Unhas, Segredos e Chuva [Evelyn]
#1
Berthold

Já ia completar um mês que estava em St. Clavier e estava descrente como os dias estavam passando rápido, a despeito de que tinha odiado a França assim que chegou por todos lhe julgarem - com motivo - por seu francês mal falado. Estava finalmente se acostumando a viver no internato, tinha feito amigos, estava praticando esporte de novo, e pintando com bastante disposição, a única coisa da qual ainda não tinha se acostumado era com o calor, quando começava o inverno naquele país?

Era domingo e tinha combinado de sair pra tirar fotos, mas depois do calor infernal da semana, estava chovendo como se o mundo fosse acabar, e não dava pra levar equipamento caro e arriscar perder, não tinha perspectiva de quando venderia algum quadro, então estava sem noção de quando teria dinheiro. Acordou cedo e como não tinha como correr, se alongou no quarto mesmo, tomou um banho e saiu sem camisa mesmo do banheiro com a toalha enrolando os fios claros, só quando ia sair do quarto que colocava uma blusa de manga comprida.

Comeu, conversou um pouco na cozinha e na sala de convivência com os outros rapazes, apenas quando a chuva ficou mais forte, decidiu voltar para o quarto, não gostava de dias com chuva forte, então preferia ficar escondido no próprio quarto. Chegou no cômodo e depois de entrar, tirou a camisa de manga comprida:

-- Como pode, está chovendo tanto e ainda está tão abafado! -- o loiro se acomodou na própria cama, puxando um caderno de rascunhos, mas ainda sem ideia do que fazer, já estava trabalhando nos projetos das aulas, e com esse clima úmido nada que pintasse iria ficar bom, então restava rascunhar qualquer coisa apenas pra distrair a cabeça da chuva torrencial que caía lá fora.

Evelyn

Evelyn cresceu na capital da Alemanha, então tinha uma certa familiaridade com o frio. Isso não queria dizer que gostasse. Havia escutado a chuva começar bem cedo, mas o corpo todo reclamava de levantar naquele horário por contra do frio que estava sentindo, mesmo tendo dormido com uma camisa de manga longa.

Ouviu o companheiro de quarto se levantar, mas se manteve enrolando nas suas cobertas. Resmungou baixo enquanto ele estava no banheiro tentando criar coragem de levantar, mas apenas esticou a mão até a mesa de cabeceira para pegar o celular e tirar do carregador, puxando para debaixo das cobertas para checar as mensagens. Ironicamente quase parecendo um amontoado de roupas.

Escutou o barulho do outro saindo do banheiro e do cômodo, e apenas alguns minutos depois criou coragem de levantar, se sentando na cama e se alongando um pouco, tentando ver se amenizava o frio. Fez caminho direto para o banheiro, onde tomou um banho e trocou de roupa ali mesmo: Uma camisa de manga longa de frio mais folgada e um short confortável. Saindo do banheiro depois de ter certeza de ter deixado arrumado e foi direto para o computador - poderia comer depois. Apenas se atentou a tomar os remédios com horário marcado e que pediam jejum. Colocou o cobertor sobre as pernas e começou o trabalho matinal.

Digitou alguns e-mails, em sua maioria com investidores e planos de negócios, e um e-mail perdido de sua mãe que perguntava sobre o andamento do clube e os projetos. Assim que terminou, ouviu a porta se abrir e Berthold entrou, reclamando do calor.

— Abafado?! - se virou de lado na cadeira, muito bem agasalhado que era quase cômico, resmungando — Tem certeza que não está doente? Tá péssimo de frio!

Manteve a coberta bem junto ao corpo e fez caminho até o armário tirando uma pequena caixa com esmaltes e outras coisas. Precisava de algo para se distrair do frio, talvez fosse um bom dia para retocar as unhas que estavam precisando de atenção, valia a pena se sentar no chão frio se fosse para fazer as unhas, talvez até tentar algumas coisas novas.

Berthold

Realmente, o loiro não estava acostumado com as temperaturas da França, considerando que mesmo quando chovia e deveria ficar fresco, parecia que o calor da construção fortemente castigado pelo sol a semana toda, tinha apenas passando pra dentro da construção tornando-a um forno em potencial. Mas o contraste maior era olhar para Evelyn plenamente enrolado nas cobertas como se não tivesse tirado a cama das costas. Berthold desenhou um sorriso no rosto de traços bonitos, achando a cena bem peculiar e engraçada, abriu o caderno de rascunho que estava na última folha para registrar aquele momento, pôs o par de lentes de grau já que estava sem as lentes, era mais confortável quando estava no quarto usar óculos do que lentes de contato.

