[Drive] Trabalho a Domicílio [George; Julian; Dieter; Fleur]
#1
George

Havia acabado de deixar as crianças da escolinha em seu dia de folga do trabalho no corpo de bombeiros. Planejava sair com os meninos no final de semana, mas já que eles estavam ocupados na escolinha pelo resto do dia, pensou em cuidar da casa ou quem sabe procurar algum amigo que precisasse de algum trabalho extra seu para conseguir algum dinheiro extra a fim de gastar com os meninos no final de semana. Sabia que a mochila de Samuel estava ficando desgastada e já estava cansado de costurar os remendos do fundo dela - o menino parecia não ter o mesmo cuidado com os objetos que ele possuía, sempre esquecendo de guardar a bolsa quando ia brincar com os outros garotos.

Em busca de algum amigo que pudesse precisar de seus serviços, passou primeiro no trajeto pelo bairro residencial, interessado em seguir para o centro da cidade onde sempre havia algo que poderia arrumar como trabalho extra. Acabou parando na Antique em busca de falar com a dona do lugar. Como muitas pessoas frequentavam o lugar, talvez ela soubesse de alguém que estivesse precisando de seus serviços. Já havia trabalhado com muita coisa, mas principalmente trabalhos domésticos relacionados à hidráulica, construção e instalações elétricas, algumas vezes montagem de móveis e coisas parecidas.

Adentrou na padaria, sua atenção sendo roubada principalmente pela fileira de doces na vitrine que eram os favoritos de seus meninos. Quem sabe no final do expediente valesse a pena levar algo dali para as crianças? Estava usando uma calça jeans comum e uma camisa vermelha de mangas curtas, uma das que usava para trabalhar no corpo de bombeiros, por dentro de uma segunda camisa de botões, xadrez, cinza e preta.

Parou próximo do balcão, procurando pela dona do lugar com o olhar, notando que o número de pessoas parecia menor que logo cedo pela manhã quando passara próximo dali. Não era difícil de enxergar a figura da mulher loira a julgar pelo sujeito um pouco mais baixo que sua figura à sua frente.

Julian

Julian não tivera tanta chance de mostrar sequer metade do seu trabalho para Charles, que tinha lhe visitado apenas uns dias antes para ver o que tinha escrito, isso porque ele não tinha pensado na impossibilidade do garoto poder subir as escadas para ver tudo que tinha e seu escritório particular. E era muita coisa. Por isso não tinha conseguido sequer dar conta da metade das tralhas que queria levar para o térreo em sua casa. Geralmente seu editor reclamaria, mas como estava bem empolgado em falar sobre o livro de fantasia, ele até tinha aprovado a sua loucura de querer trabalhar em algumas pesquisas para ele e mostrar para o novo amigo adolescente que tinha.

Claro que depois de uma manhã toda subindo e descendo escadas, o melhor jeito de descansar era almoçar e ir roubar algumas sobremesas deliciosas da Antique. Por isso que não se importou de chegar falando alto na padaria, seguindo direto até o balcão para chamar atenção de Fleur.

- É tão bom falar com gente que gosta da mesma coisa! Eu sei que podia achar mais gente interessada na internet, mas eu não me dou muito bem por lá e o meu editor fica reclamando que eu posso atrair um monte de estranhos, além do fato de que eles podiam querer me pedir favor quando descobrirem quem eu sou. Mas o Charles é um menino legal! E ele entende um monte e gosta do que eu falo também, então eu quero mesmo levar tudo lá pra baixo, sabe?! - Julian descarregou as informações em Fleur que já tinha ouvido aquelas informações pelo menos umas três vezes naquela meia hora. Mas riu da empolgação do outro, e era bom que ele estivesse interessado em algo que não fosse tão dramático ou trágico.

- Eu acho é que você não tem capacidade de andar levando essas coisas pra baixo. Olha aí o galo que já está na sua testa, derrubou o que dessa vez? - Fleur não se importou de pressionar o indicador na área inchada vermelha na testa da Julian que reclamou e gemeu de dor na mesma hora.

- Au!!! Foi um livro que caiu! Mas eu não tive culpa! É muita coisa pra levar pra sala e tenho que terminar antes do Charles voltar lá. - ele bufou. - Me dá mais torta que eu preciso de açúcar e energia, Fleur.

- Você vai é se matar naquela casa sozinho, Julian. - Fleur o repreendeu, pegando uma fatia de torta menor do que o que costumava servir na padaria. - E você já comeu doce demais, então, se contente com essa aqui.

