09-12-2021, 10:02 PM
Henrique
O dia não tinha sido tão proveitoso, tinha mostrado casas apenas para dois clientes que não pareciam muito dispostos a colaborarem com o aumento de sua comissão no mês e o resto da tarde ficou recluso ao escritório pequeno, atualizando algumas documentações e burocracias que tinha que enviar para a sede da corretora. Outro cliente que tinha naquela tarde, cancelou, e se viu apenas trabalhando e trocando mensagens por mais da metade do tempo da tarde, apenas para cumprir o resto do horário de trabalho. Se não tinha nada o que fazer lá, podia ao menos procurar alguém com quem sair de noite.
Mas as pessoas mais interessantes não estavam disponíveis, nem mesmo os estranhos estavam lhe agradando e talvez só devesse ir para casa e se resignar a descansar para o dia de trabalho seguinte. Ainda estavam no meio da semana e aquele provavelmente era um dos fatores pelo qual era difícil encontrar uma companhia. Faltando uma hora para o final do seu expediente, já tinha ignorado o resto do trabalho e estava apenas rodando na cadeira do escritório e enviando mensagens para os conhecidos e utilizando as redes sociais.
Até a frequência das mensagens diminuir. Diminuir a ponto de ficarem muito lentas. E o estresse só aumentou ao perceber como o sinal de internet estava piorando cada vez mais naquele fim de mundo para deixar o seu dia ainda mais infeliz. Arrumou as coisas na pasta, colocou o terno de volta e seguiu para fora do escritório. Quem sabe fosse qualquer interferência no local? Até chegar do lado de fora de sua sala bem isolada e do escritório para perceber que o céu parecia estar caindo.
- Só pode ser uma piada de merda…! - reclamou, olhando através da porta de vidro do escritório para a chuva que caía pesada do lado de fora. - Por isso que essa porcaria de internet não está funcionando! Que inferno!
Estalou a língua no céu da boca, buscando o celular para procurar algum aplicativo, chamar um táxi, qualquer coisa que pudesse lhe levar para casa. Claro, não foi tão fácil quanto esperava, com erro de conexão e erro de GPS, a quantidade de erros na chamada ultrapassou as cinco vezes e a sua reação imediata foi chutar o canto da porta de vidro, felizmente, resistente.
- PUTA QUE PARIU CIDADE DE BOSTA NO FIM DO MUNDO, CARALHO DE INTERNET MISERÁVEL!! - jogou a maleta com os documentos de volta na sua sala e fechou a porta com barulho que só não se sobressaía por conta do barulho da chuva forte do lado de fora. Colocou o celular dentro de outra capa e por dentro da camisa e do cós da calça, saindo do escritório sem sombrinha, sem táxi e só com o terno sobre a cabeça para andar a passos rápidos e muito irritados na direção do primeiro transporte que aparecesse .
Joshua
Havia passado o dia trabalhando no apartamento de família Biedermeier com os afazeres que diziam respeito ao cuidado do lugar e dos animais de estimação que estavam vivendo por lá, aproveitando que a adolescente pela qual era responsável estava no internato durante a semana. Passou a tarde no escritório, auxiliando seu chefe com outros trabalhos externos que envolviam documentos urgentes e mais sigilosos dos clientes do homem. Era uma rotina bastante tranquila de afazeres domésticos administrados e papelada de escritório.
Saiu do trabalho para entregar os últimos documentos para postagem e com a lista de compras do que precisava ser reposto no apartamento. Até esperou no escritório por sua colega de trabalho ruiva a fim de saber se ela não teria problemas retornando para casa em meio aquela chuva que já havia tomado início no final da tarde e que não parecia tender a diminuir nas próximas horas. Diante da negação da mulher, justificando que precisava ficar até um pouco mais tarde no trabalho para dar conta de alguma papelada não especificada, resolveu deixar o assunto de lado. Os últimos encontros que tivera, principalmente com certas figuras masculinas, só lhe fez enxergar que não fazia sentido ficar insistindo e aguardando por algo que outras pessoas não estavam dispostas em lhe oferecer.
Estava, portanto, retornando de entregar os documentos no distrito comercial, diminuindo a velocidade em um cruzamento, principalmente devido ao efeito da chuva torrencial, quando avistou aquela figura curiosa de terno em meio a chuva enquanto o pára-brisas tentava diminuir a água no vidro. Arrumou os óculos para confirmar sua suspeita, inclusive por não encontrar nenhuma outra alma pela rua que parecia tão entusiasmado em andar sozinho em meio aquela chuva. Passou pelo homem com o carro em velocidade baixa apenas para verificar se era mesmo ele. Estreitou o olhar e, assim que obteve confirmação, parou o veículo no acostamento mais a frente, abaixando o vidro do passageiro para chamar pelo moreno, chegando ao ponto de ter de falar um tanto mais alto, devido ao ruído da chuva.
- Oi! Precisa de ajuda?! - ofereceu, educado e solícito como de costume. O sujeito realmente parecia que faria bom uso de uma carona em meio aquele clima desagradável.
Henrique
Já estava rangendo os dentes em raiva de toda aquela situação, naquela cidade infernal. Praguejava a cada passo que dava, a água só se acumulando nos seus sapatos caros, a roupa completamente molhada e a única satisfação de saber que a capa protegeria seu celular da chuva e ele ainda tinha resistência à água, obviamente. Quase não conseguia enxergar direito com as gotas de chuva acumuladas não só a frente, mas, obviamente, nas lentes de seu óculos. Tirou o acessório no meio do caminho e esfregou os olhos, mas não enxergava melhor daquele jeito. Aquela cidade só podia ser a sua maior punição até então.
Claro que não bastava a chuva, tinha os carros passando rápido demais ao seu lado na rua e ajudando a molhar ainda mais as peças de roupa. Nenhum dos táxis que passou em alta velocidade viu sua sinalização e a raiva só aumentava a cada passo em poça de água que dava. Só um dos carros que passou lento demais e quando percebeu, ouviu uma voz levemente familiar, fazendo aquela pergunta estúpida na situação em que se encontrava. Tivesse visto o homem outras vezes, talvez a voz fosse reconhecida de imediato.
- Não preciso, não! Estou andando debaixo dessa chuva de bosta porque eu gosto de dançar na chuva! Não está vendo minha cara de índio?! - respondeu, irritado, mal olhando para o homem no volante e continuando a andar, enquanto ele mantinha uma velocidade baixa para acompanhar o seu ritmo na calçada.
