[Drive] Delinquent Date [Isaac; Ange]
#1
Ange

Didier, o cupido, tinha funcionado. O primeiro encontro de Isaac e Ange tinha sido um sucesso, então o loiro motivou o conhecido a ter um segundo encontro. Com o número de Isaac para trocar algumas mensagens casuais que não atrapalhassem a agenda apertada do aluno de St. Clavier, Ange decidiu ser proativo para convidá-lo para um segundo encontro ainda no meio da semana, esperando que um intervalo de 7 dias entre um encontro e outro não fosse pouco. Até pensou em se encontrarem a noite de novo, mas se pensasse no que era melhor, já tinham estado em um ambiente formal, e não queria gastar muito mais do dinheiro de Isaac, então pensou em um lugar onde poderiam ter um encontro bom sem necessariamente gastar muito dinheiro.

“Oi, Isaac! O que vai fazer no final de semana? Está ocupado?? Quer dar um passeio no parque xxx na tarde de Sábado, umas 15h? Não sei se gosta de doces, mas vendem crepes lá. E tem um café. E é um lugar legal para caminhar e conversar mais. Quer dizer, essas são só as desculpas, eu só queria ver você de novo, hehe. Me diga se puder ir! ~ Ange”

Os planos de Ange deixariam Didier orgulhoso. Poderiam ter um encontro num sol mais ameno, lanchar no parque, caminhar e conversar, e, quem sabe, dependendo de como tudo ocorresse, dessa vez teria tempo para arrumar seu apartamento para convidar um homem como Isaac até lá. Se bem que, considerando o tipo de pessoa elegante que ele era, era melhor mesmo que estivessem perto de algum motel, ainda que não quisesse que ele gastasse dinheiro pagando.

Esse tipo de pensamento ocupou a cabeça de Ange por todo o resto da semana até o Sábado, em seu trabalho, enquanto faxinava o apartamento na Sexta a noite, enquanto escolhia um look fofinho que combinasse com seu encontro em um parque, até estar (novamente mais cedo do que deveria) no ponto de encontro combinado, próximo a uma das entradas do parque, que ficava mais perto a pé do seu apartamento. Ao menos tinha sido confortável andar de sapatinhos flat e macaquinho jeans, que deixavam suas pernas bem a mostra, como gostava. O ponto negativo era que o lugar era bem mais vazio aos sábados do que esperava. Provavelmente a maioria das famílias, aquela hora, não gostaria de estar entrando em um parque que ficaria escuro em breve, e cheio de namorados se escondendo no mato.

Distraído, Ange mexeu na alça de sua bolsa e balançou nos pés enquanto observava um sujeito vir apressado depois de dobrar a esquina, pensando que talvez fosse melhor não ter vido de macaquinho, afinal, não era exatamente a peça mais sexy de despir. E se Isaac não gostasse de como estava vestido tão casualmente? E se ele preferisse situações mais formais? Ele certamente combinava com situações mais formais. Mas nem tinha tanto dinheiro. Franziu de leve a testa, só notando o sujeito da esquina de novo quando ele parou do seu lado, lhe berrando na cara.

- Me da a bolsa!! – ele esticou a mão para pegar sua bolsinha recém-comprada no brechó, e Ange franziu a testa de modo muito evidente.

- Hã?! – Ange pegou o assaltante de volta pela camisa, notando que ele nem tinha vindo lhe assaltar com uma arma na mão, o incompetente. Empurrou ele na parede com força, prendendo-o, e do bolso do próprio macacão, sacou uma faca retrátil, encostando-a no pescoço do sujeito que perdeu todo o sangue do rosto de uma vez. – Olha aqui, seu merda. Eu estava pensando e você me atrapalhou! Você deu a sorte de tentar me roubar em um dia que não dá pra sujar a roupa de sangue, porque eu tô esperando pro meu encontro! Porque geralmente, malandro otário que nem você eu mordo, mastigo e cuspo. E uso isso aqui pra palitar os dentes.

Ange podia ser pequeno, e estar vestido de muito fofo, mas com aquele tom de voz e uma faca direto em cima do pescoço, as palavras pareciam mais convincentes do que se fosse um bandido de dois metros de altura. Aliás, de fato. Ange era um delinquente. Esse lado certamente Isaac não poderia descobrir. Mas pela cara pálida do assaltante, ele fugiria dali no segundo que folgasse o imprensado com o braço.

Isaac

No fim das contas, o encontro com Ange não tinha sido tão mau. Claro que ele ainda voltou ao dormitório para ser recepcionado por um Didier e um Renaud que estavam muito interessados em saber o que tinha feito no tal encontro, e exceto pelo fato de não gostar de ter sido enganado para ir até o restaurante, os dois pareciam estar se divertindo demasiadamente enquanto ele respondia algumas das perguntas sem nem pensar duas vezes.

Mas Ange era uma garota adorável, bonita e delicada, e ele gostava daquilo. Não estivessem tão próximos do fim do semestre, ele estaria mais livre para entrar em contato com a jovem e marcar outro encontro, mas a agenda costumeiramente cheia da semana lhe distraiu daquela possibilidade. Foi até bem conveniente que ele mesmo recebesse uma mensagem de Ange no meio da semana, não teria como encontrá-la nos dias de aula, mas foi mais conveniente ainda que ela sugerisse lhe encontrar na tarde de sábado, que era quando estava bem mais livre.

"Olá, Ange. Não estou ocupado nesse horário, posso encontrá-la no parque. Me mande o local exato. Att, Isaac D. Lemont".

A resposta foi tão breve quanto qualquer outra mensagem que ele trocava com os demais alunos e amigos, então seguiu o resto da semana sem trocar muitas mensagens e terminar os trabalhos na academia. No sábado, estava vestido numa calça jeans mais ajustada preta, sapatos claros, camisa branca e um blazer bege por cima. Ele seguiu para o ponto de encontro que Ange tinha especificado, não faltava mais do que cinco minutos para as 15h, e depois de conferir o horário no relógio de pulso, ergueu o rosto para dar uma olhada ao redor, encontrando a garota que seria o seu encontro. Mas ela não estava sozinha, e não parecia nem um pouco interessada em estar acompanhada do homem a frente dela.

A expressão de Isaac mudou no mesmo instante e a primeira coisa que ele fez foi dar passos largos na direção da jovem, pegando o celular dentro do bolso da calça para chamar a polícia antes mesmo de alcançar a dupla.

- Ei! Afaste-se dela agora mesmo. - ele esperou estar a apenas três passos de distância para chamar a atenção do marginal que ameaçava a garota.

