[Drive] Let's Jam! [Julian; Zazou]
#1
Zazou

Uma noite como aquelas era uma oportunidade raríssima para Zazou. Tanto que se vestiu de acordo, colocando uma calça folgada de listras azuis e uma camisa estampada também, que sobrepôs num top cropped que havia ganhado de sua amiga Bezu depois de a última vez que foram em um brechó. Colocou várias de suas bijuterias prateadas no pescoço e nos dedos, e com seu coturno de sempre no pé e apliques de dread no cabelo, se sentia muito bem, ainda mais quando passou um batom marrom escuro nos lábios e saiu. Era noite de ouvir Jazz, e como todos sabiam, era a noite em que Zazou só os atenderia se fosse extremamente urgente.

Ele foi até Bleu, onde havia alguns bares discretos que tinham música ao vivo. Naquele dia em especial, tinha escolhido um bar chamado “Loufoque”, que era um bar pouco iluminado e pouco frequentado por ser próximo demais de Gris. O bar tinha uma fachada bonita com mesas pequenas na frente, separadas da calçada por um deck, e em sua lateral, havia um beco para onde ficava a entrada de funcionários, e o beco mal iluminado era um ótimo lugar para se acomodar. Além do que, um dos garçons sabia quem ele era, por ser um morador antigo de Gris. Zazou o cumprimentou enquanto passava na porta e logo foi para a parte menos iluminada, de onde não poderia observar a banda pequena ao vivo, mas poderia ouví-los bem. Nem precisava de luxo. Apenas acomodou-se no chão enquanto a banda passava o som, e dali, embora tivesse a aparência quase escandalosa de chamativa, poderia ser bem confundido com um mendigo qualquer.

Zazou encostou preguiçosamente na parede, deixando as pernas dobradas e apreciou a primeira música da noite, um cover de Jeanne Moreau, até conseguindo chamar a atenção de seu conhecido garçom para lhe desenrolar uma cerveja e um pão velho das mesas para petiscar, pagando pelos dois por fora. Quando sua cerveja chegou discretamente pelo cantinho do deck, a cantora começou a tocar um cover de “Dream a little dream of me”, e Zazou deu um gole plenamente satisfeito. Aqueles era o momento em que esperava estar apenas em paz.

Julian

Julian estava acostumado a rodar Cerise e falar com todas as velhinhas da cidade, principalmente as que moravam pelo distrito residencial, mas também estava acostumado a sair durante a noite vez ou outra e conhecer lugares e pessoas diferentes, por isso era tão acostumado a visitar o Mary Stigmata quando queria se distrair do trabalho que costumava procrastinar quando tinha a chance. Vantagens e desvantagens de ser um autor que ainda ganhava bem por conta de um ótimo sucesso.

Ele pegou um táxi e seguiu na direção do Mary Stigmata naquele início de noite, com roupas simples como estava acostumado, calça de tecido, uma camisa básica, casaco e um cachecol em volta do pescoço. Mas a sua parada pretensa no Mary Stigmata não foi muito longa, já que Otheo não estava no bar e não tinha muita gente interessante com quem conversar. Ele só tomou umas duas doses dos licores que conhecia e resolveu dar uma volta para longe do bar, pelas ruas bem iluminadas pela noite e dando longas olhadas no caminho.

Não era incomum para Julian seguir por ruas que ainda não tinha passado, explorando novos lugares, encontrou outros bares e boates no caminho, e foi passando por um desses, um bar menor e com ar de Mary Stigmata pela pouca iluminação, além do ritmo do Jazz que dava para ouvir da rua, foi que ele viu algo interessante. Não foi o bar ou a música, mas um dos clientes que estava sentado no chão, servindo-se de cerveja e pão, e até pensaria que era um mendigo, mas as roupas pareciam um pouco limpas demais para aquilo - mesmo que exageradas -, e um mendigo talvez não tivesse tempo para pintar as unhas. Julian passou direto pelo bar e pelo homem, mas manteve o olhar curioso, a ponto de virar o rosto quase noventa graus para continuar encarando-o enquanto andava, e quando já não dava mais para deixar o rosto virado, acabou parando e dando um passo para trás. Ele até podia parecer um mendigo, mas era um mendigo bonito, com roupas extravagantes e que parecia bem interessante.

Zazou

Zazou suspirou longamente, apreciando a voz da mulher que acompanhava a banda, e talvez não tivesse o charme das originais, mas não fazia feio também. Os músicos eram muito bons, e quando encontrava um grupo que conseguia tocar aquelas músicas agradáveis, até tinha vontade de dormir ouvindo aquela música. Isso é, se fosse capaz, estando apenas em um beco escuro e completamente exposto aos inimigos.

Terminou a cerveja antes que pensasse, mas ainda tirava pedaços do pão e levava a boca para não borrar demais o batom. Estava pensando se a próxima música seria suave como as anteriores, porém, antes que prestasse atenção na canção, prestou atenção em um olhar. Zazou parou o pedaço de pão que levava a boca, estreitou os olhos e discretamente virou, notando que havia um garoto andando e lhe encarando. Estava acostumado a ser olhado, mas não observado, porque vestido como um mendigo e meio travestido, as pessoas sequer queriam falar com ele.