Joshua
Ficou surpreso com a resposta malcriada do sujeito, lhe recordando até certo ponto de uma certa adolescente de quem tomava conta. Segurou o riso com a própria comparação mental e a cena de abandono do pobre homem. Continuou no acostamento devagar, olhando pelo retrovisor se não havia nenhuma fiscalização para que fosse multado. Buzinou de leve para chamar a atenção do homem mais uma vez e soltou o próprio cinto de segurança, aproximando-se do vidro baixo para que homem pudesse lhe enxergar melhor.
- O senhor índio não quer uma carona para onde está indo?! Talvez seja mais seguro que ser levado pela água para o rio, não acha?! - ofereceu, destrancando a porta para que ele pudesse se aproximar do veículo. Todavia, logo se deu conta que talvez ele não se lembrasse de sua figura e por isso estava agindo daquela forma mais reclusa e irritadiço. Respirou fundo e se aproximou de novo, olhando para o sujeito na chuva. - Seu nome é Henrique, não é?!
Perguntou apenas para se certificar que estava ajudando um conhecido e não um mero estranho. Tinha certeza que conhecia o sujeito, mas nunca se sabe o que Cerise poderia lhe guardar, já havia topado com muita gente peculiar naquela cidade, de qualquer forma.
O veículo era bem moderno e de cor discreta. Devido ao movimento de abrir a porta do carro, acabou ligando a luz interna do mesmo e, ao se reclinar para se aproiximar do passageiro, teve de ajustar o par de óculos em seu rosto que havia escorregado alguns milímetros pelo nariz.
Henrique
Não parou o caminho, até ouvir a voz insistente e ainda lhe respondendo com sarcasmo.
- Porque você não vai à merda e me deixa em paz?! Já não basta estar encharcado com essa porra, tenho que aguentar um babaca tirando piada com minha cara?! - reclamou, tirando o terno de cima da cabeça para se virar na direção do carro, bem a tempo de ouvir o próprio nome e observar o rosto bem conhecido de algumas semanas atrás.
Até tirou o óculos e esfregou a cara para observar o loiro mais de perto, que tinha um chefe bem rico e uma ótima disposição também. Além de um carro, o que era muito bom em sua situação.
- Joshua! Por que não me disse que era você logo? - abriu a porta do carro sem a menor cerimônia, sem se importar de molhar o banco do carro e fechando a porta e o vidro ao mesmo tempo. Tirou o celular de dentro da roupa, jogando-o em cima do painel do carro sem muitos pudores. - De onde é que veio essa chuva?! Qual o problema dessa cidade? Até a minha internet e meu GPS deram problema, só pode ser algum tipo de praga que me jogaram nesse fim de mundo. Tem um lenço pra eu limpar o meu óculos?
Esperou que ele lhe desse algo para limpar os óculos, em meio ao estado completamente ensopado. Recolocou o acessório podendo enxergar bem melhor o rosto e o corpo do homem que tinha lhe distraído muito bem algum tempo atrás.
- Então, onde está indo nessa chuva? - olhou para trás só para ter certeza de que o chefe dele não estava por ali, nem a adolescente irritante. Melhor ainda.
Joshua
A priori, ficou surpreso com a reação do homem irritadiço, mas logo em seguida terminou por rir daquele cenário em que ele julgava que fosse um babaca por ter parado para lhe oferecer alguma ajuda. Pelo visto, havia ao menos acertado o nome do sujeito, pois logo assim que ele se deu conta que o conhecia, se aproximou. Deu-lhe espaço para que se acomodasse no banco do passageiro. Arqueou uma sobrancelha diante de como ele estava ensopado pela água da chuva. Agradeceu mentalmente que ele ao menos fechou a porta e o vidro ao entrar. Não tardou em desligar o ar condicionado, mantendo apenas a ventilação para que ele não sentisse tanto o impacto da temperatura por já ter se enfiado debaixo daquela chuva.
- No porta luvas a sua frente. - informou quando ele pediu algum lenço para limpar os óculos. Carregava lenço, lencinhos umedecidos, até mesmo uma pequena bolsa de remédios no porta luvas no caso da senhorita Biedermeier precisar. Um costume que havia adquirido desde quando a garota era só uma criança pequena. - Voltando do trabalho, estava indo no mercado, na verdade, mas posso encomendar as compras por telefone ou pela internet. Para onde precisa ir?
Perguntou, verificando o horário no próprio relógio caro de pulso, um presente que havia recebido em seu aniversário, dado por seu chefe. Seria bem conturbado para ele voltar para casa naquela horário comercial de qualquer forma devido ao trânsito local e pelo agravante da chuva. Observou o moreno, crente de que ele seria mais sensato em pegar algum transporte ou coisa do tipo para se deslocar naquela chuva, a não ser que de fato tivesse sido pego desprevenido.
- Sua bateria descarregou? Pode carregar no carro se quiser. - avisou sobre o aparelho smartphone, sacando seu próprio celular do bolso do terno para enviar a lista de compras em uma planilha diretamente para o fornecedor no mercado que costumava comprar tanto para si próprio como para a família Biedermeier, indicando que a entrega fosse realizada no dia seguinte.
Henrique
Limpou as lentes com o lenço do porta-luvas e devolveu-o ao lugar. Estava deixando o carro só mais encharcado com a roupa daquele jeito, mas nem se importava. Só agradeceu pelo conforto do local quando não podia chamar sequer um táxi de verdade com a internet do celular dando problema.
- É muita disposição sair para o mercado nessa chuva. Aquela criatura mimada que mandou? - perguntou, notando como o outro vivia em prol do trabalho, detalhe facilmente perceptível desde o primeiro encontro acidental dos dois. O que era um desperdício para um homem como Joshua. Podia dar trabalhos bem melhores a ele. - Estava voltando para casa, não tive clientes para mostrar casas agora de tarde e cansei da burocracia do escritório. Nada de interessante para fazer nessa cidade no meio da semana.
Sacudiu um pouco os cabelos, as gotas de água se espalhando por perto. Afrouxou a gravata e desabotoou o colarinho da camisa social azul marinho, para pegar o celular que tinha deixado de lado e conferir o sinal.
- Não, está carregado. - respondeu, negando o carregador. - Estava com problema de sinal e de internet por conta dessa chuva idiota. Só nesse fim de mundo pode ter tanta interferência. Mas estou começando a achar que o problema é comigo.
