com a gente se quiser. - admitiu, ainda assim com aquela sentimento estranho que não sabia decifrar se era culpa por ter vivido durante tanto tempo na mesma cidade que a velha amiga e não ter mais falado com ela; ou se era a própria falta de tato com a companhia feminina mais uma vez.

Samuel voltou tão pronto Mikhael estava rindo com a brincadeira da amiga de seu pai. O filho mais velho de George aproximou-se com a tal lâmina de barbear, estendendo a mesma para seu pai que só se deu conta do que o garoto trazia quando ele fez questão de sacudir o objeto a sua frente.

- É isso que usa, tia? - perguntou o mais velho, voltando sua atenção para Lilú.

- Você vai ficar usando meus filhos agora para me provocar? - perguntou o homem, guardando, porém, a lâmina de barbear no carrinho de compras, suspirando conformado diante da ideia de que não havia, e não queria, se opor ao bom humor da mulher que lhe trazia nostalgia de uma boa época de sua vida. - Samuel, essa é a Lilú, ela vai jantar com a gente hoje.

- A senhora vai cozinhar pra gente hoje? - perguntou Samuel, observando com certa curiosidade o que a mulher trazia consigo.

- Eu vou passar no caixa e passar as compras primeiro. Se importa? - perguntou George a velha amiga de infância, verificando se tudo que precisava já havia sido colocado no carrinho de compras para enfim se dirigir ao caixa e finalizar sua jornada no mercado. Sempre tinha receio que permanecer mais tempo que o necessário ali e seus filhos começarem a buscar e a pedir por coisas que não podia pagar.

Lilú

A loira acenou positivamente a pergunta do mais novo, em seguida riu abertamente do comentário do amigo, diante da brincadeira feita com o filho pequeno dele, se não pudesse usar os filhos dele contra ele, que graça teria? Quando novamente o menino mais velho lhe dirigiu a pergunta se era ela que iria cozinhar, a mais velha fez questão de abaixar sobre um dos joelhos pra ficar na altura do mais novo, e então repousou a mão sobre o ombro da criança:

-- Funciona assim Samuel, se o seu pai me chamou pra jantar na casa de vocês, é ele que vai cozinhar, porque eu sou visita. Entendeu? E o que as visitas fazem? Levam geralmente algo gostoso pra sobremesa, você gosta de torta? Vamos pegar uma tortinha pronta na padaria! – Estendeu a mão para o menor, como se estivesse fazendo um acordo com o pequeno, depois de se levantar se aproximou de George o suficiente para lhe dirigir a palavra pro amigo:

-- Tia é pra essas coisas, pra estragar as crianças! – Riu descaradamente, na cara do amigo, enquanto ia com o filho mais velho na padaria do supermercado pegar a tortinha mais barata, e aproveitar para pegar uma boa garrafa de vinho, não tinha como passar por aquele encontro sem um bom vinho.

E tinha plena certeza que George não tinha como fugir daquela noite de conversas embaladas em nostalgia, afinal tinha levado um dos filhos dele consigo, ele não iria pra casa deixando uma das crianças dele pra traz: -- Samuel, vou te ensinar outra coisa, tortas baratas são as mais legais, por isso eles deixam elas geralmente por baixo das mais caras! – apontou pra prateleira, tirando várias tortas já embaladas para buscar as que estavam mais escondidas com valor mais em conta. Sorriu divertida, dando trela e conversa para o menor, deixando que ele escolhesse entre morango, chocolate, baunilha e creme, das tortinhas com valor mais barato.

George

Samuel observou a mulher diretamente como se ela fosse algum tipo de professora com roupas estranhas que estivesse lhe ensinando coisas que já deveria saber. Concordou com ela sobre gostar de torta, principalmente aquelas tortas prontas e baratas da padaria, justamente porque sabia que não seria ruim para os gastos do dinheiro de seu pai. George não teve nenhuma reação diferente de manter o ar mais calmo de sempre quando a mulher disse que estava ali para estragar as crianças. Era estranho reencontrar uma amiga de tanto tempo e a personalidade dela ainda lhe recordar tanto a da menina adolescente que fora sua amiga mais próxima antes de conhecer a mãe das crianças.

O filho mais velho de George resolveu escolher uma torta de chocolate, mas logo mudou o sabor para optar pela de baunilha.

- Mikhael não pode comer muito chocolate. - comentou, erguendo o olhar para a mulher sorridente que lhe acompanhava. Carregou a torta consigo, julgando como sua própria responsabilidade carregar algo para a mulher.

Enquanto isso, George já estava na fila do caixa, observando constantemente o paradeiro dos outros dois para poder passar as compras juntos. Vez ou outra, sem se dar conta, parava para observar o próprio bigode em algum reflexo metálico no caminho para o caixa, assim como passava a mão pelos pelos, pensativo.

- Tia Liu! Tia Liu! - Mikhael pareceu animado ao avistar a loira ainda distante e começou a se balançar como se quisesse descer do carrinho, mas George foi mais rápido em pegá-lo nos braços. O pai dos meninos esperou que a mulher voltasse e se chegasse mais perto para observar o que ela estava comprando, dando-se conta da bebida que ela havia colocado junto nas compras.

O homem desviou o olhar, tentando se recordar de quando havia ingerido álcool pela última vez, na lembrança da amiga em sua memória. Samuel parecia empolgado sobre a ideia de comer uma tortinha enquanto que Mikhael não parava de se balançar como se quisesse os braços da amiga de seu pai.

- Ele fica animado com pessoas novas. - tentou explicar, recordando novamente que Mikhael nunca havia encontrado a mulher antes. - Espero que não se importe de irmos de ônibus para minha casa. Eu venho aqui por conta das promoções. - explicou, imaginando se ela não teria nenhum pensamento curioso sobre sua situação após tanto tempo sem encontrá-la, principalmente quando a loira parecia tão bem e alegre como de costume.

Lilú

A loira sorriu diante da disposição do mais novo em carregar a torta, podia fazê-lo sem problema em sua cesta de compras, mas se ele queria ser educado em carregar bem podia fazê-lo sem problema. Era um projetinho de George com uma carinha mais emburrada. Lilú levou a mão a cabeça do mais novo, bagunçando seus fios em sinal de que ele estava fazendo um bom trabalho.

Logo quando se aproximaram novamente do amigo de longa data toda a animação do menino, fez com que Lilé esticasse o braço para segura-lo, sem muito trabalho, um garoto daquela idade devia pesar o que? 8kg? Dava pra levar em um braço só sem problemas, e fez graça pra criança deixando que ela agarrasse seu pescoço e fizesse bagunça com seus fios de cabelo descoloridos:

-- Ah você tá achando que eu tenho um carrão agora? Não George, eu geralmente ando de bicicleta, e de transporte público como todo mundo, ainda sou gente como sempre! -- a loira riu mais descontraída, esperando que o mais velho passasse as compras: -- Ah, Samuel, a torta vai na minha conta, aqui Mikhael segura a carteira da tia, que eu to só com uma mão livre! -- a loira deixou que o menor brincasse com a peça, apenas impedindo que ele colocasse na boca, porque dinheiro era sujo, de todo jeito, mesmo que seu dinheiro também não fosse 100% limpo.

Baixou o menor apenas quando sairam do supermercado, deixando que ele caminhasse, mas fazendo questão de segurar na mão pequena. Pegaram o transporte público, que não demorou muito para leva-lo na zona residencial de Cerise, as casinhas simples, e prédios abarrotados de pessoas, não se comparava obviamente com a área que sempre morou, aqueles lados tinham mais cara de “casa” do que de “refúgio”.

-- E então senhor cozinheiro, quanto tempo acha que demora até preparar o jantar, anh? Sou visita mas posso ajudar com alguma coisa fácil, se me der muito trabalho vou arruinar seu jantar! -- Lilú manteve o ar de riso despreocupado e não fez questão de perguntar se a esposa dele se incomodaria com a chegada dela, porque sabia que não havia mais “esposa”, então, se poupou da gafe de perguntar ou comentar qualquer coisa sobre o assunto, apenas deixando o ritmo da conversa mais leve e aconchegante, porque era assim que se lembrava da companhia do amigo.

George

Mikhael pareceu animado com o braço da amiga de seu pai estendido para ele, agarrando-se a mulher, ficando ainda mais empolgado com o perfume da mulher que lhe lembrava um pouco dos aromas dos lençóis e de sua cama em casa. Passou as mãos pequenas pelo cabelo da mulher, observando o seu arredor mais confortável naqueles braços, principalmente pelo conforto macio que lembrava muito suas professorinhas na escola.

George por sua vez apenas sorriu discreto, mas satisfeito pela amiga não parecer estar assim tão diferente em seus gostos. Imaginava sim que talvez após ficar adulta e conseguir se estabilizar em sua vida, que ela deixaria alguns por menores de uma vida pacata no interior francês para pessoas como ele que não pareciam ter muita perspectiva de mudança. George começou a passar suas compras enquanto Lilú ainda estava de olho em seu filho menor. Samuel

Mikhael pareceu mais empolgado com o novo objeto em suas mãos e acompanhou enquanto a mulher buscava o dinheiro e seu pai passava o objeto de plástico para pagar as contas daquela compra. O menino mais novo baixou o olhar para onde estava apoiado, reconhecendo o colo da mulher e batendo com a carteira ali, rindo sozinho.

- Carteira, tia! Carteira! - ele tentou explicar enquanto chegava a vez da mulher pagar pelas próprias compras e aquela torta.

Samuel e George começaram a arrumar as compras em sacolas, pegando até mesmo as compras da loira para carregarem. Ainda que Samuel fosse apenas uma criança, ele não parecia ter objeções quanto a ajudar o pai carregando as compras. Mikhael era o único que parecia ainda pequeno demais para carregar tantas sacolas sozinho, por isso não se incomodou dele andar de mãos dadas com Lilú. Não demorou para que chegassem em sua residência, afinal de contas, não morava tão distante dali. Colocou as compras para dentro e segurou a porta para que Lilú adentrasse com Mikhael. Imaginava que ela ainda não conhecia sua casa, mas era uma residência tão comum que não achava que valia a pena apresentá-la como se merecesse ser conhecida em cada detalhe.

- Por favor, sinta-se em casa. Desculpe pela bagunça. - pediu, ainda que a casa não estivesse bagunçada. Sempre de desculpava pela força do hábito e por sua falecida esposa sempre ter o costume de reclamar sobre o estado da residência. Fechou a porta e assistiu Samuel já deixar as compras para pegar a mão de Mikhael, levando o menino consigo pelo corredor que levava aos quartos e banheiro. - Ah, não vai demorar muito. Pode cuidar de cozinhar o macarrão enquanto eu descasco os vegetais?

Pediu para a mulher enquanto descarregava os itens para a cozinha, colocando as compras de Lilú também sobre o balcão, incluindo a torta. O homem arregaçou as mangas e lavou as mãos, organizando os itens para preparar o jantar, separando os legumes que iria descascar e cortar para cozinhar, algumas batatas e cenouras, assim como brócolis para cozinhar no vapor.

- Samuel foi levar o Mikhael para tirarem o uniforme da escola e tomarem um banho. - explicou pela breve ausência das crianças, dando espaço para a mulher utilizar sua cozinha. Fez uma pausa, observando a loira antes de pegar uma faca para descascar os legumes, refletindo sobre a imagem da mulher em sua casa como se sempre tivessem sido amigos e que o espaço de tempo em que ela havia sumido e ele havia se casado nunca tivessem acontecido. - Você… ainda está morando na mesma casa? - perguntou, desviando o olhar para os legumes, incerto de que deveria fazer aquele tipo de pergunta depois de tanto tempo sem falar com a mulher. Era estranho e ao mesmo tempo reconfortante como ela ainda parecia agir como a mesma Lilú que conhecera um dia.

Lilú

A loira tinha em mente que estava lidando com um George mastigado pelo tempo e serviço, ouvia muitas histórias e sabia quase tudo que precisava saber, sobre o casamento, sobre o trabalho, sobre os dois filhos. Mas era outra coisa poder lidar diretamente com as pessoas, ouvir a voz do amigo lhe soar tão mais grave e tão incrivelmente cansada, ver os dois projetos de Georgezinho, embora Mikhael não lhe lembrasse tanto o amigo, deveria ter puxado mais a esposa que não chegou a conhecer profundamente. Embora o amigo de longa data se desculpasse excessivamente, sabia que aquilo era da natureza dele, não tinha absolutamente nada que estivesse desarrumado ao ponto de sentir vergonha, e mesmo que a casa estivesse o caos, não era de sua conta, ele estava vivendo e pagando suas contas sem precisar de sua ajuda:

-- Pare de se desculpar sobre tudo homem, eu não pago suas contas, não me deve explicações, sua casa, suas regras oras. -- comentou com a naturalidade costumeira de sua personalidade, talvez mais afiada e aprimorada com os anos, mas logo George se reacostumava: -- é uma casa, um lar, como todos os outros, tem suas coisas e dos seus filhos, tem nada do que sentir vergonha ou ter de pedir desculpas. -- Deu um peteleco na testa do homem, como se estivesse trazendo ele de volta pra realidade.