Esse garoto, pelo contrário, não apenas lhe encarou até que quase sumisse de vista. Ele deu um passo para trás, apenas para lhe olhar diretamente. Sem perceber, já tinha virado o rosto de leve na direção dele e o encarado diretamente, intenso, esperando que ele entendesse logo a deixa de ir embora. Mas parecia que ele não entendia.

- Tá olhando o que? – perguntou, com um tom baixo, mas muito assertivo, até porque não queria atrapalhar os músicos, e tampouco causar confusão para o seu conhecido. Deu duas sacudidas enfáticas com a mão para que o garoto fosse embora.

Julian

O mendigo em roupas extravagantes lhe encarou e Julian deu a volta nos calcanhares para ficar de frente para ele, inclinando o rosto para o lado. Talvez tivesse encarado por mais tempo do que tinha calculado mentalmente, mas ouviu a voz firme e baixa perguntando o que estava olhando. Julian devia se sentir um pouco ameaçado pelo tom, mas ele acabou sorrindo e deu um passo de volta na direção do homem, se agachou na frente dele, apoiando os cotovelos nos joelhos e o rosto nas duas mãos.

- Você. - Julian respondeu sobre "o que estava olhando", encarando-o ainda mais curioso de perto agora, sem a menor noção do perigo, alargando mais o sorriso. - Você é muito bonito, e exótico, eu gosto de pessoas bonitas e diferentes, desculpe ficar encarando, não foi intencional... bom, não no começo, agora é. - ele deu uma risada, ainda agachado na frente do homem. - Eu posso sentar com você? Você é de Cerise? Eu nunca te vi na cidade, mas bom, não é como se eu andasse em todos os cantos daqui, não é? Suas roupas e seu cabelo me lembraram do Theo. Ele também é assim, um homem grande e bonito e com roupas extravagantes.

Julian não esperou uma resposta do homem, e se sentou ao lado dele na beira da calçada, ainda interessado em encarar o moreno de lado.

Zazou

Esperava que seu tom de ameaça fosse suficiente para afastar o rapaz que estava lhe encarando, mas pelo contrário, ele virou o pescoço como um brinquedo ainda lhe encarando. E sorriu. Ele sorriu. E foi algo altamente alarmante para Zazou. Estava acostumado a se sentir ameaçador, mas ver o garoto daquele jeito lhe deixou em alerta, por que quem porra sorria para um mendigo travestido numa viela escura senão outro bandido? Ainda bem que nunca saía desarmado. Prontamente sua mão foi para a cintura de forma discreta, onde carregava uma faca por dentro da calça folgada, escondida pela camisa de fora. A aproximação sem nenhum senso de perigo dele lhe fez franzir a testa.

A última coisa que queria era arrumar encrenca numa noite que deveria ser de diversão para ele, então decidiu observar, até para manter a banda tocando. Só que foi muito inesperado ouvir um elogio a sua aparência, como “bonito” e “exótico”, e que ele gostava de gente assim, “diferente”. Não sabia se ele estava sendo honesto ou irônico.

Não importava se ele tivesse se retratado por encarar, Zazou estreitou os olhos e encarou o outro com cara de poucos amigos, muito diretamente, erguendo o queixo para todas as liberdades de aproximação e todas as perguntas que ele estava fazendo. Nem conseguia mais se concentrar na banda.

- Mas que porra…! – exclamou com a voz ainda baixa, de olho nos movimentos do outro. – Se liga, pivete, não sei se as travestis e os mendigos caem nessa conversinha, mas eu não tô aqui de ponto e nem aceito nada pra te pagar um boquete, então corta o papo e vaza daqui ou quem vai cortar teu papo sou eu. – Zazou ameaçou muito claramente, esperando que o garoto lhe obedecesse, até porque queria continuar ouvindo jazz ali e não ir para outro lugar, no meio de outro show.

O garoto estava perto o suficiente para que reagisse caso ele puxasse uma arma. Ele certamente não parecia nem ter idade para ser policial, então pelo menos por ora, estava só um pouco puto, mais pela interrupção e incômodo.

Julian

Julian nem atentou para os movimentos do outro e para o modo alerta que ele estava se comportando, só continuou o encarando, sabendo que ele podia muito bem ser perigoso, mas aquilo até lhe deixava com um friozinho na barriga interessante. Ele sorriu para o estranho e então, na mesma voz baixa, ele falou algo sobre travestis e mendigos e a sua conversa, e sobre não estar de ponto ali. Julian só arqueou as sobrancelhas, levemente surpreso com a resposta, mas depois deu uma risada que ele também se esforçou para deixar num tom mais baixo, talvez ele estivesse preocupado em não atrapalhar a música, então era melhor acompanhar o tom discreto.

- Ahhhh, eu não quero nada não, moço. Não do que você está pensando, eu acho. Eu só achei que você é muito, muito bonito mesmo, não só de aparência, o estilo todo. - ele fez um gesto amplo com as mãos para indicar todo o visual do outro, e depois apoiou as mãos nos joelhos. - É como se tivesse saído de um livro de fantasia, me deixou curioso! - ele falou com um pouco mais de empolgação, voltando ao tom discreto em seguida. - Eu só queria conversar, se você não se importar. Mas se você não quiser conversar, não tem problema, eu posso ficar olhando e imaginando tudo. Qual é o seu nome? Eu sou Julian, prazer! - ele estendeu a mão na direção do outro, como se ele já estivesse lhe dando algum aval.