Com a caneta fez os blocos das dobras dos tecidos, e seguiu hachurando os espaços para dar o contraste de luz e sombra, era sempre bom fazer cenas escuras em contraste com uma mancha branca como rosto. Os traços joviais de Evelyn puxavam do traço mais suave que o jovem alemão conseguiu retratar, em contraponto, preenchia os espaços ao redor pesava com manchas gráficas pesadas e escuras, servindo de moldura. Era como mistura o mais suave com o mais pesado de seu traço em um rascunho. O tempo de fazer o rascunho e usar da grafite vermelha para marcar rubor nas bochechas e nariz de seu desenho, foi o tempo que o seu colega de quarto tinha decidido sentar no chão com o que parecia esmaltes.

O maior assinou o caderno e colocou uma breve dedicatória no verso da última folha, então deixou o material, de desenho de lado para sentar-se no chão, um braço - seu - de distância de Evelyn: -- Você não disse que estava com frio? O chão tá até mais fresquinho, que deve signi-... dizer pra você, que está gelado. -- O loiro coçou os fios loiros na região da nuca, e estava esse tempo todo falando francês, mesmo que estivessem combinando de falar em alemão no quarto, arrumou o par de lentes de grau: --[Eu te disse que os outros meninos do dormitório chama o nosso quarto de consulado alemão?] -- Berthold comentou com um ar de risinho, achando aquele ponto engraçado, e supondo que como Evelyn não seguia conversando com mais ninguém, ou pelo menos não o via caminhando com muitos outros alunos.: -- [Antes que você comece a pintar as unhas, esse aqui é pra você!] -- Estendeu o caderno de rascunho que na dedicatória tinha escrito “Registros do consulado alemão”:

--[Esse é o caderno que eu venho desenhando desde que eu cheguei, tem um monte de rascunhos seus, e eu peço desculpas se isso te chatiar, mas é só natural pra mim que eu desenhe tudo que eu vejo, e assim… eu achava que estudar na França ia ser horrível, e que eu não ia fazer nenhum amigo, e eu me enganei bastante, e… obrigada por ser um bom colega de quarto. Eu não tenho dinheiro, então nem posso comprar nada pra você, espere que aceite como agradecimento.]

Evelyn

Sabia que para Berthold muito provavelmente a sua imagem enrolada naquelas cobertas ia parecer bem engraçada, e ficou feliz quando não ouviu nenhum comentário engraçadinho sobre o assunto. O loiro não parecia ser bem o tipo de fazer isso, mas com o mal humor que sentia por conta do frio, esperava qualquer coisa.

Girou nos calcanhares com a caixa em mãos e percebeu Berthold bem compenetrado naquele caderno de rascunhos dele. Havia percebido que ele o carregava para todos os cantos. Coisa de artistas, como já havia ouvido falar de tantos outros artistas que desenhavam diariamente para não perder a prática, mesmo que no final das contas o desenho feito não servisse para muita coisa. Teve a pequena curiosidade de olhar o que ele estava desenhando, mas respeitaria o seu espaço. Sentou-se no chão com cuidado, sentindo mais do chão frio em contato com a pele. Colocou a caixa de lado e puxou primeiramente um pouco de acetona e algodão, para remover o esmalte da outra semana que usava. Virou o rosto em direção à Berthold quando percebeu a aproximação, inicialmente com uma expressão levemente irritadiça pelo comentário do chão frio, mas em seguida uma genuinamente confusa pelo apelido que o quarto estava levando:

- [Consulado alemão?] - repetiu, como se tentasse entender - [Nem mesmo tem um Consulado alemão em Cerise, qual o embasamento para isso?] - Evelyn não conversava tanto com os outros alunos, então o comentário realmente o pegou de surpresa. Só não realmente contava com a segunda surpresa, que foi quando Berthold estender o mesmo caderno de rascunhos de antes, com o apelido que havia mencionado - [... O que?!]