Observou as crianças sumirem no corredor, e ouviu distante som de chuveiro, e era curioso que os pequenos já soubessem como se virar tão novos, eram filhos do amigo mesmo no fim das contas: -- Claro que cuido, mas vou perguntar, vamos beber só depois que os menores forem dormir? Ou eu já posso abrir a garrafa de vinho pra bebericar enquanto cozinho? -- a loira sorriu marota, enquanto seguia para ajudar a desempacotar as compras separando as suas, das de George, e em seguida foi para a pia, lavar as mãos para começar a mexer em qualquer coisa de comida. Parou apenas para ouvir aquela pergunta sobre onde morava:

-- bem, se você tivesse tentado me visitar ao longo desses anos saberia que eu continuo morando no mesmo lugar de sempre na periferia da cidade. Você pode aparecer lá qualquer dia, posso te dar meu número se quiser manter contato.-- deu de ombros comentando de um jeito despretensioso enquanto pegava os pacotes de macarrão: -- onde encontro uma panela grande pra cozinhar o macarrão? -- perguntou antes de começar a abrir os armários e fuçar nas coisas, claro que se ele demorasse pra responder iria procurar por si só de todo jeito.
#2
George

A voz da amiga de velha data lhe deixava com um estranho sentimento de nostalgia de quando ainda era jovem, só um adolescente, e achava que não poderia arrumar mais responsabilidades em sua vida. Fechou os olhos por um instante e franziu o cenho brevemente com o peteleco, sorrindo discreto logo em seguida. Sentia falta daquele tipo de atitude da loira e, curiosamente, só havia se dado conta daquele sentimento após reencontrá-la.

- Fique à vontade. - respondeu sobre o vinho, relembrando que já havia dividido algumas cervejas com seu amigo Tamotsu. As crianças já sabiam que não podiam beber álcool e não esperava que ela fosse oferecer nada como vinho para as crianças.

Estava até animado com a presença da loira ali, até ela lhe responder a pergunta sobre onde ela morava. Abriu a boca, pensando em justificar sua ausência durante todo aquele tempo, mas logo retornou a baixar o olhar, ciente de que não havia justificativa de fato. Ele havia se afastado, por seus próprios motivos. Não fazia ideia do que havia acontecido com ela nos últimos anos, mas não imaginava que a loira fosse lhe contar, ela também não lhe devia nenhuma satisfação depois de tanto tempo. Passou tantos anos preocupado com a relação com a falecida esposa, tentando ajustar seu casamento, cuidando das crianças, até a descoberta da doença da mãe dos meninos.

Aproximou-se do armário, buscando nas prateleiras inferiores a panela grande que usava para fazer massas, cozinhar arroz, preparar carne ao molho. Não havia muitas panelas em sua cozinha, apenas o necessário para preparar as refeições diárias.

- Desculpe… por não ter te procurado. - pediu, entregando a panela para ela antes de voltar sua atenção para os legumes que havia separado para serem cortados. Separou a tábua que usava tanto para legumes, como para carnes, e começou a cortar as cenouras e batatas, descascando-as quieto. Não sabia ao certo o que dizer para a loira ou como se justificar, ou se até tinha algum direito em manter contato com ela. No fundo, só se sentia mal por reconhecer que sentia falta da amiga de infância, mas não sabia como começar de novo aquele relacionamento. Lilú era sempre a mais versátil para aquele tipo de resolução ao mesmo tempo que sempre desconfiava que ela falava de assuntos sérios sorrindo e sempre acaba rindo, mesmo que tivesse vontade de chorar. Era assim que se recordava da amiga de longa data, e tal lembrança não lhe deixava confortável com o que havia feito daquela amizade.

Lilú

A loira já estava olhando nos armários de cima da cozinha, quando o amigo de longa data se abaixou pegando uma panela de tamanho grande, já maltratada pelo tempo e uso. Estendeu a mão para pegar a mesma, em tempo de ouvir aquele pedido de desculpas, dito em voz amuada. Não perdeu o sorriso do rosto, manteve aquela expressão descomplicada:

-- Desculpas aceitas. -- falou em tom suave, abrindo a torneira para encher a panela com água suficiente para cozinhar macarrão para quatro pessoas, ou melhor, três pessoas e meia: -- vou precisar de óleo e sal aqui também, por favor. -- A loira já abriu o sorriso e estalou os dedos: -- e do abridor também!

A loira abriu a garrafa de vinho tão logo pegou o abridor em mãos, deixou a bebida respirar um pouco, o aroma frutado invadindo o ambiente, era um vinho bordô, doce, com notas de framboesa, tranquilo para se tomar a noite, sem chances de uma ressaca terrível pela manhã. Serviu os dois copos, sem maiores problemas e aproximou do amigo em sinal para que brindasse: -- Trate o nosso encontro como uma festa, e não como uma despedida, o que passou, já foi, eu não estava lá, então não faz diferença pra mim, mas eu estou aqui agora, e podemos ter conversas agradáveis, rir de coisas idiotas e comer boa comida, eu acho uma perspectiva muito melhor! não concorda?

Brindou, e bebericou do vinho, da mesma forma despreocupada de sempre, como se nada fosse capaz de abalar aquela tranquilidade e seu jeito maroto de ser. A loira deu alguma atenção a massa, agora que a água já estava fervendo, despejando o pacote inteiro, e mexendo um pouco para que não ficasse tudo liguento no final. Muito embora por não estar acostumada a cozinhar para tanta gente, no mecher de garfo, acabou derramando um pouco fora da panela e sujando o fogão. a loira estendeu a língua para fora, como se fosse uma criança que tivesse acabado de aprontar uma arte:

-- Juro que não é culpa do vinho, eu limpo tudo no final! Hehe!

George

Voltou sua atenção para a loira, ainda quieto, quando ela aceitou suas desculpas e pareceu voltar ao bom humor costumeiro. Estranhou o comportamento da mulher, mas não deixou de brindar com ela, contente que ao menos ela não parecia chateada com a situação. Contudo, baixou o olhar para a bebida no copo, ignorando a sujeira que Lilú havia feito enquanto ele próprio cortava os legumes e os colocava para cozinhar em outra panela no fogão.

- Parece que não mudou quase nada. - comentou sobre sua perspectiva da loira, pois ainda lembrava dela daquela mesma forma despojada e animada. - O que fez esse tempo todo? - perguntou na esperança que a vida tivesse sido mais generosa com ela do que fora consigo. Não havia aliança nas mãos da mulher. Ainda podia se recordar dos dias em que a deixou de encontrá-la. Apesar da culpa, na época, era mais importante para si mesmo permanecer ao lado de sua então namorada. Mal sabia o quanto se arrependeria por todas as pessoas que havia afastado por não saber como se impôr naquele relacionamento.

Pegou algumas laranjas em uma cesta próxima da janela da cozinha para fazer um suco para os meninos enquanto aguardava alguma resposta de Lilú. Podia ouvir os filhos saindo do banheiro e Samuel gritando para que Mikhael não corresse sem roupa até o quarto porque tinham visita.

- Também teve filhos? - perguntou despretensiosamente para a amiga de longa data, considerando que ela parecia se dar bem com os meninos. Na verdade, não se recordava dela tendo problema com crianças pequenas, as dores de cabeça eram sempre com pessoas mais velhas.

Lilú

Apesar da bagunça que estava fazendo na cozinha do outro, não se sentia de fato culpada, era o tipo de coisa que acontecia em cozinhas não era? Afinal fazer bagunça com amigos era o tipo de coisa que não se dava ao luxo de fazer com certeza frequência, mas era sempre muito bom quando tinha oportunidade para tal.

Deu espaço próximo ao fogão, de entretendo com seu copo de vinho, e principalmente dando espaço para que George pudesse manusear a panela com os legumes sem problemas. Até que veio a pergunta de praxe, do que a loira tinha feito durante todos esses anos. A loira deu uma espiada no líquido rubro dentro do copo, e sorriu, um pouco diferente, mas era quase imperceptível a diferença de quando estava sorrindo por estar feliz, e quando estava falando de assuntos sérios com um sorriso no rosto:

-- 16 anos é um espaço longo de tempo pra cobrir em um comentário só. -- comentou lembrando ao amigo o quanto de tempo estavam sem se falar adequadamente: -- comecei a trabalhar no que eu faço com 16 anos, e estou nisso até hoje. Administro uma casa noturna e faço uns serviços por fora, pra ganhar uma renda extra. Pago meus boletos todo mês como se espera de uma verdadeira cidadã francesa.

Riu, mas sem se levar a sério demais, se George tinha qualquer noção do que fazia da vida, não ia querer falar sobre o assunto na frente dos filhos. Se não tinha, bem, não tinha como explicar metade do tempo de sua vida em um jantar mesmo. Deu de ombros mexendo a massa do macarrão para que ele não ficasse muito grudado, e logo veio uma pergunta sobre filhos, no que a loira teve de rir mais descontraída, certamente o amigo de longa data “não fazia ideia de com o quê trabalhava” se não ele não lhe faria aquela pergunta:

-- Não George, gente na minha profissão não tem filhos, ou um lar assim como o seu. Até acontece de eventualmente surgirem crianças, mas não é porque a gente esperava, sabe? -- manteve o tom de brincadeira, e imaginava que se o amigo continuasse lento como era talvez ele não percebesse, ou talvez já tivesse dado dicas o suficiente, não tinha problema de falar sobre o que fazia, mas não era o tipo de coisa que bons adultos queriam conversar na frente de suas crianças: -- podemos falar com mais detalhes depois que seus filhos forem dormir se quiser, claro. Por mim podemos passar metade da noite lembrando de feitos ridículos da sua adolescência e deixando seus filhos apar de como vc era meio lento pra entender as coisas desde sempre.

A loira manteve o ar zombeteiro, enquanto bebericava mais um pouco de seu vinho. Certamente não dava pra saber se Lilú estava falando sério ou não.

George

Estava pronto para espremer as laranjas e coar o caldo para o suco quando ouviu a resposta sobre a amiga de longa data ser dona de uma casa noturna. Fez uma pausa, voltando-se para a loira, surpreso e, de certo modo, chocado. Chocado sim, pelo modo como aquela profissão da loira não era algo tão surpreendente, devido aos comentários que ouvira de sua falecida esposa, de colegas na época de escola, todos sobre a garota que um dia defendeu tanto. Baixou o olhar, triste. O que de fato lhe confundia era o sentimento de que a mulher não parecia ter vergonha do próprio trabalho ou estar infeliz. Como ela mesma havia colocado, 16 anos era muito tempo para colocar em um comentário. Respirou fundo, voltando a espremer as laranjas, ciente de que, independente da profissão da mulher, ele não tinha nenhum direito de julgá-la pelo que fazia, ainda que aquele tipo de papel fosse justamente o que sua falecida esposa lhe incitaria a ter.

- Meus filhos são bem diferentes de mim, mais espertos. - respondeu, ciente de que Samuel e Mikhael eram seus preciosos meninos e que não imaginava que eles fossem crescer e se tornar adultos como ele. Esperava que ao menos eles tivessem mais sucesso.

Tão breve comentou sobre as crianças, Samuel apareceu na cozinha, segurando Mikhael pela mão, indicando que o menor se sentasse na mesa de jantar com o caderninho, mas o menino correu para as longas pernas da mulher loira, agarrando-a pelo joelho.

- Tia Lu! Ajuda com a tarefinha? - pediu a criança. Samuel apenas suspirou resignado e franziu o cenho de leve com o comportamento infantil, se sentado à mesa, vestindo uma bermuda e uma camiseta velhos com um ursinho na frente. A criança colocou sobre a mesa seu próprio dever de casa e começou a resolver os problemas sozinho a priori.

- Mikhael ainda é muito pequeno. Por que não mostra primeiro o que aprendeu hoje? - sugeriu George, terminando de preparar o suco para colocar a jarra na geladeira e terminar de cuidar dos legumes cozidos no vapor. Retirou da geladeira um frango do almoço para desfiar e picar, decidindo focar a atenção nas crianças e deixar a conversa de adultos para depois.

- Hoje eu aprendi a família do D e a família do B, tia Lu! - disse Mikhael, pegando o próprio caderno cheio de algumas folhas meio amassadas no meio para colocar a peça sobre a mesa da cozinha, apontando onde haviam alguns garranchos e tentativas de fazer algumas palavras com os novos fonemas.

Lilú

Imaginava que de alguma forma falar sobre o seu trabalho deixaria George desgostoso. Também não esperava que todo mundo aceitasse com um sorriso no rosto o que fazia, mas lhe incomodou um pouco a cara de enterro que o amigo de longa data pôs no rosto, ainda bem que os menores chegaram na sala e podia mudar de assunto momentâneamente.