Zazou

A falta da distância e o modo totalmente cheio de aberturas que ele se aproximava era demais até para Zazou. O pior era que não importava se tivesse feito uma ameaça a ele, ele lhe devolveu com um sorriso. Na verdade, jurava que ele tinha rido, até também controlar o volume da voz, como se tivesse notado que não queria chamar a atenção e nem atrapalhar a banda.

E quando ele abriu a boca para lhe elogiar de um modo completamente exagerado, mexendo os braços em um círculo grande, Zazou franziu a testa tão intensamente que poderia jurar que tinha ganhado três rugas novas. O tipo de personalidade fora da curva lhe alertava intensamente a não se aproximar, mas ao mesmo tempo lhe dava a falsa segurança familiar por lhe lembrar um dos seus subordinados. Mas certamente nunca tinha sido descrito como algo que saiu de um livro de fantasia.

- Que porra você vai imaginar, ô, merda é essa? Não tô aqui de fantasia pra tarado não, seu merda. – Zazou reclamou num tom baixo, olhando com desconfiança para o garoto. E então quando ele estendeu a mão na sua direção, já estava começando a ficar impaciente com a quantidade de perguntas e nenhuma resposta. O pior dele não mostrar nenhuma ameaça era que se fosse um civil, seria uma grande confusão se fizesse algo contra ele; se fosse algum policial, daria motivos para ser detido; e se fosse um matador, estava dando brecha para ser morto várias vezes. Deu um tapinha na mão do tal Julian. – Tira o cachecol e o casaco e pega tua carteira. Me dá tudo. – ordenou, olhando pro outro de cima, a mão ainda perto da cintura para tirar a faca. E ele estava bem na distância da sua mão se precisasse. – E devagar. Não atrapalhe a Nina. – resmungou, notando que tinha acabado de começar a tocar uma música de Nina Simone que ele apreciava.

Julian

O tom do outro certamente condizia com a aparência exagerada e a expressão fechada. Mas ele ainda não tinha tentado lhe bater nem lhe quebrar o pulso, como em outras vezes que tinha passado por umas situações extenuantes. E bom, não podia tirar o crédito dele por achar sua aproximação muito estranha, estava acostumado também a ser julgado de excêntrico aqui e ali quando alguém realmente lhe chamava atenção. Não foi surpresa que ele desse um tapa na mão que estendeu para cumprimentá-lo, e antes de perguntar algo, ele disse para tirar o cachecol, o casaco e a carteira e dar a ele.

- Você vai me deixar ficar aqui e conversar com você então? - Julian perguntou, sem nem pensar duas vezes ou hesitar em fazer o que ele tinha pedido, tirando primeiro o cachecol, depois o casaco e depois a carteira. Bom, certamente teria um resfriado na manhã seguinte, mas valeria a pena. Estendeu tudo na direção alheia, devagar como ele tinha pedido, olhando então para a banda e ouvindo a música que tocavam. - Nina é a música? Você gosta de Jazz? Ah! Desculpe, vou esperar terminar. - ele se atentou para não atrapalhar a música, e puxou as pernas para perto do corpo, envolvendo-as com os braços e apoiando o queixo nos joelhos, para evitar o desconforto com a noite fria também, olhando o mendigo bonito de lado.

Zazou

Sequer se preocupou em responder o garoto estranho sobre deixar ele ficar ali ou não. Apenas atentou as peças e as roupas dele, procurando sinais de que ele também estava escondendo alguma arma. Pegou as roupas e deu uma olhada nos bolsos do casaco, olhou o corpo dele, segurou-o pela camisa e arrastou, tateando os bolsos e pernas, e enfim, jogou o casaco e o cachecol de volta nele, mas ficou com a carteira. Abriu a carteira e deu uma olhada nos documentos, pegando a identidade e arqueando a sobrancelha ao olhar a data de nascimento, e de novo, fechou a carteira depois de tirar uma nota, jogando-a de volta ao dono. Pelo menos ele não parecia ser policial, só um cara com um rosto muito mais jovem do que a idade dizia, e altamente esquisito.

- Nina Simone. É a cantora original. Você não gosta? – perguntou, supondo que se uma pessoa estava ali aquela hora da noite e não apreciava jazz, não acharia nada diferente para ouvir, a não ser que entrasse naquele muquifo do Capitol. Zazou ergueu a nota para mostrar ao garçom conhecido e estendeu para ele. – Traz vinho. E o que tiver queimado na cozinha. – sorriu com o canto dos lábios, satisfeito que naquela noite poderia ter o luxo do vinho e comida, ao invés de apenas pão. Não era sempre que tinha essa sorte. – Se parar para conversar com qualquer um, vai terminar morto numa sarjeta um dia.

Mais uma música começou a tocar, dessa vez mais improvisada e mais ligeira. O garçom voltou logo com uma garrafa de vinho e incerto se dava uma ou duas taças, mas Zazou levantou dois dedos, e pegou as taças, entregando uma para Julian e servindo-se, colocando para o moreno também.

- É uma boa hora pra aprender a gostar. – falou, tomando do vinho sem a menor finesse, mas também o dinheiro não dava para um vinho caro.

