[Drive] Um Momento Difícil [Benjamin; Mathew]
#1
Benjamin

A sexta-feira começou como um dia de escola como qualquer outro. Claro que nos últimos dias, as coisas tinham ficado um tanto mais agitadas por ali, particularmente em St. Clavier com alguns boatos sobre problemas na enfermaria, alunos brigando nos corredores, outros alunos em crise e mais uma série de fofocas que até mesmo Benjamin ouvia nos corredores e na sala de professores. A mais recente daquela semana, entretanto, era um pouco mais preocupante, por ter chegado aos noticiários a presença de um assassino perigoso na cidade e para que as pessoas tomassem cuidado com os contatos.

Não era alguém que ele tinha visto, não era alguém de quem queria se aproximar e tinha até comentado com Mathew sobre o caso num daqueles dias, e claro que o namorado estava igualmente preocupado com sua segurança. Mas St. Clavier parecia um lugar bem seguro para não se preocuparem, até a segurança tinha aumentado nos últimos dias e havia mais uma série de rumores sobre as decisões recentes do diretor.

A nova notícia que incomodou os alunos na manhã e no início da tarde daquela vez foi mais extrema, sobre uma criança ter sido encontrada morta naquela madrugada. Benjamin não chegou a ver detalhes, mas preferiu não se aprofundar muito nos rumores que já chegavam a extremos do tipo que o corpo tinha sido encontrado sem olhos. Juntando a notícia com o fato de que tinha um homem perigoso na cidade, a cidade tão pacata de Cerise parecia ter ficado bem agitada. Os rumores lhe deixaram um pouco incomodado então, assim que encerrou as últimas aulas, só seguiu até a enfermaria para encontrar Mathew e torcer que ele não estivesse atendendo ninguém.

- Mat? Tem algum aluno aqui? - perguntou, depois de bater leve na entrada da enfermaria, seguindo até o enfermeiro sentado à mesa dele. - Minhas aulas acabaram, vai demorar muito, pra irmos pra casa?

Mathew

Tal como em qualquer sexta-feira, havia ajudado alguns alunos logo cedo pela manhã após alguns acidentes nos esportes. Coisas bobas. Ajudou alguns outros com remédio para indigestão após o almoço e voltou aos seus próprios estudos enquanto tudo parecia bem na instituição. Bem não era a palavra adequada para o cenário mais recente. Continuava preocupado com o amigo psicólogo que não parecia nenhum pouco inclinado a conversa e não sabia ao certo como abordar o assunto com o namorado quando ele claramente não simpatizava com o sujeito.

Ouviu comentários aqui e ali em sua saída para o almoço, ouvindo os rumores sobre um caso de assassinato recente e o fato de ter sido uma criança. Tudo no que conseguia pensar era em seus sobrinhos e como eles deveriam estar seguros do outro lado do oceano. Estava tenso com toda aquela segurança no campus e agradecia mentalmente que havia se mudado com o namorado e não vivia mais ali nos dormitórios dos professores. Por outro lado, sabia que os outros professores, seus colegas, continuavam ali, tal como muitos dos alunos dos quais gostava bastante.

Estava pensando em mandar uma mensagem para o namorado para saber se poderiam pedir comida naquela noite e saírem para poder ver algum filme no cinema. Precisava se distrair um pouco e gostava de passar seu tempo livre em programas com o inglês. Estava com o celular em mãos, justamente pensando em como enviar uma mensagem para o homem quando ouviu a voz dele no recinto, fazendo-o girar na cadeira de rodinhas, esboçando um sorriso animado por poder vê-lo no meio do trabalho.

- Oi, Benjamin. Não, na verdade, eu iria perguntar se não quer sair, ver um filme. - respondeu, levantando-se para passar a mão pelos cabelos, tentando deixá-los no lugar. - A gente… também pode ver algo em casa. - adicionou, ciente dos alertas da polícia sobre a situação na cidade.

Afastou-se após apertar algumas teclas de seu computador, buscando sua mochila para colocar o aparelho desligado dentro, tal como um dos livros de fisiologia humana que estava revisando naquele momento. Arrumou os óculos, aproximando-se de Benjamin para lhe tocar o ombro, sorrindo ao indicar que podiam ir embora. Deixou as janelas fechadas e as luzes desligadas ao sair, certo que não havia deixado nenhum aluno ali dentro.

