09-01-2021, 02:57 PM
Adelaide
Finalmente havia chegado final de semana e podia visitar a casa de seu professor particular de artes. Se havia algo que ainda conseguia lhe deixar feliz após o desaparecimento de sua mãe, eram as aulas particulares de desenho e pintura. Para uma criança tão pequena, mas com tanta disposição para as telas e os cadernos de rascunho, observar seu professor produzir era sempre um momento de grande fascínio para a pequena. Gostava do moreno alto e quieto, não porque ele não falasse durante as aulas particulares, mas pelo fato de não parecer falar deliberadamente pelos cotovelos como a maioria dos adultos e crianças ao seu redor.
Após o almoço, escovou os dentes, obediente como alguém que sabia que deveria se comportar muito bem para receber a recompensa de poder ir para a aula do professor Johnson, apesar de costumar chamá-lo apenas por professor. Gostava de ouvir sua então declarada namorada, Clementine, sempre chamá-lo de “Arman”, mas não se sentia a vontade tratando-o daquela forma tão informal. Era impossível não sentir respeito pelo homem que lhe apresentava cada vez mais sobre o mundo das artes.
Saiu para a casa do professor carregando sua mochilinha nas costas, os longos cabelos loiros arrumados em duas tranças baixas, uma mais justa e outra meio torta. Havia pedido para sua tia Annabelle lhe mostrar como fazer uma trança e tentou arrumar a outra, repetindo o processo três vezes até conseguir um resultado aceitável. Pelo menos os encaixes das mechas não pareciam mais apenas um nó. Se não gostava que outros tocassem os fios, era melhor aprender a cuidar deles sozinha por hora. Usava também um vestidinho branco com rosa claro, um dos modelos novos que sua tia Annabelle havia comprado para lhe animar. Uma pena que não fosse sua cor favorita. E um par de sapatilhas brancas que combinavam com o vestido.
Parou a frente da residência de seu professor, sendo recebida pela mãe do mesmo. Cumprimentou a mulher educada como de costume e logo partiu na direção do ateliê do mais velho, deixando a mãe dele conversando com sua tia Annabelle. Estava mais interessada no que estudaria na lição daquele sábado.
Arman
Arman já estava acostumado a esquecer muitas coisas de sua rotina quando não era lembrado com frequência - aquilo acontecia especialmente com trabalhos que achava insuportáveis em St. Clavier. Mas quando era algo relacionado a arte, pintura e fotografia, tinha uma memória até excepcional para quem parecia estar constantemente desligado do mundo. Prova daquilo era estar sempre atento e preparado para mostrar coisas novas para Adelaide nos fins de semana quando ela ia até a sua casa para ter aulas, ou quando ia na casa dela, agora morando com Annabelle, para ensinar alguma coisa à menina.
Se ele já era costumeiramente quieto, Adelaide parecia muito com quando era criança também. Sempre calada e perguntando poucas coisas do que ensinava. Tinha ficado ainda mais calada depois que a mãe tinha viajado, mas não falava daquelas coisas com a menina. Com certeza sua mãe era mais sensível para lidar com o assunto. Estava tão mais focado em distraí-la com coisas de arte que naquela semana tinha até comprado material novo para ensinar coisas mais simples à criança - ao invés de trabalhar com suas tintas a óleo de cheiro forte e manuseio mais complicado.
Deixou as coisas separadas para a aula do sábado e depois do almoço, só tomou um banho para colocar uma calça de moletom e uma camisa básica clara que já tinha algumas manchas de tinta. Dispensou os óculos ao voltar para o quarto e se sentar diante de um quadro em que já estava trabalhando havia algum tempo, usando como referência apenas a memória que tinha do cenário cheio de flores de primavera perto do centro da cidade - o que o tornava um lugar bem diferente do real, mas com um toque mais vívido e colorido.
Desviou a atenção do quadro quando ouviu a campainha, deixando as tintas de lado depois de adicionar algumas manchas desavisadas à roupa, até Adelaide chegar ao seu ateliê. Deixou a tela de pintura de lado no cavalete para sentar no banco de frente para a menina, numa altura mais próxima dela.
- O que fez essa semana? - perguntou à criança, que já sabia que ele estava falando de pinturas e desenhos. - Hoje nós vamos sair.
