09-12-2021, 10:14 PM
Wilbert
Pegou sua pasta de alça lateral e arrumou sobre a camisa azul marinho de algodão que usava fechada com o par de jeans ao sair de seu bistrô após fechar o expediente mais cedo naquela semana. O cenho mais franzido nos últimos dias após sua visita peculiar ao mercado de Cerise denunciava seu incômodo com a última discussão acalorada que tivera com uma certa professora. Frustava ao chef a ideia de que mais uma vez havia se excedido em seu comportamento e terminara por ser extremamente grosseiro com a mulher que, por um milagre do destino, havia lhe feito uma proposta até generosa.
Quando se deu conta já estava naquele mesmo distrito, naquele mesmo conjunto de apartamentos e diante do andar da sujeita. Estava com uma sacola em mãos com o que havia restado dos preparos do dia no bistrô. Tinha planos de levá-los para seu apartamento já quase totalmente vazio para ao menos conseguir jantar o que havia preparado.
Passou a mão livre pelos fios loiros agora que estava à frente da porta do apartamento da mulher, havia passado pela portaria com a desculpa que estava cozinhando para a mulher. E quem diria que sendo ele um chef, não seria estranho? Parou alguns instantes antes de bater a porta, coçando a nuca e revisando o que iria dizer ao encontrar a mulher novamente.
Dia
Apesar de ter ficado muito brava com Wilbert Funske da primeira e última vez que ele tinha ido ao seu apartamento, não era como se gastasse seu tempo pensando nele, por isso, manteve a raiva guardada mas seguiu com sua vida normal, ignorando o fato de que tinha tido mais uma discussão com o loiro. Seus vizinhos, que já não falavam muito consigo, tinham ficado ainda mais desconfiados depois das vozes exaltadas dos dois naquela discussão, mas isso tampouco lhe importava.
Seguia com sua vida normal, tão normal que depois do expediente do trabalho até conseguiu dar uma volta de moto como há muito não fazia. Estava relaxada, tranquila, em paz. Subiu para seu apartamento livre, largou os sapatos na entrada, tomou um banho longo e ligou para pedir comida de um bistrô próximo dali, tomada pela preguiça de cozinhar.
Já estava vestindo um shortinho e uma regatinha bem fim de dia em casa quando ouviu as batidas na porta, supondo que o entregador já havia chegado com sua comida, e que alguém tinha deixado ele subir até ali por coincidência. Levantou-se de seu estado de preguiça no sofá e abriu a porta, parando para observar Wilbert na mesma.
Dia não mudou de expressão, então piscando duas vezes antes de fechar a porta e voltar a deitar, com um suspiro longo.
Wilbert
Já estava prestes a verificar o horário em seu relógio de pulso quando se deu conta de que a porta do apartamento havia sido destrancada e estava lhe sendo aberta. Baixou o olhar para a figura feminina e por um instante não disse nada, observando a morena que apenas se encontrava de shorts e camiseta.
- Boa noit-- ! - abriu a boca para cumprimentar a mulher a princípio, mas tão pronto a voz escapou de sua garganta, assistiu a porta ser fechada em sua cara. Permaneceu com a boca aberta diante da cena, arregalando os olhos por um instante, surpreso com o desaforo da professora até acabar por franzir o cenho, sentindo o sangue lhe subir à cabeça. Por que diabos se dava ao trabalho de ir até ali quando ela sempre que lhe encontrava conseguia lhe atingir com aquele tipo de grosseria?
Levou a mão até o espaço entre as sobrancelhas e massageou a região, partindo em seguida para as têmporas antes de buscar fôlego para se acalmar. A mulher havia feito aquilo de propósito, só podia. Deu um passo para trás, realmente cogitando a ideia de voltar para o bistrô e talvez para seu velho apartamento, mas terminou por voltar a porta da mulher, frustrado com a ideia de inconstância sobre o desejo de ficar e ir embora dali.
- Blanco! Abra a porta! - chamou, o timbre de voz naturalmente autoritário e grosseiro dando a impressão que já estava discutindo com a mulher. Bateu na porta, certo de que ela podia continuar lhe ignorando se quisesse. - Blanco! Eu sei que está me ouvindo! - ergueu o timbre mais uma vez, nervoso com a ideia de que ela poderia permanecer com a porta fechada, ou pior, chamar aquela desgraça de policial que já havia lhe detido uma vez. Seu advogado certamente ficaria frustrado com todo aquele cenário e lhe deixaria na cadeia mais tempo do que gostaria novamente.