- Você viu as notícias hoje? Os professores e os alunos estavam comentando hoje no almoço sobre a segurança. Quem diria que uma cidadezinha no interior francês seria tão problemática assim, não é? - comentou, curioso e comunicativo como de costume, estendendo a mão para segurar a do namorado ao deixarem o trabalho, continuando seu treinamento de admitir em público que estava namorando um homem e que não tinha problemas com aquilo. Talvez algum dia tivesse alguma crise respiratória no meio daquele tipo de situação quando seus irmãos resolvessem lhe visitar de supetão. Era algo bem típico deles.

Benjamin

Benjamin logo conferiu que não havia mais nenhum aluno na enfermaria e se permitiu entrar e fechar a porta enquanto Mathew desligava o computador. Ouviu a sugestão de irem para o cinema, mas com as notícias recentes, não estava realmente com disposição para tal. Acenou em negação com a cabeça para a primeira ideia, esperando que Mathew arrumasse as coisas.

- Prefiro ficar em casa hoje. - ele respondeu, apenas acompanhando o enfermeiro com o olhar até que tudo estivesse fechado na enfermaria para saírem.

Seguiram ao longo dos corredores e só quando já estavam fora do prédio foi que ouviu o questionamento de Mathew sobre as notícias que tinham corrido a escola o dia todo. Sentiu a mão segurando a sua e era o tipo de coisa com a qual estava começando a se acostumar, mas ainda segurou apenas os dedos do namorado de modo mais discreto até alcançarem a parada de ônibus para voltar ao Distrito Residencial.

- Eu ouvi, os alunos estavam comentando isso o dia todo hoje. Foi difícil se concentrar na aula. - Benjamin respondeu, com um suspiro incomodado. - Eu não achei que ia ouvir esse tipo de notícia em Cerise também, mas… acho que essas coisas acontecem, no fim das contas, não é? - ele deu de ombros, tentando não se importar tanto com a notícia, por mais incômodo que fosse saber que alguém tinha a capacidade de matar uma criança, especialmente se todos os rumores dos alunos não fossem tão exagerados sobre o jeito como tinha sido encontrado. - Não importa, prefiro não pensar nisso. Estou cansado, quero ir pra casa, comer e dormir.

Ele apenas cruzou os braços, na espera do ônibus que não demorou mais que dez minutos, para uma viagem curta também de menos de vinte minutos até estarem em casa antes mesmo do anoitecer, e só o ato de entrar em casa e fechar a porta deixou o inglês mais aliviado, a ponto de suspirar longamente.

Mathew

Assentiu com a vontade de Benjamin, imaginando que ele deveria estar muito cansado do trabalho naquela semana. Entendeu o motivo quando ele lhe contou no ônibus sobre a comoção que havia ocorrido durante as aulas devido ao assassinato da tal criança. Sorriu quando Benjamin disse que queria apenas ir para casa, comer e dormir. Talvez fosse justamente aquilo que ele precisasse. Lidar com os adolescentes naquela época mais violenta deveria ser realmente complicada. Já havia notado em diversos casos em St. Clavier, como a instituição possuía alguns discentes especiais, com problemas peculiares.

Assim que chegou em casa, acendeu as luzes e trancou a porta. Deixou as chaves no apoiador como de costume e seguiu na direção da cozinha, mas sem antes se voltar para o inglês, avisando:

- Por que não toma um banho primeiro, Benjamin? Eu vou preparar algo para o jantar e depois vou tomar um também. Mas vá na frente. Parece estar mais cansado hoje. - aconselhou e seguiu para lavar as mãos. Talvez devesse preparar um chá calmante para o inglês. Ele merecia depois de encarar uma turma inteira falando sobre um assunto desagradável como aquele.

Usou algum arroz que havia na geladeira para refogar e preparar um risoto com legumes enquanto deixava o filé de peixe passando na panela anti aderente. Estava tentando manter uma dieta mais saudável desde seus últimos exames, então também estava tentando cozinhar mais em casa e comprar menos coisas instantâneas. Deixou tudo pronto na cozinha, apenas preparado para ser servido. Não era algo demorado para ser preparado, era tempo mais que suficiente para o namorado tomar um bom banho e se trocar. Contudo, enquanto preparava a refeição e ele não estava ali presente, ligou a televisão na sala, distraindo-se com o noticiário nacional e algumas matérias sobre novelas locais e casos famosos envolvendo escândalos políticos.

Diminuiu o volume da televisão, esperando no sofá pelo retorno do namorado para saber que o banheiro que dividiam estava livre. Poderia usar o banheiro social, é claro, mas não era como se seus produtos de higiene estivessem nele.

