[Drive] Camarão que Dorme... [Ludwig; Sasha; Karen]
#1
Ludwig/Sasha

Os sábados de folga em St. Clavier costumavam ser pouco agitados, por isso, Ludwig decidia quase sempre pegar sua câmera e dar uma volta na cidade para tirar fotos divertidas dos atletas de rua ou peculiaridades da pequena cidade francesa. Mas não naquele dia. Naquele dia, estava em missão para comprar alguns livros de referência e estudar para uma das matérias eletivas que tinha decidido estudar. Por isso vestiu uma roupa com mais mobilidade do que aquelas que usava normalmente, e optou por uma calça de oncinha chumbo, uma botinha preta com sola em bloco, uma camiseta longa com alguns rasgos de caveira e um casaquinho muito maior que ele, que lhe fazia parecer ter asas de morcego. Isso, somado aos usuais colares e chokers no pescoço pareciam um dos visuais mais normais com que Ludwig já tinha saído. Ou isso foi o que o olhar de Oliver lhe disse naquele dia.

Para complementar o pouco usual daquele passeio, no ônibus acabou encontrando o presidente do conselho estudantil, Sasha Peyrac, quem Yure falava sempre muito bem sobre. Cumprimentou-o com um aceno, e muito naturalmente conversaram pelo caminho até o centro, onde ele lhe acompanhou até uma série de alfarrábios onde poderiam encontrar não só seus livros, como alguns livros de química que ele precisava para estudar.

Sasha era um cara muito engraçado, e Ludwig se sentiu bem confortável com ele, enquanto ele partilhava histórias absurdas de St. Clavier, lhe arrancando algumas risadas. Ele também elogiou suas roupas, falou sobre música, livros, história, sobre o Japão... embora ele falasse mais do que ouvisse da parte do garoto, Ludwig quase se sentia muito bem cuidado, fosse como o presidente ou como o professor ocasional de química do reforço.

- Ei, Lui... posso te chamar de Lui, né? Você não é aventureiro como o Lukashenko? – Sasha questionou enquanto procuravam dinheiro para pagar os livros, na entrada da loja.

- O Yure? Não, não... eu não tenho tanta energia... – riu brevemente. – Nem como o Oliver. Eles são muito fortes, eu sou mais desastrado, hehe.

- Ahh, não pra esportes, essas coisas. Pra romance! – Sasha riu, estendendo o dinheiro para pagar o livro e recebendo o livro em uma sacola de volta do vendedor. – Está saindo com alguém? Não que isso impeça nada, mas você parece certinho, que não sairia com mais de uma pessoa.

- Eu? N-Não. Por que? – Ludwig perguntou, virando levemente a cabeça depois de pagar e pegar seu livro.

- Ah! Sorte a minha então! – Sasha falou, estendendo a mão até a de Ludwig que estava livre, trazendo-a para perto de si. – O que vai fazer agora? Se não tiver nada o que fazer, podemos ter um encontro, que acha? Um café, uns doces, uma volta nos alfarrábios e um pôr do sol na ponte?

- Oh. – Ludwig entendeu finalmente que Sasha estava tentando lhe perguntar se estava livre como possível interesse romântico, e os olhos escuros até abriram mais. Tentou falar mais alguma coisa, mas fora a imagem de um conhecido gigante gentil, não tinha porque negar o encontro, tinha? Encarou tanto Sasha enquanto processava o convite que ele terminou de puxar sua mão e lhe deu um beijo breve nos dedos, o que fez com que o coração de Ludwig disparasse, e seu rosto explodisse em vermelho. – O-o-o-oh...!! E-e-e-u...

Karen

O trabalho mais recente de Karen tinha lhe levado até a Finlândia por pouco mais de cinco dias e tinha sido mais limpo e fácil do que ele mesmo tinha previsto com as informações que recebera. Não houve muitas complicações e o alvo era acessível. A frequência de serviços estava diminuindo nas últimas semanas e ele tinha plena consciência de que era a própria decisão em dispensar trabalhos dos quais ele não dependia e atender apenas a chamados de clientes importantes dos quais ele não teria como fugir nem se tentasse.

Como tinha se tornado tão costumeiro, ele voltou a Cerise, para aproveitar a tranquilidade da pequena cidade onde podia se mesclar com os turistas, além de estranhamente ter companhias com quem conversar. Naquele dia ao chegar na cidade, ele deixou a bagagem usual na sala de estar de Diodoro, um tipo de bagagem que o agente funerário talvez não gostasse muito de ter em casa, mas que também não ia se atrever a abrir e descobrir o que havia dentro da mochila, e seguiu pelas ruas até o centro um pouco mais movimentado, onde podia arrumar um lugar simples e discreto para comer uma refeição decente depois de longos dias se sustentando de comida pronta.

Foi quase surpreendente passar por algumas das ruas no centro e avistar facilmente a figura do adolescente vestido nas usuais roupas pretas - embora menos estranhas -, com quem costumava conversar também, se acreditasse em deidades, talvez pensasse que era algum tipo de provisão que sempre avistasse Lui por coincidência. O impulso natural de Karen foi dar alguns passos na direção do rapaz, até perceber que ele não estava sozinho, mas trocava algumas palavras com um cadeirante que devia ser um amigo - fosse da escola ou não. A conversa parecia naturalmente animada, e Karen pensou duas vezes antes de interferir, considerando que mesmo que Lui não se importasse com a sua companhia, outras pessoas lhe viam de um jeito mais torto, e com razão.

Mas antes de mudar o trajeto para deixar que ele seguisse o passeio com o amigo, notou a mudança de expressão no rosto alvo e o toque do cadeirante para segurar a mão de Lui até aproximá-la dos lábios e deixar um beijo breve nos dedos.