Dia
Dia tentou raciocinar porque diabos Wilbert estava ali considerando que tinham concluído seu último encontro se odiando mutuamente, como sempre. Tinha plena certeza que conseguiria se livrar ou evitá-lo por mais tempo do que aquilo, mas como se não bastasse aparecer antes do esperado, o loiro ainda tinha a ousadia de lhe aparecer na porta de seu apartamento em um fim de expediente cansativo? Ela deveria estar tendo um pesadelo, com certeza. Tentou se beliscar, mas ao invés de acordar, só ouviu Wilbert mais alto na porta.
Tentou tapar o ouvido com a almofada e se jogou de lado no sofá, mas estava muito difícil ignorar as batidas na porta. Do lado de fora, a porta da vizinha abriu e uma senhorinha enrugada colocou a cara para fora, olhando para o homem que chamava no corredor.
- Monsieur. Algum problema com a mademoiselle Blanco? – a mulher franziu a testa, claramente incomodada com o barulho que ele fazia.
Dia, ao ouvir a voz da vizinha no corredor, levantou num salto e andou apressada até a porta, ajeitando o cabelo como conseguia antes de abrir para Wilbert. Olhou para o homem sem disfarçar a irritação, mas logo em seguida abriu um sorriso simpático para a vizinha.
- Ah, desculpe a demora, madame Rubeaux, Funske. Estava tirando um cochilo, acabei de chegar do trabalho. Pode entrar, madame. É meu amigo, está tudo bem. Desculpe incomodar. – falou, tentando parecer calma e tranquila naquela situação, mas prontamente pegando o pulso de Wilbert e puxando-o para que entrasse. – Vem. – desejou um boa noite a senhorinha e trancou a porta atrás de si, com... infelizmente... Wilbert dentro também.
Dia suspirou longamente e revirou os olhos em desgosto com aquela situação toda. Só depois que decidiu virar para Wilbert, os braços cruzados.
- Olha, eu não sei que o que você veio fazer aqui, mas por favor, abaixe essa voz. Se essa velha espalhar mais rumores sobre mim nesse prédio vou mandar a conta dos danos morais para você, monsieur. A nossa última discussão me rendeu uma multa por barulho, e agora todo mundo no prédio acha que eu terminei com um namorado abusivo. – Dia resmungou, soltando um longo suspiro e tornando a sentar no sofá. Esfregou o rosto, e então, devagar, retomou a atenção para Wilbert – Então, monsieur Funske. A que devo a visita?
Wilbert
Ficou inquieto com a demora da mulher, mas não esperava que uma das vizinhas do mesmo andar dela fosse de fato aparecer para lhe perguntar sobre o “problema” ali. Voltou o semblante irritadiço para a mulher, mas não respondeu de imediato. Contudo, deixou de chamar pela morena, pronto para responder a senhorinha de maneira mais educada. Não tinha nada contra senhorinhas a princípio, principalmente por serem mulheres bem mais velhas que ele.
- Boa noite, madame, eu--
Já estava preparado para explicar a mulher que estava ali apenas para dar um recado a senhorita Blanco, quando se deu conta da morena que antes havia lhe batido a porta na cara, agora lhe segurando o pulso e lhe puxando para dentro do apartamento. Franziu o cenho com aquela desculpa esfarrapada sobre ela estar tirando um cochilo. A sujeita havia batido com a porta em sua cara momentos antes e agora lhe arrastava para dentro do apartamento? Ela estava ficando maluca, isso sim. Ou ao menos era o que pensava até ela explicar a situação desagradável com a senhorinha, vizinha dela.
Encarou os braços cruzados da morena acompanhados do pedido educado dela para que falasse baixo. Estranhou o fato de alguém achar que era algum tipo de namorado abusivo dela, mas dado seus últimos relacionamentos, não podia culpar ninguém por ter aquele tipo de concepção ao seu respeito. Aproximou-se de onde ela estava sentada, mas não se acomodou, deixando as sacolas que trazia do bistrô ao lado dela, no sofá.