- Mas Fleurrrrr!!

- Mas nada. Coma essa ou eu lhe arrumo outro galo na testa. - a loira retrucou, virando-se para ir à cozinha e parando ao avistar outra figura conhecida de longa data. - Ah, olá, George. Veio tomar um café ou pegar algum doce para os meninos? Ou os dois?

- Ah!! Oi, George!! Eu não te vi aí! Cadê os meninos?! Eu tenho uns livros novos de criança que meu editor me mandou, você quer pra eles?! - Julian se virou também para o bombeiro, comendo os pedaços de torta bem pequenos para que a fatia durasse mais.

George

Ouvir aquele tipo de conversa com o escritor falando alto não era nenhuma surpresa para George a julgar seu próprio ambiente de trabalho em que seus colegas tinham por hábito conversar mais alto que o recomendado. Apenas lançou um breve olhar mais intrigado quando Fleur pareceu pressionar a testa do escritor, fazendo questão de apontar como ele iria se matar na casa qualquer dia. Já era sabido que o homem não era nenhum rapazinho, ainda que a aparência dele dissesse o contrário e o senhor Holt parecesse mais jovem que a própria identidade dizia que ele era.

Ergueu a mão em um breve aceno para a dona da Antique assim que ela pareceu notar sua presença, prontamente lhe oferecendo o café e os doces para seus filhos. Sorriu em resposta a oferta, preparado para responder quando Julian lhe cumprimentou também, parecendo notar sua presença ali também.

- Eu aceito um cafezinho, Fleur. - respondeu amistoso, recusando os doces por saber que levar doces no meio da semana para os meninos deixaria com que ficassem mal acostumados. - Ah, estão na escola. - ouviu a oferta sobre os livros infantis e ficou surpreso com a boa oportunidade a julgar que já estava pensando em arrumar alguns novos para as crianças, principalmente Mikhael que parecia ficar mais calmo quando estava lendo os livros. - Os meninos vão adorar, Julian, muito obrigado. Eu aceito sim, claro.

Não era de negar aquele tipo de gentileza para suas crianças, principalmente quando vinha da vizinhança que começara a conhecer melhor fazia apenas alguns anos. Buscou no bolso a carteira para pagar pelo cafezinho que havia aceitado da dona do lugar antes de voltar a atenção de novo para o escritor, só então prestando melhor a atenção na marca na testa do outro.

- Desculpe te incomodar, Julian, mas acabei ouvindo sua conversa. Está com problemas com a casa? Algo em que eu possa trabalhar? Estou livre hoje e estava procurando algum serviço em que pudesse ser útil. - ofereceu para o moreno, considerando que ele quase sempre parecia necessitar da ajuda de alguém para os serviços na casa. Não sabia ao certo o que acontecia na vida dele além do que as pessoas comentavam, mas o sujeito não era nenhum homem perigoso ou desagradável. Na verdade, seus filhos pareciam simpatizar da imagem do escritor justamente por ele não se comportar como um adulto como a maioria das pessoas ao redor deles fazia.

Julian

Fleur fez um aceno em concordância com a cabeça e foi servir o expresso, enquanto Julian ajustava a cadeira alta ao balcão para se aproximar mais de George.

- Assim, eu tenho poucos livros de criança pequenininha, mas se os seus filhos gostarem de umas coisas de magia e de aventura infanto-juvenil, eu tenho também! - Julian se adiantou para falar, distraindo-se um pouco mais ao invés de só devorar a fatia de torta que estava comendo.

Fleur retornou logo com o café e o serviu ao lado do mais velho, deixando uns biscoitos pequenos também no prato, voltando para a cozinha depois de receber o pagamento de George para acompanhar os preparos de suas cozinheiras. Julian estava de boca cheia quando George comentou sobre ouvir sua conversa e sugeriu ajudá-lo no processo. Com o garfo ainda na boca, ele só fez acenos positivos várias vezes para concordar com o serviço que George estava oferecendo. Engoliu o último pedaço de torta com esforço, tossindo algumas vezes até se recompor.

- Não é que eu esteja com problemas, é que eu tenho um amigo novo que gosta de discutir as coisas do meu universo de fantasia e aí ele foi lá em casa pra ver as anotações e pesquisas que eu já acumulei há quinze anos e tal, mas ele é cadeirante, então ele não tem como subir as escadas e tudo isso que eu disse tá num dos quartos lá no primeiro andar, daí eu tenho que trazer tudo pra sala no térreo pra ele poder ver, sabe? E daí quando ele for lá em casa de novo, eu quero que ele possa ver tudooooo. - Julian desatou a explicar. - Mas eu já tropecei e derrubei livros e fiz tudo o que dava pra fazer e é muita coisa. Você pode ir comigo e me ajudar a levar tudo pra sala, né? Você é forte e bombeiro, então consegue subir e descer as escadas várias vezes!