Karen não estava exatamente próximo dos dois, mas a distância pareceu bem irrelevante quando ele os alcançou em alguns poucos passos largos e a mão grande segurou a do cadeirante que tinha beijado a ponta dos dedos de Lui. A sua expressão não era exatamente a mais amigável ao encarar o cadeirante de boné, mais ainda quando ele mesmo percebeu o que tinha feito ao segurar o pulso do outro com um pouco mais de firmeza do que o necessário.

Ludwig/Sasha

A reação de Ludwig parecia muito bonitinha para Sasha deixar passar. Ele era um típico menino tímido em que nunca daria em cima, se não fosse a oportunidade, porque ele claramente seria o tipo que grudaria depois de um encontro. Mas não era como se fosse completamente avesso a ter um namoradinho ou dois em St. Clavier, e também não tratava ninguém mal, desde que eles não levassem tudo a sério demais. O gaguejado era um bom incentivo para Sasha, e a cara vermelha de vergonha também.

Porém, quando Ludwig parecia sem ter mais para onde gaguejar, e Sasha pensou que ouviria uma resposta, só sentiu o pulso ser agarrado com força tão subitamente por um estranho alto que prontamente soltou a mão do garoto e levou sua outra mão para ajudar a se soltar.

- Mas que p-!! – Sasha mordeu os dentes, sentindo o aperto no pulso e o arrepio de quem sabia que o olhar que lhe encarava de volta não era de uma pessoa exatamente amigável.

- K-Karen-san! – Ludwig exclamou surpreso, mas não alto, quase suspirando o nome dele aliviado, embora o rosto só parecesse ficar mais vermelho, afinal, não tinha sequer alguns segundos que tinha pensado no seu amigo alto? O garoto podia não ser muito esperto, mas tinha se metido em encrencas o suficiente em Cerise para imaginar que a reação de Karen era por achar que estava metido em mais uma encrenca, dessa vez nas mãos de Sasha, o que não era o caso. – T-tá tudo bem...! E-e-ele é um a-amigo...! E-eu estou bem...!

- Urgh...! Cê não disse que tinha guarda-costas...! – Sasha resmungou, ainda com dor no punho.

- D-d-desculpa... e-eu... – Ludwig tentou pedir desculpas, nervoso demais para sequer pensar direito em como responder naquela situação.

Karen

Karen só parou para notar que tinha realmente interferido na conversa alheia quando ouviu o chamado de Lui com o tom levemente surpreso, então, virou o rosto na direção dele, que parecia bem exasperado, para só então encarar o cadeirante de volta e afrouxar a mão em volta do pulso dele. Lui confirmou que o rapaz era um amigo e que estava bem, mas Karen não tinha pensado que ele era alguma ameaça para Lui, ainda assim, o toque e a proximidade não tinham lhe agradado exatamente.

Ele soltou completamente o braço do outro rapaz e o encarou de cima, quando foi apontado como o guarda-costas de Lui, mas o garoto não explicou - ou não conseguiria explicar - que aquele não era o caso, e em lugar de um pedido de desculpas devido, Karen só esclareceu aquele detalhe.

- Não sou guarda-costas dele. - respondeu Karen, olhando do rapaz para Lui. - Eu sou... - e parou no meio da sentença, como se procurasse uma palavra ideal para definir qual exatamente a sua relação com Lui e o que tinha lhe impulsionado a interferir na interação dos dois. - Não quis interromper.

Embora Karen tivesse lançado uma expressão mais suave para Lui, ele encarou o cadeirante de volta com uma expressão menos agradada e que denunciava que, mesmo instintivamente, queria sim ter interrompido aquela interação. E se sua intenção não era exatamente atrapalhar, talvez já devesse ter saído do lugar para que eles continuassem o passeio, ou o que quer que estivessem fazendo juntos, mas não se moveu um centímetro sequer do lugar em que tinha parado, exatamente entre Lui e o tal amigo.

Ludwig/Sasha

Sasha massageou o pulso quando foi solto, e acenou brevemente para Ludwig que não precisava do pedido de desculpas, afinal, a culpa não era dele, e sim, do sujeito gigantesco e muito discreto com uma cicatriz no rosto que tinha aparecido do nada. Mas sua irritação, guardaria para si mesmo por um instante. Não ia julgar um livro pela capa. Pelo que parecia, o cara só queria mesmo proteger Ludwig de sua “ameaça”.

Só que ele não era o guarda-costas, segundo o próprio. E ao ouvir o que ele era, Ludwig não deixou de erguer os olhos para Karen, ainda muito nervoso, e sentindo o coração acelerar um pouco na expectativa de saber o que ele iria dizer. Eles eram amigos... não eram? A ausência de resposta definitivamente que se seguiu fez com que Ludwig levasse a mão até os lábios, um tanto pensativo.

- Irmão de consideração? Padrasto? Alguma relação familiar complicada que apareceria num programa de fim de tarde? – Sasha perguntou, franzindo a testa e sacudindo o pulso para ter certeza que estava inteiro. – Olha, irmão, pra quem não queria interromper, você fez isso muito bem, e tá me olhando muito feio pra eu achar que foi coincidência.

- P-Peyrac-san...! O Karen-san n-não... ele é um a-amigo... e-e-e eu vivo me metendo em encrencas... e-ele sempre me a-ajuda... acho que ele só achou que eu estava em perigo...! – Ludwig tentou explicar, um tanto nervoso, apertando os lábios e olhando para Karen de vez em quando para confirmar melhor a presença dele e o que estava dizendo ali. Não queria que Sasha tivesse uma má impressão dele.

- Só se for em perigo de se apaixonar por mim. – Sasha respondeu de forma tão automática que até parecia ter esquecido do mau humor de ter sido segurado daquele jeito por um estranho.

- P-p-p-peyrac-san! – Ludwig falou em um tom de repreensão tão exasperado que quase parecia que ele tinha conseguido subir o tom da voz. Se o rosto do garoto oriental ainda conseguia ficar mais vermelho, aquele parecia o tom limite.

