09-22-2021, 03:11 PM
Angus
Aquele dia em St. Clavier tinha sido estranho, mas interessante para Angus. Supostamente, tinha um colega de quarto, do qual não se lembrava por conta de todos os seus problemas de consciência matinal. Ele tinha tentado jogar basquete, o que só lhe trazia péssimas lembranças do time meia-boca na Irlanda e da sua necessidade de ir para uma academia especializada em esportes. Mas também tinha conhecido o tal do Konrad, que era bom em lhe apontar alguns jeitos de melhorar os passes e técnicas de jogo e pelo visto ele tinha muito mais a lhe dizer, e tinha convidado o tal Giles também. Giles Berlioz, para ser exato.
Ele terminou a sequência de lances livres que anunciou a Konrad e quando notou que o horário já ia avançado, foi até o vestiário, vazio naquele início de ano letivo, para tomar um banho rápido e trocar de roupa e voltar ao dormitório. Ainda tinha que ir até a cidade e continuar procurando um emprego de meio período também que lhe ajudasse a se sustentar, mas que não tirasse muito do seu tempo de prática em St. Clavier. E antes de tudo, tinha que falar com o tal colega de quarto para convidá-lo a conversarem com o aluno novo também.
Quando chegou ao quarto nos dormitórios, a primeira coisa que fez ao abrir a porta foi olhar ao redor para confirmar que o seu colega de quarto estava lá. E só então notou as malas e coisas que ele tinha trazido para o quarto.
- Ei. Giles Berlioz, não é? - chamou a atenção do outro.
Giles
O primeiro dia em St. Clavier foi cheio, como seu tio tinha lhe avisado. Tinha conhecido e não conhecido seu companheiro de quarto ao mesmo tempo, jogado basquete, olhado a grade de aulas, resolvido questões de cantina e dormitório, e embora parecesse muito, para alguém que estava acostumado a se desdobrar trabalhando três horários, o primeiro dia tinha sido um passeio. Isto é, exceto pela irritação matinal causada pelo seu colega de quarto, ainda que ele fosse um cara muito bonito; e também lembrava do Konrad, que certamente teria dificuldade de comunicação nas aulas.
Quando finalmente tudo terminou, se jogou na cama porque não lhe restava o que fazer. Ainda tinha um dos empregos, em um mercadinho perto da casa do seu tio, mas não era o dia de sua escala, e ainda nem tinha perguntado se bolsistas de St. Clavier poderiam ter empregos de meio período. Certamente gostaria de ter mantido o trabalho no posto de gasolina só para saber se seu colega de quarto lembraria sempre que chegasse com cheiro de gasolina e graxa.
Enquanto estava deitado na cama, finalmente o tal Angus voltou para o quarto e seu único impulso foi se erguer da cama com os braços, encarando o ruivo com uma expressão séria.
- Ora, ora, olha quem lembrou do meu nome dessa vez. – falou, ainda um pouco amargo. – Espero que tenha tido um treino proveitoso, Angus O’Neil. Está suado, Angus O’Neil? Já tomei um banho, então fique a vontade, Angus O’Neil.
Angus
Angus contorceu a expressão quando o seu colega de quarto lhe cumprimentou com aquele desdém notável. Certo que tinha errado em algum ponto, mas já tinha explicado sua péssima condição matinal e ele não parecia disposto a acreditar. Fechou a porta ao passar e quase rodou os olhos com o jeito que ele repetia o seu nome pela terceira vez.
- Eu sei qual é o meu nome, não precisa ficar repetindo. E já tomei banho no vestiário antes de voltar. - ele deixou a bolsa pendurada num dos ganchos ao lado da entrada na porta e andou até a própria cama para sentar, precisando ficar curvado para que não batesse contra a cama de cima. - E eu já disse que eu não funciono de manhã, como é que eu ia saber que você estava aqui?
Ele tirou o terno do uniforme para deixar de lado, para começar a tirar os sapatos que eram bem incômodos comparados com os seus tênis de basquete.
- E o Konrad disse que podia me ajudar com os lances de basquete, pediu pra te chamar também, ele até disse que você tem futuro. - ele adicionou, indo até o seu lado do armário para pegar outras roupas já que ainda tinha que sair naquela noite para procurar trabalho.