Adelaide
Assim que chegou no ateliê e encontrou seu professor, não pode deixar de notar as novas manchas de pintura que ele tinha na vestimenta. Não era difícil encontrá-lo sujo de tinta, mas imaginava que ele gastava muito tempo naquela área de trabalho. Fez uma pausa, removendo a mochilinha das costas e colocando-a acomodada onde estava. Retirou o caderno de desenhos de dentro da mochilinha com os exercícios e alguns desenhos avulsos que havia feito durante a semana. Estendeu o caderno para seu professor já que ele havia perguntado o que havia feito na semana e não retrucou quando ele informou que iriam sair.
Na verdade, algo no ateliê lhe chamava mais a atenção e era o quadro ainda em produção de um cenário florido que muito lhe recordava na fazenda onde sua mãe gostava de lhe levar sempre que precisava de novas flores para a floricultura. Gostava de flores e devido ao tempo no trabalho da mãe, havia aprendido a diferenciar muitas delas, ainda que não soubesse o nome científico ou coisas muito complicadas do gênero.
Afastou-se após deixá-lo com o caderno de desenhos. Foi até a pintura inacabada, curiosa com as pinceladas de seu professor e sobre como ele conseguia representar aquele cenário. Virou-se por um instante, observando o moreno com mais atenção, notando que lhe faltava algo. Os óculos coloridos não estavam ali. Perguntou-se mentalmente se para pintar algo assim, não era bom usar óculos coloridos. Voltou a observar a pintura, mais atenta aos detalhes e a escolha de cores que casava bem com os tons perdidos na camisa do mais velho.
Arman
Recebeu o caderno de desenhos da garota. Ela realmente gostava de desenhar e se comparada com Clementine, tinha muita paciência para fazer tudo aquilo dentro das capacidades de uma criança. Os desenhos eram o mais fiéis que a imaginação dela permitia à realidade e geralmente feitos com lápis de cor e giz de cera, mas comparado a quando ela começou a ter aulas com ele e a percepção de formas que estava adquirindo, com certeza havia alguma evolução.
Não era como se Arman tivesse algum tipo de didática para ensinar uma criança a pintar e desenhar, mas até era interessante fazer aquilo com a menina a ponto de pesquisar mais sobre aulas do que sobre as matérias chatas de St. Clavier que era obrigado a cumprir hora. Nem percebeu o sorriso discreto que havia no rosto ao notar a evolução dos desenhos dela, mesmo com sua falta de didática, deixando o caderno de lado quando ela pareceu se interessar no quadro em que estava trabalhando.
- Você gosta? - perguntou, sem se levantar de onde estava, apoiando os cotovelos nas coxas para olhar de Adelaide para a pintura. - É o que eu lembro de um dos parques de Cerise, não está fiel, mas eu gosto de usar muitas cores. É uma técnica parecida com o Impressionismo. Um dia você vai estudar isso, ou eu vou te mostrar numa galeria. Quanto mais você se afasta do desenho, melhor você vê o cenário. Quanto mais perto, mais você vê as pinceladas. Quer pintar com tinta também?
Levantou-se de onde estava, indo até a mesa onde tinha deixado alguns materiais separados, com uma paleta de aquarela, alguns pincéis e um bloco de folhas específico para aquela técnica.
- É mais difícil trabalhar com tinta óleo, então vamos pintar com aquarela hoje. - explicou, colocando os materiais que tinha dentro de uma mochila com alça lateral. - Vamos pro parque? Tem mais coisas coloridas lá pra pintar do que aqui.
Adelaide
Despertou de sua observação do quadro florido ao ser questionada por seu professor. Voltou sua atenção para o mais alto, concordando com a cabeça sobre a pergunta dele. Era incrível como ele conseguia fazer aqueles desenhos apenas de memória. Impressionismo era o que ele havia usado? Era fantástico aos seus olhos como alguém vivo que conhecia, e era seu professor, podia pintar daquela maneira.
Ouviu a explicação com uma animação singular, caracterizada pelas mãos inquietas com o tecido do próprio vestido e a ponta de uma de suas tranças. Olhou de novo para o quadro e se afastou, aproximando-se logo em seguida, os passos das pernas pequenas de uma criança sendo bem perceptíveis pela sapatilha que usava.