- Olha... Karen...? Sasha. Satisfação. Como você pode ver, está tudo bem aqui, estou só dando uma volta com seu amigo Lui, e tipo, você aqui já deu uma abalada no clima gostoso da gente, então se der licença... não tô afim de um encontro a três. – Sasha comentou, ignorando a cara feia para seu lado, voltando-se para o garoto que parecia estar sem palavras, com os olhos praticamente girando de nervoso.

Karen

As suposições do cadeirante para o que ele podia ser de Lui fizeram com que Karen franzisse o cenho, não pelas ideias absurdas, mas pelo tom que ele usava para especificar. Não gostou muito da expressão e do tom alheios, mas não falou e seguiu encarando-o de cima, e se já estava “olhando feio” antes, o olhar não melhorou em nada com a especificação do rapaz.

Lui que tentou interferir e explicar a sua posição ali, mas Karen seguiu sem falar muita coisa, ainda olhando de modo analítico para o tal amigo de Lui. O olhar analítico facilmente se tornou um de julgamento quando ele ainda brincou que o perigo era “se apaixonar por ele”, e era bom que não estivesse segurando o pulso do rapaz, ou provavelmente teria quebrado com a força de apertar a própria mão em punho.

Karen resolveu que seria mais fácil só ignorar a presença do rapaz. Mas ele mesmo tinha pensado que seria sensato só deixar que Lui seguisse os trajetos com os amigos de escola, ou o que quer que fosse aquele rapaz engraçadinho, por isso, ele deu uma longa olhada no cadeirante quando este se apresentou, dizendo que estava tudo bem e que ele só tinha atrapalhado o “clima gostoso” entre os dois, além de deixar bem claro que não queria um “encontro a três”. O olhar que ele lançou ao cadeirante foi talvez demorado demais até processar alguma resposta que envolvesse não ter um encontro a três, mas que no caso, não envolvia a presença do tal Sasha. De todo modo, ele não devia qualquer satisfação ao rapaz, então voltou-se completamente para Lui e de um modo que ficava exatamente entre os dois.

- Estou atrapalhando o seu encontro? - Karen perguntou.

Ludwig/Sasha

Sasha sabia que não era muito bom em captar emoções alheias, mas podia ver que o tal do Karen não tinha ido com sua fuça. Tudo bem que estava sendo propositalmente desagradável por ter sido atrapalhado, mas estava começando a achar que com aquele cara alto ali, sua ideia de um encontro agradável com Ludwig estava indo pelo ralo. Mas bem, teria outros momentos na academia.

Enquanto isso, o cérebro do mais novo ali estava sendo bombardeado por mil coisas, desde a presença de Karen às investidas de Sasha, que eram muito novidade para ele, porque jurava que naquele tempo inteiro em St. Clavier, ninguém tinha tentado lhe chamar para um encontro romântico. Pior, por que aquilo tinha acontecido justo na frente de Karen? Pior, por que estava se preocupando se Karen entenderia mal aquela situação??

Quando Karen virou na sua direção, perguntando se estava atrapalhando seu “encontro”, sentiu o coração cair no fundo do estômago de tão nervoso e arregalou os olhos para ele, sem saber o que responder.

- N-n-n-não...! N-não é um e-e-e-e-encontro...! – gaguejou, sabendo que isso só seria pior para sua situação, quase tremendo já no tanto de pânico e vergonha. Imaginava que não seria uma pessoa tão nervosa considerando que até já tinha tido um namorado, mas seu corpo agia de forma quase involuntária. Então, de repente, fez uma reverência muito baixa e muito súbita para Sasha. – P-Peyrac-san... e-e-eu... não posso te acompanhar num e-encontro, e-e-eu... p-p-porque... – o garoto tentou responder, ocasionalmente olhando discretamente para cima para Sasha e para Karen, depois voltando para o chão, nervoso.

Sasha arqueou a sobrancelha, acompanhando o olhar de Ludwig discretamente, avaliando toda a situação sem entender muito bem. Mas sua reação foi estender a mão até os cabelos escuros que caíam pelo rosto dele, afagando a cabeça do menino que estava próxima o suficiente da sua mão.

- Tá de boas, não precisa se justificar não. Quando não dá, não dá. – Sasha deu de ombros, notando um audível suspiro aliviado do garoto. Mas então abriu um sorriso com o canto da boca, só querendo irritar o pequeno. – Mas não vai ser meu último convite não, viu? Cê é fofo, é um desperdício que esteja sozinho.

Ludwig levantou subitamente, completamente vermelho e deu alguns tapinhas muito leves na mão de Sasha, tirando-a de perto de si.

- M-mou!! V-você só quer me deixar e-envergonhado...! – o menino falou em um meio bico e meio sorriso.

Sasha então riu, olhando de Ludwig para Karen, e depois para Ludwig novamente.

- Vai acompanhar seu amigo, né? – Sasha perguntou, recebendo uma resposta positiva silenciosa de Ludwig, tão discreta que poderia até passar despercebido. – Pois muito bem. Foi bom sair com você, Lui. E Karen... camarão que dorme a onda leva, viu? – Sasha falou, abrindo um sorriso largo e apontando o indicador para ele com ares de sabe-tudo. – Jacaré que dorme vira bolsa... acho que também cola assim. – sorriu amarelo, recuando com a cadeira antes que levasse um cascudo.

Karen

Karen ficou mais satisfeito de ouvir diretamente de Lui que não era um encontro. E ele estava tão desconsertado com a situação que quase se entreteve com a reação exagerada em tentar lhe justificar o motivo de não poder aceitar o convite de Sasha. Era bem o que precisava ouvir, mas o cadeirante parecia querer lhe deixar mais incomodado. Lançou um olhar estreito para o outro quando ele afagou os cabelos de Lui e conteve o impulso de só segurar o braço dele de novo, ou realmente acabaria quebrando. O rapaz parecia na verdade nem empenhado em lhe irritar, por mais ridículo que fosse se deixar levar pelas provocações, ao deixar bem claro que haveria outros convites e que era um desperdício que Lui estivesse sozinho.