Giles
Se Angus fosse um cara muito irritadiço, certamente seria fácil para Giles se entreter com ele. Tanto que quase arqueou uma sobrancelha quando ouviu ele responder frustrado, porque foi muito fácil. Mas manteve a expressão séria.
- Só tive medo de esquecer seu nome também. – respondeu simplesmente, ouvindo mais uma vez a ladainha sobre ele não conseguir lembrar as coisas que ouviu de manhã, como se estivesse funcionando em outra zona. – Geralmente as pessoas tem sono, mas simplesmente serem sonâmbulas de manhã... é um pouco mais difícil de acreditar.
Viu que o rapaz parecia bem adaptável, já mantendo sua rotina usual mesmo com um estranho no quarto. Logo se acostumaria a rotina dele também, provavelmente. E bem verdade era que não podia fazer o inferno na vida dele o resto do ano, porque esse negócio de dormir com o inimigo não era muito do seu feitio.
- Que bom que ele lhe deixou uma boa impressão inicial. – cutucou, embora imaginasse que isso não afetava a vida do outro. Mas tinha de colocar para fora. – E certamente vou lá treinar com ele. Já expressei meu desejo de treinar basquete, vocês me aguentem. Vocês poderiam ser o Lebron James e o Carmelo Anthony, eu não deixaria ninguém me subestimar. – ergueu uma sobrancelha finalmente, mudando um pouco de expressão. – Você é bolsista de esporte aqui, não é? E o Konrad, também? Já que vocês conversaram mais você deve saber.
Angus
Angus resolveu nem voltar a tocar no assunto da sua manhã impossível de assimilar as coisas ao redor. Ele continuou tirando o uniforme para deixar tudo dentro da sua parte do armário e pegou as outras roupas, vestindo primeiro a calça e voltando para sentar na sua cama, de novo se curvando para não bater a cabeça na cama de cima, para calçar tênis e vestir a camisa básica também. Sabia que o comentário do outro era para lhe irritar de propósito, mas só soltou um "humf" enquanto terminava de se arrumar, ouvindo toda a determinação alheia sobre continuar treinando basquete e não ser subestimado.
- Sou bolsista de basquete sim, não sei do Konrad, não conversei muito com ele. - Angus respondeu, terminando de amarrar os cadarços do tênis. - Olha aqui, claro que ele me deixou uma boa impressão. Eu vim pra St. Clavier depois de muito esforço pra ter um time de basquete decente, ele chegou no meio do jogo e já sabia me dizer alguma coisa pra melhorar nas minhas cestas, é disso que eu preciso. Já perdi tempo demais com a falta de interesse dos jogadores na Irlanda, e se eu continuar perdendo tempo com quem não quer jogar sério, não vou sair de onde eu tô nunca. - ele bufou, irritado, levantando-se e ainda batendo a nuca na cama de cima, soltando um "ou" rápido e passando a mão na nuca, agora que estava trocado de roupa. - Se você quiser treinar sério, ótimo, se quiser só se divertir, nem gaste o meu tempo.
Angus andou na direção da porta, pegando a mochila que tinha deixado pendurada lá na entrada.
- Eu vou pra cidade, tenho que arrumar um emprego de meio período. Se fizerem chamada, o presidente do dormitório já sabe que vou sair pra trabalhar. - ele avisou ao colega de quarto, afinal, era bom que pelo menos eles soubessem onde cada um estava.
Giles
Bom, o ruivo gigante era muito bom no basquete mesmo. Não podia criticar como ele tinha conseguido uma bolsa para St. Clavier, que era tão conhecida por investir em esportes. Ouviu com atenção o que ele falou sobre estar frustrado por não ter times bons, e então virou na cama, deitando de lado com o cotovelo apoiado no colchão e o rosto na mão, assistindo ele trocar de roupa.
- Você tem certeza que é um adolescente? Fala como um atleta frustrado de 30 anos que nunca foi contratado por um time decente. Você sabe que times de colégio tem atletas e não-atletas por igual, não é? Não aqui, eu acho. Mas você é um sujeito exigente demais para quem nem fez 20 anos. – falou com muita seriedade, até desfazer a cara em uma expressão muito engraçada de riso vendo ele lutar contra a altura do beliche. – Pfff!!
