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Chave Mágica [Gustav, Leona, Talulah]
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Jack
A chegada na cidade para atormentar a vida de Leona era só uma diversão para o seu real propósito das férias, ainda estava no início da jornada, podia se dar ao luxo de visitar inúmeros lugares diferentes e fazer umas investigações mais superficiais coletando dados. Do mesmo modo, voltar para Cerise era bom e tranquilo, além da cidade ter inúmeras pousadas e albergues em que podia se hospedar por ser um ponto turístico.
Naquele dia, escolheu um hostel um pouco mais reservado especialmente pelos boatos que ouvia. Era no centro, mas na parte antiga da cidade, e mesmo que não entendesse muita coisa de arquitetura, dava para ver que o lugar já tinha sido uma casa e agora estava reformado com uns quartos adicionais. O relógio não marcava mais de 18h30 quando parou à entrada do hostel, buscando o balcão de informações. Usava uma camisa básica marrom, a cor da sorte daquele dia, calça jeans e sapatos também marrons. Ainda tinha uma jaqueta um pouco surrada por cima da roupa e trazia sempre a bolsa grande com seus poucos pertences pessoais, além do case para o violino gasto. No cós da calça, a arma de estimação.
Esperava apenas se acomodar no quarto, deixar os pertences em algum lugar trancado e sair para comer alguma coisa e quem sabe irritar Leona na delegacia. Mas a sua pretensão inicial foi alterada quando tentou achar alguém na recepção, sem sucesso, para ter a atenção atraída para um grupo de pessoas que pareciam muito curiosas com algo que estava acontecendo num dos quartos. Não se importou em ser bem invasivo, andando até a fonte do murmurinho, para descobrir o que estava acontecendo e quem sabe conseguir reservar o seu quarto. A única coisa que ouviu ao chegar perto foi um "não podemos fazer isso!", que foi uma deixa bem conveniente para se intrometer.
- Não podem fazer o que? - a sua voz foi o suficiente para chamar atenção das pessoas curiosas que lhe encararam com uma expressão de culpa que ele estava bem acostumado. - Boa noite, eu queria um quarto, mas a conversa aqui parece mais interessante. O que aconteceu?
Gustav
A cabeça doía muito, uma dor terrível, parecia ter levado um coice na cara, a ponto que sequer conseguia mover o próprio corpo. Não se lembrava exatamente de porque estava dolorido, mas era trivial, estava sempre arrumando confusão e saindo machucado, não seria nem a primeira e nem a última vez, mas tinha certeza que daquela vez tinha sido uma confusão “daquelas”. Queria conseguir mover a própria mão para massagear o rosto, mas sem sucesso ela não se movia, ou melhor, até conseguia senti-la, só não conseguia trazê-la até o próprio rosto.
Abriu os olhos devagar, a enxaqueca comendo seu juízo um pouco, moveu o maxilar sentindo-o limitar-se a abrir, agora sabia onde tinha levado o coice. Passou o língua pela gengiva sentindo o gosto ferroso na boca, nada de mais. Porém, não podia dizer a mesma coisa da sua situação, conseguia mover os dedos, mas o braço todo estava bem preso, acorrentado à cama. Olhou em volta esperando achar o dono ou dona da festa, pra ter mais detalhes, mas tudo que via, era um quarto de lugar nenhum, com nenhuma pessoa.
Certamente o nível de confusão daquele dia estava bem alto, pendeu a cabeça a frente, em um suspiro, então se deu conta da almofada no próprio colo, tentou mover-se dentro do que podia e escutou o som abafado de tilintar: -- ora, ora, quanta criatividade, isso aqui tá mais pra castigo do que pra uma festa. Bela merda nós metemos não é? - crispou os lábios em um riso, que lhe despertou dores e queimação por todo o rosto parcialmente inchado do lado esquerdo.
Em tempo, outro som de chave chegou aos seus ouvidos, a porta estava sendo aberta, e logo uma mulher, segurando o que parecia forros de cama estava entrando no quarto, muito distraída, falando no telefone:
-- Olá!
-- AAAH-!! Meu deus! - o telefone caiu no chão, e dava pra ouvir que havia uma voz do outro lado da linha, mas isso não abalou o moreno:
-- Não é nada do que parece…! -- Começou a tentar se explicar, mas antes que pudesse terminar a frase, a mulher correu para fora do quarto. Não demorou muito, surgiu mais um homem, aparentemente um dos responsáveis pelo lugar, que viu a cena e nem tentou esconder a surpresa:
-- Puta merda!
-- Admito, também fiquei surpreso, mais criatividade do que estou acostumado, mas se puder me ouvir um instante, sendo bem sério, a chave para minha liberdade, está debaixo dessa almofada.
-- Não mesmo! -- o sujeito apontou para o moreno, como se o estivesse condenando pela brincadeira fora de hora: -- E ainda me perguntam porque eu não trabalho em motéis, olha o tipo de esquisitice com a qual a gente têm de lidar.
Não demorou para mais dois funcionários se aproximarem para falar ao dono:
-- Então o que fazemos? Chamamos a polícia?
-- Não! Não podemos fazer isso…! -- e antes que o dono pudesse explicar seus motivos ao funcionário, o que faltava acontecer, era justamente um cliente aparecer, a porta ainda aberta do quarto, dava margem para a cena estranha do homem acorrentado a cama, então o homem se pôs no caminho, entre o loiro alto, e o quarto: -- Bem, estamos com um problema de logística, se nós der alguns minutos logo vamos atendê-lo, senhor. -- O homem apontou para um dos funcionários indicando que algum deles arrastasse o homem novo para fora dali.
-- Eu não sabia que um homem nu acorrentado à cama podia ser chamado de problema de logística, essa é nova. -- O moreno comentou de dentro do cômodo, em tom audível para quem estava fora do quarto.
Jack
As expressões de desconserto eram bem notáveis nos funcionários do hostel e era tão fácil ler aquelas pessoas que parecia um livro de criança. Nem precisava de mais informações para saber que alguma coisa muito errada estava acontecendo no quarto e devia envolver um dos hóspedes. Ao menos não era o tipo de tensão no rosto de algum homicídio, o que facilitava a sua ida e vinda sem ter que passar pela burocracia de ser um policial atuante num outro país.
- Logística, não é? Quem sabe eu possa ajudar? Sou ótimo com logis- Jack não completou a sentença não porque tinha ouvido a voz que vinha do quarto lhe interrompendo, mas porque aquela voz lhe soava estranhamente familiar.
Ele arqueou as sobrancelhas, deixando a pose de lado para andar e espreitar através do portal que dava para o quarto, a despeito dos funcionários tentarem lhe impedir.
- Gustav?! - a surpresa no rosto do loiro era genuína. Não pelo fato de que o amigo de longa data estava preso à cama, aparentemente nu e com apenas uma almofada cobrindo as partes íntimas... mas pelo fato de que ele estava em Cerise. - O que é que você está fazendo aqui...?
Jack não se importou de passar direto pelos funcionários do hotel, ignorando os comentários. Ainda estava com toda a bagagem em mãos, mas logo a surpresa que estava estampada no rosto deu lugar à uma expressão maliciosa e antes de se aproximar da cama para observar melhor a situação, deixou a bagagem no chão no meio do caminho.
- Mas ora, ora. Eu não sabia que você tinha adquirido um fetiche novo, Gustav. O que andou fazendo pra acabar nesse estado? Kitty e Sista vão adorar saber das fofocas. - ele disse, com um sorriso convencido para se aproximar da cama e conferir o óbvio: a chave para soltar o amigo estava debaixo da almofada posicionada estrategicamente. Com toda a ousadia costumeira, ainda se aproximou para passar a mão discretamente pela perna dele, na direção da almofada.
Gustav
Claro que o moreno gostaria de tomar mais partido na conversa, mas sendo o objeto de estranheza da cena, restava assistir a conversa, e intervir com algum comentário cretino quando havia oportunidade. Não que pudesse rir com parte do rosto inchado e doendo, mas ao menos lhe distraia da ideia de que ninguém ainda tinha ido solta-lo ou estava minimamente preocupado com seu bem estar. Até então, nenhuma novidade, isso claro, até a voz masculina que questionava os funcionários se mostrar um belo loiro de lindo olhos claros. Que lhe cumprimentou com a intimidade que lhe conhecia, certamente devia conhecer, a sensação de familiaridade era real, mas estava sentindo mais coisas também lhe alcançando com aquela bela visão:
-- Ah certamente se eu soubesse não estaria assim. -- Abriu as mãos e deu de ombros no que podia dentro daquela situação em que estava: -- Ou talvez realmente estivesse assim, mas não com o rosto tão dolorido, acho que a pancada ainda não é fetiche, mas todo o resto pode ser. -- Os funcionários desistiram de tentar compreender o que estava acontecendo, e o dono apenas guiou os outros funcionários para que ligasse para polícia, o louco preso era uma coisa, um louco preso e um solto era outra.
Devolveu o sorriso quando o mais alto sorriu para si, e ainda bem que os funcionários tinham saído, podia ficar trocando conversa com o mais alto, cujo o nome estava quase vindo a seus lábios, talvez precisasse sentir os lábios dele para refrescar a memória, talvez. Sentiu os dedos deslizarem por sua pele exposta da coxa, e o gesto lhe fez sorrir maliciosamente, a ideia de já terem se atracado certamente lhe veio a mente, e aquilo lhe deixou mais aberto a responder na mesma altura:
-- Eu sinceramente não lembro, mas duvido que seja melhor do que você pode fazer comigo agora. -- Devolveu a cantada com todo sorriso cafajeste que conseguia por em sua fala e expressão, e certamente agora a chave iria ficar um pouco mais dificil de tirar, visto que a argola da mesma estava circundando o pênis, que começava a demonstrar vivacidade naquela troca de palavras.
Jack
As primeiras respostas de Gustav completamente opostas ao tipo de personalidade retraída e quieta com a qual estava acostumado fizeram com que Jack percebesse facilmente que, com quem quer que ele tivesse passado a noite, tinha deixado uma impressão ali. Mas já estava acostumado também ao fato de que depois de alguns instantes de conversa, ele começasse a ficar num tom mais neutro e pegar a sua personalidade, provavelmente. Era sempre divertido estar no mesmo ambiente com Gustav e Leona, onde o moreno não sabia em quem se espelhar, embora com Talulah ele sempre conseguisse voltar ao ponto zero - afinal, três personalidades fortes eram um problema.
- Eu gostaria de saber mais sobre os fetiches que você adquiriu nessa madrugada então. - Jack respondeu, com o mesmo sorriso convencido de antes.