- Eu vim aqui para me desculpar pelo meu comportamento da última vez que nos encontramos. - foi direto ao ponto. Havia pensado bastante sobre o ocorrido e refletido sobre o que havia dito ali e como seu comportamento, apesar da morena ter uma habilidade indiscutível em lhe irritar, não era nenhum pouco adequado, considerando que apesar das provocações, ela havia até lhe oferecido a oportunidade de viver ali, o que não era um lugar nem um pouco ruim considerando a proximidade que tinha de seu trabalho e do mercado popular. - Não deveria ter debochado da sua boa vontade, desculpe por isso.
Pediu, estranhando até a própria postura em se desculpar. Não se desculpava com muitas pessoas, e não se recordava quando fora a última vez no mês que havia dito aquelas palavras. Indicou as sacolas com o que havia preparado no dia para servir no seu bistrô, mas que normalmente levava para casa ao final do expediente para jantar também, isso quando não ficava no próprio bistrô pelo resto da noite.
- Não sei se já jantou. Trouxe alguns pratos do trabalho. Se quiser, pode ficar com eles. - ofereceu, logo em seguida voltando sua atenção para a morena em questão, dando uma olhada especialmente nas pernas dela, expostas por ela estar usando aquele shortinho. - Ah, e sobre a multa, pode me dizer quanto foi. Eu pago. - disse a mulher, o pedido saindo novamente em tom de ordem.
Dia
A primeira coisa que esperava de Wilbert era que ele começasse a gritar ainda mais alto do que estava gritando seu nome no corredor no momento em que pediu para ele fazer silêncio. Era assim que o chef funcionava afinal, reclamando de mil coisas por não saber qual o comportamento social adequado, como uma criança que não tinha modos. Porém ele fez silêncio, o que foi de certa forma um alívio para Dia. Quanto ao assunto que ele tinha para tratar ali, viu as quentinhas que ele tinha na mão e arqueou a sobrancelha, se perguntando se ele tinha saído com pressa do trabalho com o jantar na mão e tinha aproveitado para lhe atormentar antes de ir para o próprio lar. Porém, pelo contrário, ele veio se desculpar.
Até ergueu as sobrancelhas, e depois franziu, desconfiada. Tinha ouvido certo mesmo? Ele foi se desculpar pela discussão da última vez, em que tinha agido que nem um louco desnecessariamente, e, lembrou de suas sugestões um tanto bêbada de cerveja como se fossem coisas bem reais. Mas não o corrigiu. Se ele tinha ido ali lhe pedir desculpas, então aceitaria as desculpas e não abriria a boca pra dizer que só podia estar muito alta para falar que conseguiria morar com o loiro.
- Ahh... então... foi isso. Desculpas aceitas. – respondeu, sem saber exatamente o que dizer naquela situação já que tinha apenas que concordar e não rebater Wilbert. Respirou fundo, se perguntando se depois do pedido de desculpas ele iria embora, mas ao invés disso, o loiro lhe ofereceu as quentinhas, que tinha feito no bistrô. Admitia que tinha muita preguiça de cozinhar, por isso elas foram bem vindas. Mas será que agora ele iria embora finalmente? – Hm. Não jantei ainda. Obrigada, monsieur. – respondeu, mas não se moveu do lugar, ainda pensando que seria muito bom se ele apenas decidisse ir embora. Porém Wilbert permanecia na sua sala. Sorriu numa tentativa de ser simpática, e ergueu a palma da mão. – Não se incomode com a multa. Eu também fiz muito barulho naquele dia.
Então, ainda segurando o sorriso no rosto e tentando segurar sua boa educação de ser bem educada, disse, entre dentes:
- Por que não fica pra jantar, monsieur Funske? – falou como se aquilo fosse um parto, mas considerando sua boa educação, deveria passar despercebido. Pra tentar aliviar apontou para ele com os dois dedos,e ergueu a mão para apontar para os próprios olhos. – Olhos aqui.
Wilbert
Ficou quieto enquanto ela aceitava suas desculpas e ainda agradecia pela refeição que havia trazido. Ela, para sua surpresa, ainda recusou que pagasse a multa. Se não sentia necessidade de ser ressarcida, por que ela ainda foi reclamar sobre ele fazer muito barulho e acabar lhe gerando uma multa? Relaxou os ombros, segurando a alça da própria bolsa lateral para pensar em ir embora quando a morena ainda lhe convidou para jantar. Franziu o cenho quando ela chamou sua atenção para que parasse de observar as pernas dela, indicando ainda onde estavam seus olhos. Desviou o olhar, não olhando diretamente para a morena ao voltar a franzir o cenho, incomodado por ela ter notado que havia prestado mais atenção nas pernas descobertas dela.