Estendeu a mão para sentar na cama com mais cuidado do que Angus fez, colocando as pernas para fora e sentando, seguindo ele com o olhar enquanto ele saía.
- Olha, a gente começou com o pé esquerdo, então... deixa eu dizer que eu conheço um cara que conhece um cara, que conhece outro cara, e esse cara conhece outro cara que conhece a si mesmo... e esse si mesmo teve que desistir de dois empregos de meio período para ficar em St. Clavier... então se não der certo pra você, posso tentar lhe indicar uns lugares. Ficar sem dinheiro é uma merda. – Giles falou, também sério. E dessa vez era sério de verdade. Sabia bem como era não pagar todas as contas. Ainda bem que tanto ele quanto o tio estavam estáveis agora. – E, Angus O’Neil... eu posso não ser nenhum gênio do basquete ainda, mas se eu digo que quero jogar, eu dou meu melhor.
Angus
Angus ainda olhou feio para o colega de quarto que riu do seu desastre em bater a nuca na cama de cima, e fez uma expressão ainda mais indignada com o pouco caso dele para as sua as exigências com time de basquete colegial, o que até lhe fez dar meia volta antes de sair do quarto.
-- Olha aqui, eu posso não ter trinta anos de basquete sem ter treinado num time decente, mas eu cansei de jogar com um monte de preguiçoso meia boca e que não me ajuda nem a chegar nas finais de um campeonato decente pra pelo menos ter olheiros num jogo. Eu demorei até pra conseguir uma bolsa em St. Clavier porque nem parece que eu sei jogar bem do lado de um monte de palhaço que só me dá trabalho e não faz um passe decente. Claro que eu vim pra St. Clavier porque espero ter um time decente e ganhar um torneio uma vez na vida. Entrar num time grande é consequência. - ele reclamou tudo quase num só fôlego.
Só então foi que ele pegou a sua chave do quarto para sair ou realmente demoraria demais para voltar antes do toque de recolher.
-- E se eu não conseguir achar um emprego, aceito a oferta.
Giles
A reclamação longa dele só lhe dava a entender que ele queria mesmo seguir carreira no esporte. Não o culpava se os olheiros não o tinham achado antes no meio de muitos jogadores ruins, mas ele também deveria ter a paciência pois nem todo grupo de jogadores de basquete do ensino fundamental ou médio tinha tanta vontade de ser atleta quanto ele. Ele com certeza pensava como um velho com 30 anos de carreira em um time medíocre.
- Bom, devo admitir que não ter a sensação de vitória deve ser muito ruim. – Giles arqueou a sobrancelha, então relaxando mais na cama enquanto Angus saía. – Mas lhe desejo boa sorte. Pro emprego e pro time de St. Clavier.
Ficou ainda de bobeira no quarto por longas horas, demorando a pegar no sono pois estava acostumado a rotina de trabalhar até mais tarde e de buscar seu tio no bar. Até ligou para ele para saber como estava, e só depois ficou tranquilo os suficiente para dormir antes mesmo que Angus voltasse e tivesse mais uma crise nervosa de veterano do basquete.
Foi só de manhã quando acordou, até relativamente cedo, depois de colocar o despertador para ter tempo de tomar um banho antes do colega de quarto ou depois dele, desde que não se atrasasse para as aulas. Até olhou para a cama próxima, buscando o ruivo para saber o que ia fazer naquela manhã, e por onde ia começar.
Angus
Angus seguiu até Cerise e rodou em alguns lugares para falar com os donos e gerentes e tentar algum emprego de meio período. Para quem estava estudando em St. Clavier, era preciso algum trabalho no período noturno, já que as aulas ocupavam o dia em período integral se contasse com o horário de treino e funcionamento dos clubes. Ele passou em cafés, bares e restaurantes, que eram os estabelecimentos que certamente funcionavam naquele horário, mas ainda deixou uma série de locais para visitar outro dia, já que não podia ficar tanto tempo fora da academia. Quando voltou para St. Clavier, o horário já passava um pouco do toque de recolher, mas não foi um atraso não justificável.