Benjamin

Benjamin concordou com um aceno de cabeça quando Mathew sugeriu que fosse tomar um banho enquanto ele preparava algo para o jantar. Subiu as escadas para o quarto e fez exatamente o que Mathew disse, entrando no chuveiro e deixando a mochila com as coisas da Academia no escritório antes de ir até o próprio quarto. Demorou um pouco mais no banho, distraindo-se e relaxando com a água morna escorrendo pelos cabelos para se sentir um pouco mais revigorado e relaxado até. As notícias inconvenientes daquele dia tinham lhe deixado incomodado, mas não era nada que lhe afetasse diretamente, no fim das contas.

Saiu do banho depois de quase vinte minutos. Vestiu uma calça de moletom e uma camisa branca de tecido leve, e pegou o celular, checando e-mails e mensagens, enquanto a toalha ficava jogada sobre a cabeça com os cabelos ainda pingando.

Desceu as escadas descalço, sorrindo com as mensagens que recebia da mãe de Mathew, perguntando se estava se cuidando e se Mathew estava fazendo o mesmo. Gostava da preocupação excessiva da família do canadense, talvez porque não tivesse tido aquilo, era até aconchegante. Respondeu com algumas mensagens breves, como sempre, e foi quando passou direto pela sala apenas para ver uma foto muito específica de uma criança loira e de olhos claros que lhe fez parar imediatamente no caminho.

Primeiro, teve uma leve sensação de nostalgia com aquele rostinho pequeno, mas logo voltou à atualidade reconhecendo imediatamente o rosto de Adelaide, filha de Juliette que tanto tinha lhe aconselhado antes de ficar com Mathew e com quem nunca mais tinha conversado até então. E por que é que a imagem dela estava no noticiário? Sentiu o corpo gelado, lembrando-se dos rumores de mais cedo na escola e finalmente ouviu a notícia narrada pela âncora do noticiário. A sensação que teve foi como se um buraco tivesse aberto em seu estômago e no momento seguinte, nem ouviu o som do celular caindo no chão. Por um momento, o inglês até esqueceu de respirar.

Mathew

Assim que o namorado desceu, subiu com a mochila para deixá-la no quarto extra que usavam como escritório para os livros de Benjamin e para seu material de estudo. Tirou a camisa no caminho para o quarto, aproveitando que o namorado deveria estar se servindo na cozinha enquanto seguia para o banheiro, tomar um refrescante banho para jantar com o inglês. Com as últimas notícias, imaginava que o clima no trabalho deveria ter estressado Benjamin e, portanto, um filme na sala viria bem a calhar para se distrair com o namorado antes de irem para a cama. Aqueles pequenos detalhes de uma vida mais tranquila é que lhe faziam apreciar ainda mais a ideia de dividir aquela residência com o outro.

Tomou um bom banho, saindo do banheiro com a toalha sobre os cabelos ainda úmidos, outra toalha ainda na cintura quando ouviu o ruído alto vindo do andar de baixo. Surpreso, aproximou-se da escada e chamou pelo namorado, inicialmente sem resposta alguma. Pressionou os lábios, sentindo como se algo errado estivesse acontecendo. Desceu os primeiros degraus e voltou a chamar por Benjamin, novamente sem resposta.

Desceu descalço e mais rápido pelos degraus até o corredor que levava para a cozinha e para a sala, ouvindo o noticiário que continuava a anunciar o caso da criança que havia sido brutalmente assassinada pelo assassino de Cerise. Encontrou Benjamin estático, como se estivesse em choque e não pensou duas vezes antes de se aproximar, estendendo as mãos para poder segurá-lo pelos ombros, chamando-lhe a atenção de uma forma mais brusca.

- Benjamin! Benjamin! O que-O que houve? - tocou-lhe o rosto, incomodado com a ideia de que a televisão ainda estava anunciando os detalhes da investigação sobre o tal assassinato da criança. Afastou-se rapidamente para desligar o aparelho, voltando logo depois a dar atenção ao namorado, confuso com a reação repentina do homem.

Benjamin

A notícia foi tão preocupante para o inglês que ele não conseguiu sequer sair do momento de transe mesmo depois de derrubar o próprio celular. Pareceu difícil até mesmo respirar, a ponto de ignorar - ou sequer ouvir - os chamados de Mathew. Só voltou a atenção para o namorado quando ele lhe chamou com mais força, segurando-lhe os ombros com ímpeto.

