[Drive] Destruído [Renaud, Isaac, Didier, Aleksei, Tamotsu, Sasha]
#1
Renaud

Depois de uma tarde e noite muito não convencional em casa, Renaud tinha voltado a St. Clavier, e o jovem francês estava estranhamente animado, mais do que estivera nos últimos dias. Mesmo que tivesse passado por bons momentos na companhia de pessoas que tinha muita estima dentro da academia masculina, ainda assim, aquela última noite tinha ascendido em si um tipo de sentimento novo que não se lembrava se já tinha sentido antes, mas que queria muito sentir de novo. O humor estava tão bom que tinha avisado ao secretário que apareceria na sala do conselho estudantil, justificando que arrastaria Didier também para não ser taxado de quem estava indo “atrapalhar” o serviço, sabia que o loiro devia ter pilhas de papéis pra assinar. E claro que depois que o namorado se desocupasse dos primeiranistas desesperados com as provas de final de ano letivo, poderia se juntar aos dois morenos na sala do conselho, estava mais compreensivo com os mais novos, então não se opôs ao fato de Didier dar atenção primeiro aos mais novos, pra depois ter o restante do tempo para ficar com Renaud.

Fez um esforço extra pra se vestir, pondo calça social e blusa de botões, pra não aparecer sem o uniforme ou certamente receberia uma bronca do amigo secretário por estar dando um “mal exemplo”, mas abotoar a camisa já tinha sido o máximo de esforço que conseguia, tentar dar um nó de gravata nunca pareceu um malabarismo tão difícil. No caminho passou na sala do Dr. Vlahos pra saber se ele teria alguma janela pra conversarem, e tinha certeza que se o homem não estivesse prestes a começar um atendimento com um outro aluno, eles conversariam ali mesmo. Mas o psicólogo pelo menos já podia notar que o humor do jovem Blanco estava melhor do que o usual, o que significava que alguma coisa “boa” tinha acontecido e não era uma emergência como das vezes anteriores. Renaud ainda se ocupou de parar um tempo na sala do conselho disciplinar e conversar com seu Frater, claro que não poderia entrar em muitos detalhes de sua vida pessoal considerando que Nataniel estava por lá, mas ainda foi fácil pra seu irmão notar que apesar de ter saído sequestrado da academia masculina, a conversa tinha tido um saldo positivo no final das contas. E tinha prometido de contar-lhe tudo que tinha conversado com sua mãe em detalhes posteriormente quando não tivesse de dar atenção ao seu “namorado enjoado”.

Finalmente ao chegar na sala do conselho estudantil depois de dias sem frequentar o local, era no mínimo “estranho”, tinha dito que apareceria ali, porém tinha falado sem pensar sobre o que de fato significava “voltar ali”, e só naquele momento parado em frente a porta foi que o moreno mais novo se tocou que a última vez que tinha estado naquele lugar tinha sido durante a briga dele e de Didier, que agora parecia ter ocorrido 10 anos no passado. Antes que pudesse seguir divagando, a porta se abriu num solavanco com uma cabeleira ruiva por trás de uma pilha de pastas e papéis, que logo reconheceu sendo o jovem Lukashenko:

– Eu já sei, não vou correr! Não vou!! JURO!!! Nem tô enxergando pra onde eu ando, como posso correr? Ahn-- Ren--...! Quer dizer… Vice-Presidente Blanco! Quanto tempo que não te vejo! WoW!! você ainda tem as mãos! Nossa! E disseram que você estava na pior, sabe, todo mundo falando como as suas mãos tinham derretido e tals... Mas que bom que foi só caó dos terceiranistas, Espero que ‘cê fique melhor! Té mais! – o ruivo desatou a falar e antes que jovem Blanco conseguisse assimilar tudo que ele falava, em verdade estava desacostumado com a velocidade com que o mais novo falava. E logo ele já estava seguindo pelo corredor para o restante das salas do setor administrativo entregar todos os memorandos e demais documentos.

– Deve ser bem cansativo lidar com toda essa energia que o Lukashenko têm, por todos esses dias, não sei se fico com mais pena dele ou de você Zac. – o moreno mais novo adentrou na sala do conselho, encostando a porta atrás de si: – O Didier vem mais tarde, vamos dizer que ele está envolvido em um aulão de revisão com os primeiranistas, então vai ter de se contentar apenas com a minha companhia aqui, embora eu não consiga assinar papéis. – O mais novo deu um risinho singelo, mas era notório a mudança de humor pra quem tinha passado os últimos dias sumido, ou cabisbaixo e desanimado pra qualquer coisa.

Isaac

Isaac queria que o trabalho no Conselho depois dos jogos internos fosse menor, mas era o completo oposto. Com a formatura em vista nos próximos meses, os campeonatos específicos de verão de alguns clubes e as eleições para a chapa do próximo ano letivo, o trabalho só se acumulava, e muito. Mais ainda porque Renaud estava com problemas para lhe ajudar, Didier era o problema, e tinha Yure para ensinar as coisas. No fim das contas, o ruivo estava se saindo bem melhor do que tinha previsto e estava lhe ajudando mais do que esperava nas últimas semanas com pilhas de trabalho.

Claro que ele ficava com alguns trabalhos mais simples, de organização e contato com os grupos e entender como a mecânica do conselho estudantil funcionava, mas já era muito para Isaac que tinha que trabalhar sempre com previsões orçamentárias e propostas para a administração que beneficiassem os alunos. Naquela sexta, foi surpresa receber uma mensagem de Renaud avisando que iria ao Conselho e que levaria Didier junto para trabalharem, embora tivesse imaginado que Renaud não fosse voltar tão logo para a academia com a mensagem de que tinha ido passar uma noite com a mãe na casa da família. Isaac só respondeu com uma mensagem formal que era esperada e seguiu com o trabalho, enchendo Yure de papeladas para levar para todos os outros grupos e setores da Academia.

Só quando o ruivo saiu pela porta depois de reforçar pela décima vez para ele não correr, que Renaud entrou na sala, e a primeira coisa que Isaac colocou o olho foi a gravata com um nó extremamente mal-executado. O impulso de se levantar e ir consertar foi tanto que ele nem ouviu o primeiro comentário de Renaud, e se aproximou para ajustar a peça de roupa sem nem pedir licença.

- É bom ter você de volta, mesmo sem assinar papeis. - Isaac respondeu, e a expressão fechada só denunciava o desagrado com a roupa torta. Ele não parou no nó da gravata, ajustou os botões, as dobras da roupa, a camisa dentro da calça, as lapelas do terno, as abotoaduras dos punhos e ainda observou as bandagens um tanto mal-feitas. Mas com a roupa toda arrumada, ele finalmente levantou o olhar para Renaud, encarando a expressão mais suave do que tinha visto nos últimos dias e o rosto com um pouco mais de cor. - Você parece melhor. Tomou os remédios na hora certa hoje? E as refeições? Eu vou pegar o kit de primeiros socorros para arrumar isso. - ele apontou para os curativos nas mãos e esperou que Renau lhe acompanhasse enquanto ele se movia para fazer o que tinha dito.

Renaud

Não era surpresa ver o amigo com aquela expressão fechada, afinal ele deveria estar trabalhando triplicado, mas sabia que parte daquela irritação era porque estava profanando o sagrado código de vestimenta da academia, e para alguém com “toc” como o secretário, a sua imagem deveria ser algo de franzir as sobrancelhas. Nem se opôs ao mais velho invadir seu espaço pessoal para arrumar sua gravata, e ergueu um pouco o pescoço para que ele fizesse o nó com mais espaço. Nem conseguia levar aquela situação a sério, e acabou lembrando do que sua mãe tinha comentado de manhã sobre serem “namorados”, não tinha como negar, imagina e alguém visse os dois naquela cena hilária digna de um filme de comédia romântica:

– Sim, e sim. É estranhamente bom estar de volta. Obrigado pelos ajustes.– o mais novo respondeu de forma direta, porque sabia que tinha pedido pro amigo lhe cobrar aquelas questões diariamente, já que não dava pra confiar na própria memória e noção do tempo como antigamente. Porém a situação toda era uma oportunidade boa demais para deixar passar sem fazer alguma brincadeira, e ver que tipo de reação poderia tirar do sempre sério “secretário máscara de ferro”:

– Sabe, é por esse tipo de “interação” que a minha mãe acha que você é quem é meu namorado.– O jovem Blanco acompanhou o amigo até a mesa, esperando que Isaac trouxesse o material de primeiros socorros pra trocar suas bandagens, e aquela altura mesmo que o machucado ardesse e incomodasse, a situação toda contribuia para que Renaud ignorasse aquele ponto, e mantivesse o ar mais leve:

– E pensando bem, depois do almoço onde você insistiu em me dá comida na boca, talvez uma boa parcela de alunos da academia também alimente a hipótese que nós “finalmente” assumimos um relacionamento. Se bem, que não seria uma má ideia, considerando o quanto você é bonito, bom de cama, e com certeza tem o melhor cafuné dessa academia, se eu estivesse solteiro até pensaria seriamente em investir nessa ideia. – o moreno falou com um falso tom sério, mas que certamente seu amigo não perceberia que tudo aquilo era brincadeira, ou pelo menos a uma parte. Já que não tinha mentido sobre nenhum dos atributos do moreno mais alto, muito menos sobre o fato de agora não ser mais um cara solteiro.

Isaac

A roupa arrumada de Renaud colocou uma expressão mais suave no rosto de Isaac, a resposta positiva dele para as suas perguntas e a postura mais segura também deixaram o secretário mais satisfeito com o estado de Renaud. Podia ser péssimo para perceber trejeitos emocionais das pessoas ao redor, mas para alguém que conhecia tão bem quanto Renaud, dava para deduzir que ele estava bem. Melhor do que nos últimos dias e em meio à crise.

Isaac tirou o kit de primeiros socorros de um dos armários e quando estava voltando para a mesa, o comentário sobre a mãe do outro ter achado que eram namorados até lhe fez derrubar a caixa no meio do caminho, com uma expressão de surpresa e de estranhamento.

- Nós não somos namorados. - Isaac apontou o óbvio, abaixando-se para pegar a caixa e levá-la para a mesa como se nada tivesse acontecido, enquanto Renaud apontava todos os outros detalhes que podiam indicar um relacionamento entre os dois, o que era quase perturbador. Ele tirou os materiais da caixa e esperou que Renaud lhe estendesse a mão, enquanto terminava a justificativa com um comentário pontual que não passou despercebido ao secretário. - Você não conseguia comer sozinho, lhe ajudar era só lógico. Eu sou bonito, e bom de cama, e não tenho dados suficientes pra dizer que tenho o melhor cafuné da academia. Mas nunca pensei em você como namorado, sempre achei que você e o Didier já eram isso. Pelo jeito que falou de não estar mais solteiro, agora é verdade?

Isaac tinha tirado as bandagens e jogou no lixo, vendo o estado das mãos machucadas com a pomada para melhorar. Pegou bandagens novas na caixa e fez o trabalho de um modo mais leve do que era costume quando lidava com os machucados de Renaud.

- E como foi a noite com a sua mãe? Ela está bem? - ele perguntou, principalmente porque tivera a oportunidade de conhecer a mulher quando viajaram a Paris.

Renaud

O moreno mais novo nem tentou conter o risinho diante da reação exagerada de Isaac aos seus comentários, ter derrubado a caixinha de primeiros socorros certamente era um clichê, mas um muito bom, e vê-lo no time correto dentro da cena no mundo real, fora de um filme de comédia romântica classe B, era muito melhor. Renaud manteve o ar leve no rosto, embora ainda tivesse as olheiras e traços bem marcados de cansaço, ainda assim, estava sustentando a melhor aparência que tinha em dias, e aquilo até o próprio Isaac podia notar, afinal se conheciam a uns bons anos. O moreno mais novo estendeu as mãos na direção do outro quando foi pedido, e logo percebeu como o secretário estava mais “gentil” no trato dos seus machucados, em verdade, tinha um uns dois oceanos de diferença no tratamento, e aquilo era mais uma pequena prova de que mesmo denso o secretário conseguia perceber algumas coisas ao seu redor, e a prova foi que ele também notou o ponto de que o Vice-presidente não estava mais solteiro em sua fala anterior.

Era o momento de Renaud ser o protagonista do seu próprio filme clichê romântico, e quando perguntado sobre estar de fato namorando com Didier, o moreno mais mais novo sorriu inconscientemente, muito mais feliz do que era possível vê-lo em qualquer outro momento:

– Oficialmente, sim, com direito a pedido formal, e declaração romântica digna do romantismo do séc XVIII, ou quase isso. – Admitiu pondo uma expressão provavelmente inédita para o secretário, afinal, não era “comum” ver o jovem Blanco dando risinhos como um rapaz bobo apaixonado de dezenove anos que de fato ele era. E em seguida, o moreno mais novo esperou que seu amigo cuidasse dos machucados, enquanto pensava em como responder como tinha sido sua noite na companhia de sua mãe:

– Ela está aparentemente bem, pelo menos até quando a gente se despediu de manhã. – Renaud começou o relato pela parte mais fácil que era dizer o óbvio, que a sua mãe estava bem, sobre a estadia em si, não tinha porque dá rodeios, podia ser sincero, só tinha de escolher palavras mais objetivas pra o amigo entender melhor sua situação: – Foi tudo bem inesperado, não sabia que ela viria pra Cerise, quem dirá que eu teria de ir dormir em casa, mas nós conversamos muito, primeiro foi desconfortável, depois tornou-se mais tolerável, e só depois ficou mais confortável. Chegamos a conclusão que nenhum de nós dois é bom em falar como se sente. Ela me pediu desculpas sobre o nosso desentendimento em Paris, e algumas outras coisas.

Renaud parou a própria narrativa e encarou o amigo, talvez parecendo mais normal do que nunca, afinal, nem estava interpretando papel de nada ali, nem estava xavecando, e nem abatido, estava apenas sendo ele, falando sobre problemas da sua própria família em um tom normal: – Eu não esperava por nada do que aconteceu, mas acho que o saldo foi positivo no final das contas.

Isaac

Isaac olhou torto para a expressão sorridente de Renaud que era tão estranha, mas continuou com os curativos com atenção. O que mais captou da informação dele foi algo com que já estava bem familiarizado.

- Espero que não seja romantismo do século XVIII, ou vocês dois vão morrer jovens. - Isaac respondeu, sobre a época literária que ele entendia apenas um pouco. - E acho que já passaram da fase de tentar se matar nas gangues.

Ele terminou de enfaixar as duas mãos, colocando pedaços de esparadrapos para finalizar e guardando os materiais de volta na caixa. Mas não devolveu ao armário, ficando diante de Renaud enquanto ele narrava sobre como a mãe estava e sobre como tinha sido o encontro dos dois. Não podia tirar muitas conclusões das poucas informações, mas Renaud parecia de bom humor, e o relato foi bem conciso.

- Parece que foi um bom encontro. Melhor do que quando estávamos em Paris. - ele disse, e só tinha como parâmetro o que tinha visto de Renaud com a família na viagem breve, e tudo parecia excessivamente formal até para ele, que tinha pais muito atenciosos em contraste. Fez um aceno positivo com a cabeça quando ele disse que o saldo tinha sido positivo. - Isso é bom. Ela vai ficar em Cerise? Se for dormir em casa de novo, lembre dos horários dos remédios e das refeições.
Renaud

Não tinha como evitar achar graça da forma como o amigo destacava justamente o ponto mais trágico do movimento literário que tinha citado, apenas a cargo de hipérbole, mas se fosse de outra forma não seria o bom e velho Isaac. Concordou com um aceno de cabeça de que não queria ter de morrer jovem, agora queria poder viver bastante pra ter tempo de aproveitar coisas com Didier, principalmente quando não estivessem mais presos a instituição masculina, mas aí era um tópico que tinha decidido pensar depois pra não ter que gerar ansiedade com um futuro que embora próximo, não era imediato.

– Nossas interações não eram muito mais profundas do que a amostra que você viu em Paris, apenas multiplique aquilo por dezenove anos, muita formalidade pouca pessoalidade. – pontuou muito diretamente até para que o amigo tivesse noção melhor de como aquela noite tinha sido inédita para o jovem Blanco, e mesmo agora, ainda não tinha absorvido tudo que tinha sido dito, tanto por ele próprio, quanto da própria mãe para ele. Quando veio a pergunta mais direta se ela estenderia a permanência na cidade, Renaud fez uma expressão mais neutra, o que já antecipava uma resposta negativa:

– Quem dera, mas ela já disse que tinha de voltar pra Paris, talvez eu tenha de falar com meu pai que tá voltando de viagem sabe-se lá de onde-...! – Antes que Renaud pudesse terminar o relato, seu celular estava tocando e tinha noção que naquele horário não tinha qualquer medicamento ou alimentação pendente, puxou o aparelho com as pontas dos dedos e deixou sobre a mesa, notando que era uma ligação do assessor de seu pai, o que provavelmente queria dizer que o homem já estava de volta ao paí, muito mais cedo do que tinha julgado: – vou atender no viva voz, porque não tenho como segurar o aparelho, mas pode ficar aí, não tem problema não. – avisou para que Isaac não se sentisse invadindo sua privacidade ouvindo uma ligação de telefone, atendeu a chamada, e logo de cara dava pra ouvir o som de vento e de espaço amplo como se o outro estivesse num aeroporto ou coisa assim:

– Renaud? – a voz do homem do outro lado da linha soou com certa urgência, e talvez em dias normais Renaud tivesse desconfiado daquilo logo no primeiro momento, mas sua resposta foi apenas automática em perguntar o óbvio:

– Oi Germand, já chegaram em Paris?

– Onde você está? Está sozinho? – O fato de Germand não tentar esconder que havia urgência na situação deixou o jovem Blanco alerta, de que algo tinha acontecido, mas sequer podia imaginar o que seria:

– Em St. Clavier, onde mais eu estaria? O que houve?

– Tente ficar calmo, o que eu vou falar não é fácil de ouvir. – Pedir pra alguém ficar calmo não é a melhor forma de começar uma conversa, e automaticamente o corpo do Blanco ficou tenso: – A polícia parisiense acabou de nos informar assim que desembarcamos no aeroporto, que a madame Capuccine sofreu um acidente de carro na interestadual entre Cerise e Paris, e que ela não resistiu… quando os paramédicos chegaram lá não tinha mais nada a se fazer.

Embora tudo que tivesse de ser dito, tinha sido dito, as palavras não fizeram sentido na cabeça de Renaud, afinal, tinha conversado com a mulher na manhã daquele mesmo dia:

“como assim não tinha resistido?”

“o que quer dizer não resistir?”

– … – Renaud não sabia o que responder, a expressão estava congelada numa de surpresa, os olhos escuros vidrados na tela do aparelho, o rosto ficou pálido de pronto, era como se tudo estivesse travando ao seu redor e enrijecendo a ponto do ar ser duro como concreto para se respirar.

– Eu e o seu pai estamos cuidando de tudo que envolve a polícia e o translado do corpo[...]

“Translado do corpo?”

[...] principalmente entender como isso tudo aconteceu, um motorista da família deve ir até St. Clavier pra lhe buscar, arrume suas coisas, vai te levar para a casa da família [...]

“Do corpo da minha mãe?”

[...] quando tivermos mais detalhes sobre todo o ocorrido, vamos avisar a todos da família. [...]

“Do corpo…”

[...] Renaud você ainda está aí? Renaud…?[...]

A sala toda derretia e esfarelava ao seu redor, tornando-se uma imagem distorcida como se tudo convergisse para o aparelho celular, e nada mais existisse, os sons se afastaram, a voz de Gemand ficou miúda e distante, as imagens correram pra longe, a respiração fugiu, e tudo ficou em silêncio.

“morto”

– AAAAAAAAAAARRRGHHHHHHH! – O grito rasgou-lhe as entranhas saindo a plenos pulmões, Renaud se levantou de solavanco como um raio, e marretou contra o aparelho celular com a lateral dos punhos, com toda a força que tinha no corpo, fazendo o aparelho em pedaços. Renaud estava completamente fora de si.

Isaac

- Pelo menos vocês tiveram chance de conversar. - Isaac respondeu, para só então pegar a caixa de primeiros socorros e levar de volta até o armário, enquanto o outro dizia que a mãe já tinha que voltar a Paris. Aquilo só lhe levou de novo ao fato de que ele estaria nos dormitórios e podia precisar de ajuda. - Se precisar de alguma coisa mais tarde, mande mensagem. E vou lhe ligar nas horas dos remédios.

Na cabeça de Isaac, se ele estava com a mãe ou a família em casa, certamente eles teriam responsabilidade de lembrar dos horários. Claro que o mesmo não valia para Sasha e Didier, já que não confiava na pontualidade dos dois, por isso no dormitório, se sentia mais na obrigação de lembrar daqueles detalhes. Só concordou com um aceno de cabeça breve quando Renaud disse que ia atender a ligação no viva-voz e seguiu até as prateleiras de arquivos para pegar as pastas de orçamento necessárias pra continuar fazendo as previsões.

Ele não deu muita atenção à conversa de Renaud, embora pudesse ouvir um homem falando do outro lado. Isaac não queria invadir a privacidade do outro de todo modo, então manteve o foco no trabalho para deixar que Renaud conversasse, inclusive, até ficou mais tempo olhando os arquivos de costas para o mais novo.

Até ouvir uma informação muito pontual do outro lado do telefone que lhe fez congelar onde estava. Primeiro foi o aviso do acidente, e então que a mulher não tinha resistido e que os médicos tinham chegado ao local sem ter o que fazer. Isaac engoliu em seco, sentindo as mãos geladas com os arquivos em mãos, e não se virou para Renaud de imediato. As informações continuaram vindo do outro lado e ele não ouviu também uma resposta do mais novo. Isaac se virou só para ver as costas de um Renaud que não tinha se movido um dedo enquanto olhava para o celular sobre a mesa. Ele engoliu em seco, sem saber o que fazer exatamente, não era muito bom naquelas situações. A voz do homem do outro lado chamou pelo nome de Renaud, mas ele não respondeu.

- Renaud? - Isaac tentou chamar por ele também, ainda com as pastas em mãos, mas a resposta veio num grito ensurdecedor que invadiu toda a sala, acompanhado do som seco das batidas intensas das mãos dele contra a mesa e o celular, quebrando o aparelho com muita facilidade.

Isaac demorou mais do que gostaria para reagir, com o choque da notícia somado ao choque de Renaud. Largou a pasta no chão e cobriu o curto espaço na direção do outro, agarrando-o pelo tronco e puxando-o para trás para impedir que ele continuasse batendo na mesa e acabasse machucando ainda mais as mãos queimadas.