Ele voltou para o quarto para perceber que Giles já estava dormindo na cama ao lado e teve que arrumar as suas coisas sob uma pouca iluminação. Só trocou de roupa para uma camisa regata e uma bermuda para dormir, e deixou separado dobrado ao lado da cama uma camisa de moletom e uma outra bermuda, além de um par de meias e os tênis de corrida no chão ao lado da cama. Conferiu o alarme no celular e deixou-o ao lado das roupas bem dobradas também, para poder acordar na manhã seguinte na hora e só fazer tudo que estava acostumado a fazer no ritmo de sempre.
E foi exatamente o que aconteceu. Às 7h em ponto, o alarme no celular tocou e o gesto de Angus foi quase automático para desligá-lo e se sentar na cama. Ele mal abriu os olhos, piscando tão demoradamente que nem parecia estar consciente do que fazia, bocejando a cada meio minuto e tirando as roupas sem nem se importar - ou lembrar - que tinha um colega de quarto. Vestiu as roupas que estavam do lado da cama, a camisa de moletom ficando ao contrário. Colocou as meias, uma do lado contrário e outra certa, para calçar os tênis e sem precisar amarrar os cadarços curtos. Ele ainda bateu a nuca na cama de cima pelo menos três vezes em meio aos movimentos automáticos para se vestir e quando se levantou, bateu o ombro também. No caminho para fora do quarto, o pé bateu contra a quina da parede e ele saiu do quarto até sair dos dormitórios para um caminho com o qual ainda estava muito desacostumado.
Se já tinha esbarrado completamente distraído em todos aqueles locais dentro do quarto em que estava morando há uma semana, o trajeto ao redor dos terrenos de St. Clavier foi ainda mais cheio de surpresas. Era sempre um tropeção novo, uma esbarrada nova, um buraco novo. Quando retornou ao quarto depois de sua caminhada de quase quarenta minutos, estava com a roupa suja de terra e alguns restos de folha e gravetos na roupa e no cabelo bagunçado. E o condicionamento natural fez exatamente a mesma coisa do dia anterior, só seguiu até o banheiro e tirou as roupas para entrar no chuveiro e com sorte, estar uns centavos mais acordados para o café da manhã.
Giles
O apito do alarme da manhã certamente não era o seu, pois até onde lembrava, seu toque do alarme era uma vaca mugindo para lhe lembrar o labor horroroso de ter que acordar cedo todos os dias. Abriu um olho para notar que o alarme era de Angus, seu colega de quarto. E até teria voltado a dormir, pois não deveriam nem ser sete e meia ainda, mas começou a assistir com as pálpebras pesadas enquanto ele se vestia de qualquer jeito, tanto o casaco quanto as meias, e ainda bateu a cabeça na beliche. Giles franziu a testa. Estava dividindo o quarto com um exibicionista desastrado.
Assim que ele saiu, mas não sem antes bater o pé mais uma vez na entrada, voltou a se deitar com o travesseiro em cima do rosto, pensando que a rotina de conviver com seu tio era muito mais fácil, e agora teria que se adaptar inteiramente a outra pessoa. Acordou apenas meia hora depois com o som da vaquinha no seu ouvido, e levantou preguiçoso, demorando a achar o uniforme bem dobrado nas malas que ainda não tinha desarrumado inteiramente.
Já sabendo que estava atrasado, andou até o chuveiro com alguma pressa e se enfiou embaixo da água, aproveitando para lavar a cabeça, mal dando conta quando Angus entrou do nada no banheiro (que certamente tinha esquecido de trancar), completamente nu de novo.
- Ou, ou, ou, ou!! Muita intimidade, irmão!! Pode esperar sua vez??! Eu não lhe conheço o suficiente pra estar dividindo chuveiro com você, não sou tão fácil assim não, ô! – Giles falou alarmado, fazendo uma barreira contra Angus com um dos braços para impedi-lo de entrar no chuveiro.
Angus
Angus até conseguia ver o espaço ao redor e a movimentação, mas não tinha muita atenção ou foco sequer para perceber que o banheiro ocupado era sinal para dar meia volta. As palavras de alerta de seu novo colega de quatro entraram por um ouvido e saíram pelo outro, ele só abriu o box e entrou para ligar o chuveiro, mas deteve o movimento por já sentir a água nos braços, e só se aproximou o suficiente para apoiar as duas mãos na parede do banheiro e deixar a cabeça debaixo da água corrente, aproveitando o banho até mesmo com os olhos fechados por uns longos minutos.