- Quero. - respondeu a seu professor, distraída com os efeitos que aquele quadro proporcionava. Era quase como se fosse aprendiz de um mágico, ou bruxo. Estava mais para bruxo, na verdade, com a senhora Fleur cozinhando bolos e doces tão gostosos, eles deveriam ter algum tipo de mágica. Ou era assim que gostava de fantasiar quando encontrava pessoas tão interessantes que lhe inspiravam. Queria poder algum dia conseguir pintar como o mais velho.
Virou-se de novo para o professor quando ele explicou sobre a aquarela, acompanhando-o com o olhar durante o processo dele guardar seus pertences. Concordou de novo com a cabeça antes de ir até sua mochilinha para poder pegá-la novamente e colocá-la nas costas, mas sem antes guardar seu caderno de desenhos de volta. Seguiu os passos de seu professor, estendendo a mão para o mais velho já que iriam em um passeio para o parque e ele era o adulto e ela não deveria andar sozinha sem segurar a mão de seu responsável. Não se incomodava de segurar a mão do mais velho, na verdade, preocupava-se mais com as passadas de pessoas adultas e altas como o professor.
Arman
Adelaide era uma menina provavelmente mais quieta do que ele costumava ser depois de uma certa idade. Mas sabia que ela gostava de pintar e das técnicas que mostrava sempre que tinham aulas. Novidades eram bem-vindas também e até com um simples "quero", podia perceber que ela estava muito interessada na proposta de pintarem com técnicas novas.
Terminou de colocar os materiais na própria mochila e jogou a alça grande por cima de um dos ombros, pegando sobre a mesa um óculos com lentes verdes, para estender a mão e segurar a de Adelaide para saírem de casa. Passaram pelo portal da cozinha, mas Fleur não fez mais do que explicar à Annabelle que eles deviam ir fazer alguma coisa de pinturas sem que Arman precisasse explicar nada ou dar um mero "tchau". Manteve-se segurando a mão da menina e medindo os passos costumeiramente longos para que Adelaide pudesse lhe acompanhar.
- Aquarela é à base de água, então você pode pintar sem se preocupar. As cores ficam bem vivas dependendo de como você usa, o mais interessante é ver as cores se misturando e mudando de cor e gradação quando secam. Pra pintar com aquarela, a gente precisa de papel especial pra aguentar a quantidade de água, e a paleta que eu trouxe é de pastilhas. - explicou ao longo do caminho. - Quais as cores que você prefere?
Adelaide
Olhou interessada para os óculos de lentes verdes de seu professor antes de saírem de casa. Esperou que ele passasse pelas duas mulheres que ainda conversavam. Chegou a ouvir Fleur conversando com sua tia Annabelle sobre o que o filho estava fazendo. Às vezes pensava que seu professor era tão inteligente que conseguia conversar com os outros apenas com o olhar e por isso ele usava aqueles óculos coloridos para impedir que sua mente fosse invadida ou suas ideias fossem lidas com facilidade.
Gostava de sair com o professor porque ele conseguia lhe acompanhar mesmo sendo alto. Nem todos os adultos tinham aquele costume e era uma garotinha que não gostava de ser arrastada ou empurrada para os lugares. Prestou atenção nas palavras do moreno, achando fantástico como ele conseguia colorir com água. Refletiu sobre o papel especial que deveriam usar, imaginando que deveria ser um papel produzido de alguma forma bem fantástica para servir para as pinturas com água.
- Azul. - respondeu, recordando de como aquela era a cor das flores mais bonitas da floricultura de sua mãe. Também gostava de vermelho por conta de Clementine, mas azul era de fato sua cor favorita. - Como pastilhas tem água? - ergueu o olhar, observando o mais velho com ar genuinamente curioso. Nunca havia pensado sobre pinturas com aquarelas de fato, claro que já havia lido alguma coisa sobre elas nos livros, mas não fazia ideia do que realmente eram. Queria poder ler mais livros na biblioteca ou na livraria sobre arte, mas dificilmente havia algum adulto para lhe acompanhar. E não podia ir sozinha.