A loira abaixou o fogo do macarrão do seu lado, para dar atenção a criança em seus pés. Levou a mão aos fios do menor, fazendo uma bagunça na cabeleira da criança:

-- eu nunca fui de fazer tarefas antes do jantar. Mas posso abrir uma exceção hoje. George fique de olho no macarrão então. -- a mulher caminhou até a mesa e sentou-se puxando o garoto menor para o próprio colo, dando uma olhada no que ele tinha rabiscado: -- sabe, esses rabiscos me lembram quando eu e o pai de vocês estudávamos na mesma sala.

Fez uma breve pausa botando um sorriso de mostrar os dentes com a recordação, na mesma medida que ia guiando a mão do Mikhail pés que ele fizesse o contorno das letras da tarefa pra que ele pegasse o jeito: -- era meu primeiro ano em Cerise eu tinha acabado de me mudar, e tinha de fazer um trabalho em dupla com o George. Passamos horas tentando fazer um cartaz bonito, seu pai sempre foi inteligente mas nunca teve muito jeito nem pra desenhar nem pra apresentar os trabalhos.

Lilú deixou que o menor tentasse fazer as letras sozinhos e espiou por cima o que Samuel estava fazendo. Erguendo o polegar em sinal positivos por ele está fazendo a tarefa direitinho: -- então, quando chegou o dia da nossa apresentação, o George não queria falar, nem lembro direito o que a gente tava explicando, acho que era a história do Marco zero da cidade ou era do rio? Você lembra? Enfim… daí eu disse a ele: “se vc não vai falar então segure o cartaz enquanto eu falo!” Ele acenou positivo e fomos lá.

A loira começou a desatar em risos enquanto chegava na parte mais engraçada da recordação e pegou uma folha solta da tarefa dos meninos para substituir o cartaz do trabalho: -- então lá estava o George morto de vergonha, e eu disse: “abre o cartaz George!” Ele abre e a folha está de cabeça para baixo, eu dou um toque nele com.o cotovelo e falo baixinho: “tá de cabeça pra baixo!” Ele virá o cartaz e se esconde atrás! Foi muito engraçado!!!!

Conforme a loira ia encenando as coisas que aconteceram naquele dia, ia rindo cada vez mais, esperava ao menos tirar algumas risadas das crianças. Ou pelo menos no mínimo, tirar o ar de enterro que o amigo de longa data carregava constantemente nas costas. Aquela casa precisava de um ar mais leve urgentemente.
George

Mikhael ficou animado em poder sentar no colo da mulher que segurava sua mãozinha para lhe mostrar como escrever. George não pareceu ter problemas em ficar de olho no macarrão enquanto preparava o frango desfiado para acompanhar a massa e os legumes. Estava prestando atenção nas crianças e em Lilú também e quase deixou a tampa da panela cair no fogão com a menção dela ao seu passado infantil. Samuel, por sua vez, parecia interessado na narrativa da loira a ponto de parar de olhar para sua tarefinha de casa e prestar atenção na história de seu pai.

Samuel corou com a reação positiva da mulher, aprovando seu cuidado com a atividade de casa. Mikhael, por sua vez, havia parado de tentar escrever para erguer a cabeça e observar a loira, interessado em como ela falava sobre seu pai. Mikhael tinha risada fácil e não demorou a rir com a loira, acompanhando-a na divertida lembrança de seu pai se escondendo atrás de um pedaço de papel. Samuel sorriu, desviando o olhar até baixar a cabeça, fingindo se concentrar na tarefa de casa.

- Eu ainda tenho as coisas da época que estudávamos juntos. - admitiu o pai dos meninos, arrumando parte da mesa para colocar os quatro pratos, copos e talheres para o jantar. Mikhael ainda parecia se divertir com as risadas da mulher enquanto que Samuel evitava encarar Lilú justamente por não querer dar o braço a torcer sobre a graça com o cenário do próprio pai sem tato algum para falar em público.

George tratou de dar atenção ao macarrão e ao frango, usando um pouco de molho de tomate e queijo ralado para terminar de preparar a massa que havia ficado um pouco grudenta pelo tempo na panela.

- Não tem problema. Eu ajudo vocês com a tarefa antes de irem para a escola. - disse George que parecia preocupado com a atenção de Samuel ao próprio caderno. Mikhael sequer parecia se preocupar mais com as letras, interessado em procurar pelo cabelo de Lilú para segurar entre suas mãozinhas. - Desculpe. Não recebo muitas visitas em casa.

Pediu a velha amiga de infância pelo comportamento do filho caçula enquanto que Samuel separava os cadernos e material da escola para ser deixado de lado na sala de estar.

Lilú

Claro que imaginava que depois que começasse a contar histórias do passado as duas crianças iam perder o foco das tarefas de casa. Mas não se importava muito, eles teriam outros dias para ficar encarando as folhas pautadas de caderno na chatice do dia-a-dia, era a visita, a pessoa que era diferente no cotidiano da casa morna, podia ao menos trazer alguns sorrisos ao ambiente. Estava grata que de todos ali, o pequeno Mikhail era o de sorriso mais fácil, e lhe acompanhava nas risadas altas sobre as vergonhas do passado de seu pai. Samuel era um “mine” George, logo segurava o riso pra parecer muito adulto tentando se concentrar no seu caderno, mas ele era o irmão mais velho, devia estar tentando passar a aparência de sério e sóbrio, mal percebia que seu pequeno irmão, não estava muito interessado em ser “sério e sóbrio” ainda.

Ficou surpresa pelo fato do amigo de longa data ainda guardar atividades do tempo de escola: -- George pelo amor de deus, joga essas coisas fora, só deve está juntando poeira! -- riu sem se levar a sério, deixando que Mikhail brincasse com seus cabelos descoloridos sem se importar muito. Apenas quando o maior começou a por os pratos na mesa, a loira botou o menor no chão: -- vá ajudar seu irmão a guardar os cadernos e as tarefas, lave as mãos e venha para mesa depois, entendeu? -- bagunçou o cabelo do menor e se levantou para ajudar a terminar de por a mesa:

-- notei que essa mania de querer fazer tudo sozinho ainda persiste, e não é de agora não viu! -- cutucou a cintura do amigo, como faria em outros momentos quando ele tentava se esconder entre os braços finos quando estava envergonhado. Terminou de por os copos e talheres a mesa, levando a jarra de suco, e a garrafa de vinho, e deixando os suportes para as panelas de comida, para que ninguém tivesse de se levantar de volta para a cozinha:

-- Ah, macarrão me traz boas recordações também, sabe, eu trabalhei em muitas coisas durante a adolescência, um dos meus primeiros empregos foi em uma lanchonete de almoços. -- a loira observou George, já pra ver que tipo de reação ele ia ter, porque imaginava que ele soubesse de qual história estava falando: -- o pai de vocês sempre foi muito enrolado pra conseguir falar o que pensava, e as vezes quando ele era pego de surpresa ele tinha reações engraçadas, uma vez ele estava almoçando no lugar onde eu trabalhava, e o especial do dia era macarrão com anchovas, prato de terça se eu não estou enganada…! -- a loira observou as crianças que voltavam depois de guardarem suas coisas e lavarem as mãos para finalmente se sentarem a mesa: -- então, ele estava sentado como você samuel, de costas para porta, então ele não tinha como ver quem entrava ou não na lanchonete, ele tinha acabado de dar uma boa garfada no macarrão, quando o sino da porta tocou avisando que alguém tinha entrado, e claro, como eu estava em pé como estou agora, de frente pra porta eu vi primeiro que ele quem tinha entrado, e acenei e falei: “olha quem chegou!” George nem sabia ainda quem era, mas se engasgou a ponto do macarrão sair pelo nariz dele! Consegue imaginar?

A loira desatou a rir a ponto de quase chorar de tanto gargalhar, e teve de abanar o próprio rosto para retomar o fôlego, levando o indicador para enxugar o canto do olho da lágrima que não desceu: -- o mais engraçado é que eram apenas colegas de classe da escola, eles acharam que George estava passando mal quando o viram inclinado, tossindo e se engasgando, só eu vi a cena mágica de como um macarrão pode sair pelo nariz de alguém!

Poderia passar a noite toda lembrando de coisas engraçadas do passado, se conseguisse fazer George gargalhar seria uma vitória para vida. Mas se contentava em divertir as crianças e ouvir a risada gostosa de Mikhail que tinha o senso de humor de um ser humano normal, o pequeno era puro por nós todos.

George

Sorriu discreto diante do comentário de Lilú sobre jogar aquilo fora. Juntava muita coisa de quando ainda era uma criança ou um adolescente. Era bastante apegado aos seus pertences, talvez fosse justamente por todo o trabalho pelo qual teve de passar para consegui-los. Agradeceu pela ajuda da loira com um aceno positivo enquanto Mikhael era o primeiro a obedecê-la, sorrindo animado com o afago em sua cabeça. George baixou o olhar para a mão que lhe cutucava, pressionando os lábios como se quisesse negar que fazia muito sozinho, mas ela estava certa.

Samuel também seguiu com Mikhael, terminando de arrumar as coisas na sala para poder segurar a mão do irmão e levá-lo para lavar as mãos antes de comerem. Contudo, assim que a loira começou com a história sobre o macarrão, Samuel ergueu o olhar, preso a história de quando seu pai era ainda jovem. Enquanto Samuel observava a mulher, interessado na história ao ser usado como exemplo de posição, George suspirava conformado com a lembrança vergonhosa que possuía daquela cena, servindo as porções de Mikhael para que ele pudesse comer principalmente os legumes e não só a massa e o queijo.

- Pff-- Samuel baixou o olhar, segurando o riso de novo até desviar o olhar, rindo baixo com a cena. Não era necessário virar-se para Mikhael para constatar que ele próprio havia caído na risada de novo, imitando a mulher loira que fazia questão de recordar dos feitos do pai de ambos.

- Na época, eu achei que era alguém importante e você fala como se não falasse de propósito para me assustar, Lilú. - comentou George, destacando a parte proposital da loira, mas ainda assim mantendo o sorriso mais descontraído no rosto com a boa lembrança. - Você sempre me assustava de graça.

Mikhael pegou o talher e tentou separar um fio de macarrão com a colher, logo estendendo a peça para o pai, curioso. A cena foi o bastante para que George desse uma risada, breve, mas gostosa, diante da cena do filho tentando lhe entregar o fio de macarrão.

- Haha! Não Mikhael! Eu não vou engasgar de novo com macarrão! O papai é um adulto já, não sabe? - riu enquanto Samuel servia o próprio suco e olhava curioso para a bebida no copo dos adultos.

- O que é isso, pai? - a criança apontou para os copos com as bebidas diferentes, logo diminuindo a risada do pai que logo tratou de olhar para Lilú antes de responder.

- É vinho, Samuel. É uma bebida de adultos. - sorriu mais tranquilo, explicando para o filho que logo franziu o cenho com a resposta, entendo que aquilo significava que não podia experimentar do conteúdo do copo.

- Pensei que só cerveja fosse bebida de adulto. - disse Samuel, comendo boa parte do macarrão enquanto deixava o frango e os legumes por último. - E ela pode beber também? - questionou de novo, olhando para a visita. - Nenhuma das tias da escolinha bebe isso. Nem a tia Fleur.
George respirou fundo, olhando rapidamente para Lilú, sorrindo discreto diante do comportamento do próprio filho.

- Você só vê as suas professoras e a tia Fleur no trabalho, Samuel. A gente não pode beber no trabalho, meu filho. E não é bom beber sempre. Estamos bebendo vinho porque faz muito tempo que não nos vemos. E somos adultos. - explicou, tentando minimizar a irritabilidade do filho mais velho que parecia já se achar adulto o bastante para fazer qualquer coisa.

Lilú

Claramente a loira tinha um gosto peculiar por provocar o amigo de longa data, em verdade, George sempre foi facilmente provocável: ficava vermelho com facilidade, se engasgava, e fazia expressões de genuína surpresa. Claro que não era fácil tirar reações exageradas do amigo, ele sempre tinha aquele ar pleno e tranquilo de quem estava sempre muito calmo, ou com a mente em outro mundo de minissaias escolares. Mas Lilú se esforçava para tirar alguma vida das reações do moreno mais velho, e estava pessoalmente orgulhosa, por conseguir tirar alguns risinhos da versão mini George, que era o pequeno Samuel:

-- Eu? Nunca! Calúnia e difamação! -- a loira apontou o talher na direção do mais velho, falando com ares de ironia, enquanto sustentava um riso fácil no rosto: -- a questão é que você “morria de peru”, o que quer dizer crianças, que seu pai sempre ficava muito surpreso antes mesmo de saber do que se tratava as situações. Guardem essa expressão pra vida!