Ange

O bandido muito ruim tinha ficado a ponto de mijar as calças apenas com a ameaça de Ange, e nem tinha feito muito. Provavelmente era um ladrão péssimo: até porque tinha ido até ali para agir sozinho sobre uma pessoa com aparência delicada e ainda se deixado intimidar por ser pego de surpresa quando Ange reverteu a situação. A falta de reação dele fez com que decidisse soltar o homem devagar, deixando-o com a sensação de que poderia escapar quando não era bem assim, para que aprendesse a fazer um trabalho mais significativo. Em breve teria um encontro, e não deveria perder tempo dando lição de moral em delinquentes novatos. Mas estando em alerta depois da tentativa de assalto, foi impossível não ouvir os passos que se aproximavam, e Ange virou o rosto para dar de cara com Isaac vindo de longe para lhe encontrar no parque.

O sangue drenou completamente de seu rosto e os olhos arregalaram como se fosse um bicho pego nos faróis de um carro prestes a ser atropelado. Muito bem, Ange. Mal tinha conseguido um encontro, agora ele lhe veria com uma faca retrátil em mãos e ameaçando outro delinquente. Estremeceu, tendo contato olhos nos olhos com Isaac. O que poderia fazer naquela situação para não estragar tudo apenas porque um imbecil decidiu entrar em seu caminho. Isso tudo aconteceu em um segundo, até que o lado esquerdo e o lado direito do cérebro de Ange se uniram para produzir uma saída.

Suando frio, Ange olhou para o assaltante com os olhos arregalados e então pegou a faca e entregou em direção a ele.

- Toma, pega isso…! - Ange murmurou num tom de ordem, a mão com a faca se movendo freneticamente até encontrar a do bandido, entregando a faca a ele. E então em outro movimento ágil, ainda segurando o homem pela camisa e pela mão com a faca, virou a posição dos dois, para que suas costas ficassem no muro do parque com o homem parecendo estar quase usando a faquinha para lhe agredir, embora estivesse com a mão na dele e a outra na gola que poderia esganá-lo em um instante. Ange então notou que Isaac tinha se apressado e agora estava indo lhe ajudar, o que queria dizer que seu plano estava dando certo, só precisava continuar. - … A-Aaah! U-Um la-ladrão…! Socorro…! Socorro…! - Ange tentou atuar, saindo de um jeito bem monotônico, e até causando o ladrão a parar de resistir.

- É o que, véi…?? - o ladrão tentou se soltar, mas Ange o segurou, e a briga toda ficou parecendo algum tipo de assalto pastelão. - Sua doida…!!

Isaac

O aviso de Isaac pareceu ser o suficiente ao alcançar a dupla, e quando ele estava perto demais, o ladrão se afastou de Ange, empurrando-a contra a parede e saindo correndo ao longo do corredor. Ele ainda estava com o celular no ouvido enquanto a emergência da polícia respondia do outro lado. Avisou logo no celular que tinha sido uma tentativa de roubo e parou o relato no meio ao alcançar Ange.

- Você está bem? Ele lhe machucou? Levou alguma coisa? - ele despejou as perguntas na garota com a expressão completamente pálida, e não era surpresa que estivesse tão assustada depois daquela situação. Levou uma mão ao ombro dela para tentar passar algum conforto enquanto esperava alguma resposta para que pudesse dar mais detalhes no celular, adicionando a descrição detalhada do ladrão antes que Ange pudesse lhe dizer se algo tinha, de fato, sido roubado.

Ele não se estendeu na ligação e depois do registro da ocorrência, estava mais interessado em conferir se a garota estava bem. Deixou o celular de volta ao bolso, parando de frente para Ange, a preocupação bem evidente na expressão com as sobrancelhas franzidas.

- Ange? Está tudo bem agora. Venha comigo, vamos procurar um lugar para sentar e beber alguma coisa. - Isaac sugeriu, estendendo a mão até segurar a dela, que estava fria. Ele apertou os dedos dela na palma da mão. - Desculpe não ter chegado antes. Podia ter evitado isso.

Ange

Talvez o desespero tivesse falado mais alto na mente do assaltante fajuto, porque ele tirou força o suficiente para lhe empurrar na parede e saiu correndo, levando sua faca sem sinal nem de como saber usá-la.

- Ahh…! - Ange ainda pensou em gritar, porque não queria ter que comprar outra faca retrátil, mas já era tarde demais e o sujeito estava na outra esquina. Porém, como se de repente tivesse lembrado o motivo do próprio pânico, Isaac chegou lhe perguntando se estava bem, e arregalou os olhos, sentindo o suor descer pela testa. - E-e-e-e-estou sim…! - até falou mais fino, e o medo e o susto certamente não se deviam a tentativa de assalto, e sim, de ter quase perdido a chance do encontro com Isaac. Sacudiu a cabeça negativamente sobre ele ter levado alguma coisa, mas logo sua expressão tomou um tom triste e seus ombros baixaram, deixando a bolsa que carregava quase pender ao chão. Bom, aquele imbecil tinha roubado sua faca, se valia de alguma coisa.

Seu pensamento foi tirado completamente da cena anterior toda quando Isaac, com uma expressão claramente preocupada, lhe convidou a sentar e lhe pegou pelas mãos para guiar até um lugar onde pudesse descansar. O deslumbramento no seu rosto era evidente, afinal, mesmo naquele momento tenso, ele tinha tentado lhe proteger. Apertou a mão dele de volta, sentindo o rosto queimar.

- Ah… não se culpe, n-não foi sua culpa! Foi só azar! - Ange tentou rebater, notando que Isaac estava se culpando pela situação infeliz em que tinham se metido. - Já foi… bom o suficiente que tenha vindo me ajudar. E v-você poderia ter se machucado também…! - falou, apertando os lábios e entortando-os de leve, olhando Isaac de baixo enquanto chegavam até uma banquinha no parque que tinham algumas mesinhas próximas. - Ninguém nunca veio em meu resgate antes… muito menos com essa cara preocupada…! - falou, abrindo um sorriso tímido. - Eu tô bem agora graças a você!

Isaac

Isaac levou a garota para se sentarem num dos bancos da praça, ainda deu uma boa olhada ao redor para conferir a movimentação e ver onde podia comprar uma água para ela, mas não havia nada por perto e certamente não ia deixá-la sozinha de novo para que uma coisa parecida não acontecesse.

- Hm. Eu queria não estar acostumado com esse tipo de gente, mas eu convivi com Didier e Renaud por tempo suficiente para lidar com delinquentes mais do que gostaria de lembrar. - Isaac respondeu, ainda dando uma longa olhada na garota para ter certeza de que não havia nenhum machucado, a mão ainda segurava a dela na sua. Mas ele ergueu o olhar de novo para encará-la de volta com uma expressão quase indignada quando ela disse que ninguém tinha lhe ajudado antes. - Isso já aconteceu mais vezes? Você fez boletins de ocorrência na delegacia? Se ninguém veio lhe ajudar em outras situações, está precisando de companhias melhores.