Evelyn aceitou o caderno em mãos, dando uma folheada breve apenas para ver na parte de dedicatória o mesmo apelido que ele havia mencionado instantes antes. A expressão no pequeno ruivo era de surpresa, e quando mais folheava as páginas - que mostravam parte da rotina dentro daquele quarto, muitos rascunhos sendo do próprio Evelyn - mais era difícil conter o sorriso pequeno que se formava no seu rosto. E as desculpas de Berthold não o incomodaram tanto dessa vez, e deixaram até Evelyn um pouco perdido em como responder. Especialmente depois de ganhar um presente desses.

- [Eu...] - ponderou um pouco, segurando o caderno em mãos, mas em seguida o deixando sobre as pernas - [Primeiro, sem desculpas. Eu não iria me incomodar com algo assim, eu já disse que aprecio o seu trabalho mais do que você imagina. É uma honra ganhar algo assim... E isso é o seu trabalho no final das contas, mesmo que seja um rascunho! Eu posso pagar de alguma forma se quiser. Afinal, ainda não agradeci pelo rascunho do primeiro dia.] - lembrou, havia passado as semanas tão corriqueiro que não havia parado nem para perguntar ao outro o que ele gostaria de ganhar em troca. Independentemente, faria o possível para demonstrar a sua gratidão à ele.

Berthold

O loiro até sorriu do fato de Evelyn não ter entendido porque tinham chamado o quarto dos dois de “consulado alemão” afinal se os dois só falavam naquele idioma todo o tempo dentro do quarto em algum momento, algum estudante da porta iria achar estranho o idioma e ia acabar curiando. Berthold abraçou as próprias pernas e tentou ficar o mais compacto possível para o seu tamanho em comparação com Evelyn, mas não esperava a reação do mais novo ao seus rascunhos, que sim, eram seu trabalho, mas ainda assim não estava acostumado a pessoas mais novas darem essa atenção toda, sempre imaginava que quem gostaria de sua arte seria os velhos barbudos ricos de galeria:

-- [Quando você fala em pagar pelos meus rascunhos eu sinto você envelhecendo 60 anos Evelyn.] -- Berthold riu de um jeito mais suave, depois arrumou os óculos no próprio rosto: -- [Mas se quer me compensar, eu sempre quis aprender a pintar as unhas, se eu puder olhar você pintando, eu acho que já funciona como pagamento, serve pra você essa troca?]

O loiro comentou esticando a mão grande a frente, olhando as unhas curtas e sempre cerradas, já tinha por hábito de mantê-las daquele jeito por causa da prática de esporte, depois posteriormente porque era mais fácil tirar os restos de tinta:

-- [Eu jamais pintaria as unhas em casa, mas agora que estou aqui no dormitório eu tenho vontade de testar…] -- o alemão olhou pras mãos um tempo e o sorriso que era mais espontâneo virou um sorriso mais tristinho, porque não tinha boas recordações de quando seu pai reclamou do fato dele ter pintado as unhas, teve de tirar na base de choro, e ouvindo um monte de bobagens.

Evelyn

Evelyn não era uma pessoa muito expressiva, principalmente quando se tratava em demonstrar isso fisicamente, ou de uma maneira que as pessoas pudessem ver. Então tentava agir da maneira que havia sido ensinado: nem tudo é de graça. Por isso, propôs pagar à Berthold o valor que ele achasse justo sobre os próprios rascunhos. Mas acabou tendo mais uma pessoa questionar a sua idade:

—[... Realmente soa tão mal assim? Achei que seria a maneira mais apropriada.] - respondeu, ponderando um pouco como poderia melhorar a sua fala para ‘adequar mais à sua idade’. Aparentemente, a conversa com o outro ruivo havia levantado pontos plausíveis. O alemão menor só não esperava que Berthold pedisse aula sobre pintar as unhas como um pagamento adequado — [... Você tem certeza? Eu posso, mas tenho certeza que a sua arte vale muito mais que uma aula minha.]

Não que seus conhecimentos não valessem dinheiro, tinha certeza que pelo menos na parte matemática eles valiam bastante. Mas em pintar as unhas? Realmente não era algo que conseguisse por uma marca de preço já que não tinha tipo um treinamento adequado, apenas conhecimento empírico - e alguns tutoriais da internet.