Arman
Chegaram à praça no distrito em poucos minutos. Arman procurou logo por um local onde pudesse se sentar à sombra de alguma árvore, sem se importar de fazê-lo no chão, chamando Adelaide com um aceno com a mão e deixando a bolsa com as coisas de lado. Não respondeu a pergunta dela sobre as pastilhas de imediato, só ajustou o óculos no rosto e começou a tirar os materiais, sem se importar de colocá-los no chão sobre o gramado. Sentou-se com as pernas cruzadas em posição de lótus e colocou diante dos dois um estojo com pastilhas coloridas de aquarela e já com algumas tintas misturadas no godê, deixou um estojo com uma variedade de pincéis também de lado e ainda pegou uma garrafinha plástica pela metade com água, que depositou cuidadosamente em dois pequenos copos. Por último, tirou o bloco de folhas de tamanho convencional, com pranchetas para deixar uma com Adelaide.
- Essas são as pastilhas de aquarela. Elas não têm água, você precisa colocar água no pincel pra molhar e fazer a cor. E dá pra misturar todas elas e fazer várias cores diferentes, mesmo que só tenha doze aqui. - explicou, pegando um dos pincéis de cerdas mais longas e molhando na água primeiro, na pastilha de cor azul para então fazer apenas uma marca na própria folha, deixando um tom de azul vívido, mas ainda com um pouco de transparência. - Viu? Dá pra usar muitas técnicas diferentes de aquarela, mas ela nem sempre vai fazer o que você quer que ela faça. Por isso fica bonito.
Pegou outros pincéis e começou a mostrar outros exemplos de como usar a tinta nova para a menina, sempre alternando entre molhar os pincéis e usar a tinta, outras vezes misturando os tons diferentes no godê, outras vezes molhando primeiro o papel para depois adicionar os pigmentos. A cada exemplo, deixava que ela escolhesse também um dos pincéis e uma das cores para testar no papel que já tinha, e só depois de mostrar como funcionava tudo o que lembrava, encostou-se à árvore, ajustando um pouco os óculos para olhar por cima das lentes ao redor.
- Agora por que não tenta pintar alguma coisa? Está vendo alguma coisa que quer pintar daqui? - perguntou, olhando ao redor também para procurar algo nas cores naturais sem suas lentes verdes no caminho.
Adelaide
Sempre se achava fazendo alguma pergunta idiota quando seu professor não respondia de imediato, como se a resposta fosse bem clara que não precisava perguntar, mas pouco a pouco estava se acostumando com a forma mais lenta dele lhe dar atenção e responder. Era como se não somente ela ali demandasse a atenção do professor, mas muitas coisas ao seu redor. Talvez esse fosse o mal de ser um professor de pintura e um artista tão habilidoso.
Acompanhou o mais velho com o olhar, acomodando-se à frente dos materiais que ele organizava para poder lhe mostrar e explicar. As tais pastilhas de aquarela que ele lhe mostrava eram bem curiosas, como pedras coloridas ou giz cera sem brilho. Aproximou-se um pouco mais para notar como ele misturava as porções e adicionava água. Estava fascinada, pois nunca imaginara que um artista como seu professor podia colorir também com água. O clima estava bem agradável para sentarem ali e para ela estudar aquele tipo de pintura.
Concordou rapidamente com ele sobre o descontrole deixar o efeito bonito. Ergueu o olhar conforme ele parecia buscar algo acima, imitando seu professor até ele lhe questionar sobre algo interessante para que começasse a pintar também. Ajeitou as pernas, sentando-se como o mais velho naquela posição de lótus. Demorou um pouco mais para arrumar o vestido e as pernas, as trancinhas do cabelo loiro caindo sobre seus ombros para a frente. Ergueu a cabeça, observando de novo seus arredores.
- Ali. - virou-se de lado, apontando para um grupo de pássaros no parque de calda esquisita que pareciam interessados em procurarem algo pelo tapete de grama. Gostava das flores também, mas como seu professor olhava para cima, imaginou que ele se interessaria por aquelas criaturas que, devido a proibição de sua mãe, não podia ter em casa. Animais pequenos lhe deixavam curiosa, apesar de não ter habilidade alguma para tomar conta de um pássaro que fosse. As cores deles eram sempre bonitas, ainda que os que havia apontado apenas apresentassem tons marrons e caramelo. - Preciso desenhar primeiro?
Não havia certeza se deveria segurar direto o pincel e colorir como o professor havia mostrado, então resolveu perguntar, erguendo o olhar para observar o moreno de lentes verdes.