- E-eu… - Benjamin soltou o ar finalmente e quando Mathew se adiantou para desligar a TV, pareceu despertar do choque. - Não! Não desligue…! Eu escutei errado, não foi?!

Desvencilhou-se de Mathew para pegar o controle de volta e ligar de novo a TV, aproximando-se mais do aparelho para se certificar de que a imagem que tinha visto era mesmo da garota que conhecia, e que todas aquelas informações que passavam pelos corredores de St. Clavier eram verdade, do modo trágico como ela tinha sido assassinada… o excesso de informações no noticiário fizeram com que seu estômago embrulhasse e levou uma das mãos aos lábios, cobrindo a boca com a náusea que surgiu ali.

- Mat… Mathew? É mentira, não é? - virou-se para o namorado, ignorando a notícia na TV que já estava mudando de foco. Aproximou-se do namorado, segurando as roupas dele com força, obviamente nervoso e exasperado com a situação. - Ela não… eu a vi, outro dia, estava tudo bem…! Ela está bem, tem que estar…

Engoliu em seco com o próprio pensamento e no mesmo instante, as informações se confundiram em sua cabeça, adiantando-se para pegar o celular que tinha deixado cair.

- Mary Ann… eu tenho que falar com ela.

Mathew

Ficou confuso com a reação de Benjamin. Ele parecia estar em choque a priori, mas logo em seguida, as palavras dele pareciam estar associadas com o caso que estava sendo transmitido na televisão. Encarou o namorado no próprio desespero e se adiantou para segurá-lo pelas mãos, tentando fazer com que Benjamin se concentrasse no que estava acontecendo.

- Benjamin, presta atenção. Está tudo bem. A sua irmã está bem. - estendeu uma das mãos para o rosto do inglês, mantendo-se próximo para que ele prestasse atenção no que dizia. - O que aconteceu? Você… - fez uma breve pausa, só conseguindo concluir que o noticiário com o assassinato recente e chocante da criança deveria ter tido um impacto maior do namorado. - … você viu a criança?

Claro que já havia visto a imagem da menina assassinada antes e aquilo havia lhe deixado desconfortável. Sua curiosidade no trabalho logo lhe fez procurar sobre o caso e tão pronto buscou, acabou encontrando imagens da menina assassinada. Não havia comentado nada sobre a tal criança, pois também não se sentia à vontade em falar sobre a menina loirinha sendo ele tio de quatro crianças, duas delas próximas da idade da vítima.

- Se acalme um pouco, Benjamin. Me diga primeiro, o que aconteceu? - perguntou de novo, guiando o loiro para que se acomodasse no sofá. Tinha certeza que a irmã dele estava bem, justamente por saber que ela deveria estar longe dali. Contudo, uma notícia como aquela e o perigo que cercava Cerise certamente deixaria a mulher preocupada com o irmão mais velho. Imaginava se Mary Ann poderia surgir na cidade a procura de Benjamin se fosse realmente o caso.

Benjamin

Foi guiado até o sofá pelo namorado, ainda com a expressão obviamente atormentada e pálida, com o celular na mão discando o número conhecido de Mary Ann. Para a sua infelicidade, o celular apenas chamou várias vezes e caiu na caixa postal, o que lhe deixou mais nervoso a despeito de Mathew estar tentando lhe acalmar e entender o que tinha acontecido. Passou a mão pelo rosto, exasperado, e colocou os cabelos para trás até ligar de novo e ouvir a resposta animada do outro lado.

- Mary Ann? Onde você está? Você está bem? - perguntou de imediato, mal dando tempo para que a irmã respondesse ou o cumprimentasse de volta. Ouviu as respostas da irmã e o tom de preocupação na voz feminina conhecida, mas mesmo daquele jeito, ficou aliviado. - Não, não foi nada. Só queria falar com você, está tudo bem.

Suspirou mais tranquilo, deixando Mathew um pouco impaciente com a demora em responder o que estava acontecendo. Mas sentiu a cabeça doer com as informações recentes que estavam difíceis de processar. Desligou o celular depois de se despedir brevemente da irmã reafirmando que estava em Paris e tinha acabado de sair do trabalho, para deixar o celular de lado e passar a mão no rosto de novo. Só então ele voltou a atenção para Mathew, a expressão ainda desolada com a breve descoberta. Ignorou o noticiário que não estava mais focado no caso do assassinato da menina e engoliu em seco algumas vezes para falar.