Mas definitivamente teve de rir quando o filho mais novo do amigo, decidiu que teria de ajudar o pai com o macarrão. Que comida perigosa era aquela massa com queijo, frango e legumes. Riu descontraída enquanto bebericava de seu vinho, sentindo muito pouco do álcool da bebida, já que estava pondo comida no estômago simultaneamente enquanto bebia. Ouviu o questionamento de Samuel, e alguma coisa lhe incomodava no jeito daquela criança de falar, talvez fosse por ele agir muito como uma miniatura de adulto e pouco como uma criança, ou talvez fosse algo mais:

-- Mulheres também podem bebe Samuel, e existem um monte de bebidas de adulto, não só cerveja e vinho. Assim como, existem um monte de tipos de suco de caixinhas para crianças, refrigerantes, sodas, achocolatados e todas essas coisas que estragam os dentes e o estômago mas tem um gosto bom! -- Sorriu enquanto explicava as coisas a seu jeito para os menores:

-- Mas bem, como tudo na vida, tem tempo para as coisas, você tem de aproveitar enquanto é pequeno e as pessoas não te julgam por você falar coisas bobas ou não saber como as coisas funcionam. Depois que você fica adulto, todo mundo espera que você sempre saiba o que está fazendo e que nunca erre, além de ter boletos pra pagar, essa é a pior parte -- A loira deu duas garfadas no macarrão, apreciando a massa e aquela conversa sobre crianças ingerindo álcool lhe trouxe várias recordações, principalmente com a citação do nome de Fleur:
-- Sabe, eu conheço a Fleur também, cuidei do Arman, o filho enorme dela…-- a mulher gesticulou com a mão, tentando imitar a altura que o jovem Arman tinha atualmente, e em seguida desceu a mão, para o topo da cabeça de Mikhail: -- quando ele era só um pouco mais alto que o seu irmão, e a Carbella tinha o seu tamanho Samuel! -- a loira começou exemplificando as alturas e as idades para mostrar como isso fazia tempo, já que as duas pessoas comentadas eram adultos agora:

-- Certa vez estávamos os três cozinhando: eu, Arman e Carbella, fazendo bombons recheados, porque queríamos fazer uma surpresa para Fleur, ideia da ruivinha com certeza. Eu estava cuidando de mexer na parte que envolvia o fogão e derreter o chocolate em banho maria, porque eu não ia deixar as crianças mexerem no fogão. Carbella estava escolhendo a forma para os bombons, e eu tinha deixado Arman mexendo a massa do Recheio. -- a loira fez uma pausa balançando o copo de vidro com vinho, enquanto ria sozinha da recordação: -- então, eu pedi pra Arman ir buscar licor de chocolate, sendo que ele não sabia ler direito ainda, e pegou um licor de adulto, com álcool. E colocou uma garrafa inteira na massa de recheio.

A loira fez uma pausa para beber o conteúdo do copo e depois repousa-lo de volta a mesa para então encarar os dois menores:

-- O corpo dos dois ainda eram muito pequenos, e quando eles comeram os bombons, Carbella ficou falando estranho e Arman ficou ainda mais calado, os dois tiveram uma baita dor de barriga e eu levei uma bronca da Fleur. Corpos pequenos não ficam bem com o álcool, isso porque naquele dia estava misturado com chocolate, o álcool puro, como eu e o seu pai tomamos aqui, é algo que só aguentamos tomar porque nossos corpos são grandes, e mesmo assim não podemos exagerar. Entendeu?

George

Samuel prestou atenção na narrativa da mulher mais velha enquanto Mikhael apreciava a história e o afago que recebia. Mikhael estava ocupado tentando comer os legumes depois de algumas garfadas no macarrão. O filho mais velho de George parecia intrigado com a história da loira, principalmente quando ela comentou sobre pessoas que conhecia. Até o semblante aliviou de uma criança que estava chateada porque estava sendo privada de fazer algo pelo que tinha curiosidade.

- A senhora conhece a irmã da Clementine? Elas tem uma cor de cabelo esquisito. A Clementine é chata comigo às vezes. E a Kanon também. - Samuel relatou, o semblante voltando a parecer irritadiço pela lembrança das meninas na escolinha.

George respirou fundo, estendendo o guardanapos sobre a mesa para limpar o queixo de Mikhael pela baba enquanto o menor se esforçava para mastigar o frango e os legumes juntos. O pai de Samuel já sabia muito bem onde iria dar aquela conversa. Samuel era teimoso quando brincava com os amiguinhos na escola, pois sempre queria que os outros brincassem do que ele queria. E no que dizia respeito às meninas, podia dizer que Kanon era bem especial pelo pai da criança gostar de brincar de golpes de luta com a mocinha.
- Tia, a senhora sabe fazer docinhos, então? A tia Fleur trabalha muito, eu não acho que ela me mostra como fazer docinhos. É muito difícil? - perguntou, animado com a ideia de poder fazer algo na cozinha que não fosse ajudar o pai com as refeições diárias. - A Clementine já sabe cozinhar, sabia? E ela é muito pequena ainda. Menor que eu. Não é justo.

George tomou o vinho em seu copo, deixando o recipiente vazio sobre a mesa antes de olhar para Lilú, esboçando um sorriso discreto de quem estava apresentando a própria família para a amiga de longa data, deixando-a ciente de como seus filhos se comportavam. Não julgava que nenhum deles tivesse sérios problemas de comportamento, Samuel era um menino teimoso, cabeça dura, às vezes birrento, mas nada além do normal; e Mikhael era pequeno e inocente, sempre risonho e animado para qualquer bobagem do dia.

- Beba o suco, filho. - aconselhou o pequeno enquanto ele parecia brincar com a colher e o restante dos fios de macarrão no prato plástico com desenhos de animaizinhos. - Quem sabe se você comer bem fica tão grande quanto o filho da tia Fleur, Samuel? - sugeriu George, apoiando o cotovelo na mesa e o queixo sobre a mão enquanto sorria mais compreensivo para o filho mais velho.

- Não, pai. - disse Samuel, sério, cruzando os braços logo em seguida. - Eu já sei o que faz as coisas crescerem. É fermento. Eu vi a tia da escolinha conversando com a tia da outra turma sobre um bolo de aniversário que ela ia fazer pra filha dela. E a tia Fleur tem um monte disso lá na padaria. Ela devia colocar aquilo na comida do filho dela, por isso ele ficou tão grande. - o menino explicou, causando uma expressão de surpresa no próprio pai que logo em seguida segurou o riso, impressionado com a imaginação de Samuel e ao mesmo tempo preocupado com a capacidade dele de ouvir as conversas alheias.

Lilú

A loira agora aproveitava que George estava conversando com os filhos e Samuel tinha começado a tagarelar para se servir de seu macarrão antes que esfriasse. George não era um chefe de cozinha e estava bem longe disso, mas tinha aquele gostinho de comida caseira, do qual não podia saborear com frequência dada a sua vida, e principalmente pela preguiça e falta de disposição. Não entendeu exatamente qual a parte de ter cuidado de Carbella ele não tinha entendido, e nem conhecia a irmã mais nova da garota para saber se ela era chata ou não, mas se tivesse puxado 20 centavos da personalidade da irmã quando mais nova, e os outros 80 centavos da personalidade de Fleur, podia entender porque Samuel não gostava dela. A menina devia ter mais atitude do que ele está acostumado a ver em qualquer garota ou menina que conheça.

Mas a Loira acabou soltando uma risada mais alta do que gostaria quando o menor disse que Arman tinha comido fermento para crescer tanto, naquele ponto até fazia sentido, e teve de rir mais abertamente, mas não a ponto de macarrão sair por seu nariz, não tinha o talento de George pra esse tipo de façanha:

-- Então basta mergulhar você num saco enorme de fermento! Não é Mikhail?-- Lilú riu sem se levar a sério, levantando os braços e gesticulando na direção do menor, para que ele lhe acompanhasse nas risadas. Em seguida deixou os talheres de lado, já com a porção de macarrão no fim e voltou a bebericar de seu vinho: -- Então Samuel deixa eu te contar uma coisa, não é porque eu sou mulher que eu sei cozinhar, longe disse, sou uma negação, certamente eu queimaria o macarrão, e jantaria miojo por preguiça de tentar fazer algo melhor. Logo eu não faço ideia de como se faz qualquer um dos doces que tem na Antique, gosto muito deles, mas não saberia fazer nem o mais simples.

A loira deu de ombros, não tinha vergonha alguma de explicar aqueles pontos, e se depois George quisesse lhe repreender por comentar essas coisas sobre obrigatoriedade da mulher e do homem, faria questão de ressaltar para o amigo de longa data, que ele tinha um pézinho bem machista ali. Não daria pitacos obviamente na criação de um filho que não era dela, mas também não iria negar algo que estava bem claro a seus olhos:

-- E sim, respondendo sua pergunta anterior, eu conheço a Carbella de muito tempo, mas não conheço direito a Clementine, lembro dela bem mais nova, quando era uma criança de colo. -- Ponderou que seria bom fazer alguma visita qualquer dia desses para trocar conversa com a ruiva cereja e atestar se Clementine era esse pequeno demônio ruivo que Samuel estava pintando: -- e bem, se ela já sabe cozinhar sendo tão nova, é porque ela deve ter treinado e praticado pra isso, quantas horas do seu dia, você dedica a aprender a cozinhar? -- a loira questionou o mais novo como se aquela pergunta o ajudasse a pensar melhor sobre a situação:

-- As vezes a gente quer coisas que nem sempre a gente dedica tempo pra conseguir. -- a loira mudou de posição na cadeira, como se fosse falar mais sério agora: -- por exemplo, seu pai trabalha um bocado, sempre trabalhou um monte, e ele sempre teve essa cara de quem está com sono por trabalhar demais. As pessoas se perguntam porque o George parece saber resolver qualquer problema, desde: canos, paredes, energia, gatos perdidos a pessoas perdidas, mas isso é porque ele sempre trabalhou! E nunca foi de deixar de fazer algum serviço porque não gostava ou porque era feio, ou pagava pouco, daí, por ter treinado desde sempre, ele é bom em muita coisa. É simples não é?

George

Ficou mais tranquilo também em observar que a amiga de longa data estava se servindo de macarrão. Apesar das provocações, gostava de estar com seus amigos comendo e bebendo. Aquele cenário mais familiar lhe deixava com a sensação confortável de que realmente estava em seu lar. Contudo, olhou para a loira assim que ela fez questão de pontuar sobre como era uma mulher e nem por isso precisava saber cozinhar bem. De fato, não se recordava de Lilú sendo a melhor das cozinheiras, pelo contrário, lembrava dela já ter trabalhado em alguns fast foods na cidade. Nunca havia tido aquele tipo de oportunidade, porque os gerentes sempre lhe achavam lerdo e não carismático para atender os clientes. Imaginava que alguém como ela que havia trabalhado bastante com frituras e aquelas besteiras ao próprio redor poderia ter paciência de cozinhar quando chegava em casa.
As risadas que encheram a cozinha com o comentário do filho mais velho lhe fizeram sorrir e até rir um pouco também. Não tinha como negar que a risada de sua velha amiga tinha aquele poder contagiante. E tal como ela, Mikhael parecia empolgado em gargalhar. E tão pronto ele caiu na gargalhada, soltou um pequeno arroto e pareceu surpreso ao fazê-lo, antes de cair no riso de novo, animado com a presença da mulher de sorriso amplo. Samuel, por outro lado, parecia emburrado com a ideia de que cozinhar bem era algo pelo qual ele tinha culpa por não se dedicar direito.

- Mas eu quero cozinhar! Mas o pai não deixa! Ele diz que é perigoso o fogo! - Samuel acusou, apontando para George que apenas suspirou.

- Você é muito pequeno ainda, Samuel. O fogo e as facas na cozinha são perigosos para crianças. Você não pode cozinhar sem um adulto por perto. - George explicou, tranquilo como de costume.

- Mas você nunca tem tempo para a gente cozinhar junto! A Clementine tem a tia Fleur e a irmã dela! Não é justo! - Samuel continuou irritadiço ainda pelo sentimento de ter sido acusado pela amiga de seu pai como alguém que não se esforçava o bastante para aprender a cozinhar. George, por sua vez, encarou o garoto, sem saber ao certo o que dizer para o filho na frente de Lilú. De fato, não tinha muito tempo livre com os filhos e, quando tinha, estava sempre cansado pelo trabalho durante a semana. - Se a minha mãe estivesse aqui, ela ia me ensinar!

- Chega, Samuel!

A paciência que possuía com os próprios filhos era imensa a julgar os anos que havia tido de experiência em criá-los na maior parte do tempo sozinho. Contudo, havia um limite para as birras que conseguia ouvir, principalmente do filho mais velho. O garoto não era mais tão pequeno como Mikhael e ele sabia muito bem como havia sido sua relação com a mãe dele, e como fora a perda da mulher para ambos. Tratar do assunto de uma forma leviana, principalmente trazendo aquilo a tona quando recebiam a visita de uma amiga com quem não falava há muito tempo, lhe deixava irritado.

Samuel, por sua vez, ao encarar o semblante do próprio pai, não parecia recuar, franzindo o cenho de volta para o mais velho, ainda, porém, sem respondê-lo. George não precisou falar mais nada para que o menino mais velho afastasse a própria cadeira de forma grosseira, corado pela bronca e emburrado. O garoto se afastou para sair da mesa e seguir para o corredor que levava aos quartos. Mikhael observava tudo com ar confuso e tão pronto o irmão deixou a mesa, ele ergueu o bracinho com a colher de plástico, como se chamasse o outro para ficar ali com ele.