Isaac deu outra olhada ao redor, mas embora houvesse um pouco de movimento no parque para deixar que Ange esperasse por ele enquanto ia comprar água, só deixou que alguns instantes se passassem para que ela se acalmasse e avistou o café aberto a uma curta distância ainda no parque para poderem se sentar num lugar mais tranquilo.

- Vamos até o café, assim você pode beber alguma coisa e se acalmar. Precisa de algo mais? Está mesmo bem?

Ange

Ange até tremeu quando Isaac mencionou que sabia lidar com delinquentes porque convivia com Didier e Renaud. A primeira tremedeira foi o receio do moreno saber detectar delinquentes, ou como ele colocou “esse tipo de gente”, mas pelo visto ainda estava se saindo bem tentando parecer uma boa pessoa ou nem estariam conversando. A segunda foi por lembrar das situações em que viu o Hellhound em ação. E Isaac tinha aprendido a lidar com delinquentes com ele E a Mama. Se fizesse algo que o desagradasse além de perder um possível namorado, poderia até perder um dente. E já tinha um faltando no fundo.

A única vantagem daquilo tudo era que Isaac seguia segurando sua mão e lhe olhava de modo preocupado. Realmente era uma boa mudança de ares, nunca mais tinha encontrado alguém que se preocupasse. Até se sentiu mal por ter dito que ninguém se preocupava. Não era mentira, mas também seus amigos próximos sabiam que não era frágil assim.

- N-não…! Eu nunca fiz Boletins de ocorrência… nunca levaram nada meu. - falou, então apertando os lábios e pensando que quanto mais escondia que sabia se defender, mais difícil era explicar como funcionam seus relacionamentos interpessoais. Era melhor só que o assunto se fosse. - E-eu tô bem. De verdade!

Seguiu Isaac até o café, supondo que finalmente poderiam se livrar de toda a ideia do assalto e seguir com um encontro romântico como aquele era para ser afinal. Arrumou um assento e abriu um sorriso satisfeito, as mãos sobre as próprias pernas.

- Acho que finalmente começou nosso encontro, não é? Acho que quero um café bem forte. - Ange comentou, supondo que ali pelo menos poderia pagar algo para Isaac de volta. - E você pode pedir qualquer coisa pra mim. Quero pagar de volta sua gentileza em me ajudar!

Isaac

Isaac franziu o cenho obviamente mais incomodado quando a garota ainda reforçou que nunca tinha feito boletins porque nada tinha sido levado. Não mudava o fato de que podia ser perigoso ser abordado por um ladrão que fosse violento. Ele já tinha passado por algumas dificuldades naquele sentido também.

- Mesmo que não levem nada, é melhor reportar para a polícia, assim pode ter uma chance de prenderem esses delinquentes. - Isaac reforçou, e logo estavam no café, acomodados a uma das mesas e longe daqueles possíveis problemas. Só então ele relaxou um pouco mais a expressão e até a postura, concordando com um aceno de cabeça quando ela disse que queria logo um café forte e que podia escolher algo. - Sim, podemos seguir com nosso encontro.

Isaac fez um sinal para um atendente e pegou o cardápio, para adiantar o pedido das bebidas, adicionando um café para ele também e alguns combinados do cardápio com várias pequenas porções de doces e salgados que acompanhavam bem um lanche no fim da tarde.

- Você gosta de doces? Eu não costumo comer muitos doces, mas se não se importar, podemos pedir itens variados e provar coisas diferentes. - ele sugeriu para a garota antes de confirmar com o garçom o que pediriam.

Ange

Ainda levou uma bronca porque Isaac pelo visto era muito intenso em reforçar que deveria ter chamado a polícia de todo modo para fazer o boletim de ocorrência. Ele era bem certinho. E o fato de que ele lhe dava bronca mesmo que fosse por algo tão pequeno lhe deixava até feliz. Era um sinal de preocupação com seu bem estar, o que era raro que tivesse ultimamente.

A sugestão dele foi muito bem vinda, para que experimentassem muito das comidas do café em pequenas porções, e ficou feliz que aquela foi a escolha de Isaac, porque tinha recebido e poderia pagar por esse tipo de degustação. Era um pouco mais barato do que os jantares completos, caso fossem a um restaurante por exemplo. Mas ainda dava sinais de que teria que apertar o cinto no fim do mês.

- Eu não como muito doce também, mas eu vou adorar provar de tudo um pouco! – exclamou com um ar animado, confirmando a Isaac sobre o pedido.

Sobre apertar os cintos, quando a comida foi chegando aos poucos, deu foi graças que não estava usando nenhum, pois estaria precisando e espaço para o estômago. Foi bem legal dividir os pequenos pedidos com Isaac e provar diversas coisas diferentes, tudo tentando manter claro, a boa educação e não parecer que iria devorar o mundo. Isaac tinha provado muito mais daquelas coisas que Ange, algumas sobremesas eram muito sofisticadas e longe do que compraria no dia a dia, mas tinha apreciado toda a experiência.
- Estava tudo tão bom! Hmm! Foi uma ideia ótima, Isaac! – Ange comentou com satisfação, terminando de beber sua xícara de café. Nesse ponto, estava confiante que aquele encontro tinha sido mais uma experiência divertida, começando com um assaltante idiota ou não. – Eu vou até o toalete, com licença. - Era bom olhar se não tinha chocolate entre os dentes antes de ficar sorrindo que nem besta para o moreno a sua frente e descobrir que tinha doce nas frestas.

Mas porque quando algo começava muito bem na sua vida, sempre terminava mal, assim que deu alguns passos na direção da cafeteria, ao longe, não foi difícil observar a figura gigantesca e careca com uma barba espessa e roupas escuras que se aproximava com cara de poucos amigos.

- Aaah, não...! – Ange deixou escapar baixinho.

- Ahh...! Ange!! Ei, Ange!! – o sujeito apertou tanto o passo em sua direção que parecia um touro prestes a lhe chifrar. Porém isso teria sido menos doloroso do que ser agarrado e levantado num abraço apetado pelo outro.

- Cé-... Cécil... vai... estragar... tudo...!! – tentou reclamar, baixinho, mas o outro estava animado em seu cumprimento. Se apertasse demais, era capaz da comida toda também decidir fazer uma reaparição.

Isaac

Como combinado, eles pediram algumas coisas do cardápio e dividiram a maior parte, embora Isaac evitasse tudo que era exageradamente doce. Era uma boa mudança de ares conversar um pouco com Ange e não estar preocupado com o trabalho, além de esquecer dos problemas de relacionamento anteriores. A jovem era adorável e descontraída, o que era um belo contraste com ele mesmo, então nem fazia ideia do por que ela estava ali bem interessada nele.