-- Esse é o último convite. - foi Karen que determinou, quando Lui se colocou de pé, reclamando que Sasha estava tentando lhe envergonhar. Karen colocou a mão sobre o ombro do menor e o puxou de leve para ficar atrás de si de novo. - E ele não está sozinho.

Depois de se colocar de novo entre os dois, o cadeirante ainda tentou esclarecer que Lui iria seguir Karen, e não bastasse os comentários engraçadinhos até então, Sasha ainda deu um par de recomendações da quais Karen não fez o menor sentido, especialmente em francês, mas ele entendeu o suficiente da expressão quase de deboche, o que lhe deixou ainda menos feliz. Ele se afastou um pouco com a cadeira de rodas, e num dia e num ânimo normais, Karen não teria se importado, mas daquela vez, o gesto foi rápido e bem calculado. Ele segurou o braço da cadeira e se curvou o suficiente para que o rosto estivesse na altura do de Sasha.

-- Sasha, certo? - o tom foi propositalmente baixo para que Lui não entendesse bem. - Eu posso correr.

E soltou a cadeira para retomar a postura e dar as costas para o cadeirante, dando os primeiros passos para se afastar sem esperar ser acompanhado de imediato.

Ludwig/Sasha

O cadeirante queria provocar Ludwig, afinal, quem em sã consciência provocaria um cara de dois metros de altura com a força que o tal cara tinha? Certamente Sasha, mas não vinha ao caso. A questão é que mesmo que estivesse provocando Ludwig, o tal Karen tinha se irritado também. E pela reação dele em tirar o garoto do caminho e lhe avisar que ele não estava exatamente sozinho, ergueu as sobrancelhas, começando a entender o que estava acontecendo ali. Pelo jeito de Ludwig, nada, e pelo jeito do seu rival, ele estava tentando lhe expulsar do território. Isso não era crime?

Quando pensou que ia embora, entretanto, Karen segurou sua cadeira, e lhe falou em um tom claramente de ameaça. Até teria sido sensato e deixado passar, mas tomou quase como pessoal que ele tenha feito o comentário especificamente dizendo que podia correr atrás de si, algo que fez Sasha estreitar os olhos já pequenos.

- Que bom pra você então, Karen. Não esquece que se der vacilo com o novinho, vai ter que correr é dos “homens”. – Sasha resmungou de volta, girando o indicador para cima e fazendo o “weee-oooh” da sirene dos carros de polícia. – Bom passeio, vocês dois.

Ludwig não entendeu bem porque Karen segurou Sasha ou o que Sasha queria dizer, mas ficou feliz que agora não tinha que se preocupar com Karen entendendo mal toda a situação do encontro. Levou até a mão para a camiseta do sujeito alto, segurando-a discretamente quando Sasha saiu. Entreabriu a boca para falar algo, mas um pensamento cruzou sua cabeça, e pensou um pouco antes de falar, fechando e abrindo a boca algumas vezes.

- Karen-san... v-você... o que v-vai fazer agora? Está o-ocupado...? – Ludwig sentiu o rosto ficando cada vez mais vermelho, engolindo em seco por um breve instante. – Q-quer tomar um c-café...? C-comer alguns doces...? D-dar uma v-v-volta...? – infelizmente não conseguiu juntar coragem para dizer tudo, mas agora que Sasha estava distante, lembrava bem a vergonha de quando ele perguntou se queria dar esses passeios como um encontro. Parecia meio triste roubar a ideia do Sasha, na verdade muito errado, mas se tinha ficado tentado a isso, quem sabe Karen também...

Karen

Karen notou a atitude do cadeirante para a sua ameaça, mas quando ele tentou devolver o tom, a única coisa que fez foi abrir um sorriso muito convencido de que a última coisa com a qual precisava se preocupar era a polícia, como ele estava insinuando. O deixou ir, porque o seu assunto inacabado agora era com Lui, e não ligou de serem deixados sozinhos. Quando Lui recobrou o pouco de coragem, lhe perguntou no mesmo tom sussurrado e atrapalhado se estava ocupado e queria comer alguma coisa, ou dar uma volta.

Karen o encarou de volta com uma expressão mais suave, passando a mão pelos fios de cabelo preto na altura que Sasha tinha tocado antes. Não era comum se preocupar tanto com uma pessoa comum, mas era ainda mais estranho lidar com um tipo como Lui, que ele raramente achava ser real. E o tinha tirado de um "encontro" com uma pessoa "normal".

- Não estou ocupado. Quero que venha comigo agora. - ele afastou o toque dos cabelos de Lui e esperou alguma confirmação antes de começar a andar. - Ou pode ir com o seu amigo se preferir, não vou mais atrapalhar. - Se ia resolver alguma coisa com o rapaz, só não seria no meio do centro movimentado da cidade. Era mais fácil voltar até o pequeno quarto pequeno em que estava temporariamente hospedado.

Ludwig

Ludwig ficou feliz com a sensação mais suave e relaxante que ficou depois que Sasha foi embora. Estava quase tendo um ataque cardíaco de ter que ouvir aquelas investidas diretas, mas ainda se fez nervoso tentando imitar Sasha e convidar Karen para sair. Mas ao invés dele parecer minimamente abalado, se portou como imaginava que um adulto se portaria e apenas afagou sua cabeça de modo gentil, o que lhe deixou um tanto sem saber o que fazer. E era bem melhor quando ele afagava sua cabeça, estranhamente.

Ouviu então que ele queria que saíssem juntos, embora não do jeito que Ludwig tinha pensado. Mas não era ruim, gostava de andar com o gigante. Sacudiu a cabeça negativamente quando ele ofereceu para que fosse com Sasha, e então andou atrás dele, respirando fundo.

- V-você não estava atrapalhando...! – Ludwig tentou falar com mais convicção. Na verdade, tinha ficado feliz com a interrupção de Karen.