- Renaud! Pare com isso! - ele precisou falar mais alto para tentar se fazer ouvir contra o grito, colocando força em volta do corpo do outro para tentar segurá-lo.

Renaud

Renaud estava quase que totalmente desconectado da realidade, os seus olhos estavam vidrados e focados único e exclusivamente na mesa e no celular que estava sobre ela instantes atrás, que agora jazia despedaçado com a tela totalmente trincada no chão. Não havia raciocínio em suas ações, apenas um instinto colérico de pura violência.

Não havia qualquer sentido lógico em porquê estava fazendo aquilo, o corpo estava apenas reagindo a explosão de ira que tinha dentro de si. E o que estivesse em sua frente iria sentir toda sua fúria. O moreno ignorou completamente que havia outra pessoa na sala, e seguiu castigando a superfície da mesa em marretadas repetidas sobre a mesma. Tanto que na foi surpresa o móvel ceder sobre a raiva que o mais novo despejava sobre a mesma.

Mesmo que Isaac o chamasse por seu nome, as palavras não chegaram aos ouvidos de Renaud, e seguiria gritando e destruindo as coisas à sua frente, no entanto, o moreno mais novo percebeu quando foi puxado para trás e impedindo de continuar golpeando as coisas a sua frente. E a reação instintiva foi se debater para se soltar sem entender o que, ou quem exatamente o estava puxando.

Ser impedido de descontar toda aquele caos que sentia nos objetos à sua frente, deixava Renaud ainda mais e mais inquieto, e isso era perceptível pelo quanto ele se mexia, e botava força no sentido de seguir para frente. A ponto do mais novo firmar os pés no chão, e girar os braços com violência para tentar se soltar.

Isaac

Renaud não lhe ouviu com os primeiros chamados, como Isaac até tinha previsto, e segurou-o com a força que tinha para que ele pelo menos parasse de se machucar. Claro que não adiantou muita coisa, Renaud podia estar sob efeito de medicamentos pesados, mas ainda era muito forte, e imaginou que com uma descarga de adrenalina, ele teria bastante força para revidar até se ver bem exausto.

Isaac até conseguiu puxá-lo para longe da mesa que já estava cedendo com os golpes, mas ele se debateu ainda mais intensamente, continuando a gritar e empregar força ao ponto em que nem adiantou que Isaac desse um impulso para trás, sentiu quando Renaud travou os pés no chão e fez força no sentido contrário, puxando-os para frente com mais facilidade do que o secretário conseguia se manter firme no chão. Os braços em volta do moreno cederam um pouco e devia ter colocado mais força, porque foi fácil para Renaud girar o corpo e se debater, acertando-lhe na altura do ombro para que o largasse de vez. Isaac sentiu a dor da cotovelada no ombro e foi jogado um passo para o lado, mas isso lhe fez dar uma boa olhada na reação do mais novo, em busca de descarregar de novo a irritação, a despeito dos machucados nas mãos, e daquela vez, ele precisou calcular melhor como tentaria contê-lo. Obviamente, gritar pelo nome dele e pedir para parar não daria certo.

Isaac não deu muito tempo para que Renaud conseguisse destruir mais coisas na sala do conselho, e precisou dar uns passos para trás quando ele pegou até uma das cadeiras pesadas. Mas deu a volta pelo mais novo e, já que ele não estava interessado em lhe acertar, mas acertar os móveis na sala, se aproximou por trás de novo, passando os braços por cima dos de Renaud e puxando-os para trás, para fazer uma trava e impedir que ele continuasse acertando as coisas.

- Renaud! Me escute!! - ele insistiu, falando mais próximo do outro, os braços firmes em volta dos de Renaud para impedir que ele se mexesse, mas certamente não funcionaria.

Renaud

A sensação de estar livre foi mais intensa para Renaud do que se preocupar com o que tinha tentado lhe segurar. O corpo se movia apenas guiado pelo impulso de extravasar a turbulência que residia dentro de si, por todo corpo a sensação de calor e febre se alastrava, a respiração fervia nos pulmões e os grunhidos de pura raiva rasgavam de dentro para fora. Pegou o objeto mais próximo, que era uma cadeira da mesa de reuniões e a ergueu com as duas mãos acima da cabeça, quase acertando as luminárias do teto, e acertou contra a mesa com toda força, entortando o metal, e fazendo ranger as articulações da cadeira, golpeou repetidas vezes, até que o próprio objeto escorregou da mão do Blanco.

Estava prestes a erguer os braços novamente para golpear mesmo com as mãos nuas, mas foi impedido de prosseguir pelos braços sendo presos. O corpo fervia por cada centímetro, e sua reação imediata o fez aplicar ainda mais força para se livrar, cerrando os dentes, e soltando o ar pelo nariz bufando, jogando o peso do corpo para frente com violência, mas sem sucesso daquela vez para se soltar. A voz de Isaac não chegou aos ouvidos do jovem Blanco de forma inteligível, mas a presença dele finalmente surgiu na compreensão, como algo no seu caminho, algo que precisava sumir.

Renaud grunhiu de forma ameaçadora o som vindo do fundo de sua garganta num som rouco, longo e arrastado, espiando por cima do ombro, o olhar escuro sem brilho, as veias dilatadas que deixava sua esclera vermelha. Naquele ponto viu que existia alguém ali, mas não reconheceu como sendo o secretário seu amigo.

Por isso, o rapaz se debateu, intensamente, jogando a cabeça para trás com o intuito de cabecear o rosto do outro, e se livrar do aperto dele. A intensidade com que jogava o corpo para trás era tamanha, que sequer estava prestando atenção no próprio equilíbrio. Queria apenas se livrar de sua prisão e tornar a descarregar toda a dor que perpassava o seu corpo para fora.

Isaac

A nova tentativa de segurar Renaud foi mais eficaz ao impedi-lo de mover os braços, desse jeito ele tinha pouca liberdade para se mover e não podia machucar as mãos ainda mais feridas. Àquela altura, as bandagens já estavam frouxas e vermelhas do sangue das feridas de queimaduras, e Isaac realmente queria que ele parasse de se machucar. Mas mesmo que a nova chave de braço tivesse funcionado melhor, sentiu o peso de Renaud para frente e depois para trás, quando ele jogou a cabeça para tentar lhe acertar. Reagiu ao mesmo tempo, jogando a cabeça e o corpo para trás e se livrando do golpe, embora a intensidade dos movimentos dele já estivesse colocando muito esforço em seus braços e lhe fazendo suar.

Isaac nem tentou se fazer ouvir de novo, o olhar injetado de Renaud quando virou a cabeça para trás já mostrava que ele não conseguia distinguir absolutamente nada nem racionalizar. O secretário sabia que ia ter dificuldade de segurá-lo ainda em pé, e com os puxões e empurrões intensos, podiam bater em mais móveis ou cair. E foi a breve noção de que os dois cairiam que deu uma ideia a Isaac: era melhor prendê-lo usando o corpo todo contra o chão. Com um dos impulsos de Renaud para tentar se livrar, indo para o lado, Isaac só ajustou o pé no chão e ao invés de fazer força contrária, ele se jogou na mesma direção que Renaud, e com a força combinada dos dois e o desequilíbrio, foi fácil cair no chão com um baque forte contra o ombro, tanto seu quanto de Renaud, e a perspectiva da queda lhe colocou num modo de tensão, incapaz de tentar se amparar da queda com os braços, ele colocou mais força na trava que prendia os braços de Renaud e o outro não conseguiu se soltar no processo.

Isaac ignorou a dor que assolou o ombro e o corpo todo tensionado, aproveitou que estavam no chão e antes que Renaud continuasse se debatendo, ele se virou sobre o corpo do mais novo, pressionando-o contra o chão usando os braços travados em volta dos dele, o próprio tronco empurrando-o para baixo, os quadris sobre os dele, e os pés buscando travar as pernas dele no chão também - embora fosse difícil empregar muita força com as pernas naquela posição. Naquela postura, sentindo a dor nos braços por estarem travados em volta dos de Renaud, ele ainda encarou o outro de cima, numa distância segura para que ele não jogasse a cabeça para trás para tentar lhe acertar de novo, e de novo, tentou se fazer ouvir.

- Renaud, pare com isso! Você precisa me ouvir!
#2
Renaud

Renaud seguia naquele estado completamente irracional, tomado apenas por raiva, e embora seu corpo todo reclamasse em espasmos e tremores de dor, o calor febril que lhe assolava apenas o deixava mais e mais irritado, como se estivesse afundando naquele estado colérico e simplesmente não conseguisse mais parar. Tinha o único objetivo de se desvencilhar do aperto e depois se livrar da pessoa que o tinha prendido, a razão do porquê daquilo tudo, sequer passava pela mente do jovem Blanco, ele era tão somente movido pelo impulso de destruir tudo ao seu redor. E no decorrer das várias tentativas de cabecear o estranho que lhe segurava, em algum momento o chão ficou distante de seus pés, e o corpo foi jogado para lateral com velocidade, mesmo que instintivamente conseguisse perceber que iria cair, o moreno mais novo não tinha qualquer condição física de impedir a queda de acontecer.

Sentiu o impacto com o chão sobre o ombro, e por consequência o calor se espalhar por todo o corpo, irradiando daquele ponto e formigando por toda extensão dos braços. A visão tremeu e a mente ficou turva e o tempo de reação teve um atraso considerável, o corpo não queria reagir adequadamente no momento que queria, e por isso o estranho conseguiu manter seus braços firmemente presos, e ainda conseguir girar o corpo de ambos, de forma que Renaud ficou contra o chão, impedindo-o assim de sair de onde estava.

Naquele momento toda a adrenalina desprendida deixava o Blanco completamente alheio a sensação de dor, convertendo tudo num calor enlouquecedor, cada centímetro do corpo estava queimando em febre, o ar era insuportável de por pra dentro e ficar preso naquela situação, o deixou ainda mais agressivo. Renaud apoiou os joelhos e a testa contra o chão, e arqueou a coluna se debatendo violentamente, e rosnou com toda força que seus pulmões lhe deixavam.

E se antes o mais novo parecia muito agitado, agora ele parecia completamente ensandecido a se soltar, e seguiu se debatendo com toda força que tinha, sequer se preocupando se estava machucando os braços, a testa ou qualquer parte do próprio corpo. Os gritos ficavam cada vez mais altos e agudos, a ponto das veias saltarem no pescoços o rosto ficar totalmente vermelho como se todo o sangue tivesse subido a cabeça.

Isaac

Isaac achou que conseguiria segurar melhor Renaud naquela posição, mas além de não lhe ouvir de novo, pareceu que toda a força dele se intensificou quando viu que estava ainda mais encurralado. Ele não lhe ouviu de novo, e naquele process de tentar segurá-lo, Isaac ainda continuou a chamar pelo nome do outro, tentando se fazer ouvir, o que parecia inútil. Quanto mais sentia os braços cansando, mais apertava a trava, na noção quase desesperada de que Renaud conseguiria se livrar se ele se rendesse ao cansaço e o que poderia vir de ruim daquilo.

Quando ele apoiou os joelhos no chão para tentar se erguer, Isaac usou os pés, enganchando-os na altura da coxa de Renaud e puxando uma perna por vez, para impedir que ele realmente erguesse o corpo mesmo com o seu peso pressionando-o para baixo. Mas fazer aquilo mais de uma vez era complicado, principalmente com a energia e a força de Renaud que simplesmente pareciam não ceder mesmo com toda a descarga de adrenalina até então.

- Renaud! Sou eu! O Isaac! Pare com isso!! - ele tentou, pela milésima vez, se fazer ouvir no meio do momento de fúria do mais novo, e quando prendeu a perna na dele para impedir que ele erguesse os quadris mais uma vez, sentiu a perna deslizar, e quando Renaud conseguiu apoiar os dois joelhos com segurança no chão, o impulso dos quadris e das costas foi suficiente para finalmente jogar Isaac para o lado.

Ele ainda manteve a trava nos braços como podia, puxando Renaud caindo para o lado também, mas daquela vez, sentiu os braços cederem e quando o movimento para trás de Renaud lhe atingiu numa cotovelada na altura do tronco, ele conseguiu se soltar dos seus braços antes que pudesse racionalizar o que fazer a seguir. Isaac nem teve tempo de levantar ou pensar em como segurar Renaud, mal entendeu a própria situação, estava de costas para o chão, com Renaud avançando para se colocar em cima de si, e a única reação automática foi erguer os braços para impedir que os golpes que certamente viriam das mãos já machucadas acertasse seu rosto em cheio.

Didier

Apesar de ter conseguido ligar para Renaud no dia anterior quando ele saiu para casa da família dele, não negava estar preocupado. Não fosse o moreno lhe assegurar que estava tudo bem de manhã, estaria altamente pilhado para lidar com os primeiranistas naquele dia. Não que tivesse um trabalho difícil: iria apenas ajuda-los com os estudos de algumas matérias nas quais era bom, e prestar um socorro pré-provas, pois pelo visto o Quartanista era ele, mas os garotos quem precisavam de ajuda.

Tinha combinado com Renaud de ir até o Conselho Estudantil. Admitia que depois de tudo, seria bom retomar a normalidade das atividades do conselho. No fim das contas, tinha dado mais que trabalho para Isaac nos últimos quatro anos. Não lhe custava ser um bom presidente nos meses restantes de St. Clavier. Não que de fato pretendesse ser um bom presidente, mas sentia falta da interação dos três naquela sala, em que ainda não tinha pisado desde sua briga com Renaud. Não queria levar dela só as memórias ruins.

Quando terminou com os primeiranistas, foi de uniforme até o outro prédio onde ficava a sala, afinal, Isaac merecia lhe ver de uniforme de vez em nunca. Pensava nisso como um prêmio pelo moreno ter sido um bom ouvinte e estranhamente um bom conselheiro para ele e Renaud.

Porém, mal tinha pisado no prédio, foi impossível não ouvir o berro aterrorizante que ecoou pelos corredores.

Sentiu o coração acelerar, e até ignorou as cabeças dos alunos que curiosos, abriram as portas de suas salas. Só viu o caminho a frente, e disparou nele. Didier não tinha nada que o direcionava melhor que sua memória, e o som daquela voz, naquela rispidez de ódio não lhe lembrava mais nada a não ser os urros de Renaud, que muto tinham marcado sua vida. Poderia não ser o mesmo tom, ou o mesmo sentido, mas era a mesma voz, e conhecia bem demais aquela voz para que não corresse tanto quanto podia na direção dela.

Quando chegou na porta da sala, respirou fundo, notando alguns alunos já começando a rondar ali com expressões assustadas. Não teve receio algum de empurrá-los do caminho sem delicadeza alguma para abrir a sala do conselho, os sons muito mais intensos agora que estava frente a porta.

- Sai! – berrou com um garoto que estava tentando espiar pela brecha da sala, e abriu a porta, vendo logo a cena de Isaac sendo jogado para o lado e Renaud, com as mãos muito machucadas, completamente fora de si como infelizmente já tinha presenciado, embora algo ali tivesse feito um calafrio percorrer todo seu corpo. Não lhe era um cenário muito distante na memória. – RENAUD! PARE!! – berrou, mas não deu uma pausa sequer naquela porta, se lançando em direção ao mais novo, aproveitando que os braços dele estavam abertos para se posicionar para bater e agarrando-o por trás, usando toda a força e impulso que tinha com os pés plantados no chão para afastá-lo de Isaac, puxando-o para que caísse consigo no chão, pois mais que certamente não conseguiria levantar ou arrastar um homem do tamanho do moreno. – Arrghh!! Renaud...!! Renaud, é o Isaac!! O que está acontecendo aqui!!??

Renaud

A sensação de estar impedindo de se mover trazia ao jovem Blanco o pior dos seus instintos de sobrevivência, podia ignorar a dor física que assolava cada pedaço do seu corpo, e a efervescência de seu sangue correndo ligeiro de baixo da pele, mas não podia ignorar o fato de que sua existência estava ameaçada. Estava bufando e se debatendo como se sua vida dependesse dele se ver livre daquela imobilização, e quanto mais tempo demorava ali contido, a sensação de raiva se misturava com a urgência e desespero de estar livre.

Em determinado momento, o aperto sobre seus braços afrouxou, foi um instante, mas foi o suficiente, para que o jovem Blanco impusesse mais força nos braços para se soltar definitivamente, cerrando os punhos, as bandagens totalmente estragadas as mãos úmidas do próprio sangue. Já que não tinha velocidade, iria fazer tudo na base da força jogando o estranho para trás e ignorando todo o tremor e choque de cãimbras que irradiavam por todo seu corpo, o moreno mais novo conseguiu apoio o suficiente sobre os joelhos, e girou o corpo se virando na direção da pessoa que o tinha segurado, e ergueu os punhos fechados, os dentes cerrados, o olhar guiado com o único objetivo de marretar o outro, embora na sua visão ele fosse apenas um borrão mal definido pra ser abatido.

No entanto, antes que pudesse seguir a voz familiar rasgou-lhe os ouvidos, fazendo sua cabeça doer, e mesmo percebendo que vinha alguém em sua direção o corpo não se mexeu, e logo estava sendo jogado para trás com força. O choque da voz chamando por seu nome de forma que conseguia compreender, tomou ciência quem era.

“mas porque estava brigando?”

ela não resistiu…

“porque tudo doía?”

o translado do corpo

“Que corpo?”

“Do corpo morto!!”

“morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! morto! [...]”

Após ser jogado para trás Renaud ainda jogou o corpo pra frente, a expressão furiosa gritou a voz saindo do fundo das entranhas e rasgando-lhe a garganta, num urro longo visceral como um animal que tomava ciência que tinha sido abatido e estava desfalecendo. A reação exagerada do jovem Blanco, sendo vista claramente através da porta do conselho estudantil trouxe terror para os alunos que bisbilhotavam a cena, fazendo-os se afastar do local e recuar, com medo real do que aconteceria ali. De fato, ninguém iria querer ser chamado pra ter de explicar o que viu ali.

A voz de Renaud foi subsidiando e o que parecia apenas selvageria e raiva, tornou-se num gemido lamurioso, longo e triste, que refletia o cansaço físico e mental do jovem francês. A voz tornou-se um engasgo com a garganta arranhando, e o rosto de Renaud se distorceu numa expressão desesperada, com a consciência que voltava diante dos fatos, o corpo cedeu ao cansaço e toda a força que dispunha sumiu de si, sendo tomado por espasmos e tremores involuntários, a respiração ficou pesada e curta, e logo o mais novo começou a soluçar.

- mãe…! - foi a única coisa inteligível que Renaud conseguiu pronunciar, numa voz baixa e fraca, antes que pudesse perceber os olhos se encheram e as lágrimas começaram a rolar pelo rosto incessantemente, os ombros tremendo com o choro desolado que não conseguia conter, as mãos levadas ao rosto de forma completamente desengonçada. Renaud segurou nos próprios fios escuros apertando-os em pleno desespero enquanto irrompia em um choro esganiçado e desconsolado.

Isaac

Isaac tinha certeza de que a sua posição era péssima e só podia torcer para que o surto de adrenalina de Renaud chegasse ao fim para que ele tivesse uma possibilidade de se livrar da surra certa. Podia ser maior que o outro, e até ser ágil, mas no estado em que Renaud estava, e que ele até conhecia, a pancada seria dolorosa e no mínimo perigosa. Ele cobriu o rosto como podia e apoiou os pés no chão, na esperança de conseguir erguer o quadril e lançar Renaud para o lado antes de levar a primeira pancada. E antes de fechar os olhos instintivamente, ainda teve um vislumbre das mãos enfaixadas e ensanguentadas se erguendo em cima da cabeça dele para descer com toda a força que ele tinha nos braços e no corpo, daquela vez Isaac estava realmente com medo do resultado.

Mas a pancada não veio, e o secretário se arriscou em abrir os olhos para confirmar que o peso em seu corpo tinha sumido. Os braços completamente tensionados relaxaram um pouco apenas, antes de perceber que Renaud tinha sido puxado para trás e ouvir a voz estridente de Didier invadindo a sala. Isaac foi tomado primeiro por uma sensação de alívio, e puxou o ar todo de uma vez para os pulmões como se não tivesse respirado direito até então. Mas logo ele ficou em alerta de novo, imaginando se Renaud tentaria fazer o mesmo com Didier, e quando se levantou quase num pulo, foi em tempo de avistar Renaud tentando se soltar dos braços de Didier mais uma vez, mas ele não insistiu, gritou a plenos pulmões de novo e aquele gesto, junto à voz familiar de Didier, pareceu frear as reações desesperadas do outro. O grito cortante foi diminuindo, e a expressão de fúria se contorceu numa de desespero, e o grunhido furioso se tornou um choro copioso quando ele se deixou render ao cansaço e, o que Isaac imaginou, à sensação de perda.

O secretário pareceu sentir o alívio tomar conta do corpo finalmente depois de ver que Renaud não ia continuar se debatendo nem tentando destruir as coisas ao redor, e até ele sentiu o corpo todo dolorido e cansado. Procurou a mesa para se apoiar, mas ela estava longe, então ele só se sentou no chão, a respiração pesada do esforço e o ombro começando a latejar bastante da queda e do golpe anteriores. Ele ouviu o chamado de Renaud em meio ao choro e ergueu o olhar, uma expressão de pesar tomando o seu rosto também, mais pelo estado do amigo do que pela realização da perda dele. Ergueu o olhar na direção de Didier, que estava completamente confuso àquela altura.

- Ele... recebeu uma ligação. - Isaac falou, e percebeu a voz falhar, tanto pelo cansaço, quanto pela notícia que ele não queria compartilhar, ou pelo menos fazer com que Renaud ouvisse de novo. - A mãe dele... num acidente de carro... - o moreno engoliu em seco, quase na esperança de que Renaud podia estar com os ouvidos tomados pelo próprio choro e pelos próprios pensamentos para ouvir tudo de novo.

Didier

Sentiu o solavanco de Renaud tentando puxar o corpo de volta por um instante na direção do secretário do Conselho Estudantil, e até sentiu o suor escorrer pela têmpora do esforço que foi necessário para manter Renaud longe. Já tinha ouvido muitos urros e rosnados vindos do rapaz a sua frente, já tinha até sentido a força quase feral do corpo dele, mas talvez fosse a primeira vez que ouvia uma voz tão desesperadora, quase como um animal sendo abatido, e isso fez gelar bem na base da sua espinha.