Julian

Julian não retrucou quando ele pegou as suas peças de roupa e sua carteira. Revistou cada uma delas e ainda lhe revistou nas pernas e nos bolsos das roupas, Julian só se deixou ser revistado e voltou a tomar o lugar sentado ao lado de Zazou quando ele lhe jogou o casaco e o cachecol de volta, e os segurou nas pernas, sem se preocupar em vestir as peças de roupa de novo. Depois de tirar uma nota de dinheiro da carteira, ele lhe devolveu, usando o dinheiro para pedir vinho a um dos garçons.

- Não é que eu não goste, eu não conheço. - Julian disse, dando de ombros de leve. - Parece legal. - mas ele não estava prestando muita atenção no ritmo da música tanto quanto continuava admirando o estranho sentado ao seu lado. - Ahhh… então, já aconteceu algumas vezes, meu editor sempre diz pra parar de conversar com estranhos. E a Fleur também. E a Katrina. Minha avó também dizia, mas às vezes é mais forte do que eu. No outro dia eu encontrei outro cara assim grandão e com uma cicatriz no rosto que parecia vilão de filme de ação, ele quase quebrou meu pulso. Mas a doutora me ajudou, eu não lembro muita coisa porque eu estava dopado. - Julian não se importou de desatar a falar, só então parando para lembrar que ele ainda estava prestando atenção na música. - Ah! A Nina! Tá, eu vou ficar quietinho até acabar.

Ele fez um sinal de silêncio com a mão sobre a boca e abraçou as pernas junto ao corpo, quando o garçom voltou com o vinho e entregou duas taças. Julian agradeceu ao garçom com um aceno silencioso e pegou o vinho para tomar um gole generoso. Até abriu a boca para perguntar de novo o nome dele, mas lembrou de ficar apreciando a música daquela vez, só ouvindo, porque os olhos ficaram observando o homem ao lado ainda curioso.

Zazou

Zazou arqueou a sobrancelha quando Julian expressou que não conhecia Nina Simone de uma forma tão evidente que parecia que o outro tinha cometido algum tipo de crime. Pelo menos ele achava “legal”, o que não era nem de longe uma palavra digna de descrever aquelas músicas, mas não podia ser exigente com um cara tão estranho. Inclusive, era estranho como ele falava de um monte de gente que obviamente nem conhecia. Até então sabia que ele tinha um editor, duas amigas, uma avó e conhecia um homem intimidador e outro com roupas extravagantes. No meio de tantos nomes quase esqueceu que ele se chamava Julian, pelo visto.

Notou que ele pelo menos tinha a boa educação de esperar a música acabar para poder de falar. Mesmo que tivesse percebido isso no processo. Ele só parecia um cara muito trouxa, mas estava tentando racionalizar toda a experiência dele ali do seu lado, de ter lhe elogiado, lhe deixado roubar o dinheiro da carteira e até beber o vinho que tinha oferecido. Franziu a testa, tentando entender o outro sem sucesso.

- Julian, né? Cê tem problema...? Aqui? – Zazou perguntou, tomando um gole de vinho sem finesse alguma e apontando para a própria cabeça, não sabendo exatamente que tipo de doença da cabeça causaria aquele comportamento. Até tinha ficado feliz de receber um elogio, mas supunha que não valia muito de um cara maluco. – Pode falar... só não tagarela alto. E cê fala de um monte de gente, mas eu não conheço ninguém. É meio irritante. – falou, então suspirando longamente e ouvindo mais uma nova música começar. – E é, eu gosto... de jazz. Eu gosto de vim aqui ouvir, é minha noite de folga. E você tá atrapalhando sei nem pra que. – falou, tomando mais do vinho até secar o a taça de modo despreocupado agora que tinha atestado que o outro era um idiota. – Zazou. Me chamam de Zazou.

Julian

A única resposta de Julian para a pergunta do outro se tinha algum problema mental foi uma risada generosa, que ele precisou encobrir com uma das mãos para não fazer mais barulho já que tinha prometido ficar calado para não interromper a música. Só negou com um aceno de cabeça enfático e só precisava que ele lhe incentivasse a responder, só que num tom baixo para não interromper a música.

- Eu não tenho problema mental não, eu tenho outros problemas de saúde, principalmente alergia, rinite, sinusite, tenho os pulmões um pouco fracos também que eu peguei pneumonia esse ano, mas é tudo herança da parte da minha mãe que também era bem frágil, meu pai era bem resistente, mas ele foi assassinado, senão ele também estaria vivo até hoje com a saúde de ferro dele. Minha irmã que herdou a saúde dele, eu tive que puxar tudo da minha mãe. Até a aparência, hahaha. - ele desatou a falar, rindo sem graça quando ele disse que estava atrapalhando a noite dele. - Hehehe... eu gosto de conversar com gente bonita e interessante, desculpe ficar atrapalhando. Você parece muito interessante, é a verdade. E você gosta de jazz, eu acho que o Otheo também gosta de Jazz... e ele... ah, é, não é pra falar das pessoas que cê não conhece, desculpa. Mas eu acho que podia até te levar pra conhecer lá no Mary Stigmata, você já ouviu falar??

Ele quase não deu chance para ouvir a apresentação, finalmente, do outro homem, e até sorriu para cumprimentá-lo pelo nome finalmente. Mas o nome específico lhe deu um clique na mente.