Arman
- Você sempre pode desenhar antes de começar a pintar. No começo, é melhor ter alguma coisa de referência. Use lápis de cor pra desenhar, nas cores que você vai pintar, assim quando você pintar por cima, as linhas vão sumir.
Instruiu a menor, ajustando de novo os óculos para observar tudo sob um filtro verde, especificamente o que ela tinha lhe apontado que gostava. Pegou os pincéis e deixou-os à disposição de Adelaide, pegando uma folha para ele mesmo começar a pintar algumas coisas, embora o seu desenho fosse mais em tons de verde por conta do que via através das lentes. Outras cores acabavam se tornando diferentes também por conta das lentes e manteve o cenário nos tons que via através das lentes.
Diferente de Adelaide, pintava direto sem precisar de esboços. Ficou observando o trabalho da menina e eventualmente dava algumas dicas de como ela podia conseguir uma cor específica, ou um efeito que ficaria interessante na pintura. Era comum que eles passassem muito mais tempo só pintando do que conversando, e também que esquecesse as horas passando. Mas deixou a sua pintura de lado bem mais rápido já que havia terminado, auxiliando a menina enquanto ela ainda pintava.
- O que achou? - perguntou sobre o trabalho dela mesma, já com algumas manchas de cores definidas em cima dos esboços coloridos que ela tinha feito, com a técnica bem esperada de uma menina da idade dela que já estava acostumada a pintar e desenhar de observação.
Adelaide
Assim que recebeu as instruções de seu professor, concordou em fazer o que ele esperava que fizesse. Pegou alguns lápis de cor de seus materiais para tentar fazer as formas dos pássaros, mas era bem mais difícil conseguir desenhar um animal se mexendo que um parado. Estava aprendendo isso com um pouco mais de paciência, como de costume, mais focada em observar e desenhar, assim como colorir, ao invés de conversar.
Eram naqueles pequenos momentos com seu professor que não se sentia assim tão diferente de outras pessoas. Ele também era o tipo calado, mas que amava desenhar e criar com as cores e formas. As obras dele eram inspiradoras e estimulavam sua mente a criar novos desenhos. Talvez, se não tivesse iniciado suas aulas particulares com o mais velho, estivesse bem pior com a partida de sua mãe. Talvez fosse ele parte do plano que a mulher tinha reservado para ela.
Demorou alguns instantes para erguer a cabeça, o pincel ainda em mãos com as gotas preenchidas de tinta que corriam e enchiam a folha de seu desenho. Não mexeu a folha a princípio, mas ao fazê-lo para mostrar o desenho para o professor, a água correu, deixando os pigmentos da asa de seu pássaro com traços mais infantis com uma linha amarela cortando o papel.
Baixou o olhar, incerta do que ele acharia de seu desenho, mas observou o dele com algumas manchas “fora do controle” como ele mesmo havia explicado.
- Por que o senhor sempre usa seus óculos, professor? - perguntou por um instante de curiosidade, sem deixar de notar os tons mais esverdeados do desenho dele, a obra lhe chamando a atenção pela escolha dos pigmentos feito pelo professor.
Arman
Observou as formas do desenho dela gradualmente tomarem cor. Claro que havia sempre os acidentes de se mexer com aquarela da primeira vez, como não saber onde colocar os pigmentos, exagerar em cores e diminuir em outras, ou principalmente deixar a água em excesso escorrer por não saber a quantidade adequada para o trabalho. Mas não fez nenhuma crítica e apenas mostrou como ela podia lidar com alguns daqueles detalhes e utilizá-los em favor do desenho, até mesmo a linha amarela da água que tinha escorrido, mostrando como ela podia tirar o excesso da água com um pedaço de pano ou de papel e pintar por cima, ou até mesmo deixar mais gotas escorrerem para que se tornasse um detalhe proposital.
Já tinha deixado o próprio desenho de lado para começar outro com uns tons mais indistintos com flores coloridas mais adiante. Os tons brancos das pétalas certamente sairiam diferentes sob a sua lente colorida, assim como os amarelos e rosas. Antes de começar a misturar novos tons, voltou a atenção para Adelaide, curiosa com os seus óculos de lentes diferentes.
