[Drive] Varejo e Atacado [Henrique; Abel]
#1
Henrique

Aquele nem era o fim de semana que Henrique estava responsável pelas compras para a casa que dividia com a ex-freira, mas depois da raiva do remédio para alergia ter acabado e de ter quase jogado o gato da janela do primeiro andar, resolveu sair de casa e ir até o mercado. Uma boa caminhada para comprar algumas coisas para casa e aproveitar e comprar os antialérgicos no caminho.

Não se importou de andar mais do que precisava, mais interessado no celular e na série de mensagens que lhe fez se distrair até passar do mercado do bairro e ir para o próximo, na área agora um pouco mais conhecida. Ajustou os óculos no rosto, pegou um dos carrinhos e seguiu pelos corredores com os cotovelos no apoio, uma das mãos ainda com o celular respondendo mensagens agilmente, a outra mão pegando alguns itens sem prestar muita atenção ao longo do caminho.

Aquilo foi suficiente para sentir o carrinho esbarrando em alguma coisa que ele tinha certeza de que não era a prateleira. Levantou o olhar do celular para ver que tinha esbarrado em outro carrinho que vinha na sua direção, e assim como ele estava distraído com o celular, o outro estava pegando algo na estante. A culpa era obviamente de Henrique, mas não que aquilo fosse lhe impedir de olhar feio para o outro.

- Preste atenção por onde está andando. - reclamou com o outro, ajustando o carrinho enquanto olhava para responder outras mensagens do celular.

Abel

As compras aos domingos eram obrigatórias. Tinha que deixar tudo organizado para a semana, especialmente refeições, pois nos dias em que Giles estivesse de folga, certamente o menino não gostaria de estar saindo para ir ao mercado. Se tinha folgas mais regulares, podia se dar o luxo de fazer compras por ele.

Foi no supermercado do bairro, ainda um pouco sonolento de ter acordado tarde após passar a noite jogando Imagem e Ação com o sobrinho, e pegou um carrinho para fazer a feira. Enquanto preguiçosamente jogava tudo no carro, em uma curva mal feita que fez, completamente distraído, sentiu um tranco no carrinho, e que ele havia acabado de bater em alguém.

- Ah, perdão, mons- - Abel tentou pedir, mas assim que viu a figura que optou por reagir ralhando duramente como se a culpa fosse inteiramente sua dos carrinhos trombarem. Nem ligava que ele estava preso no celular, sentiu o corpo arrepiar por inteiro. – V-v-v-v-v-v-você...! Me-me-me-me des-desculpa...! Naquele dia eu não tinha intenção d-de-de... nosso desentendimento, eu só- por favor não me bata...! Nem amassou o carrinho...! Olha, você todo perfeito. Agora vou m-me retirar porque estou só falando bobagens...! – Abel se exasperou, sacudindo as mãos freneticamente, levando elas até a testa, de forma que até parecia que ele estava mesmo suando frio naquela situação.

Henrique

Henrique ignorou o pedido de desculpas inicial do homem, e teria passado direto com a atenção ainda voltada para o celular, mas foi obrigado a parar ao ouvir a enxurrada de palavras gaguejadas que vieram depois e levantar os olhos atrás dos óculos de grau para encarar o homem que estava falando algo sem sentido sobre “aquele dia”. Henrique contorceu o rosto numa careta quando ele insinuou que já tinham se encontrado e pediu para não levar uma surra. Com certeza não lembrava de ter esbarrado e perdido seu tempo com um homem passivo como aquele.

- Do que você está falando? Está me confundindo com outra pes--

Ele parou a frase exatamente no meio ao parar de prestar atenção no celular e encarar o homem a sua frente. Ele era alto, a pele clara, cabelos pretos e traços muito familiares, para os quais Henrique estreitou os olhos ao associar com a única pessoa em quem tinha batido nos últimos dias.

- É você! A drag da silver tape! - ele acusou, com o tom de voz um pouco mais alto que o necessário. - “Não tinha intenção?!” tinha intenção até demais, pelo que eu vi!

Abel

Abel só percebeu a merda que fez quando viu o outro sujeito levantar o olhar em sua direção. Até então, ele estava tão focado em seu celular que não tinha parado para observar diretamente seu rosto. Os olhos escuros do professor de teatro arregalaram diante da perspectiva de que agora o moreno de fato teria um motivo para lhe dar outra surra. Deus, ele e sua boca grande demais.