Já estava estendendo a mão até próximo da almofada quando ouviu o outro responder mais diretamente sobre o que poderia fazer com ele. No mesmo instante, ele parou a mão. Se Gustav tinha absorvido uma personalidade fraca durante a noite, já devia estar se esvaindo. Jack certamente era uma pessoa que gostava de umas brincadeiras mais diretas de dar em cima dos outros, mas o que Gustav estava refletindo ainda não era ele - ou certamente não teria ouvido um comentário como aquele direcionado a outro homem.
- Bom, nós dois sabemos o que eu posso fazer para lhe ajudar, Teddy. - Jack ainda jogou outro comentário ousado, mas não prosseguiu com o caminho da mão. Naquela proximidade e com a sua presença, as próximas respostas deviam denunciar um Gustav querendo se livrar logo das amarras, porque certamente era o que o próprio Jack iria querer naquele estado... especialmente antes que Talulah descobrisse e tivesse mais munição contra ele.
Gustav
A premissa do outro lhe dar alguma diversão certamente lhe deu ânimo para deixar de lado momentaneamente a dor no rosto. Mantendo um olhar estreito e cínico na direção do mais alto, e sorriria mais, se um lado do rosto não estivesse parcialmente inchado ainda. Não se lembrava exatamente se tinha aprendido algum fetiche novo, mas tinha certeza que tinha muitos ali guardado, principalmente porque com a proximidade, o aroma de limpeza somado ao cheiro característico da marca barata de cigarro, lhe jogava numa sensação de pura nostalgia. Tinha quase certeza que já tinha dividido a cama com aquele sujeito, ou chegado perto o suficiente pra ter a sensação do cheiro da pele do loiro ao alcance do seu focinho:
-- Não sei dizer se aprendi algum novo fetiche, mas posso afirmar que masoquismo não está entre eles. - virou o rosto dando ênfase ao machucado, mas de um jeito sacana, sem perder o riso nos lábios e o charme nas palavras: -- Eu tenho plena confiança que é capaz de me ajudar…! -- o nome não veio até seus lábios, mas sabia que estava lá em algum lugar, mas não deixou que ausência do nome do outro acabasse com seu humor, se as correntes não tinham feito isso, um leve esquecimento não o afetaria: -- A questão é por qual problema você quer começar a me ajudar.
A cantada foi bem direta, e nem precisou fazer qualquer gesto ou indicativo, que não um sorriso plenamente safado, afinal toda aquela dinâmica e troca de palavras com duplos sentidos, já estavam lhe deixando suficientemente animado. Não que precisasse de muita coisa, era um sujeito de sangue quente, só precisava de uma fagulha pra fazer rodar um incêndio.
Jack
A expressão de Gustav não mudou, certo, ainda podia estar refletindo a sua expressão de cafajeste em geral. Mas ainda não havia o pedido para se soltar nem qualquer indicativo de que aquele pedido viria tão logo. Jack era especialista em ler personalidades de um jeito que não dava para aprender em técnicas de criminalística, e o que estava vendo ali definitivamente não era a si mesmo - já tiver Gustav como seu reflexo inúmeras vezes para conseguir distinguir aquilo. E quando ele lançou o último comentário ousado, sobre por qual problema ajudar o outro, a sua reação foi quase imediata ao afastar a mão das pernas dele e franzir o cenho.
- Por que é que ainda não está me copiando? - a pergunta foi em voz alta, mas Jack fez o questionamento mais para si mesmo do que para Gustav, encarando-o com a testa franzida em confusão. - Com quem é que você passou a noite, Teddy? Há quanto tempo está preso aqui?
As experiências com aquela habilidade do amigo de longa data tinham determinado que pouquíssimas pessoas conseguiam afetá-lo por tanto tempo. Menos pessoas ainda podiam fazer com que ele mantivesse a personalidade perto de um dos amigos antigos. A não ser que algo em si mesmo ou na sua personalidade fosse de algum modo um gatilho para reforçar ainda mais os trejeitos da pessoa que ele tinha assimilado. A realização momentânea fez com que Jack se levantasse da cama como se tivesse levado um choque.
- O que você quer que eu faça agora, Gustav? - a postura de Jack era de quem estava bem na defensiva daquela vez. Não podia ser alguém que lhe conhecia, ou ele teria lhe tratado com mais intimidade. Mas já era tempo suficiente para Gustav querer se soltar e voltar ao controle de si mesmo, se estivesse lhe copiando.
Gustav
A reação do loiro as suas provocações foi de quem estava gostando a completa estranheza, e por algum motivo, isso lhe divertiu ainda mais. Se os dois se conheciam de tempo, que tinha esse forte pressentimento mas não lembrava de onde, podia especular várias coisas, mas a primeira ideia que lhe veio foi a do típico hétero enrustido que curtia uns flex nas horas vagas. A ideia lhe divertiu e passou a língua sobre o canino de um jeito bastante predatório para quem estava acorrentado numa cama como material de abate:
--Você poderia começar soltando meus braços, talvez porque eles estão presos que eu não posso fazer igual a você e passar a mão nas suas pernas. -- brincou em tom zombeteiro, sabendo que aquilo dificilmente convenceria o outro a soltá-lo, principalmente depois da reação abrupta que o outro teve:
-- E eu adoraria lembrar se eu dormir com alguém ontem, mas eu só acho, que se eu estivesse preso nessa posição desde ontem, eu não estaria nada bem, possivelmente resfriado. -- passou a língua no lado inchado do rosto, sentindo a área incomoda: -- E esse machucado não é de muito tempo também, acordei com gosto de sangue na boca. -- abriu as mãos e deu de ombros, quase acostumado a posição com os braços abertos e o corpo praticamente todo nu exposto, com a exceção da almofada: -- Mas não se preocupe, estou cheio de energia, o que você mandar eu aceito.
De verdade não lembrava de ontem, ou antes de ontem, mas tinha quase certeza que não estava naquele hostel, e nem naquela posição, então tanto fazia. Estava mais interessado em saber quando seu aparente velho amigo lhe faria o favor de soltá-lo e quem sabe massagear as áreas doloridas.
Jack
A resposta sobre começar aquela conversa soltando os braços era finalmente o que Jack estava esperando, até ouvir o complemento de que só daquele jeito Gustav poderia lhe devolver a carícia nas pernas. E foi exatamente aquele tom, junto com aquele trejeito muito específico da língua passando pelo canino que fez com que um calafrio forte passasse pelo seu corpo, dos pés à cabeça, ao ponto de que era fácil até ver o tremor que tomou conta dos ombros do oficial. Não era a sua personalidade em Gustav e era uma personalidade muito forte para ainda estar resistindo tanto.
- Isso aqui não vai dar certo. - ele comentou, de novo, mais para si mesmo do que para o outro. Já tinha notado alguns movimentos discretos na entrada do quarto, como se os funcionários passassem ali para espreitar curiosos se a situação tinha sido resolvida ou não, afinal, ele nem se importou de fechar a porta. Ao menos sabia que ele não estava preso há tanto tempo, então não devia ser uma personalidade mais preocupante. Sua presença podia muito bem ter reforçado algo naquela pessoa estranha e por isso não estava conseguindo se livrar.
Seria mais fácil perguntar a algum dos funcionários da pousada com quem Gustav tinha chegado na noite anterior ou ao menos o horário em que tinha chegado. Mas fosse seu amigo de longa data ou não, era melhor tirá-lo dali de todo jeito. Claro que o mero movimento de se aproximar para fazer aquilo, com o comentário dele de "o que você mandar eu aceito" fizeram com que mais um calafrio incômodo perpassasse o seu corpo inteiro. Não estava gostando nada daquilo.
- Certo, nada de comentários engraçados. Eu acho que você estava mesmo com outro cara que está tão interessado em "passar a mão em mim", então vamos precisar de uma ajuda extra pra colocar você de volta nos eixos, Teddy. - Jack disse, aproximando-se muito hesitante da almofada para espreitar por baixo dela e ao menos ter certeza de que pegaria a chave diretamente e não pioraria o estado do outro.
Gustav
As reações do maior eram divertidas de se assistir, principalmente porque foi visível os ombros tensos, a forma como aquilo se desenvolvia, só dava mais margem para provocações, e quem sabe tirar mais algumas reações interessantes do loiro mais alto. Quando o outro falou claramente que aquilo “não daria certo”, teve de sorrir leviano, quase como se admitisse a culpa, mas em verdade, acreditava justamente no contrário, de que as coisas iriam dar muito certo, assim que estivesse mais livre e com mais opções.
Além do fato de seu suposto velho amigo ser um homem lindo em todos os aspectos, suas reações exageradas aos seus comentários descarados, deixavam toda cena ainda mais divertida e excitante. E quanto mais ele negava, mas tinha vontade de ir lá, e mostrar que valia o esforço do maior em lhe soltar, mas segurou a língua, não podia dizer o mesmo de seu baixo frente, que seguia animado a despeito de estar com o rosto machucado e o corpo dolorido:
-- Prometo ficar quietinho até você me soltar. -- até cruzou os dedos das mãos para enfatizar, mas também aquela frase queria dizer, que depois que estivesse solto, não iria necessariamente ficar “quietinho”.
Assistiu com expectativa o loiro mais alto, levar a mão para o refúgio embaixo da almofada, e na posição que ele levantava a mesma, era difícil visualizar suas ações. Então restava apenas sentir os toques diretos em busca da chave, a argola em volta de seu membro, já não estava mais com tanta folga, o que indicava que se o outro queria pegar as mesmas, teria dificuldade em puxa-las de uma vez. Isso claro, considerando que ele não tinha intenção de machucar o moreno mais novo, ou então ele simplesmente pegaria as chaves pelo corpo e puxaria. Na condição de não machucar a área, seria necessário fazer a argola deslizar da base onde estava muito bem encaixada até o topo.
O moreno mais novo respirou fundo, mas conteve qualquer ruído externo, atento a concentração do loiro em buscar o objeto com o mínimo de contato físico possível. Talvez por isso, e por ele ter desviado o olhar para ver o que estava fazendo. Aquilo tivesse aberto uma bela brecha.
O moreno reclinou o corpo para frente no limite que as correntes lhe seguravam, mas perto o suficiente do loiro, para alcançar na altura do pescoço perto do ombro, e farejar a região sem de fato encostar no corpo do outro, mas tragando todo o cheiro que lhe lembrava cigarro e um perfume masculino comum. Sorriu com o canto dos lábios, mesmo que isso lhe despertasse pra dor do rosto inchado: -- Isso não configura “comentário engraçadinho”, certo?
Jack
Jack devia ter prestado mais atenção no horóscopo matinal. Especialmente porque ele começava com "Amizades podem trazer apoio e felicidade hoje", só não sabia onde a felicidade estava em encontrar Gustav naquele estado com a chave tão inconvenientemente presa no pênis. E presa porque foi bem óbvio, ao perscrutar debaixo da almofada para achar a chave que estava numa argola convenientemente encaixada no membro do outro, e descobrir que os toques só facilitaram para que as reações fisiológicas de Gustav dificultassem a retirada do objeto.