Conferiu o celular, as mensagens se acumulando por terem chegado todas de uma vez. Começou a ler e digitar respostas rapidamente enquanto ainda prestava um pouco de atenção em Joshua ao seu lado.
- Aliás, eu moro no Distrito Residencial, se estiver indo para um mercado naquela direção, aceito carona. Se não, pode me deixar perto de algum táxi que eu me viro. A chuva não parece que vai passar mesmo. - avisou, ainda digitando as mensagens rapidamente no celular, mesmo com a conversa em paralelo com o segurança.
Joshua
Esboçou um sorriso novamente quando Henrique fez menção “aquela criatura mimada” quando sabia exatamente que ele estava se referindo a senhorita Biedermeier. Nem era ela que lhe obrigava a fazer aquele tipo de compra de fato, mas precisava fazê-lo devido às compras do mês. Virou o rosto por um instante ao notar que ele se sacudia para se livrar das gotas de água tal qual um cão, os fios escuros ficando colados ao rosto. Ia falar alguma coisa, mas acabou deixando de lado devido ao outro parecer estar tendo muito azar para um dia só de trabalho.
- Eu já te disse que posso fazer as compras pela internet. Não tem problema nenhum. Só precisa me dizer onde fica sua casa. - avisou, com o próprio celular em mãos para puxar o mapa da cidade com o GPS. - A internet está funcionando? Eu posso rotear para o seu celular se quiser.
Ofereceu, tentando ser amigável com o sujeito com quem inclusive já havia tido relações sexuais. Na verdade, ele fora o primeiro sujeito com quem já havia transado. Recordar de como talvez não devesse ter aceitado aquele tipo de situação e como tudo era muito diferente do que estava acostumado, não mudava o fato que permanecia preocupado com o bem estar do outro, ainda que fosse apenas um conhecido. Obviamente, também se lembrava que ele tinha uma tatuagem muito interessante pelo corpo.
Henrique
O dia podia ter sido um inferno, mas ao menos podia descontar o encontro naquele fim de tarde que tinha lhe rendido uma boa carona, e quem sabe ainda mais? Continuou respondendo as mensagens que só se acumulavam em seu celular e só depois de alguns instantes foi que percebeu a resposta dele sobre deixar as compras para depois e lhe dar uma carona.
- Bom, já que está sendo tão prestativo, por que não? - sorriu satisfeito, fazendo um aceno com a mão em negação quando sugeriu rotear a internet. - Está tudo bem por enquanto, mas eu aviso se o sinal cair. Ah, pega a próxima rua a direita.
Começou a dar as instruções ao segurança sobre como chegar em sua casa. A chuva não diminuiu e isso fez com que o curto trajeto se tornasse extremamente longo. Não que tivesse algum problema com o tempo que passava no carro com Joshua, até porque estava protegido da chuva e tinha internet de novo, mas bem queria se livrar da roupa molhada. E ficou bem satisfeito quando ele estacionou na entrada de sua casa.
- Ótimo! Você é um verdadeiro salva-vidas. - agradeceu antes de abrir a porta para sair do carro. - Vamos entrar e tomar um café, preciso agradecer pela carona e por me salvar da chuva.
Fez um aceno com a cabeça e esperou que ele lhe acompanhasse, saindo do carro e usando de novo o terno para se proteger da chuva, correndo até a entrada da casa para não se molhar demais.
Joshua
Concordou com as coordenadas que o sujeito havia lhe dado, deixando seu celular de lado no veículo para poder colocar o cinto de segurança novamente e seguir adiante. A residência dele, pelo que parecia, tão era tão distante assim do trajeto que costumava pegar para voltar para o seu apartamento ou para a academia. Apesar do trajeto ser demorado pela chuva, não se incomodou com o moreno ocupado com o próprio smartphone enquanto se preocupava em manter a temperatura do veículo agradável.
Assim que estacionou o carro na rua frente a suposta residência do moreno, pensou em descer e pegar o guarda-chuvas que guardava no seu porta malas, mas acabou deixando a gentileza de lado quando o sujeito estava bem mais preocupado em entrar logo na residência, lhe convidando para tomar um café. Respirou fundo, ponderando. Não havia muito mais que fazer naquele dia e tomar um mero café não lhe faria mal algum.
Desceu do veículo e travou as portas, atravessando a chuva até a entrada da casa do moreno. A residência, do lado de fora, parecia bem confortável e com aspecto caseiro, bem cuidada. Era uma moradia inusitada para alguém como o corretor. Imaginava ele em um apartamento bem mais sóbrio ou reservado, mas não em uma residência daquele tamanho, ainda mais com um jardim que parecia receber cuidados constantes.
- Bonita casa. - elogiou, removendo a parte superior do terno, dobrando a peça para carregá-la sobre o antebraço. Passou a mão pelos cabelos claros, jogando-os para trás devido a umidade do clima lá fora e a pequena quantidade de chuva que havia lhe atingido na breve corrida até a entrada da casa. - Com licença.
Pediu ao entrar na residência, observando os detalhes do lugar limpo e bem organizado. Estranhou obviamente o piano na sala de estar, pois não imaginava que o sujeito tocasse ou apreciasse aquele tipo de instrumento. Continuou observando os detalhes da casa enquanto aguardava pelo tal café oferecido.
- É melhor tomar um banho quente. É perigoso ficar com as roupas encharcadas assim. - comentou apenas para puxar assunto, mas de fato preocupado com o bem estar do sujeito com quem havia saído uma vez.
Henrique
- Obrigado. - agradeceu rapidamente quando ele elogiou a casa, seguindo primeiro até a cozinha e passando direto até a área de serviço.
Deixou o terno molhado lá e pegou uma das toalhas que já estavam enxutas e outra para levar para Joshua na cozinha. Começou a enxugar os cabelos primeiro, embora não tivesse como enxugar o resto da roupa ensopada.
- Aqui, pode se enxugar. Vou colocar a água no fogo.
Deixou a toalha extra com Joshua e foi até um dos armários para pegar a chaleira e colocar a água para ferver. Deixou a toalha apoiada em volta do pescoço e começou a desabotoar a camisa para deixá-la também na área de serviço. Joshua já tinha visto suas tatuagens e bem mais do que aquilo, não tinha porque se preocupar com a presença alheia. Ainda riu da recomendação dele para que tomasse um banho quente, parecia mesmo que era uma babá tomando conta de alguma criança.