Mas não se afastou um centímetro, por mais que a voz esmorecesse em um som derrotado, cansado e desesperado. Pelo contrário, com a imagem de Renaud aos poucos se tornando mais consciente, seu instinto natural foi de se aproximar e levar as mãos até os ombros e o pescoço e o rosto do namorado, sem entender exatamente o que tinha engatilhado aquela reação tão extrema. E foi aí que ouviu ele dizer “mãe”, e as lágrimas começaram a rolar de um jeito pesaroso pelo rosto do moreno.

Didier já tinha visto o poder que a mãe dele tinha sobre ele, assim como tinha sentido o poder que a sua tinha sobre si. Então ouví-lo lamentá-la lhe gerou uma série confusa de sentimentos, pois não sabia o que tinha ocorrido, apenas que na noite anterior ele estava com a família e tinha voltado de extremo bom humor, e agora, ela, o que quer que tivesse feito, tinha destruído Renaud. Sentiu quase uma tontura do tanto de coisas que subiram pra sua mente, e apertou os dentes e respirou tão fundo para controlar o ódio e não apertar Renaud por por acidente que sentia uma veia pulsando em sua testa. O que caralho aquela mulher tinha feito?

Olhou então para Isaac, que estava agora sentado e parcialmente recuperado do susto, os olhos azuis completamente fixos nele enquanto as mãos tentavam acalentar Renaud só pela presença. A mãe de Renaud tinha se envolvido em um acidente de carro. E pela hesitação até de Isaac de falar, e as lágrimas que lavavam a cara de Renaud, o resultado só poderia ter sido o pior.

Didier sentiu uma dor imensa no estômago, e os lábios apertados tremeram enquanto ele tensionava cada músculo do corpo. Ela não tinha direito. Ela não podia ter morrido e deixado Renaud daquele jeito. Tinha vontade de berrar, berrar tão alto quanto o moreno tinha feito, mas respirou fundo, porque... também tinha uma mãe. E sentia imensamente o sofrimento de Renaud naquele momento.

- Renaud…! - foi só o que conseguiu dizer, afinal, e buscou espaço como podia próximo a ele. E ignorou completamente as mãos ensaguentadas, e o surto anterior, e Isaac cansado no canto. Só queria apertar Renaud em um abraço, e envolvê-lo de algum jeito que ele se sentisse pelo menos não tão sozinho. - … Lo siento.

Renaud

Por mais que tentasse conter o choro sequer conseguia respirar, nem sabia direito o que estava acontecendo consigo só sentia que tudo doía num misto delirante de dor física e dor emocional. Sabia que Didier estava ali, sabia que Isaac estava ali, mas as palavras se perdiam facilmente em sua boca, apenas conseguia chorar e chorar, como se tudo que seu corpo tivesse de energia agora fosse pra tentar por pra fora toda a dor que lhe cortava e consumia por dentro. Engasgou algumas vezes e soluçou, os pulmões ardiam e ergueu o rosto lavado de lágrimas apenas pra se deixar ser trazido para próximo do loiro, queria ser amparado, queria ser segurado, sentia que estava se desmanchando, quebrando, se espatifando em pedaços pequenos demais para serem postos de volta no lugar, e quanto mais chorava mais sentia que iria chorar.

“tão injusto…”

Era tudo que conseguia pensar ou fazer sentido na sua cabeça, a mente latejava e doía como se o próprio coração estivesse batendo em concordância com a enxaqueca que lhe consumia. Fechou os dedos com força no fios escuros, e cerrou os dentes, mas não conseguia fazer juízo dos fatos, só conseguia repetir incessantemente.

“injusto…!”

O jovem Blanco se encolheu como se todo aquele caos emocional o fizesse se contorcer se debatendo pra não morrer ali de tanto sofrer. A verdade é que já tinha passado de morrer várias vezes em brigas, já tinha se perdido no escuro da própria mente e acordado completamente desorientado, já tinha brigado com as pessoas que mais amava nesse mundo, mas nada disso sequer se comparava com o que estava sentindo e perpassando todo o seu corpo, era como se tudo estivesse falhando e se desmanchando.

“injusto!!”

O jovem francês abriu e fechou a boca e arfou como se estivesse engasgando sem conseguir respirar direito, mas só não sabia mais como fazer nada, só sentia que estava afundando e afundando sem ser capaz de conter a enxurrada de pensamentos que agora tomavam sua consciência.

“ela se acidentou, e se foi minha culpa? E se eu tivesse dito pra ela ir embora? E se eu tivesse negado ir pra casa? era melhor estar brigado com ela o resto da vida e saber que ela estava viva do que o fato de que ela não existia mais! o que fazer agora? era verdade isso? Não poderia nunca mais ouvir a voz dela? Não podia nunca mais falar com ela? “

“E se… E se…”

- Eu… - A voz saiu totalmente esganiçada entre soluços e a respiração entrecortada: - Eu… nem consegui dizer adeus... ! - O jovem Blanco se lembrava que nem tinha conseguido se despedir direito da mulher na saída de St. Clavier porque apesar de tudo, achava que teria tempo praquilo tudo: - nem me desculpei... pelas coisas horríveis que eu disse no carro… - Claro que aquela altura o rapaz nem estava raciocinando que os dois não iam entender tudo que estava falando, porém, as palavras deslizavam em um tom de lamento, misturado com o choro copioso: - … nem disse desculpas por todos os anos que escondi as coisas dela... nem consegui dizer… o quanto eu a amava... e que a queria tanto por perto… - Renaud se engasgou mais no próprio choro, parecendo pequeno demais naquela sala e nos braços de Didier, parecendo pequeno e insignificante, porque queria do fundo do coração pelo menos ter tido a chance de fazer sua mãe lhe ouvir em um dia bom, em um dia que pudesse dizer que estava feliz, e sendo feliz ao lado dela: - nem consegui cantar aquela canção… aquela música do recital… eu queria tanto… tanto…!

Isaac

Isaac não precisou falar mais do que aquele par de palavras para que Didier entendesse a situação, e pelo estado de Renaud, jogado às lágrimas e ao próprio desespero, ele não precisava mesmo ser mais pontual que aquilo. O secretário do Conselho Estudantil já tinha visto algumas muitas faces de Renaud Blanco, inclusive, nas últimas semanas, ele tinha se rendido a um estado físico e emocional tão abatido que Isaac não conseguiria reconhecê-lo se fosse alguns anos atrás. Mas nada podia se comparar ao modo como o rosto se contorcia e o corpo se encolhia nos braços de Didier, procurando por proteção e amparo que ele devia esperar de alguém além do presidente do Conselho.

Mas ele estava se apoiando em Didier, e tinha ouvido a voz do namorado, e aquilo devia ser pelo menos um bom sinal, não era? Só que ver o modo como o choro só aumentou e como ele buscava desesperadamente colocar tudo pra fora fez com que a dor no corpo e o cansaço de Isaac parecessem irrisórios. Ele sentiu um nó na garganta e a sensação de completa inutilidade em ajudar o amigo naquele momento de confusão e sofrimento. Se Isaac já estava se sentindo fraco pelo esforço de tentar mantê-lo longe dos móveis no conselho e impedi-lo de se machucar, agora tinha perdido o resto das forças para o estado emocional do moreno. Ele abriu e fechou a boca um par de vezes, mesmo que tentasse fazer algum sentido, certamente as palavras não encontrariam o caminho para fora da garganta. Na verdade, a voz que encontrou o caminho e invadiu o conselho foi a de Renaud, no meio do choro copioso, e com palavras que Isaac podia não entender, mas que lhe trouxeram a mesma sensação de desespero e falta de ar do mais novo.

Ele podia não entender muito da relação de Renaud com a família ou com a mãe, mas era impossível não perceber o peso que a presença dela tinha feito na vida do filho. E com todas as coisas não ditas e atos não realizados, Isaac sentiu de novo o nó na garganta e antes que pudesse dar conta, tinha deixado algumas lágrimas escaparem também na sensação de tristeza.

- Eu sinto muito, Renaud. - foi a única coisa que ele conseguiu responder, e num tom de voz baixo que provavelmente não seria ouvido pelo outro.

Didier

Podia sentir o corpo trêmulo de Renaud sob seus dedos, os soluços do choro e o corpo dele vacilando da dor da perda. Queria que ele pudesse só não pensar sobre tudo que tinha acontecido, mas podia só imaginar o que passava na mente dele, e sabia que se para Didier tinha quase lhe causado uma tontura com a notícia, o que ela não seria para Renaud? Não que precisasse de mais explicações que as lágrimas. Quando foi que Renaud tinha se deixado ser tão inconscientemente frágil, e se entregado a tanto pesar? Só o que conseguia pensar também é que era “injusto”. Toda aquela situação era extremamente “injusta”.

Tentou tirar as mãos de Renaud dos cabelos, pois estavam muito machucadas e ensanguentadas, e não era bom que ele ficasse apertando ainda mais com os dedos machucados. Não forçaria ele a nada, mas tentou trazer as mãos para seus ombros. Preferia que ele lhe abraçasse, pois faria mais uso dos braços que das mãos, consciente ou não. Era uma tentativa. Mas de todo modo não largaria o moreno. Apertou ele forte, as mãos afagando as costas e os cabelos escuros, trazendo-o tão junto de si quanto podia, porque se havia algo para qual era completamente impotente, era aquele sentimento de tristeza que pertencia a Renaud e mais ninguém.

Ficou preocupado por um instante quando a respiração dele também vacilou, imaginando como lidar se lhe faltasse mais, mas não demorou tanto e finalmente ele falou algo, o que pôs um peso intenso no corpo de Didier.

Quando ele disse, naquela voz vacilante e a respiração entrecortada que não tinha conseguido se despedir, apertou inconscientemente as costas com os braços no entorno do moreno, olhando para Isaac além de si, os olhos claros marejando. E buscou desesperadamente no que focar, para tirar a sensação que lhe assomava, mas não importava, importava? Era impossível controlar as lágrimas de virem, e até tentou abafar um soluço do choro, encostando o rosto no de Renaud. Podia não entender tudo que ele estava dizendo, mas entendia todo aquele sentimento. Entendia perfeitamente. Era fácil sentir o que ele estava sentindo, ainda mais quando tinha visto o quanto a mãe dele o afetava.

E achava injusto, que ela tivesse decidido reabrir uma ferida tão antiga e partir em seguida, como se tivesse vindo fazer uma despedida. E podia até querer dizer isso um dia para Renaud, ou dizer que inúmeras coisas que haviam passado por sua cabeça com a notícia do falecimento da mãe dele, e como nada daquilo que faltou os dois viverem era culpa dele. Mas não era o momento, e não era a pessoa, porque sabia que aquela era apenas pura dor que ele sentia, e mesmo que dissesse qualquer coisa, não faria nada melhor por ele senão se agarrar firmemente ao corpo que definhava de tristeza em seus braços.

- … Lo sé… que la quería mucho… ahh, Renaud… - a voz de Didier vacilou por conta do choro, porque realmente não tinha nada para dizer. Aninhou a cabeça do moreno mais perto de si, abraçando-o e encostando contra os cabelos escuros. Então olhou para Isaac, e com a mão que estava acariciando as costas do moreno, fez um sinal com os dedos para que ele viesse também, afinal, se não tinham palavras, restava aos dois tentarem alicerçar Renaud para que ficasse de pé pelo menos um instante, para que pudessem cuidar das mãos, que pelo menos era uma dor tratável por ora.

Renaud

Quando tinha se sentido tão ridiculamente pequeno e insignificante? Era paradoxal que sentisse que seu “eu” enquanto pessoa não significava nada, mas que inversamente proporcional era a dor que corroía todo seu corpo, e que era tão grande e insuportável ao ponto do seu corpo não fazer nenhuma resistência aos toques de Didier. Sabia que era o loiro, sabia que era a voz dele, mas ao mesmo tempo a sensação de estar pesado e sendo tragado para um lugar escuro e solitário era ainda mais real, e era assustador na mesma medida, como se fosse algo lhe perseguindo e consumindo junto com toda a tristeza que não conseguia administrar.

As mãos machucadas se agarraram ao uniforme do namorado, como se ele fosse sua “boia salva-vidas” no meio daquele oceano escuro de sofrimento, sequer tinha a força para apertar o corpo dele. Mas era notória a urgência com a qual o moreno mais novo, buscava a figura do outro, se aninhando e buscando salvação no meio daquele turbilhão de sentimentos confusos. E embora soubesse que tanto ele quanto Isaac lhe falavam, não compreendia as palavras ditas, elas não faziam sentido para si, eram apenas as vozes conhecidas próximas. O calor de alguém próximo, e aquilo era uma linha tênue entre estar aqui e ficar perdido em todos os pensamentos que aquela altura não conseguia mais absorver ou entender. Renaud sentiu o peso de outro corpo junto a si, e os braços em volta do seu corpo miúdo, só existiam duas outras pessoas ali, além do pequeno e jovem Renaud Blanco, que eram Isaac D. Lemont, e Didier Callas.

Não estava sozinho, não estava sofrendo sozinho, mas mesmo assim, ainda doía tanto, e tanto. Mesmo que se agarrasse aos outros, o ar não era mais fácil de respirar, e nem a dor no seu corpo parava de existir, e mesmo não estando sozinho, nada, absolutamente nada, nem ninguém mudaria os fatos.

“sua mãe estava morta…”

A realização do pensamento fatídico de que não importasse o quanto sofresse o quanto a amasse, ou o quanto estivesse amparado pelo namorado e pelo amigo; ou mesmo qualquer outra circunstância que pudesse ou não estar sob seu controle, não mudariam o rumo das coisas, e trariam sua mãe de volta, fizeram com que o Blanco parasse de chorar.

Como se a respiração tivesse parado por um momento, e toda força despendida para se segurar em Didier sumiu, como se o corpo tivesse simplesmente desligado por alguns segundos. E naquele instante o tempo, o espaço da sala, as pessoas ali, os fatos, quem era, tudo derreteu e se misturou até virar uma mancha escura e vazia.

Renaud puxou o ar com força depois da parada súbita, erguendo um pouco a cabeça do apoio que tinha encontrado no ombro do namorado, mas sem ter qualquer força para lhe amparar, o olhar escuro vagueou pelo espaço como se não reconhecesse onde estava, sem foco, como se espiasse apenas o abismo vazio dos próprios pensamentos. O corpo esfriou de pronto perdendo toda a sensação de febre que lhe consumia anteriormente, até que a visão escureceu, e os olhos se fecharam, jogando tudo no nada.

Isaac

Isaac só observou enquanto Renaud se entregava ao momento e como Didier estava também desesperado para servir de suporte para o mais novo. Ele ficou estático onde estava apenas porque não sabia o que mais fazer ou como reagir, e só quando viu o gesto de Didier para que se aproximasse, foi que ele saiu do momento de inércia no chão para se levantar, passando a mão pelo rosto para limpar os rastros de lágrimas e se aproximando de Renaud com cautela. Não porque ainda tinha receio de ser atingido, mas porque o outro parecia tão vulnerável que era como se um mísero toque pudesse quebrá-lo de vez.

Estava preocupado com o amigo, fosse no estado físico ou no estado mental, mas o que mais lhe deixou preocupado foi sentir o corpo fraco debaixo de suas mãos e notar quando ele se movimentou. Mas o movimento de Renaud não foi consciente, o corpo dele relaxou demais nos braços de Didier e Isaac até percebeu quando as mãos soltaram o aperto em volta das costas do loiro. Ele se afastou do menor por um momento, olhando-o com mais atenção e até se sentiu mais tranquilo quando ele puxou o ar todo de uma vez, antes e relaxar o corpo de novo. Mas não foi um relaxar de alguém que tinha cessado o choro, ou uma pessoa tomada finalmente pelo cansaço, de novo, o corpo de Renaud estava quieto, com uma respiração muito curta e mole.

Isaac levou a mão até o topo da cabeça de Renaud e buscou encará-lo no rosto, ele estava com os olhos fechados, e a falta de reação lhe deixou mais preocupado de pronto.

- Renaud? - Isaac o chamou, descendo uma mão pelo braço do outro e alcançando o pulso dele, ele não estava movendo a mão, o pulso estava fraco e não era como se Isaac entendesse muita coisa para ajudar além daquilo. No mínimo, ele tinha desmaiado pela exaustão da notícia, mas que efeito aquilo teria com os remédios que ele já tomava e o passar da adrenalina, ele não fazia ideia, então era melhor responder à situação com rapidez. - Didier, é melhor levá-lo pra enfermaria.

Didier

Agradeceu silenciosamente a aproximação de Isaac, ainda que não fossem muito de apoio naquele momento. Renaud só soluçava e chorava desesperado, de um modo que precisava de algum sinal, ou alguma voz dele para lhe indicar que poderiam tirá-lo daquela sala completamente exposta para os olhares curiosos e pudessem cuidar das mãos dele, que precisavam urgentemente de atenção.

O sinal veio de um modo um tanto mais alarmante do que esperava. Renaud subitamente parou de chorar, e não achou que era porque ele tinha cansado, ou porque não haviam mais lágrimas a serem vertidas. Simplesmente sentiu o corpo dele pesar, como se ele não fizesse mais esforço nenhum em sustentá-lo. E mesmo com Isaac ali para servir de apoio, notou os braços em torno de si e as mãos em suas costas se tornarem sem força.

- Renaud...!? - Didier chamou prontamente quando notou que ele havia literalmente apagado por um instante em seus braços, as mãos sustentando as costas dele rapidamente mesmo que Isaac estivesse ali, mais por instinto de protegê-lo. Então ele tomou o ar de novo, mas ao invés de acordar de uma vez, Renaud apagou, o que lhe deixou extremamente alerta. - Renaud…! - chamou mais uma vez, notando a movimentação de Isaac para sentir o pulso do moreno, e ouviu atentamente quando ele disse que deveriam levá-lo para a enfermaria. - Si!

Não sabia exatamente o que fazer com Renaud no estado em que estava. Só não queria deixá-lo pior. Soltou-o aos poucos, deitando-o com cuidado no chão e observando Isaac. Ele deveria saber o que fazer. Didier só não arrastaria Renaud até lá como faria na rua. Engoliu em seco porque certamente a última coisa que precisavam era que a impaciência ou falta de cuidado só piorasse o moreno.

- Levamos nós dois…? - Didier perguntou em genuína dúvida, talvez porque ver Renaud tenha lhe deixado em um momento breve de pânico. Já estava se sentindo bastante inútil por não poder fazer nada por Renaud. Pior era não fazer nada quando precisava.
#3
Isaac

Didier reagiu rápido também à sensação de Renaud amolecendo nos braços. Ele se afastou e ajudou Didier a colocá-lo deitado no chão, e o máximo que fez foi avaliar os sinais vitais com o pouco que sabia de primeiros socorros, no pulso, nas pupilas e na respiração. Tudo indicava que ele estava desmaiado, mas de novo, o moreno lembrou do excesso de medicação controlada que Renaud estava tomando todos os dias e como aquilo podia também afetar as funções do corpo. Ele voltou para Didier quando perguntou se os dois deveriam levá-lo para a enfermaria, bom, Renaud precisava ser tratado logo, e como ele não tinha sofrido nenhum acidente para não ser movido, podia levá-lo para lá antes de chamarem o enfermeiro.

Isaac se adiantou em passar um braço por baixo do pescoço de Renaud e o outro por baixo das pernas para levantá-lo do chão, mesmo que fosse pesado, só sentiu o desconforto no ombro que já estava machucado, mas não lhe impediu de prestar a assistência a Renaud. Na verdade, com o moreno nos braços naquele instante, ele até sentiu o corpo mais leve do que tinha previsto, de quando já tinha estado com Renaud outras vezes num estado de saúde melhor.

- Eu vou levá-lo pra enfermaria, Didier, chame o psicólogo da Academia, ele sabe sobre os remédios do Renaud e se isso pode causar algum efeito colateral. - Isaac instruiu ao loiro. Não sabia se ele ia aceitar se afastar de Renaud, mas era a escolha mais lógica para prestar assistência rápida ao moreno.

A quantidade de alunos do lado de fora da sala do Conselho Estudantil era certamente bem maior do que o tanto de gente que devia de fato estar no prédio administrativo. Mas de uma coisa servia a má fama dos membros e do conselho, assim como a péssima expressão costumeira de Isaac, porque eles abriram caminho quase às pressas quando Isaac saiu com Renaud apagado nos braços. E ele não deu atenção a aglomeração de alunos, mas no caminho para a enfermaria, o mais rápido que ele conseguia andar, notou que embora Renaud parecesse inconsciente, os lábios dele se moviam e ouviu murmúrios indistintos no topo da garganta dele, sons abafados e distantes. Ele poderia estar sonhando com algo no momento de inconsciência, então chamar o psicólogo parecia uma ótima escolha naquele momento.

Quando Isaac finalmente chegou na entrada da enfermaria, com os braços ocupados, ele só encontrou os pés para chutar a porta algumas vezes e esperar que o enfermeiro abrisse para lhe dar passagem com Renaud desacordado, mas ainda assim pronunciando mais coisas indistintas.

Didier

Para algumas coisas, Isaac certamente estava mais preparado que ele. Não falava só dos primeiros socorros, mas quando ele mencionou os remédios com tanta certeza, pensou que ainda estava alcançando ele no conhecimento sobre o que Renaud estava tomando e como isso poderia afetar o corpo dele naquele momento. Os olhos azuis abriram e embora estivesse relutante de deixar Renaud, o que poderia fazer melhor ali era obedecer o secretário e buscar ajuda.

Deixou que ele pegasse o moreno, e notou só então a comoção de alunos do lado de fora. Havia muito tempo em que não olhava com tanto ódio para uma massa de idiotas, mas fosse sua cara ou a de Isaac não querendo que ninguém atrapalhasse os dois de ajudarem Renaud como podiam, os garotos se dispersaram, e Didier fechou a porta do conselho estudantil atrás de si, sequer dando qualquer tempo para repreender os garotos, porque honestamente, não importava.

Seguiu na mesma direção de Isaac, mas ao invés de ir direto para o outro prédio com ele, parou para bater na bancada da portaria, pelo caminho, contendo imensamente o desejo de agarrar o funcionário pela camisa.

- Chama o Centro de Aconselhamento e diz ao Dr. Vlahos que vá para a enfermaria, uma emergência com Renaud Blanco. AGORA. - ordenou rapidamente em puro e claro francês, para não deixar brecha para desentendimentos.

Isso pelo menos poderia adiantar a ida do psicólogo até lá. Se não, também não deixaria o trabalho nas mãos de outra pessoa, e correu para a mesma sala, esperando encontrar o doutor livre, já em urgência para a enfermaria no meio do caminho ou na sala. Mas se aquela porta estivesse fechada, certamente a derrubaria. Chegou tão rápido quanto podia correr e bateu na porta com quase o som de uma marretada da força causada pela tensão que lhe tomou no percurso.