Jack ainda contorceu a expressão em desagrado, sem tirar exatamente a almofada de cima do membro numa semi-ereção, e segurando apenas pela chave para tentar tirá-la, o que não foi muito bem sucedido.
- Você bem podia colaborar comigo, não é? Vai querer ficar preso aí o dia todo? - ele reclamou, concentrado demais em tirar a chave sem ter que acabar estimulando mais o outro, que mal percebeu a proximidade alheia até sentir o “farejar” perto da curva do seu pescoço, e mesmo que a pele dele não tivesse de fato encostado na sua, era como se um fantasma tivesse alisado sua pele diretamente.
Mais uma vez, a reação de Jack foi quase pular para longe da cama, sentindo um arrepio perpassar todo o corpo e arrepiar todos os pelos do corpo e da nuca, levando uma mão para cobrir o pescoço quase como se um vampiro tivesse lhe mordido ali. E, claro, sem conseguir tirar a chave do lugar.
- Okay, Teddy, já que você não vai ajudar, vamos fazer do jeito mais prático. - Jack arregaçou as mangas e embora isso pudesse dar alguma ideia errada a Gustav, ele não andou até a cama, ao contrário, andou até a porta do quarto para sair e fechar a porta atrás de si. Voltou alguns minutos depois, com um balde em mãos e um sorriso descarado de sempre no rosto. - Vamos ver se assim resolve.
Sem nem pensar duas vezes ou dar tempo para que Gustav terminasse de assimilar a situação, tirou a almofada do caminho para jogar a água fria do balde da cabeça aos pés do moreno, sem se importar com a cama encharcada no processo.
- Melhor assim, Teddy?!
Gustav
Embora estivesse amarrado a cama e supostamente na pior situação possível, estava se divertindo, não dava nem pra tentar esconder, afinal o moreno mais baixo, sustentava um sorriso leviano nos lábios finos, mesmo que estivesse com metade do rosto vermelho e parcialmente inchado da pancada que tinha levado. Todas as reações exageradas de seu velho amigo lhe divertiam, e deixou um riso escapar seguido de um “ouch” baixo, porque rir doía, mas não o suficiente para não querer rir de novo daquela situação.
Assistiu o loiro se afastar drasticamente, de si, com aquela expressão exageradamente assustada, mas arqueou a sobrancelha diante da sentença clara de que o mais velho faria as coisas de um jeito “mais prático”. Não imaginava que ele fosse ceder a lhe soltar de um jeito amigável, então apenas esperou pra ver, afinal, não era como se tivesse muitas outras opções estando acorrentado a cama como estava.
Acompanhou com o olhar a saída, e nem teve tempo de sentir o corpo sentir a ausência do outro perto de si, ele estava de volta, e teve pouco tempo para assimilar a frase, com a ação, e num instante estava encharcado de água fria:
--HAHAHAHAH! -- Desatou a rir e cuspiu um pouco de água sacudindo a cabeça com os fios molhados: -- Solução refrescante, sim, tenho de admitir. Melhor em alguns aspectos, pior em outros. -- abriu as mãos como se tivesse sido vencido: -- Vou cobrar que você me enxugue depois. -- Falou com tom de zombaria.
Do lado e fora os funcionários assistiam perplexos o desenrolar da cena, uma das funcionárias provavelmente a que trocaria aquele forro e cama e colchão, observava desolada, enquanto a colega levava a mão ao ombro dizendo em tom audível: -- Não se preocupe, logo chega a polícia pra resolver isso.
Jack
O tempo de Gustav assimilar o que tinha feito e do corpo dele reagir de imediato à água gelada era tudo que Jack precisava para rapidamente tirar a chave do lugar. O gesto foi tão rápido que só não ultrapassava a velocidade dele fugir de Talulah. Ele se adiantou para abrir apenas uma da algemas que prendiam Gustav à cama e deixou a chave na mão livre dele, para se afastar na direção da porta onde os funcionários estavam acumulados ainda para ver a cena.
- Olá, querida, se importa de me trazer uma toalha, por favor? Prometo que não faremos mais bagunça. E aproveite e me arrume uma chave para outro quarto, pretendo ficar hospedado aqui por hoje, se as senhoritas não se importarem em me dar alguma assistência... - ele se inclinou na direção da dupla de mulheres que estava ali, jogando o seu sorriso com todo o charme galanteador e insinuante usual. Aproveitou o comentário dela sobre a polícia e tirou do bolso um distintivo muito específico que servia para a Europa toda e que seus amigos sequer desconfiavam que tinha. Ainda usou o corpo para esconder o gesto de Gustav que estava soltando a outra algema. - Não se preocupem com a polícia.
Jack apenas esperou que as funcionárias saíssem às pressas para pegar o que ele tinha pedido e voltou para dentro do quarto, catando as roupas de Gustav para que ele pudesse se vestir.
- Vamos só esperar a toalha e eu vou deixar minha bagagem em outro quarto. Nós vamos sair para um passeio, Teddy. Até tirar essa pessoa daí de dentro.
Leona/Gustav
O moreno mais baixo, agora podia se ver livre das correntes, estava molhado mas não se importava nem um pouco, se livrou do restante das correntes, e usou parte do próprio lençol que não estava encharcado para tirar o excesso de água do rosto, aquele quarto estava uma bagunça. Mas não era totalmente culpa sua afinal, pegou as roupas que o seu amigo de longa data já tinha gentilmente pego e as vestiu sem muitas cerimônias. Mesmo que ainda estivesse em parte molhado, não ligava muito para aquilo, não estava frio o suficiente para ficar incomodado. Quando as atendentes do hostel voltaram com toalha e uma chave de outro quarto, o moreno mais baixo se aproximou de uma delas, pegando uma das toalhas e jogando sobre os cabelos encharcados:
-- Obrigado, e desculpe a bagunça, não foi totalmente culpa minha, mas ainda assim foi culpa minha. -- sorriu charmoso para as mesmas, que mantiveram distância, não por acharem que o outro tinha sido mal educado, mas porque todo o cenário era estranho demais pra ignorar.
O moreno mais baixo se aproximou do loiro mais alto, e nem tentou tapear, levou a mão na altura da nádega do outro, dando-lhe um breve tapa: -- Você me chama de “Teddy”, quer dizer que você dormia comigo? -- Jogou um ar de brincadeira notório, mas não deixou de encarar o mais alto, como quem buscasse entender sentido nas ações íntimas e ao mesmo tempo distantes do mais velho: -- Agradeço a ajuda, e a ideia de passeio me diverte, pra onde você pretende me levar, hun?
Perguntou em tom debochado, notoriamente não levando tão a sério toda aquela situação, o moreno mesmo sendo mais baixo, primeiramente, nem se sentia intimidado pelo seu bom amigo, mesmo ele sendo alguns centímetros mais alto e com um porte físico bem definido em comparação com o mais baixo. E apesar da troca de brincadeiras, cantadas e invasões de espaço pessoal, havia uma autoconfiança ali, como se não houvesse nada que o loiro mais alto pudesse fazer que botasse medo no mais baixo.
E antes que houvesse uma resposta, a sirene de polícia foi ouvida, seguida de comentários mais altos vindos da recepção do hostel, eles tinham realmente chamado a polícia e ela chegou em tempo hábil. Claro que para a loira, aquele horário não era dos melhores, e sempre que aparecia algum caso que se inclinava levemente a lidar com algum desequilibrado, seus colegas oficiais empurravam o serviço para ela, como era uma ocorrência pequena, saiu sem a companhia da oficial Riviere, mas a mesma estava avisada da saída para a possibilidade remota de precisar de algum reforço.
E tal foi a surpresa de Leona ao dar de cara com Jack e Gustav, parcialmente molhado com uma linguagem corporal completamente estranha:
-- Porque eu não estou surpresa de você está aqui ein? -- A loira comentou em direção a Jack, mas olhou para ele e em seguida para Gustav, como se perguntasse com o olhar se tinha algo errado com o amigo dos dois: -- E você? A quanto tempo nós não nos encontramos não é? Não esperava ver você na França.
O moreno mais novo se virou na direção da nova voz, muito mais imponente e forte em relação a das atendentes do hostel, e tal foi sua surpresa ao se deparar com uma pessoa maravilhosa, o semblante arisco em contraste com a boa aparência lhe fez sorrir de imediato:
-- Não sei se faz tanto tempo, mas eu certamente lembraria de já ter lhe visto. Acho curioso como todos vocês me conhecem, mas eu definitivamente não lembro de vocês, que tipo de festa e em qual nível de bêbado eu estava? -- Zombou, jogando uma cantada na direção da mulher, mesmo que ela fosse uma oficial, não tinha sequer senso de perigo aquela altura do campeonato.
As reações de Gustav foram tão anormais, mas não tão anormais, que Leona teve de arquear a sobrancelha em uma expressão notória de confusão diante do comentário. É, certamente tinha algo muito errado acontecendo ali.
Jack
A proximidade de Gustav só foi mais incômoda porque além de Jack quase conseguir sentir que havia algo de muito errado no modo predador do amigo, sentiu o tapa nas nádegas e estremeceu em desconforto, dando um passo para o lado de Gustav.
- Eu chamo todos os meus amigos por apelidos, mas você já devia saber disso, hm? - Jack respondeu, mantendo a distância. - Vamos logo com isso, pelo menos você não pode piorar. Não é para "onde", é para "quem" eu vou levá-lo.
Jack fez todos os ajustes que precisava, se instalando em outro quarto para poderem sair do hostel e ir atrás de alguém que pudesse ajudar a tirar aquela personalidade de Gustav. Ainda manteve uma distância segura do outro e quando saíra do prédio, já ouviu a sirene da polícia. Jack suspirou, esperava evitar que alguém inconveniente da delegacia aparecesse para atrasar o seu trabalho, mas pelo visto, ainda era o seu dia de sorte. A pessoa que saiu da viatura era exatamente quem estava esperando e ele colocou um sorriso largo no rosto ao se aproximar da loira.
- Kitty!! Que bom que foi logo você que atendeu ao chamado. Era você mesmo que eu precisava. - Jack cruzou o caminho direto até Leona e parecia mais desesperado para sair de perto de Gustav do que relutar em chegar perto da loira.
Ele nem pediu licença para invadir o espaço pessoal dela, aproveitou a surpresa de Leona com a resposta de Gustav sobre não conhecê-los e abraçou a loira por trás, já preparado para algum tapa ou cotovelada em seguida. Mas o tempo da surpresa ainda lhe deu uns bons segundos para responder.