- Não se preocupe, eu não vou ficar doente por causa disso, Joshua. - respondeu, dessa vez tirando os sapatos ensopados junto com as meias e voltando para a cozinha. A água não estava fervendo, mas aproximou-se o suficiente de Joshua para quase encostar contra o segurança, que era uns bons centímetros mais alto. - Mas se estiver tão preocupado, tenho outras ideias para manter a temperatura alta.
Joshua
Agradeceu pela toalha recebida, ainda que não estivesse tão molhado como o moreno para precisar de uma. Removeu os óculos por um instante para poder secar o rosto e continuar observando os detalhes da organização daquele espaço e da decoração. Repousou a parte superior sobre um dos apoios das cadeiras da mesa de jantar e procurou o moreno com o olhar, analisando de cima a baixo ao notar que ele havia removido os sapatos e desabotoava a própria camisa.
Notou a aproximação repentina e o tom sugestivo da voz alheia, lhe falando sobre maneiras diferentes de subir a temperatura. Piscou algumas vezes, logo compreendendo a situação, mas acabando por esboçar um sorriso simpático e educado diante do gesto alheio. Ergueu as mãos para a toalha ao redor do pescoço do outro homem e ergueu o tecido até a cabeça dele, pressionando com os dedos a região dos cabelos para que fosse seco adequadamente.
- Não acha que para um homem que grita tanto debaixo da chuva e ainda está com essa roupa ensopada, deveria cuidar melhor de si mesmo? - avisou, removendo os óculos do outro após um breve pedido de licença.
Pousou o óculos do homem de lado e desabotoou as mangas da própria camisa, arregaçando-as até a altura do antebraço. Aproximou-se do moreno novamente, segurando-o pelo antebraço para que não se afastasse. Encarou o sujeito por de trás das próprias lentes, segurando o tecido da camisa molhada pela região da cintura, puxando-o para fora da calça do outro para auxiliá-lo em remover a peça de roupa ensopada. A residência era dele, afinal, não havia problema algum em ficar sem as peças de roupa ali na cozinha.
Henrique
Imaginou que teria o convite negado quando ele se preocupou mais em usar a toalha para lhe ajudar a enxugar os cabelos. Mais ainda com a resposta dele sobre cuidar melhor de si mesmo. Só estalou a língua em resposta, mas não chegou a se afastar.
- Pra que me esforçar quando tenho uma companhia tão naturalmente cuidadosa? - respondeu com um ar de desdém. - Além do mais, tenho outros interesses que precisam de atenção e ainda podem diminuir meu estresse.
Antes que pudesse se afastar, ele tirou seu par de óculos e lhe segurou pelos braços, mantendo a curta distância que permitiu puxar sua camisa para fora da calça. Se aquilo não era sinal verde, Joshua era péssimo em insinuações. E Henrique era o tipo que podia lidar muito bem com meios convites. Terminou de desabotoar a camisa e jogou os braços para trás para despi-la, dando um passo para frente em seguida para colar o corpo ao do segurança e empurrá-lo contra a mesa da cozinha.
- Já que está tão disposto a ajudar, pode ajudar com isso também. - pressionou os quadris contra os dele, para que pudesse sentir a ereção por baixo do tecido da calça.
Não esperou uma confirmação, já estavam ali mesmo, cortou o resto da distância e uniu os lábios aos dele, pedindo espaço para invadir a boca alheia e aprofundar o gesto.
Joshua
Sorriu em meio ao desdém alheio e não foi com tanta surpresa que sentiu o corpo do homem se unir ao seu assim que ele terminou de desabotoar a própria camisa. Encarou o sujeito pelas lentes de seus óculos, sentindo a curiosa pressão em seus quadris exercida pelo volume nas calças do sujeito. Levou as mãos até a cintura de Henrique assim que sentiu os lábios dele tocando os seus, permitindo que ele aprofundasse o beijo como bem desejava. Assim como imaginava, a pele dele estava fria ao toque, então não se incomodou nem um pouco com a proximidade estabelecida entre ambos. Correspondeu ao gesto, pressionando-o na região dos quadris em resposta antes de tomar impulso, trocando as posições e colocando-o contra a mesa da cozinha, pressionando-o ao recostar seu corpo com o do corretor de imóveis.
Não se sentiu em nenhum momento culpado pelo que estava fazendo. Estava ali na casa do homem que havia lhe convidado e quem havia ajudado. Já havia dormido com ele antes, por que não corresponder aquele gesto? Ergueu uma das mãos, subindo pelas costas nuas do moreno, arranhando pelo trajeto até a nuca para lhe segurar pelos cabelos, forçando-lhe a cabeça para trás e deixando o pescoço dele mais a mostra, permitindo-o afastar seus lábios da boca alheia para lhe morder o queixo, beijando-o no pescoço logo em seguida.
Tinha que admitir, não costumava sair com muitas companhias que lhe permitiam chegar naquele tipo de nível de intimidade, e fazia bastante tempo que não saia com ninguém. Pelo menos, desde a última vez que havia saído com o moreno. Desceu as mãos pela lateral do corpo masculino, segurando-o pelo cós da calça, os dedos adentrando pela parte traseira das roupas dele, apalpando-o pelo volume das nádegas. Ele certamente estava mais frio que o seu corpo, então não sentiu nenhum impulso em se afastar do homem.
Henrique
Ele não afastou os lábios dos seus e até permitiu que aprofundasse o gesto, o que era um ótimo indicativo de que o fim do dia seria mais interessante do que a chuva e a falta de internet tinham lhe reservado. Foi ainda mais interessante quando ele mesmo tomou as rédeas da situação e mudou de posição, empurrando-lhe contra a mesa daquela vez, a ponto de lhe ajudar a se sentar no móvel também. Passou as mãos entre os corpos dos dois, ajudando-o a tirar a camisa do caminho também, embora ele ainda tivesse um colete debaixo da roupa para dificultar o processo. Subiu as mãos pelo pescoço alheio, então colocando os braços por cima dos ombros dele e fechando as pernas em volta da cintura alheia, puxando-o contra sua ereção também.
Só cessou o beijo quando ele lhe segurou pelos cabelos, puxando a cabeça para trás, e sorriu em resposta à proatividade do loiro. Deixou que ele continuasse o caminho pelo queixo até o pescoço.