- M-m-m-m-m-m-m-m-minha santa Cher! – engasgou, encolhendo os ombros com o berro que ele deu quando percebeu que estava falando com a drag queen do outro dia. Ok, talvez ele nem tivesse gritado, mas Abel sentia como se tivesse levado um grito. – E-eu estava bêbada... n-não queria... quer d-dizer... queria, no fundo, no inconsciente porque eu tô há muito tempo sem um relacionamento e-e-e.... isso não é relevante! Eeek! – tentou se explicar, piorando a situação. – Eu só quero d-dizer que eu não queria roubar ninguém de você...! Eu estava f-fora de mim... levei tudo na brincadeira... d-d-d-desculpa que eu sou muito avoada!

Abel puxou o carro da frente do de Henrique, ainda numa postura bem defensiva para quem teoricamente já tinha se desculpado.

Henrique

Henrique só torceu a expressão em desgosto com todo o gaguejado do estranho e ele ainda teve a ousadia de admitir que tinha mesmo interesse em lhe atrapalhar já que não estava num relacionamento há muito tempo - claro que ele ignorou todos os outros comentários no meio do caminho que tentavam justificar a atitude de um bêbado ou de que se tratava apenas de uma brincadeira. Quando ele tentou se afastar com o carrinho saindo da frente do seu, fez questão de empurrar o seu carro de volta para atrapalhar o caminho dele.

- Quer dizer que você queria muito um "relacionamento"? Ótimo lugar pra arrumar um namorado, não é? - ele reclamou, baixando o tom de voz porque o seu tom mais alto e o som dos carros batendo foi o suficiente para chamar atenção de outros clientes, usando o outro em seu caminho apenas para descontar mais do estresse que tinha ao sair de casa naquela manhã. - Quem sabe eu possa lhe ajudar com alguns contatos. Conheço alguns caras que seriam ótimos para você. Você trabalha no Mary Stigmata quais dias? Qual o seu nome mesmo?

Ele fez questão de empurrar o carro com mais força a cada pergunta incisiva, como se fosse mesmo dar um jeito de que alguém descontasse a sua raiva no outro.

Abel
Já estava pronto para sair com o carrinho e se livrar daquele problema que tinha encontrado acidentalmente, mas pelo visto o problema estava disposto a lhe bloquear com a mesma vontade. Tinha saído de casa apenas para fazer compras, não para discutir com alguém em um supermercado. Era muito cedo pra isso.

- Ai, ai, ai...! N-não era bem um namorado... n-não daria um passo maior do q-que as minhas pernas... era s-só um envolvi- por que eu estou tentando justificar isso??! – Abel começou rapidamente, mas logo percebeu que não era exatamente a melhor perspectiva se ficasse tentando justificar ao homem de óculos seu comportamento aquela noite. Tensionou o corpo todo quando sentiu ele empurrar o carrinho com mais força, tentando não sair daquele espaço. Em volta, alguns clientes estavam olhando para os dois enquanto passavam. Abel até estava assustado, mas certamente ficou ainda mais pálido com a ameaça velada de Henrique. – A-A-A...! Por favor, n-não peça a ninguém para me bater... e-e-e-eu já levei surra para uma v-vida, tenho um sobrinho para cuidar – Meu Deus eu não devia ter dito isso!! Meu nome é Abel...! P-Por favor, que i-i-isso fique entre a gente...! Não faça nada com minha famíli... ahh..

Abel começou a se desesperar a medida que falava, os olhos marejando enquanto sentia ficar cada vez mais sem ar. Levou a mão ao peito procurando respirar mais calmamente, mas encarar a plenitude de Henrique a sua frente lhe fazendo uma ameaça indireta, e do soco merecido que ele lhe deu, e de outros que levou, ficava cada vez mais difícil ficar controlado. Estava tão mais branco que o normal que poderia até desmaiar.

Henrique

Foi uma satisfação pessoal para Henrique ver o homem à sua frente praticamente desabar com a ameaça breve. Ao menos lhe tirou do marasmo daquela manhã irritante, e já ia voltar ao seu caminho quando o medo da ameaça começou a se tornar num desespero real, quase palpável, a ponto de chamar mais atenção das pessoas ao redor e dele começar a ficar com falta de ar. Henrique piscou algumas vezes, fechando a cara de novo para a situação que estava se agravando por causa de uma ameaça estúpida.