Julian se colocou de pé, apoiando os cotovelos no balcão e ficando de ponta de pé para poder se curvar sobre o mesmo, olhando na direção da cozinha.

- Fleur!! Eu vou pra casa com o George! Mais tarde eu passo pra comer mais torta, tá?! - anunciou para a mulher, chamando atenção desnecessária dos clientes ao redor, tipo de barulho com o qual Fleur já estava bem acostumada.

George

Agradeceu pelo café acompanhado dos biscoitinhos que recebeu de Fleur, apreciando o aroma da bebida pouco antes de dar o primeiro gole, não se incomodando pela temperatura do líquido. Concordou com o escritor que se aproximava ao se ajustar na cadeira alta, oferecendo os livros diferentes para seus meninos. Tinha certeza que Mikhael não entenderia nada, mas se houvessem gravuras, ele ficaria feliz. Encarou o comportamento de atropelar a fala enquanto comia do escritor, provocando um certo engasgo. Ele parecia ter um paladar infantil também, com dificuldades de mastigar direito ao se surpreender com sua oferta.

Concordou com a cabeça em silêncio enquanto tomava o restante do café com os biscoitinhos, apreciando a gostosa massa daqueles docinhos. Estava acostumado a ouvir histórias das pessoas que atendia em seu trabalho como bombeiro, e tinha dois meninos em casa, o mais fazia era ouvir as histórias alheias. Na verdade, tinha a impressão que o escritor se daria bem no meio de crianças em uma escolinha pelo jeito dele contar uma ocorrência comum diária como se fosse algum tipo de desafio ou missão. Felizmente teve o tempo necessário para terminar o café e comer os biscoitinhos quando o moreno se levantou, animado com a ideia de sair dali e ter ajuda no trabalho que estava causando tanto problema para ele.

Arqueou uma sobrancelha diante do comportamento de Julian em mostrar para todos que estava indo como ele para casa, mas não disse nada, apenas seguiu o homem. Ao seu ver, o escritor tinha uma personalidade diferente e até excêntrica, mas imaginava que todos artistas e escritores deveriam ter um pouco daquilo. Acompanhou-o em silêncio, despedindo-se de Fleur de longe com um breve aceno, rumando para a tal residência do moreno.

Ao chegarem no destino, observou de relance o jardim, esperando que Julian fizesse as honras de permiti-lo entrar na residência.

- Há quanto tempo é escritor, Julian? - perguntou quando teve oportunidade, desejando saber, assim teria ideia da possível quantidade de livros, anotações e afins que o homem mantinha na própria casa. Desde quando lembrava, o sujeito vivia ali desde sempre. Recordava que ele não vivia só antes, mas achou melhor não tocar no assunto por achar que o tópico era pessoal demais para ele.

Julian

Julian não se controlou exatamente em passar o caminho inteiro até sua casa falando sobre as coisas em Cerise, as pessoas, as novidades e tudo mais que pudesse lembrar no longo caminho até sua casa. Diferente de quando Charles o acompanhou, os dois poderiam apenas ir andando e aproveitando os encontros casuais no meio do caminho. Quando chegaram em sua casa, seguiu direto até a varanda para abrir a porta de entrada com as chaves, o jardim já estava um tanto descuidado e cheio de ervas daninhas, mas não se importou tanto em passar direto, mais interessado nas coisas dentro de casa do que no jardim. Parou na porta só pra tirar os calçados e jogar no canto do corredor de entrada, ouvindo a pergunta de George.

- Pode ir entrando, poder entrar, George. - fez um aceno para o mais velho para que ele lhe acompanhasse, sem nem se importar se a porta da entrada ficaria aberta. - Então, eu escrevo profissionalmente há oito anos, meu primeiro livro que fez muito sucesso, depois publiquei coisas pequenas e com outros pseudônimos. Mandei outro livro fechado pra editora há algum tempo, mas são histórias dramáticas e trágicas, não é muito o que eu gosto, mas é o que eu sei escrever bem. Mas eu escrevo e acumulo coisas há bem mais tempo, tipo, há uns quinze anos? Então tem muita coisa lá em cima, deve ter coisa até que tá quase se desmanchando de tanto tempo, hahaha! Vem, vem, você vai ver!