- Doutor Vlahos!! É uma emergência!! Com Renaud Blanco!! - falou com a voz alta o suficiente apesar da falta de ar da corrida. Não havia sentido em ser discreto depois de tudo.

Enquanto isso, Isaac bateu com a porta na enfermaria trancada naquele momento pelo zelador que aproveitou a saída do enfermeiro para por a limpeza em dia. Os chutes foram fortes o suficiente para que Tamotsu arrancasse os fones de ouvido que tinha pendurados nas orelhas com ódio. Ele escancarou a porta quando abriu, e encarou o garoto do outro lado diretamente, em irritação. Mas não precisou mais do que um olhar nele, e no outro que ele trazia nos braços, para sair do caminho e tirar o que tivesse lá do carrinho da limpeza para que ele passasse para um dos leitos vazios.

- Precisa do que? - Tamotsu perguntou no tom ríspido para Isaac, mas certamente não era hostil. Pelo contrário. - Vou chamar o enfermeiro.

Isaac

A resposta do outro lado da porta demorou apenas alguns segundos, mas para Isaac, num momento de nervosismo com Renaud apagado e balbuciando coisas desconexas em seus braços, pareceu uma eternidade. A porta se abriu para mostrar o zelador, e Isaac nem fez muito sentido da pergunta dele, passando direto para conseguir colocar Renaud deitado numa das macas, a enfermaria estava vazia naquele momento. Ele já ia se virar para o zelador para pedir que chamasse o enfermeiro, mas ele foi mais rápido em fazer aquilo, então só voltou a atenção para Renaud. Conferiu os sinais vitais dele de novo, que pareciam estáveis, e notou que os murmúrios desconexos pareciam ter um ritmo específico.

Ele não prestou atenção de início nas palavras, ao olhar a sua roupa suja de sangue e as mãos de Renaud muito machucadas, ele correu até alguns dos armários para procurar soro e gaze para retirar os curativos da mão de Renaud, porque era só o que conseguia pensar em fazer. Quando ele voltou para a maca em que o mais novo estava, puxando uma das mãos dele, percebeu duas coisas, a primeira era que estava com as próprias mãos muito trêmulas pelo nervosismo da situação toda que parecia ficar cada vez mais concreta. A segunda, que os balbúrdios de Renaud pareciam fazer mais sentido aos seus ouvidos: … Ma soeurette Marlène… A pris bien de la peine… Quatre autres s'arrêtèrent à leur tour… Eram trechos muito específicos de um conto, dos que ele costumava compartilhar com Renaud. Concentrou-se em tirar as bandagens sem machucá-lo ainda mais, alguns pedaços de pele saindo junto com o tecido, e tentou manter as mãos firmes no processo. Mas com o tom de voz de Renaud ficando mais firme, ele ainda tentou chamar pelo mais novo de novo.

- Renaud? Está me ouvindo?

Àquela altura, Aleksei já tinha recebido um chamado muito inusitado com o som do baque forte contra a porta do seu consultório. Teria sido um dia comum cuidando de alunos problemáticos num internato, às vezes alguns deles eram muito intensos. Mas um susto causado dois dias atrás lhe fez demorar a reagir à batida na porta e processar a voz do outro lado lhe alarmando para o fato de que havia uma emergência com um de seus pacientes. Ele saiu do estado de tensão com o som do barulho na porta, e as coisas que tinha derrubado no susto, deixou no chão, dando meia volta nos calcanhares para correr até a porta e abri-la, encontrando o jovem Didier Callas, presidente do Conselho Estudantil e parceiro de Renaud em muitos sentidos.

- Onde ele está? - Aleksei perguntou prontamente, mas nem parou para esperar a resposta, fechou a porta atrás de si e já seguiu a passos rápidos. - O que aconteceu?

- Na enfermaria. Lemont levou ele para lá. - Didier respondeu o psicólogo, mas não diminuiu o ritmo para responder as perguntas, com pressa o suficiente para fazer o doutor correr até lá. - Ele recebeu a notícia de que a mãe dele sofreu um acidente de carro… ela faleceu… e ele está desolado, doutor. Ele atacou o Isaac e depois entrou em desespero e desatou a chorar… e desmaiou… as mãos dele estão… tão machucado…! - embora Didier tivesse começado com a urgência de quem queria ajudar o namorado o mais rápido possível, mesmo mantendo o ritmo da corrida, foi notável as respostas ficando engasgadas na garganta, e o leve desespero de quem estava aos poucos percebendo o que tinha acontecido depois de colocar em palavras.

Aleksei ouviu o relato enquanto seguia às pressas para a enfermaria, passando inclusive por mais alunos do que esperava ver. E a última coisa que ele precisava era ouvir que Renaud tinha recebido a notícia da morte da mãe, bem no meio do tratamento deles, e sabendo como a mulher era uma figura importante cujo papel ele ainda estava entendendo. Ele até esperava a reação violenta pelo relato de Didier, mas não era a violência que lhe preocupava, era ele acordar depois do desmaio e como ia assimilar aquilo. Aleksei nem esperou chegarem a enfermaria, mas no ritmo da corrida, ele ainda afirmou com segurança para o aluno ao seu lado.

- Ele vai ficar bem. Fez bem em me chamar e levá-lo para a enfermaria. - Aleksei respondeu pontual, e queria dizer que Renaud precisaria de Didier e dos amigos, mas quando exatamente, só depois de dar uma boa olhada no estado do rapaz. E ele chegou na enfermaria, entrando sem nem bater, para pousar os olhos sobre Renaud deitado numa das macas, Isaac sentado ao lado dele tirando as bandagens com manchas de sangue e os sons se misturando entre uma voz murmurada de Renaud com trechos em francês e o chamado do outro aluno para tentar trazer Renaud a consciência. - Isaac, não é? - Aleksei o chamou pelo primeiro nome, aproximando-se de Renaud para ouvir com mais clareza as rimas em francês. - Por que não me deixa fazer isso?

Sem a menor ideia de como Renaud reagiria de volta à consciência, pelo menos era mais seguro que Isaac e Didier não estivessem na mira dele.

Renaud

O tempo que tinha ficado no escuro nunca era tempo, porque no escuro no breu o tempo não existe, então o que existe? não sabia, não tinha como responder aquilo, não sabia quando o psicólogo lhe perguntava o que tinha no escuro, mas assim como uma criança que já tinha ouvido todas as histórias sobre “bichos papões” que se tinha pra ouvir, Renaud tinha medo do escuro. Não gostava de admitir pra ninguém, mas nas frias noites quando estava sozinho no próprio quarto espiando as sombras se formarem nas paredes vindas da luz da lua que refletia através do vidro da janela agradecia o fato de que existia luz, mas na mesma medida que ela vinha, ela ia embora, e jogava todo o quarto num sombrio e escuro, que nem mesmo seus olhos muito acostumados à escuridão conseguiam discernir o que tinha lá pra se ver. Queria mesmo ver o que tinha do outro lado? Precisava ver o que tinha do outro lado? Tinha sido ensinado a ser sempre o garoto forte, a ser um garoto inteligente era constantemente elogiado por isso, mas a verdade é que tinha muito medo das coisas que não compreendia, e em verdade mesmo estando mais velho tinha tantas coisas que não compreendia. O tempo era uma delas, era relativo segundo a física, talvez fosse verdade, ou talvez ele nem existisse e fosse apenas algo que se inventa pra fazer sentido “viver pra morrer”, porque que de outra forma valeria a pena acordar todos os dias pra ser jogado num mundo enorme e estranho cheio de coisas horríveis para se vivenciar em cada momento que se tinha pra respirar. Até respirar matava, porque segundo a química era o oxigênio que ajudava a deteriorar o corpo um pouco de cada vez, então significava que respirar pra viver era o mesmo que respirar pra morrer. Porque viver? porque morrer?

“Você pensa demais, não acha?”
“Eu nunca disse que não pensava…”
“Talvez você devesse parar de pensar tanto sobre tudo”
“Mas se eu penso eu existo, se eu deixar de pensar eu deixo de existir, não?”
“Será?”
“Quem é você?”
“Eu sou alguém que sempre esteve aqui…”
“Eu não sei quem é você, mas se você me diz que é pra parar de pensar, se eu parar, eu vou deixar de existir”
“Isso é bobagem, ninguém deixa de existir porque parou em algum momento”
“Você diz isso mas pode provar?”
“Não, mas você pode… porque não para um pouco?”
“E se eu sumir?”
“Você não vai sumir”
“Quem me garante?”
“Eu garanto”
“Promete?”
“Prometo.”

Os lábios continuavam se movendo de forma ritmada seguindo aquela sequência de frases que nem precisava se lembrar para falar, elas funcionavam como uma forma de “ligar” seu modo “teatral” ou era como o jovem Blanco gostava de tratar sua forma peculiar de interpretar outras pessoas. Em nenhum momento da própria vida tinha se questionado de onde vinha aquele talento, afinal vindo de uma família cheia de atores e dançarinos que eram ligados ao teatro e apresentações, era apenas esperado que ele tivesse alguma facilidade pra isso. Nunca tinha se interessado em de fato ter aquilo como uma profissão, mas sabia que fazia aquilo bem, o jovem francês sabia roubar as vozes, aprendia os trejeitos e absorvia tudo aquilo, e os territorializava como se fossem seus.

- Ah, se eu tivesse um filho que fosse vermelho como o sangue e tão branco como a neve! - a voz saiu dos lábios do jovem Blanco, mas não era o tom de voz dele, era baixo e murmurando, como se perdesse o timbre convencional que Renaud normalmente sustentava, mas continuou movendo a boca, e levou a mão livre até o rosto, bateu com as costas da mão contra a testa um par de vezes, o mindinho aleijado normalmente com atraso, se movia em concordância com os demais dedos, e o rapaz respirou fundo, a voz saindo mais audível daquela vez:- Se eu morrer, quero que me enterrem debaixo do pé de junípero.

O corpo todo do Blanco sofreu um espasmo seguido de um arrepio, e todos os pelos do corpo se eriçaram, o rapaz abriu os olhos escuros num instante, e ergueu o torso do corpo sentando-se na cama, o solavanco foi rápido, mas em seguida cambaleou girando o tronco balançando de um lado para o outro e pendeu a cabeça pra frente. Os dedos se moviam insistentes num tique nervoso intenso, quase como se estivesse tremendo apenas naquela porção do corpo, e então parou. Moveu cada dedo separadamente como se estivesse contando silenciosamente até dez. Respirou fundo e o corpo mudou de linguagem corporal assumindo um trejeito mais lânguido e quase feminino:

- Mamãe, eu quero uma maçã. - a voz certamente seria estranha a qualquer um deles, afinal eles não conheciam quem o rapaz estava imitando, talvez se houvesse uma quinta pessoa ali, o teatro estivesse completo, mas não estava, então esse pedaço seria estranho provavelmente: - Mamãe, eu quero uma maçã. - O rapaz repetiu a frase.

E naquele momento, todos os presentes ali, talvez ainda tivessem dúvidas, ou não, mas não era Renaud que estava na frente deles. Mas o rapaz pendeu a cabeça para baixo, e era como se sentisse um arrepio perpassar seu corpo, e as mãos machucadas apertaram os lençóis abaixo de si: - Sim, minha filha. - E apesar do diálogo ter começado devagar, a medida que o Blanco girava a cabeça para direções diferentes, como se estivesse recebendo várias pequenas descargas em choques, as falas se amontoavam, e as vozes mudavam, e mudavam: - que olhar assustador o da senhora! Sim, mãe, eu quero uma maçã… Venha comigo … o meu irmão está sentado na porta, e ele parece pálido e tem uma maçã em suas mãos… Volte até lá onde ele está,” disse a mãe, “e se ele não te responder, aplique nele um tapa na orelha...Meu Deus, mãe, e arranquei fora a cabeça do meu irmão com um tapa!

O Blanco até imitou o gesto de pender a cabeça como se ela fosse cair, seguindo de um “pfffff” com os lábios e uma risadinha baixa, que também não era a sua.

Aleksei

Renaud não respondeu ao chamado de Isaac, e ele só continuou com as faixas até ser interrompido pelo psicólogo, quase pego num momento de susto não tivesse ouvido antes o som da porta se abrindo. Isaac olhou de Renaud para Aleksei, engolindo em seco e concordando com um aceno de cabeça para se afastar para que o médico pudesse fazer aquilo. Não que ele não confiasse que podia dar conta dos machucados, mas as mãos ainda estavam trêmulas e ele não entendia os murmúrios de Renaud.

- Eu sei que vocês estão preocupados, mas eu vou precisar que vocês esperem do lado de fora, sim? - Aleksei instruiu a Isaac e Didier, e sabia que talvez não fosse muito fácil convencê-los a deixar a sala com Renaud naquele estado debilitado.

Mas antes que qualquer um dos dois pudesse protestar, a voz que se fez ouvir foi a de Renaud, e eles se voltaram para o rapaz que ainda estava deitado na maca, mas que tinha pronunciado uma frase bem audível, e num tom de voz levemente diferente, baixo. A voz seria o menor dos problemas, pelo menos até ele bater na testa com a mão já machucada. A reação de Isaac foi de pronto, querendo se aproximar para impedi-lo de bater contra a testa, mas Aleksei percebeu o movimento, e sem ao menos desviar o olhar de Renaud, ele estendeu a mão até o peito de Isaac, impedindo que ele ou Didier se aproximassem.

Claro que os dois não iam ficar feliz de ver Renaud se machucando e Aleksei apenas observando. Mas o tom de voz diferente, o gesto com a mão e o movimento errático dos dedos deu mais pistas a Aleksei do que os outros dois estavam acostumados dos trejeitos do amigo.

Isaac não gostou de ser impedido por Aleksei, mas não protestou. Achou que se o médico estava lhe impedindo de ajudar Renaud é porque ele o faria. Mas o médico também ficou parado, e o secretário franziu o cenho. Outra fala em uma voz estranha saiu dos lábios de Renaud e Isaac teve então a confirmação de que conhecia aquelas palavras, e conhecia muito bem.

- Ren-

Daquela vez, ele não completou o chamado, mas foi porque Renaud se sentou de um movimento só, lhe causando até um susto momentâneo. Aleksei nem se moveu de onde estava, o olhar bem focado que foi da cabeça pendendo para frente até os dedos se movendo ritmados, separados, antes de outras falas escaparem dos lábios dele de um jeito que nem pareciam pertencer a ele. E de fato, não pertenciam, não inteiramente, Aleksei estava bem familiarizado com processos dissociativos, mas com Renaud, lembrava muito bem dele ter lhe mostrado em primeira mão como podia assumir uma personalidade alheia e imitar vozes, e de ter lhe explicado como aquela necessidade de atuação tinha surgido ainda na infância. Agora, as duas características estavam sobrepostas, e ele não tinha feito aquilo de forma voluntária, daquilo, estava certo.

- Por qu... - Isaac sentiu um calafrio estranho passar na espinha, principalmente porque ouviu a própria voz saindo dos lábios do outro, assim como a de Didier.

- Eu realmente preciso que vocês me escutem agora. - Aleksei tentou fazer sentido para Isaac e Didier, já que fazer sentido para Renaud não daria certo naquele instante. E ele não podia perder muito dos movimentos de Renaud se precisava lidar com todo o processo de dissociação. - Preciso que esperem do lado de fora...

- Por que ele está recitando esse conto? - Isaac perguntou, ainda muito confuso com os trejeitos e as falas em tons completamente diferentes saindo dos lábios de Renaud. Nem pareciam sair dele.

- Ele está passando só por um momento de estresse por causa da notícia. Eu... - Aleksei parou a própria tentativa de tirar os alunos da enfermaria, atento a Isaac daquela vez. - Você conhece as falas?

- Sim. É o conto favorito do Renaud, o Pé de Junípero... - Isaac respondeu, e o fato do outro continuar recitando as falas lhe dava calafrios ainda mais incômodos, porque ele sabia exatamente o conteúdo do conto.

Didier

Ouvir do psicólogo que Renaud iria ficar bem lhe trazia um alívio momentâneo. Mas não demorou para que esse alívio desse lugar novamente a preocupação intensa com o namorado, especialmente vendo Isaac tentando trocar as faixas nas mãos muito machucadas. Didier seguiu Aleksei de perto, e até iria ajudar Isaac se o médico não tivesse pedido para dar conta dele, mas ao ver Renaud bater na própria testa com aquelas mãos e Aleksei até impedir que Isaac ajudasse, acabou direcionando a confusão e irritação com a própria impotência para o médico.

- E você não vai fazer nada…!? - rosnou, mas não deu continuidade a reclamação e nem o fez em voz alta, porque podia incomodar Renaud, e porque perto como estavam, conseguia ouvir aqueles murmúrios estranhos do moreno. E subitamente ele sentou, e Didier, ainda que não tivesse se movido, acabou tão hipnotizado pela visão estranha quanto Isaac, porque já tinha visto muita coisa em briga de rua, mas certamente não tinha visto aqueles tipos de cacoetes senão talvez em uns filmes de terror estranhos.

Franziu a testa, ouvindo Renaud imitando aquelas vozes, e embora soubesse que ele conseguia fazer aquilo de uma maneira fascinante, pela primeira vez, poderia se dizer assombrado pelos gestos. Ainda mais quando ouviu ele imitar sua voz e a de Isaac - o que lhe trouxe a infeliz lembrança da última vez que esteve próximo a uma enfermaria, e não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo lá dentro, por sua própria teimosia. Agora estava vendo o que estava acontecendo, mas não conseguia pensar em nada, a não ser na irritação de não poder fazer nada e no estranho medo daquelas frases estranhas sendo balbuciadas nas vozes que não eram de Renaud.

E o doutor Vlahos mais uma vez, enquanto estava perdido olhando a imagem do moreno, tentou tirar os dois de lá. Didier prontamente olhou para o outro, e pretendia até agarrar a borda da maca com firmeza, mas ouvindo que Isaac estava também colaborando com o médico e sendo obediente mesmo em sua preocupação, apenas cerrou o punho com força e mordeu os dentes, porque também não queria ser um peso a mais naquele momento. Honestamente só queria que o médico ajudasse mesmo Renaud.

Só não se foi, porque o máximo que pudesse ficar ali, ficaria. Então só seria verdadeiramente obediente quando fosse absolutamente necessário.

De repente a porta se reabriu, o que chamou sua atenção para um japonês largo com uniforme da manutenção da escola, que conhecia pelo menos pelo apelido de “Touro Verde”, espalhado pelos moleques dos primeiros anos.

- Não consegui achar o enfermeiro, doutor. - Tamotsu falou, olhando pra trás e vendo um moleque conhecido na cadeira de rodas, fechando a porta antes dele chegar perto o suficiente para incomodar o que quer que estivesse acontecendo na enfermaria.

- OU! Peraí, caralho! Eu quero saber o que tá pegando aí mesmo!! - o rapaz chamou, mas de onde ele estava, ainda longe no corredor, mal chegava a incomodar com a porta fechada.

- Quer que eu enxote esses moleques daqui? - perguntou, olhando de Didier para Isaac sem a menor paciência, porque o que quer que estivesse acontecendo ali na enfermaria tinha um clima extremamente pesado. Todo mundo parecia muito mais sombrio do que já tinha visto os moleques da escola parecerem, e o clima certamente não estava para enrolação.

Renaud

A risada que surgiu nos lábios do rapaz não pertencia a ele, o jovem francês sequer queria rir, mas era inevitável quando a jovem “Marlenita” era tão facilmente enganada pela própria mãe. Era um eco de alguém que não fazia parte daquele enredo; Então o corpo do moreno mais novo prosseguiu com o jeito lânguido e feminino no mover do corpo, sentando-se como se esperaria de uma nobre senhora, cruzando as pernas, levou as costas da mão esquerda ao próprio queixo e ergueu o dedo anelar o olhar espiando o nada:
- o que você fez minha filha? Mas fique quietinha e não deixe ninguém saber disso; como nada pode ser feito, nós vamos fazer com ele um chouriço - em seguida o jovem Blanco deixou a cabeça pender e começou a chorar com uma voz feminina ja dita, a linguagem corporal se alterando na medida que mudava de personagem, o indicador da mão direita apontando para nada, as lágrimas rolando no rosto contorcido como se tivesse acabado de vivenciar a cena do irmão irmão sem cabeça.

O jovem francês cobriu o rosto com as costas das mãos, deixando amostra apenas a parte vermelha e machucada sem pele e então moveu os dedos de forma descompassada novamente, como se sentisse espasmos de um choque percorrer o corpo e desembocava nas mãos, rangeu os dentes a ponto deles fazerem um ruído de estalo, movendo o anelar da mão direita em um tic próprio:

- Mas onde está o meu filho? - a voz se alternou novamente e a cabeça pendeu de um lado para outro conforme o rapaz mudava as vozes e acelerava o diálogo quase como se uma voz estivesse passando por cima da outra: Ah, ele resolveu atravessar o país- Ele nem sequer se despediu de mim— Oh, ele quis ir! - eu me sinto tão triste como se alguma coisa tivesse acontecido. - E disse que ficará lá por um tempo -Marlenita, porque você está chorando?- ora, ele será bem cuidado lá - O teu irmão certamente voltará. - Ah- como esta comida está deliciosa, coloque um pouco mais, não vai sobrar nada hoje - E ele comeu sem parar e jogava todos os ossos debaixo da mesa, até que comeu tudo!

O moreno mais novo se encolheu na maca, subindo as pernas e chorando copiosamente, as mãos tremendo, e ele começou a puxar as próprias bandagens ensaguentadas da mão sem qualquer pudor em magoá-las ainda mais, depois subitamente parou de puxar e juntou todos os pedaços e com o rosto lavado de lágrimas:

- Marlenita, retirou o seu melhor lenço de seda ..., e pegou todos os ossos que estavam debaixo da mesa, amarrou-os bem amarradinho... e os levou para fora da porta, chorando lágrimas de sangue…. - O corpo do Blanco se moveu como se fosse se levantar da cama, mas não tinha energia para aquilo, estava tão absurdamente cansado da explosão de adrenalina anterior, que ao tentar plantar os pés no chão, as pernas falharam fazendo-o cair sobre os joelhos, fazendo-o sentar-se no chão da enfermaria, e continuar chorando desconsolado fazendo a voz feminina, o olhar guiado fixamente para o montante de bandagens ensanguentadas como se estivesse olhando os próprios ossos recém comidos do irmão.