- A menina, da notícia… eu a conhecia. - respondeu finalmente, num fio de voz embargado. - Eu… fazia tempo que eu não a via, mas eu era amigo da mãe dela. Ela… ela gostava de pintar, e quando eu aparecia na floricultura. Até achava que eu era… um príncipe.

Ele sentiu o nó no topo da garganta e baixou o rosto, escondendo-o entre as mãos apoiadas nos joelhos, os soluços se perdendo nos lábios enquanto os ombros estremeciam levemente. Com certeza ele passava bem longe de um príncipe, se tinha deixado-a de lado por tempo suficiente para que não pudesse tentar ajudá-la, de alguma forma.

- Ela está mesmo… morta, Mathew. Era ela…

Mathew

A confusão e o desespero de Benjamin lhe deixavam em um estado de atenção e preocupação intensa, afinal de contas, ele era sua família agora. Preocupava-se com o estado do inglês tal como se preocupava com o bem estar de seus irmãos, pais, sobrinhos. Ficou ao lado do homem, estendendo uma mão para as costas do mesmo, tentando mostrar que ele não estava sozinho e que estava de fato tudo bem ali. Era difícil, contudo, conter a própria curiosidade e o nervosismo por não receber nenhuma explicação coerente sobre o que estava se passando com ele.

Entretanto, quando a explicação veio, não conseguiu esconder o próprio choque. Então Benjamin conhecia a garotinha assassinada? E ainda conhecia a mãe da menina? Pressionou os lábios, estendendo as mãos para os ombros do inglês, segurando-o em um abraço enquanto ele soluçava, entregue ao choro do luto por uma menina inocente vítima da violência que assolava aquela cidadezinha do interior francês.

- Eu… eu sinto muito, Benjamin. Sinto mesmo. - tentou dividir a dor do namorado, mas entendia finalmente o motivo pelo qual ele parecia tão abalado com o assassinato no noticiário. - Sinto muito que tenha que passar por isso. - inclinou-se, beijando o topo da cabeça do inglês, mantendo-o em seus braços.

Baixou o olhar, sentindo os próprios olhos marejarem. Estava estudando para ser um médico e lidar com a morte, mas aquele tipo específico e chocante lhe fazia questionar se ainda haveria estômago para encarar os desafios da profissão. Queria poder proteger o namorado dos próprios sentimentos, mas bem sabia que diante do luto, o que podia fazer era apenas aceitar e encarar os sentimentos pela perda de alguém querido.

Esperou alguns instantes para que Benjamin se acalmasse para afagar-lhe a cabeça, afastando-se alguns centímetros, anunciando que voltaria logo. Aproveitou para colocar uma roupa, passando na cozinha rapidamente para buscar um copo com água para o inglês. Aproximou-se no sofá, inclinando-se de novo para beijá-lo na cabeça e lhe oferecer o copo com água.

- Você quer… - fez uma breve pausa, estendendo a mão para o rosto do namorado, secando-lhe as lágrimas com o polegar. - … quer ir no velório…? - perguntou, ciente que após realizadas as investigações, a menininha deveria ser sepultada. Não imaginava se o homem teria forças para ir se despedir da criança, mas se esse fosse o caso, queria ir com ele.

Benjamin

Os braços de Mathew em volta dos seus ombros provavelmente deram um conforto a mais para que Benjamin deixasse as lágrimas escaparem. Aproveitou o abraço e a proximidade, escondendo o rosto no ombro alheio para se dar ao luxo de lamentar a perda da garotinha com quem tinha até se acostumado no curto período de convivência. Mais surpreendente foi se sentir aliviado por descarregar as emoções negativas na companhia do namorado que, cada dia mais, tinha que admitir que lhe fazia muito mais bem do que teria imaginado em sua vida desregrada e solteira.

Deixou que Mathew se afastasse, passou a mão pelo rosto avermelhado e se encostou melhor no sofá, ainda ouviu as notícias que chegavam aos ouvidos mas não faziam muito sentido. Não queria prestar atenção no que estavam dizendo e acabar descobrindo algo pior. Nem percebeu quanto tempo Mathew passou longe, mas logo ele tinha retornado com um copo de água, passando a mão pelo seu rosto também. Estava levando o copo à boca quando Mathew perguntou se queria ir ao velório e deteve o movimento no mesmo instante. Não sabia se teria estrutura emocional para aquilo, mas também não queria se manter afastado como tinha feito a ponto de não perceber que ela precisava de alguma ajuda.