- Viu? Não sei o que aconteceu com ele de noite, mas estou pensando que vai dar trabalho para consertar. - ele apontou na direção de Gustav, usando Leona como se fosse um bom escudo. Bom, se a pessoa com quem ele estava antes fosse gay, Leona deveria servir para amenizar a interação dos dois, e com a personalidade da loira, logo Gustav estaria absorvendo-a para minimizar o estrago.
Leona/Gustav
Todo aquele cenário era estranho, não somente porque Gustav parecia bastante alterado, a forma casual como ele inferiu que os três tinham se relacionado intimamente, e principalmente por Jack ter lhe usado de escudo contra o humor alterado do outro. Leona suspirou resignada, e deu uma cotovelada no loiro mais alto, ele era um adulto pra estar lhe usando como muro de proteção: -- Assim que eu pus os olhos nele, eu percebi que tinha algo errado, o que foi que você fez com ele?! -- Deu um passo a frente e se aproximou de Gustav mantendo as mãos na cintura o ar autoritário costumeiro enquanto encarava o amigo de longa data:
-- Certo, sei que você deve ter tido uma noite ruim, mas já chega, se continuar com essa ousadia pro meu lado eu lhe prendo pra você acalmar os ânimos. -- a loira ameaçou, pondo seu tom de voz mais sério e direto. No entanto, diferente da reação que esperava do outro, a linguagem corporal dele não se alterou da forma que supunha, muito pelo contrário, se sua observação estivesse afinada, ele parecia animado com a aproximação e aquilo lhe fez arquear uma sobrancelha em resposta:
-- Ah depende, você pode curtir esses fetiches de algemas, mas eu já tive minha dose de correntes por uma vida, mas se você quiser me pisar com esses saltos pontudos eu bem aceito. -- o moreno reduziu a distância, apenas para contemplar o fato de que a policial, carinhosamente chamada de Kitty ainda era mais alta que o próprio, e estava guiando a mão na altura da cintura da mulher, mas antes que encostasse nela, teve o pulso segurado com uma agilidade em que acompanhou com a visão mas o corpo não se moveu com velocidade o suficiente para se defender.
Leona por puro reflexo segurou o pulso de Gustav e o girou, colocando a mão contra as costas do sujeito, e esperava que ele contorcesse a expressão em dor, mas o que conseguiu arrancar de Gustav foi apenas uma expressão de satisfação: -- Não faz isso senão eu apaixono! -- o moreno respondeu sem qualquer pudor diante dos fatos e sem nenhuma noção de perigo também.
Leona continuou segurando contra o chão e encarou Jack com uma expressão mais surpresa como se tivessem ali um problema maior do que os dois podiam resolver.
Jack
Jack sentiu a cotovelada forte e contorceu o rosto numa expressão de dor e desagrado, mas não era nada com que já não estivesse acostumado vindo da loira. Ao menos ela estava entre ele e Gustav, e se partisse do preceito que o outro estava muito assanhado porque podia ter assimilado uma personalidade de um homossexual, a personalidade forte de Leona deveria anulá-lo um pouco.
E qual não foi a sua surpresa quando Leona se aproximou do outro e ele pareceu ficar ainda mais atiçado com a autoridade da loira, inclusive, dando umas respostas bem pontuais com flertes óbvios, a ponto até de ser jogado no chão e imobilizado, e ainda assim, gostar do que estava acontecendo. Jack até arqueou as sobrancelhas para a situação, notando também a expressão surpresa de Leona para a atitude de Gustav que não voltava ao normal. Ele não se aproximou mais, mas levou uma mão ao queixo, curioso com quem poderia ter deixado Gustav naquele estado tão impregnado e numa personalidade tão forte.
- Ora, ora, agora as coisas estão ficando interessantes. - Jack comentou, começando a analisar o outro mais atentamente. - Eu achei que ele tinha sido impregnado por uma aura gay, por isso estava tão assanhado pra cima de mim, mas já vi que não é o caso. Você gosta tanto assim de ser pisado, Gustav? Quer que eu dê um jeito em você também?
Já que não conseguia tirar a personalidade dele tão fácil, melhor descobrir mais sobre ele antes de escolher uma contra-medida. Abaixou-se perto dele, analisando-o mais de perto com um olhar bem focado.
- [Bom, ele com certeza não tem uma personalidade submissa, ou não teria tanta atitude e ousadia, mas se o que está reforçando a personalidade dele for a postura autoritária, vamos ter um problema pra tirar isso daí justo com nós dois] - Jack começou a falar, daquela vez, em alemão, porque sabia que seria o suficiente para que Leona entendesse. - [Mas pode ter algo a mais em comum entre nós dois que reforce isso. E o mais imediato com certeza é a aparência, ele reagiu quando me viu e reagiu quando lhe viu também. Se for isso, temos uma chance de tirar essa personalidade daí com a Talulah. Se for só autoridade que está o deixando incitado, aí só um quarto branco].
Leona/Gustav
A loira manteve o braço do amigo bem preso contra as costas dele, e estava avaliando ali todos os trejeitos da fisionomia que Gustav estava assumindo, ele não estava se rendendo facilmente ao seu aperto, muito pelo contrário, ele estava forçando propositalmente, só para que tivesse aplicar mais força. E aquilo não era apenas um indício de quem queria sentir alguma dor, não dava pra simplificar em masoquismo, ele estava deliberando confrontando sua autoridade, para que tivesse de puni-lo. Leona estreitou o olhos e apenas esperou pra ver a reação do moreno mais baixo para as palavras de Jack.
-- olhe, aura gay não é pra ser um insulto, e também quem é que não ia ficar assanhado pro seu lado meu amigo? Você se olha no espelho não é?-- o moreno mais novo riu, mesmo sentindo o lado do rosto arder e doer pelo inchaço recente, mas ainda deslizou a língua sobre o canino, e estreitou os olhos escuros: -- depende do jeito, já disse que eu não sou masoquista, mas se for por vocês dois, aí sim, aí eu aceito fácil uma seção de castigos. -- riu com o canto dos lábios, e embora estivesse no chão e imobilizado não estava fazendo nenhuma questão de esconder a ousadia em suas palavras.
Leona absorveu cada palavra dita tanto por Jack quanto por Gustav, e prensou o outro com mais força contra o chão, arrancando um suspiro bem satisfeito do amigo de longa data alterado por sabe-se lá que. Puxou um par de algemas que tinha consigo, para de fato imobilizar o outro: -- Você está detido por atentado grave ao pudor e desacato a autoridade.
A loira pôs um tom sério em sua fala e nem fez questão de encobrir a cara fechada diante dos fatos e depois encarou o loiro mais alto: [-- Não é só a questão de autoridade, ele está deliberadamente nos confrontando porque temo um tipo de aparência que apetece a ele, o comportamento dele demonstra traços de uma pessoa que tem algum tipo de relacionamento com uma pessoa loira, alta, bonita, andrógina e autoritária, e ele gosta de ser punido por essa pessoa, por isso a provoca como se fosse um jogo.] -- Leona comentou num alemão, levemente enferrujado de quem não organizava frases nesse idioma para falar a algum tempo: [ -- Nós só vamos piorar o quadro dele, porque devemos lembrar a pessoa com que ele se relaciona, e outra coisa, ele está pondo força que Gustav não têm, logo, muito provavelmente a pessoa com quem ele se encontrou que agrediu ele, é uma pessoa forte. O que é perigoso uma pessoa franzina como ele, achando que é um galo de briga e que pode provocar qualquer um sem ter qualquer consequência, ele precisa ser domesticado, e sim, se der errado, quarto branco].
Concluiu a fala ainda segurando o outro, que a despeito de estar preso, não parecia tenso ou preocupado, e agora jogava piscadela para as funcionárias do hostel que olhavam a cena assustadas: -- vamos dar uma volta viatura, e você vem junto. -- Encarou Jack como se esperasse que ele a seguisse.
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Jack
A resposta de Gustav e o modo como ele impunha resistência aos gestos de Leona eram bem específicos para definir como ele estava agradado pelo fato de estar sendo punido especificamente pela loira, a despeito de reforçar que não era masoquista. Nem precisou continuar com uma análise mais detalhada, já que Leona aproveitou também da resposta em Alemão para completar o perfil do outro.
Ele se colocou de pé primeiro, sorrindo de um jeito convencido, quando ela reforçou que os dois de fato só iam piorar a situação de Gustav porque, como ela tinha dito, ele estava bem fissurado numa figura loira e autoritária a quem servir.
- [Muito bem, Kitty, às vezes eu esqueço que não preciso lhe ensinar mais nada.] - Jack aproveitou que Leona estava ocupada com as algemas para prender Gustav e passou a mão no topo da cabeça dela num gesto de "boa menina", mantendo a distância já que ela não tinha como revidar sem soltar Gustav.
Mas logo Leona levantou Gustav do chão para levar até a viatura, e ainda pontuou que Jack deveria ir junto. Mas claro que o loiro respondeu com uma risada breve e ficou onde estava, fazendo só um aceno com a mão.
- Não é uma boa ideia, Kitty, já sabemos que nós dois só o deixamos mais impregnado, não é? Eu confio que você dá conta, vai lá, vai, divirtam-se. - ele fez um sinal com as mãos, abanando-as para que Leona continuasse o trajeto com Gustav sozinhos.
Leona/Gustav
Para o moreno, embora o tom de fala dos dois fosse consideravelmente familiar e algumas coisas fossem entendidas aqui e ali, não se lembrava de saber alemão, então não era pra entender coisa alguma do que eles estavam falando. Esperava que fosse uma forma interessante de ser castigado, porque definitivamente queria ser posto no lugar por aqueles dois, era como tirar a sorte grande mesmo parecendo estar com todo o azar do mundo.
Por outro lado, Leona não ficava nada feliz quando era tratada como se tivesse 12 anos, mas sabia que esse era apenas o jeito com o qual Jack costumava arrumar para lidar com as coisas. Mas teve de parar no meio do caminho quando o amigo de longa data supôs que cuidaria da situação sozinha, tirando o corpo fora usando das suas próprias palavras. Leona estreitou os olhos, fazendo uma cara feia, para logo em seguida arquear a sobrancelha e por uma expressão severa, que o outro bem podia antecipar o que vinha dali:
-- Tudo bem, você sabe que ela também está na cidade não é mesmo? Eu consigo imaginar perfeitamente a reação dela, quando souber que você deixou ele comigo nesse estado, para que desse “conta” porque acredita que eu vou me “divertir”. -- E aquilo era uma ameaça bem dita, sabia muito bem que Jack era escorregadio, mas ele só conseguia sumir porque de fato nunca tinha sido caçado por Talulah, no momento que ela decidisse que queria a cabeça dele, ela teria:
-- Vamos pra igreja, temos de fazer quase um exorcismo aqui, e você pode ir rezando no caminho -- indicou para que ele lhe acompanhasse até a viatura, e infelizmente para Jack, como tinha ido no intuito de prender alguém, tinha seguido com um camburão, ou seja, não tinha espaço para o loiro na frente, ele teria de ir atrás junto com Gustav. Era vingança que chama não é mesmo?