- Porque não tem graça olhar as coisas como elas são, sempre. - respondeu, tirando os óculos e estendendo para ela, esperando que ela os usasse também. - Quando eu uso lentes de cores diferentes, posso ver como as coisas realmente são, quando olho por cima das lentes, e como elas poderiam ser com outro tom de cor, olhando através das lentes coloridas. Eu gosto de tons de roxo, azul, índigo, anil… cores mais frias. Mas uso todos os tipos de lentes quando saio. Você quer testar?
Adelaide
Arman sempre corrigia seus ensaios e acompanhava sua produção. Apreciava a companhia de seu professor. Quando ele conseguiu lhe mostrar que o que entendia como erro poderia ser feito com propósito, ficou interessada, sorrindo discreta com o canto dos lábios como se tivesse descoberto algo fantástico. Ergueu o olhar para observar o mais alto, compreendendo exatamente o que ele queria dizer sobre ser sem graça sempre olhar para as mesmas coisas.
Estendeu as mãos pouco tempo demais dele lhe estender os óculos, segurando a peça com cuidado pelas hastes. Observou o objeto em suas mãos enquanto ouvia sobre os tons diferenciados que o professor gostava de utilizar. As cores mais frias combinavam com ele, de fato, acharia estranho encontrá-lo com cores tão alegres. Afastou os cabelos loiros antes de arrumar os óculos em sua face, observando a figura de seu professor logo depois. Entreabriu os lábios, surpresa com os efeitos visuais que surgiam pelo uso das lentes coloridas.
- É tudo verde. Pessoas com olhos verdes conseguem enxergar assim? - perguntou com certa curiosidade, baixando o olhar para observar sua pintura e a de seu professor. Ficou surpresa com as cores que viu nos desenhos e começou a mexer em uma de suas trancinhas, passando os fios da ponta da trança entre seus dedos.
Arman
Deixou que ela provasse as suas lentes, observando os desenhos e os cenários ao redor enquanto se distraía com o efeito da camada de verde por cima. Ajustou a posição em que estava sentado, ficando atrás da menina para poder observar o mesmo cenário que ela e apontar exatamente as diferenças que haviam no desenho dela. Naquela altura, poderia até apoiar o queixo no topo da cabeça dela, mas apenas inclinou-se um pouco para o lado, estendendo o braço para apontar alguns detalhes no que ela já tinha feito onde poderia ser ajustado.
- Você pode agora pintar algumas coisas em tons de verde… - explicou, quando ela lhe perguntou se as pessoas de olhos verdes enxergariam daquele jeito. Até deixou um sorriso breve no canto dos lábios com a pergunta infantil. - Não, você tem olhos azuis, enxerga tudo em tons de azul? Todos enxergam nas mesmas cores… menos pessoas com problemas de visão, como daltônicos. Essas pessoas não conseguem enxergar direito tons de azul, vermelho e verde. Mas eu não sei como seria ver tudo em marrom. Algumas pessoas também só vêem tons de cinza. Parece meio sem graça, não é?
Voltou à posição em que estava sentado antes, depois de apontar os ajustes no desenho da criança, encostando-se ao tronco, da árvore de novo. Pegou o segundo desenho que tinha começado para adicionar alguns detalhes em cima da aquarela que já havia secado.
- Vamos ficar mais um pouco aqui, pode aproveitar pra desenhar com os meus óculos se quiser também.
Adelaide
Não se incomodava com a aproximação do professor, contanto que ele não tocasse em seus cabelos. A forma como ele tomava cuidado em que ensinar sobre desenho sempre lhe era bastante agradável, pois gostava de ouvir a voz do mais velho, mais calma e tranquila, menos afobada que a maioria dos adultos ao seu redor. Negou com um balanço leve da cabeça sobre enxergar em azul por ter os olhos azuis, mas pareceu surpresa ao ouvir falar sobre aquelas pessoas especiais que não enxergavam cores direito. Contudo, não respondeu sobre enxergar o mundo em tons de cinza, havia dias em que as cores lhe incomodavam e preferia mesmo enxergar tudo em cinza. O ambiente da escolinha era repleto de cores e toda aquela alegria e informações chegava a lhe incomodar e lhe dar dores de cabeça.