Até pensou em perguntar, mas só acenou em concordância quando ela pediu licença para ir ao banheiro. Aproveitou para terminar de tomar o café que tinha pedido e pediu mais uma água para encerrar a conta. Ainda houve tempo suficiente para que a atendente trouxesse a conta e ele ficasse com a garrafa de água em mãos, mas Ange não tinha voltado. Ele continuou sentado e depois de alguns instantes, deu uma olhada ao redor esperando que Ange estivesse voltando, mas foi bem em tempo de avistar a garota sendo atacada por um homem enorme no caminho de volta ao café.

A reação de Isaac foi tão pronta que ele deixou a garrafa cair e quase derrubou a cadeira ao se levantar e praticamente correr na direção da garota. Ela tinha acabado de passar por uma tentativa de assalto e agora estava sendo agredida por outro delinquente em plena luz do dia? Ou Ange tinha muito azar com delinquentes, ou a criminalidade de Cerise estava preocupante.

- O que está fazendo com ela?! Solte-a! - Isaac acusou o gigante que estava agarrado em Ange.

Ange

O aperto de Cécile era tão forte que sentia seus ossos saindo dos lugares de origem. Provavelmente seria um quadro de Picasso quando ele terminasse de lhe apertar. E pior, ele nem lhe ouvia pedindo para soltar, simplesmente porque aquela forma diferente de carinho dele era costumeira. Antes que ele até descolasse sua peruca e lhe deixasse em um estado bagunçado, agarrou os lados do corpo dele com as unhas e pensou em sacudir o joelho para chutá-lo direto nas bolas. Porém, antes que pudesse se mover, ouviu Isaac atrás de si, tentando lhe proteger de novo.

- Ahh, não…! - exclamou quase sem ar, pensando que se Isaac se metesse com Cécile, da possibilidade de namorado, ele seria seu futuro ex sem nunca nem ter sido namorado primeiro. Ex-tinto.

- Tô dando o amasso que ela merece! E quem é você pra interromper, ein, ô?? - Cécile respondeu enquanto passava Ange para um braço só, praticamente segurando o corpo pequeno como um saco de batatas, as perninhas curtas penduradas.

Pelo menos deu tempo de Ange respirar fundo.

- Isaac…! N-Não…! Huff… tô bem… Céci… conheço ele… m-meu… primo…??? - falou mais como uma pergunta, em dúvida se aquela era uma boa opção. Mas era melhor do que falar que eram amigos dos tempos de delinquente.

- Não sou seu p-...! - Cécil ia responder, mas o braço de Ange passou por trás de suas costas e as unhas deram um beliscão seguro na gordura acima da cintura de modo discreto, fazendo-o soltar Ange finalmente. Cécile olhou para Ange com indignação. - Só se for por parte de mama, Ange!

- N-não deixa de ser…! - Ange reclamou baixinho e levou a mão até o estômago, se curvando para esconder a cara de dor e a de vontade de matar aquele trambolho gigante que conseguia ser mais burro do que Ange. E o aperto no estômago cheio parecia ter termiado de dar um nó.- Ai…! D-desculpa te assustar, Isaac…! - falou, erguendo a cabeça aos poucos.

- E esse aqui é o que, ein? Tá muito arrumado e limpinho pra ser namorado seu.

Ange levantou o rosto subitamente e arregalou os olhos para Cécile, sentindo o ódio subir. Sua raiva, entretanto, só não foi maior do que o vermelho de vergonha dele comparar seus ex-namorados horríveis com Isaac. Franziu a testa e apertou a boca para conter a vontade de xingar Cécile, e segurou a barra do macacão curtinho.

- “Esse aqui” tem nome, é Isaac, e é muito mais legal que qualquer pessoa que eu tenha conhecido, então respeite ele! - vontade mesmo tinha é que dar um soco na cara do gigante, mas gastou seu fôlego respondendo, se segurando para não berrar, os olhos quase marejando porque o encontro começou mal e só ia afundando mais. Para piorar, tinha aquela sensação de que seu estômago estava do avesso. - ... Urgh… acho que comi demais...

Isaac

Isaac podia ser bem sensato e não gostar de arrumar confusão. Mas não queria dizer que não sabia como fazê-lo, especialmente tendo convivido com Renaud e Didier por tanto tempo, nos melhores e piores momentos. A atitude do homem enorme que tinha agarrado Ange só lhe deixou mais alerta e irritado, e enquanto teria sido mais sensato só chamar a polícia, ele estava bem inclinado a pelo menos dar uns bons socos no homem para soltar a garota antes de ir até a delegacia. Seria uma questão de auto-defesa, ninguém poderia julgá-lo.

Mas antes que ele concretizasse a ideia de avançar no maior, Ange que o interrompeu, esclarecendo que estava bem e que conhecia o tal gigante que era primo dela.

- Seu primo...? - não que os dois precisassem ser parecidos para serem da mesma família, e o outro ainda especificou que era por parte de mãe.

O esclarecimento não ajudou em nada a expressão de desagrado de Isaac. Primo ou não, não havia necessidade daquela proximidade exagerada, não era? Ele ficou mais satisfeito quando o gigante soltou Ange, e sem nem pensar duas vezes ou perguntar, segurou Ange pelo pulso, puxando-a para mais perto de si do que do outro que devolvia uma expressão igualmente irritada para Isaac. Quase parecia uma disputa.

- Não precisa se desculpar, eu que entendi errado. - a expressão fechada de Isaac certamente ainda não era de alguém que estava arrependido do desentendimento. E ele não soltou o punho de Ange quando o tal "Céci" questionou o seu relacionamento com ele. - Eu não acho que o que eu sou da Ange lhe concerne.

Mesmo com a resposta obviamente desagradada, Ange que se adiantou, com o rosto corado, para lhe apresentar e dizer que era "mais legal do que qualquer pessoa", o que deixou uma expressão um tanto mais agradada e convencida em Isaac ao encarar o gigante de volta. Só que a atenção do rapaz se voltou para a menina de novo, que se já parecia mal, só confirmou com o comentário de que devia ter comido demais.

- Ange, você não parece bem. Venha, é melhor procurar um lugar para sentar.

Ange

Ange poderia ficar mais triste com Cécile pela situação difícil que tinha surgido junto dele, mas ver Isaac lhe defendendo de modo tão ferrenho, e peitando um homem alto e intimidador como Cécile deixava toda a situação ainda mais como um conto de fadas. Nem se importou com o puxão no braço. Estava mais que feliz de ficar ao lado de Isaac e sentir o jeito defensor dele.

E Isaac não parecia achar ruim que Ange o defendesse também. Cécile até ergueu as sobrancelhas e revirou os olhos com aquela demonstração de romance adolescente contra o grande bully, mas aquele era seu papel agora, mesmo que achasse um saco. Nesse momento, Ange estava verde, mas concordou em acompanhar Isaac com um movimento de cabeça.