- Hm. - ponderou por um instante. Ela já havia lhe oferecido para morar ali e agora lhe convidava para jantar. Não conseguia evitar sentir-se desconfiado em meio aquele cenário da Blanco sendo tão convidativa a sua presença. Todavia, escolheu não dizer nada a priori. Todas as vezes que pensava em algo para responder, acabava soando rude até mesmo na própria cabeça. Por isso, resolveu apenas escolher um lugar para se sentar na sala, deixando as sacolas em que havia trazido as quentinhas entre sua figura e a da morena.
Puxou a própria bolsa sobre o colo e buscou o celular, verificando o horário do dia. Talvez fosse uma boa ideia jantar por ali mesmo, pois para conseguir voltar para seu apartamento naquele horário do dia seria conturbado, principalmente por estar sem a carteira de motorista e sem seu veículo. Guardou o aparelho na bolsa antes de encarar a morena de lado, recordando que ela havia explicado que tinha acabado de chegar do trabalho.
- Esqueci que chegou do trabalho. - admitiu como uma declaração do óbvio, sequer adicionando uma explicação em sua sentença antes de se levantar, deixando a bolsa de lado no sofá para pegar as sacolas com as quentinhas e seguir para a já conhecida cozinha. - Licença. - pediu pela cozinha não ser sua.
Lavou as mãos antes de retirar as quentinhas das sacolas para poder abri-las também, procurando o armário de louças que havia visitado da última vez que estivera ali. A cozinha da mulher era bem agradável em comparação a dona da mesma. Começou a arrumar a refeição que não dava muito trabalho em servir. Havia preparado um risoto com alguns legumes e um filé de carne ao molho escuro. Havia adicionado uma terceira quentinha de isopor com uma torta de limão para sobremesa, mas nada tão pomposo como costumava apresentar em seus grandes restaurantes.
Dia
Ahh, por que Wilbert não simplesmente respondia “não” e ia embora? Suspirou discretamente enquanto notava ele ir até a mesa da sala de jantar olhar as marmitas que ainda estavam quentes. Torceu de leve os lábios e não se incomodou que ele fosse até a cozinha buscar pratos e talheres. Já deveria conhecer onde estavam as coisas, se tivesse boa memória. Mas organizava tudo de modo bem convencional. Desde que ele abrisse as gavetas e os armários, encontraria tudo o que precisava. Aproveitou parar tirar o enfeite de mesa do caminho e forrar um pano para cada um comer, ao invés de forrar a mesa inteira.
Era bom ouvir o som do silêncio de Wilbert, que parecia não estar falando justamente para não falar bobagens quando estava sendo convidado para jantar. Se perguntava quanto tempo conseguiria fazer aquela paz durar com o loiro, mas certamente não seria muito. Quando os pratos chegaram, fez questão de dividir a comida de modo apropriado para os dois, colocando apenas um pouco mais da porção para o loiro por ele parecer ser um sujeito maior e portanto com um apetite maior.
- Bom, vamos com- - ia sentar para comer quando ouviu o interfone chamando. Andou até o telefone e atendeu, ouvindo ser o entregador do seu jantar anterior. – Pode ir comendo, vou atender alguém. – Abriu a porta para o homem e esperou ele chegar em seu andar, recebendo calmamente dele a sua marmita anterior, e pagando o valor da entrega e levando a não mais tão quentinha direto para a geladeira. – O almoço de amanhã. Não vamos desperdiçar. – comentou, então sentando á mesa e beliscando um pouco a carne ao molho.
Wilbert
Não esperava que ela fosse lhe auxiliar com a colocação da mesa, afinal ela parecia cansada. Contudo, não disse nada a respeito dela ali arrumando a tal mesa, afinal de contas o apartamento era dela. Lavou as mãos antes de se colocar à mesa, pronto para pegar os talheres e se servir quando a morena foi chamada pelo interfone. Ergueu o olhar e encarou a morena, sério quando ela disse que poderia ir comendo. Apesar da permissão dela, não o fez, justamente por preferir fazer suas refeições acompanhado que sozinho, mesmo que conseguir aquilo não fosse algo comum para ele.
Arqueou uma sobrancelha, todavia, diante da cena que assistia da mulher voltando com uma quentinha extra para colocá-la na geladeira, destacando ainda por cima que não iriam desperdiçar, como se ele fosse comer daquela comida também. Franziu o cenho, encarando a figura feminina. Ela bem sabia que tinha um bistrô, mas ainda assim nunca havia lhe feito nenhum pedido de refeição. Saber que ela tinha preferência por outros lugares de fato lhe deixava… irritado?