O caminho foi quieto, mas era natural que fosse, afinal, Karen era quieto e Ludwig mal falava. O lugar onde chegaram foi um motel à beira de estrada, e supunha que Karen estava hospedado ali, afinal, ele era estrangeiro. Achou por muito tempo que ele era zelador em St. Clavier, mas agora que ele tinha desmentido sua ideia precipitada, ele podia muito bem morar em Cerise ou não. Agora parecia que “não” era o mais provável. Mas tentaria não tomar conclusões precipitadas demais de novo.

- V-você mora aqui, Karen-san...? – Ludwig perguntou, quebrando o silêncio. – E-eto... eu posso sentar? – falou, apontando para uma cadeira, pensando que tinha andado bastante com Sasha nos alfarrábios, e agora caminhado com Karen até lá.

Karen

Karen pediu a chave de um dos quartos de um motel barato em que já tinha dormido. Não ia levar o garoto de volta ao apartamento do agente funerário, mas precisava de um lugar reservado. Outra pessoa teria duvidado das suas intenções em ir para aquele tipo de lugar, mas ele não se surpreendeu que Lui não pensasse mal de sua atitude. Na verdade, ele até perguntou se morava ali e a reação de Karen foi sorrir da pergunta, puxando a cadeira que ele tinha apontado para deixar de frente para a cama, próxima dela.

- Pode. - Karen esperou que ele se sentasse para sentar na beira da cama, de frente para ele. Não havia o menor sinal de medo ou receio no adolescente, coisa que já estava acostumado a experimentar com qualquer outra pessoa, mesmo que não fosse seu alvo. - Eu não devia ter atrapalhado o seu passeio. Fiz sem pensar muito.

Ele curvou o corpo para frente e apoiou os cotovelos nas coxas, os dedos entrelaçados, encarando Lui mais de perto.

- Você tem que parar de se envolver comigo. - ele foi bem direto. - Eu não sou uma pessoa boa, como você diz. Eu não disse antes com o que trabalho, porque meu trabalho é matar pessoas.

Ludwig

Karen ajeitou a cadeira para ficar de frente para si e Ludwig não pode senão observar atentamente o homem a sua frente, curioso sobre o que ele estava pensando lhe convidando para ir até aquele motel. Não era exatamente um lugar convencional, mas talvez ele precisasse conversar como precisou daquela outra vez, quando apareceu em St. Clavier e acabaram se encontrando. Ele parecia ter muitos problemas. Talvez algo com a família de novo?

Ao invés disso, ele procedeu em lhe pedir desculpas por atrapalhar o passeio, e o garoto sacudiu a cabeça negativamente, acenando com a mão.

- Não, não... t-tudo bem. Eu já tinha terminado... fui comprar um livro. Encontrei o P-Peyrac-san por acaso... – Ludwig falou, estendendo o livro na sacola para mostrar a Karen. – O P-Peyrac-san... ajuda muito a gente em St. Clavier... eu não tinha motivo para dizer não para ele... até v-você chegar. – apertou o lábio, um tanto nervoso, olhando Karen diretamente pela altura que ele tinha se colocado com os cotovelos nos joelhos, sentindo o rosto queimar de novo.

As palavras dele em seguida foram em um tom muito suave, mas podia notar o aviso. Olhou diretamente para ele enquanto ele falava sobre não ser uma pessoa boa, o que não tinha sido sua experiência até então, e em seguida, chegando a explicar que seu trabalho era matar pessoas. Até tentou entender, mas tudo o que fez foi franzir discretamente a testa, e então devolver o mesmo olhar neutro para Karen.

- Como um policial...? Ou guarda-costas...? Quer dizer, você disse ao Peyrac-san que não era um guarda-costas. – o garoto tentou fazer sentido, virando de leve o pescoço para o lado. – Eu não sei se gosto de trabalhos assim, mas... sei que tem situações perigosas, e que n-não dá sempre para resolver com diálogo... então...

Karen

Karen estava acostumado com dois tipos de pessoas: as que fugiam logo ao verem seu rosto e sua expressão de poucos amigos que denunciavam que ele era alguém perigoso; e pessoas que fugiam depois de confirmar que ele era mesmo perigoso. Lui não estava em nenhum dos dois, porque a reação dele foi a mais inesperada possível, até mesmo para Karen que estava acostumado a ver todo tipo de gente. A expressão igual do rapaz seguiu para ele lhe questionar se era um policial, para justificar que precisava matar pessoas, quando não era possível resolver algo com diálogos.

Karen precisou separar os dedos entrelaçados e levou uma das mãos ao rosto, encarando Lui com um verdadeiro quê de incredulidade, uma risada discreta escapando por entre os lábios.

- Não, eu sou um assassino de aluguel. Não estou do lado da “lei”. - ele seguiu com a explicação, e esperava finalmente alguma reação mais racional de Lui do que só acreditar ainda no seu lado “gentil”. - E quero que você entenda que isso não é “legal”. Você está entendendo?

Ludwig

Não sabia exatamente o que na sua fala tinha despertado aquela expressão em Karen, mas era só impressão sua, ou ultimamente ele tinha lhe parecido mais sorridente? Foi quase impossível para Ludwig não sorrir brevemente em retorno, porque Karen era um homem muito bonito, apesar de ser alto e meio intimidador. E quando ele sorria, aí sim podia ver mais do lado gentil que sempre pensava que ele tinha.

Só que a explicação maior dele foi em um rumo que o menino não esperava. Entreabriu os lábios em surpresa, começando a entender mais ou menos o que ele queria dizer com matar pessoas. Era como se fosse um daqueles assassinos de filme, então, que matava por dinheiro? Fechou a boca quando ele perguntou se estava entendendo e silenciosamente afirmou com a cabeça, o olhar descendo para os próprios pés, pensativo.