- Não se preocupa... eu estou be-bleeeerrrghh.... – Ange até tentou sorrir para não preocupar Isaac, mas depois de comer um monte de sobremesas e ter o corpo segurado, sacudido e apertado por Cécile, seu estômago tinha sido amassado a ponto de devolver tudo que tinha comido de uma vez, direto no chão e em cima dos sapatos de Isaac.

Cécile fez um “oops”, e Ange apenas olhou para o chão para a bagunça que tinha feito, o coração dolorido querendo sair junto com o estômago por ter estragado os sapatos de Isaac, a comida e pior, o encontro todo. Os olhos se encheram de lágrimas, e antes que percebesse, estava com lágrimas descendo pelas bochechas.

- Isaac...! M-m-me desculpa...! Os sapatos...! Ah, não...! – a tristeza e a decepção estavam estampadas na cara de Ange. Tirou um lenço da bolsa as pressas e então agachou, tentando pegar a perna de Isaac para levantar e tirar o grosso do sapato. Mas as lágrimas continuavam caindo. – E-eu estraguei tudo...! – Ange ergueu a cara, muito vermelha por causa do choro, até um pouco de ranho escorrendo o nariz.

Cécile deu um passo para trás, deixando o casal para se entender, mas não demorou a voltar com uma garrafa de água como oferenda de paz, estendendo para Isaac.

- Aqui.

Isaac

A confirmação de que não estava bem veio rápida de Ange, quando ela ainda tentou lhe dizer para não se preocupar, mas logo foi tudo por água abaixo ao vomitar bem aos seus pés. Em outra situação, Isaac teria ficado extremamente incomodado com o vômito nas roupas, mas deixou o desconforto de lado pelo fato de que estava mais preocupado com o estado dela. Ele estendeu a mão para colocar nas costas da garota e prestar alguma ajuda, mas ela foi rápida e quase desesperada tentando limpar a sujeira que tinha feito, o que só deixou o estudante mais incomodado.

- Pare com isso, você está passando mal. - Isaac segurou a garota com muita facilidade debaixo do braço, puxando-a para cima com um pouco de facilidade, encarando o rosto avermelhado e manchado de lágrimas dela. - Você não estragou nada, e ainda precisa de cuidados.

Sem esperar alguma autorização, ele passou um braço firme em volta da cintura de Ange e a puxou para cima, o outro braço por baixo das pernas dela para carregá-la até um banco onde pudesse se sentar e melhorar. Foi bem em tempo do gigante suposto primo voltar com uma garrafa de água, estendendo na direção de Isaac. O rapaz ainda olhou de volta para o homem mau encarado com uma expressão severa, mas suavizou o franzir de testa ao aceitar a garrafa.

- Obrigado. - ele abriu a garrafa de água e estendeu para Ange, puxando os cabelos dela para trás para que não ficasse no caminho. Ele mesmo que procurou um lenço no bolso para estender até a jovem e limpar o canto dos lábios dela. - Como está se sentindo? Acha melhor ir no hospital? - Isaac colocou a mão na testa da jovem, para sentir a temperatura, mas não parecia estar com febre.

Ange

Como se não bastasse ter vomitado no sapato de Isaac e feito uma bagunça, sentiu ele lhe tirar daquela posição triste no chão e lhe obrigar a encarar a expressão fechada e ouvir o tom quase de quem estava brigando. Mas nem estava ouvindo direito o que ele estava dizendo. Foi só quando ele levantou seu corpo do chão que as lágrimas pararam, também porque teve que encarar o rapaz com olhos bem abertos, o nariz escorrendo e a tensão de que ele, apesar de tudo, ainda estava lhe tratando como princesa.

Tudo isso lhe dava ainda mais decepção naquele encontro.

De repente, se viu em um banco do parque, com Isaac lhe oferecendo uma garrafa de água e até mesmo o culpado de ter posto tudo para fora, o grosseiro Cécile, lhe assistindo para que melhorasse. Bebeu um gole da garrafa, os olhos marejados e em leves soluços quando Isaac tentou medir sua temperatura. Sacudiu a cabeça negativamente sobre ir ao hospital, e fez bico, mordendo o bocal da garrafa para descontar a irritação.

- Eu vou pagar a comida... e aí vou pra casa. – Ange falou com a voz trêmula, soltando a garrafa dos dentes, e colocando de lado depois de beber mais um gole de água. – Estou bem, Issac. Agradeço tudo... eu prometo que pago os sapatos, tá? Desculpa.

Ange suspirou longamente, achando impossível controlar o bico decepcionado no rosto, as bochechas vermelhas e os olhos cheios de água.

- Tá, é meio culpa minha, então... se quiser carona pra casa... posso levar os dois. – Cécile ofereceu, dando de ombros. – Mama não ia ficar feliz se soubesse que eu deixei você na merda assim, Ange.

- Eu não quero sua carona...! – Ange respondeu, franzindo a testa e fazendo ainda mais bico, segurando a vontade de levantar e só encher Cécile de murros por arruinar todas as suas chances com Isaac. - ... Valeu a boa vontade. – tentou falou com menos abuso, respirando fundo para poder se por em pé e limpando mais um pouco de água do nariz com o dedo.

Isaac

- Não tem nada pra pagar, nem comida nem sapatos. Eu vou lhe levar em casa. - Isaac determinou, olhando torto para o tal Cécile que ainda sugeriu deixar Ange em casa. Claro que não ia sair do seu encontro para que a garota com quem estava saindo voltasse para casa com outra pessoa, mesmo que fosse família. E Isaac até se sentiu melhor quando a garota negou a carona, assim ele tinha o aval para continuar cuidando dela... aceitando ou não a sua ajuda. - Obrigado pela ajuda, mas estamos bem. Eu vou deixá-la em casa, não se preocupe.

Isaac esperou que Cécile sumisse do caminho dos dois, e nem deu espaço para que Ange ainda retrucasse sobre não aceitar a sua ajuda ou a carona para casa. Ele a segurou pela mão e a guiou para chamar um táxi, esperando que a jovem desse o endereço ao motorista. Ao menos ela não pareceu piorar no caminho, e até o rosto pálido tomou uma cor mais saudável antes de chegarem à casa da garota.

O motorista os levou até um bairro que não ficava muito longe de St. Clavier, com muitas casas e apartamentos mais baratos e acessíveis. Isaac até poderia deixá-la na entrada do prédio, mas fez questão de subir os lances de escada do condomínio de aparência bem antiga e negligenciada para deixar a garota na porta, mesmo que ela já estivesse se sentindo melhor e insistisse que podia seguir sozinha. Ele não se importou com o apartamento, mas até para uma pessoa com nenhuma percepção quanto Isaac foi fácil notar que ela não estava exatamente confortável de lhe mostrar onde morava. E ele não podia se preocupar menos com aquilo em comparação ao estado de saúde dela. Aliás, o local onde ela morava ainda lhe reforçou mentalmente que deveria ter levado-a para casa no outro encontro, parecia um caminho perigoso.