- Se a comida chegou quente e não fria, deveria deixá-la esfriar do lado de fora antes de guardar na geladeira. O choque térmico vai estragar seu eletrodoméstico e ainda tirar parte do gosto da comida. - comentou, devolvendo sua atenção para o próprio prato, o tom de voz saindo mais irritadiço que de costume. Porém, não havia o que discutir ali, ela tinha todo o direito de não gostar de sua comida.
Começou a degustar da própria refeição devagar como de costume, dando atenção aos detalhes dos sabores que sempre se preocupava em adicionar aos pratos. Se morasse mais perto do centro e do mercado popular, poderia testar mais receitas e quem sabe descobrir como reproduzir a culinária local enquanto ainda estava na cidade. De acordo com seu advogado, não conseguiria sair dali tão cedo de qualquer forma, devido aos próprios problemas comportamentais e os escândalos nos quais havia se envolvido.
- Sobre a sua oferta da última vez… - começou a falar, pausando o garfo e a faca lado a lado com o próprio prato. - Ela ainda está de pé? - questionou, esperando que ela ainda se recordasse da oferta de que falava. Lembrava que a mulher havia bebido, mas não imaginava que ela estivesse bêbada o bastante para lhe fazer uma oferta que não se lembraria depois.
Dia
Arqueou a sobrancelha para Wilbert com toda aquela irritação. Estava bravo por seu modo de armazenamento? Ou estava apenas retomando seu jeito usual. Tentou ignorar, então pegando uma garfada da comida que ele tinha trazido.
- Eu sei, monsieur Funske. Sou professora de economia doméstica. E essas quentinhas nunca chegam quentes aqui. O restaurante é distante. – justificou calmamente, apenas querendo se concentrar em comer e tendo esperança que ele também fosse fazer o mesmo e depois ir embora e ser uma pessoa bem feliz longe de sua vida por aquele dia.
A comida até estava gostosa. Talvez sem a pressão de ter Renaud e ela enchendo a paciência dele no restaurante, o chef conseguisse mostrar o melhor de sua culinária. Comeu em silêncio, com calma, mas não com tanta calma quanto Wilbert, que parecia tomar seu tempo mastigando. Até estava em uma atmosfera pacífica, e quando ele abaixou os garfos, esperava que ele fosse calmamente encerrar o jantar e se retirar, mas ao invés disso, falou “daquela oferta”.
Dia tossiu, mas não a ponto de engasgar. Era uma péssima pessoa com cerveja, mas não esquecia de absolutamente nada que dizia. Aliás, como esquecer quando a briga toda dos dois começou por aquilo. Apertou os lábios e deixou garfo e faca como mandava a etiqueta. Não queria começar outra discussão naquele momento ou perderia o apetite.
- Monsieur. Tem certeza que quer discutir aquela oferta considerando nossa briga anterior? – pior que depois de tudo que tinha dito, não dava para simplesmente admitir que tinha sido uma brincadeira. Metade de seus argumentos tinha sido embasado em uma mentira safada de que aceitaria ele ali, e que a oferta tinha sido verdadeira. Por que tinha a boca tão grande? – Não parecia lhe apetecer muito a ideia. O que mudou de lá para cá?
Wilbert
Não entendia como um lugar que se dispunha a entregar quentinhas, teoricamente para o jantar da mulher, entregava as mesmas frias. Moveu a cabeça para o lado por um instante, arqueando a sobrancelha em discordância com a posição da mulher em colocar o conteúdo diretamente na geladeira, mas quem teria uma dor de barriga depois seria era ela mesma e não ele no caso da comida ficar ruim. Não tocou mais no assunto da quentinha, escolhendo deixar de lado para dar mais atenção a morena que começava a fingir demência sobre o assunto que trazia a tona. Além daquele modo de tratamento, chamando-o por “monsier”. A vontade de revirar os olhos toda vez que ela usava aquela palavra se fazia cada vez mais presente e quase incontrolável.
Moveu o copo com água que acompanhava o prato para perto da morena após a tosse, estranhando a reação da mesma após seu breve comentário. Franziu o cenho de novo quando ela mencionou que iriam “discutir” sobre a oferta, respirando fundo antes de cruzar os braços.