Passou direto pelo portal que dava na sala, onde já havia algumas pilhas de livros, cadernos e anotações na mesa de centro. Subiu as escadas pulando quase de dois em dois degraus para chegar até o tal quarto que tinha comentado. Abriu a porta, acendendo a luz já que a iluminação lá dentro era mais baixa por geralmente deixar a cortina fechada sobre a janela também fechada.

- Aqui tá tudo o que eu tenho de livro e anotação! - ele fez um movimento amplo para indicar o quarto todo, cheio de pilhas de livros e anotações espalhados por mesas, cadeira, sofás e tudo mais que fosse superfície plana, com apenas um espaço no chão por onde ele conseguia circular com bastante destreza. - Aqui tem as coisas de cartografia e relevo e geografia - indicou uma pilha que certamente não estava muito organizada - Aqui tem umas coisas de fantasia medieval - prosseguiu apontando outras fichas - Aqui de costumes e roupas de épocas; aqui de mitologias anglo-saxãs; aqui de mitologia oriental; aqui de economia e política; aqui de universos de RPG; aqui de criaturas fantásticas e…

Ele continuou narrando basicamente tudo o que tinha em cada pilha ao redor, até cruzar metade do quarto desviando-se dos obstáculos tão facilmente que parecia até ele mesmo fazer parte da bagunça. Parou finalmente no meio do quarto, apoiando as mãos na cintura e se virando para George que estava na entrada do quarto.

- Pronto! Agora é levar tudo lá pra baixo nas mesmas pilhas pra eu não perder nada no meio do caminho nem misturar as coisas! - adicionou, como se fosse algo simples de se fazer.

George

Não deixou de notar como o jardim dele também parecia precisar de alguma ajuda com as ervas daninhas e a podagem de algumas plantas. Fez uma pequena pausa ao entrar para imitar o dono da residência, retirando seus sapatos para deixá-los próximos da entrada. Notou o descuido dele em deixar a porta destrancada e ainda mais quando ele foi subir as escadas em pulos. Ele parecia tão empolgado em falar sobre o próprio trabalho que se sentiu culpado com a ideia de interrompê-lo para que evitasse pular na escada e correr o risco de se machucar.

Parou na entrada do quarto que ele usava como escritório e encarou as informações de todos aqueles amontoados de livros e papéis uns sobre os outros. Levou a mão até o próprio rosto, coçando o bigode com a ideia que o escritor tinha de levar tudo do jeito que estava até o andar de baixo. Observou melhor o teto do lugar e a única janela do ambiente, procurando pela ventilação que deveria existir ali.

- Certo. Vamos fazer isso. Mas é melhor que eu leve as suas coisas. Parecem ser pesados. E o senhor espera lá embaixo para me mostrar onde quer que eu deixe os livros, pode ser? - ofereceu, pensando em uma forma mais prática de fazer o trabalho. Julian não era um homem forte e tinha uma grande predisposição a se acidentar naquela residência. Era muito mais prático que ele apenas lhe dissesse onde queria que deixasse os itens enquanto carregava tudo escada abaixo. - O lugar onde vai deixar tudo isso já está limpo e arrumado? - perguntou, considerando que não valeria a pena ter todo aquele trabalho para largar os livros dele na poeira e sujeira.

Retirou a própria camisa que usava por cima de uma segunda, vermelha, do corpo de bombeiros que havia ganhado na última comemoração da corporação. Usou o tecido sobre o rosto para evitar respirar qualquer poeira naquele quarto fechado. Não era surpresa alguma que o moreno vivesse gripado trabalhando em um ambiente como aquele, cheio de papéis de diferentes épocas, para diferentes fins e sem uma boa ventilação.

Julian

- Ah, não precisa levar tudo sozinho não, eu posso ajudar! Afinal, eu já até levei tudo aquilo lá pra baixo! - Julian respondeu, animado, mas claro que aquilo já tinha lhe rendido quedas, cortes em papel, livros na testa e tudo mais de acidente que pudesse ter no caminho. E claro, umas crises de espirros quando esquecia de tomar remédio pra alergia antes de mexer nos papeis empoeirados. - Bom, não é como se estivesse limpo e arrumado, eu to só colocando na sala porque é o maior espaço lá embaixo, eu não assisto muita TV e é o lugar mais perto da entrada pra facilitar quando o Charles vier ver as coisas. Mas eu acho que a gente podia organizar as coisas lá primeiro, o que acha? Dava pra levar uma mesa pra lá e umas prateleiras também e tal… mas pra isso a gente tem que tirar as coisas daqui de cima de qualquer jeito, hmmm.