- Tem certeza que está bem? - Isaac perguntou pela milésima vez quando estavam à porta do apartamento dela.

Ange

Tinha tanto cansaço no corpo de Ange que sequer quis pensar demais sobre Isaac ter mais uma vez pago toda a conta, estar tomando cuidado consigo e ainda por cima, lhe levar para casa. Nem queria pensar sobre sua casa, muito obscura e humilde, um pouco menos bagunçada que o usual por ter dado uma faxina recente, mas ainda um local que nenhum príncipe como ele gostaria de ver. Sabia que pareceria alguém que buscava o moreno apenas pelo dinheiro, e não era o caso.

No táxi, até bateu a cabeça no vidro algumas vezes em frustração, apenas resultando em um Isaac mais preocupado. Mas bem verdade é que depois daquele dia, certamente não se veriam de novo, então era bom degustar daquela preocupação enquanto podia.

Na porta de seu prédio, um cantinho de 5 andares remendado e com lodo escorrendo das paredes, e escadas de concreto que nunca foram cobertas, pensou que Isaac fosse desistir, mas ele lhe levou até a porta, ainda preocupado demais. As emoções quase voltaram aos olhos, e embora Ange não fosse a pessoa mais inteligente, podia pelo menos juntar 1 mais 1. E se Isaac tinha tido aquele encontro desgraçado com direito a “lhe salvar” de um bandido, pagar tudo e ainda ter o sapato vomitado, podia entender que ele pelo menos queria ser compensado pelas perdas de tempo.

Suspirou sem energia quando Isaac lhe perguntou de novo se estava bem, e então abriu um sorriso conformado.

- Estou, estou. Agradeço por se preocupar. – Ange falou, então abrindo a porta para o apartamento humilde, com poucos móveis, muitos deles desgastados e de segunda mão. – Entra. Pode sentar no sofá, eu só vou escovar os dentes. Ah, e pode deixar os sapatos na entrada, depois eu trago um paninho para limpar direito. Não vou deixar você voltar com os sapatos cheirando mal.

Ange então ajeitou a capa do sofá para cobrir um buraco pequeno no encosto e ofereceu para que Isaac sentasse, logo em seguida, caminhando até o banheiro e indo escovar os dentes. Escovou bem, limpando até a garganta e a língua, e depois verificando se o hálito estava bom nas mãos. Não levou tempo demais para ir e colocar uma camisinha no bolso do macaquinho, retornando para a sala com uma disposição mais conformada que a alegre de sempre.

- Desculpe a demora. Eu escovei bem os dentes. – Ange falou, mostrando a língua de leve para fora da boca e aproximando-se de Isaac no sofá. – Se quiser uma água depois é só falar. Eu vou buscar. – complementou, abaixando-se a frente de Isaac e ajoelhando-se entre as pernas dele. Colocou os cabelos atrás da orelha e então levou a mão até o cós da calça de Isaac, puxando o indicador de leve a frente e desfazendo o botão, puxando o zíper em seguida. – Pode abrir mais as pernas, por favor...?

Isaac

Isaac deu uma olhada ao redor no apartamento de Ange, notando que tinha aquele quê de desorganização de quem morava sozinho, além de ser num prédio também que não tinha muitos cuidados. Mas não era exatamente sujo, e não estava desorganizado a ponto de precisar fazer alguma coisa para arrumar o lugar já que tinha chegado ali. Nem pretendia entrar no apartamento, mas foi ela que disse para entrar, tirar os sapatos e sentar no sofá. Não entendeu exatamente porque ela precisava ir escovar os dentes, mas ele até entendia a necessidade depois de ter vomitado.

Só fez o que a garota pediu, sentando no sofá com as costas retas, as pernas um pouco afastadas, um braço no braço do sofá e outra mão sobre a perna. Ainda deu mais uma olhada ao redor, mas não prestou tanta atenção ao lugar, exceto talvez a falta de alguma estante cheia de livros - que era a primeira e única coisa que ele costumava notar em novos ambientes -, até Ange voltar e dizer que tinha escovado bem os dentes, a ponto de lhe mostrar a língua. Ele franziu o cenho, sem entender a necessidade dela lhe mostrar aquilo.

- Não, estou bem. - ele falou sobre a água, e agora que ela já estava bem, podia se despedir e voltar aos dormitórios de St. Clavier. Mas antes que pudesse se levantar, ela que se aproximou até se ajoelhar entre suas pernas, o que deixou o rapaz ainda mais confuso, até levar a mão até a sua calça e abrir o botão, pedindo para abrir mais as pernas.

A reação de Isaac foi quase instintiva, e ele abriu mais as pernas de modo que Ange se acomodasse melhor entre elas, só então ele percebeu exatamente o que significava a sequência de fatos, com as mãos pequenas indo até a sua calça e além de tirar o botão e o zíper, ela seguiu até o cós da cueca para puxar o tecido. A expressão que era de confusão imediatamente se tornou numa de surpresa e numa reação automática, ele fechou as pernas, acabando por prender o corpo de Ange entre as suas coxas, a mão indo até o topo da cabeça dela para impedi-la de terminar de inclinar o rosto na direção da sua roupa. A sua outra mão livre foi até a calça, cobrindo o espaço já que ele não tinha achado o zíper de imediato.

- Espere!!! O que está fazendo?! - a pergunta dele foi exasperada, até perceber que ainda estava prendendo a jovem entre as suas pernas e soltando-a, levando então as duas mãos até a calça para fechar o zíper e segurá-la pelos ombros para ajudar a se levantar. - O que está acontecendo?!

Ange

Isaac abriu as pernas como pedido, e embora quisesse só parar e admirar a postura elegante com a qual ele se sentava, não podia deixa-lo perder mais tempo ali no seu apartamento pequeno e bagunçado quando ele certamente tinha mais o que fazer. Entreabriu a calça quando liberou o zíper, e levou a mão até a roupa de baixo, puxando para expor mais dos pelos e parte do membro, até querendo ficar feliz com a situação, mas era muito mais frustrante pensar que tinha perdido a chance de ter um namorado legal.

Já estava indo levar o rosto para mais perto da virilha de Isaac quando sentiu as coxas dele lhe imprensarem como um rolo e a mão em sua cabeça lhe empurrando para que não chegasse mais perto, com tanta força que poderia ter até arrancado sua peruca do lugar não fosse ela ser bem colada. Até tentou empurrar a cabeça de volta, mas não é que Isaac era forte? Não esperava menos de um conhecido da mama.

- Argh! Deixa... eu... – Ange falou baixinho entre dentes, até ver a mão de Isaac cobrindo o membro, e ele lhe soltar o aperto, lhe afastando em seguida e perguntando o que estava acontecendo como quem não estava entendendo nada. Será que tinha se precipitado e ele não achava que sexo oral era o suficiente. Mas não queria dormir com ele naquela situação. Franziu as sobrancelhas para dentro, quase como um bichinho arrependido, e do chão, respondeu com a maior cara confusa. – Um boquete...??