O que devia ter sido muito óbvio para qualquer pessoa era que ele não estava exatamente sozinho dentro do box. Depois de sentir a água correndo pelos cabelos e pelo corpo suado da corrida matinal, entreabriu os olhos para ver que não estava sozinho no banho. Mas havia mesmo outra pessoa ali ou era só mais um sonho no seu estado semi consciente?
-- Hmm? -- ele estreitou os olhos, abaixando o rosto com a visão embaçada da outra pessoa que supostamente estava dividindo o box do banheiro com ele. Será que era mesmo uma outra pessoa? -- O que está fazendo…?
Giles
A barreira com as mãos ou a voz exaltada logo pela manhã não afetaram Angus, que continuou avançando em direção ao box do banheiro como se não lhe enxergasse. Não sabia exatamente se era alguma peça de vingança, ou talvez uma investida, ou alguma brincadeira do destino, mas quando viu, estava frente a frente com o ruivo, um braço de cada lado de seu corpo, prensado no meio do chuveiro.
Olhou para o colega de quarto com um leve pânico, sem saber como sair dali, talvez porque ainda estivesse muito burro pela manhã. Toda sua energia foi usada para sugar os lábios finos para dentro, como se estivesse provando de algo azedo, e a única coisa que seus dois últimos neurônios pensavam era que se ficasse de costas para Angus, podia estar fazendo um convite, de frente, poderia ser a iminência de brincar de Star Wars, e de lado, certamente ia roçar o pau dele em sua coxa, e isso queria evitar.
O “hm” dele foi quase acusador, e Giles foi obrigado a abrir os olhos e franzir a testa, ainda prendendo os lábios com intensidade.
- “HMMM???!!” – respondeu com ironia o barulho que ele fez, quase três tons acima, as mãos abrindo pra casa lado com indignação, o que lhe fez perceber que podia só abaixar para sair do abraço de Angus e do box. – O que VOCÊ tá fazendo?! – rosnou de volta enquanto abaixava para sair, ficando um roçar de braço mais perto do pênis alheio, o que lhe fez se retesar inteiro antes de passar se roçando inteiro no box molhado. – PICUDO ESTÚPIDO!! – berrou de ódio, se enrolando em sua toalha para terminar de se arrumar, resmungando enquanto vestia calça e cueca, revirando os olhos para sua aventura da manhã.
Angus
Angus ainda ouviu a resposta em som alto, que lhe fez franzir o cenho em confusão e fechar os olhos de novo. Queria ter processado melhor as palavras do outro, mas não teve como menos ainda na velocidade que tinham sido ditas. Na verdade, aquela sentença específica lhe fez ter certeza que estava sonhando com o seu novo colega de quatro gritando consigo no dia anterior, na quadra, com aquele mesmo insulto. Quando abriu os olhos, não havia ninguém no banheiro e só terminou o banho em mais dez lentos minutos.
Voltou para o quarto ainda pingando, só com a toalha em volta da cintura. Vestiu a roupa, a camisa social sendo abotoada nas casas erradas, a gravata com o nó frouxo, os pés esbarrando em alguns lugares antes de sair do quarto com a mochila para comer algo no café da manhã antes de ir para as aulas.
E foi assim que seguiu a rotina pela manhã, semi acordado nas aulas, até quase dez da manhã quando começou a sentir as dores na cabeça de todas as pancadas na caminhada e na cama, assim como os dedos dos pés de todas as topadas. Era também o mesmo horário em que tinha acertado os botões da camisa e a gravata bagunçada. Até o fim das aulas, já estava com a disposição retomada para o treino em quadra nos horários dos clubes.
Giles
O café da manhã em St. Clavier era tão gostoso que quase esqueceu sua aventura da manhã com Angus, mas assim que viu um adolescente erguendo a boca para uma banana, lembrou da saga da manhã de uma vez, o que lhe causou uma ressaca moral sem álcool. Alguns pontos positivos: saiu com tanta pressa ainda cedo que teve tempo de marcar presença no clube de xadrez, ao qual deveria pertencer desde o princípio, e como não havia nenhum asiático jogando ali, entendeu porque conseguiu uma bolsa para jogar xadrez. Além de si, St. Clavier tinha um russo que apelidou mentalmente Kasparov, e que Giles teria que decorar o livro de estratégias para derrotar em uma próxima partida com tempo.