Aleksei

Aleksei teria apenas reforçado para os dois alunos saírem do quarto antes que Renaud continuasse o conto, mas ele parou olhando para Isaac quando ele lhe disse que conhecia o conto que ele estava recitando. Renaud ajustou a postura na cama, de uma forma mais feminina, e a voz que saiu depois foi conhecida, mas com os trejeitos femininos. Aleksei fechou os olhos por dois segundos e se voltou para Isaac apenas porque talvez pudesse usar aquilo em seu favor.

- Sobre o que é o conto? - ele perguntou, pontual, e num tom de voz um pouco mais baixo para não despertar Renaud de alguma forma indesejada. Mas Isaac não pareceu ouvir a sua pergunta, estava muito focado ou confuso com a visão de Renaud naqueles trejeitos estranhos, o jeito como ele se movia, falava e agia era tudo tão fora do que estava acostumado que Aleksei precisou se colocar de frente para ele para conseguir chamar a atenção do secretário. - Sobre o que é o conto, Sr. Lemont?

- Sobre… - Isaac piscou algumas vezes e finalmente voltou a atenção para o psicólogo. - Um garoto, que é morto pela madrasta, tem os ossos enterrados debaixo do pé de junípero pela irmã mais nova. Ele volta como um pássaro e se vinga da madrasta. - ele resumiu da forma mais sucinta e apontou para Renaud naquela postura recitando aquelas falas da mãe que, ao longo do conto, tentava acusar a própria filha de tê-lo feito.

Aleksei voltou a encarar Renaud em tempo dele começar a chorar e logo depois voltar aos espasmos em que o corpo se alternava entre um personagem e outro num período de tempo muito curto. E era mais uma voz conhecida. Ele se virou de novo para Isaac e Didier, e foi bem em tempo do zelador voltar para a sala e oferecer para tirar os alunos de dentro da enfermaria.

- Sr. Callas, Sr. Lemont, eu vou ser bem direto e preciso que vocês me ouçam agora. - Aleksei disse, com um tom apenas um pouco urgente porque ele precisava estar atento às reações de Renaud. - Eu posso lidar com Renaud, mas não posso lidar com os três aqui dentro. Menos ainda com as reações dele para a presença de vocês. Então vou pedir de novo para que se retirem e esperem do lado de fora, ou para que o Sr. Saito o faça. É para o bem do Renaud, e de vocês também.

Aleksei deu a chance para que eles cumprissem com o seu pedido voluntariamente, voltando-se de novo para Renaud e deixando a presença dos dois ali para que o zelador desse conta, caso eles não quisessem se retirar. Mas foi bem em tempo de Renaud ter encerrado mais uma troca de comentários consigo mesmo e, então, começar a arrancar as bandagens de um jeito certamente doloroso. Isaac ainda foi impelido a se aproximar e impedir, mas se tinha uma coisa que ele sabia que não podia fazer era ajudar Renaud naquele estado abalado mentalmente. A contragosto, ele seguiu para a saída da sala mesmo que Renaud estivesse se machucando ainda mais.

Aleksei se aproximou de Renaud como podia, e estendeu as mãos para segurar os braços dele com pouca pressão, sem impedi-lo de fazer o que estava fazendo no fim das contas. Se fosse muito agressivo para que ele realmente parasse o trajeto dentro da própria cabeça, tinha receio das reações que viriam a seguir. Depois de juntar o bolo de bandagens, ele trouxe outra voz, outro momento de choro em desespero, e se moveu para se levantar da maca. De novo, Aleksei manteve a proximidade mesmo sabendo que podia ser atingido no processo, mas quando Renaud não teve forças para ficar de pé, ele só se abaixou junto com o outro, sem fazer qualquer movimento brusco para impedir a queda. mas se manteve no nível dele, então se ele caísse para frente ou para trás, tinha certeza que poderia apoiá-lo.

- Renaud… preciso que ouça a minha voz. - ele falou próximo o suficiente de Renaud, na tentativa de que a voz fizesse algum sentido na mente dissociada dele. Mas sem conhecer o conto e tentar entrar em algum ponto, o que também era complicado em muitos níveis, podia só esperar que ele associasse o seu tom de voz com a sua figura de profissional.

Didier/Tamotsu/Sasha

Para Didier, a reação de Renaud novamente contando o que parecia ser um conto com a sua voz (e de outros) era hipnotizante de certa forma. Mas quando ele começou a chorar, quase deu um passo a frente, não fosse a conversa do doutor e de Isaac sobre a tal história do pé de Junípero, que era no mínimo, algo assustadora pelo que estava ouvindo e vendo. Até o zelador certamente pensava assim, porque desde que tinha entrado na sala, parecia que ele estava carregando toda a tensão do momento nas costas, mesmo sem saber o que raios estava acontecendo ali.

O tom um tanto mais urgente do psicólogo deixou Didier atento para o fato de que realmente não teriam o que fazer ali, e poderiam até atrapalhar o doutor Vlahos. Porém a imagem dele deixando Renaud se machucar anteriormente lhe deixava extremamente hesitante, e diferente de Isaac, que parecia ter um melhor entendimento ao menos do papel de Aleksei ali, Didier não se moveu, senão quando viu novamente Renaud machucar as mãos, dando um passo instintivo para frente mas sendo arrastado de uma vez para trás.

Tamotsu agarrou o presidente pelo blazer, puxando-o em um solavanco, porque estava na cara, expressão e movimento de Didier que ele não iria sair dali sem o entendimento completo de porque deveria.

- Ele mandou você sair. - Tamotsu reforçou de um modo muito claro, o que fez o loiro virar até ele e apertar os dentes com tanta força que podia ver a tensão na mandíbula e na expressão.

- Eu não posso…! - Didier respondeu de volta, e já pretendia revidar para se soltar apesar de saber que seria melhor sair em paz, quando ouviu algumas batidas na porta.

O presidente ser desarmado pelo mínimo som da porta foi só o que Tamotsu precisava para agarrá-lo pelo braço com força, abrir a porta e empurrá-lo para fora, fazendo o mesmo com um tapinha para adiantar o secretário, fechando a porta atrás de si.

- Mas que merda tá acontecendo aqui??! - Sasha, que tinha batido na porta, bradou, ao ver Didier sendo expulso, assim como Isaac até, franzindo a testa. - Eu ouvi no corredor que rolou uma merda na sala de vocês, com o menino! Por que a enfermaria tá trancada, caralho?

Didier, que até então tinha guardado toda sua vontade de berrar pela própria impotência, mesmo depois de ver Renaud daquele jeito, mesmo depois de se atrapalhar para chamar o dr. Vlahos e mesmo depois de ser expulso a força pelo zelador, olhou para as reclamações completamente ignorantes de Sasha Peyrac parado a porta e levou a mão de uma vez, como um bote, até a mandíbula dele, apertando como se quisesse descontar toda a frustração de uma vez, e recebendo de volta um olhar extremamente amargo em retorno.

- Me… solta… - Sasha rosnou, levando a mão até a do loiro, apertando o pulso dele de volta.

Mas ao invés de sentir a presa folgar porque estava aplicando força, olhou direto para Didier e simplesmente parou de sentir a força dos dedos na própria cara, porque Didier simplesmente desabou na sua frente. E podia ter visto ele fazer muitas caras e bocas, mas nunca tinha visto ele chorar tão obviamente desolado na sua frente. Até acompanhou quando ele finalmente soltou sua cara, e sentou no chão, parecendo muito cansado.

- Lemont… o que tá acontecendo…? - Sasha perguntou, certamente mais tenso do que quando chegou.

Isaac até se alarmou para a reação de Didier quando saíram da sala, e nem sabia se tinha mais forças para impedir o loiro de se atracar com Sasha, mas antes de avançar e puxar o loiro de volta, ele mesmo soltou a mão em volta do queixo de Sasha e caiu no chão, sentado, jogado às lágrimas. Isaac também soltou o ar todo de uma vez e se encostou à parede, voltando a atenção para Sasha quando ele perguntou o que estava acontecendo.

- O Renaud… ele teve uma… crise? - ele não sabia outro jeito de nomear. Surto? Qualquer um parecia demais pro seu entendimento. - Ele recebeu a notícia na sala do conselho, que a mãe dele sofreu um acidente de carro… ela morreu. - ele conseguiu completar a informação, e aproveitou que o chão estava perto para escorregar e se sentar também. - Ele ficou violento e estava batendo nas coisas… machucou as mãos. Trouxemos pra enfermaria e… eu não sei o que aconteceu. - ele concluiu com a última coisa que tinha visto dentro da enfermaria, que era confusa e assustadora.

O cadeirante ouviu a explicação, mas não processou inteiramente o que estava acontecendo. Uma “crise” para explicar o estado de Isaac ou o estado até de Didier parecia pouco. A notícia, talvez, tenha sido mais chocante. A raiva e machucar as mãos que tão recentemente tinha sido machucadas, e ninguém necessariamente entendendo o que estava acontecendo, só fizeram com que Sasha olhasse para a porta, sentindo que ficariam ali um bom tempo, nem que fosse para saber qualquer notícia melhor de Renaud. Até pensou em falar algo, ou em como responder, mas não tinha certeza do que os dois estavam sentindo naquele momento, exceto que estavam cansados, cansados demais. E queria ter os braços longos o suficientes para poder tocar os dois, mas sabia de suas limitações, e apenas, porque não sabia o que fazer, arriscou-se a colocar a mão no topo da cabeça de Didier por um instante, antes de estacionar a cadeira perto de Isaac, e fazer o mesmo.

- Obrigado por ajudarem ele. Acho que não dá pra fazer muito a não ser esperar, né…? Ele vai ficar bem. - Sasha falou, mas por impulso. Honestamente, o que passava pela sua cabeça é se, o zelador, por exemplo, conseguiria segurar Renaud se ele explodisse de novo. Didier e Isaac pelo visto não tinham.
Renaud

Ao contrário do esperado o jovem Blanco estava muito longe pra poder ouvir a voz de Aleksei a sua frente e ao invés disso, o rapaz levou as mãos machucadas ao rosto, a sensação das lágrimas e da carne exposta queimando, fizeram o moreno mais novo grunhir de dor longamente se inclinando pra frente e balançando uma, duas, três vezes, até parar. Afastar as mãos do rosto, e erguê-las, o fato delas estarem trêmulas, era apenas amostra de como o corpo do menor estava cansado:

- o pé de junípero começou a se mexer novamente, e os galhos se dividiam, e se moviam novamente, parecendo que alguém estava muito feliz e batia palmas. - o moreno moveu as mãos como se fosse bater palmas, mas não chegou a encostar as palmas como se soubesse que o gesto lhe causaria dor, esticou o indicador da mão direita, o olhar estava ainda voltado pra baixo para as bandagens, e ele sorriu, cansado, e então começou a cantarolar o ritmo da canção que tinha dado início aquilo, e as palavras se embaralharam na boca:

- A minha mãe, ela me matou,"O meu pai, ele me comeu", "A minha irmã, a pequena Marlenita," "Juntou todos os meus ossos", "Amarrou-os bem firme num lenço de seda," "Os colocou debaixo do pé de junípero,"...!

E embora aquele trecho fosse o falado mais próximo da voz de Renaud, ele parecia mais distante e menos teatral enquanto cantava, a frase final da canção não foi dita. O dedo mindinho da mão esquerda que geralmente tinha o movimento atrasado, estava lá com seu movimento descompassado, mas nem com aquilo o jovem Blanco tinha voltado. Em verdade era possível ver a fadiga no corpo, de que até para o próprio a extensão daquela interpretação estava indo além do que ele costumeiramente conseguiria fazer. Afinal, não eram apenas personagens o que ele estava fazendo, eram pessoas reais e únicas para o moreno mais novo.

- “Passarinho,” disse o ourives então, “como você consegue cantar com tanta beleza! Cante para mim essa canção novamente.” - “Passarinho, como você canta bonito!”— disse o sapateiro, “cante para mim essa canção novamente.” - Os moleiros talhando uma pedra, e cortavam, “rique raque, rique raque, rique raque,” e o moinho fazia “clipe clape, clipe clape, clipe clape.”“Passarinho,” disseram eles, “como você canta bem! Deixe-nos ouvir também. Cante mais uma vez para nós”

A medida que Renaud mudava as vozes e alternava entre pessoas, moveu o polegar direito para primeira fala, o dedo do meio direito para a segunda, o dedo mindinho para a terceira, os sons de risque e claque, foram as vozes do polegar esquerdo, e do dedo do meio esquerdo. E o rapaz movia os dedos das mãos de forma aparentemente descompassada, mas era como se houvesse certo ritmo naquilo, mesmo que fosse algo nervoso e intenso. E quando a sequência de vozes cessou, veio apenas uma palavra de resposta:

- “não” - dito de forma seca e não amigável, pra depois tornar a mudar a expressão e vaguear o olhar, movendo o dedo mindinho aleijado mesmo que descompassado: - “Eu não posso cantar duas vezes de graça! Dê-me a corrente de ouro, Dá-me a pedra de moinho, deves me oferecer mais alguma coisa, e então, eu cantarei novamente.”

Aleksei

Aleksei não voltou mais a atenção aos outros alunos depois de dispensá-los, e considerando que não tinha sido interrompido, no mínimo o zelador os tinha tirado da sala. Ele se manteve diante de Renaud, e talvez fosse imprudente estar ao alcance das mãos dele, mas também não podia deixar que ele continuasse se machucando mesmo involuntário e precisava se fazer ouvir.

Em cada gesto das mãos, Aleksei tentava interferir para impedir que ele se machucasse, mas nunca segurando-as de um modo firme. Quando ele fez um gesto para bater palmas, Aleksei colocou as duas mãos entre as dele, na altura do antebraço, deixando que ele só sentisse o obstáculo caso tentasse juntá-las, mas ele não o fez, talvez ainda por um instinto de preservação?

- Renaud, precisa me ouvir... - Aleksei o chamou mais uma vez, entre uma voz e outra, mas a canção se seguiu, e ao ouvir o tom mais próximo da voz dele mesmo, ele ainda não estava consciente de sua voz.

Aleksei percebeu como os dedos dele se moviam, e o gatilho que ele costumava usar para sair dos personagens com o ritmo do dedo mindinho errático não bastou também para tirá-lo do momento de transe. O médico piscou por longos segundos, atento ainda aos movimentos alheios, mas sabia que se continuasse daquele jeito, o único modo de falar com o próprio Renaud seria se ele fosse vencido pela exaustão.

- Esse não é você, Renaud. - Aleksei seguiu com as tentativas de fazê-lo lhe ouvir. Podia não fazer nenhum sentido para o moreno, mas se pelo menos a sua voz chegasse a ele, seria mais fácil de trazê-lo de volta.

Mais vozes vieram todas de uma vez, sobrepostas, cada uma acompanhando o ritmo de um dos dedos machucados, e Aleksei deu atenção aos comentários, e entre cada um deles, o chamou pelo nome, e repetiu que aquele não era o rapaz, e fez o processo mais e uma vez para que ele continuasse ouvindo a sua voz em meio à balbúrdia de informações.

E então, ele ouviu um "não" firme e seco, e num tom de novo muito semelhante ao de Renaud. O conto se seguiu, e dentro das falas, ele pediu algo em troca da canção. Aleksei não queria que ele imergisse mais no conto, e nem queria tentar entrar nele, mas se ele não respondia à insistência da sua voz, ele aproveitou as últimas palavras para responder.

- Eu ofereço a minha ajuda então. - ele respondeu, remetendo a uma das conversas das sessões antigas dos dois. - Mas só se você quiser ser ajudado, Renaud. - e colocou mais firmeza no nome dele daquela vez.

Renaud

O corpo estava cansado e isso era visível nos tremores e espasmos involuntários como se fossem cãimbras e choques perpassando corpo, as palavras só se desenrolaram como se estivessem apenas seguindo a canção, sem qualquer controle de para onde estivesse sendo guiado ou para onde seria levado. Mas alguma coisa estava errada, tinha muitas coisas faltando, não tinha uma corrente de ouro, nem o sapateiro tinha lhe surgido com um presente e não tinha uma pedra.

- Pra quê queria a corrente dourada? - o rapaz falou baixo, “Renaud!” parecendo confuso: - Para dar ao seu pai. - reafirmou movendo o dedo anelar na mão direita: - Pra quê o sapateiro teria que lhe dar algo? - reafirmou movendo o indicador da mão direita: - Como iria presentear sua irmã? - Então parou, pensando sobre a pedra, “Renaud” qual a finalidade dela: - porque os moleiros precisavam te dar uma pedra? - moveu sequencialmente os polegares de cada mão, o dedo médio de cada mão, e o mindinho da mão direita: - Porque precisava matar… sua… m- - Antes que terminasse a frase Renaud fez uma expressão de dor e susto e as mãos tremeram:

- não! não! não! não! não! não! não! não! não! não! - O rapaz repetiu erraticamente misturando as vozes, a expressão de dor lhe assolando por toda extensão do seu corpo. “Renaud”. A voz engasgando no topo da garganta e o moreno mais novo se protegeu com os braços se encolhendo mais na posição em que estava num grunhido inicialmente alto que não dizia nada mas que era uma bagunça errática de vocábulos: - AARGHHHHRGRHHHHHHHHHH --!

E depois da voz ficar baixa o suficiente pra sumir, a respiração se tornou rápida e urgente e o jovem Blanco iniciou um diálogo sozinho, mas dessa vez ele parecia conversar consigo mesmo, e as vozes eram a dele, ou pelo menos parecia que as duas vozes eram as dele:

- não posso deixar ela morrer! -- não foi culpa sua! -- não posso eu mesmo esmaga-la com uma pedra,! -- E não vai…-- ela não tem culpa de nada! -- não, não têm…-- "Piu, piu, que belo pássaro eu sou!”-- É sim… é sim… vamos ficar bem… vamos ficar bem Renaud…!

O moreno mais jovem levou as costas da mão ao peito batendo sobre o local de leve, prendendo a respiração por um momento, e depois soltando todo o ar pela boca de uma vez, os ombros relaxando o olhar anteriormente sem foco e sem brilho, agora se levantava vagarosamente espiando o homem à sua frente.

O rosto de traços comuns de Renaud Blanco, agora parecia um caos de lágrimas, manchas de sangue, olheiras fundas e escuras como seus olhos estreitos, o cansaço mais que evidente, porém, ainda assim, agora não parecia estar delirante ou fora da realidade.

Aleksei

As palavras que se seguiram de Renaud foram no tom mais próximo da voz dele, e mesmo que Aleksei não conhecesse o conto, as perguntas e justificativas certamente não deviam fazer parte da narrativa original. Era algo que ele estava dizendo a si mesmo, e confirmando no processo, porque ele não tinha conseguido nada do que esperava conseguir no trajeto da narrativa infantil.

Aleksei notou o tremor no corpo e nas mãos, a expressão de medo e dor misturados quando todas as vozes saíram uma atrás da outra, um personagem atrás do outro, porque ele não podia se permitir concluir o conto. E as mesmas vozes se misturaram num grito desesperado que foi subsidiando à medida que ele perdia o fôlego ou a energia. Renaud estava exausto, física e mentalmente, e talvez aquela fosse uma das confirmações para que Aleksei não tivesse receio em ficar perto dele, mesmo que ele ainda pudesse descarregar nele, ou ter outro surto de adrenalina. A saúde mental e física do rapaz ainda era a sua prioridade, afinal, se tivesse uma chance de impedi-lo de ir mais longe ou de se machucar, ele tentaria.

Quando o grito cessou, a voz de Renaud surgiu de novo, e era a dele, com perguntas e respostas em uma variação de tom pontual, que fez com que facilmente parecessem duas pessoas conversando mesmo que o corpo fosse um só. E o modo como ele tentava se convencer de que não tinha culpa do acontecido trouxe Aleksei para uma distinção bem crucial da personalidade dele. Não eram várias pessoas que estavam ali, como denunciavam a voz que tinha reconhecido do secretário do conselho, do presidente, ou do presidente do Conselho Disciplinar. Eram só duas, e as duas com a voz de Renaud.

Subitamente, ele se acalmou, com um toque no peito, a respiração escapando pela boca e os ombros relaxados, ele ergueu a cabeça para encarar Aleksei de volta. Aleksei afastou as mãos que tinha usado para impedi-lo de bater palmas, ou de tentar se machucar. Ficou parado a frente dele, com um joelho no chão e o braço apoiado na outra perna.

- Você conhece a minha voz? - Aleksei perguntou, mantendo a distância curta de um braço, sem desviar o olhar. - Você está aí, Renaud?
#4
Didier/Sasha/Tamotsu

Certamente quando Tamotsu entrou naquela enfermaria, esperava algo muito intenso. Estava pronto para muita coisa, porque já tinha visto muita coisa, mas embora já tenha visto pessoas surtarem de medo, observar o que estava acontecendo com aquele moleque era estranho. O zelador se aproximou o suficiente para estar ao alcance do médico, caso algo acontecesse, porque não sabia exatamente o que podia acontecer. Sentia algo de imprevisível naquelas ações; sentia também que o buraco era bem fundo. Mas embora seu trabalho fosse só fazer a limpeza, parecia bom ficar vigilante pelo que parecia ser a insensatez do doutor de ficar ali tão pertinho do garoto.

Do lado de fora, Sasha apenas observava o par que tinha saído da enfermaria, notando o cansaço dos dois e a espera, um pouco mais desperto, e um pouco mais perto da porta para ouvir o que diabo estava acontecendo lá dentro, conseguindo captar uma série de vozes que lhe fizeram franzir a testa. Esperava ouvir Renaud, mas ao invés disso, abafado o suficiente para que não entendesse as palavras inteiramente, ou talvez só chocado demais para isso, até olhou para ver se Didier estava do seu lado, ou pensando se havia qualquer possibilidade de Lilu estar ali.

Mas foi com o som de um grunhido muito estranho, que parecia passar por vários tons, que Sasha instintivamente estendeu a mão para abrir a porta, e até mesmo Didier que estava cansado e ainda sentado no chão virou o pescoço na direção da porta de uma vez.

Tamotsu não sabia o que fazer, se seria melhor se aproximar do médico, ou se aquele berro, que lhe causou imenso desconforto, seria a hora de segurar o rapaz. Mas notando que não havia nenhum intuito de ferir o médico, ele deu um passo rápido para trás e segurou a porta para que não abrisse, afinal, provavelmente seria o que ele tentaria fazer se algum conhecido estivesse naquela situação: tentaria ajudar, mesmo que isso fodesse tudo.