- Zazou, é um nome int- AHHHH! - a realização de Julian chamou a atenção não só de Zazou, mas de algumas pessoas nas mesas ao redor que lhe olharam torto por conta do grito desavisado. O sax até falhou uma nota e ele levou as duas mãos até o rosto para cobrir a boca e pedir desculpas silenciosas ao redor, para se voltar completamente na direção do homem sentado ao seu lado, se possível, era como se estivesse com os olhos brilhando. - Você disse Zazou?! Tipo, "O" Zazou? De Gris?! Woooowww!!! Eu não ia adivinhar nunca que era você! Eu já ouvi um monte de histórias, achei que você era um cara alto e careca de uns três metros de altura que quebra o pescoço das pessoas com uma só mão. É verdade que você já arrancou o nariz de um cara nos dentes? E, e, e que levou 27 tiros de uma gangue rival e ainda assim conseguiu matar todos eles com um canivete?! E que você atingiu um cara a 500m de distância do topo de um prédio abandonado com um .38?! É verdade?! É?!

Zazou

Zazou arqueou a sobrancelha quando percebeu que sua pergunta sobre a saúde mental do rapaz ao seu lado tinha disparado ele a falar sobre todo o histórico familiar de doenças como as velhinhas do asilo em Gris. Tomou mais um gole generoso de vinho, supondo que a história dele deveria ter alguma coisa errada, considerando que ele não tinha nada de errado com a cabeça, mas ainda sim parava para falar com estranhos na rua.

Mas tinha que admitir que no jeito que ele vomitava as palavras de um modo completamente desinibido, até se sentia bem que ele parava para lhe apontar que era bonito e interessante. Não estava acostumado a ouvir nenhum flerte, de ninguém, então era uma boa mudança de hábito. Só que quando ele mencionou o Mary Stigmata, abriu a boca brevemente, porque conhecia sim o lugar. Mas ele não tinha um deck com música do lado de fora, e nenhum beco onde pudesse sentar e ouvir a música sem entrar no lugar. Parecia até absurdo que ele dissesse que iria lhe levar lá. Imaginava se era um lugar que tinha boa música. Algumas das prostitutas que foram lá diziam que tinha boa música.

- Nunca sou bem vindo em lugar assim. – falou, terminando de tomar a taça de uma vez.

A reação do rapaz para seu nome, entretanto, quase lhe fez engasgar. Ele deu um berro alto, tão alto que chamou a atenção de todo mundo ao redor, e como se fosse puro instinto, mais rápido do que alguém pudesse olhar pro par de mendigos encostado no beco do restaurante, Zazou levantou em um pulo e arrastou Julian mais para o escuro pela gola da camisa enquanto ele pedia desculpas para as mesas ao redor.

O que se seguiu foi Julian associando seu nome a sua fama em Gris. Não achava que era tão conhecido, ou não teria se apresentado pelo apelido. Sim, era conhecido, pela polícia, pela vizinhança de Gris, mas Julian não era nem um e nem outro. E as histórias lhe soaram cada uma mais absurda, exceto a parte de quebrar o pescoço... talvez pudesse esganar alguém bem com uma das mãos.

- Eu posso lhe esganar com uma mão se atrapalhar de novo...! – respondeu baixo, franzindo a testa para a talvez milésima vez que Julian atrapalhava sua música. Respirou fundo e colocou vinho na sua taça até onde deu, fazendo o mesmo com o pouquíssimo que sobrou para Julian. – E essas histórias são ridículas. Eu estaria morto depois de 27 tiros. E eu não sou tão bom de tiro quanto o Pou... – Zazou fechou os olhos, percebendo que poderia ser facilmente infectado pelo espírito de falar de pessoas que o outro não conhecia. – Falam mesmo isso por aí? Como é que você ouviu de mim por aí?

Julian

A empolgação com a realização de que tinha esbarrado acidentalmente na lenda de um dos bairros mais perigosos de Cerise nem permitiu a Julian entender a situação ao ser arrastado para um beco escuro em que podia muito bem ter sido morto e jogado numa vala. Ao contrário, ele só entendeu um pouco mais da situação quando Zazou lhe confirmou que bem podia lhe esganar com uma só mão. Ele riu sem graça, engolindo em seco porque embora gostasse de lidar com pessoas diferentes, e fosse bem inconsequente, gostava de estar vivo.

Mas para a sua sorte, Zazou só respirou fundo e se serviu de mais vinho, inclusive, colocando o resto na sua taça também, que Julian bebeu de uma vez.

- Não são ridículas! Eu vi um dia desses que um soldado americano levou 27 tiros lá no oriente médio e ainda conseguiu se livrar e receber atendimento médico! Eu vi sim! - ele respondeu, animado, mas mantendo o tom de voz baixo para não acabar atrapalhando a música, na qual ele estava prestando um total de zero atenção agora que estava ainda mais focado na figura ao seu lado. - Quem é Pou? Ele é melhor que você? Mas todo mundo diz que você que é melhor que os outros e que é invencível e assustador e tudo mais. Você é mesmo assustador, mas ninguém nunca disse que você era bonito também, acho que ficam com medo pra notar. Ou acham o seu estilo exagerado, quem sabe? - Julian abafou uma risada breve. - Bom, eu gosto, é único. E é claro que falam por aí, senão, como eu teria ouvido? Eu gosto de conversar com as pessoas perto de onde eu moro, e fora de lá também, e eu não ando tanto em Gris, mas o Mary Stigmata tem muita gente que é de lá, então eu ouço muita coisa. E na delegacia e no hospital e em todos esses lugares que eu vou parar por acidente. E você é bem conhecido fora de Gris também, ora. Já disse, é tipo uma lenda urbana! É tão legal!!