- Sam… - chamou, só então se dando conta de que ele não voltava, os olhos do pequeno se encheram de água ao ponto dele começar a chorar, mesmo sem entender o motivo pelo clima da situação ter se tornado tão pesado. George respirou fundo de novo, levantando-se da cadeira para pegar o filho menor nos braços, tentando tranquiliza-lo.

- Desculpe por isso. - pediu a Lilú, ciente de que ela não precisava passar por toda aquela situação de drama doméstico em sua família. Era comum ter discussões com Samuel pelo gênio forte do menino, mas ainda não havia aprendido a tolerar quando ele falava sobre a mãe, principalmente quando estavam com outras pessoas. De fato, conversas sobre a mãe dos meninos não era algo constante de acontecer.

Lilú

Aparentemente George ainda tinha alguns problemas de adolescência que tinha trazido para a vida adulta: dificuldades de conversa. Sabia que o amigo era introvertido, e tinha certa dificuldade de se expressar a ponto de que precisava ir tirando dele as informações a medida que iam conversando. Mas ele sempre tivera uma personalidade tranquila, então podia ir tirando aquelas travas uma a uma a depender do assunto que estavam abordando. No entanto, podia notar que o filho mais velho de seu amigo tinha herdado um gênio um pouco mais forte, ou talvez fosse apenas birra infantil, não era ninguém pra julgar mas sabia, que aquele quadro só iria ficar mais complicado, se ele tentasse resolver tudo no grito ou apenas deixando em “silêncio”. Não era de se meter, e nem queria, não estava em posição e nem gostaria que fizessem isso consigo se estivesse do outro lado da situação, então prestaria sua ajuda na medida do possível:

-- Não se incomode com isso George, a comida está ótima, e eu estou bem satisfeita, acredito que Mikhail também já comeu o suficiente, não é? Quer me ajudar a tirar a mesa e lavar alguns pratos? Já que seu pai cozinhou nada mais justo que eu lave! -- comentou com tom sereno, chamando a atenção do menor que tinha absorvido a tensão da situação, tentando passar o aspecto de que não tinha nada de errado acontecendo para que ele precisasse chorar: -- Vem cá! -- estendeu os braços para o menor, e observou o amigo de longa data com seus olhos castanhos, e depois encarou o corredor que dava para os quartos, como se indicasse que ele tinha outro trabalho mais importante do que acalmar o menor.

Ergueu o menino menor acima da própria cabeça como se isso fosse animá-lo, e lançou-lhe uma piscadela com um sorriso maroto: -- pronto, passou! Agora vamos limpar a cozinha! Pra dar uma ajuda ao George, certo? -- confirmou com o menor, e depois o colocou no chão, indicou a ele que jogasse o restante da comida dos pratos no lixo, acompanhou o pequeno em cada coisa, para que ele não se machucasse ou não derrubasse nenhum prato. Levou as panelas mais pesadas de volta ao fogão, já que ele não tinha como fazer aquele serviço.

Depois puxou uma cadeira, colocou a criança em pé sobre ela, deu-lhe um pano de prato e deixou que ele participasse da limpeza enxugando as coisas que se caíssem não quebrariam: -- ah! não dá pra lavar pratos sem uma boa música! -- puxou o celular e deixou rodar músicas de sua playlist, coisas que com certeza tocariam na rádio, e sabia que o som da música abafaria qualquer comentário dito em tom mais alto por George caso ele brigasse com Samuel, e não assustaria Mikhail novamente.

Manteve-se distraindo o filho mais novo do amigo, já que ele sendo tão pequeno ainda não tinha como entender aquela situação completamente. Então quanto menos importante se tornasse aquela sensação de desconforto e medo, menos isso o afetaria no futuro. Bem sabia como brigas em casa afetavam pessoas, podia não ter filhos de sangue, mas tinha muitas pessoas sob sua responsabilidade, todos um pouco quebrados e remendados de lares assim, tão comuns, mas com alguma instabilidade que marcava pra vida toda.
#3
George

Apesar do clima ter ficado tenso devido a sua falta de capacidade em lidar com o comportamento do próprio filho, George se viu auxiliado pela amiga de longa data que parecia entender que Mikhael precisava de atenção para se acalmar enquanto pensava em como resolver o problema. Na verdade, sabia que aquele problema não era algo pontual como uma pequena birra de Samuel, aquele tipo de comportamento vindo do filho era recorrente de anos. E talvez nem fosse um problema no comportamento do menino, mas sim em sua falta de capacidade em lidar com o mesmo. Estava tão habituado a ser paciente e tranquilo com seus filhos, tentando sempre ser um bom pai diante das próprias atuais condições de vida, mas era difícil lidar principalmente com o comportamento de Samuel na maior parte dos casos. Não queria admitir, mas tinha receio de que, ao crescer, Mikhael também começasse a lhe responder ou a discutir sobre assuntos delicados como a falta que a mãe de ambos fazia ali.

- Pode guardar o que sobrar das panelas na geladeira, por favor? - foi só o que conseguiu pedir antes de se erguer. Mikhael, por sua vez, parecia responder muito bem a presença de Lilú. O pequeno foi diminuindo o choro assim que a mulher lhe ergueu nos braços, parecendo animada em brincar consigo. Talvez fosse um menino ainda muito pequeno, mas a ideia de poder ajudar a tia loira lhe alimentava a ideia de que estaria ajudando o próprio pai também.

Enquanto isso, o pai dos meninos seguiu para o quarto de Samuel e Mikhael para poder procurar pelo filho mais velho. Não sabia ao certo como dar início aquela conversa, nunca sabia na verdade, então apenas bateu na porta antes de entrar para encontrar o pequeno Samuel na própria cama, jogando o que estava ao seu alcance dentro da mochila.

- Samuel. - chamou o menino que lhe ignorou, continuando a jogar com violência alguns objetos como caderno, estojo, um boneco de aventura, borracha, na mochila da escola, irritadiço. - Samuel, me escute.

- Não quero! O senhor faz tudo sozinho! - brigou o menino, erguendo o tom de voz no que logo George voltou a franzir o cenho diante da reação exagerada do menino.

- Samuel, você sabe que eu deixo você fazer muita coisa sozinho também. - defendeu George, sentando-se na cama, a uma distância pequena do menor, agradecendo mentalmente o ruído de rádio que começava a vir da cozinha. - Olhe para mim, por favor.

- Não quero! Eu só queria cozinhar também e o senhor não deixa! - discutiu com o pai novamente ao ponto de George se aproximar para tirar a mochila da criança e segurá-lo pelas mãos. Foi necessário respirar fundo diante do exato momento que o filho começou a se debater, lutando para se livrar de suas mãos. Não era sequer necessário muita força para segurar a criança para que ele pudesse lhe encarar. Esperou primeiro que o menino se acalmasse ou, no caso de Samuel, cansasse de gritar consigo e de lutar para se livrar de seus braços.

- Samuel, eu só não quero que mexa com fogo ou facas sozinho. Isso é perigoso para crianças. Entendeu? Eu não quero que você fique bravo comigo por isso. Vamos cozinhar no final de semana então, eu fico com você já que quer tanto aprender. - ofereceu para o menor que logo tentava desviar o olhar, ofegante e ainda irritado.

- Mentira…! Não fica com a gente… o senhor sempre… trabalha! - disse o pequeno, lutando para segurar as lágrimas de frustração por não conseguir escapar daquele confronto. Talvez a imagem do filho fazendo birra lhe irritasse, mas lhe incomodava ainda mais a ideia de que não estava fazendo o bastante pelos meninos e aquilo se materializava nas acusações de Samuel por sua ausência devido ao trabalho. Por isso, não houve como evitar a aproximação do menino, soltando-lhe os braços com ele já cansado para poder finalmente lhe responder:

- Samuel, o papai trabalha muito para poder cuidar bem de vocês dois. Vamos cozinhar juntos se é isso que você quer aprender. Não tem problema. - cedeu ao menino, ciente de que muitas vezes era ausente por conta do trabalho. Samuel ergueu o olhar para sua figura como se buscasse sinceridade nelas e uma promessa de que realmente cumpriria sua palavra. O garoto terminou por concordar brevemente com a cabeça, mas não se aproximou de novo do pai, ainda parecendo incomodado com a situação.

George aceitou aquilo como se tivesse resolvido parcialmente a situação e acabou por se erguer da cama, fazendo menção de sair do quarto, mas sem antes observar o pequeno Samuel fazendo o mesmo para poder organizar, agora com menos raiva, os objetos na própria mochila. Deixou o quarto com um suspiro de conformação diante da própria falta de capacidade em lidar com o temperamento do filho mais velho. Seguiu para a cozinha a fim de verificar se estava tudo bem com o caçula, mas acabou surpreso com o que encontrou. Encarou a cena de Lilú dançando enquanto terminava de secar a louça ao som de uma balada popular francesa que estava tocando no rádio. Mikhael, por sua vez, estava rindo, divertindo-se com sua velha amiga de infância, dançando com os bracinhos de pé sobre uma das cadeiras da mesa de jantar, perto da pia. Parou no portal de acesso ao cômodo, boquiaberto com a cena. Era tão estranho ver uma cena como aquela em sua casa que não disse nada para não destruir o momento, apenas sorriu, levando a mão até a própria face para poder esconder a própria reação.

Lilú

A loira não estava preocupada com a conversa entre George e o filho mais velho, sabia por experiência que crianças podiam ser irritantes e teimosas, e também sabia por experiência que o amigo era péssimo pra lidar com conflitos, pelo visto os anos não tinham lhe dado mais tato com isso. Estava terminando de lavar a louça e enxugar e quando guardou o último pratinho de plástico de Mikhail, estendeu a mão para o menor esperando que ele batesse, para fazer um gesto de “ok” com o polegar:

-- Olhaí, nós fazemos um bom time! -- brincou afagando os cabelos da criança e bagunçando, e depois desceu o mesmo do banco alto para o chão: -- agora vá lá que eu acho que o seu pai também quer conversar com você! -- se abaixou sobre um dos joelhos para ficar na altura da criança: -- posso lhe dar um beijinho de boa noite? -- perguntou, apenas esperando a aprovação do menor, para só então apontar a própria bochecha dando permissão para o menor poder lhe dar um beijinho também.

Deixou que a criança se afastasse para ir ao encontro do pai, e então voltou a atenção para o fogão, guardando o restante das comidas em depósitos plásticos, na geladeira, para que não estragasse.

Em seguida pegou a garrafa de vinho e os copos de vidro que estavam tomando e levou para a sala junto com a tortinha que tinha comprado para a sobremesa, mas que ficaria para a sobremesa dos adultos. Não era exatamente o tipo de coisa que se harmonizava com vinho, mas talvez fosse exatamente o que o amigo de longa data precisava naquela noite amarga depois de brigas com o filho. Sentou-se confortavelmente no sofá simples, achando o aspecto da casa todo muito confortável, sem nada que chamasse demais a atenção, mas incrivelmente confortável, exatamente como o amigo era, simples, mas uma pessoa confortável de se lidar.

George

Observou o filho pequeno se aproximar após a despedida com Lilú e olhar para sua figura como se aguardasse uma palavra de aprovação pelo serviço que havia feito com a mulher. Estendeu a mão sobre o cabelo do menino, esboçando um breve sorriso quando Mikhael pareceu animado com a ideia de ter ajudado na cozinha. Talvez seus filhos apenas quisessem muito ajudar o próprio pai com o trabalho doméstico. Estendeu a mão para o pequeno, acompanhando-o até o quarto que ele dividia com Samuel para encontrar o mais velho ainda acordado, ainda que estivesse já visivelmente sonolento e quieto.

Sentou-se de lado na cama do mais velho, trazendo Mikhael para seu colo, ajustando-o ali para poder falar diretamente com os dois meninos. Conversou com os garotos, desculpou-se com Mikhael e prometeu aos dois que tentaria organizar as coisas de novo para que eles pudessem ajudar mais na cama, deixando mais uma vez a promessa de que ficaria mais com os garotos em seu tempo livre.

Após colocá-los na cama e desejar uma boa noite, saiu do quarto para se juntar a velha amiga de infância, encontrando-a com o vinho e a torta que Samuel havia escolhido para todos. Tentou sorrir, mas apenas conseguiu suspirar, sentindo-se exausto por toda a discussão.

- Obrigado pela ajuda. - disse a Lilú, buscando o próprio copo para beber um gole do vinho antes de se acomodar no sofá ao lado da loira, pensativo. - Melhor deixar um pedaço para Samuel comer amanhã. Ele vai ficar chateado se não provar do que ele e você escolheram. - avisou, levando uma das mãos até a própria cabeça ao se reclinar para trás, massageando a própria têmpora em silêncio, fechando os olhos enquanto tentava processar aquele encontro. Queria que a amiga de longa data tivesse um momento agradável em sua casa, com seus filhos, mas não esperava que fosse ter problemas com seu drama familiar justamente naquela noite.