- Não me diga que vai entrar em pânico por causa disso?! Seja homem! - reclamou praticamente entredentes, para não chamar mais atenção ao redor, mas pelo visto o outro nem lhe ouviu reclamar. - Pelo amor de Deus, que viado fresco!

Ele ajustou o óculos no rosto e deu a volta no carrinho, deixando as compras de lado, até se aproximar do outro e lhe segurar pelo braço.

- Venha comigo. - puxou-o ao longo do corredor sem esperar autorização, colocando um pouco de força também porque só faltava ele começar a achar que ia dar um jeito no caso ali mesmo. Aproveitou um dos corredores para pegar uma garrafa de água nas prateleiras e procurou algum lugar com menos olhares curiosos e onde pudesse colocar o outro pra sentar. Não foi nada delicado em empurrá-lo para sentar num dos bancos de madeira perto das filas dos caixas. Estendeu a água para ele. - Beba, pra ver se fica mais calmo.

Abel

Abel já nem prestava atenção nas pessoas ao redor que julgavam tanto ele quanto Henrique. Queria honestamente não ser um “viado fresco”, mas o que poderia fazer naquele ponto da sua vida, em que as surras já não eram uma ameaça casual ou algo que apenas lhe atingia? Tremeu inteiro quando o homem pegou seu braço, lhe levando para outro lugar a força.

Foi o caminho todo tentando controlar a respiração, mas a medida que parou de hiperventilar, começou a soluçar, e as lágrimas foram caindo pelo rosto no caminho até os caixas. Parecia um pai com o filho pequeno fazendo birra porque não podia levar o pacote de biscoito. Sentou porque tinha que sentar e pegou a garrafa d’água, bebendo um gole e tossindo em seguida.

- Uaahh...! Be desgulpaaaa...!! – pediu ao outro, não querendo exatamente morrer, mas sentindo a necessidade intensa de se desculpar. Até agarrou a pontinha da camisa dele, sentindo uma falsa sensação de segurança de implorar, e acabou agarrando um pouco mais da camisa. – Eu dão queria ser dão froujo...! M-m-m-mas... eu denho bêdo de levar uma z-z-z-zurra... hic...! – chorava copiosamente, os dedos firmemente presos ao outro homem. – E-Eu breziso criar beu zobrinho...!!

Henrique

Pelo visto “ficar calmo” não estava nos planos do moreno e Henrique até sentiu a paciência se esvaindo por completo ao ver o outro se debulhar em lágrimas por causa de uma conversa estúpida como aquela. Cruzou os braços e começou a bater a ponta do pé acelerado, só percebendo como eles ainda chamavam atenção das pessoas ao redor por causa do choro do adulto - e como não chamariam atenção com aquele homem soluçando copiosamente. Levou uma mão até as têmporas, ajustando depois o óculos no rosto ao sentir a mão dele segurando a sua camisa e aquele desespero de dizer que não queria levar uma surra.

- Eu não vou mandar ninguém lhe bater, dá pra se comportar como um adulto de verdade?! - Henrique reclamou, suspirando resignado. - Devia levar uma surra pra parar de fazer cena, parece criança.

Henrique puxou a manga da camisa que estava usando para segurá-la com os dedos e cobrir a palma da mão, ergueu o rosto de Abel com a mão livre e passou a manga da camisa no rosto dele, limpando as lágrimas excessivas e o nariz escorrendo, fazendo uma careta no processo.

- Argh, chega desse choradeiro. Você consegue ser pior que a freira. - ele se sentou ao lado de Abel, sacudindo a mão da manga da camisa como se aquilo fosse resolver as manchas do choro alheio. - E termine de beber a água.

Abel

Não importava muito o quanto o rapaz lhe dissesse para parar de chorar. O perigo iminente de uma surra lhe deixar nervoso. Só que ouvir dele que não levaria nenhuma surra lhe transmitiu uma verdadeira sensação de alívio. Já estava todo bagunçado, as lágrimas ainda escorriam e ainda soluçava, mas quando o homem a sua frente lhe disse que nada ia lhe acontecer, e ainda limpou toda sua cara com a delicadeza de um cavalo cego, sentiu que verdadeiramente estava fora de perigo.