Zazou

Pela primeira vez Julian pareceu levar suas ameaças a sério. Mas ao mesmo tempo, isso não diminuiu a empolgação dele, inclusive de sustentar todos aqueles rumores infundados e ridículos com histórias de outras pessoas. Franziu a sobrancelha quando ele disse que tinha visto sobre o cara que tinha levado 27 tiros.

- Cê conheceu esse cara? Quantos tiros desse foram de raspão? Porque impossível ele tomar esses tiros todos e ficar vivo, cara, impossível. Os cara que tinham uma mira ruim. - Zazou resmungou baixo, notando que pelo menos Julian tinha aprendido a tagarelar mais baixo, e agora conseguia prestar atenção na conversa e na música ao mesmo tempo. Só estalou a língua nos dentes quando notou que já tinha soltado informações sobre Poulet. Mas Julian continuou disparando informações, primeiro sobre as impressões que as pessoas tinham dele, depois lhe dizendo que era assustador, o que lhe fez bufar em resposta. Isso era óbvio, mas bastava isso para que a impressão de “bonito” fosse unicamente para “assustador”?

Só que ao contrário do que esperava, ele ainda seguiu com o “bonito” também, o que fez Zazou arquear a sobrancelha e levar uma mão até a nuca. Não sabia bem se conseguia processar tudo que Julian estava falando. Demorou uns instantes sem responder, pensando que queria outra garrafa de vinho, e que a versão de “New York, New York” que estavam tocando não era boa.

- Não sou invencível. Isso é estúpido. E melhor que tenham medo de mim. Dá menos trabalho assim. Se todo mundo fosse sem juízo que nem você, meu trabalho seria mais difícil. - Zazou comentou num tom mais leve que o tom ameaçador anterior, parecendo ouvir a música e pensar ao mesmo tempo. Então olhou para Julian com um ar mais sério, e abriu um sorriso com o canto da boca. - Mentira sua que você vai parar “por acidente” nesses lugares. Aposto que você é desses malucos que para em lugar esquisito pra conversar com gente estranha. Aposto que até já deve ter levado uma coça da polícia por essa falta de juízo. - deu um tapinha amigável no braço de Julian, sacudindo a cabeça negativamente.

Então Zazou suspirou longamente, voltando a expressão mais séria. Então abriu a boca e fechou de novo, antes de encarar o chão e ignorar por um instante a música que estava tocando.

- Então… quer conversar em outro lugar? Você não tá dando atenção a música e conseguiu tirar a minha também. - Zazou então franziu a testa, parecendo levemente irritado de novo antes de estalar a língua. - Olha… não sou bom em flertar… mas você me acha bonito e cê é completamente fudido da cabeça, mas… não parece má ideia, parece?

Julian

- Não foram de raspão! Foram tiros no tronco e nas pernas e braços, você devia mesmo procurar, é impressionante! - Julian insistiu sobre a história do tal soldado que tinha passado perto de virar uma peneira.

Ele só riu sem graça quando Zazou deixou bem claro que não era invencível e que seria difícil lidar com pessoas "sem juízo" como Julian. Ele não tinha nem como realmente negar a acusação, já que fazia algumas coisas inconsequentes antes mesmo de pensar no resultado. Mas não parecia uma má ideia ao ouvir o tom mais tranquilo de Zazou. E gostava mesmo de olhar para o homem bonito e exótico ao seu lado, a despeito de todo o perigo.

- Não é mentira não! - a resposta foi mais impetuosa, mas no tom ainda comedido. Não precisava ser arrastado pela roupa uma segunda vez. - Mas eu acabo me distraindo andando por aí e não vejo pra onde estou indo. Você já testou andar olhando pra cima? Tem uns prédios com fachadas muito bonitas que as pessoas quase nunca prestam atenção, até em gris. Parecem ter umas histórias interessantes!

Aquela altura, ele estava tão interessado na conversa que já tinha esquecido a bebida, e mal pensou naquilo, Zazou sugeriu continuarem em outro lugar, seguindo com um comentário sobre flerte e sobre não parecer uma má ideia. A sequência de palavras deixou o escritor confuso por um par de segundos.

- O que não parece…? - Julian perguntou, franzindo o cenho. - É claro que eu te acho bonito, foi o que eu disse desde o começo e… ahhhhh!! Você tá falando de sexo! - a expressão dele iluminou no mesmo instante, o tom de voz ainda controlado, felizmente. - Eu não tinha pensado nisso, mas eu acho uma ótima ideia! Onde você quer ir?

Zazou

Era engraçado como quando Julian falava com indignação, ele estava ao mesmo tempo lhe desafiando gratuitamente mas tentando manter a voz baixa para não atrapalhar a banda. Nesse sentido, até tinha passado a considerar o rapaz devidamente respeitoso. Ele era bonito e não era desagradável. Não era todo dia que encontrava alguém assim. E bem confirmava que ele era um completo maluco quando ele falou que andava olhando para cima.