- Bem melhor se aquecer assim. - comentou, próximo ao ouvido alheio, ainda com as pernas travadas em volta da cintura dele ao arquear as costas e deixar que ele invadisse o cós da sua calça com mais facilidade.
Devolveu o segurar nos cabelos, puxando-o também para voltar a beijá-lo, aprofundando o gesto ao roçar os quadris contra os dele, imerso o suficiente no ato para ignorar o barulho muito discreto de chaves na entrada que mal se sobressaía ao som da chuva lá fora.
Joshua
Estava com as palmas das mãos sobre as mesas, pressionando o moreno para trás sobre o móvel e contra seu próprio corpo. A respiração se tornava pesada pela proximidade dos corpos e pouco se importou em ter sua camisa removida, terminando de remover a peça para deixá-la no chão. Correspondeu ao beijo mais uma vez ao ter seus cabelos puxados, mordiscando no processo o lábio inferior do homem ao senti-lo mais urgente contra seus quadris, as coxas bem vindas lhe abraçando por aquela área próxima da cintura. Contudo, era bem alerta para se dar conta dos passos presentes na casa, ainda que em meio aquela chuva. Diminuiu a urgência do beijo, pronto para questionar se estavam sozinhos quando ouviu o baque do plástico contra o chão somado a um ruído abafado de queda.
- AAAAAAAAAaaaaahhhh!!! - ouviu o timbre feminino e mais histérico que lhe fez virar de sobressalto até encontrar a figura da mulher magra de vestido e longos cabelos castanhos, o rosto coberto com as mãos de dedos trêmulos. - He-Hen-Henrique! O que está fazendo?!
Ouviu ela questionar, parecendo surpresa e indignada, enquanto olhava dela para o moreno, afastando-se prontamente para tentar se recompor, tentar era bem a palavra adequada, pois o volume na própria calça era necessário esconder também. Ao menos uma cueca apertada e usar a camisa de botões por fora da calça ajudava um pouco.
- Perdão, senhora! E-eu não fazia ideia de que--- fez uma pequena pausa, voltando sua atenção imediatamente para o corretor de imóveis. - Você é casado?! - indagou também chocado com a ideia de que um homem casado se prestaria aquele tipo de investida na cozinha da própria casa em que vivia com a esposa.
Henrique
As coisas estavam começando a ficar realmente quentes quando toda a diversão foi cortada pelo barulho de entrada na cozinha seguido do grito feminino de surpresa. Num instante, estava prestes a ser penetrado pelos dedos de Joshua, no outro, ele tinha pulado para longe da mesa em reação à entrada dramática de sua colega de quarto que sabia, eventualmente seria muito inconveniente. Henrique nem se importou em descer da mesa, a expressão mudando para uma de extremo desagrado com a interrupção da morena. Ela não devia ter chegado mais cedo ou ter sido arrastada pela chuva para o esgoto?
- O que parece que eu estou fazendo? Está atrapalhando! - reclamou para a figura feminina, levantando uma das mãos aos cabelos para colocá-los para trás, logo depois tateando a mesa em busca dos óculos, sem o qual as duas pessoas na sala se tornavam apenas borrões. Não que fosse um problema com Joshua, certamente não era já que o estava tocando, mas agora com Magali por perto, era uma grande inconveniência.
Joshua estava certamente confuso com a situação e no meio daquela confusão toda, a última coisa da qual lembrava era da chaleira com água fervendo apitando no fogo. Henrique suspirou resignado, descendo da mesa e mal se preocupando em cobrir o corpo como Joshua tinha se preocupado, andando até o fogo para desligar a água que tinha chamado atenção. Só voltou a reação surpresa quando Joshua indagou se era casado.
- Ah? Acha que eu seria casado depois do que já fizemos? Pelo amor de Deus, o que eu ia fazer com uma mulher? Especialmente essa mulher. - ele retrucou, torcendo os lábios. - E você não ia chegar mais tarde hoje? - retrucou de modo acusador para Magali.
Joshua
Arqueou uma sobrancelha diante da reação do sujeito, indo até a chaleira, despreocupado com a própria aparência na frente daquela mulher que ele fez questão de declarar como não sendo sua esposa. Aproximou-se da figura feminina para pegar do chão a bolsa e o guarda-chuvas fechado que havia ido ao chão com a surpresa dela.
- E-Eu…! Está chovendo e uma das minhas colegas de trabalho disse que era melhor eu pedir uma carona… daí… eu tentei te mandar mensagem, mas você não respondeu… e… - a morena fez uma pausa, removendo as mãos do rosto enrubescido, dando de cara com o loiro alto que estava “atacando” Henrique na mesa. - Ah! - virou o rosto, aceitando os itens que ele estava lhe oferecendo após erguê-los do chão.
- Desculpe pelo inconveniente, madame. - Joshua pediu, esboçando um sorriso gentil enquanto a morena ainda evitava encará-lo.
- O-Obrigada. - Magali respirou fundo, baixando o olhar de novo para a camisa extra no chão, molhada, para logo em seguida voltar seu olhar para Henrique ainda só com aquela calça social do trabalho. - Levou chuva no caminho até aqui? É melhor tomar um banho quente ou pode pegar um resfriado, Henrique.
Joshua voltou sua atenção para a mulher que parecia genuinamente preocupada e logo em seguida retornou a observar o corretor de imóveis, concluindo que não precisava se preocupar com o bem estar alheio quando ele já tinha alguém que reconhecia os mesmos riscos do sujeito. Diante daquela situação, respirou fundo, aproximando-se do moreno para lhe falar diretamente.
- Prefere que eu vá embora? Eu posso… voltar outro dia. - sugeriu, observando a mulher por cima do ombro que ainda parecia aguardar uma resposta de Henrique. - Ela é sua irmã? - questionou, tentando achar algum motivo concreto para ele dividir aquela casa com uma mulher quando ele não tinha nenhum tipo de ligação afetiva com ela.
Henrique
Para sua infelicidade, alguém tinha dado a Magali a fantástica sugestão de ir logo para casa, o que tornava seu resto de dia bem inconveniente. Com o fogo desligado e a chaleira de volta a pia onde seria mais seguro, voltou-se para a dupla excessivamente constrangida até Magali reforçar que precisava tomar um banho quente por causa da chuva que tinha levado.