- Você é um criminoso... não é? – o garoto perguntou, apenas para confirmar, embora a explicação dele fosse bem clara. – P-por que está me contando agora...? Andar comigo lhe meteu em problemas... ou me colocou em problemas...? É... por que eu chamo muita atenção...? Tem alguém atrás de você…? – Ludwig questionou, mas ainda estava tentando processar toda a parte de Karen matar pessoas por dinheiro.

Karen

Finalmente a expressão de Lui era de quem estava entendendo o que ele estava tentando explicar. Era impossível que a ingenuidade dele fosse fingida, porque Karen não acreditava que alguém podia fingir aquela inocência. Mas em seus 33 anos de vida, Lui ainda era capaz de lhe surpreender, porque a preocupação dele era que tivesse se metido em algum tipo de problema por causa dele e do modo como chamava atenção.

- Não tem ninguém atrás de mim, e se tivesse, não seria por muito tempo. - Karen explicou, o queixo apoiado numa das mãos enquanto a outra mão grande estendia até alcançar Lui, tocando os dedos dele também. Só a aparência dele, por mais exótica que fosse, era de alguém que provavelmente quebraria com o menor dos toques, pelo visto a personalidade era bem parecida. - Estou contando agora porque estou preocupado com a sua falta de bom senso. E porque eu quero que saiba de mais coisas sobre mim antes do que vou dizer agora.

Karen passou os dedos por baixo da mão dele, tocando diretamente a palma da mão do rapaz, para trazer a mão dele para mais perto.

- Eu quero você.

Ludwig

A implicação das palavras de Karen agora era completamente diferente. Poderia pensar que ele despistaria a pessoa que estava atrás dele, ou qualquer outra coisa, mas a primeira imagem que veio a sua mente foi dele matando seu perseguidor, e seu rosto ficou visivelmente nervoso por um instante, os olhos baixando mais para os pés e a respiração ficando mais apertada. Mas não podia só assumir que seria assim. Matar pessoas era o trabalho de Karen. Talvez ele tivesse outros meios...?

A mão grande dele foi até a sua, tocando-a de um jeito muito suave, e obviamente o tom de voz dele pareceu muito paciente e calmo, o que lhe despertou para o fato de que ele estava destrinchando aquelas informações como se fosse de fato uma criança. E a ideia só foi reforçada quando ele alertou para sua falta de bom senso. Engoliu em seco, pensando em que todas aquelas informações iriam culminar.

Então sentiu os dedos roçando por baixo da sua mão e puxando-a mais para perto, e as palavras dele muito explicitamente dizendo “eu quero você”.

- ... O que? – Ludwig perguntou antes mesmo de pensar muito, os olhos escuros bem abertos para Karen numa expressão devidamente surpresa. A respiração ficou ainda mais acelerada, e as mãos do garoto começaram a suar ao mesmo tempo que seu rosto começou a arder. Ele não podia estar falando aquilo como uma declaração, podia...? Ou talvez estivesse pensando nisso justamente por conta de Sasha mais cedo, e de ter pensado em Karen naquele momento. – E-eu... eu não estou entendendo... e-eu... está dizendo que m-m-mata pessoas... e que... não tenho bom senso... e que... q-quer que eu saiba mais sobre você... e... e... que me quer... – Lui falou quase ficando sem ar no processo. – V-você quer me afastar...? O-ou você... g-g-gosta de mim...? – o garoto perguntou em um tom claramente confuso.

Karen

O adolescente pareceu finalmente assimilar as informações que estava passando, e então, a expressão ficou devidamente surpresa quando Karen foi mais direto quanto a querê-lo. Até imaginou que ele não ia entender suas palavras muito diretas, mas foi pego de surpresa com o gaguejar e os comentários que se seguiram, como se ele tentasse fazer sentido da situação lá no fundo da mente. E o fim da racionalização foi bem coerente com o que Karen pretendia com a declaração.

- Que eu gosto de você. - Karen especificou melhor o que ele tinha perguntado, e deslizou os dedos pela palma de Lui de novo, afastando o toque no instante seguinte. Ele voltou a apoiar os dois cotovelos nas pernas, inclinando-se na direção do rapaz. - Se eu fosse uma pessoa boa, devia ter dito pra se afastar logo, mas eu deixei você ficar por perto, e me acostumei com você, mais do que eu imaginei. Até interrompi seu passeio porque não gostei do seu amigo dando em cima de você.

Ele uniu as mãos de novo na frente do corpo para conter a vontade de tocar em Lui de novo, um gesto que percebeu estar se tornando recorrente.

- Quero que fique comigo, sabendo o que sou, e que isso pode ter consequências. - Karen explicou mais diretamente, num tom mais sério também. - Mas se não quiser ficar, não se preocupe, você é uma das únicas pessoas que pode dizer que não precisa ter medo de mim. Eu não vou lhe incomodar mais.

Ludwig

Apenas depois que fez a escolha das próprias palavras que Ludwig percebeu que Karen poderia estar querendo lhe contratar para ser um assassino também, ou que poderia precisar dele para qualquer outra coisa. Mas embora fosse muito ingênuo, também era capaz de juntar A mais B, e toda aquela situação ficaria muito estranha se ele estivesse mesmo só lhe querendo para um favor, por exemplo. Isso somava-se ao fato de que muito do que queria era que Karen correspondesse só um pouco dos sentimentos estranhos que vinham lhe incomodando há um tempo.

Mas ele logo confirmou que de fato estava se declarando para Ludwig, não só isso, como estava destacando que ele só poderia ser uma pessoa ruim por não ter avisado ele antes, embora também estivesse dizendo que mal tinha percebido que gostava do garoto mais do que imaginava. Ele tinha optado por não lhe tocar mais, mas as palavras continuavam sendo confusas. Ele até pediu para que ficasse, mas também disse que se não quisesse, não iria mais incomodar. Por que tudo lhe soava muito bom, e ao mesmo tempo muito ruim...? Era como se só tivessem dois caminhos: ou ficaria com Karen, ou não teria mais ele na sua vida. Todos os criminosos eram assim?