- Claro que não. Se eu andar olhando pra cima, eu tomo um tiro na primeira chance. – respondeu de modo seco, com um sorriso no canto da boca, como se fosse óbvio que não era uma pessoa que podia se dar a esse luxo. – Gris é um lugar cheio de história interessante. Nem precisa olhar pra cima. Na verdade, não vá lá olhando pra cima, vai se meter em bronca.

A única coisa triste era que sua tentativa de flerte tinha passado por cima da cabeça de Julian. Pelo visto não era bom nisso, mesmo, mas era culpa sua de interagir sempre com as mesmas pessoas e pagar por sexo, quando dava. Quando tinha se dado liberdade de tentar marcar com uma pessoa fora de Gris? E que parecia tão alinhado, mesmo depois de ser revistado?

Já ia ficar mal humorado de novo, mais de frustração, quando enfim Julian entendeu o que estava falando.
- Sei lá... eu só... – Zazou não tinha necessariamente pensado nisso. Levou a mão até a nuca, e então se levantou do chão, puxando Julian pelo braço também. – Tem um motel aqui perto. Se cê quiser andar... de olho vivo. – sugeriu, fazendo um sinal com a cabeça para que Julian o seguisse. – Dessa vez cê tá se metendo numa encrenca sabendo.

Julian

Julian provavelmente devia ser um pouco mais sensato ao encontrar com estranhos na rua, mas não dava para conter a curiosidade exatamente com umas figuras interessantes, especialmente quando ele encontrava uma lenda urbana viva. Menos ainda com a proposta indecente, no fim das contas.

- Eu não acho que você ia levar um tiro tão fácil. E se levasse, ia ser que nem o cara que sobreviveu aos 27 tiros. - Julian disse, entretido com as possibilidades da própria imaginação criativa.

Logo Zazou tinha assimilado a sua resposta assim como ele tinha assimilado o flerte, e ele se colocou de pé para puxar Julian para acompanhá-lo, sugerindo um motel por perto e ainda que o escritor prestasse mais atenção ao redor.

- Não é encrenca, você é um cara legal! - Julian disse, se apressando para acompanhar o passo de Zazou. - Até me devolveu as coisas. E não quis me matar nem me enforcar ou quebrar o meu pescoço com uma mão como as pessoas dizem. E ainda é muito bonito, então eu estou no lucro! - ele sorriu largamente e deu passos largos ao lado de Zazou para não ser deixado para trás.

Como o moreno tinha sugerido, eles seguiram por algumas ruas nas quais Julian não prestou muita atenção, se tivesse que voltar ou se fosse levado para algum lugar recluso, seria um problema chamar por ajuda, mas ele estava tão distraído com a imagem de Zazou ao lado, concentrado até no jeito que ele andava, que antes que percebesse, já tinham chegado num dos quartos simples do motel, e foi a primeira vez que Julian deu uma olhada ao redor antes de tirar o casaco e o cachecol, aproximando-se de novo de Zazou, e só quando estava perto demais do moreno foi que notou que ele era mais baixo do que parecia só pela postura intimidadora. Mas ainda era uma postura intimidadora, então ele só esperou que Zazou agisse primeiro.

- Como quer fazer?

Zazou

Zazou sorriu com o canto da boca quando o outro sujeito disse que ele não levaria um tiro tão fácil. Primeiro por lhe dar autoconfiança, segundo porque era certo que ele não sabia nada como era fácil matar alguém. Tanto que ele estava bem crente, no caminho para o motel, que Zazou não lhe queria nenhum mal antes, e ainda reforçou que gostava de sua aparência, o que não era ruim de ouvir de vez em quando.

- Eu até pensei em lhe esfaquear. – Zazou falou, com um tom muito calmo, mas o rosto pouco sério denunciando que poderia ser apenas uma piada de mau gosto. – Mas dá mais bronca pra mim que pra você. – ele segurou um riso, e então deixou Julian para pensar que estava mesmo se metendo numa encrenca.

O quarto do motel era muito melhor que muitos lugares em que Zazou já esteve, especialmente considerando o tipo de acomodações que tinha em Gris. Mas não queria pensar nos arredores. Estava finalmente sozinho com Julian, tinha abdicado de uma noite ouvindo jazz, que era algo quase sagrado, por uma noite de sexo, e ele ainda se aproximou com cautela. Ou talvez fosse o jeito dele de respeitar seu espaço. Ergueu de leve o rosto, pensando na possibilidade.

- Como deve ser. Quente, barulhento, sujo, com força. – Zazou respondeu, jogando os ombros enquanto encarava Julian, até levar a mão até o corpo dele, segurando-o pela frente da calça, puxando mais para si. – Mas não fica só me olhando. Senão eu quem vai morder você.

Se fosse algum dos seus conhecidos mais íntimos, bem saberia que Zazou estava fora de sua zona de conforto, já que quase sempre se relacionava com conhecidos ou prostitutas sem tentar flertar ou colocar outras pessoas em situações problema. Mas Julian estava pedindo por problema. Quase sentiu ser injusto empurrar ele na cama com a falta de resistência que ele tinha, e então colocar o corpo sobre o dele, curvando-se até o pescoço para deixar a mordida que tinha prometido enquanto sua mão subia por baixo da roupa dele. Até engatinhou sobre Julian, descansando o corpo sentado sobre o quadril dele, passando a tirar o kimono e a camisa para mostrar as cicatrizes de anos de brigas.