- Professor. - chamou o mais velho enquanto continuava a desenhar, testando novas cores de percepção alterada devido às lentes coloridas que estava utilizando. Não removeu os óculos de seu rosto, gostando do efeito do verde em sua visão, tal como era diferente olhar por cima das lentes, imitando o mais velho. - Professor… - fez uma breve pausa, recordando de como alguns de seus colegas e até mesmo professores pareciam ignorar sua realidade, como se não fizesse ideia do que estivesse acontecendo. - … alguém que não vê… pode desenhar assim?
Não voltou sua atenção para o professor, mantendo o olhar ainda atencioso ao seu desenho e ao que observava para desenhar. Pegou uma nova folha para tentar de novo, cansada das cores no desenho dos pássaros, queria tentar desenhar algumas das flores no parque - ao menos as flores era uma memória mais vívida e fácil de desenhar em sua cabeça.
Arman
Adelaide pareceu gostar das lentes diferentes para pintar com outros tons de cores. Não continuou a própria pintura, observando o que ela fazia e vez ou outra indicando onde poderia melhorar. Só voltou a atenção para a criança quando ela lhe chamou pelo título que soava bem estranho, mas não respondeu, esperando ouvir a pergunta. Concordou inicialmente apenas com um breve "hm", para pegar outra folha com um lápis daquela vez.
- Existem muitos artistas famosos que não conseguem ver. A maioria deles já enxergou um dia e hoje continua trabalhando com cores e formas. - respondeu, fechando os olhos por um instante para desenhar uma forma básica de uma flor sem tirar o lápis da folha. Ficou apenas bagunçado e com linhas inconstantes, mas era reconhecível. - Quando você já viu alguma coisa, consegue reproduzir da memória, criar imagens novas, cores novas. Mas tem pessoas que fazem isso sem nunca ter enxergado antes. - explicou, pegando o pincel daquela vez e fazendo formas mais indistintas, sem precisar seguir uma forma. - Alguns usam o tato, ou trabalham com formas abstratas. Alguns conseguem até reproduzir muito do que vemos sem nunca terem visto. Eles desenvolvem técnicas, experimentam, aprendem, praticam. Se quiser ver alguns, tem um pintor turco chamado Esref Armagan, que nunca enxergou na vida mas desenha cenários bem coloridos. John Bramblitt, ficou cego e começou a pintar depois de ficar cego. Ele usa cores bem fortes, são pinturas bonitas. Eu posso mostrar algumas pinturas um dia. Podemos visitar a galeria de Cerise também.
Entregou a ela o papel que tinha riscado como teste, onde estavam anotados os nomes de alguns artistas que lembrava exatamente dentro do que ela tinha pedido.
- Pode pesquisar sobre eles também, se quiser, pode lhe servir de inspiração.
Adelaide
Parou de desenhar assim que o professor começou a explicar sobre pessoas que conseguiam desenhar mesmo sem enxergar. Ergueu o olhar novamente, observando-o enquanto ele explicava sobre desenhos sem o uso da visão e até mesmo lhe dava um exemplo de como desenhar sem precisar usar os olhos. Ficou quieta durante alguns instantes, observando o mais velho em silêncio, admirando a forma como ele não tinha problemas em falar sobre aquilo que gostava e sobre o que também interessava a ela.
Pressionou o pincel entre os dedos e respirou fundo, ainda acompanhando a explicação de seu professor. Ele parecia tão certo do que dizia, como se aquele tipo de conhecimento lhe fosse tão simples como respirar. Era tão diferente poder ter aquelas aulas com seu professor, diferente de quando estava na escolinha e tinha que suportar ouvir suas professoras falando tudo de uma forma mais infantil, repetindo diversas vezes informações para aquelas crianças que costumavam lhe importunar. Talvez não fosse tão acostumada a ser uma criança afinal, sem irmãos e sem pai, sua mãe era a única pessoa que podia chamar de família e ela havia lhe ensinado muito sobre como se comportar e como não agir como aquelas crianças ridículas.
- Algum dia, pode me mostrar uma exposição sua, professor? - perguntou, ainda observando o mais velho enquanto ele lhe entregava aquela nova folha com as informações e o desenho que ele próprio havia feito. Encarou a figura do moreno, verdadeiramente interessada. Gostava bastante do trabalho de seu professor e poder encontrar os desenhos dele em uma galeria ou exposição lhe deixava entusiasmada.