- Eu já estava me esquentando até você chegar. - reclamou, abaixando-se para pegar a camisa ensopada no chão. Parou quando Joshua se aproximou, sugerindo estragar o resto do dia. - Não! Não deixe meu dia ainda pior. Vamos subir para o quarto, assim ninguém se incomoda. E ela não é minha irmã, mas eu explico melhor depois.
Depois de toda a desgraça do seu dia, a última coisa que precisava era dar conta de uma ereção na mão, sozinho no banheiro. Foi ainda até a pia com a louça suja do almoço que ele tinha preparado naquela manhã, o que significava que o trabalho era da sua colega de quarto.
- Os pratos são por sua conta, e eu não sei onde está aquela bola de pelos, mas deixe bem longe do meu quarto. - avisou a mulher, mas assim que deu as costas para o armário, ouviu o miado exagerado e só sentiu as patas pequenas se agarrando em seu ombro, numa rapidez que lhe fez pular onde estava com o susto. - MAS QUE PORRA…!
A sua reação imediata foi tirar o bicho do ombro com um movimento de mão, mas ele foi bem mais ágil em se safar e pular para o chão, longe do perigo, e se esconder nas pernas de Joshua, o estranho que parecia mais amigável.
- ARGH! EU VOU MATAR ESSE G--arggg! -tentou conter a vontade de espirrar, mas não teve muito sucesso, uma série de espirros intensa o suficiente para lhe fazer arquear as costas, incessante.
Joshua
Concordou com a explicação vaga do corretor de imóveis, pronto para acompanhá-lo, mas recordando em seguida que sequer havia se apresentado para a outra moradora da casa que ainda parecia desconfortável e perdida com a própria bolsa em mãos e o guarda-chuvas fechado.
- Desculpe o incômodo, madame. Meu nome é Joshua Abrams. - pediu, tentando ser mais amigável com a figura feminina que prontamente ergueu o olhar, as bochechas ainda tomadas por um rubor de constrangimento.
- Muito prazer. Magali Rosemond. - ouviu ela responder em um tom mais baixo, concordando logo em seguida com a louça suja que precisava ser lavada. - Desculpa, Henrique. Eu ainda não sei onde ele está, mas o seu quarto ficou trancad-- !
Ambos ficaram surpresos com o ataque sofrido pelo moreno com a bolinha de pelos que havia saltado do armário sobre o homem. Joshua ouviu a morena chamar pelo nome do bicho e baixou o olhar, dando-se conta que o animal estava em suas pernas.
- Vocês tem um gato também? - riu a despeito do homem que parecia atordoado entre espirros e a própria raiva. - Calma, bichano. - o loiro se agachou, pegando o felino entre as mãos para poder segurar e afagá-lo. O animal não parecia ruim, exceto pelas unhas que teimavam em abrir e fechar tentando lhe arranhar a pele.
- Ah, calma, Henrique! Eu tenho remédio aqui! - a morena se adiantou, colocando a bolsa sobre a mesa e buscando dentro dela uma cartela com comprimidos para alergia. - Aqui! Tome um e tome um banho que passa. - ela ofereceu a cartela em tom de pedido, orientando o sujeito a se cuidar.
- Precisa de ajuda? - o segurança ofereceu enquanto segurava o felino que agora parecia mais interessado em se enroscar em sua camisa.
Henrique
Henrique não conseguiu sequer prestar atenção no que Joshua falou ou o que Magali disse em seguida. Espirrou uma série de vezes, inclusive indo para trás com a série de espirros que eram de alergia mas que podiam até se tornar de gripe àquela altura. E como continuar interessado em fazer alguma coisa, considerando aquela situação inteira ridícula? Parou de espirrar por um instante, o rosto e o nariz vermelhos do excesso de espirros e os olhos até lacrimejando, quando Magali se aproximou para lhe estender os comprimidos para sua alergia.
- Meu remédio é esse gato- atchim! Mort- atchim! - pegou a cartela de comprimidos sem a menor delicadeza, para tomar logo dois seguidos de um copo de água cheio que só não tomou de uma vez porque precisou parar para espirrar de novo.
Joshua ainda se aproximou para oferecer ajuda, segurando o gato nos braços, o que lhe fez dar dois passos longos para trás para evitar que o bichano piorasse a sua situação.
- Não, não preciso! Preciso sair desse inferno de cidade! E deixe essa coisa longe de mim! - reclamou, dando a volta pela mesa e pelo lugar mais longe da cozinha para poder sair do lugar e subir as escadas, ainda regrado a uma série de espirros insistentes que lhe deixavam mais cansado. Precisava mesmo de um banho muito gelado e de uma noite bem dormida para se recuperar daquela desgraça de dia. Alguém devia estar lhe jogando uma praga muito eficiente.
Joshua
O segurança e a professora observaram a reação exacerbada do moreno e se entreolharam enquanto o sujeito subia as escadas para supostamente ir cuidar da crise alérgica. Joshua continuou segurando o bichano que agora parecia curioso com seu relógio de pulso. Diante daquele cenário, a professora parecia conformada. Assistiu a mulher levar o guarda-chuvas para a área de serviço e deixar a bolsa sobre a mesa de jantar enquanto se dirigia até sua pessoa antes de ajustar os próprios óculos.
- Perdão por ter atrapalhado o senhor, Abrams. Eu e Henrique somos apenas colegas de aluguel. Eu e ele dividimos as despesas e as tarefas de casa. Sou professora de música em Limoges. - a morena se apresentou mais adequadamente antes de sorrir para o bichano que parecia ainda inquieto. - Vou fazer um chá para o senhor, aceita?
Observou a mulher educada e gentil, ponderando sobre a veracidade daqueles fatos sobre a moradia dela ali juntamente com Henrique. Era uma dupla bem inusitada. Uma professorinha de música e um cara da cidade grande que gostava de sair com outros homens. Respirou fundo, aceitando a cortesia da mulher e aproveitando para passar alguns minutos ali brincando com o felino em seus pés enquanto ela lavava a louça deixava do almoço. Até se ofereceu para o serviço, mas ela parecia muito culpada por ter lhe tirado o anfitrião da casa.
Após cerca de uma hora, decidiu por voltar para seu apartamento, a julgar que já estava coberto por pequenos pelinhos de gato e que se ficasse ali apenas iria agravar a situação de Henrique. Na despedida, ainda ficou com o contato da professora para receber notícia de quando o moreno melhorasse. A mulher não parecia enciumada ou displicente com o bem estar do colega de aluguel, apenas constrangida por ter presenciado uma quase transa entre ele e o segurança na mesa da cozinha. Era compreensível que ela se sentisse chocada.