- Verdade...? Verdade que você não vai me bater...? – Abel perguntou, com a cara ainda toda cheia dos rastros de lágrimas e os olhos ainda marejados, enxugando um resto de água do nariz que Henrique tinha evitado com sucesso, embora a manga da camisa dele estivesse uma bagunça. – Ai, obrigado...! Obrigado...! – prontamente decidiu obedecer, pegando a garrafa de água e tomando como tinha sido mandado, se acalmando um pouco mais. Deu um longo suspiro, a respiração voltando aos poucos ao normal. – Me desculpe por surtar... pior que uma freira... seja lá o que isso quer dizer...

Abel ainda sim não tinha largado a camisa do outro, ainda na falsa sensação de segurança de demonstrar o quão patético podia ser.

- P-p-podemos começar de novo... sem a-a-ameaças? Eu... peço desculpas por tudo que fiz... eu estava meio alto, e acabei passando dos limites com você. Meu nome é Abel. Qual o seu? – perguntou, erguendo os olhos de coitado para o outro homem.

Henrique

O rodar de olhos de Henrique foi notável até para Abel que estava bem ao seu lado quando ele ainda perguntou se era "verdade" que não ia bater nele. Já tinha feito aquilo, depois de toda aquela cena no supermercado, não precisava se dar mais ao trabalho.

- Eu não vou te bater, mas que saco! - Henrique reclamou de novo, massageando o espaço entre os olhos por baixo do óculos de grau. Suspirou longamente enquanto o aparente adulto se acalmava.

Ao menos a quantidade de olhares ao redor tinha diminuído. Se tinha uma coisa que não precisava era de pessoas lhe julgando e espalhando comentários desagradáveis sobre si que só dificultariam o seu trabalho - e era por isso que também odiava cidades pequenas. Voltou o rosto para o outro ao seu lado, agora mais composto e tentando "começar de novo".

- Contanto que você não se meta nos meus casos. - Henrique respondeu, ajustando o óculos no rosto. - Henrique. - respondeu a apresentação. - Vai ficar chorando ai o resto do dia? Não disse que tinha um sobrinho pra criar?

Abel

Sacudiu a cabeça negativamente quando o tal Henrique enfatizou que não deveria mais atrapalhá-lo. Não iria mais fazer isso, e faria questão de anotar mentalmente que não deveria beber perto do rapaz. E nem tirar sarro dele vestido no bar. Aliás, seria mais sensato evitá-lo no bar de todos os modos e deixar que fizesse o que queria. Suspirou longamente para tentar se acalmar e terminou de enxugar os rastros de lágrima no rosto, ainda com uma expressão bem cansada.

- Ah, sim... meu sobrinho está me esperando... eu vim fazer a feira para preparar a comida da semana. Não posso contar com ele para tudo... – comentou, levantando devagar, pondo-se de pé ao lado de Henrique, embora a postura mais retraída que a do corretor fizesse com que Abel parecesse até um pouco mais baixo do que era. – E-eu... atrapalhei suas compras também, não foi..? Podemos voltar... eu lhe ajudo. Sou uma fantástica dona de casa... isso é... é o que meu sobrinho diz.

Não podia dizer que estava inteiramente confortável com a situação, mas ao menos era melhor do que a iminência de uma surra.

Henrique

Finalmente o homem pareceu se recompor e enxugou o resto de lágrimas que tinha no rosto para se colocar de pé, reforçando que tinha ido fazer a feira da semana. Pensando bem, ele também tinha ido comprar algumas coisas para casa e tinha sido só pra se distrair, mas agora que estava ali, lembrou que precisava mais repor os anti-alérgicos do que comprar comida. Ao menos não podia negar que aquela confusão toda tinha tirado a sua raiva do gato em casa. Ainda ouviu a sugestão do moreno de ser ajudado nas compras e se colocou de pé de novo.

- Hm, não precisa. Já desisti de comprar qualquer coisa aqui. - Henrique ajustou a manga da camisa que estava suja e pegou o celular no bolso para conferir as novas mensagens. - Ainda vou passar na farmácia.

Ele nem se preocupou em se despedir direito, só colocou uma das mãos no bolso e seguiu para fora do supermercado, mais concentrado no celular e nas milhares de mensagens acumuladas do que no caminho que estava seguindo. Ao menos a discussão idiota dentro do supermercado lhe fez substituir uma raiva em casa por outra mais manejável.

[Thread encerrada]


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