Jack
Jack já queria dar as costas e se livrar daquela bela enrascada em que tinham se metido com um Gustav muito alterado, e na verdade, estava era curioso para saber com quem o moreno tinha passado a noite, ou mais do que apenas a noite para ficar tão impregnado àquele ponto. Ele já tinha dado as costas para seguir o seu trajeto de volta ao hostel e a um descanso bem merecido, quando Leona pontuou muito precisamente que deixaria claro para Talulah que ele estava envolvido naquilo e que tinha largado Gustav sozinho para que ela desse conta. A reação de Jack foi quase automática ao parar de andar onde estava e deixar um longo suspiro resignado escapar aos lábios.
- Olha, isso aí não é nada justo, Kitty. Eu fiz a minha parte de lhe chamar aqui e você ainda quer me colocar na forca! - ele retrucou, ainda assim, voltando a passos relutantes para acompanhar a loira e o amigo de longa data até encontrarem com o seu algoz particular: Talulah Reyes. - Não dá pra rezar contra a Sis, ela está nisso há mais tempo que eu. Acho que vi a sorte do dia errada hoje.
Ele seguiu para a viatura da polícia e só ao se aproximar o suficiente foi que ele percebeu outro detalhe: não tinha como ir dirigindo, já que não era da polícia local, e obviamente não tinha espaço para ele na parte da frente.
- Você não quer que eu ainda vá perto dele o caminho todo, não é? Eu já disse que só vamos piorar a situação, Kitty. - Jack tentou, mais uma vez, se desviar da obrigação não só de ajudar Gustav, mas de reencontrar Talulah com Gustav naquele estado preocupante. E nem era culpa dele daquela vez.
Leona/Gustav
O moreno sequer tinha noção quem era a quarta pessoa, do sexo feminino, mas ser era capaz de por medo nos seus dois amigos loiros de longa data, então queria mesmo encontrar com ela, se fosse uma festa a quatro, jamais teria do que reclamar. E quando ficou claro que iria no camburão mas que dividiria espaço com seu amigo, o moreno nem fez questão de esconder o sorriso, que ia de orelha a orelha, plenamente satisfeito de ir preso:
-- Se toda prisão fosse assim, vocês logo veriam mais gente se entregando a polícia. -- o moreno deu de ombros e entrou bem comportadamente no espaço do camburão, mas era notório o ar predatório que o homem tinha como se estivesse apenas esperando que o outro homem invadisse sua toca.
Leona por outro lado não se comoveu com o discurso de coitadinho de Jack, apenas indicou que ele entrasse também para que pudesse fechar a porta: -- Você tem de me agradecer que não tá indo algemado, e que ele já esta com as mãos presas atrás das costas, vamos o estrago já está feito, não tem como você piorar, a menos que você dê bola pras cantadas dele. Aí é por sua conta e risco.
Apenas esperou que o amigo de longa data entrasse no camburão, e segurou a vontade de rir daquilo, mas estava em trabalho e não podia aliviar a expressão, embora estivesse bem satisfeita. No meio do caminho ligou para Talulah e adiantou parte da situação, de que Jack tinha encontrado Gustav e que ele estava visivelmente alterado, ela chegou por um chamado da polícia mas mesmo com os dois juntos, ele permanecia alterado, e que agora, os dois precisavam de ajuda para restaurar o amigo de volta ao normal dele. Combinaram de se encontrar na igreja porque ainda estava em horário de atividades.
No meio do caminho o moreno, ainda fez questão de usar da perna livre para ficar importunando Jack, passando a ponta do pé pela batata da perna do homem, torcia para que a igreja fosse longe dali, pena que não era, e em um instante de viradas de rua tinham chegado.
Talulah
A ligação de Leona no meio daquele tia tinha sido inesperada, para dizer o mínimo. Não só por não ser uma ligação casual de amigos, mas por envolver Gustav impregnado com alguém, Jack e ela. Talulah até demorou a retomar a concentração no coral ao pensar que deveriam ter encontrado Gustav em um estado bem miserável ou depois dele encontrar com alguém de personalidade muito intensa, para que sequer Leona E Jack pudessem dar conta disso sozinhos. Aliás, de todos os lugares do mundo para tirar férias, será que seus amigos pensavam tão iguais a ela que tinham ido para o interiorzinho da França?
Dispensou os meninos do coral com um sorriso agradável, por não ter muita ideia do que esperar quando chegassem até lá. Apesar de Leona explicar a situação muito por cima, ela lhe reservava a surpresa dos detalhes, e claramente os detalhes podiam mudar muita coisa. Mas uma coisa era certa: se Jack tinha encontrado Gustav daquele jeito, alguma coisa ele tinha para ter piorado o estado dele. Por isso, pacientemente esperou na porta da igreja, os braços cruzados e os olhos claros fixos na chegada do camburão.
- Olá, lioness. Olá, Jack. Olá, Gustav. – cumprimentou-os, esperando tirarem Gustav de dentro do veículo, chamando todos com um dedo para entrarem na igreja agora relativamente vazia. – Pode começar explicando o que você fez dessa vez, Jack Reinhardt?
Jack
Jack não se preocupava com os avanços de Gustav, porque não era como se não pudesse subjulgá-lo com facilidade. Mas o amigo de longa data ao seu lado o tempo todo avançando, lhe cutucando, se inclinando e dando todos os tipos de cantadas descaradas que pareciam reforçar ainda mais a personalidade que Gustav tinha absorvido na noite anterior, só faziam com que um calafrio desagradável passasse pelo seu corpo o tempo todo. E para não piorar a situação, nem podia dar bola para a presença do outro no camburão, o que foi bem difícil de fazer.
Quando chegaram à Igreja, Jack já não sabia o que era pior: sair rápido do camburão para encontrar Talulah, ou continuar no camburão na companhia de um Gustav de personalidade predadora. E quando Leona abriu as portas que ele praticamente pulou para fora do veículo para encarar Talulah, ele teve vontade de voltar para dentro.
- Eu acho que vou ficar aqui guardando o carro e vocês conversam. - Jack sorriu descarado, mas antes de conseguir voltar para o carro, Leona foi mais prática em lhe puxar pela roupa, e a pergunta de Talulah foi logo para lhe acusar. - Ei, ei, ei! Eu não tenho nada a ver com isso aí. Ao contrário, estou tentando ajudar e manter a distância e a Kitty aqui não está querendo ser sensata. Essa... pessoa aí gosta de loiros. Em geral.
Leona/Gustav
Ver a amiga de longa data já lhe esperando lhe trazia certo alívio, sabia que de todos ali, Gustav era mais apegado a imagem de Talulah que a dela ou mesmo de Jack, então, se tudo corresse bem, o fato dela estar ali, e a reunião de todos deveria ao menos, aliviar parte desse status negativo que o mais novo se encontrava:
-- Bem, foi como eu disse por telefone, ele está impregnado, e aparentemente as nossas aparências reforçam a personalidade invasora, ao invés de atenuá-la. -- Apenas reforçou aquele ponto, porém não dispensou a presença de Jack, esperando para saber que reação Gustav teria ao encarar Talulah: -- Venha, você também, pode descer da viatura.
O moreno ao perceber que não estavam na delegacia e sim em outro lugar, lhe dava uma perspectiva meio diferente da situação, e aquilo fez com que um sorriso se alargasse em seu rosto: -- Hora hora, você me parecia uma policial tão certinha, pensei que me levaria direto pra delegacia, mas pelo visto, vamos ter uma festa. -- o moreno pausou a fala para encarar a figura da mulher a sua frente, a pele morena, os olhos claros afiados, a postura altiva, não sabia quem era, mas certamente não negaria se ela quisesse pisar em seu corpo ou lhe botar numa coleira: -- Uma festa a quatro parece divertido, mas devo admitir que eu não tenho fetiches com igrejas, e como já disse tive minha cota de ficar acorrentado, se puderem me soltar eu agradeço, senão pelo menos me divirtam. -- Brincou sem se levar a sério, e sem sentir que sua vida estava em risco, embora a situação fosse completamente desfavorável fisicamente falando, não via nenhum indicativo de que eles queriam lhe machucar, apenas não entendia porque eles estavam conversando tanto ao invés de irem ao que interessava de verdade.
Os comentários sugestivos de Gustav dando a entender que presença de Talulah não tinha surtido efeito sobre ele, lhe deixou com o cenho franzido em preocupação. A loira cruzou os braços e fez uma expressão mais séria e preocupada diante daquilo.
Talulah
Talulah não deixou de olhar desconfiada para Jack do mesmo jeito, mas quando Leona informou que a personalidade que ele tinha “absorvido” era de alguém que gostava de loiros, pode imaginar como estar com os dois ali em nada ajudava. Mas sequer suspirou, apenas se permitindo ouvir Gustav falando com todo aquele desenrolar eloquente, o que fez com que voltasse os olhos claros para ele com serenidade, afetada um total de zero por cento pelos trejeitos devassos.
- Gustav. Pss. Respeite o ambiente. Você sabe que eu gosto que trate a igreja com respeito. – falou com uma calma quase pausada, e um tom firme muito mais maternal do que o que usava para Jack. Ou qualquer um deles. Estendeu o dedo e tocou o centro da testa de Leona por um instante, abrindo um sorriso suave. – Não se preocupe, lioness. Sei que deve lhe parecer incômodo ter que ouvir cantadas de um amigo, mas eu vou fazer ele criar juízo. Não seria a primeira vez que fiz isso por vocês. – Talulah ponderou, então voltando-se para Jack. – Entrem em um consenso se devem ficar aqui ou não. Eu sou boa em conseguir respostas, não em montar perfis psicológicos. Se acham que sendo alvos dele não vão ajudar, então, os dois são inteligentes o suficiente para decidir.
A morena então caminhou até Gustav e convidou-o a se sentar no último banco da igreja, que estava vazia. E provavelmente continuaria vazia quando vissem uma policial e um homem algemado lá dentro.
- Não lhe vejo há muito tempo e é assim que você me aparece. – Talulah suspirou brevemente, sentando ao lado de Gustav e levando a mão ao rosto dele, encarando-o diretamente com o rosto sério. – Eu não vou lhe soltar ainda, porque não sei como e com que tipo de pessoa você andou se envolvendo, Gustav, para terminar assim, mas... sabe que se fizer gracinhas, eu vou lhe dar uma surra. – a morena então ponderou como poderia começar a trazer Gustav de volta, sabendo que ele tinha vindo o caminho todo com dois estrondos de personalidade que eram Leona e Jack. Quem sabe faria bem lembra-lo como tinha chegado ali? – Está de férias em Cerise, Gustav?