Assim que terminou de cuidar da cozinha, a morena tratou de alimentar o felino que parecia menos inquieto após Joshua ter brincado com o mesmo. Se sentia culpada por não brincar tanto quanto gostaria com o felino jovem. Tratou de deixá-lo descansando na caminha em seu quarto antes de se certificar que não havia deixado nenhum pelo em suas roupas, pele ou cabelo. Henrique estava muito quieto e imaginava que era pelo efeito do anti alérgico, então resolveu preparar algumas torradas com geleia e um chá quente de hortelã para melhorar o humor do homem, considerando que ele poderia já ter inclusive jantado.
- Henrique. - chamou pelo moreno antes de bater à porta, abrindo a passagem devagar para verificar se ele estava dormindo na cama. Contudo, não havia nenhum sinal do moreno. Deixou a bandeja sobre o criado mudo ao lado da cama e começou a procurar pelo sujeito, tendo certeza que ele ainda deveria estar ali. Foi então que se deu conta da luz do banheiro acesa e se dirigiu ao cômodo da suíte.
Bateu na porta, chamando pelo moreno, sem obter resposta. Bateu uma segunda vez e começou a se preocupar. Tinha receio de encontrá-lo em alguma situação constrangedora novamente, mas também temia que a reação alérgica tivesse sido agravada pela chuva. Respirou fundo antes de bater uma terceira vez, abrindo a porta devagar em seguida para visualizar o interior do banheiro.
- Henrique! - chamou, alerta, ao encontrá-lo deitado na banheira da suíte. - Henrique, você está bem? - questionou, aproximando-se para se dar conta que o homem parecia ter dormido ali mesmo. - Henrique, não pode dormir aí! - alertou, preocupada, tentando evitar olhar para o resto do corpo submerso do moreno na água. Tomar dois comprimidos de anti alérgico deveria ter sido demais para ele. - Henrique. - chamou, estendendo a mão para lhe tocar a cabeça, tentando mantê-la para fora da água no processo de acordá-lo.
Henrique
Henrique estava estressado e provavelmente só um longo banho e sono trariam o seu relativo bom humor de volta. O que já era bem difícil considerando que morar naquela cidade era odioso desde sempre. Nem se preocupou em se despedir adequadamente de Joshua ou de voltar para saber se o segurança tinha se entendido com Magali. Não ia mais conseguir dormir com ele mesmo, era bom só se conformar, e com aquela série de espirros incansáveis, nem tinha muito o que fazer mesmo.
Chegou ao quarto e bateu a porta para fechar, o barulho ecoando pelo corredor. Ao menos o gato não entraria para lhe fazer raiva. Tirou o resto da roupa que ainda estava no caminho e seguiu para o banheiro, deixando a banheira encher enquanto já tomava uma ducha morna para garantir que não ia adoecer. O banho lhe deixou muito mais revigorado, particularmente por diminuir seus espirros, o que era resultado da água quente e do remédio que já começava a fazer um pouco de efeito. Mas não era um milagre, então ainda espirrou várias vezes até terminar a ducha e a banheira estar completamente cheia.
Entrou na banheira para relaxar e apoiou a cabeça na beirada, com uma toalha dobrada para melhorar o apoio no pescoço. Ao menos ali poderia descansar e esquecer de todos os problemas do dia. Talvez, provavelmente, descansar demais. Com o efeito do remédio para alergia que lhe deixava sonolento, depois de longos minutos na banheira, começou a sentir o efeito bater na porta. Os espirros cessaram gradualmente e antes de sequer pensar em sair do banho para dormir tranquilo na cama, adormeceu ali mesmo, no conforto da água morna e do cansaço acumulado.
O sono bom só foi interrompido quando ouviu a voz aguda e nervosa ao seu lado, sentindo o balançar no corpo como se fosse algo bem distante de um sonho. Só abriu os olhos de verdade no último chamado, mal conseguindo focar a imagem da mulher no seu banheiro, já que estava sem óculos.
- Hm? O que é? Você é muito barulhenta, mulher! - reclamou com a professora, virando-se como se estivesse na cama para voltar a dormir, confortável demais para se importar com a preocupação de Magali.
Magali
Ouviu a reclamação do homem e ficou chocada com a ideia de que ele estava mais preocupado com ela sendo barulhenta ali que com a ideia de se afogar na banheira. Contudo, não estava chateada com o homem, estava mais preocupada com a falta de colaboração dele para sair da banheira assim que ele se virou para ficar de lado ali. Respirou fundo, afastando-se para pegar a toalha dele antes de se aproximar de novo.
- Henrique, você não vai ficar dormindo na banheira! - avisou, erguendo os braços para prender o próprio cabelo e arrumar força para segurar o ombro do moreno, puxando-o para que se virasse. - Vamos, Henrique! Vamos para cama!
Sabia que ele deveria estar tonto pelo efeito do medicamento, então não custava nada lhe dar algum apoio para que saísse da banheira. Não era uma mulher forte, tinha os braços finos e pouca força nos ombros, mas se sentia na obrigação de não abandonar Henrique ali na banheira à própria sorte. Inclinou-se, tentando segurar o moreno pelo braço para lhe dar apoio para sair da banheira.
- Ah, vamos! - ergueu o olhar, evitando observar o moreno despido naquela situação, ainda que estivesse bem ciente de como ele estava molhado e estava puxando-o, seu próprio vestido teria de ser trocado depois. Se o moreno fosse menor, ou mais jovem, certamente lembraria de quando estudava no convento e tinha de ajudar as irmãs mais velhas a dar banho nas crianças.
Henrique
A sua tentativa de dormir foi por água abaixo quando Magali lhe puxou insistindo que não podia dormir na banheira. Estava com sono e cansado e o remédio lhe deixava bem lento, mas era mais irritante ainda ter a mulher lhe atormentando mais do que já fazia em sua vida diária.
- Arhhhh, que saco, já me atrapalhou de pegar o segurança, agora quer atrapalhar meu descanso também?! - reclamou com a morena, mas não ofereceu muita resistência, provavelmente por causa do efeito da medicação, e acabou por se deixar levar quando ela puxou seu braço para dar apoio sobre os ombros finos e magros.