Mas não era como se ele fosse inteiramente passivo também. Talvez pela curiosidade com as marcas, ou pela curiosidade sobre como poderia ser sexo com aparentemente uma lenda viva de Cerise, o rapaz logo tomou uma atitude mais ativa, e Zazou não tinha incômodo algum em se deixar levar pela situação, só vez ou outra pressionando Julian a ousar mais, a ser mais firme, e principalmente a lhe admirar mais, porque gostava daquele olhar interessado em seu corpo. Apesar de não prometer tanto, o sexo acabou sendo uma experiência agradável quando entenderam o que cada um gostava, e pelas horas que pagaram o quarto, fizeram bom uso do tempo.

Zazou não podia ficar e conversar com ele noite adentro, depois que estavam os dois cansados demais para mais uma rodada. Deu um par de tapinhas no peito de Julian, que tinha largado o corpo no lençol e levantou pouco depois de terminarem, pensando em um banho, e no retorno proveitoso para Gris, para encerrar a noite com seus discos antigos e um lanche qualquer comprado pelo caminho.

Julian

Julian riu com a resposta bem direta dele de como queria que fizessem sexo, e sentiu os dedos entrando pelo cós da sua calça para lhe puxar o resto da distância que tinha deixado entre os dois. Julian apoiou uma das mãos na altura do abdômen dele quando estava próximo demais, sentindo a tensão dos músculos por baixo das finas camadas de tecido.

- Eu queria saber se você quer ser passivo ou ativo. Eu posso ser os dois, mas eu prefiro ser passivo. - Julian adicionou, pouco antes de sentir o corpo ser jogado contra a cama e Zazou se debruçar sobre si, o que colocou outro sorriso satisfeito no rosto do escritor, deixando-se levar pelas ações do outro, até ele começar a prescrutar sua roupa e tirar as próprias peças, exibindo algumas cicatrizes bem variadas que deixaram Julian ainda mais interessado.

Entre os toques e os estímulos, ele foi levado um pouco mais pela curiosidade com o corpo alheio, desde a aparência exótica às cicatrizes inúmeras que se deu a liberdade de tocar e avaliar, inclusive, procurando outras e tomando mais atitude em avançar sobre Zazou para continuar com a estranha admiração pelo corpo e pela figura que era o moreno. Assim como Zazou tinha lhe respondido, o sexo foi barulhento, quente, sujo e com força pelas próximas horas em que tinham pagado pelo quarto, e até o fim da noite, Julian tinha achado algumas outras cicatrizes que admirar e lhe deixar mais curioso, entregando-se a experiência bem mais do que se demandava de uma pessoa minimamente sensata.

Ao final do sexo, Julian se jogou cansado na cama ao lado de Zazou, pouco preocupado se ele iria, quem sabe, aproveitar o cansaço para lhe matar antes de sair do quarto sem deixar muitos rastros. Mas o escritor estava bem satisfeito com a noite, desde a conversa até o sexo, e não se importou de manter os olhos fechados, deitado na cama, antes de sentir o par de tapinhas no peito.

- Hmmm... foi bem melhor do que eu esperava... atrapalhar o seu jazz no começo da noite. Não que eu quisesse atrapalhar o jazz, mas eu tenho um bom olho pra gente interessante, tenho sim. - Julian comentou, meio sonolento, meio alerta. - Você tem tanta cicatriz... nem o monte de cicatriz te deixa menos bonito. Se eu te ver de novo na calçada, você me fala das cicatrizes? Eu acho que os rumores sobre você são verdade sim, se quer saber... é o que te deixa ainda mais... legal...

Logo o monólogo se tornou mais um murmúrio indistinto enquanto Julian se deixava vencer pelo cansaço, e no instante seguinte, se tornou só o som da respiração alta no quarto de motel muito silencioso. Ele podia voltar para casa pela manhã.

Zazou

Teve sexo melhor do que com Julian muitas vezes, mas foi bom pela primeira vez entrar em um flerte espontâneo para variar. O dilema de quem seria passivo foi engraçado, e bem resolvido pelos dois em acordos espontâneos e quem tinha mais energia. No fim, acabou sendo uma noite boa, apesar de ter sido atrapalhado no seu momento de ouvir Jazz.

Mesmo depois de tudo, Julian continuava lhe admirando e achando bonito, o que era bom de ouvir, apesar de saber que tinha o corpo todo marcado e de ser bem masculino, até mesmo com as roupas extravagantes de brechó que usava. No fim, a energia do escritor se foi antes até que pudessem conversar, e até mesmo, que Zazou pudesse fazer uma contra-proposta para ele, sobre trocar histórias.

- Só lhe conto das cicatrizes se da próxima você souber quem é a Nina. – Zazou respondeu, sentando-se sobre a cama para ver que Julian já tinha adormecido de cansaço. Sorriu e arqueou uma sobrancelha, antes de se curvar e deixar um beijo breve nos lábios do moreno. – E cuidado com quem você esbarra na rua.

Zazou então deixou Julian dormindo na cama, confortável como estava, foi tomar um banho e saiu, deixando dinheiro para metade da conta, afinal, ele quem tinha feito o convite. Se fosse mais justo, entretanto, deveria ter é roubado o dinheiro de Julian para a conta. Mas não queria passar pior impressão. O único problema era que agora só tinha dinheiro para um passaporte. Mas tudo bem, era bem a cara de um fim de noite de folga.

[Thread encerrada]


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