Levou ambas as mãos até a boca, olhando longamente para Karen, e então juntou ambas as pernas sobre a cadeira, abraçando-as. Não sabia o que responder, porque ele tinha dito que havia consequências de ficar com ele, pelo que ele era, então era fácil imaginar que ele vivia situações muito perigosas. Tinha receio por ter confirmado que ele era mesmo um criminoso, mas todas as palavras de Karen eram preocupadas com seu bem estar. Como podia considerá-lo uma pessoa ruim assim?

Então olhou para as mãos dele à frente do corpo, que antes estavam tocando as suas de forma carinhosa e lembrou do parque, quando tinha descansado sobre ele. Antes que desse por si, tinha saído da cadeira e se metido entre os braços de Karen, sentando-se junto dele na cama, encostando sobre o peito dele e puxando os braços para lhe abraçar. Sentiu-se um pouco envergonhado por obrigá-lo a lhe dar um abraço, mas a sensação quentinha dos braços do moreno eram tão boas quando lembrava. Encostou a cabeça no peito dele, encarando-o por um instante com atenção, pensando que de fato ele era intimidador, mas era gentil; e era preocupado, embora fosse misterioso; e era bonito e bom de estar perto.

- E-Eu também gosto de você, Karen-san. – Ludwig respondeu, aninhando-se mais no colo do moreno, que era muito maior que ele. – Eu fico... m-mas vai ter que me explicar quais c-c-consequências direitinho...! E-e-e também tem que me dizer o quão p-perigoso é pra você...! V-você se machuca muito...? – Ludwig suspirou longamente, agarrando-se a camiseta de Karen com uma das mãos, fechando os olhos um momento e respirando junto dele. – E-eu não sei quando... mas comecei a achar que gostava de v-você, sabe...? H-hoje eu fiquei feliz... que você me chamou... e... e-eu não quero que você pense que está me incomodando. L-longe disso! V-vai me incomodar se eu não te ver mais... – o garoto então abriu um sorriso suave, acomodado naquele espaço do colo de Karen. – S-se era para ter medo de você, eu não sei como... quando você me ajudou tanto... e foi tão gentil comigo. E segue sendo bom... me dizendo tudo antes de me dar uma escolha... mas quando você é honesto assim, é difícil não g-gostar mais de você, hehe. É difícil dizer “não” quando a pessoa que você gosta gosta de você também. – Ludwig riu baixo e estendeu os braços para passar em volta do corpo de Karen, embora ele fosse bem grande e quase não o abraçasse direito.

Talvez fosse melhor assim, não pensar demais, e tentar ser otimista. Os dois tinham sido bons amigos até então, nada tinha dado errado. Cruel seria começar a achar que de repente ele mudaria só porque tinha um trabalho violento. Não aprovava, mas... talvez tivessem circunstâncias na vida de Karen que fizeram ele seguir esse caminho. E quem sabe ele precisava também de um pouco de apoio para se sentir uma pessoa boa, como Ludwig achava que ele era?

Karen

Karen observou Lui por um tempo, enquanto o corpo dele começava a dar sinais de que estava absorvendo melhor as informações. Primeiro, levou as mãos à boca, depois, juntou as pernas sobre o assento da cadeira e as abraçou, ainda lhe encarando, e até mesmo para Karen, que costumava ser bem direto e objetivo, era informação demais para tentar assimilar. Enquanto Lui procurava alguma coisa para lhe responder, ele desviou o olhar para as mãos entrelaçadas.

- É muita informação. Não precisa dizer nada agor-

Antes que ele pudesse completar a sentença, sentiu as mãos de Lui nas suas e além das mãos, ele se aproximou o suficiente para se colocar entre as suas pernas, puxando seus braços para envolvê-lo num abraço enquanto se acomodava no seu peito. O gesto foi tão inesperado para Karen que ele arqueou as sobrancelhas, sem completar o abraço em volta do rapaz que estava procurando apoio no seu corpo. Aquela era certamente a última reação que ele esperava depois de confessar que era um assassino profissional criminoso.

Karen não precisou perguntar nada sobre a atitude dele, logo a voz sussurrada soou no quarto silencioso e Lui disse que gostava dele de volta, que ficaria e que precisava de algumas explicações a mais. Além disso, estava se preocupando com o seu bem-estar naquele tipo de trabalho e o quanto se machucava, o que era uma novidade a mais para Karen que estava tão acostumado a ser negligenciado. As palavras não cessaram e ele começou a se perguntar se havia algo de muito errado em Lui, ou nele, para acabarem naquela situação tão estranha, mas confortável. Em meio ao discurso enrolado, Karen sentiu os braços pequenos procurando envolver seu corpo e finalmente, deixou um sorriso largo surgir no rosto, passando os braços de novo em volta do corpo do garoto com muito mais firmeza do que ele conseguiria dar um abraço. Ele sentiu o calor do corpo do menor, era reconfortante, de um jeito que tinha experimentado só outro par de vezes exatamente com Lui.

- Você é um garoto estranho. Outra pessoa já teria fugido e ligado para a polícia. - Karen respondeu, com os braços firmes em volta de Lui. - A consequência é que não vai poder se livrar de mim agora. - ele deixou uma risada breve escapar, antes de retomar o tom mais sóbrio. - Eu tive uma vida complicada e conheci todo tipo de gente. Mas nunca uma pessoa como você... e já que decidiu ficar e gostar de mim mesmo sabendo o que sou, vou fazer tudo para cuidar de você.

Ludwig

Demorou um pouco para que Karen tivesse uma reação para suas palavras. Talvez ele esperasse que fugisse, e quem sabe isso seria a decisão mais correta, afinal, que tipos de situações complicadas poderia se meter ou meter o outro decidindo ficar com ele? Não sabia as implicações inteiras, mas até então, tinham ficado muito bem. E Ludwig bem sabia que quando gostava de alguém, gostava mesmo de alguém. E gostava mesmo de Karen. Nem precisava que ele completasse o abraço para saber o quão reconfortante era estar nos braços dele.