Jack
Jack seguiu a loira muito a contragosto quando um Gustav muito fogoso saiu do carro satisfeito que não tinham chegado a uma delegacia. Ele ainda manteve a distância que dava, observando tudo de longe e anotando mentalmente mais trejeitos que denunciavam que o gosto dele não era só por loiros, mas só precisava de uma palavra de Talulah para confirmar o que mais havia ali.
E a personalidade dela passou longe de resolver o problema do amigo de longa data. Pelo visto, eles iam acabar trancando o outro numa sala branca e deixando lá por um dia até que a morena pudesse mesmo resolver.
- O meu consenso é que devemos ir embora o quanto antes, Kitty. - Jack adicionou ao comentário de Talulah, e já estava bem certo de que ir embora também não ia ajudar.
Mas claro que a tentativa dele de fugir não foi nada bem-sucedida com Leona na sua cola, e mesmo com as artimanhas que podia usar, não era como se fosse deixar Gustav para trás com aquele tipo de personalidade que era, para dizer o mínimo, perigosa. Jack acabou mantendo a distância da dupla, observando um pouco, aprovando mentalmente o fato de que pelo menos Talulah estava tentando puxar informações do Gustav, e não da pessoa que o tinha impregnado.
- [Estamos a dois segundos de confirmar que o problema não é só um gosto por loiros]. - Jack comentou em alemão para Leona, que estava numa distância em que podia ser ouvido.
Leona/Gustav
Leona se manteve próxima a Jack para que ele não simplesmente escapasse e resolvesse só voltar mais tarde quando talvez Talulah tivesse terminado de tentar descontaminar Gustav. Muito embora o fato do amigo de longa data não demonstrar nenhuma palpitação nas pálpebras, ou qualquer pequeno gesto que indicasse estresse, relutância ou confusão, lhe antecipava que muito provavelmente a personalidade invasora era ainda mais complicada de expurgar:
- [Eu estou duplamente preocupada, sobre o tipo de pessoa que Gustav encontrou e sobre o tipo de lugar que ele teve de se enfiar pra achar alguém assim.] - a loira suspirou mantendo uma expressão séria, não gostava de pensar que tinha algum doido com a cabeça ruim o suficiente pra afetar Gustav naquele nível, ou quem sabe fosse o fato de Gustav estar mais fragilizado? A aparência dele não era das melhores:
- [Eu sei que aconteceu alguma coisa com Gustav, mas como tudo que chega em mim, chega limitado, eu não sei os detalhes de porque ele estaria com uma aparência tão acabada, mas você com certeza deve ter alguma ideia] - A loira comentou cruzando os braços e parecendo mais preocupada que aborrecida: -[Tem algo que possa me contar?]
Na cabeça do moreno mais novo o fato de todas aquelas pessoas bonitas lhe conhecerem era um ponto bom, o ruim era não lembrar como e nem quando as tinha conhecido, imaginava o tipo de estado afetado em que deveria estar pra não se lembrar. Riu quando a morena pediu para respeitar a igreja, ergueria as mãos, mas elas estavam algemadas nas suas costas, logo deu apenas de ombros, em sinal claro de “tanto faz”. Depois do comentário sobre estar daquele jeito, o moreno sorriu de forma despreocupada:
- É, eu já estive melhor, mas pra quem acordou acorrentado a uma cama de hostel, com uma chave presa nos lugares inapropriados, eu ainda acho que tô até num saldo positivo. - Notoriamente o tom mais firme da mulher não passou despercebido, e tinha quase certeza que se de fato tentasse qualquer coisa naquele “lugar sagrado” a mulher a sua frente cumpriria a ameaça de lhe bater. Porém o moreno estreitou os olhos e inclinou a cabeça de leve, sorrindo amplamente, a ponto de mostrar os caninos, estava realmente pensando em aprontar algo e comprovar o peso da mão ou do pé da mulher a sua frente.
O moreno sequer prestou atenção no nome pelo qual estava sendo chamado, e aquilo nem tinha tanta importância na verdade, estava muito tentado a provocar, afinal, mesmo que estivesse claro que ninguém ali queria lhe machucar, tinha sido ameaçado de tomar uma surra, e talvez quem sabe, gostasse daquele tipo de surra:
- Sabe…! - o moreno aproveitou o fato da morena estar segurando seu rosto com as mãos e moveu a cabeça para mordiscar a pele da mulher com os dentes: - eu queria saber qual seu conceito de “gracinhas”. - Jogou charme descaradamente, sem qualquer receio com o amanhã.
Talulah
Talulah até entendia a necessidade de Leona e Jack conversarem em alemão para não engatilhar mais a personalidade muito estranha que Gustav tinha absorvido daquela vez, mas estar por fora das discussões também lhe deixava um tanto irritada. Sentia como se eles estivessem deixando aquela responsabilidade para ela, o que parecia ser o melhor, dadas as circunstâncias, mas os dois que eram os perfiladores ali.
A morena arqueou de leve a sobrancelha para o “tanto faz” para seu pedido de respeitar o espaço da igreja, mas não disse absolutamente nada, deixando o olhar repreendedor falar por si. Mas bastou Gustav mencionar a situação em que tinha sido encontrado, Talulah voltou o mesmo olhar para Jack, como se ele tivesse sido o culpado da situação, o que bem sabia não ser o caso. Gustav estava em um estado bem abatido fisicamente, talvez as pressões do trabalho que fazia não estivessem lhe fazendo bem. Sua falta de controle sobre a personalidade absorvida mostrava bem isso.
E o fato dele ainda ter a ousadia de lhe desafiar a cumprir a ameaça também. A mordidinha não afetou absolutamente nada de sua expressão.
- Mas você sabe, Gustav. Acho que já tivemos essa conversa uma vez. Sou uma mulher muito guiada pela minha fé, então sigo bastante os ensinamentos do meu Senhor. “Gracinhas” são pequenos desrespeitos. Me dar uma mordida na mão... não me afeta. Jogar os braços para meu pedido de respeitar o ambiente... é uma gracinha repreensível. – ela explicou em um tom muito calmo e suave, tirando a mão do rosto de Gustav e levantando-se brevemente para ir brevemente até suas coisas, retornando com uma bíblia. – Não sei se lembra, mas já lhe fiz ir para o sermão de um pastor no Bronx... e já que ele falava sobre esses pequenos desrespeitos, quem sabe ouvir tudo de novo não seja melhor que uma surra, sim? – ela falou, sentando-se ao lado de Gustav novamente e abrindo a bíblia. – Está magro demais, não aguentaria se eu lhe desse um tapa de todo modo.
Talulah então folheou a bíblia, começando por Filipenses 2:3, e tecendo, com a voz calma e metralhando palavras, uma explicação de como a humildade e a subserviência considerada faziam um papel excelente na convivência social, especialmente na parte sobre respeitar o próximo e as coisas que eram preciosas ao próximo. Do jeito que ela falava, com toda convicção e sem titubear, ela poderia expurgar um demônio se quisesse. Mas estava apenas ensaiando uma homilia.
Jack
A personalidade que Gustav tinha assumido era forte, e do tipo predadora também, mas que ao mesmo tempo, gostava de ser predado, por pessoas mais poderosas, pelo visto, porque naquele círculo de amigos, Gustav sabia que estava sempre sujeito a três personalidades muito dominantes. O contato direto com Talulah só confirmava que ele não tinha medo de desafiar, e desafiava porque queria ser punido, mesmo que fosse com dor. Pelo andamento das coisas, nem só Talulah seria capaz de anular a pessoa que havia dentro de Gustav, em último caso, teriam que só prendê-lo num quarto vazio sem muitos estímulos.
Ele ficou atento às respostas prontas do outro para Talulah, e sabia que iria instigá-lo a ser mais ousado, e o problema era que a personalidade invasora ficasse mais reforçada. Jack voltou a atenção para Leona quando ela perguntou o que podia lhe contar, mas não desviou o olhar de Gustav e Talulah nos bancos mais a frente.
- [Ele teve um último caso complicado na divisão de crimes especiais. E mal resolvido também, isso mexeu muito com as personalidades dentro da cabeça dele e os possíveis criminosos do caso. Não vou entrar em detalhes, mas saiba que por isso ele precisou se afastar do cargo, e buscar algum lugar em que a mente dele pudesse ficar em paz sozinha]. - Jack explicou para Leona. - [O problema é que ele esteve longe de muitas pessoas de personalidade forte, estou ponderando se o retiro dele mais enfraqueceu a capacidade de lidar e controlar essas personalidades alheias do que ajudou a defini-lo enquanto indivíduo].
Jack já estava ponderando se seria mais fácil usar as próprias personalidades para ludibriar Gustav até um quarto de motel qualquer e trancá-lo lá até que ele melhorasse, mas no instante seguinte, ao invés de ceder aos desejos masoquistas de Gustav, Talulah abriu a bíblia e começou a ler um dos capítulos, com uma voz muito calma e compassada, o que iria certamente contra as tentativas de Gustav de lhe atingir e ser punido de volta. Ele até arqueou um pouco as sobrancelhas, talvez fosse uma ótima saída, entediá-lo com os textos bíblicos.
- Olha, talvez não vamos precisar de um quarto branco. - ele disse, de volta ao inglês, observando qual seria a reação de Gustav. Se Talulah não ia ceder a confrontá-lo como queria, ele provavelmente buscaria alguma reação em Jack e Leona.
Leona/Gustav
Não que Leona esperasse uma resposta contundente vinda do loiro, afinal falar com Jack era lidar sempre com meias respostas e uma porção de desvios. No entanto, se surpreendeu com o fato de Jack ser bastante direto em apontar que tinha sido um caso difícil e que isso tinha levado a um afastamento consciente do mesmo, sabia que Gustav tinha uma resiliência fora do normal para lidar com casos hediondos, e se para ele, o caso em questão tinha alcançado um ponto de limite, podia supor muitos pontos a partir dali. Fez um meneio de cabeça positivo atestando que tinha entendido aquelas palavras, a depender da época em que ele esteve envolvido no caso, a própria loira podia estar envolvida com o caso que tinha levado seu pai, e não tinha como humanamente dar atenção a qualquer outra pessoa, mesmo que fosse um amigo pessoal.
- Chutando, diria que o Gustav não estava fazendo o acompanhamento devido após o trabalho. Somado ao que você falou do acúmulo e a ausência de pessoas conhecidas no convívio, é um cenário perfeito pro caos que estamos vendo. - Leona não fez questão de falar em alemão porque aquele “resumo” sem dar nomes específicos as situações, servia mais a Talulah do que a qualquer pessoa estranha que pudesse estar ouvindo.