- Ei…! O que tá acontecendo…!? - Sasha bateu novamente na porta, vendo que não conseguia abri-la. Só parou para pensar se poderia estar sendo um estorvo depois, mas antes que ficasse ainda mais barulhento, foi mais uma vez Didier, que havia se levantado também, quem tinha segurado sua mão e lhe olhado com a cara de quem implorava para que ficasse quieto e esperasse.

Tamotsu, por outro lado, vendo que os moleques pareciam quietos, soltou a porta, e encarou fixamente o rapaz, que depois daquela demonstração muito estranha, tinha parecido sossegar a voz, e sossegar o corpo, de um jeito que podia descrever também como desconfortável. E vendo-o levantar o rosto devagar, o zelador só ficou armado para derrubá-lo caso tentasse atacar o médico, ainda que o moleque parecesse cansado demais e surrado demais pra qualquer coisa. Estava respeitando o espaço para atender o moleque, afinal, provavelmente era por isso que ele mandou todo mundo sair, mas queria que fosse só o trabalho de derrubar e atar aquele garoto na cama. Se aproximou mais, que talvez o doutor pedisse sua ajuda para por ele de volta onde tinha começado.

Duncan

A realidade era que finalmente tinha conseguido apaziguar o caos que tinha se formado ali, muitas emoções fortes num período curto de tempo certamente iriam deixar o pequeno descontente e ainda mais confuso. Não era dia nem hora para chegar naquele ponto, mas estava feito e não tinha como fugir. Pensou em muitas formas de responder a pergunta que o homem à sua frente tinha feito, mas imaginava que se fosse da forma que seu registro descrevia ele perceberia que não era quem dizia ser. Valia a pena mentir?

O moreno mais novo respirou fundo sentindo o corpo todo muito estragado daquela vez, diferente de crises anteriores onde ainda conseguia se levantar, imaginava que precisaria se sentir em “perigo” pra poder ter adrenalina o suficiente para poder reagir, e como o pequeno não sentia perigo da pessoa a sua frente não tinha como ter acesso aquilo. Tinha de barganhar? As batidas na porta e a voz conhecida lhe despertaram para o fato de que tinha gente do lado de fora da enfermaria, e mais, que era alguém com quem especialmente não queria ter de encontrar. Embora bem soubesse que o pequeno precisava daquilo.

- Sim, está aqui. - foi a resposta que saiu em um tom mais baixo, seguido de um pigarreado de quem sentia a garganta arranhar. O moreno mais jovem levou as costas da mão contra o corpo fazendo dois toques e uma queimação se estendendo por todo o corpo, parou para encarar as mãos plenamente estragadas depois de tudo, e torceu a expressão de leve num “tsc” de quem estava avaliando o estrago: - eu… não consigo levantar sozinho… estamos… hmmm… estou muito cansado na verdade… se me der um tempo pra respirar: posso conversar melhor…

O último trecho foi dito num tom mais baixo, e o moreno encarou o loiro a sua frente, esperando que ele entendesse a sua “deixa”, estava no registro que ele era inteligente, e o pequeno confiava nele, não sabia se deveria confiar a saúde dos dois a ele, mas iria dar o seu voto de confiança ali. Não estava dando qualquer sinal de que seria violento, estava mais avaliando o nível de estragos do próprio corpo e tentar deixar tudo em ordem pra quando o pequeno acordasse do sono, que não iria durar tanto tempo.

Aleksei

A resposta demorou um pouco para vir e Aleksei sequer piscou enquanto observava a expressão de Renaud, os gestos, desde o ritmo da respiração até o menor dos movimentos, porque sabia que ele estava ali, mas não era exatamente ele ali. Era só uma suposição, mas se confirmou quando ele finalmente respondeu que Renaud “estava ali”. Antes que Aleksei pudesse adicionar algo observou de novo o gesto pontual de tocar com as costas da mão contra o peito em dois toques, então ele pareceu parar para avaliar o estado das mãos e do resto do corpo, tendo consciência de como estava avariado.

Aleksei concordou com um aceno de cabeça quando ele apontou que não conseguia levantar sozinho, e principalmente sobre “estarem” muito cansados, antes de corrigir a si mesmo. Havia ainda a perspectiva de conversarem, o que era bom e que Aleksei nem esperava ouvir de um modo positivo tão logo. Pelo que tinha avaliado de Renaud nos últimos meses e principalmente nas sessões mais recentes, se havia outra personalidade ali decorrente de um processo de dissociação, era para protegê-lo. Podia ser uma pessoa ainda mais agressiva, então a situação parecia ao menos um pouco positiva.

- Pode tomar o tempo que precisar. - Aleksei concordou com um aceno de cabeça leve. E já que ele mesmo tinha apontado que não conseguia levantar, adiantou-se para perguntar antes de fazer qualquer movimento. - Posso lhe ajudar a levantar? Ou prefere que fiquemos os dois no chão?

Renaud já estava acostumado aos dois ficarem sentados no chão em mais de uma ocasião, não sabia se com ele daquele jeito, a resposta seria a mesma. Antes dele decidir se iria continuar onde estava ou se aceitaria voltar para a maca, Aleksei adicionou.

- Como eu devo chamá-lo?
Duncan

Enquanto o homem a sua frente, tomava seu próprio tempo para avaliar o que tinha acabado de falar, olhou em volta para visualizar mais um pessoa, que de fato não conhecia, nem tinha um registro sobre ela, ou se tinha visto tinha sido muito brevemente, suspirou soltando o ar todo, e depois puxou o ar devagar sentindo o peito doer no processo. Quando tinha sido a última vez que tinha ficado tão desgastado físico e mental? Conseguia responder aquela pergunta com tamanha facilidade que lhe amargava lembrar, mas contra fatos não havia escapatória.

Ouvir do loiro a sua frente a confirmação de que poderia tomar tempo para descansar confirmava o que tinha registrado na memória, e por conseguinte, confirmava que a pessoa a sua frente era o senhor Vlahos. Arqueou de leve uma das sobrancelhas, mas não alterou a expressão muito além daquilo, e acenou em concordância diante da possibilidade de ter tempo para administrar aquela situação, estaria muito mais irritado por ter pouco controle sobre tudo que ocorria, mas lá no fundo da sua cabeça tinha plena consciência da tristeza que o pequeno sentia e isso não lhe deixava ficar com raiva. Estreitou os olhos diante da possibilidade do outro lhe ajudar a levantar, porque bem, ele não parecia forte, mas era fato que precisava de ajuda para aquilo. Concordou com um aceno de cabeça e pigarreou mais um par de vezes sentindo a garganta queimar pelo esforço recente.

E permaneceria muito mais preocupado consigo mesmo se o outro não tivesse lhe lançado uma pergunta muito direta sobre qual era o seu nome. Não estava necessariamente bem disposto a dizer quem era, embora aquilo fosse parte do processo de “negociação” talvez?

- “Que homem sangrento é este? Ele pode nos trazer pela sua aparência, da revolta, a mais recente informação”. Rei da Escócia, Duncan I, Macbeth, Shakespeare. - o moreno mais jovem comentou, e bem, bastava juntar a fala e ao personagem, e o loiro saberia por qual nome responderia: - normalmente o chão, mas estando assim, precisam-... preciso de mais cuidados do que o simples chão têm pra me oferecer.

Soltou o ar pelo nariz, embora não sentisse cheiro de nada, e era mais uma de suas ferramentas que tinha “a menos”, precisava cuidar do corpo, cuidar dos machucados, estar calmo, e quem sabe com alguma parcela de sorte [e detestava ter de contar com a aleatoriedade dos fatos] o pequeno estaria “melhor” para lidar com tudo que tinha fora o aguardando:

- melhor avisar aos que nos esperam, que podem se acalmar por agora, embora não seja apropriado que tenhamos qualquer conversa, estou indisposto demais pra isso. Toda a minha escassa energia vai ser investida pra tentar minimizar estes estragos. - completou dando ênfase ao próprio corpo desgraçado, parecendo apenas cansado e parcialmente aborrecido de estar tão “vulnerável” e machucado.

Aleksei

A resposta de renaud sobre como chamá-lo veio num trecho de um conto de Shakespeare. Havia três nomes ali, mas Aleksei imaginou que o nome dele seria a quem a fala pertencia. mas não o usou de pronto, com a permissão dele para ser ajudado, Aleksei ofereceu o suporte no ombro, passando o braço dele por ali para ajudá-lo a levantar, sequer considerando chamar Tamotsu para fazê-lo. Renaud podia conhecer o zelador, mas duvidava que ele fizesse parte do círculo de pessoas em que o rapaz confiava, então era melhor que ele continuasse mantendo a distância e o alerta que tinha mantido até então.

De volta à maca, ele avisou que era melhor avisar aos outros que não era necessário esperar, e talvez ele não tivesse a mesma ideia de Renaud e que os amigos provavelmente se negariam a sair dali sem vê-lo - uma noção, inclusive, que o próprio Renaud ainda não entendia por completo. Mas não entrou naqueles detalhes, concordou com um aceno de cabeça sobre a intenção dele de direcionar a energia para se recuperar física e mentalmente, mas ainda pegou os materiais na enfermaria para trazer perto da cama.

- Eles serão avisados, não se preocupe com eles. - Aleksei separou os itens para refazer os curativos e passar a pomada cicatrizante, e estendeu uma das mãos, em um gesto que também já tinha feito com Renaud mais de uma vez, esperando que ele escolhesse lhe estender as mãos machucadas ou não. - Eu preciso cuidar dos machucados nas mãos, para evitar infecções agora.

Tamotsu

Observando o desenrolar da cena na enfermaria, Tamotsu certamente não estava inteiramente bem. E nem o doutor. E muito menos o outro sujeito. Porém quando toda a bagunça acabou, notou que alguma coisa ali tinha mudado, como se o rapaz caído no chão tivesse colocado algo para fora, e já não passava a mesma impressão de antes. Aliás, quando ele começou a falar, até mesmo o jeito dele falar parecia ter mudado. Tinha pego ele fazendo uma tonelada de vozes, num surto, aquela certamente parecia mais dele, mas a sensação era diferente.

E na real, não entendia nada do que ele estava dizendo.

Tentou até prestar atenção, e se perguntou se deveria ficar ali para ajudar a pôr o rapaz de volta na maca, porém o médico não quis sua ajuda e levou o outro garoto sozinho. Daquela conversa, uma das poucas coisas que entendeu foi que seria bom avisar aos moleques do lado de fora que o pior tinha passado. Tamotsu olhou para o doutor, apontou para o próprio queixo e depois para a porta, querendo alguma confirmação de que era para ele sair e ir. Mas já que tudo parecia sob controle, e o próprio doutor reforçou que eles seriam avisados, tomou isso como uma ordem. Só não era o melhor em repassar notícias.

Subitamente, o zelador abriu a porta da enfermaria, alarmando Sasha e Didier. Ele fechou a porta atrás de si em seguida, não permitindo os garotos entrarem.

- Ei! O que aconteceu? Você saiu por que?? Tá tudo bem lá dentro?? – Sasha perguntou, um pouco mas afobado. O zelador sabia porque, afinal, entendia bem desses laços de amizade. Moleques ou não, imaginava que eles deveriam estar sentido bastante pelo amigo surtado do lado de dentro.

- Ele tá mais calmo e o doutor colocou ele na maca. Mas ele não quer conversar. Então vocês vão esperar aqui fora até que ele queira. – Tamotsu colocou de modo muito pontual.

- ... Fácil pra você falar...! Mas estamos preocupados! E como ele está!? Fale algo além do que te mandaram falar! – Didier rebateu, gradualmente recuperando alguma energia do corpo, ainda que estivesse sentado. Quase se pôs de joelhos, as mãos a frente esperando alguma notícia mais concreta.

- Ele tá na maca. E respirando. E calmo. E sendo atendido. O que mais vocês precisam além disso? Deixa o moleque descansar, e deixa o doutor fazer o trabalho dele. Três moleques lá dentro fazendo barulho e perguntas demais, não é bom. – Tamotsu disparou, e então estalou a língua no céu da boca e coçou a nuca, porque sabia que não era o melhor jeito de dar uma notícia. – Olha... só tô dizendo pra ter paciência, tá...? O amigo de vocês precisa do doutor agora. Mas fiquem por aqui. Ele vai precisar dos amigos depois.

Sasha até queria responder o outro, mas sabia que era verdade. Bateu com a lateral do punho na roda da cadeira, irritado, e Didier também só mordeu os dentes. Só podiam esperar pacientemente até ser a vez deles de entrar. Tamotsu decidiu ficar na porta também. Os garotos pareciam que provavelmente invadiriam a sala se deixasse.

Duncan

Nada naquela situação era confortável para o moreno, era como estar acuado com pessoas que não confiava, e a quem normalmente sequer abriria a boca para pedir qualquer coisa. Mas não estava em posição de ser exigente, e seu corpo não sentia a situação em conformidade com sua mente, a sensação de perigo era apenas a sua percepção da realidade, já seu físico era apenas a realização do cansaço de toda aquela situação. Era possível perceber que Duncan encarava com intensidade o loiro a sua frente, na mesma medida, dava pra notar também que a respiração do moreno ia se ajustando a cada suspiro dado, como se ele estivesse a todo custo tentando por em ordem o caos que tinha sido imposto no próprio corpo.

Quando o Senhor Vlahos destacou o fato de que precisava cuidar das mãos para evitar infecções, o moreno mais novo sequer pensou duas vezes, e estendeu as mãos na direção do outro, afinal não tinha como fazer curativos em si mesmo, e os próprios machucados magoados precisavam de ainda mais cuidado. E era capaz de distinguir todas aquelas sensações de dor, e queria ter evitado que chegasse naquele ponto, afinal não gostava de quando o “pequeno” tinha de passar por dor desnecessariamente. Porém naquele cenário não tinha escolha senão deixar que outro fizesse o que costumava fazer.

Quando o outro estranho saiu da enfermaria e foi conversar com as pessoas do lado de fora, ouviu novamente a voz do Frater, porém, escutou a voz de Didier, e aquilo lhe fez desviar o olhar do loiro a sua frente por um momento e depois retornar ao psiquiatra a sua frente.

- Agora estamos sozinhos. - o moreno mais novo destacou o óbvio, usando de um tom mais baixo e reservado, a expressão que não demonstrava nada muito além de cansaço físico: - se tem algo em especial que queira saber, esta é a sua oportunidade. - não que de fato quisesse falar ou revelar algo seu, mas estava no meio de uma negociação ali, e tinha de colocar tudo em termos claros e diretos. E embora não tivesse tomado nenhuma postura mais defensiva, ou mesmo agressiva, Duncan certamente não queria fazer rodeios ali, e esperava que o outro percebesse suas intenções de encurtar o diálogo, muito embora, como estava em seu registro mental, sabia que o homem a sua frente gostava de conversar, então tinham de chegar ao menos num meio termo bom para os dois.

Aleksei

O olhar intenso de Renaud - ou pelo menos do corpo dele, já que tinham chegado à conclusão de que a personalidade tinha até outro nome - não passou despercebido a Aleksei, mas ele não se incomodou de ser observado tão intensamente. Considerando que já tinha cuidado de Renaud por muito tempo, quem quer que fosse aquela pessoa que estava ali agora, sabia que o seu trabalho com Renaud era importante, no mínimo, ou já teria reagido para a sua proximidade de forma bem negativa. Ao contrário de uma reação negativa, o fato dele lhe estender as mãos para ser tratado quase automaticamente reforçou que ele podia lembrar das vezes em que tinha cuidado de Renaud, ou no mínimo ter um instinto de autopreservação e que não seria ferido ali.

Aleksei mal desviou o olhar quando Tamotsu deixou a sala, e pegou a pomada cicatrizante para passar na carne viva das mãos do aluno e espalhar do modo mais suave possível, para não incitar mais dor desnecessária. O psicólogo notou ainda pelo canto do olho quando as vozes soaram altas do lado de fora e ele reagiu com um olhar rápido para a porta quando a voz de Didier soou. Mas aquilo era um detalhe que ele podia guardar na memória para depois. Por hora, Aleksei se preocupou em cuidar dos ferimentos que tinham se tornado bem graves por causa da insistência em se machucar, decorrente da reação negativa com a notícia da morte da mãe.

O silêncio da sala foi quebrado pela voz de Renaud, ou algo perto daquilo, e Aleksei ergueu o olhar de uma das mãos que tinha começado a enfaixar quando ele lhe deu o aval para perguntar algo, apontando aquela como uma boa oportunidade. Aleksei só parou de enfaixar a mão machucada por não estar olhando o processo ao encarar Renaud de volta, ou melhor, Duncan, não era?

- Como o Renaud está? - Aleksei nem tinha dúvidas sobre o que perguntar ao outro. E uma pergunta simples como aquela podia lhe dar muitas luzes sobre o tipo de consciência que era o tal Duncan.

Duncan

O moreno não desviou o olhar das ações do psiquiatra a sua frente, avaliando os gestos e observando os trejeitos, ele não estava fazendo nada além do que tinha se proposto a fazer o que era bom. E talvez por isso a reação imediata que perpassou seu corpo, além dos arrepios pela dor dos machucados recentes foi uma sensação de alívio momentâneo. E era estranho que o “pequeno” tivesse depositado tanta confiança em uma pessoa que não conhecia a tanto tempo. Não via exatamente como um problema, mas era estranho dado ao histórico deles de vida.

O Senhor Vlahos não parecia se importar com o fato de estar sendo fortemente observado, talvez porque ele tivesse plena certeza que não era uma ameaça para sua figura, tanto por estar cansado, tanto por ser em parte o próprio “pequeno”. A pergunta que se seguiu foi bem pontual também, o que era bom. Afinal, se ele estava colocando a preocupação com seu paciente acima da própria curiosidade sobre os fatos era algo que valia destacar. Mas se era sincero, ou apenas para ganhar sua confiança, ainda teria de julgar por conta própria.

- Agora o pequeno está dormindo. - Respondeu secamente, e de forma direta, mas seguiu com outro forte suspiro, sentindo a queimação incômoda no peito, antes de dar mais detalhes: - E ele não está nem perto de acordar. - afirmou aquilo sem desviar o olhar do outro, encarando-o nos olhos: - provavelmente só vai voltar em uma hora ou um pouco mais… - no entanto, parou no meio da frase, descendo o olhar para as mãos machucadas, avaliando-as longamente, para só então voltar a atenção para o senhor Vlahos novamente: - o corpo está muito cansado e dolorido, nessas situações ele têm por hábito de dormir sem ter hora pra acordar, é o jeito que ele aprendeu pra se recuperar.

Explicou aquele ponto, mesmo que o psiquiatra já soubesse daquela informação, ainda valia reforçar, e como não sentia sinal de dor de cabeça ou enxaqueca, sabia que o “pequeno” estava em sono profundo, então precisaria de tempo de descanso antes que ele acordasse.

Aleksei

A mão direita dele enfaixada pela metade descansava na palma aberta de sua mão enquanto dava atenção à resposta de Duncan. Queria continuar o trabalho para terminar os curativos nas mãos de Renaud, mas sabia que também seria um bom indicativo de um fim de conversa. Ao menos ele podia descobrir algo mais sobre aquela personalidade, além do fato de que, em momentos pontuais, tinha percebido que ele servia como um tipo de proteção. O que era em parte bom. Como ele se referia a Renaud como “pequeno” também lhe dava uma boa margem de quando é que ela tinha se formado na mente do aluno a sua frente, era algo que vinha de muito tempo e de situações extenuantes que um Renaud criança não tinha sido capaz de enfrentar sozinho. Podia até pontuar muito bem aqueles momentos das conversas que tiveram.

Aleksei concordou com acenos de cabeça quando ele explicou que Renaud não ia acordar tão logo e que demoraria um pouco mais de uma hora. Não deixou de notar como ele suspirava ou tinha reações no corpo como se não estivesse inteiramente confortável na situação. Mas não pontuou nada mais. Ele olhou para as mãos e depois lhe encarou de volta, especificando como Renaud apagava quando o corpo estava fisicamente exausto, o que, de novo, lhe remeteu a memória de um ponto recente muito específico no tratamento do rapaz sobre ele ter perdido dias inteiros.

- Você sabe tudo sobre o Renaud? Quando ele está acordado tanto quanto ele está dormindo? - Aleksei voltou a olhar para as mãos, terminando de enfaixar com cuidado uma das mãos dele para ir para a segunda, passando de novo a pomada nas áreas mais machucadas antes de pegar mais bandagens. Queria saber também o quanto ele tinha de consciência da vida de Renaud, já que o contrário certamente não acontecia. Renaud não fazia ideia de que havia uma segunda pessoa em sua mente, daquilo, Aleksei estava bem certo.
#5
Duncan

O moreno observou com atenção o médico a sua frente, porque além dele ter parado o curativo para lhe dar atenção completa, o que queria dizer que estava sendo analisado de volta; ele também não lhe interrompia, provavelmente procurando sentidos mais profundos nas coisas que dizia. Isso era algo incômodo para Duncan, primeiro porque não queria ninguém estranho lhe analisando, segundo porque não sabia a extensão do quanto isso poderia ser usado contra o pequeno. Mas novamente, o que sentia do próprio corpo era o cansaço somado a sensação de conformidade, e aquilo lhe deixava numa situação de “cheque”.

Ouviu a pergunta que veio sobre saber tudo, aquilo era muito abrangente e ao mesmo tempo que vago. E respirou fundo novamente, num suspiro menos sofrido do que os anteriores, gradativamente se acostumando com as sensaçõe de dor física daquele dia caótico:

- “Tudo” é uma palavra muito ampla, e por consequência eu não sou abrangente o suficiente para contemplar o todo da vida do pequeno. Apenas algumas partes. - Não era uma resposta conclusiva, porque não explicava nem metade de como as coisas funcionavam: - Quando ele está acordado, eu cochilo, quando ele dorme, eu vigio, quando eu estou acordado, ele dorme. Então, não estou atento a tudo, apenas ao que o incomoda e o atinge mais profundamente. O resto eu ignoro e não tenho interesse em intervir.

O moreno falou muito pontualmente, sem deixar de encarar o homem a sua frente e sem fugir das perguntas, embora fosse possível aquela altura, medir que havia desconforto por parte de Duncan. Como tinha dito que podiam conversar, não estava fugindo do que tinha se proposto naquela barganha, mas não queria dizer que estava satisfeito de ter de compartilhar aquelas informações. Muito embora, não fosse sobre sua felicidade, e sim sobre a estabilidade do pequeno, e era somente por isso que estava sendo colaborativo.