- Não podemos só conversar? Estou cansado de discussões. E eu não trouxe esse assunto para a mesa com esse objetivo, só estou apontando os fatos. Você. me. fez. uma. oferta. - repetiu devagar para verificar que ela de fato entenderia o que estava dizendo. Baixou o olhar por um instante quando ela questionou sobre o que havia mudado.
Não que tivesse deixado de desgostar da figura feminina a sua frente, mas também, após voltar para seu então apartamento e esfriar a cabeça, refletiu melhor sobre as variáveis daquela oferta e da situação de modo geral. Não era um mau negócio, no final das contas.
- Eu percebi que me excedi no nosso último encontro, por isso vim aqui para… me desculpar. - adicionou, como se fosse algo de fato estranho e desconfortável para se falar ou se fazer. - E a sua oferta não foi ruim. O apartamento em que eu vivo no momento é grande demais para uma pessoa só e eu passo mais tempo no trabalho que lá. A localização desse lugar também é boa, considerando que não posso mais dirigir. E como eu disse, eu passo mais tempo no trabalho que na minha residência. Encontrar voc- - fez uma breve pausa, voltando a encarar a mulher a sua frente, desgostoso ainda com aquele tipo de tratamento desnecessário. - … encontrar a mademoiselle seria tão esporádico quanto ambos gostaríamos.
Terminou, descruzando os braços para poder organizar sua própria louça, levantando ao pedir “licença”, mas ainda se manteve na cozinha, seguindo para lavar a louça que havia sujado na pia.
- Mas eu não acredito que vá ganhar alguma coisa com isso, por isso estranhei a oferta no começo e achei que estivesse zombando da minha cara. Se foi só isso mesmo, ignore o que eu disse. - avisou, de costas para a mulher enquanto cuidava de manter a organização daquele balcão, esperando que a mulher também terminasse a própria refeição para acabar o serviço.
Dia
Até queria, de fato, permanecer fingindo demência, mas pela revirada de olhos do chef e do modo bem pontuado como ele lembrou da oferta, imaginou que se continuasse tateando o terreno, ele teria outra crise e não estava com vontade de pagar mais uma multa por excesso de barulho. Já tinha fugido dos Blanco para não ser alvo de rumores pelas costas, não queria mais ter que enfrentar isso no prédio em que morava.
Encostou o cotovelo na mesa e o rosto na mão, observando toda a dificuldade daquele homem de meia idade de dois metros de altura em simplesmente dizer que tinha ido ali pedir desculpas. E desculpas merecidas, diga-se de passagem. Era impressionante como ele não parecia o tipo pronto para admitir os próprios erros. Mesmo assim tinha parado para refletir sobre sua oferta. Por que tinha sido idiota o suficiente de falar aquilo para começar? Queria dar um tapa em seu eu do passado.
Atentou para as condições de Wilbert, pensando que embora seu apartamento não fosse exatamente grande, poderia se dar muito bem dividindo o aluguel com alguém, e as despesas principalmente. Poderia usar esse dinheiro para poupar um tempo e comprar uma moto nova ou outras coisas que precisava. E o melhor, talvez não precisasse tanto ver Wilbert. Estreitou os olhos, pensativa sobre sua própria proposta, mas ainda descrente que aquilo daria certo.
Esperou que ele se retirasse da mesa para finalmente fazer uma expressão mais clara de quem estava pensando. Não podia deixar ele perceber que estava claramente mentindo aquela hora, mas ao mesmo tempo, sua mentira parecia ter lhe dado uma perspectiva interessante para os próximos meses.
Levantou subitamente da mesa e levou o prato até a cozinha.
- Olha. Meu apartamento não tem muito espaço, e eu gosto de certas coisas exatamente do jeito em que estão. – pontuou com cuidado, então cruzando os braços. – Mas eu tenho um quarto vago. Ele é espaçoso, e tem mobília. Você só precisaria trazer suas roupas e algumas outras coisas para cá. – franziu a testa, começando a ficar descrente nas próprias palavras. – Precisamos combinar um valor e você precisa assinar o contrato de aluguel. E ter uma cópia da chave. – cada vez que continuava, se arrependia cada vez mais do que estava dizendo. – E é bom dizer logo que o fato de ser meu inquilino não significa que pode ter liberdade nenhuma comigo, monsieur. – respirou fundo, a expressão já não muito disfarçada de quem ainda estava pensando sobre isso, enquanto voltava os olhos escuros para Wilbert. – Antes que você se confunda, eu já estava pensando em colocar o quarto para alugar. Para sua sorte, você foi o primeiro que poderia estar interessado. Tem certeza que quer pegar essa oferta? – Dia estava perguntando aquilo mais para ela mesma que para Wilbert em si.