- Eu... vou falar com a mãe dela. - respondeu finalmente, esquecendo-se de beber água mesmo com o copo em mãos. - Eu vou no velório. Você vai comigo, não é? - segurou a mão de Mathew, encarando-o um tanto nervoso como se houvesse a possibilidade dele lhe negar aquilo.

Mathew

O estado abalado de Benjamin lhe deixava angustiado por não saber ao certo como melhorar o ânimo do outro. A situação poderia ser tratada como uma fatalidade, mas não conseguia nem mesmo enxergar aquele cenário de tal forma. Havia sido uma menininha, uma criança, pequena e inocente, que havia sofrido uma morte horrível.

Baixou o olhar quando o inglês disse que falaria com a mãe da criança. Não fazia ideia de que ele tinha esse tipo de conhecimento sobre a família da vítima. Ergueu o olhar novamente, encarando o namorado de volta antes de poder responder sobre a pergunta dele.

- Claro, Benjamin. Claro que vou estar com você. - correspondeu ao aperto em sua mão, trazendo a mesma até seus lábios em um gesto carinhoso. Estendeu o braço para as costas do namorado, afagando-o na tentativa de acalmá-lo. - Vai ficar tudo bem. Estou aqui com você. Você não está sozinho, Benjamin. - repetiu, tentando fazer com que o inglês se tranquilizasse um pouco mais.

Ficou com ele durante mais alguns instantes quieto, apenas aguardando que ele bebesse a água e que ficasse um pouco mais calmo diante de toda aquela tragédia. Acomodou-se melhor no sofá, sem soltar a mão do inglês no processo, mantendo-o próximo.

- Quer falar… sobre o assunto? - perguntou antes de mais nada. Sabia que algumas pessoas lidavam de forma diferente com o luto. Para ele, era difícil não falar a respeito, mas não era próximo da criança ou da família dela, por isso queria apenas garantir que Benjamin ficaria bem.

Benjamin

Mesmo que tivesse certeza da resposta positiva de Mathew, sentiu o nó na garganta sumir quando ele confirmou bem convicto que lhe acompanharia ao velório. Só então, pegou a água para beber de fato, apenas alguns goles, deixando o copo de lado logo em seguida com a reafirmação de Mathew de que não estava sozinho. E como era bom ouvir aquilo.

- Eu sei. - respondeu, com um tom um pouco mais relaxado do que o tenso de antes. Ainda sentia os dedos das mãos um pouco dormentes e talvez frios com o susto da notícia, mas aproveitou o contato com o namorado para sentir a pele esquentar. - Hm... - ponderou um pouco sobre querer ou não falar do assunto tão logo tinha acabado de descobrir que a menina morta era Adelaide. Ainda encarou o chão por uns instantes, mas finalmente suspirou, voltando a encarar o namorado. - Talvez depois... eu... vamos comer alguma coisa?

Não estava acostumado a proximidade com alguém com quem compartilhar aqueles momentos. Mas Mathew sabia tudo de bom e de ruim que tinha acontecido em sua vida, poder depender dele naquela situação era uma sensação nova com a qual não estava acostumado a lidar e, consequentemente, com a qual não sabia lidar. Usualmente, tentaria se fechar e fingir que não tinha acontecido, ou que não tinha lhe abalado. Mesmo propondo a refeição, não foi o primeiro a se levantar. Aproximou-se do namorado e beijou os lábios dele rapidamente, encostando a testa no ombro dele em seguida.

- Obrigado, Mat.

Mathew

Manteve o olhar sobre o inglês, concordando com um novo aceno positivo quando ele preferiu que jantassem ao invés de conversar sobre o assunto. Sorriu discreto com o agradecimento de Benjamin, aproximando-se novamente para abraçá-lo, mantendo-o em seus braços com mais alguns instantes. Sabia que o namorado havia enfrentado diversos problemas na própria vida no que dizia respeito a criar laços com outras pessoas. Por isso, sentia o peso sobre o homem que havia perdido alguém com quem ele se importava.

Afastou-se alguns centímetros para erguer a mão até o rosto do outro, afastando-lhe os fios claros do cabelo antes de se erguer, segurando-o pela mão para que lhe acompanhasse. Esperou pelo inglês se levantar para seguir na direção da cozinha e sala de jantar.