Aleksei

As reações físicas de Duncan só reforçavam como o corpo de Renaud estava debilitado, claro, mas também deixaram Aleksei mais ligado no fato de que ele mesmo não parecia conseguir regular bem as sensações do corpo machucado para se manter presente. Embora Aleksei imaginasse que aquele fosse o estado físico com o qual o alter-ego estava mais acostumado, se fosse analisar a presença dele apenas em situações críticas com Renaud muito debilitado.

Mas mesmo com o desconforto físico e mental, ele procurou as palavras para lhe responder, e daquela vez, Aleksei manteve a atenção nas mãos para agilizar os curativos, afinal, ele estava sentindo dor e precisava descansar, de todo modo. Além do quê, conversar com Renaud era uma situação, conversar com Duncan, quem tinha acabado de conhecer, era uma completamente diferente. E delicada, para dizer o mínimo.

A resposta dele lhe deu uma melhor delimitação do quanto a consciência funcionava para se ligar dentro da mente de Renaud, e do quanto ela entendia da consciência principal. Era menos controle e conhecimento do que Aleksei esperava, mas um pouco mais do que ele gostaria de ter descoberto. Afinal, em meio à gama de sensações, ele podia ainda "escolher ignorar", e "não ter interesse de intervir". Eram escolhas conscientes, mesmo que mínimas. Também era importante que ele tinha aparecido para proteger Renaud em uma situação de estresse mental e físico extremo, mas não tinha se manifestado, até onde Aleksei podia avaliar, durante a crise emocional de Renaud para levá-lo a tomar remédios. Não era algo perigoso, ou do quê ele precisasse defender Renaud, era uma boa perspectiva, significava que podia continuar com o tratamento e levá-lo a outro nível.

Ele terminou de enfaixar a outra mão machucada e só então, voltou a atenção para encará-lo de volta.

- Pronto, vocês podem descansar agora. - Aleksei indicou, sem adicionar uma pergunta nova. - Posso ministrar medicação para a dor e para ajudar a dormir, se quiser.

Duncan

Aparentemente sua resposta tinha sido o suficiente para fechar aquela negociação, porque justamente após sua explicação o psiquiatra a sua frente tornou a dar atenção as mãos machucadas terminando os curativos que eram necessários. Observou todo o processo com atenção, sem desviar o olhar nenhuma vez, até que de fato ele tivesse acabado. Ponderou sobre aquela situação, e sobre a importância que o homem a sua frente tinha para a trajetória do pequeno dali por diante, e mesmo que fosse de sua natureza ser evasivo, novamente tinha de pensar que não era sobre o que ele queria, e sim sobre o que o pequeno precisava.

Ao ser perguntado se queria remédios para dor e para dormir, o moreno piscou longamente e soltou um suspiro se arrumando na maca, chutando os sapatos que estava calçando para fora da maca: - A menos que o senhor administre morfina, não tem como nos apagar completamente, e isso não é uma suposição, no entanto, eu aceito sim medicação, vai ao menos aliviar parte do incômodo para quando o pequeno acordar. - o moreno puxou o nó da gravata de forma desajeitada, e afrouxou o colarinho com algum trabalho:

- Como deve ser do seu conhecimento, nós temos uma reação exagerada quando somos acordados pelos outros, o pequeno pode até ter se acostumado com algumas pessoas recentemente, mas eu não. - O moreno foi bastante pontual na forma de falar, porque estava avisando que era um perigo para outras pessoas quando ficava desacordado e a última coisa que queria era causar um problema para o pequeno sobre uma coisa que não tinha total controle: - Se precisar nos acordar antes da uma hora que lhe disse, quem vai acordar sou eu, então a única pessoa nessa academia que está segura pra fazer isso é o Frater, o restante de vocês vai se machucar. E eu não quero causar problemas para o pequeno por algo que pode ser evitado com um aviso direto.

Dito isto, retirou o terno largando-o sobre uma cadeira próxima, ficando apenas com a camisa social para ficar mais confortável, e esperou apenas que o médico lhe desse as medicações para tomar, para que pudesse se deitar na maca, usando os braços para cobrir os olhos, mantendo as palmas das mãos para cima, para evitar de magoar os ferimentos recentes, e antes de se entregar ao cansaço e sono, Duncan ainda comentou em tom baixo:

- Grato pela assistência Senhor Vlahos.

Aleksei

Com as mãos devidamente enfaixadas, Duncan afrouxou a gravata e desabotoou o colarinho, tirando o terno em seguida para poder finalmente se render ao descanso. Aleksei não pretendia prolongar a conversa com ele, menos ainda extenuar ainda mais a mente já cansada de Renaud, poderia lidar com os dois em outra situação, e ainda planejar como apontar aquilo para Renaud também, afinal, fazia parte do tratamento. Ele ainda apontou como não seria sensato acordá-lo antes do tempo determinado para o descanso e que era ele mesmo que ia acordar e não Renaud, Aleksei não tinha dúvidas de que seria um movimento arriscado, mas ainda ficou muito curioso com o fato de que havia alguém em que Duncan confiava, e não era surpresa aquele alguém ser o “frater”, era o relacionamento mais antigo de Renaud e mais do que a família convencional.

O psicólogo se levantou para pegar os remédios para dor, que precisariam ser ministrados na veia, àquela altura para um efeito mais imediato. Claro que ainda apontou aquele detalhe para o rapaz, para não correr o risco dele negar a medicação na veia e mostrou o frasco do remédio selecionado ali mesmo na enfermaria. Ele concordou com o analgésico, e com o remédio injetado, seria bem mais fácil para que ele relaxasse também. Aleksei parou ao lado da maca enquanto Duncan se acomodava para adormecer, dando os últimos avisos num tom de voz mais sóbrio e calmo.

- Não se preocupe, vou garantir que não seja incomodado. Estarei aqui em uma hora para quando acordar, seja você ou Renaud. Descanse um pouco. - ele apontou, deixando-o se render ao cansaço enquanto seguia finalmente para fora da enfermaria.

Ao abrir a porta, a primeira pessoa que Aleksei chamou foi Tamotsu, e já até sabia que os alunos esperando notícias do lado e fora ficariam alarmados com a sua volta, mas Aleksei manteve o foco no zelador naquele início.

- Sr. Saito, preciso que o senhor fique na enfermaria pela próxima hora e fique de olho no Sr. Blanco, tudo bem? - ele pediu a ajuda ao zelador, especialmente porque não fazia parte da descrição do trabalho do outro. - Não se aproxime muito da maca, nem tente acordá-lo. Caso o Sr. Morrison volte, dê as mesmas instruções, ele pode se tornar violento se for acordado antes, e mesmo que esteja debilitado, não subestime a força e as habilidades dele. Se precisar de mim, use o telefone da enfermaria e ligue para a sala de aconselhamento estudantil, certo?

Aleksei esperou a confirmação de Tamotsu para as suas instruções e ficou estrategicamente parado na entrada para evitar que o trio de estudantes quisesse entrar. Só com a concordância do zelador, foi que ele saiu da enfermaria e fechou a porta atrás de si, encarando os três alunos muito ansiosos por notícias.

- Eu sei que estão todos preocupados e ansiosos sobre o estado do Sr. Blanco, então eu vou adiantar que ele está bem, está medicado e dormindo no momento, mas não podemos conversar na enfermaria para evitar acordá-lo, e não podemos ficar no corredor. Peço que me acompanhem até a minha sala para que eu possa explicar melhor a situação toda. - Aleksei explicou, de modo muito simples, e ajustou os óculos falsos no rosto. - E vou deixar bem claro que vocês não podem entrar no quarto agora.

Tamotsu/Sasha/Didier

Tamotsu realmente queria pular fora daquela tarefa. Aquela não era função sua dentro de St. Clavier. Mas havia algo naquela situação toda que lhe deixava incomodado de só retornar ranzinza para suas atividades: os sentimentos dos garotos. Esperaram por um tempo do lado de fora, e ele tentou não prestar atenção na cara cansada de todos, mas viu todos se iluminarem de esperança de alguma notícia quando o médico abriu a porta da sala. Porém, diferente do que os garotos esperavam, ele lhe chamou, e mais ninguém. Olhou para trás, mas apenas acatou o chamado do doutor.

Sério, a testa franzida de leve, ouviu as ordens do médico para que ficasse de vigia no garoto. Queria mesmo recusar, esperar alguém mais, mas os modos cansados do médico, apesar de não transparecerem no físico, lhe diziam que talvez fosse uma boa ideia. E também porque o moreno parecia mesmo forte, não negaria, nem precisava do aviso do doutor. Imaginar que talvez houvesse a possibilidade dele surtar de novo e machucar alguém, não seria bom para a situação geral da escola.

- Aaa. Osu, sensei... doutor. – se corrigiu, então franzindo a testa de leve. Ele não sabia o número da sala para ligar, mas lembrou que nos telefones da escola tinham pequenos números que assumia serem das outras salas importantes da escola que tinham telefones. Contava que o da enfermaria também fosse assim, porque nunca tinha ligado para outra sala da escola... mas não deveria ter muita dificuldade nisso, tinha?

Entrou na sala quando dado passagem, e deixou o médico com os jovens, que pareciam muito alertas para a chegada do doutor. Didier até levantou, mas nem ele e nem Sasha tiveram tempo de dizer qualquer coisa até o médico ser bem direto em falar que ele estava bem, “medicado e dormindo”, o que parecia bem contraditório. Não apenas isso, o trio não poderia ficar ali, para não acordar Renaud. Dada a necessidade de silêncio, até ficaram quietos, mas realmente pareciam estar engolindo as palavras que queriam dizer. Tanto Sasha quanto Didier queriam protestar sobre o que havia passado, mas os dois apenas se resignaram a acatar a ordem de ficarem quietos, pelo menos até chegarem no meio do caminho até a sala do doutor.

- Mas por que não podemos entrar, para não incomodá-lo? Conseguiu trocar as bandagens? Ele se machucou muito? – Didier perguntou baixinho, ansioso por mais informações, e sem paciência para esperar chegarem até a sala.

Sasha até queria ficar bravo e reclamar que o médico ainda ia explicar, mas estava tão ansioso por respostas quanto o loiro, e nesse caso, não sentia que deveria repreendê-lo por isso. Mas foi um alívio para todos chegar na sala: pelo menos assim teriam como descobrir o que tinha acabado de acontecer. Assim esperavam.

Aleksei

Aleksei agradeceu rapidamente a Tamotsu antes de deixá-lo na enfermaria e se dirigir aos alunos. Ao menos eles foram sensatos em não tentar entrar na sala ou fazerem barulho ali no corredor. As expressões de preocupação já falavam por si só, e eles acompanharam Aleksei no caminho dos corredores silenciosos - agora que toda a confusão tinha se passado e os alunos já tinham se dissipado para começar a espalhar os rumores -, até a sala de aconselhamento estudantil. Antes mesmo de chegarem lá, ouviu a pergunta quase sussurrada de Didier para saber mais sobre Renaud, e só esperou chegar à porta da sala, abrindo-a e dando espaço para que os três entrassem, enquanto adiantava a resposta a Didier.

- Eu troquei as bandagens, e ministrei analgésico para a dor, eu queria dizer que ele não se machucou tanto, mas para quem já estava se recuperando de queimaduras nas mãos, infelizmente ele exigiu um pouco demais das feridas recentes. - Aleksei explicou, e deixou que os três entrassem e se acomodassem nas poltronas livres diante da sua própria que usava nas consultas. Os três já tinham estado ali antes, não era novidade.

Mas ele mesmo passou direto pela própria poltrona e serviu água em três copos, colocando-os numa bandeja para deixar na pequena mesa diante dos três alunos antes de se sentar, dando-se ao luxo de relaxar um pouco também.

- Eu vou começar explicando a parte simples, de vocês não poderem visitar ou incomodar o Sr. Blanco agora simplesmente porque ele está muito vulnerável. Eu não acho que seja segredo para qualquer um de vocês que uma aproximação inesperada, um susto, ou algo nessa linha, possa fazê-lo reagir de uma forma exagerada e até perigosa, para vocês e para ele também. - Aleksei começou, e daquela vez ele tirou os óculos do rosto, limpando as lentes com um dos lenços que pegou na mesa e encarando os alunos sem as lentes por um instante. - O que vocês acabaram de ver do Sr. Blanco foi uma crise, um surto, para ser muito objetivo. Não é uma reação estranha para alguém que recebe uma notícia como a que ele recebeu hoje, da morte de um ente querido. E eu creio que todos vocês já sabem que nos últimos dias ele iniciou um tratamento com medicação controlada, para adicionar ao tratamento que já fazia comigo desde o início do ano letivo. Basicamente, o Sr. Blanco não tem experiência em como lidar com os próprios sentimentos, portanto, emoções intensas causam reações intensas.

- Mas... o que foi aquilo? Com o conto, e as vozes diferentes? - a pergunta muito pontual veio de Isaac e Aleksei já sabia que tinha que explicar aquilo antes mesmo de explicar a Renaud o próprio diagnóstico.

- Como eu disse, muito objetivamente, o Sr. Blanco teve uma crise. Para ser mais específico, ele teve uma crise dissociativa de personalidade. Significa que nesse momento de estresse, não era o Renaud que vocês conhecem, mas outros personagens tomando conta da mente dele, como uma necessidade de fuga da realidade.

Sasha/Didier

O presidente do conselho estudantil suspirou um pouco aliviado quando Aleksei parecia disposto a responder sua pergunta tão prontamente. Concordou em um movimento com a cabeça, porque pelo menos havia sido uma resposta direta e sem enrolação. Isso lhe deu qualquer pouco de confiança que o doutor não deixaria o trio que o acompanhava no escuro. E foi por isso que todos se acomodaram no consultório, Didier sentando-se na cadeira dos pacientes e Sasha só parando perto das poltronas.

Sasha não quis a água, mas Didier estendeu a mão para pegar a mesma, sentindo que precisava bastante beber alguma coisa, a garganta seca. Ele até poderia parecer estar mais quieto, mas a medida que Aleksei explicava que eles não poderiam se aproximar de Renaud por ora, a expressão do loiro fechava mais, e o pé no chão começou a bater insistente, inquieto. Bem queria levantar e andar por ali, mas decidiu prestar atenção como podia. Sasha por outro lado, tinha chegado já no meio do processo e precisava ser tão inteirado quanto pudesse.

A explicação do médico foi convincente, mas foi a pergunta de Isaac que foi direto ao ponto. O surto na sala do conselho, Didier esperava, e Sasha não tinha visto. Mas tinham ouvido aquela bagunça da enfermaria, e aquilo tinha sido bastante assustador. Ouvir Aleksei tratar aquelas vozes por “personagens” foi ainda mais intrigante.

- Olha, eu não sei o que você quer dizer com essa crise dissociativa de personalidade, e nem que ele não era o Renaud, mas ele não estava imitando personagens em uma história... eram vozes de gente que o Renaud conhece. Minha, do Callas, do Lemont, de amigos nossos... – Sasha tentou falar alguma coisa, qualquer coisa que ajudasse, caso não fosse óbvio o suficiente para o médico.

- E o que acontece depois da crise? – Didier perguntou muito pontualmente, porque sabia que depois da crise Renaud teria que enfrentar o sentimento de perda, inevitavelmente. O quanto durava aquela fuga da realidade?

Aleksei

Aleksei até tinha percebido que Renaud estava se apropriando de vozes conhecidas para os personagens do conto, embora não conhecesse todos eles. As vozes conhecidas davam mais credibilidade aos personagens, e ele sabia que seria difícil explicar melhor aos três como aquele processo funcionava. Mas talvez conseguisse evitar entrar diretamente no assunto da personalidade muito consciente que assumiu a mente de Renaud depois deles saírem da sala.

- Sim, eu reconheci parte das vozes, e sei que as outras vozes pertencem a pessoas que o Sr. Blanco provavelmente conheceu e que fizeram alguma diferença na vida dele. - Aleksei concordou com um aceno de cabeça, levando os óculos ao rosto de novo. - Mas como o Sr. Lemont apontou, ele recitou as falas de um conto favorito. Eu poderia entrar numa série de explicações e suposições a vocês do motivo pelo qual ele fez isso, mas não vai ajudá-los a entender melhor, e só vai colocar mais confusão na mente de vocês. - ele juntou as pontas dos dedos sobre as pernas, os cotovelos apoiados nos braços da cadeira, notando as reações de ansiedade dos três. - Usar vozes de pessoas que ele conhece dá mais "vida" aos personagens. Eles se tornam importantes e relevantes, mais do que personagens fictícios. Cada um tem um papel na narrativa, e a mente do Sr. Blanco faz a ligação de uma pessoa que conhece a um personagem do conto. Parece mais assustador com o Sr. Blanco porque ele tem uma habilidade excepcional em imitar vozes, mas não é algo incomum para uma pessoa como ele, que tem experiências traumáticas que vieram desde muito jovem.

Talvez eles ficassem mais satisfeitos com a explicação breve sobre as vozes distintas que Renaud tinha assumido naquele momento de crise, e a pergunta de Didier foi melhor para lhe fazer mudar o assunto para um ponto mais imediato, já que Renaud precisaria do suporte dos amigos para enfrentar a perda da mãe.

- Ele está em luto, e ele está aprendendo a lidar com as emoções, então os estágios de luto que ele vai passar vão ser mais intensos. - Aleksei ergueu uma das mãos, levantando os dedos à medida que falava os estágios. - Choque e negação; raiva; barganha; depressão; teste e aceitação. Vocês acabaram de ver o choque, a negação e a raiva. Eu não quero que fiquem no quarto com o Sr. Blanco porque ele ainda pode reagir no estágio de raiva. Não dá pra saber quanto tempo ele vai passar pelos estágios ou como vai encará-los, então temos que esperar que ele se recupere fisicamente primeiro.

Sasha/Didier

Didier estava satisfeito com a explicação do médico do porquê não explicaria a fundo o que a cena toda da história e as vozes escolhidas tinham a ver com o transtorno do moreno. Na verdade, não conseguiria entrar no trabalho dele nem que quisesse, e não tinha energia para tentar tecer conjecturas, assim como o psiquiatra estava falando que eram: apenas suposições. Importava para o loiro cuidar do que viria depois, e o que fazer se acontecesse outro surto. Porém Sasha ainda estava de testa franzida, porque não estava entendendo muito daquela conversa.

- Mas saber por que ele usa nossas vozes na história também não ajudaria a saber como lidar caso ele tenha outra crise dessas? – Sasha questionou, arqueando uma sobrancelha com um ar preocupado. – Ou pelo menos saber como ele está se sentindo e de quem ele precisa? Eu não sei, doutor, não quero me meter no seu trabalho... só tô tentando entender o que tá rolando com o menino...

- É uma história que ele gosta... com pessoas que ele gosta, não é? Eu não quero saber o porquê minucioso de tudo, se é algo que ele considera confortante, por mais assustador que soe ouvindo. Quero saber o que podemos fazer para ajudar. – Didier tentou conversar com Sasha, explicando tudo de um modo que parecia um tanto frustrado e cansado, e talvez fosse ainda mais cansado porque estava se esforçando para não deixar escapulir as palavras em espanhol e ser perfeitamente entendido pelo médico. Para o loiro, assumia que aquilo era um tipo de porto seguro, pois sabia que Renaud gostava de história há muito mais tempo que o conhecia, e supunha que, tal como disse o doutor Vlahos, ele tinha ligado de alguma forma a história com o trauma.

A explicação sobre os estágios do luto de Renaud trouxe todos de volta a realidade muito rápido, e embora Sasha tivesse questionado antes, ele entendia os estágios muito claramente, pois embora não tivesse experimentado a morte de ninguém próximo o suficiente para lhe causar tanto impacto, sabia bem como era lidar com perdas extremas. Didier aceitava aquela explicação em certo ponto. Sabia que nem ele e nem Isaac (e Sasha menos ainda) conseguiam segurar Renaud enfurecido, mas também não queria ficar separado do moreno.

- Não quero que Renaud se machuque mais daquela forma, mas não me sinto bem tendo que esperar ele ficar melhor para ficar perto dele. Como vamos saber, doutor? Esperar sua permissão para ficarmos com ele? Ou esperar ele dizer que podemos? – Didier perguntou, suspirando longamente, sem ter mais o que perguntar, afinal, o doutor estava deixando tudo claro como podia para o trio.

Aleksei

Aleksei já esperava alguns questionamentos mais pontuais dos alunos ali, embora Isaac ainda continuasse bem quieto em comparação a Sasha e Didier. Então, não se importou em se dirigir aos outros dois primeiro.

- Como eu disse, ele usa essas vozes para dar vida aos personagens e se sentir num ambiente "seguro". O Sr. Blanco foge da realidade que ele não quer encarar e entra numa realidade sobre a qual ele tem controle. - Aleksei explicou um pouco mais detalhadamente a Sasha, ao menos a dúvida dele podia deixar claro para os outros como reagir diante daquela situação. - Sobre a sua preocupação, Sr. Peyrac, posso dizer que o Sr. Blanco nesse estado é como uma pessoa sonâmbula, você não ia querer acordá-lo de um modo abrupto para que ele entre em estado de choque. Se isso acontecer novamente, e por ventura vocês estiverem perto dele, a minha melhor recomendação é que observem, se possível, manipulem o ambiente ao redor, mas não tentem interferir com ele diretamente, e claro, se mantenham seguros, mais ainda se não sabem o desfecho da história. Infelizmente, eu não posso lhes dar instruções precisas de como agir nesse tipo de situação, depende de entender muito da parte de como funciona a mente, além de apenas conhecer a pessoa em si. Eu pedi para que deixassem a sala porque vocês eram personagens ativos da história, se o Sr. Blanco se deparasse com as vozes reais que ele projetou, não tenho como prever qual o desfecho e a interação que ele teria com cada um de vocês.

- Ele poderia ter tentado fazer algo igual ao conto? - a voz de Isaac finalmente soou no ambiente, e ele estava certo de ser a única pessoa que sabia exatamente o que acontecia no conto, além de ter conseguido relacionar apenas as vozes conhecidas a algumas das falas dos personagens. Aquela consciência era um tanto perturbadora.