Por outro lado, para o moreno mais novo, saber que suas gracinhas convencionais não tinham efeito era quase um convite para testar algo diferente, porém sentia lá no fundo de sua nuca que devia ir com calma, porque apesar de gostar de apanhar, tinha um limite do quanto gostava de ser surrado. Manteve o sorriso, mesmo com o rosto parcialmente inchado da pancada que tinha o levado a ficar daquele jeito, e arqueou as sobrancelhas quando a mulher a sua frente disse que já tinha lhe levado no “Bronx”, não se lembrava de nenhum motel de Paris que tivesse aquele nome, talvez fosse um apelido? porque certamente não sairia do país pra ouvir sermão religioso, afinal, não tinha qualquer vínculo com fé ou igrejas.
O moreno até abriu a boca como quem completaria com algum gracejo, mas o fato da mulher destacar tão veemente que estava magro demais, e que não aguentaria levar um tapa. Sentiu todos os pêlos do corpo se arrepiarem até o fim de sua nuca, num frio gélido que lhe alertava de perigo, embora não lembrasse especificamente quem era a mulher a sua frente, seu corpo se lembrava, senão aquele arrepio tão característico não teria lhe cortado de canto a canto. Mas era verdade, lembrava vagamente que o começo de toda aquele dia estava em ter “fome” porque fazia muito tempo que não comia bem, porque estava ocupado com algo, que tinha finalmente terminado, e que estava aliviado por ter terminado, e por isso queria comemorar que tinha terminado, só não lembrava o quê exatamente.
Sequer prestou atenção no texto dito pela mulher, arqueando a sobrancelha numa leve confusão, como se tentasse buscar motivos para ter escolhido passar pelo que passou, lembrava que tinha importância, muita importância, mas se tinha, porque não lembrava? Aquilo doeu no fundo de sua cabeça como se o seu coração estivesse batendo duas vezes, no peito e no topo de sua cabeça. E quando a mulher terminou de narrar o trecho longo do livro que carregava, o moreno a observou longamente, e sorriu cordial:
- Eu não sei exatamente que reação você esperava tirar de mim, mas a verdade é que eu não tenho qualquer interesse em religião, deus ou qualquer dessas coisas, pra mim isso é tão subjetivo quanto gosto pessoal por pães, se você gosta de croissants de chocolate ninguém pode te julgar por isso, mas você não pode me convencer que croissants de chocolate são os únicos pães que existem. Eu sou obrigado a lhe respeitar, ok, mas não sou obrigado a acreditar. -- o moreno falou com uma falsa tranquilidade, e agora parecia menos natural na forma como executava o seu charme, como se a cordialidade fosse um modo de defesa quando algo o incomodava: - e bem, meu crime foi um atentado grave ao pudor lá no hostel onde eu estava hospedado, acorrentado nu, sabe-se lá porquê, e se não for pra ser levado pra delegacia pra ser preso, não tem motivo pra que eu esteja aqui, têm?
A pergunta foi feita num tom muito comedido, e diferente de antes onde o moreno estava apenas soado galanteador porque acreditava ter uma promessa de noite de diversão desvairada, agora que sentia dor de cabeça, não tinha mais qualquer interesse pra estar ali. E queria em verdade, sair e tentar fazer sentido das coisas que não estavam se encaixando, mas antes que fosse buscar por respostas, tinha de buscar um local onde se sentisse seguro. Onde tinha deixado seu carro? agora que tinha parado para lembrar que sabia dirigir e que tinha ido pro hostel em um.
Talulah
A morena estreitou os olhos para Jack enquanto lia os capítulos da bíblia que tinha anunciado, em resposta a ouvi-lo falar em Alemão de novo. Ela estava ali trabalhando para pensar em algo que tirasse aquela personalidade do outro e lá estava ele, conversando coisas com a Leona que não poderia entender. Esperava que não fosse relevante. Claro que a indignação não transpareceu de modo algum em seu tom compassado e calmo de leitura, pois era muito boa em fazer múltiplas tarefas.
Ao menos Leona tinha feito o favor de lhe contar indiretamente o que tinha acontecido, e a morena apenas sorriu muito discreta para o modo tão cuidadoso como ela tinha se comunicado.
De todo modo, havia algo em sua escolha metodológica para lidar com Gustav que havia surtido efeito. Algo em suas palavras tinha deixado ele incomodado o suficiente para lhe ouvir sem lhe ouvir, e sem fazer nenhuma gracinha enquanto terminava aquele trecho bíblico, pelo menos até fechar o livro. Foi só então que o moreno desatou a falar novamente, dessa vez se atropelando na figura confiante, parecendo claramente sacudido do conforto em que se encontrava.
- Ah. Agora você sabe que precisa me respeitar? Por que? Por que eu lhe disse? Ou por que você sabe? - ela questionou, com um sorriso muito suave aparecendo no rosto, os olhos púrpuras focando fixamente no moreno, como se tivesse pego uma brecha por onde cutucar sem precisar levantar um dedo sequer em violência. – Eu acho no mínimo curioso que tenha simplesmente acordado nu em um hostel, e não lembre o que estava fazendo antes disso, “sabe-se lá por que”. Por que não pensa um pouco e se lembra? Não precisa ser tudo de hoje. Que tal ontem? E antes de ontem? – ela sugeriu muito calmamente, com a voz serena de quem estava conversando com um amigo, exceto pelo olhar que tentava ser mais inquisitivo. – Que ótima pergunta. Têm sim um motivo pelo qual você está aqui. Eu posso tentar um trecho bíblico mais filosófico se quiser, mas só quem tem todas as respostas é você mesmo, Gustav.
Talulah abriu então a bíblia mais uma vez, começando por Gênesis, da criação do homem, argumentando num sermão longo e entediante como a moral, a racionalidade, a estética e a espiritualidade, e até mesmo o senso de justiça vinham de Deus, mas porque somos apenas a imagem, somos apenas fragmentos, então nos perdemos olhando outros falsos ídolos, e depois disso passou por trechos de Coríntios, Colossenses, Números e Romanos, citando trechos existencialistas sobre o propósito do homem na terra e o papel como espelhos de Deus.
- Com isso não quero dizer que esses são os únicos croissants que existem, claro, mas... são croissants deliciosos, e você pareceu bem interessado ouvindo, em respeito. Já tentou se conhecer um pouco mais... e se converter? – ela comentou com um ar suave, mais uma vez puxando conversa.
Jack
A mudança no tom de Gustav quando Talulah começou a dar o sermão deixou Jack mais atento, ainda não era o suficiente para limpar a mente dele, mas já era um bom indicativo de por onde seguir. No fim das contas, ele e Leona podiam ser perfiladores especialistas, mas a personalidade firme de Talulah podia ser naturalmente manipuladora, o que era bom naquela situação: eles não precisavam de técnicas específicas para lidar com a pessoa dentro de Gustav, a escolha de ir até Talulah tinha sido boa - infelizmente.
Jack manteve a distância da dupla. Encostou-se ao portal de uma das entradas da Igreja com o ombro e cruzou os braços e pernas, observando a conversa dos dois. As respostas engraçadinhas de Gustav tinham cessado, mas o sermão de Talulah seguiu firme e Jack estava com muita vontade de só dar as costas e sair dali, mas tinha que esperar o desfecho.
Ele não interferiu na conversa, principalmente porque qualquer comentário seu e num tom descontraído podia trazer a personalidade anterior à tona.
- Eu acho que Talulah é a melhor solução no momento, então é melhor não interferirmos por enquanto. - Jack comentou, bem queria sair dali para se livrar da situação em que ele teria que ouvir o sermão, mas nem se moveu. - Nem precisa falar nada, eu não vou sair agora.
Leona/Gustav
Embora a loira não fosse uma pessoa religiosa o mal da sua memória era ser incapaz de esquecer também, e isso queria dizer que mesmo que não tivesse interesse, se já tivesse ouvido aqueles textos bíblicos uma vez, eles jamais sairiam de sua cabeça. Mas para bem ou para o mal, a abordagem de Talulah tinha causado um gatilho e desencadeado questionamentos. E para quem está passando por uma crise multifacetada como o amigo mais novo estava, era crucial que houvesse esse sentimento de confusão, porque dali por diante, a falta de respostas para as perguntas que fazem parte da personalidade invasora, fariam a mesma se fragilizar e quebrar. Com um reforço positivo sobre a personalidade de Gustav talvez ela voltasse espontaneamente, porém isso não apagava o fato de que o amigo estava fragilizado e não podia ser deixado sozinho.
Notou a movimentação do loiro ao seu lado e a expressão mais neutra, lhe dava margem pra pensar que ele realmente ficaria, então talvez fosse bom levantar o ponto: -- Bem, a Talulah vai conseguir trazê-lo de volta, e mais rápido do que a gente podia supor, porém e depois Jack? - A loira comentou num tom comedido, para não interromper o ritmo que a amiga tinha imposto na conversa e que estava surtindo efeito sobre o moreno mais novo. Sabia que Jack podia ser evasivo mas ele não deixaria um amigo machucado a própria sorte, mesmo que fosse um machucado que não dá pra ver por fora.
Para o moreno mesmo que a mulher falasse em um tom tranquilo, com aquela intimidade de que se conheciam, a forma como indiretamente ela lhe acuava a tomar decisões e responder questões lhe deixava num misto de sentimentos. Parte de si queria fugir dali o mais rápido possível e se abrigar em lugar seguro, e outra parte sabia que invariavelmente ela não lhe era um risco. E esse paradoxo de sentimentos lhe deixava com muita dor de cabeça, porque não devia ser possível se sentir amedrontado e seguro ao mesmo tempo perto de alguém.
E o fato dela usar suas próprias palavras contra si, lhe colocando em ponto de se questionar porque aquelas coisas tinham acontecido, afinal o que estava procurando pra acabar daquele jeito? Tinha ido atrás de coisas no supermercado porque estava com fome, não era? ou não? Aquele ponto do pensamento, sua expressão já tinha se contorcido em uma séria, com o cenho franzido, no que estava longe do arquétipo que estava sustentando. E porque estava agindo daquele jeito? porque fazia tanta questão de esconder sua confusão? porque não podia deixar transparecer que estava cansado? Afinal estava cansado de ficar no quarto não era? Ontem e antes de ontem também, estava a dias no mesmo quarto, olhando o mesmo teto, bebendo a mesma marca de cerveja francesa, tanto que ao levar as mãos ao rosto sabia que a barba estava por fazer e sua aparência estava das piores.