Como se não bastasse, Isaac fechou o zíper e lhe ajudou a levantar, lhe perguntando o que estava acontecendo. Foi Ange quem começou a ficar com a mente mais embaralhada.

- V-você me trouxe pra casa... eu achei... a-achei que queria algo para compensar o encontro r-ruim...! – respondeu, abaixando o olhar começando a achar que de fato tinha se precipitado. Ou talvez depois do que tinha acontecido, Isaac tivesse perdido completamente o interesse. Afinal, era meio nojento que tivesse vomitado no sapato novo dele. – E-eu não fiz nada, só fiz atrapalhar, e f-fiz você pagar tudo e cuidar de m-mim... é só o que posso fazer por v-você... e-eu... desculpa... e-eu até escovei os dentes m-mas... a-ainda é meio nojento, n-né? V-vou só lavar seus zapatos... desgulpa... – Ange falou, o nariz começando a entupir e as lágrimas vindo de novo aos olhos. Deu uma fungada alta para que o nariz não escorresse e então pensou que deveria só pegar um paninho para limpar os sapatos de Isaac.

Isaac

A resposta direta de Ange deixou bem claro para Isaac o que estava acontecendo e ele só pareceu mais surpreso com a resposta, completamente perdido sobre o que exatamente na sua atitude tinha dado a entender que ele queria um boquete naquele momento.

- Por quê?! - ele ainda perguntou, exasperado, até Ange parecer muito abalada com o fato de que tinha sido interrompida. E logo ela explicou que o fato de ter lhe levado para casa depois do péssimo encontro só podia ter acontecido por algum tipo de compensação. Isaac levou uma mão até o espaço entre os olhos, massageando a área e pensando por um instante que tipo de pessoa ela já tinha saído para pensar aquilo dele.

Mas antes que pudesse responder, a jovem desatou a falar como ele tinha feito apenas o mínimo por cuidar dela num encontro e ainda se achando nojenta de algum jeito, entregando-se a umas palavras embargadas, quase caindo no choro.

- Calma aí, você está confundindo tudo. - Isaac terminou de arrumar a roupa para se voltar na direção da jovem, sentada no sofá ao lado dele. - Primeiro, eu não esperava nenhuma compensação, você não tem nada que compensar. Segundo, é claro que ia lhe trazer em casa, você estava passando mal, era o mínimo que eu podia fazer por você. Você não precisa fazer nada que não quer por mim, e não tem nada de nojento. - ele passou a mão no topo da cabeça de cabelos bagunçados, deslizou a mão pelo rosto corado e passou o polegar na bochecha dela. Até pensou em completar um avanço e beijá-la, mas a situação inusitada do boquete lhe fez pensar em outra coisa. - Com que tipo de pessoa você andou saindo pra achar que eu ia querer ser compensando desse jeito? Está tudo errado.

Ange

Não entendia bem, mas Isaac não parecia muito feliz quanto mais Ange abria a boca para se justificar. No fim, ele terminou de arrumar as roupas e foi explicar que estava “confundindo tudo”. O que será que tinha confundido? Será que tinha achado que ele não queria o sexo oral, mas ele de fato queria sexo? Ou será que ele não queria nada disso?

A medida que Isaac foi falando, sentiu os olhos abrirem mais, e o choque dele dizer que só fez aquilo por gentileza mesmo fez com que o rubor voltasse muito vivo as suas bochechas. Sentiu o corpo todo estremecer de nervoso, porque tinha se precipitado mesmo ali, e tomado Isaac como qualquer um dos seus ex horríveis, enquanto ele era de fato, um gentleman, como tinha pensado várias vezes. Queria enterrar a cara em um buraco.

Não bastava isso, ele ainda foi super carinhoso, o que lhe deixou com ainda mais vergonha das próprias atitudes.

- D-d-desculpa...! Tem razão... v-você não é como nenhuma das pessoas com quem saí, Isaac! F-foi idiotice minha achar que... que... você só queria... – levou a mão até a boca cobrindo os lábios de um jeito nervoso, respirando fundo para não chorar. – Você é um cavalheiro... d-de verdade! É exatamente como a m- o Didier disse... e-e-e eu... ainda achei que você poderia ter outros motivos... desculpa, desculpa mesmo.

Ange engoliu em seco, sentindo o rosto arder e enxugando de leve as lágrimas nos cantos dos olhos, que tinham ficado ali antes do choque. Só continuava estragando toda a situação muito legal que tinha estabelecido entre os dois.

- S-sabe... e-eu me apaixono fácil... e... eu gosto... de companhia... então... eu sempre encontro gente muito ruim. E... eu nem sempre saio rápido dos relacionamentos assim... m-mesmo sabendo que é errado. – explicou com mais calma, respirando fundo e retomando o modo conformado de quando tinha chegado no apartamento. – É a primeira vez que encontro alguém gentil assim com alguém como eu, então... agradeço... p-por ter sido um príncipe comigo. E desculpe se te ofendi... e pelos s-sapatos. – acabou sorrindo amarelo, e então deixando os ombros caírem um pouco triste. – Acho que vou ter que dizer para o Didier que estraguei a chance que ele me deu, né...? Hehe.

Isaac

Isaac suspirou longamente com o nervosismo de Ange e as palavras dela que só deixavam bem claro o grande mal entendido que ela tivera sobre ele. Era quase ofensivo que ela pensasse que ele queria aquele tipo de compensação, mas ao menos a culpa não era dele e sim das pessoas com quem ela já tinha saído. De todo modo, com o mal entendido esclarecido, a expressão da garota era ainda mais adorável quando ela estava nervosa daquele jeito e Isaac se pegou observando-a por um pouco mais de tempo antes de adicionar algum comentário.

- Está tudo bem, não precisa se desculpar. Pelo menos diz mais sobre os seus antigos relacionamentos do que sobre mim. - Isaac respondeu, ajustando a roupa para deixá-la devidamente alinhada de novo. - Achei que tinha passado alguma impressão errada. Eu não sou muito bom em perceber essas coisas.

Ela ainda seguiu com os olhos cheios de lágrimas e enrolando as palavras, mas a aparência da garota só ficava mais adorável. Ao menos ela começou a se acalmar, finalmente, e Isaac ficou mais satisfeito de que ele se enquadrava na parte de ser um "cavalheiro" e ser "gentil", então não tinha feito nada errado até então. Mas ele ainda franziu as sobrancelhas em breve confusão quando Ange disse que precisava avisar a Didier que tinha estragado a chance.

- Eu não sei se ainda não está claro, mas eu pretendo lhe levar para sair de novo, se você aceitar. - avisou Isaac, embora fosse bem óbvio que ela ia aceitar sair com ele mais uma vez. Estendeu a mão até segurar a dela, trazendo-a para perto de si e beijando os nós dos dedos da jovem, encarando-a por cima dos dedos logo em seguida. - Posso lhe beijar?