- Não posso dar certeza, mas é possível. - Aleksei adicionou, e notou muito fácil que Isaac tinha associado algo do conto às personagens, porque ele ficou muito quieto de novo, com uma expressão consternada. Mas Aleksei se voltou para Didier e Sasha de novo. - Eu sei que vocês estão preocupados e querem fazer algo para ajudá-lo, e isso é ótimo. O Sr. Blanco precisa da sua companhia e do seu apoio, principalmente num momento crucial desses, vai ser muito difícil para superar a perda. - ele adicionou. - Sobre quando vocês vão poder ficar com ele, bom, eu ainda vou acompanhá-lo até que ele acorde na enfermaria, até o Sr. Blanco estar consciente de novo e até que eu converse com ele mais uma vez, vocês não podem ficar por perto. Vão ter que ser um pouco pacientes, e confiar nas minhas decisões profissionais, por mais difícil que possa parecer agora.
#6
Sasha/Didier

Quanto mais o doutor explicava a situação de Renaud, pelo menos para Didier, mais parecia difícil de lidar, e não tinha ideia do que o sujeito estava explicando, focado demais talvez na ideia de que não sabia ser tão pensativo ou profundo quanto aquela teoria. Sasha até podia entender com a ideia do sonâmbulo, mas tinha notado como a ideia toda era surreal: era como se estivessem no sonho de Renaud, que ele não pudesse ser acordado de repente, e que tivessem que agir de acordo como seria melhor para o sonho continuar até que o próprio decidisse acordar. Basicamente teriam que cuidar para não sacudir fortemente Renaud com a realidade dura, e, se ele tivesse outro surto como aquele, lhes restava reagir como conseguissem, pensando exatamente naquelas dicas.

Isaac dessa vez que fez uma pergunta muito pontual, que fez com que Sasha e Didier finalmente olhassem para ele, que parecia estranhamente quieto.

- Você sabe a história, Lemont...? – Sasha perguntou sem nem piscar, embora Didier fosse capaz de notar que havia certo ar de desconforto na pergunta de Isaac. Provavelmente havia alguma coisa muito perturbadora naquele conto, e não seria estranho para Didier, dado que Renaud lia coisas muito estranhas as vezes.

Mas Didier em particular não queria mais aprofundar aquela conversa. Quanto mais o doutor Vlahos falava, mais tinha certeza de que era um caso para um profissional e ele quem tinha que cuidar de Renaud por ora. Lhe restava a paciência que não tinha. Concordou silenciosamente com a cabeça a fala do loiro, cansado demais de pensar, e se curvou sobre as próprias pernas, batendo a canela de modo impaciente. Sasha soltou um longo suspiro, olhando de Isaac para Didier com um ar ainda curioso. Mas os dois pareciam muito cansados, muito mais que ele, e tinha que respeitar que os dois foram os primeiros a estar com Renaud. Talvez o que todos precisassem agora era de um incentivo para serem pacientes mesmo.

Aleksei

Isaac estava levemente perdido nos próprios pensamentos, mas voltou a atenção para Sasha quando ele perguntou se conhecia a história. A única coisa que pôde responder foi com um aceno positivo de cabeça, engolindo em seco incomodado. Agora que todo o estresse tinha passado e que estava mais certo de que Renaud estava em boas mãos e sendo bem tratado, começava a sentir o corpo pesado e cansado, além de dolorido, principalmente dolorido.

Mas ele não adicionou nenhum detalhe e depois que Aleksei terminou a explicação e pediu para que eles confiassem em seu trabalho, não houve mais protestos ou tentativas de perguntas, o que era bom, já que ele queria primeiro conversar com Renaud sobre a situação dele antes de explicar aos amigos.

- Eu preciso voltar à enfermaria e esperar que o Sr. Blanco recobre a consciência agora. Fiquem à vontade para esperar aqui, se preferirem outro lugar, me avisem e eu saberei onde encontrá-los depois que o Sr. Blanco acordar. - Aleksei avisou, levantando-se da poltrona, e Isaac foi o primeiro que acompanhou, sentindo todos os músculos doerem com o movimento.

- Eu vou voltar à sala do Conselho estudantil, preciso arrumar tudo. - ele explicou, e seria mais fácil ser contatado lá.

- Certo, saberei onde encontrar o Sr. Lemont e ele pode avisá-los, eu não conseguir contatá-los. - Aleksei avisou a Sasha e Didier, seguindo na direção da porta logo em seguida.

Ele só esperou a decisão dos alunos se ficariam ali ou não, para fechar a porta ou deixá-la aberta, e retornou para a enfermaria, finalmente liberando Tamotsu do trabalho que tinha forçado nele, agradecendo pelo serviço e se responsabilizando por monitorar Renaud. Mathew já tinha retornado à enfermaria, e daquela vez Aleksei tomou o tempo para sentar e explicar ao enfermeiro todo o ocorrido, o que deu bastante tempo para que Renaud descansasse. Mas o rapaz ainda ficou adormecido por longas horas, bem mais do que a uma hora prevista, o relógio já marcava pouco mais de 15h e Aleksei não tinha nem almoçado para continuar ali, tomando apenas um café no meio tempo. Quando houve alguma reação de Renaud, Aleksei estava sentado numa cadeira de rodinhas parado ao lado da maca, numa distância segura do alcance do braço de Renaud, caso ele ainda estivesse alterado.

- Renaud? - chamou pelo aluno, em dúvida se ele que responderia, ou o alter-ego. - Consegue reconhecer minha voz?

Renaud

“deriva”, era a primeira palavra que permeava o pensamento do jovem, ainda de olhos fechados jogado a escuridão e sem nenhuma imagem para se fixar, seu corpo era tomado pela sensação de leve flutuação, como se estivesse sendo embalado em um ritmo inconstante de balanços. A noção de que havia uma maré indo e vindo, e a medida que o corpo inerte era atingido por esse movimento descompassado, uma onda de calor irradiava por cada centímetro da pele do moreno deitado, como se tomado por uma ardência quase febril. Os aromas estavam distantes, embora seu nariz estivesse acostumado demais ao cheiro do próprio sangue. O gosto que tomava seu paladar era fortemente salgado, como se tivesse recém se afogado no oceano, mas era brutalmente amargo como se pudesse sentir o fundo de suas entranhas no topo de seu palato. Os sons estavam abafados, como se o próprio moreno estivesse tapando os ouvidos para se manter distante, mas sabia, que não poderia usar as mãos para aquilo.

Por que não poderia usar?
Porque estão machucadas Renaud.
Por que eu estou machucado …?
Porque nós estamos feridos Renaud.
Quem nos feriu …?!
Nós mesmos, todos um pouco, mas principalmente Ela.
Ela …!
Sim…
Não…
Sim.
NÃO!

O moreno mais novo abriu os olhos num reflexo, os olhos grandes escuros, a esclera avermelhada do sono profundo, espiou em volta sem de fato enxergar ou mesmo fazer sentido de onde estava, logo as pupilas se dilataram se ajustando a luminosidade incômoda, e o jovem Blanco estreitou os olhos, a voz conhecida chegando aos seus ouvidos numa pergunta que não lhe fez sentido imediatamente, mas sabia quem era:

- Dr. Vlahos… ?! - o timbre de voz soou baixo, e sentiu a garganta arranhar e arder, e pigarreou levando as costas da mão para cobrir a boca. Olhou as bandagens novas, o cheiro característico de pomada, sabia que estava machucado e ferido: - eu…!- e sabia que se estava machucado o único lugar para onde seria levado era justamente enfermaria ou um hospital. Mas se estivesse num hospital, o psicólogo não estaria ali bem do seu lado, porém, não lembrava de ter chegado ali, e isso era um mal sinal.

Renaud se encolheu na maca, massageando o meio da testa com as costas da mão, uma terrível dor de cabeça lhe cortando a nuca, e enquanto sua mente trabalhava rapidamente revisitando as últimas coisas que lembrava fazendo o caminho reverso, chegou no ponto do onde o telefone tocava, e a voz conhecida do assessor de seu pai falava com todas as letras que sua mãe não estava viva. Renaud parou o movimento com a mão e os olhos fundos se encheram novamente, e o moreno mais novo, usou das duas mãos pra cobrir a boca daquela vez:

- ela não está mais aqui Dr. Vlahos…! - falou com a voz miúda de quem tomava consciência dos fatos, embora estivesse ainda visivelmente abalado.

Aleksei

Renaud estava obviamente atordoado ao acordar, os olhos vermelhos e circulando o ambiente até entender o que estava acontecendo. Aleksei esperou alguns instantes até que ouviu a voz e o tom conhecidos e o seu nome, o que era um bom sinal. Ele levou a mão enfaixada ao rosto e Aleksei tomou a liberdade de se aproximar um pouco mais, certo de que era Renaud e de que ele não estava na mesma disposição agressiva de antes. Aleksei ficou atento aos movimentos lentos e leves de Renaud, que só evidenciavam como ele estava fisicamente debilitado. E não demorou a notar que mentalmente também. Aos poucos, ele foi assimilando o que tinha acontecido e Aleksei percebeu pela mudança de expressões que ele estava de volta ao motivo que o tinha levado até ali: a notícia da morte da mãe.

Restou a Aleksei observar as reações dele no momento, enquanto a notícia passava pela mente e pelo corpo de Renaud. Ele levou ambas as mãos aos lábios a despeito de estar com a pele machucada, aquele momento definiria qual o próximo estágio em que ele entraria diante do choque da perda.

- Eu sei, Renaud. - Aleksei respondeu, sentando-se no canto da maca, mantendo a proximidade, mas sem encostar nele diretamente, atento aos gestos alheios, caso ele tentasse se machucar de novo ou se tornasse agressivo. - Eu sinto muito.

Naquele primeiro momento, não havia nada mais que pudesse adicionar para o processo de aceitação de Renaud.

Renaud

O corpo todo estava quente, principalmente seu rosto, nem sabia o quanto já tinha chorado, mas sabia que era uma estrada sem volta, o buraco em seu peito era um abismo profundo que seria preenchido por todas as lágrimas que conseguisse pôr pra fora. Muito embora naquele momento, com o corpo ainda letárgico do sono recente, apenas despencou sobre o próprio cansaço mental, parecia que todo o peso do mundo estava sobre seu corpo e se sentia pequeno e miúdo na maca da enfermaria.

Renaud permaneceu deitado e virou o rosto contra o travesseiro, esfregando o rosto ali, num aceno negativo, ao mesmo tempo que sua boca deixava as palavras escaparem em voz baixa, mas que aquela distância o psicólogo provavelmente ouviria. “Isso não é justo... porque isso tinha de acontecer?”

Levou alguns segundos pra que o moreno mais novo retornasse a olhar para o mais velho, os olhos fundo, marejados, a expressão arrasada, apesar de ter dormindo estava notoriamente cansado, sua mente estava exaurida de tentar processar o fato cruel da perda de sua mãe. E o único movimento que o mais novo fez foi de se encolher um pouco mais na maca, curvando os ombros pra dentro, e trazendo as pernas junto do corpo:

- O que eu vou fazer agora? Como é que se vive com isso? - O “isso” notoriamente o moreno se referia a esse conjunto de sentimentos desolados que permeavam todo o seu ser.

Aleksei

Renaud não se tornou violento, nem tentou voltar a se machucar de novo, o que era um bom sinal. Aleksei tomou a liberdade de se aproximar mais da maca, mas não o tocou nem tentou interferir no gesto dele ao enterrar o rosto no travesseiro, ouvindo os questionamentos tão costumeiros a alguém que passava por aquele tipo de perda. Não respondeu ao primeiro questionamento, mas esperou que Renaud saísse do conforto do travesseiro para lhe encarar de volta, com perguntas mais pontuais e direcionadas a ele.

- Você vai aprender a viver com isso, Renaud. - Aleksei respondeu, muito objetivo. - É melhor ter vivido e sentido algo do que não ter sentido nada. Significa que importava para você. Que importa.

Ele deixou a cadeira mais próxima de Renaud daquela vez, uma das mãos apoiadas na maca do aluno. Naquela distância, se Renaud tivesse qualquer novo surto, seria um grande problema para conseguir se defender.

- Vai doer, provavelmente mais do que todas as dores físicas com que você está acostumado. - ele adicionou. - Mas também vai melhorar. Vai demorar algum tempo, mas você vai começar a saber como lidar com esses sentimentos. Uma perda como essa não é fácil para ninguém. Mas lembre-se, você não está sozinho, todos os seus amigos estão esperando notícias suas, eles que cuidaram de você antes que eu chegasse. Você não está sozinho, Renaud. - ele fez questão de reforçar.

Renaud

A forma muito direta com a qual o psiquiatra lhe respondia lhe dava um misto de sensações, porque não era tão fácil como simplesmente “aprender a viver”, mas sabia que nada que o Dr. Vlahos falava podia ser compreendido de forma simples e objetiva, por melhor que ele fosse em usar as palavras. Porque a complicação e o caos estavam na cabeça do Blanco, e agora todo aquele abismo de emoções indistintas pertencia a ele, e por isso mesmo que fosse algo que invariavelmente fosse aprender a lidar, agora tudo lhe parecia impossível de ser absorvido.

Renaud torceu os lábios, amargando uma expressão abatida e triste, os olhos fundos do choro recente o corpo apenas se encolheu mais na maca, porque se sentia exposto demais, e quebrado demais, se não se recolhesse não sobraria muito de si pra juntar os cacos. O moreno mais novo só tornou a encarar o loiro a sua frente quando ele lhe lembrou que não estava “sozinho” e por mais que sentisse que tinha perdido tudo, aquilo não era verdade, mas doía de um jeito que era difícil de mensurar:

-- Eu sei que não estou sozinho… você está aqui cuidando de mim. Didier, Isaac e Sasha devem estar preocupados também… e os meus outros amigos vão ficar preocupados quando souberem… -- o moreno falou a voz foi ficando miúda na garganta, e precisou puxar o ar devagar pra não começar a chorar imediatamente, logo encarou as mãos machucadas, movendo os dedos de forma desengonçada: -- eu sei que seria bem pior se eu estivesse de fato só, mas ainda assim, ainda assim… doí tanto… que eu não sei por em palavras.

Renaud sentiu os olhos nublados, e a respiração ficar curta, o peito apertou e o coração doeu, não havia aquela vontade de sorrir pra esconder como estava se sentindo, tinha apenas aquele montante de recordações recentes, do cheiro, da voz, do gosto da comida, do toque, do colo de sua mãe e uma arrasadora saudade que lhe cortava por dentro:

-- logo quando a gente conseguiu conversar… logo quando a gente conseguiu se desculpar… -- a voz foi ficando entrecortada, porque as lágrimas rolaram pelo rosto e Renaud não estava fazendo nada para tentar esconder como estava se sentindo, estava apenas falando, quando falava, tomava mais ciência de que aquelas coisas tinham acontecido e de que não aconteceriam nunca mais: -- é como se ela soubesse que ia embora e tivesse só vindo se despedir…

Aleksei

Aleksei resolveu deixar a cadeira e se sentar na maca quando Renaud se encolheu mais na posição defensiva em que estava. Não havia nenhuma indicação de que ele se tornaria agressivo se não fosse provocado para aquilo. E mesmo que fosse provocado, ele estava num estado muito debilitado para fazer qualquer coisa. O psiquiatra achou por bem se aproximar, mostrar que podia estar também dentro do espaço pessoal dele e que era uma presença na qual ele podia se apoiar, mesmo que fosse apenas no âmbito profissional. Aliás, especialmente por ser no âmbito profissional, afinal, era a segurança que Renaud tinha de que independente do que acontecesse ou de como agisse, não seria abandonado.

- Você não precisa colocar em palavras, Renaud, algumas coisas não precisam ser ditas. - Aleksei se sentou no canto da maca, mas não chegou a encostar em Renaud, dando a ele a opção de buscar por suporte se precisasse, mas não invadiria mais do que aquele limite do espaço pessoal.

O comentário dele sobre ter conseguido conversar e se desculpar só lhe deu um panorama maior do motivo pelo qual a perda tinha sido ainda mais impactante. Aleksei já sabia que havia uma série de problemas não resolvidos naquele relacionamento mãe e filho, e questões que pretendia trabalhar pouco a pouco com Renaud. Na verdade, naquela manhã quando ele tinha passado em seu consultório pedindo por um tempo para conversarem fora dos horários convencionais, já tinha notado que algo de bom tinha acontecido. Mas a coisa boa tinha obviamente durado muito pouco. O psiquiatra ainda pensou num modo de questioná-lo se ele preferiria não ter tido uma conversa ou um momento de conexão, mas sabia que seria só uma carga mais pesada no estado abatido de Renaud, então guardou o pensamento para si que poderia apontar num outro momento em que ele estivesse mais recuperado.

- Ninguém tem como saber esse tipo de coisa, infelizmente. - respondeu Aleksei. - Você gostaria de ver alguém agora, Renaud?

Aleksei sabia que havia amigos que queriam saber do estado do rapaz, mas acima de tudo, sendo de uma família tão importante quanto os Blanco, algum representante da família certamente viria para falar com ele e talvez levá-lo de St. Clavier.

Renaud

O jovem Blanco tinha diversas qualidades e defeitos, e certamente podia ser visto como uma pessoa forte, tinha todo um histórico de brigas que o faziam ser praticamente uma lenda urbana, mas agora, era apenas uma caricatura de um Renaud. Estava tão desgraçadamente abatido, que mesmo depois de dormir por algumas horas, seu corpo não lhe obedecia, e nem tinha energia pra absolutamente nada. Era injusto, muito injusto, e aquele pensamento se repetia em loop em sua cabeça.

A proximidade com o Dr. Vlahos de si ao invés de lhe causar ojeriza, como normalmente acontecia quando se sentia exposto perto de alguém que não era Didier ou Sasha. Apenas lhe despertou a necessidade de companhia, de contato, de apoio, sentia que um buraco iria se abrir no chão e seria engolido bem ali. Renaud se moveu na maca, encolhido no máximo que um rapaz forte de 1,75m podia ficar, e encostou a testa no médico, quase como se pedisse colo naquele momento de fragilidade extenuante.

O choro ainda persistiu em lágrimas graúdas, o corpo todo tremendo em pequenos espasmos, que não eram uma crise de ansiedade, era apenas a mais pura tristeza ali, transbordando do Blanco e jorrando sobre o outro, como uma fonte interminável de dor. Muita dor. E era como o próprio Dr. Vlahos tinha comentado em outra conversa, embora tenha se acostumado a estar sempre machucado, não gostava de estar ferido, não havia nada de bom em sofrer. estava farto de sofrer, mas aparentemente seu carma era grande demais e teria de pagar agora, não amanhã ou depois.

E embora tenha ouvido as palavras do médico sobre ver alguém, ainda levou alguns minutos para se recompor e cessar o choro. Respirou fundo, levando às costas das mãos enfaixadas ao rosto para enxugar o rastro molhado deixado pelas lágrimas:

- Didier… Sasha… Isaac… tod-....! - soluçou tal qual faria uma criança pequena depois de muito chorar: - devem estar muito… preocupados…!

Aleksei

A despeito de tudo que já tinha visto ao longo da evolução de Renaud durante o tratamento, no fim das contas, ele era apenas uma pessoa tentando lidar com os fortes sentimentos da perda de um ente querido. Entre as complicações do estado mental e do estado físico, ele só queria chorar até as lágrimas acabarem e o corpo se exaurir para tentar esquecer a tragédia que tinha lhe acometido. Claro que havia uma série de complicações a mais em como ele entenderia aqueles sentimentos e a perspectiva daquele alter-ego lidando com parte da consciência de Renaud era algo que deveria pesar com cuidado na continuidade do tratamento dele.

Por enquanto, a única coisa que Aleksei fez foi permitir a proximidade e a busca por apoio. Sabia muito bem que aquele tipo de proximidade não era o mais indicado numa relação de médico-paciente, mas permitiu que Renaud ficasse ao seu alcance e até levou uma mão ao topo da cabeça dele, esperando alguma resposta sobre alguém que ele quisesse ver. O ambiente parecia finalmente mais seguro, então, não haveria problemas nos amigos dele indo visitá-lo agora que o surto tinha passado e não era Duncan que tinha acordado. Só depois de alguns longos minutos foi que ele concordou em ver os amigos mais próximos, reconhecendo que deviam estar preocupados, o que era um tipo de admissão de sentimentos com a qual Renaud não estava acostumado.

- Eles se importam mesmo com você, Renaud, estavam esperando notícias suas até agora. - Aleksei respondeu, afastando-se, ficando de pé ao lado da maca só para se certificar que Renaud não se importaria com a saída dele. - Eu vou chamá-los para lhe fazer companhia, tudo bem? Pode contar com eles, e comigo, se precisar.

Esperou só uma confirmação do aluno para poder seguir até a porta. Sabia que Isaac tinha retornado a sala do Conselho no prédio principal, mas dado o estado de Didier e Sasha, estava certo de que eles estariam no máximo no fim do corredor da enfermaria esperando algum aval para voltar.

Renaud

Mesmo que o jovem Blanco fosse uma pessoa com amplo vocabulário, não acharia nenhuma descrição que se equivalesse ao que estava sentindo. Era a mais brutal das dores que já tivera que experienciar em sua vida, porque era irreparável, nenhum analgésico iria aliviar ou curar. Pensar sobre sua perda recente fazia sua cabeça latejar, mal conseguia conter o choro de voltar. Respirava com a boca aberta, seu palato estava amargo e o ar entrava quente em seus pulmões, sentia na pele a reação do oxigênio com o corpo em combustão. Queimava por dentro, pior do que sentira suas mãos dias atrás.

Seus pensamentos voltaram ao momento presente apenas quando sentiu o toque sobre o topo dos seus fios escuros. De todas as pessoas deste vasto mundo com quem já tinha tido algum nível de contato, não esperava que o gesto do médico lhe deixasse tão desnorteado. Não porque ele fosse ruim ou lhe quisesse algum mal, longe disso, Dr. Vlahos sempre esteve presente como profissional disposto a lhe ajudar, mesmo quando não queria. Sua tontura e surpresa se voltava para si mesmo, porque precisava ser amparado, e mesmo que fosse um afago simples, era exatamente o que precisava. E tomar ciência de seu nível de fragilidade e exposição era ao mesmo tempo constrangedor e assustador.

Mas Renaud estava exausto.

Não queria ter de pensar em deixar a guarda alta pra não se machucar, afinal estava dilacerado. Aceitaria aquele afago, mesmo que não fossem amigos, sabia que podia confiar no trabalho do Dr. Vlahos, e isso lhe servia de algum conforto. Tão desgraçado e esmigalhado quanto estivesse, ao menos seu médico não ia desistir de tentar por tudo no lugar, e como ia precisar dessa ajuda.

Renaud intencionou em responder, mas ao abrir a boca pra tentar falar nenhum som saiu, os olhos apenas se umedeceram novamente, soluçou engolindo a vontade iminente de voltar a chorar. Imaginava que o Dr. Vlahos sabia que estava grato pela ajuda, mas que simplesmente não conseguia conversar sem voltar a chorar. Então se contentou apenas com o silêncio daquele momento.

[thread encerrada]


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