Levantou-se para sair da banheira a contragosto e não se preocupou em colocar sequer uma toalha cobrindo a cintura. Também não pensou em se enxugar, só depois de ficar de pé notando como a morena era baixa e pequena, comparada com os caras que ele costumava sair.
- Você é muito pequena, sabia? - reclamou, num tom grogue da medicação, enquanto cutucava a bochecha dela com a outra mão livre, estreitando os olhos para poder enxergar a morena mesmo estando bem perto de si. - Eu gosto de homens grandes e fortes. Você não é grande... nem forte... nem homem... na verdade... parece minha irmã menor...
Andou até alcançar a cama, batendo a perna no colchão para se deixar cair ali, sobre os lençóis bem arrumados de manhã e continuar murmurando besteiras inaudíveis contra o travesseiro. Ao menos tinha caído de barriga para baixo, no máximo Magali teria que ver sua bunda e o resto da tatuagem em seu corpo.
Magali
Pelo menos ele estava tão grogue que não reagiu quando se esforçou para levá-lo para cama. Deixou de lado as reclamações dele de lado, recebia elas todos os dias de qualquer forma. Respirou fundo, buscando forças quando ele lhe cutucou a bochecha, constatando como era pequena, e fraca, e mulher, e como parecia a irmã menor do sujeito. Teve vontade de rir com a última sentença, considerando que ele estava lhe associando com alguém da própria família. Seria ótimo se ele pudesse lhe enxergar daquela forma e não só como um estorvo diário.
Afastou-se até o armário do homem após encarar a traseira do sujeito e a tatuagem que gradualmente estava se acostumando a observar. Secou as próprias mãos no próprio vestido e escolheu uma cueca, uma calça e uma camisa para o moreno, deixando tudo sobre o ombro antes de se aproximar de novo do corpo estendido na cama.
- Desculpa por deixar você assim nesse estado, Henrique. Eu deveria cuidar melhor do bolinha. - pediu enquanto apoiava o joelho na cama para jogar a toalha sobre o homem e lhe secar as costas. - E desculpa por ter atrapalhado o seu encontro com aquele homem. Ele parecia preocupado com você.
Era bem corriqueiro pedir desculpas ao moreno, devido a sua incrível capacidade de sempre deixá-lo irritado. Vestiu a cueca e a calça, uma peça de cada vez, erguendo o olhar e agradecendo por ele estar de costas e assim não precisar ver nada além do que já havia sido visto. Segurou o homem pelos ombros, fazendo um esforço para que ele se virasse já vestido com a calça.
- Sente um pouco, por favor. - pediu para poder puxá-lo devagar e obrigá-lo a se sentar. Pegou a camisa e continuou vestindo-o, terminando por passar a cabeça dele pelo buraco da roupa. - Já vou te deixar dormir. Tome um chá primeiro. Vai te fazer bem. - aconselhou, deixando a toalha sobre os ombros dele para secar os fios enquanto ele ainda estava grogue.
Henrique
A banheira estava confortável, a cama também estava confortável, mas parecia que havia sempre um empecilho para lhe deixar descansar como realmente queria. Rodou os olhos em irritação quando a sua colega de casa ainda lhe incomodou até conseguir lhe vestir um par de roupas, o que só constatou de certeza quando se sentou na cama por causa da insistência dela em lhe dar um chá ou o que quer que fosse.
- Eu juro... que vou lhe dar uma surra, se não sair do meu quarto... AGORA! - desvencilhou-se de todo o toque irritante da mulher.
Podia estar muito grogue, mas ela não colaborava em nada lhe incomodando o tempo todo. Já podia ter dormido pelo menos três vezes e ela insistia em lhe atrapalhar. Afastou-se com a camisa pela metade, tirando a peça de roupa de novo com certa irritação, quase rasgando o tecido no processo, e se deixando cair na cama com a toalha e tudo que estava ainda sobre seus ombros.
- Que ideia estúpida de morar com uma mulher... nem posso transar na cozinha... e ainda fica me enchendo o saco com essa bola de pelos... - continuou murmurando contra o colchão, puxando o lençol para se cobrir e se render ao sono finalmente, sem ter que tomar chá nem nada que ela quisesse, ainda deixando algumas palavras escaparem em seu estado semi-consciente antes de adormecer por completo.
Aquele tinha sido um dia longo e irritante, a única coisa que precisava era dormir bastante, sair daquela crise alérgica e estar recuperado no dia seguinte para recuperar o sexo perdido.
Magali
Assustou-se com a reação exasperada do moreno e se afastou da cama, os braços frente ao próprio corpo em modo de defesa. Respirou fundo algumas vezes até se dar conta de que o homem havia adormecido mesmo sem tomar o chá ou comer algo. Baixou o olhar, concluindo que ele deveria mesmo estar cansado. Voltou até o banheiro para secar a água que havia escapado da banheira e puxar o tampão do ralo para que a água escorresse. Pegou a bandeja com a comida que havia levado para não atrair insetos no meio do descanso alheio. Verificou a tranca das janelas em meio a chuva que caía ainda forte lá fora e apagou as luzes, deixando o cômodo para que o sujeito enfim pudesse descansar em paz.
Era curioso Henrique lhe comparar a uma irmã mais nova quando o sujeito só parecia pensar em trabalho, no próprio celular e em sexo. Só podia concluir que ele tinha problemas com a própria família, mas também com aquele tipo de comportamento irritadiço era difícil que ele não tivesse problemas com uma irmã mais nova. Deixou a situação de lado e voltou para a cozinha, pois ainda sequer havia jantado, e precisava tomar seu próprio banho, deixar a roupa molhada secando no varal e verificar as trancas da casa e os interruptores antes de ir para seu quarto, ler algum bom livro antes de adormecer também.
Só ficou de fato curiosa com a identidade do sujeito que auxiliara Henrique, pois o homem, apesar de não ter pudores sobre a cozinha alheia, não parecia despreocupado quando falava do corretor de imóveis. Também se recordou que o moreno havia lhe ameaçado e isso lhe deixou inquieta no próprio quarto, preferindo considerar que ele apenas estava muito irritadiço e fora de si devido ao remédio para alergia.
Assim que terminou sua leitura noturna, fez suas preces e resolveu também adormecer, apreciando o frio que a chuva trazia agora que estava protegida em sua própria cama com o felino filhote aos seus pés, buscando calor.
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