Observou a mão do outro, reparando os detalhes e o formato das unhas, pensando o que seria mais apropriado de repassar à ele com o conhecimento que tinha. Ouviu o restante da explicação, deixando um sonoro “hmm” escapar, e prontamente começou a separar os utensílios que iria utilizar, assim como alguns esmaltes de cores diferentes que guardava em um bolso menor, separado de todo o resto:

— [Eu não sei por que você não tentou antes, mas vamos fazer assim:] — Começou, estendendo a palma da mão para o maior, pedindo permissão para segurar a mão dele — [Se eu apenas fizesse as minhas e você observasse, até poderia pegar algo, mas para ser mais… Instrutivo, posso pintar as suas unhas, e depois você pode tentar sozinho, o que acha? Você pode escolher a cor.]

As cores que Evelyn possuía eram bem variadas. Tinham bases qual mal dava para se notar a cor, e outras mais chamativas. Num geral, haviam cores suficientes para ocasiões diversas. Esperava que alguma delas fosse do agrado do artista.

Berthold

Berthold era uma pessoa facilmente influenciável por seus próprios pensamentos, principalmente quando eles eram negativos, era um mau hábito que custava a superar, porque mesmo uma situação boa e confortável, podia facilmente se tornar algo ruim, devido ao pessimismo natural que o alemão carregava. e não foi diferente naquela situação, considerando que tinha toda uma pressão de recordações sobre si do processo de descobrir quem era, do que gostava, e das tentativas frustradas de melhor se expressar em casa. Embora não pudesse reclamar do apoio financeiro e médico de seus pais, sabia que especificamente seu pai era muito fechado a ideia de ter um filho gay. E muito embora, isso não mudasse o fato de que Berthold era assim, seu pai invariavelmente gostava de agir fingindo que não sabia, e quando o loiro tentava expressar qualquer trejeito que ressaltasse sua homossexualidade, era diretamente reprimido. Ao ponto que algo simplório como pintar as unhas era visto como algo proibido, era triste de lembrar.

Porém, sua linha de pensamentos negativos foi cortada pelo comentário de Evelyn indicando que iria pintar ele mesmo suas unhas, e como o loiro mais alto não esperava aquele tipo de hospitalidade, foi fácil notar que o mais velho ficou levemente corado com a proposta: -- [Eu pedi pra ver, pra não lhe dar trabalho, mas se não for lhe incomodar, eu estaria mentindo se dissesse que não quero testar].

E era engraçado que o menor tivesse pedido para estender a própria mão, porque como a altura dos dois era muito discrepante, por consequência as mãos também eram. Os anos de prática de basquete tinham rendido várias pequenas cicatrizes, a palma da mão ampla e lisa, o fato de ser um pintor a pouco mais de um ano, tinha lhe rendido cortes novos com estilete nos dedos, calos principalmente nos que empunhava o pincel, mas suas unhas eram curtas e bem cerradas para impedir que ficasse com resquícios de tinta.

Porém, apenas quando estendeu a mão na direção do menor, se atentou ao fato de que tinha o corpo mutilado de suas crises anteriores, principalmente na região no pulso e em toda a extensão da parte inferior do braço. até próximo do cotovelo. As pessoas se perguntavam se tinha como esquecer das marcas, em verdade não, havia um ponto onde você realmente se esquecia de se incomodar com elas, porque já assumia que todos sentiam vergonha ou repulsa de você por aquilo. No entanto, o fato de estar na França, decididamente determinado a fazer as coisas melhor, e de querer sinceramente fazer novos amigos, lhe encheu com um misto de sentimentos de vergonha, que não soube exatamente como eles ficaram expressos no seu rosto. Tanto que o loiro levou a mão ao topo da cabeça do ruivo e deu dois tapinhas de leve:

-- [pensando agora eu nunca tinha reparado como as minhas mãos são grandes e como o seu cabelo lembra uma bola de basquete, tem quase a mesma cor. Eu tenho as mãos grandes não só porque eu sou alto, mas porque eu fui atleta antes de ser pintor, agora meus calos são de passar horas e horas pintando.] -- A tentativa de descontração de Berthold não foi lá das melhores, mas não tinha muito como fugir do fato de que o outro veria suas marcas, só queria que ele não sentisse nojo de sua pessoa e nem o achasse uma pessoa horrível por isso, queria focar em escolher cores de esmalte: --[pode por a cor do seu cabelo, se tiver, eu acho bonito].
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