Ange

Ficava com a culpa martelando na cabeça ainda por ter comparado Isaac aos tipinhos horríveis com quem tinha saído, mas agora esse momento já tinha passado, e podia de fato admirar que tinha um homem muito bonito, muito bem alinhado e cavalheiresco sentado em sua sala, lhe perdoando por todas as falhas muito infelizes que tinha cometido. E nem sequer tinham um relacionamento! Estava pensando que deveria ser um tipo de manutenção difícil, e que Isaac se cansaria logo. Mas pelo menos teve a oportunidade de sair com alguém como ele uma vez na vida.

- Você não passou nenhuma impressão errada... não é culpa sua. Eu também... não tenho bom senso para essas coisas. – Ange tentou reparar seu erro, mas bem que já tinha dito muitas coisas erradas que Isaac poderia levar a mal.

A pior delas, entretanto, era a menos esperada. Não sabia porque ele franziu as sobrancelhas quando mencionou Didier, mas supunha que ele tinha uma opinião formada sobre a mama que não era igual a sua. Foi surpreendido, entretanto, ao ver que a ressalva não era contra o loiro, e sim, porque tinha assumido que não sairiam de novo.

- E-então ainda posso te mandar mensagens... e a gente p-pode sair...?? – Ange questionou novamente em descrença, pois Isaac estava sendo bem mais generoso do que muitas pessoas que encontrou na vida toda. Afirmou veementemente com a cabeça que queria sair de novo com ele, o rosto conformado gradativamente tomando a forma de uma expressão suave, um sorriso aliviado. Os toques carinhosos em seus dedos eram muito mais do que tinha desejado uma vida toda. E certamente nunca, em toda sua vida, ninguém tinha lhe pedido permissão para um beijo. Sentiu o rosto queimar de verdade e tinha absoluta certeza que estava vermelho vivo. A respiração foi ficando mais curta, e antes mesmo de confirmar a Isaac que ele podia lhe beijar, cruzou o breve espaço entre os dois, roubando um selinho longo do moreno, as mãos apertando as dele sem força. - ... P-pode. E-eu só me adiantei... porque queria lhe dar algo também, pela sua gentileza. – Ange colocou, sorrindo com timidez e escondendo parcialmente o rosto por trás da mão. - ... Se se sentiu roubado, pode pegar de volta. – brincou, fazendo um leve bico.

Isaac

Isaac só confirmou com um aceno de cabeça quando ela perguntou se ainda podia lhe mandar mensagens e se os dois poderiam sair de novo, ele já estava pensando que lugar podia levá-la para não ter que encontrar outro conhecido e menos ainda acabar o encontro com ela passando mal - certamente tinha sido por conta da quantidade de doces que os dois tinham decidido experimentar.

Antes dela responder se podia seguir com um beijo, notou a aproximação e sentiu os lábios contra os seus, o gosto de menta que só lhe lembrou o fato de que ela tinha ido escovar os dentes porque achava que ele estava interessado em sexo oral de compensação. Talvez por conta do pensamento inoportuno, Isaac demorou um pouco mais para retribuir ao beijo e foi em tempo da jovem se afastar, sugerindo que podia pegar o beijo de volta. Ele sorriu discreto com o gesto inocente, o rosto dela extremamente corado que deixava a aparência ainda mais atraente.

Isaac concordou com outro aceno de cabeça e levou a mão até o rosto da jovem, passando o polegar pela maçã do rosto e deslizando os dedos até alcançar a nuca dela e enroscar aos fios de cabelo. Ele puxou o rosto dela de leve em sua direção e uniu os lábios em outro beijo, mas diferente do selinho que Ange tinha lhe roubado, ele se atreveu a aprofundar o gesto, procurando espaço na boca alheia com a língua para intensificar o toque, entregando-se ao beijo por alguns longos instantes, até sentir que o corpo todo estava quente e a respiração descompassada. Só então, ele afastou os lábios, encarando-a de perto ainda para dar um selinho rápido, mantendo a proximidade.

- Vá descansar, você precisa. - ele deu outro beijo, dessa vez no rosto de Ange, afastando finalmente o toque da nuca alheia e se levantando, terminando de alinhar as roupas. - Eu lhe mando uma mensagem para saber quando podemos sair de novo. Pode me mandar mensagens também se quiser. Se cuide, e fique bem. Me ligue se precisar de alguma coisa.

Ange

Sorriu amplo com o toque leve no rosto com as mãos gentis de Isaac, até que ele lhe alcançou a nuca e lhe puxou para um beijo novo, dessa vez mais intenso do que o seu. Tinha evitado a língua por toda a situação anterior, mas foi o próprio moreno quem quis o gesto mais profundo, e não resistiu em nada, retribuindo o beijo mais intenso, enroscando a língua na dele, sentindo até o ar faltar e o rosto ficar cada vez mais quente. Queria não estar sentindo enjoo ainda, pois certamente teria dado espaço para que ele chegasse ainda mais perto.

Sorriu, fazendo um leve bico quando sentiu o selinho de Isaac, assim que finalmente apartaram o beijo intenso. O corpo que estava sentado no sofá caiu de uma vez de lado no acolchoado, e Ange agarrou uma almofada, escondendo o rosto por trás da mesma por um momento.

- Tá bem! Eu mando...! – respondeu, virando de barriga para baixo e se colocando sobre o braço do sofá velho, vendo Isaac ir até a porta. – E-eu vou precisar de outro beijo desses! – Ange falou com um ar travesso, acenando brevemente para Isaac enquanto ele saía. Devagar, levantou para vê-lo descer até a entrada, olhando-o da janela quando finalmente desceu os lances de escada, um sorriso bobo no rosto.

Era quase surreal que depois de tudo que tinha acontecido naquele dia, ele ainda quisesse sair e ter um encontro, e até mesmo lhe beijar. Era mais surreal que ele era um amigo de Didier com tanta paciência... mas ignorou o pensamento. Então quando Isaac saiu pelo portão do prédio, percebeu que não só isso, ele tinha visto seu apartamento humilde, e mesmo assim queria continuar lhe vendo, sem pensar se Ange só tinha interesse no dinheiro dele. A única coisa que ele não sabia era que gostava de brigar. Então Ange afundou atrás da janela, derretendo no chão. Isaac parecia alguém que gostava de cuidar dos outros, e Didier tinha alertado que ele não gostava de delinquentes. Bem, não era mentira que queria receber o cuidado que uma princesa merecia... o único problema é que era mais ogro que princesa. Bom, tudo estava bem enquanto esse detalhe não aparecesse. Lidaria com o problema quando o problema chegasse.

Por ora, estava apenas curtindo o romance.

[Thread encerrada]


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