Mas foi uma boa novidade para o garoto ver o sorriso no rosto do moreno, um sorriso grande, de quem estava feliz com sua decisão. Sentiu o peito encher de calor, e acabou sorrindo de volta em satisfação. Apertou Karen de volta, com nem a metade da força com a qual era abraçado.

- E-essa é a consequência...? Mou! Eu achei que seria algo mais p-perigoso... parece bom pra mim...! – o garoto comentou, esfregando o rosto no peito de Karen, rindo baixinho, o que no silêncio do quarto quase fazia parecer que ele tinha uma voz normal.

O tom sóbrio de Karen lhe despertou para olhar mais uma vez para o moreno, encostado sobre o peito dele, ouvindo que ele teve uma vida complicada, e que sabendo que ele era um assassino, ninguém nunca tinha decidido ficar com ele. Era triste, porque imaginava que justo a vida complicada tinha colocado Karen nesse trabalho violento, mas ele era um homem muito bom, pelo menos para Ludwig, então não conseguia imaginar como se ele fosse ruim, por mais que seu trabalho fosse. Ele também precisava de alguém que gostasse dele.

Estendeu uma mão até o rosto de Karen, acariciando-o por um momento, e então ergueu-se de leve do colo dele, afinal, ele era bem mais alto. Alcançou os lábios de Karen com os seus, beijando-os longamente, de forma suave, até retornar ao colo dele onde estava aninhado, encarando-o de baixo com o rosto completamente vermelho, e descendo a mão até segurá-lo pela camisa.

- E-eu também... v-vou fazer de tudo para cuidar de você, Karen-san. – o garoto respondeu, então abrindo um sorriso tímido.

Karen

O fato de Lui ter se convencido com a sua "consequência" lhe trouxe de volta para o fato de que ele acreditava fácil no que dissesse, então era a sua obrigação deixar as coisas sempre mais claras possíveis. Por isso, ele passou a mão no topo da cabeça do garoto que parecia muito satisfeito no seu colo, o tipo de sensação que Karen descobriu estar aproveitando demais, e chamou a atenção para si um pouco.

- Eu nunca me preocupei com ninguém além de mim mesmo, por muito tempo. Nunca tive alguém por perto, então... não vou mentir que vai ficar tudo bem o tempo todo. - ele explicou, colocando o cabelo preto dele para trás para poder ver melhor o rosto do adolescente. - Alguma situação perigosa pode sim acontecer, mas se for o caso, eu vou lhe proteger.

Ele já tinha passado por uma série de situações complicadas na vida, das mais extremas às mais simples, e em nenhum momento desde que tinha perdido a família ainda muito novo, tivera alguém realmente importante ao seu lado para proteger ou ser protegido. Ser tão direto em querer a companhia de Lui era novidade até para Karen naquele ponto. Ele encarou o garoto mais de perto, de volta a expressão mais neutra, e foi bem em tempo de sentir a mão dele no seu rosto e quase fechar os olhos, para só então notar a aproximação ainda mais inesperada do que o resto da conversa inusitada dos dois até sentir os lábios unidos aos seus. Ele permitiu a aproximação e conteve a vontade de passar os braços em volta de Lui, ou talvez o beijo breve teria se tornado algo mais intenso, então deixou que ele tivesse controle do gesto de intimidade.

Quando Lui se afastou, notou o rubor intenso na pele naturalmente alva e sorriu discreto de novo, mantendo os braços em volta do corpo estreito e encarando-o de perto enquanto ele dizia que faria de tudo para retribuir o cuidado também.

- Também nunca tive ninguém para cuidar de mim até agora. - Karen que curvou o corpo na direção de Lui daquela vez, devolvendo o gesto com um beijo no rosto vermelho e quente dele. - E pode me chamar de Arsen, é o meu nome verdadeiro. Você é uma das poucas pessoas no mundo que sabe disso agora.

Ludwig

O carinho de Karen, com as mãos grandes em seu cabelo e seu rosto eram muito reconfortantes, ainda mais agora que sabia que ele os fazia com o intuito de lhe tratar bem. O garoto sorriu satisfeito, pensando bastante que agora estava cercado de pessoas que lhe queriam muito bem, então a decisão de ir até Cerise estudar que sua mãe tinha tomado foi uma decisão maravilhosa. Por causa dela tinha conhecido pessoas que lhe protegiam, e que tinha vontade de proteger de volta, como Oliver, Yure e até mesmo Karen, que para qualquer um não pareceria alguém que precisava de proteção. Mesmo que não estivesse bem o tempo todo, pelo menos ele lhe garantia que faria o possível para que ficasse tudo bem.

A devolutiva do seu beijo tinha sido um beijo igual, em seu rosto, que ficou ainda mais quente ao sentir o carinho retribuído daquela forma. Em muito tempo não tinha sentido vontade como aquela de estar com alguém como gostava de estar aninhado no colo de Karen, e ver alguém sorrir como ele, que costumava ser mais sério.

Olhou longamente para ele quando ele revelou que nesse tempo todo, nem o nome de verdade sabia do mais velho, mas agora ele estava confiando seu nome de verdade ao garoto, o que para algum criminoso, com certeza deveria expressar uma proximidade muito grande.

- A-Arsen... – Ludwig repetiu o nome, então notando que tinha chamado o outro sem honoríficos e o rosto que já estava muito corado retomou o tom muito vibrante de vermelho. - ...S-s-san... – o garoto enfiou o rosto no peito de Karen, abrindo um sorriso agradado. O difícil aquele dia seria dizer momentaneamente adeus e retornarem cada um para sua rotina. Mas Ludwig já imaginava que agora não precisaria mais se conter em mandar mil mensagens cheias de emoticons para o mais velho sempre que estivesse com saudades, afinal, agora era dele, não é?

[Thread encerrada]


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