- Sente-se. Eu trago o jantar. - ofereceu, deixando que Benjamin se acomodasse na mesa de jantar antes de ir na direção da cozinha onde havia deixado a refeição preparada rapidamente. Talvez devesse entrar em contato com Mary Ann depois e explicar melhor o que havia acontecido. Possuía algum receio de que a irmã de Benjamin, preocupada com o estado do irmão, poderia aparecer ali para tirar aquela história a limpo nos detalhes. Sabia que ela não era uma mulher necessariamente curiosa, mas se preocupava de fato com o irmão.

Voltou à sala de jantar com os pratos de ambos e o jantar que precisou esquentar por alguns breves instantes no microondas. Sentou-se ao lado do namorado, lhe oferecendo os talheres e a bebida. Para alguém que havia chorado tanto e que ainda parecia bastante abatido, era bom que ele se hidratasse um pouco com o suco que havia preparado.

- Assim que o semestre acabar, eu estava pensando em fazermos uma viagem para Paris. - comentou, recordando de que ainda precisava ir até a capital francesa para verificar as faculdades na qual tentaria uma aplicação para o curso de medicina. Trouxe o assunto a tona a fim de tentar distrair o namorado para que ele não pensasse tanto sobre o luto. - O que acha? Podemos visitar outros lugares próximos também. - ofereceu, mais calmo enquanto jantava.

Benjamin

Benjamin ficou ainda no conforto da companhia de Mathew antes de se levantarem e seguirem na direção da mesa de jantar. Ficou sentado ali, observando o namorado a distância, a mente divagando por mais coisas das quais queria de fato pensar, mas era inevitável. Sentia o desconforto no topo da garganta, queria parar de pensar tudo que lembrava dos curtos momentos de convivência com Adelaide, mas só desligou dos pensamentos quando Mathew voltou com o jantar, como tinha proposto que comessem.

O silêncio pairou inicialmente, não conseguiu comer muita coisa, então se concentrou mais na bebida. Foi tirado dos pensamentos com a proposta de viajarem para Paris no fim do ano letivo.

- Hm. - foi a única coisa que respondeu inicialmente, com um aceno positivo, como se não estivesse dando verdadeira atenção aos assuntos que Mathew tentava puxar pasta lhe deixar mais confortável. Ainda sugeriu visitarem outros lugares próximos, o que era relativamente fácil de se fazer dentro da Europa. - Parece bom.

Mexeu na comida, levando apenas porções pequenas à boca, visivelmente muito distraído. Mas logo deixou a comida de lado, encarando o outro diretamente.

- Nós poderíamos ir pro Canadá de novo. Visitar sua família, passar uns dias nas montanhas, você disse que fazia isso quando era mais novo, não era? - sugeriu, com uma súbita necessidade de companhia como só a família de Mathew tinha lhe proporcionando até então.

Mathew

Pareceu um tanto desanimador ver Benjamin sem apetite, mas não poderia culpá-lo, afinal de contas, ele havia sido tomado pela tristeza recente de ter perdido uma pessoa querida, ainda mais sendo uma criança tão pequena. A ideia da menina ter novamente a idade e a aparência próxima de seus sobrinhos também lhe deixava aterrorizado.

Fez uma pausa em sua própria refeição. Ainda que estivesse triste pela situação, também estava tentando organizar sua própria alimentação e manter pratos saudáveis em casa era um verdadeiro desafio, pois sempre parecia estar com fome naqueles primeiros meses. Parou para beber um pouco do suco antes de concordar brevemente com a cabeça, ponderando sobre uma viagem para as montanhas. Costumava ir para as montanhas mais com seu pai e irmão, às vezes com as mulheres da família também quando sua mãe se queixava de ser deixada sozinha em casa enquanto seu pai ia embora para se divertir com seu avô. Seu avô que, por sua vez, adorava caçar e fazia disso uma tradição para todos os homens da família Morrison. Mal sabia o senhorzinho que aquilo estava longe de ser seu passatempo favorito.

- Claro. - sorriu, contente que o inglês havia sugerido voltarem ao Canadá. Lembrava que sua família tinha um grande apreço por ele e certamente lhe fariam muito bem naquele momento. Era triste que estava vivendo tão distante de todos eles, mas graças a companhia do namorado, não sentia assim tantas saudades de casa.

Estendeu a mão sobre a do namorado, acariciando-lhe a pele com o polegar, compreensivo com a falta de apetite do outro. Depois de um longo dia de trabalho com tantos adolescentes, receber aquela trágica notícia de uma forma tão surpreendente deveria mesmo ter deixado o outro sem chão. Queria saber o que dizer para diminuir a dor que ele deveria estar sentindo, mas estava longe de ser um psicólogo com o tato de seu amigo grego ou mais observador como o professor australiano.