As aulas foram tranquilas. St. Clavier certamente tinha sua dificuldade, a maior delas sendo o idioma. Não que não fosse fluente em francês e inglês, mas era a primeira vez que encontrava uma situação formal do uso do francês para os estudos. Se adaptaria em mais algumas semanas.
Com o fim do horário de aulas, correu para o auditório onde sabia que seu tio estaria, e passou para dar um abraço nele antes das aulas, aproveitando para trocar de roupas para o treino de basquete. Quando chegou, não foi surpresa que Angus já estivesse na quadra, o que lhe fez rodar os olhos.
- Completamente recuperado da sua tentativa de assédio de hoje de manhã, toilet perv?
Angus
Ainda eram as primeiras semanas de aula, a quadra ainda estava mais vazia do que cheia de alunos treinando ou começando a praticar para as atividades dos clubes. Era o período em que os alunos estavam decidindo do que participar, então era fácil para Angus chegar ali e praticar algumas cestas, alguns movimentos, se alongar e se aquecer para não sair de forma.
Já estava circulando pela quadra e fazendo cestas há mais de meia hora quando ouviu uma voz conhecida e lançou uma cesta de três pontos que bateu no aro e não pontuou, para voltar a atenção para o seu novo colega de quarto com aquela acusação que só lhe colocou uma expressão confusa no rosto.
- O que foi agora?! Eu não fiz tentativa de nada, e já disse que demoro a acordar de manhã! - Angus retrucou, pegando a bola de novo para quicar e se afastar até a linha de três pontos e arremessar de novo, mais atento aos detalhes que Berthold tinha indicado antes, para acertar a cesta.
Giles
Pelo visto Angus já estava ali como o fominha de basquete que poderia ser. E para sua não-surpresa, ele não lembrava de nada do que tinha acontecido de manhã, o que prontamente colocou uma expressão irritada em sua cara. Por que até conseguia começar a associar que de fato ele não lembrava de nada, mas não era possível que ele não lembrasse do pânico que lhe ocorreu de manhã por causa de ser quase encoxado no banheiro pelo ruivo.
- Não é possível que você não lembre que eu estava muito bem lá tomando meu banho quando você entrou todo nu, me encostou no boxe e ficou lá bancando o macho sexy tomando banho que nem ator de seriado! - Giles comentou, olhando sério para Angus. – E eu sem saber se você ia me atacar de repente, ou se estava me atentando, ou se queria me pregar uma peça, fugi por baixo do seu braço, e ainda dei uma roçada desgraçada em você, e você me diz que estava DORMINDO? – enfatizou, ainda olhando muito sério para Angus, estreitando os olhos escuros. – Eu não sei porque não fico mais ofendido com tudo isso.
Angus
A cada cesta lançada, Angus seguia de volta para buscar a bola e fazer novos lançamentos, tentando não dar muita atenção ao seu colega de quarto que parecia não conseguir processar ou acreditar no que ele estava dizendo sobre ser muito lento pela manhã. Não era como se fosse sonâmbulo propriamente dito, mas tudo o que fazia de manhã facilmente era esquecido ou nem era assimilado. E estava no meio dos seus lançamentos quando Giles respondeu, a plenos pulmões, que estava no banho quando ele entrou para tomar banho também.
Daquela vez, ele errou o arremesso e foi pelo nervosismo breve de lembrar a ilusão que tivera de manhã de não estar sozinho no banho. Mas num instante, tinha alguém na sua frente, e no outro, não tinha mais, como acreditar que aquilo tinha acontecido de verdade? E pelo que Giles tinha dito, era uma coisa muito provável de ter feito, especialmente porque estivera acostumado, a vida toda, a tomar banho no próprio banheiro e não dividi-lo com ninguém pela manhã.
A assimilação da cena foi tão chocante para Angus que ele até deixou a bola de basquete cair entre as mãos e o rosto assumiu um tom mais vermelho do que o cabelo, com os olhos levemente arregalados ao encarar o outro de volta.