Lilú

Não demorou tanto para que George voltasse depois da conversa com os próprios filhos, ele parecia cansado e nem tinham começado a conversar de fato. Assim que o amigo de longa data de sentou no sofá ao seu lado, a loira prontamente se livrou das sandálias altas que usava, e jogou as pernas sobre as dele sem nenhum remorso de seu jeito folgado de se portar na casa do outro:

-- Eu com certeza não sou fã de doces a ponto de comer uma torta inteira, então se não sobrar para Samuel a culpa não vai na minha conta! -- a loira ergueu o copo de vidro pela metade, lançando um sorriso maroto para o amigo de longa data: -- mas agora as crianças já foram dormir, pode deixar o lado “pai do ano” um pouco de lado e falar sobre qualquer coisa que lhe interesse.

A loira bebericou do vinho, indicando com o pé que o mais velho cortasse a torta já que estava mais perto dele, do que de Lilú de fato: -- espero que seus gostos tenham melhorado, não seria nada legal se você me dissesse que ainda curte saias colegiais.

Lilú riu sem remorso, embora tenha moderado o tom da risada sabendo que não deveria incomodar o sono das crianças. Mas sabia também que era um assunto sensível para o amigo, na época era bem justificável porque ele tinha interesse nas fitas “saias colegiais”.

-- Mas vamos lá, brincadeiras a parte, me diga o que você vem aprontando de bom, afora a parte de você ter dois filhos pequenos.

Lilú repousou o copo de vidro no chão próximo ao sofá, apoiando o corpo de forma confortável, dando maior atenção para George para que ele não sentisse que tudo que a loira faz é apenas gozação com a cara dele. Fazia aquelas coisas porque era um bom jeito de quebrar o gelo e diluir a tensão, porque de fato, George parecia tenso todo o tempo.

George

Observou ela tirar as sandálias e colocar as pernas sobre as suas, surpreendendo-o por um breve instante. Não porque aquele tipo de ousadia lhe fosse estranha vindo dela, mas não esperava que depois de tanto tempo ela se sentiria inclinada a voltar a fazê-lo. Baixou o olhar por um instante enquanto ela dizia para deixar de ser o “pai do ano”. Prestou atenção nas unhas da mulher e ao tamanho das pernas dela. Lilú não parecia ter mudado tanto, as pernas sempre foram compridas como as das garotas que via sendo famosas na televisão. E foi com essa ideia que foi bombardeado pela ideia daquela recordação sobre saias escolares. Voltou a atenção para a loira, descrente que ela havia trazido aquele assunto a tona. Riu da pergunta, a risada escalando em uma breve gargalhada ao levar a mão livre até a própria cabeça de novo, cobrindo os olhos com a mão em negação.

- De todas as coisas que eu disse, é disso pelo que eu sou lembrado? - riu de novo, pousando a mão livre sobre os pés dela, pressionando-os de leve em reflexo. A graça acabou assim que ela pareceu querer lhe falar sério, perguntando-o sobre o que fazia, além de cuidar dos filhos. E a questão chegou a lhe chocar por um minuto, justamente por não fazer ideia de como respondê-la. Não possuía hobbies além de arrumar mais trabalho para si mesmo.

Fez uma pequena pausa para poder cortar uma fatia de torta para servir para a loira, utilizando do tempo que fazia aquilo para poder pensar na resposta. Serviu a torta para a mulher, evitando encará-la enquanto pensava.

- Para falar a verdade, eu não me lembro de fazer nada além de… cuidar dos meninos. - respondeu, voltando o olhar por um instante para encarar Lilú, pensativo. - Eu não faço muito. Só trabalho, cuido dos meninos e volto para casa. - bebeu o restante do vinho em seu copo, demorando alguns instantes para retomar sua fala. - Muito aconteceu… desde… que não nos encontramos mais… - sorriu discreto. - Mas você já parece ter uma ideia do que aconteceu, certo? - perguntou apenas para se certificar, nostálgico e cabisbaixo com a ideia de recordar do que de fato havia acontecido em sua vida.

Lilú

A loira observou o amigo de longa data rir diante de seu comentário engraçadinho sobre minisaias, quem observava assim até conseguia julgar que o outro ainda tinha senso de humor, ou talvez, fosse talento de Lilú trazer humor até as pessoas mais sérias. Pegou a fatia de torta, sem se importar se iria sujar os dedos e pegou um pedaço com a própria mão, levando a boca e lambendo os dedos em seguida, entretida com o doce enquanto George lhe narrava agora em um muxoxo que não fazia nada além de cuidar dos filhos. Imaginava sim que era trabalhoso cuidar de crianças, e trabalhar em prol delas, mas também as pessoas se acostumam a qualquer situação, principalmente depois de perderem alguém importante em suas vidas.

A loira terminou de comer sua fatia de torta, observando a garrafa de vinho já pela metade, dividiu o restante da bebida entre os dois, enchendo o próprio copo e o de George: -- eu devia ter trazido mais de uma garrafa, temos muito que conversar e pouco álcool pra ajudar a engolir tudo. -- falou da forma leviana de sempre: -- e sim, se você era casado e sua esposa não está aqui, alguma coisa aconteceu, e bem nós moramos em uma cidade pequena o suficiente para que eu saiba superficialmente o que aconteceu. -- bebericou do vinho sem se prolongar no assunto sobre a esposa falecida, porque aquele não era o foco da conversa:

-- Bem, você fala como se cuidar de duas crianças pequenas fosse trivial, mas não é, ao menos você não se debandou pra alguma coisa violenta ou nociva, ocupou o espaço vazio da vida com trabalho, e mais trabalho, serve de paliativo pra tristeza mas não resolve ela. -- bebeu mais pouco, deixando o copo pela metade: -- Mas bem, já se passou um tempo desde o ocorrido, você tem uma casa boa, aparentemente você é um bom cidadão francês que paga suas contas todo mês, acho que deveria se dar um pouco mais de crédito e tirar umas folgas, aproveitar os filhos, ou fazer algo pra você, já pensou em ter um hobby? tem gente que cria peixes ou hortas em casa.

Comentou em tom leve, sem se dar muito crédito, e sem dar palpites demais sobre a vida do outro, afinal, como tinha bem ressaltado, ele parecia esta bem e estável, não tinha nada aparente que lhe faltasse fisicamente. Talvez o amigo precisasse apenas de algo que aliviasse aquela cara de cansaço e tristeza, que apenas dois ou três copos de vinho serviam de leve paliativo, ou uma conversa entre velhos amigos, um alento breve. Fazer algo para si mesmo não devia ser tão difícil e nem criminoso, embora a maioria das pessoas que conhecesse achasse algo para se afogar e se ocupar, para não ter de pensar demais nos próprios problemas.

George

Sorriu discreto, gostando da forma genérica como Lilú colocava a situação da morte de sua esposa. Talvez não fosse bom de fato falar sobre a mulher com Lilú, justamente por se lembrar de como a esposa falava sobre sua amiga de infância quando ainda estava viva. Ouviu as sugestões da amiga de infância, servindo-se de uma fatia da torta também para saborear a sobremesa adocicada que tinha o sabor de parte de sua infância, quando conseguia juntar dinheiro para comemorar algo especial com Lilú. Talvez aquele encontro fosse digno de comemoração, pois não sabia dizer o quanto a amiga de longa data lhe fazia falta até ela de fato se fazer presente mais uma vez em sua vida.

Não via como discordar do pensamento da loira. No fundo, sabia que tudo aquilo era verdade. Desde a morte de sua esposa, havia buscado sentido em sua vida como pai e apenas como tal. Dedicava-se a cuidar dos meninos, por eles e para eles, e lhe frustrava quando via que não conseguia cumprir seu papel quando era apenas aquilo que havia lhe sobrado. Ficava angustiado pela ideia de não estar ajudando ninguém e por ter crescido durante tanto tempo para servir aos outros. Assombrava-lhe a ideia de tentar fazer algo apenas para si. Contudo, sabia que a mulher tinha razão e que deveria tentar buscar formas se de entreter e de fato tratar aquela angústia e tristeza que muitas vezes ficavam explícitas em suas feições.

- Tanto tempo sem te encontrar… e quando finalmente nos encontramos, você precisa lidar com meus problemas… - comentou, terminando sua fatia de torta para tomar mais um breve gole do vinho que lhe foi servido sabe-se lá quando. - E você, Lilú? - tocou-lhe os pés de novo, dando-lhe breves tapinhas na canela. - Você está feliz? - perguntou, olhando diretamente para a loira, de fato interessado em saber sobre a atual situação da mulher. Sabia que Lilú não era de falar sobre suas lamúrias, sempre sorridente e animada. Lembrava ainda que esse era um dos aspectos que lhe incomodava em Lilú quando era uma garota. Sentia como se não fosse um amigo digno o bastante da confiança dela para dividir as dificuldades da loira. Talvez fosse algo recíproco também, justamente por ele não se sentir confortável em admitir quando precisava de alguma ajuda ou quando não se sentia confortável com alguma situação.

Lilú

O amigo de longa data parecia relaxar a medida que a conversa prosseguia, estava satisfeita de conseguir trazer ao menos vinte centavos de relaxamento a George. Se quando jovem aquele jeito excessivamente preocupado já fazia o amigo parecer um velho, agora que ele era velho, o fazia parecer um ancião, diante do jeito cabisbaixo e desanimado. Mas tão logo ele estava confortável o suficiente sobre si mesmo, e suas próprias limitações, era hora de reverter as perguntas em sua direção. Sentiu os dois tapinhas leves sobre suas canelas e sorriu em resposta à pergunta sobre ser ou não feliz:

-- Se eu não estivesse feliz, nem estaria aqui, conversando com você, estaria tentando resolver minhas infelicidades. -- riu de forma leviana como de costume, tomando o restante do vinho, para não prolongar demais o término do álcool, o que fossem conversar seria regado no máximo a água e torta, era bom, porque ao menos evitava a ressaca no outro dia: -- Como você deve saber eu trabalhei muito anos como prostituta, se não sabe, já deve ter ouvido fofocas, uns anos depois eu fui apadrinhada, que é o nome que se dá quando se trabalha para cafetina que toma conta de você e da maior parte das suas contas. Nunca tive nada a reclamar da minha madrinha. -- Admitiu sem ter qualquer remorso em sua fala, e mantendo um sorriso singelo no rosto de traços ainda jovens: -- Cuidei dela também quando ela adoeceu, e gerenciei as coisas depois que ela faleceu, já fazem três anos.

Lilú comentou com um ar de nostalgia, mas sem de fato derrubar o sorriso que carregava, sempre ali. Repousou o copo de vidro no chão ao lado do sofá novamente, já que não tinha mais qualquer líquido para beber, e então voltou a encarar o amigo: -- atualmente como lhe disse, cuido de uma casa noturna, o que quer dizer que agora eu sou madrinha de outras pessoas, cafetino elas, administro a grana, cuido das contas, preparo shows entre outras coisas, é quase como ter 20 filhos, todos adolescentes ou adultos, cheios de problemas emocionais, e com histórico de abandono, mas eu faço meu melhor, e como também lhe disse antes, pago todas as minhas contas e meus impostos todos os meses como uma boa cidadã francesa. -- riu sem se levar a sério, mas sabendo que o amigo era sério demais para ver humor em suas palavras, mas não via nada de triste em sua realidade, algumas pessoas sabia, não tinham estômago para aquele mundo.

Mas haviam pessoas como a própria Lilú, que davam conta desse tipo de lugar e do tipo de gente, no fim não se sentia anormal. Sentia-se apenas como uma pessoa de realidade diferente, certamente se escrevesse uma biografia não seria um bestseller no máximo, um pornô chanchada de comédia de banca de revista.

George

Apesar da resposta vir acompanhada da risada da amiga de infância, a narração da loira não lhe parecia tentar esconder algum sentimento de arrependimento. Comeu um pouco da torta enquanto ouvia a história dela, tomando um pouco mais de cuidado com os farelos que ficavam em seu bigode. Não sabia sobre a vida dela como prostituta e certamente se sentia mal por não saber. Não porque sentia algum poder sobre a amiga que pudesse impedi-la se seguir aquela tipo de profissão, mas justamente por não ter conhecimento nenhum naquele período na vida dela. Pressionou uma das canelas da loira, logo passando a mão pela área, procurando se havia deixado cair algum farelo da torta ali.

Sorriu apenas em reflexo para o riso contagiante de Lilú, tomando o que sobrava de vinho em seu copo. Diferente dela que parecia tão realizada e feliz com a própria vida, não sabia se podia dizer o mesmo sobre si. Tinha receio de perguntar sobre o histórico da loira, a julgar que a tal madrinha que havia cuidado dela deveria ter ensinado a ela justamente como lidar com pessoas abandonadas como ela própria. Tinha vergonha, na verdade, de admitir que uma das pessoas ali que havia abandonado a loira havia sido ele.