Wilbert
Teve vontade de revirar os olhos de novo quando ela avisou que o apartamento não era muito grande. Certamente que não era. Comparado aos apartamentos em que havia vividos nos últimos anos, aquele apartamento inteiro caberia em uma sala e varanda de um dos imóveis em que já havia vivido. Sobre ela gostar de cada coisa em seu devido lugar como havia deixado, tudo bem. Naquilo eram parecidos. Odiava ter de ficar procurando horas por objetos que deveriam estar nos lugares designados para eles. Terminou de cuidar da louça lavada para secar as mãos em um dos panos de prato da cozinha alheia, voltando-se para encarar a morena quando ela deixou bem claro que não teria nenhuma liberdade com ela.
“Claro. Só se eu quiser ter meu pau amputado por uma braguilha OU ir para a cadeia de novo.” - respondeu em pensamento, arqueando uma sobrancelha apenas na frente da morena enquanto as palavras passavam em sua mente.
- Eu iria me mudar de qualquer forma. E se eu fosse dividir aluguel com qualquer outra pessoa, terminaria na delegacia de novo ou dormindo no bistrô ao ser expulso. - admitiu, ciente de que era uma pessoa de difícil convívio. - De você eu tenho uma ideia do que esperar, pelo menos.
Afastou-se para poder pegar suas coisas na sala, esperando que a mulher lhe acompanhasse.
- Faça o negócio do contrato. Eu cubro o valor. E o bistrô não fica tão longe daqui, posso assinar quando me avisar. - buscou pelo próprio celular para poder repassar o número para a morena na situação dela terminar o documento para lhe avisar sobre a assinatura e os valores.
Guardou o aparelho após deixar seu número, observando melhor o apartamento pela sala, considerando que ainda sequer havia visto os quartos. Mas não julgava aquilo de grande importância. A cozinha dela era organizada, então os quartos não deveriam ser um pesadelo, ou ao menos era o que supunha.
- Só mais uma coisa. - avisou antes de esperar o novo convite para se retirar dali. - Dá pra parar com o negócio de monsieur e mademoiselle? Funske estava ótimo, Blanco. A não ser que odeie seu sobrenome tanto assim. - se aquilo era para ser um pedido, com seu timbre natural de voz, saiu mais como uma ordem seguida de provocação. De fato, ser chamado de monsieur o tempo todo lhe chateava, principalmente por lembrar de todos os clientes que atendia durante o trabalho nos restaurantes e da época em que ainda estava começando a estudar gastronomia.
Dia
Dia ergueu as sobrancelhas quando Wilbert colocou, com todas as palavras, não que era uma pessoa de difícil convivência, mas que era um completo maluco, se já previa que iria parar na delegacia de novo.
- Monsieur, não está ajudando muito seu caso, admitindo que pretende causar mais confusão em seu novo apartamento. – comentou, esfregando as têmporas, já se arrependendo daquela situação em que tinha se metido antes mesmo de começar. – Eu espero que eu saiba onde estou me metendo.
Acompanhou-o até finalmente ele pegar a maleta para ir embora. Já ía em bom tempo. E para retornar em pouco, o que já não lhe deixava tão animada. Até poderia ser que conviveriam pouco por conta do bistrô, mas teria que ver a cara de Wilbert todos os dias. Quando parava para pensar nisso, até tinha dor de cabeça de prévia. E se ele fosse mais mal humorado pelas manhãs? Eventualmente iriam mesmo parar na delegacia.
Arqueou a sobrancelha quando ele apontou mais um adendo. Seu modo de adereçá-lo.
- Eu não me importo de ser chamada de Blanco. – Dia respondeu, encarando o loiro seriamente. – E não me importaria de chamá-lo de Funske, se tivesse pedido por favor. Então espere nosso próximo encontro, monsieur. Quando vier assinar o contrato. Só depois não vai valer ficar com a formalidade só pela pirraça. – então sorriu, abrindo a porta para ele.
E depois disso, tinha certeza absoluta que seria uma convivência complicada.
[Thread encerrada]