- [E-e-eu n-não estou acostumado com outra pessoa dividindo o banheiro comigo, tá bom! N-não é minha culpa! Eu achei que era coisa da minha cabeça! Eu vi alguém e depois não vi mais! Eu mal vejo um poste na minha frente quando eu tô correndo!] - e no nervosismo, toda a reclamação impetuosa saiu em irlandês.
Giles
Oh. Até podia achar que era tudo invenção da cabeça de Angus antes, mas o modo como ele lentamente assimilou o choque do que tinha feito lhe deixou bem claro que aquela não era uma brincadeira. Conhecia atores. Conhecia excelentes atores. Mas ele não era um ator, certamente, e estava longe de querer lhe pregar uma peça ali. Estava mais certo disso do que de sua capacidade de medir as partes íntimas dele com um hang loose.
Pretendia continuar bravo com ele, mas o fato dele lhe responder com o rosto todo vermelho e no que imaginou ser um inglês com um sotaque extremamente carregado, mas aos poucos assimilou que era outro idioma completamente diferente, deixou com que todo o ódio de Giles se esvaísse em instantes. Só encarou o rapaz, sem entender nada do que ele disse.
- Perdi tudo que você falou. Diz de novo. Por favor em inglês, francês ou shade. São as três línguas em que sou fluente. – disparou prontamente para o outro, abaixando para pegar a bola de basquete que estava com ele. – Eu acho que entendi vagamente pela sua expressão, mas quero confirmar se você não está me xingando.
Angus
Conviver com o fato de que tinha uma condição matinal muito estranha já fazia parte da rotina de Angus há muitos anos. Inclusive, na Irlanda, até tinha alguns amigos que sempre lhe ajudavam nas matérias que ele perdia pela manhã. Mas ele realmente não tinha parado para pensar nas implicações de dividir o quarto e a convivência com outra pessoa (e até mais uma, já que pessoas do seu ano escolar podiam ter até dois colegas de quatro), o que se mostrou muito diferente do esperado agora que ouvia o relato de Giles.
Ele engoliu em seco e tentou ao menos manter a cara que já não estava muito boa ainda com sangue demais circulando nas faces, e só quando Giles apontou que não tinha entendido nada, foi que percebeu que tinha falado em irlandês. Levou a mão até a boca, cobrindo o rosto parcialmente e pigarreou para limpar a garganta.
- Eu nunca tive que dividir o quarto ou o banheiro com ninguém, então… eu não estou acostumado com isso. N-não foi de propósito. Eu achei que tinha visto alguma coisa, mas depois não estava mais lá, então achei que era só… impressão. - ele respondeu, ainda obviamente constrangido com a situação. Mas tirou a mão do rosto e encarou o outro mais diretamente. - E só pra você saber, não tenho costume de invadir banheiro pra ver ninguém pelado!
Giles
Angus demorou um pouco para processar seu pedido para que falasse outro idioma. Mas era até engraçadinho como ele tinha ficado corado. Talvez tivesse um humor muito volátil, o cara ainda era culpado de uma invasão ao banheiro e lhe mostrar um pouco mais do que queria de um colega de quarto de dois dias de quem tinha tido raiva até então. Porém até pensou que foi melhor assim, pois podia ficar achando por muito tempo que aquilo era só um modo do ruivo lhe perturbar. Talvez no dia seguinte testasse um pouco do quanto ele lembrava pelas manhãs.
- Bem, cê não parece estar mentindo. E se eu pegar você na mentira e isso tudo for uma pegadinha, vou fazer você se arrepender do dia em que olhou para essa cara de nada e pensou “trouxa”. – falou muito calmamente, jogando a bola para Angus de volta. – E só para você saber, eu não tenho nada contra ver ninguém pelado, mas em geral eu não gosto de ser surpreendido por alguém nu no chuveiro. Eu entendo de vestiários, não do sistema prisional. – continuou com o tom sério, então suspirando longamente.
Giles se aproximou de Angus e lhe deu dois tapinhas amigáveis no ombro, sorrindo com o canto dos lábios.