- Lilú. - chamou pela então mulher, voltando sua atenção para a loira, enxergando apenas aquela jovem garota sorridente que fugia do trabalho para andar em sua bicicleta e lhe fazer esquecer das responsabilidades ainda tão novo. - E-Eu… - encarou-a por alguns instantes, quieto, antes de desviar o olhar, o rubor lhe tomando a face. Não sabia mais ser era só pelo vinho ou pela vergonha de estar falando aquilo diretamente para a amiga de longa data. - … eu sinto muito… por não… procurar… por te abandonar também. - admitiu, erguendo o olhar para o teto da sala, segurando a respiração por um instante e o nó preso em sua garganta. - Eu sei que não sou… o amigo que você merece, mas… - voltou a encarar a então mulher, envergonhado por estar admitindo aquilo com remorso e o marejar nos olhos. Talvez fosse esse o efeito de reencontrar a amiga de infância e ter de reviver aqueles sentimentos mais sinceros que ela conseguia fazer com que expressasse. - Me desculpa. Eu só… estou feliz que ao menos ainda está falando comigo.

Não podia esconder que havia medo de que a mulher que tão bem conhecia quando era só um adolescente reconhecesse que a tinha abandonado e escolhesse lhe ignorar agora que eram adultos. Não a culparia se esse fosse o caso, pois não se julgava no direito de pedir o reconhecimento dela em qualquer aspecto. Contudo, ela estava ali, havia conhecido seus filhos, ido jantar em sua casa, não para apontar suas falhas, mas para agir como se nada tivesse mudado e como se continuassem os bons amigos de sempre. Queria dizer que conseguia ignorar tudo, mas não podia. Sabia o que havia feito. E como ela mesma havia apontado: 16 anos era muito tempo.

Lilú

A loira tentava ao máximo não pensar demais sobre as coisas que aconteceram e as coisas que aconteciam ao seu redor. Refletia até onde dava pra resolver, e o que era sua função organizar, e o que não era e estava além do seu controle. Parecia uma pessoa incrivelmente desapegada, mas o desapego era só com as complicações e voltas excessivas para lidar com os assuntos. Se algo doia, ela certamente ia tentar resolver, se não fosse ela a resolver, paciência, ia ficar doendo até que alguém viesse dar conta. Lilú tinha aprendido que as mãos dela só davam conta do que ela podia alcançar, todo o resto ela entregava a própria sorte, e cada um que lide com sua consciência, ela deitava todos os dias, com a mente limpa, porque trabalhava duro todo dia, pra proteger e cuidar de quem estava no alcance das suas mãos, e mesmo quando isso não era o suficiente, se ela tinha dado tudo que dava, não tinha mais nada que pudesse fazer. Era pra ser ou não era pra ser, o mundo é simples a gente que complica.

Lilú riu descontraída, de quem não estava se levando a sério, e nem estava sendo embalada por aquele clima de tristeza: -- Olhe George, eu não sou do tipo que fica feliz quando as pessoas choram por mim, mas eu entendo que precise por isso pra fora de algum jeito, então que bom que eu posso lhe ajudar. Mas não tem porque você me pedir desculpas, eu não esperava que você viesse me salvar ou resolver meus problemas, nunca esperei que ninguém fizesse isso por mim, e sei também, que ninguém tem obrigação nenhuma de fazer.

A loira esticou o pé e passou a ponta dos dedos do pescoço até a parte inferior do queixo com barba do amigo. E em seguida encostou toda a sola do pé, e empurrou de leve, como se fosse chuta-lo: -- Mas eu tenho minha cota de choro, então se continuar eu vou lhe chutar pra você ficar dolorido, e aí ter um motivo pra choramingar.

A loira afastou o pé do rosto do outro, voltando a se sentar confortável no sofá e até certo ponto preguiçosa depois do jantar farto, da curta dose de vinho, e da generosa porção de açúcar: -- Você tinha coisas mais importantes pra lidar, como a sua família, mulher e filhos, se você tivesse deixado eles de lado pra tentar me ajudar, eu ficaria uma fera com você. -- Lilú estalou os dedos e apontou na direção de George, com uma expressão que quase podia ser entendida como séria, mas ainda sustentava aquele sorriso leviano, de quem estava levando tudo na brincadeira: -- mas agora que a gente se viu de novo, não espere tantos anos pra vir falar comigo de novo, que eu não mordo, eu chuto, mas só se você voltar a chorar de novo.

George

Segurou o polegar e o indicador contra as pálpebras, secando as lágrimas em seguida com as costas das mãos enquanto ouvia todo o discurso da loira ao seu lado. Bem sabia que ela nunca esperava ser resgatada ou que sempre vivia com aquele espírito mais independente do que ele estava acostumado a ver na maioria das mulheres ao seu redor. Ainda assim, não conseguia afastar o sentimento de arrependimento e de frustração por ter apagado durante muito tempo a presença da garota que por anos havia sido sua melhor amiga.

Não se importou com o pé dela em sua face. Na verdade, a sensação de proximidade que ainda havia entre os dois lhe trazia conforto e esperança de que as coisas ainda eram diferentes, porém isso não significava que ela lhe odiava pelas escolhas que havia feito. Dessa vez, ao ser ameaçado, foi sua vez de rir ainda com os olhos marejados.

- Mas você sempre judiava de mim, Lilú. Não é como se nunca tivesse chorado na sua frente. - admitiu, certo de que por muitas vezes apenas ela havia sido sua companhia em momentos tristes de sua vida em que havia chorado por frustração ou por algum tipo de dor. Não era de chorar em público, mas na presença da amiga, se sentia menos pressionado a ser sempre forte e responsável como havia se prestado a ser toda sua vida.

Observou a loira ao seu lado com aquela expressão familiar entre seriedade e brincadeira e se acomodou melhor no sofá, procurando um pouco mais do resto do vinho para beber mais um último gole. Ainda que já tivesse chorado na presença da mulher, obedeceu a ela e secou as lágrimas mais uma vez, voltando a atenção para a figura sentada ao seu lado.

- Eu sei… que você não me faria abrir mão da minha família por você, Lilú. - concordou, estendendo a mão para alcançar a mulher ao seu lado até conseguir encontrar a dela também, evitando encará-la pela vontade ainda presente de chorar. - Mas sabe… quando éramos crianças, você era… a família que eu tinha… - fez uma breve pausa, fechando os olhos e apoiando a cabeça para trás no apoio do sofá. - Eu não imaginei que passaríamos tanto tempo distantes. Talvez, se eu não tivesse aberto mão de você também, as coisas tivessem sido diferentes.

Soltou a mão da mulher, sentindo que aquele assunto mais melancólico nunca era o forte dela e que não estava sendo de novo o melhor dos amigos trazendo suas mágoas do passado a tona. Principalmente quando ela era quem deveria estar magoada por ter sido ignorada durante todos os anos que se passaram.

- Obrigado por ainda estar aqui. Eu jurava que havia ido embora daqui e conseguido uma carreira fora, em Paris quem sabe. Você sempre foi bonita e essa cidade sempre foi muito pequena para a sua disposição. - riu baixo, tentando se livrar da própria tristeza.

Lilú

A loira sabia que apesar da cara fechada e do rosto de paisagem George sempre foi o garoto sensível, sentimentos demais, expressão de menos. Mas era curioso como mesmo depois de tantos anos ele continuava tendo aquele aspecto gentil e carinhoso que era sua característica principal, talvez por isso as pessoas tivessem judiado tanto dele ao longo da vida. Lilú ouviu todo o discurso do amigo sobre ser família e era um sentimento bem familiar para si, não era uma mulher sem coração, se deixava sentir amores por outras pessoas, e tinha certeza que o amigo sempre fora e sempre seria uma pessoa querida. A menos que lhe decepcionar de alguma forma, mas o único real fraco de George, era que ele pensava demais nos outros e de menos nele mesmo, e assim acaba negligenciando os próprios amigos no meio do processo:

-- Olhe as coisas seriam exatamente como são, a diferença é que você provavelmente teria chorado mais vezes no meio do percurso por estar mais perto de mim. Eu tenho esse efeito nas pessoas, trago emoções fortes. -- a loira riu, sem se levar a sério demais, até porque bastava que um deles fosse melodramático: -- E eu também lhe considero como uma pessoa próxima e importante, não demore anos pra falar comigo de novo e vamos ficar bem.

A loira colocou um falso tom de ameaça, rindo imediatamente depois de falar, se jogando no sofá já com muita preguiça de ir para casa dormir, mas sabendo que teria de ir em algum momento: -- Sabe George, é muito bom conversar com você, mas eu tenho de dizer que para o tanto de coisa que tem ainda pra ser posto em dia, vamos precisar de muito mais bebida, muito mais! -- o sorriso foi mais leve e espontâneo que os demais, e era fácil de notar quando Lilú estava tão relaxada e preguiçosa como naquele momento: -- E você precisa arrumar algo pra fazer, algo pra você! Sério! você precisa relaxar de alguma forma que não seja trabalhando pros outros!

Se fosse em outro dia e na companhia de outra pessoa, ofereceria uma noite de sexo desvairado, mas isso não combinava nem com o tipo de coisa que faria George relaxar, e seria algo estranho até para a loira imaginar.

George

Concordou com as condições dela sobre não demorar a falar com a loira novamente. Voltou a observar a mulher ao seu lado quando ela fez menção de mais bebida. Não costumava ter bebida com álcool em casa. A última vez que havia bebida foi com o novo amigo japonês e quando saíra com ele e os seus colegas de trabalho do corpo de bombeiros.

Ouviu a conversa alheia sobre ele relaxar fazendo algo para si e voltou a se apoiar com a cabeça no encosto do sofá, olhando para o teto. Não fazia ideia do que de fato gostava de fazer. Sempre vivera daquelas trabalhos para os outros, fosse limpando piscinas e jardins no verão, fosse como bombeiro, fazendo alguns bicos de eletricista ou encanador aqui e ali, cuidando de seus filhos que ainda eram pequenos.

- Fala tipo um passatempo? Mas eu saio de casa além do trabalho para passear com os meninos. Levo eles na praia, no parque. - comentou, julgando que o seu tempo livre deveria ser colocado para as crianças e que cuidar dos garotos era sua prioridade. No fundo, fazia tudo pelo bem das crianças, receoso que a falta que a mãe deles fazia pudesse deixá-los em uma situação desagradável. Sabia muito bem como era não ter os pais ainda muito jovem na vida e não queria ver seus meninos passando por aquele tipo de privação.

Tentou se recordar do que costumava fazer quando ainda era adolescente, mas havia começado a trabalhar ainda muito jovem. Recordava de sair para passear e explorar a cidade quando era ainda mais jovem. Suas saídas eram mais constantes quando começou a sair com a loira, a amiga de infância. Lembrou então que o amigo japonês havia falado sobre uma tal floricultura em que trabalhou na cidade e de como lhe trazia alguma calma poder sair com sua bicicleta e visitar algumas áreas mais distantes e floridas da cidade. Os jardins das áreas nobres eram bem bonitos, mas duvidava que poderia ter dinheiro para ter um espaço daqueles algum dia.

- Tem um amigo meu que trabalhou em uma floricultura. Você ia gostar de conhecer ele. Ele tem uma filhinha pequena bem animada, a Kanon. Ele é zelador lá em St. Clavier. Ele é bem grosso comigo às vezes, mas ele é um cara bacana. - comentou, desconexo da conversa anterior, distraído com suas próprias lembranças.

Lilú

A loira estava esparramada no sofá, preguiçosa, balançando de leve uma das pernas, como faria se estivesse em casa. Lilú tinha aquela mania de quando as pessoas lhe davam espaço, agia como se estivesse tranquila em casa. E enquanto o amigo de longa data tentava se convencer de que tinha hobbies, Lilú tinha plena certeza que o homem não sabia o que era uma folga a muito tempo:

-- Não George, saí para o parque com os seus filhos não configura relaxar. Você com um filho pequeno como Mikhail, tem de ficar alerta o tempo todo para que ele não corra e não se perca da sua vista. Tem de tomar cuidado com o que levar pra comer, pra não gastar na rua. Além de se atentar ao horário de voltar para que eles não fiquem exaustos demais para não irem na aula no outro dia. Isso obviamente é um tempo investido com seus filhos, que é ótimo, porque eles vão ter boas lembranças de você, e saber como é ter um pai super legal. Mas isso não te relaxa. -- Lilú criou 20 centavos de coragem e se sentou no sofá, com as duas pernas cruzadas como se estivesse em um posição de borboleta, e apontou na cara do amigo: -- Quer que eu lhe explique de forma simples a diferença? Pense assim, pra ser divertimento e ser relaxante, você primeiro, não pode pensar que tá desperdiçando dinheiro, e sim investindo na sua saúde mental, porque todo mundo precisa relaxar. Segundo, tem de ser algo que não envolva o George como pai, e sim o George como pessoa. E terceiro tem de ser algo que ao final lhe der uma sensação de prazer e satisfação pessoal.