- Por que… não fala com a sua irmã? Ela não gostaria de viajar com gente? - sugeriu, conhecendo bem a família que tinha e julgando que seus pais não negariam a visita da irmã do inglês tendo ele sido seu melhor amigo desde que havia se mudado para Cerise.

Benjamin

Mathew não demorou a concordar em irem visitar o Canadá de novo, afinal, era a família dele e ele era bem apegado às pessoas lá. Gostava da família dele, sempre unida e com todo tipo de ocasião familiar para se reunirem, nem se importava com o fato de que eles não sabiam ainda de sua relação com Mathew e nem queria ser motivo de algum tipo de briga e principalmente decepção pelos pais dele. Mas logo ele completou a ideia, sugerindo que Mary Ann viajasse com os dois. Desde o mal entendido resolvido com a única pessoa da família que ainda se importava com ele, até gostava da perspectiva de passar mais tempo com a mulher. Observou a mão dele sobre a sua e com o queixo apoiado na outra mão, acabou concordando com um aceno de cabeça.

- Posso chamá-la. Acho que ela ia gostar de conhecer o Canadá, não sei se já foi pra lá ou pros EUA, mas para quem trabalha em museus, deve ter alguma coisa interessante pra que ela veja na América também. - concordou com o namorado, deixando então o resto da comida de lado e levando os pratos de volta para a cozinha, para lavar e se distrair um pouco mais com alguma coisa.

Não demorou muito ali, voltando a atenção para Mathew que já tinha lhe ajudado a limpar e guardar o pouco que tinham bagunçado. Aproveitou o enfermeiro guardando a louça no armário superior à pia e se aproximou, abraçando-o por trás e apoiando a cabeça nas costas dele.

- Vamos pra cama, Mat. - pediu ao outro, esperando apenas a confirmação dele para irem de uma vez para a cama. Precisava de uma boa noite de sono, se é que seria possível, e na manhã seguinte, podia entrar em contato com Juliette e descobrir o que exatamente tinha acontecido, só não tinha condições de fazer aquilo ainda naquela noite.

Mathew

Sorriu com a aceitação do namorado sobre sua sugestão de levar a irmã dele na viagem junto com os dois. Tinha certeza que seus pais adorariam conhecer a irmã do “amigo inglês tão bonito de seu filho menor”. Ainda estava incomodado com a ideia de uma garotinha inocente ter sido assassinada na cidade, principalmente sendo conhecida de Benjamin, mas resolveu não tocar mais no assunto para não abalar ainda mais o loiro ao recordá-lo do fato.

Segurou a porta do armário ao ser abraçado pelo namorado pelas costas, os pelos da nuca arrepiando com a proximidade. Não importava quanto tempo de relacionamento tivessem, ainda tinha a mesma reação sempre que surpreendido pelo inglês. Concordou com a cabeça, segurando as mãos do namorado para poder se voltar para ele, tocar-lhe a face e acariciar o rosto de Benjamin com o polegar.

Pediu a Benjamin para subir na frente enquanto tratava de verificar as trancas da residência e as luzes. Com um maluco perigoso na cidade, certamente sua atenção para a segurança na casa estava maior do que antes. Subiu as escadas após arrumar um copo com água na cozinha. Passou no banheiro para escovar os dentes e seguiu para o quarto a fim de encontrar Benjamin. Deixou o copo com água perto da cabeceira dele. Talvez, se ele estivesse assim tão perturbado com a notícia para conseguir dormir, ele precisasse de algum calmante além da sua companhia.

Ao se deitar, decidiu ficar acordado enquanto o inglês não dormisse primeiro. Estava cansado do trabalho, claro, mas o estado emocional de Benjamin lhe deixava mais preocupado que relaxado para conseguir simplesmente colocar a cabeça no travesseiro e dormir. Deixou o par de óculos de lado e ficou ao lado do inglês, afagando-lhe os cabelos, aguardando que ele pegasse no sono primeiro. Às vezes sentia que aquele tipo de desgraça perseguia o próprio namorado, considerando que nunca havia se deparado com aquele tipo de tragédia em sua vida. Imaginar como ele ficaria se não estivesse ali ou se tivesse recebido a notícia de outra maneira lhe assustava.

[thread encerrada]


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09-07-2023 06:32 PM
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