- Vamos começar de novo, agora que sei que você não estava mentindo quando disse que não lembrava de mim. Sou seu colega de quarto, Giles Berlioz, gosto de esportes, jogos de lógica matemática e não gosto de ser surpreendido nu no chuveiro. – riu, estendendo a mão para o ruivo. – E vim jogar basquete. O que tem pra me ensinar hoje?
Angus
Angus conseguiu gradualmente voltar ao ânimo normal e o rosto voltou a tonalidade normal. Ainda torceu o nariz em indignação quando ele insistiu que poderia estar mentindo e o fazendo de trouxa.
- Eu não tô mentindo. Mas estou acostumado que ninguém acredita quando falo de ser desatento de manhã. - ele respondeu, pegando a bola de basquete com só uma mão para voltar a quicá-la no chão. - Podemos achar um jeito de resolver isso de manhã. Eu diria pra você trancar a porta do banheiro, porque eu sou meio lerdo pra fazer alguma coisa.
A sugestão breve só fez com que Angus pensasse que se esbarrasse no banheiro fechado acabaria esquecendo de tomar banho antes de trocar de roupa, mas era mais fácil lidar com aquilo. Logo o outro se aproximou para se apresentar de novo e estender a mão em sua direção. Segurou a bola de basquete debaixo de um dos braços e estendeu a mão livre pra apertar a dele.
- Angus O'Neil. Não gosto de lógica e matemática, mas gosto de esportes, basquete e lugares altos. - ele respondeu, avaliando a disposição do outro de ter ido "jogar basquete". - Depende de quão sério você quer jogar.
Giles
Se ele era meio lerdo para tentar fazer qualquer coisa de manhã, então trancar a porta talvez não fosse a melhor opção. Mas ainda não tinha ideia do que fazer, por isso, apenas jogou os ombros.
- Bom, amanhã de manhã eu penso no que fazer. – não que estivesse sem ideias. Na verdade, talvez ver a rotina matinal de Angus fosse uma excelente distração para suas manhãs, e certamente lhe ajudaria a se adaptar mais rápido a vida nos dormitórios. Apertou a mão do ruivo, e abriu um sorriso amigável sobre os “lugares altos”. – Eu não queria ser você se tivesse medo de altura.
Se parasse para pensar, Angus ao menos admitia suas próprias falhas, e parecia um velho viciado em basquete do melhor tipo: o tipo relativamente sensato. Fez uma cara longa para o desafio dele e então jogou as mãos para cima, numa pose que claramente indicava que estava bem aberto a tudo.
- Eu disse ontem. Não gosto de ser subestimado, esqueceu? Pra isso, eu sei que tenho que treinar sério. – respondeu, dando um tapinha no ombro de Angus. – O que temos para hoje, coach?
Angus
Os dois iam conviver por muito tempo ali, então eventualmente descobririam o que fazer naquelas manhãs inconvenientes de Angus. E pelo menos Giles parecia menos agressivo do que das outras vezes em que tinham interagido por causa daquele mal entendido. Angus pretendia continuar a prática para se manter em forma, mas depois de questionar se o outro queria treinar sério ou não, ele pareceu bem determinado a fazerem um treino de verdade, o que lhe deixou com um ânimo renovado também e um sorriso de orelha a orelha.
- Eu já sei que você não treinava basquete, mas já praticou outros esportes? Vamos começar com um treino de resistência e depois vamos pras técnicas de basquete. - Angus sugeriu, pegando a bola para arremessar numa cesta de três e deixar as mãos livres. - Me avise se for desmaiar.
Embora parecesse um comentário convencido, o tom de Angus deixou bem claro que ele já tinha passado por alguma situação parecida antes. E ele começou a dar instruções básicas para começarem a se alongar e aquecer, para descobrir logo que Giles já estava acostumado a rotina e até era resistente e flexível também, pelo que ele tinha dito, tinha jogado futebol americano nos EUA, e pelo pouco que conhecia do esporte, devia ter um treino igualmente ou até mais puxado, dependendo da posição em que ele jogava.
Antes que pudessem perceber, quase duas horas tinham se passado de um treinamento bem completo e os dois terminaram o exercício deitados em suor no chão da quadra. Mas Angus ainda precisava voltar para o dormitório, tomar um banho e continuar a sua busca por emprego noturno, que foi o que ele fez logo em seguida.
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