A loira pontuou os critérios que achava mais importante sobre sua visão do que era relaxar de fato, ouvindo do amigo de longa data sobre um amigo que era dono de uma floricultura, até já sabia quem era, não porque o sujeito lhe chamasse a atenção, mas porque conhecia a dona anterior: -- Se você acha ele bacana não deve ser porque ele é grosso com você, porque sempre te considerei Hétero, mas também se estiver se descobrindo agora, não tem problema, tem meu total apoio. -- Lilú riu sem se levar a sério, sabendo que esse tipo de comentário no mínimo deixaria o amigo desconcertado: -- E bem, é bom ter amigos, sair pra beber, passear ou só jogar uma bola na praia no final de semana, mas é bom também passar algum tempo sozinho, ser capaz de ser feliz apenas com você mesmo, sem se sentir culpado, e isso devia ser prioridade pra todo mundo.

George

Se sentia conversando com algum tipo de psicóloga ao invés de conversar com uma amiga de longa data. Recordou de quando seus colegas de trabalho no corpo de bombeiros lhe fizeram ir a uma sessão com a nova psicóloga do lugar só para ter uma desculpa de descobrirem se a mulher era solteira e quais seus interesses. Não gostava daquele tipo de conversa, justamente por se sentir excessivamente julgado. Já trabalhava o bastante, tentando dar o seu máximo para tratar de suas responsabilidades para chegar ao ponto de encarar a verdade de que não estava cuidando de si mesmo. Nunca precisou se importar com questões como saúde mental, mas se recordava dos médicos responsáveis pelo hospital geral na época do falecimento de sua esposa lhe recomendaram acompanhamento psicológico diante do inevitável destino da mulher.

Olhou para a loira quando ela falou sobre satisfação pessoal. Não era como se pequenas coisas não lhe traziam satisfação, mas elas sempre acabavam dependendo da aprovação alheia. Arqueou as sobrancelhas com a suposição dela de que poderia ter algum tipo de interesse no amigo japonês além da própria amizade. Franziu o cenho em resposta. Não enxergava Tamotsu daquela forma, na verdade, conseguia associá-lo a Lilú como uma das pessoas por quem tinha respeito e até certo carinho e compreensão, mas não se sentia atraído da forma que a loira parecia querer insinuar. No fundo, não pensava muito sobre tal assunto também, a julgar que não se sentia preparado para tentar dar início a nenhum novo relacionamento com ninguém desde o falecimento de sua esposa.

- Você sempre entendeu mais sobre isso que eu, Lilú. Mas… eu não acho que tenho mais idade para isso, sabe? Eu tenho dois filhos pequenos, um emprego, não é tão simples me colocar em prioridade na maioria das vezes. - admitiu, cruzando os braços, inquieto. - Agora mesmo, por que depois de tanto tempo sem te encontrar, precisamos falar dos meus problemas? Eu imagino que tem tantos problemas quanto eu e ainda está aqui, me ouvindo choramingar minhas frustrações.

Reclinou-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e a cabeça entre as mãos. O álcool não havia sido o bastante para deixá-lo alto, mas toda aquela conversa sobre sua própria satisfação lhe deixava com dor de cabeça.

- É tão errado assim se sentir feliz pelas realizações dos outros? Eu… eu não sei o que eu posso fazer… por mim mesmo. Você sabe que eu não sou assim. - admitiu, ciente de aquele tipo de comportamento não havia nascido com o falecimento de sua esposa, mas desde quando era adolescente, não fazia muito por si mesmo. Gostava de sair com a loira e conseguir dinheiro extra com alguns bicos aqui e ali, mas dificilmente fazia isso por algum motivo único e pessoal, ao menos não conseguia enxergar seus próprios interesses mais egoístas no que escolhia fazer.

Lilú

Observava George falar sobre si mesmo, e teve de revirar os olhos e suspirar quando ele se chamou de “velho demais” pra poder namorar ou pra sair com alguém. Era triste que uma pessoa tão boa quanto o próprio amigo se tivesse em tão baixa estima, quando pessoas muito menos honestas, tiravam tanto tempo pra si mesmos e se divertiam. Era injusto que o amigo pensasse tão mal de si mesmo:

-- Olhe bem George, eu não falo tanto dos meus problemas, porque eu sei o que fazer com eles, o que me falta as vezes é paciência e disposição pra entrar em ação de fato. E por vezes o que eu preciso mesmo, é só um bolo doce, bebida barata e conversar sobre qualquer outra coisa senão a minha vida. Então, se eu não estou falando das coisas que me afligem, é principalmente porque eu não preciso que você me ajude a resolver, o que eu preciso é exatamente isso que temos aqui, “descontração”. -- A loira sorriu, de forma simples e despreocupada, como se tivesse de lembrar o amigo de coisas que são primordialmente simples de se lidar: -- veja bem, pra ser um bom amigo, você não precisa entrar na minha vida, e buscar resolver diretamente meus problemas, o ponto que eu sempre te coloquei, é exatamente do tipo de amigo que desfruta comigo, os momentos de relaxamento. Eu lhe dou a oportunidade de descansar junto comigo, quando eu me permito descansar, por isso parece que eu não estou dividindo nada. Quando na verdade, eu divido justamente as partes mais sensíveis e pessoais, meu descanso.

Comentou com a propriedade de quem já estava acostumada a lidar justamente com aquele aspecto da própria vida. Sabia que se não se permitisse descansar e tirar tempo para aliviar a própria cabeça, não daria conta do mundo quebrado e distorcido que eram suas noites, as pessoas de quem cuidava e tudo que estava sempre em suas mãos. Protegia seus amigos de sua vida mais intensa, da mesma forma, que dividia com eles justamente seu lado mais humano e sensível:

-- E eu vou lhe falar algo, nós temos basicamente a mesma idade, eu tenho uma profissão que todos pensam que não há espaço pra ter relacionamentos, e eu já tive vários namorados e namoradas, nunca pensei em casar propriamente dito, e sempre tomei cuidado pra não ter filhos, mas isso nunca me impediu de me relacionar com outras pessoas. Não jogue em cima de você a idade como um limitador, ou mesmo seus filhos, ou sua rotina de trabalho. Nada disso impede ninguém de conhecer pessoas, de se deixar amar e de se deixar viver. -- falou muito seriamente, observando o amigo, e lhe deixando com um sorriso tranquilo no rosto, como quem dava uma informação valiosa demais para que o outro deixasse passar: -- experimente tirar esse bigode, e sorrir mais, e eu te dou certeza que vai notar as pessoas ao redor te observando, muito mais do que você acha que é.

Deu dois tapinhas no ombro de George, porque aquilo eram as palavras mais certeiras que tinham para oferecer ao amigo de longa data.

George

Nunca havia visto a amizade que tinha com Lilú daquela forma. O fato dela preferir se descontrair em sua presença ao invés de falar dos próprios problemas lhe incomodava, era verdade, justamente por ainda ter aquele sentimento de preocupação sobre a loira, considerando o que ela passava desde a época em que estudavam juntos. Mas se sua presença e a conversa eram o bastante para que ela ficado mais descontraída e se sentisse melhor, não faria objeção alguma.

Contudo, ergueu a mão até a próprio rosto de novo quando ela continuou a falar sobre gostar daquele tipo de cenário em que saía para descontrair com seus amigos. Segurou o riso, balançando a cabeça em negação. Ela gostava de lhe fazer chorar, então? Lilú estava com a língua bem afiada para conseguir lhe atingir daquela forma, nos pontos certos. Ou talvez só estivesse tão cheio de seus próprios problemas que na breve brecha de poder falar sobre eles com alguém que conhecia sua história, se sentia frágil, como se ela já soubesse de tudo o que estava prestes a falar.

Voltou a encarar a loira quando ela falou sobre sua idade de novo, relembrando-o que ainda podia se permitir ser amado por alguém ou sentir algo por outras pessoas, que sua idade, nem seus filhos eram desculpa para aquilo. A verdade é que não tinha experiência alguma naquele aspecto, pois a única garota por quem havia se interessado em sua vida, havia se tornado sua esposa, lhe deixado dois filhos e viúvo. Lilú era diferente, pois ela sempre atraía a atenção para si, magnética, não era como se ela pudesse passar despercebida das pessoas. Embora reconhecesse que aquela característica tinha seus pontos negativos. Então apenas concordou com um aceno positivo da cabeça, ajustando-se no sofá para se reclinar, apoiando os cotovelos nos joelhos, as mãos unidas.

- Eu vou tentar. - não fez promessas, pois a loira deveria saber que quando dizia que faria, era difícil que não estivesse falando sério. Não tinha certeza alguma se aquilo daria certo ou se melhoraria a forma como encarava a si mesmo, mas não lhe custava tentar, considerando as palavras de apoio da velha amiga de infância.

Ficou em silêncio durante alguns instantes até coçar o próprio bigode, levantando-se e pedindo licença para ir na cozinha pegar um copo com água para si mesmo e para Lilú, considerando que o álcool já havia acabado. Comentou sobre mais alguns aspectos relacionados ao tempo em que estivera distante da mulher, como sobre quando conseguiu o emprego no corpo de bombeiros; ou sobre os casos mais surpreendentes que já tivera de atender por conta do trabalho; sobre como voltou a conversar com outras pessoas após a morte de sua esposa; sobre como a família dela não havia se manifestado para nada e como esperava que continuasse daquela forma, a julgar que os meninos não precisavam conhecer aquela gente nem tão cedo; sobre os bicos que conseguia para ganhar algum dinheiro extra. Chegou até a oferecer seus serviços, a julgar que a loira deveria administrar algum tipo de lugar para o atendimento dos clientes dela. Não havia problema em adentrar lugares suspeitos, seu foco sempre fora no trabalho de qualquer forma, e para a amiga, faria sem problema algum.

- Você quer passar a noite aqui? - convidou a loira, considerando que ela ainda lhe fazia companhia. - Pode ficar com a minha cama, se quiser. Posso dormir no sofá. - ofereceu, deixando separada parte da torta que havia sido comprada para que Samuel e Mikhael pudessem experimentar um pouco do doce ao despertarem.

Lilú

A loira sabia que todas as palavras que saiam de sua boca tinham um efeito forte sobre o amigo, para o bem ou para o mal. Mas isso também queria dizer que a loira ainda era uma pessoa importante na vida de George mesmo tendo se passado tanto tempo desde que tinham sentado pra conversar. Imaginava que ele tinha sentido sua falta, da mesma forma que em algum lugar tinha sentido falta da companhia dele, mas toda pessoa tende a se acostumar com as situações que lhes são impostas por vida, ela tinha se acostumado a própria vida, e ele a dele. Não o julgava em nada, mas queria que ele ao menos tentasse ser mais feliz, agora não tinha uma esposa para lhe arrasta-lo a seguir outros caminhos, que não o que ele mesmo escolhesse:

-- Sei que vai. Confio na sua palavra. -- comentou de forma despretensiosa e tranquila, a despeito de ter dado uma sequência de broncas em George mais cedo. Mas era seu jeito de ser e de se preocupar com as pessoas próximas, embora muitas vezes parecesse só reclamação. E ouviu toda a conversa sobre a vida do mesmo, acrescentando comentários aqui e ali das pessoas que conheciam em comum. Cerise era uma cidade pequena e não era impossível que muitos dos bicos que fizesse fosse justamente para pessoas que a loira também conhecia. Riu principalmente de como o mais velho se focava tanto nos bicos que perdia completamente a noção do tempo. Aproveitou para falar de suas desventuras amorosas, e namorados e namoradas, como era a vida de namorar uma prostituta? extremamente casual, no fim das contas, a diferença era só o horário de trabalho muito mais voltado pra noite, enquanto o dia só começava depois das 14hs.

Já era bem tarde na madrugada quando George lhe ofereceu água, o alcool já tinha perdido seu efeito a muito tempo, mas ao menos se sentia bem relaxada depois de por as conversas em dia.Mas teve de acenar negativamente quando o mais velho lhe ofereceu dormir lá, era invasão demais, e ele tinha uma rotina completamente diferente da dela, não podia perder a sua própria e nem atrapalhar a do outro:

-- não, nessas horas é que eu peço um taxi e vou pra minha própria casa. -- deu dois tapinhas no ombro do amigo como se indicasse pra ele não se chatear diante de sua recusa: -- Samuel foi dormir um pouco chateado, pode acordar bem mal humorado, você tem sua rotina e eu a minha, não queremos nos atropelar não é mesmo? -- brincou, puxando da carteira um dos cartões do próprio bar e casa noturna: “Le Corde lier” um cartão com laminação furta cor que brilhava o nome apenas quando colocado contra luz, o número de telefone do local discreto em linhas finas:

-- Fico esperando uma ligação, seja pra você vir visitar minha casa noturna com seu amigo, ou para sairmos pra qualquer lugar. Ainda sei andar de bicicleta viu? -- brincou, levando ambos os braços em torno do pescoço de George e o abraçando longamente, de forma carinhosa com a qual estava acostumada a tratar seus amigos. Depositou um selinho amistoso e saiu do apartamento do mais velho logo mais quando recebeu mensagem do taxista constumeiro. Jonah não se atrasava mesmo.

[thread encerrada]


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