Sentiu a cabeça doer como se a mulher tivesse lhe acertado com a quina do próprio livro sagrado, e aquilo lhe atordoou de forma que quase despencou o corpo para frente, mas tudo que fez foi achar repouso da testa no banco de madeira na frente de si. E não soube exatamente quantos segundos se passaram, mas o sons pareciam abafados por água, tudo envolto em uma bolha de água morna e pesada, como se precisasse desesperadamente subir pra retomar o fôlego e foi em tempo de ouvir novamente a voz da mulher ao seu lado. E diferente de antes, ela lhe soou confortavelmente familiar, a luz do nome lhe veio a mente, o moreno afastou as mãos do rosto, em tempo de espiar em volta como se estivesse perdido, no rosto a clara confusão de porque estava numa igreja ao lado de Talulah:
- Eu pensei que já tinha passado da época de ter sonhos com suas tentativas de conversão cristã Talulah. - A voz soou cansada e Gustav ainda retornou as mãos para o rosto afim de esfregar os olhos, em tempo de encostar na parte inchada do rosto e emitir um breve “ouch”. O desgaste mental evidente num tremor que percorria todo o corpo e desenbocava nas mãos, o que poderia ser facilmente confundido com uma crise de abstinência de um drogado, era apenas sinal que o corpo de Gustav estava exausto de todo o processo mental que tinha tido de passar até voltar a ser quem era.
Talulah
Não demorou até que Gustav começasse a demonstrar sinais sinceros de sua confusão mental. As vezes ele parecia querer fugir – o que certamente não conseguiria fazer com os três lhe cercando – e as vezes, ele parecia apenas aceitar que estava ali, exatamente com os três. E em certo ponto, viu naquela expressão, a cara de Gustav, a cara pensativa dele, e logo o sujeito pendeu para a frente no banco da igreja, sem saber se fugindo ou se só cansado. Mas a morena acabou sorrindo de leve, porque apesar não reconhecer aquele sujeito que tinha encontrado no começo, a voz de Gustav reclamando logo quando ele levantou era bem reconhecível.
- Se você pensa sonho de conversão e não pesadelo, significa que todas as minhas tentativas funcionaram. – Talulah brincou, levando um braço em volta de Gustav e abraçando-o de leve, afagando o rapaz por um instante com um ar carinhoso. Podia ver os sinais de cansaço de Gustav, bastante evidentes, que já lhe eram estranhamente familiares. – Bem vindo, Gustav. Aposto que você vai se surpreender mas... estamos todos aqui. Já faz um tempo, não é? – Talulah comentou, olhando em volta de leve, ainda com a mão acariciando Gustav de forma estranhamente carinhosa.
Jack
Jack continuou observando a interação de Talulah e as micro-reações do corpo de Gustav para o fato de que ele estava sendo forçado a voltar para a própria mente. A personalidade que tinha tomado conta do outro, mesmo que forte, não tinha como ir contra as restrições da personalidade dominante de Talulah, que ele desconhecia por completo. Não era algo com que a segunda personalidade estivesse acostumada, obviamente. Ele não desviou a atenção do amigo de longa data, mesmo ouvindo o questionamento de Leona. Sabia que ele podia ter alguma reação fisiológica, talvez desmaiar ou ter uma queda de pressão, dependendo do quão drástico fosse o retorno.
Demorou alguns longos instantes ainda observando Gustav antes de dar uma resposta mais direta ao questionamento de Leona.
- Bom, isso depende mais dele do que de nós, não é? Se ele não quiser ser ajudado, não tem nada que possamos fazer. - Jack respondeu, no mesmo tom neutro de antes, embora ele entendesse a preocupação de Leona e estivesse num lugar muito parecido, afinal, embora Gustav estivesse sumido nos últimos anos e distante do contato com os amigos mais íntimos, Jack nunca tinha sequer perdido a localização dele, e mesmo que não pudesse ajudá-lo diretamente, conseguia saber a maior parte das coisas que se passava com o outro.
Como já esperava, Gustav reagiu fisicamente primeiro: deixando o corpo pender para frente até encostar a testa no banco, a expressão de quem estava passando por um momento de dor, Jack até imaginava que a cabeça devia estar matando. Finalmente, uma resposta num tom que era neutro e bem conhecido, e Jack tomou a liberdade de se aproximar de novo, parando no banco de frente para onde Gustav e Talulah estavam sentados.
- Ora, ora, foi uma ressaca e tanto que teve dessa vez, não foi, Gustav? Saudades? - Jack se encostou na parte de trás de um dos bancos de madeira e cruzou as pernas e os braços, agora que Gustav tinha retornado ao seu normal, ele devia estar perto da influência dos três para se manter equilibrado.
Leona/Gustav
Gustav ainda demorou para se situar no que estava acontecendo, sentia a cabeça latejar e o corpo todo responder em pequenos espasmos, mas diferente de antes que se sentia “acuado” e até certo ponto amedrontado, agora era como se tivesse plena ciência de que estava seguro. E aquela sensação mesmo que momentânea de que não precisava sair correndo pra se proteger de algo lhe fez suspirar pesadamente e aceitar o contato físico, fechando os olhos brevemente para o afago e a sensação de conforto que não sabia o que era a bastante tempo. E quando foi dito em voz alta “estamos todos aqui”, o moreno abriu os olhos espiando a figura conhecida do amigo de longa data surgindo bem na frente dos seus olhos, e sua reação imediata foi surpresa, depois um franzir de sobrancelhas:
-- Eu devia ter desconfiado que essa sensação de que eu trabalhei dobrado não devia ser em vão. Mal presságio que você chama não é mesmo Jack? -- Gustav sorriu em tempo de se lembrar que o rosto doía, fazendo uma careta leve para só então tornar a sorrir de forma mais contida e encarar Talulah ao seu lado, lhe devolvendo um toque gentil sobre a mão que lhe afagava: -- Você disse todos nós?
E antes que Gustav pudesse espiar em volta, Leona foi quem se aproximou, depois de ter observado longamente todo o conjunto de trejeitos, e dar tempo para que o amigo absorvesse uma a uma a presença de cada um, foi que a mulher resolveu se aproximar e sentar-se do lado de Gustav, deixando-o no meio dos três; Era a que sabia menos sobre a situação do amigo, e como o próprio Jack tinha comentado tinha uma limitação de até onde poderia se envolver e ajudar diretamente, porque para o bem ou para o mal Gustav era responsável por si, mesmo que isso representasse algum nível de risco:
-- Exatamente, e inclusive eu estou em horário de trabalho, mas ainda tenho tempo pra conversar um pouco. -- a loira aliviou a expressão irritadiça costumeira, parecendo mais amigável do que geralmente se apresentava: -- Como está se sentindo?
-- Indignado. -- o moreno respondeu com falsa seriedade, espiando a expressão preocupada de Leona que ela tentava esconder aliviando as feições bravas que sempre sustentava: -- Não é possível que todos nós pensamos que a França seria um bom lugar pra tirar férias. E eu pensei que você estaria trabalhando na capital Leona, e não num interior quase esquecido por Deus.
Gustav respirou fundo, até tentou rir da própria situação sem muito sucesso, tornou a levar a mão ao rosto apertando o encontro dos olhos, sentindo a cabeça latejar. E o moreno percebeu que estava bem mais cansado do que tinha julgado ao ter acordado. O que estivesse fazendo antes de retomar a consciência, tinha lhe exaurido quase tudo que tinha de energia, e ficar acordado parecia um trabalho difícil, não que precisasse esconder aquilo dos amigos, mas queria ficar acordado mais tempo pra aproveitar. Sabe-se lá se quando acordasse novamente, todos ainda estariam ali, Jack seria o primeiro a sumir provavelmente.
Talulah
Podia ver que Gustav ainda estava se reajustando a ser ele mesmo naquele momento, e não mais aquela personalidade curiosa que tinha incorporado há poucos instantes. Sorriu suavemente quando ouviu ele falar com Jack de mal presságio:
- Mal presságio é o próprio, trazendo você algemado em um camburão da polícia de uma cidade do interior. A sorte dele foi estar em boa companhia, isso sim. – ela colocou suavemente, num tom de leve repreensão à Jack, mas tocando a mão de Gustav com cuidado. Deixou que ele percebesse gradualmente a extensão de “todos”, e finalmente notasse que Leona também estava ali.
A morena olhou em volta e antes que percebesse, um sorriso mais honesto tinha se formado em sua boca. Quais eram as chances dos quatro se encontrarem assim? Sabia que Jack chamaria de sorte, mas aquilo só poderia ser intervenção divina. Foi inevitável que o sorriso de Talulah se ampliasse quando Gustav comentou exatamente a mesma coisa que ela sobre Leona estar trabalhando em um interior que bem desmerecia suas habilidades.
- Ainda bem que você disse quase, Teddy. Mas acho que a manifestação divina foi reunir todos nós aqui, e na igreja, que ironia. – Talulah brincou, retomando o apelido do amigo agora que ele parecia estar recobrando um pouco mais quem era. – E olha, até então, desde que reencontrei a lioness, a primeira vez que a vejo em ação e ela estava só de motorista de viatura. – brincou, notando o cansaço de Gustav e aproximando-se dele para apoiá-lo contra seu corpo.
Jack
- Ei! Mau presságio no seu carma, o meu está positivo depois de ter te tirado do estado deplorável em que estava no hostel. - Jack retrucou, com um tom de falsa indignação quando Talulah ainda reforçou que ele mesmo era o mau presságio.
Jack manteve-se encostado no banco onde estava, com os braços e pernas cruzados e dando uma boa olhada no estado do amigo de longa data. Ele estava mesmo abatido depois daquela influência e precisaria de um longo descanso. De preferência, longe de tudo e de todos, que era o que tinha feito nos últimos anos. Mas o pensamento, Jack guardou para si enquanto Leona se aproximava e Talulah oferecia um melhor apoio para Gustav se recuperar. Ele até queria ter dito que Deus teria mais com que se preocupar do que vê-los juntos numa cidade do interior, mas ainda queria manter os dedos inteiros.
- Eu acho que o lugar é ideal para a Kitty trabalhar, até já arrumou uma ótima parceira, não foi, Kitty? Estava precisando se livrar do estresse. - adicionou o outro, com um sorriso largo. - Aliás, pelo visto todos estavam.
Ele deu uma olhada de Talulah para Gustav e depois para Leona, finalmente desencostando do banco de madeira e descruzando os braços para colocar as mãos dentro dos bolsos.
- Bom, já que estamos todos resolvidos aqui, Kitty pode continuar de chofer e lhe dar uma carona para um bom lugar para dormir, não é? Foi bom ver todos vocês, a reunião foi adorável, vamos marcar um happy hour um dia desses, hm? - ele bateu as mãos diante do corpo e já estava pronto para seguir o caminho para sair da igreja.
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