Arman
Adelaide sempre parecia bem compenetrada nas próprias pinturas e era comum ouvi-la falar mais quando estava dando as aulas. Não ia continuar ali por muito tempo, procurando coisas diferentes para observar enquanto ela trabalhava. Talvez devesse ter levado a câmera para tirar algumas fotos, mas na falta dela, pegou o celular para tirar algumas fotos do local e também de Adelaide fazendo a pintura com o óculos verde. Como estava acostumado, as fotos eram mais naturais e desavisadas e geralmente seus modelos nem sabiam que estavam sendo fotografados.
Já tinha baixado o celular quando ela lhe pediu para ver uma exposição sua um dia.
- Eu nunca fiz uma exposição sozinho. Já participei de outras em St. Clavier, na galeria de Cerise e algumas vezes em Paris. Quando tiver alguma coisa nova, eu te levo. - respondeu, pensando nas peças que estava fazendo para concursos e para exposições, além daquelas que enviava para galerias ou que eram encomendas de fotografias.
Não demoraram mais tempo do que já tinham passado ali. Antes que percebesse, o clima já estava mais ameno indicando o fim da tarde. Não tinha desenhado mais nada, mas Adelaide parecia bem interessada em testar tudo que tinha explicado sobre as aquarelas.
- Está na hora de voltar. - anunciou, para que ela começasse a guardar as próprias coisas também.
Adelaide
Diminuiu o interesse no próprio desenho ao ouvir a resposta de seu professor e ponderou sobre as exposições que ele dizia participar. Imaginava que alguém como ele já deveria ter uma exposição para apenas o próprio trabalho. Ao menos era o que desejava que acontecesse. O professor Johnson era uma das poucas pessoas em Cerise que ainda conseguiam fazer com que esquecesse por um instante a partida de sua mãe daquela cidade.
Continuou colorindo em silêncio, misturando algumas das cores com a aquarela, notando que o efeito na água era bem diferente que com a tinta pura. Para uma criança, sua percepção de cores era mais avançada a julgar pelo tipo de interesse e atenção que dava às artes. Por esse motivo, seus ensaios possuíam uma mistura de cores e proporção mais agradável para algo produzido por uma criança da sua idade.
Ao menos a aquarela não manchava tanto assim seus dedos, ao contrário de sua roupinha, mas pouco se importava com as cores que espirrava naquela vestimenta escolhida por sua tia Annabelle, sabia que ela não discutiria sobre isso e que levaria tudo para a lavanderia de qualquer forma.
Concordou com um aceno positivo sobre a hora de irem embora dali, guardando seus materiais na mochilinha e devolvendo o que era de seu professor para que o moreno pudesse guardar também. Ergueu-se da grama, observando os tons do céu que se alteravam com o processo do entardecer. Eram as cores mais interessantes que já observara em sua vida por trás daqueles óculos de lentes esverdeadas. Não parecia ansiosa ou inquieta, mas distraída com a cena no céu sobre suas cabeças. Segurou uma das tranças entre seus dedos, brincando com os fios de seu cabelo em silêncio enquanto imaginava uma tela viva pintada com os movimentos daquele céu.
Arman
Adelaide começou a organizar as coisas quieta como estava bem acostumado da menina. Ela ainda ficou com o seu óculos ao longo do caminho, mas depois de separar tudo entre os dois, tirou a sua paleta de aquarelas em pastilha e estendeu na direção da da garota, com um trio de pincéis já usados.
- Fique com esses, assim você pode praticar mais. São seus. - deixou que ela colocasse as tintas na própria mochila, estendendo a mão para segurar a dela e seguirem o caminho de volta até a sua casa. - Quando vier de novo, vamos chamar a Clementine. Podemos desenhar no parque da próxima vez.
Esperou apenas a confirmação da menina e continuaram até em casa. Certamente ele não era um professor muito bom, mas era interessante tentar ensinar algumas técnicas para a menina que era tão mais quieta do que ele tinha sido. Além do mais, com a ida da mãe dela embora, ela parecia precisar de mais companhia, quem sabe sair um pouco com Clementine também a deixasse um pouco mais animada. Não demoraram muito a chegar em casa, e a primeira coisa a notarem foi o cheiro de torta e a conversa animada que vinha da cozinha.
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