O escritório tinha algumas estantes e prateleiras, além de uma mesa que estava com o uso bem inviável por conta do excesso de coisas em cima. Julian deu uma boa olhada ao redor no pouco espaço que tinha para circular sem pisar nos papeis e livros, avaliando o que tinha nas mesas.

- Tá bom, já sei! Vamos tirar essas coisas aqui que estão na mesa primeiro e daí dá pra levar a mesa lá pra baixo. Ou será que dá pra gente levar a mesa da cozinha pra lá? Eu nem uso tanto também… e é uma mesa grande. Mas a gente pode tirar só essas coisas pro corredor primeiro. Ah, eu vou pegar um piloto e uma folha e aí eu posso anotar o que é cada pilha e deixar em cima pra depois não confundir e misturar tudo, tá?! - Julian se virou para sair do quarto, escorregando no processo, mas conseguiu ficar equilibrado ao se segurar no canto da mesa. - Opa…! Essa foi por pouco, hehehe! Então, eu volto já, tá?!

Saiu do quarto em disparada até o próprio quarto, que era bem mais simples, sem tantas coisas, com uma mesa apenas, notebook e alguns cadernos de anotação que nem faziam volume. Pegou o piloto e as folhas para voltar até o escritório.

- Pronto! Peguei! Agora deixa eu ver… qual a gente leva primeiro?!

George

Ergueu a mão até a própria cabeça, coçando os cabelos com as ideias mirabolantes do escritor. Como iria explicar para ele que carregar peso era muito comum para ele e que preferia resolver a situação sozinho para evitar que o outro se machucasse? Queria poder organizar todo aquele material, na verdade, antes de descer tudo. Seria muito mais limpo e prático, contudo, não parecia estar nos planos do dono da residência. Esperou o moreno sair após quase tropeçar e cair para suspirar conformado com o problema no qual havia se metido.

Enquanto o outro não voltava na própria correria, usou a própria camisa de botões para enrolar o tecido e fazer um lenço para o rosto a fim de não respirar tanta poeira durante a mudança. Adentrou mais no quarto fechado, observando melhor o lugar, notando como era repleto de livros e pastas com pequenas anotações, papéis soltos e tantas outras pequenas coisas. Encarou algumas anotações sobre a descrição de algum lugar presa entre os livros e se deparou com uma caligrafia em particular. Contudo, não houve muito tempo para sua indagação quando o escritor já estava de volta com a mesma empolgação com a qual havia saído.

- Primeiro eu acho melhor o senhor cobrir o rosto para não respirar tanta poeira. Não é por nada, Julian, mas seus espirros são famosos na Antique. - comentou, apesar do comentário ter o intuito de ser engraçado, não dava para dizer como estava com metade do rosto coberto. - Depois pode me dizer o que vamos levar lá para baixo. Eu vou na frente para o caso do senhor escorregar no meio da escada.

Esperou que ele fizesse o que havia pedido enquanto ainda observava os itens naquele cômodo. Coçou a cabeça de novo, tendo dúvidas de que o moreno aguentaria lhe ajudar a descer uma estante ou até mesmo a própria mesa daquele cômodo para a sala. Para suportar o peso de todos aqueles livros e pastas, eles não deveria ser móveis frágeis. Enquanto Julian não retornava, saiu do cômodo para observar o trajeto que fariam até a escada e após ela, afastando qualquer móvel, tapete ou item que pudesse atrapalhar o caminho ou fazer o moreno tropeçar. Como ele parecia ter dificuldades em se organizar, tinha certeza que aquilo seria mais do que previsível com a mudança de tantos livros.

Julian

- Ahhh! Você ficou parecendo aqueles traficantes de milícia dos filmes de ação da década de 90 com essa camisa no rosto, hahaha! Você não quer que eu pegue uma toalha ou lenço pra colocar no rosto? Eu não tenho máscaras aqui, mas meu editor vive dizendo que eu bem precisava de umas já que eu vivo ficando com crise de alergia. Ah! Mas eu tenho cachecol, deve servir do mesmo jeito, não é?! - Julian sugeriu, seguindo até uma das pilhas de documentos para conferir do que se tratavam, anotar o nome e colocar em cima dela.

Começou a marcar todas as pilhas que estavam próximas, sem se preocupar muito em tropeçar em várias coisas no caminho, enquanto George parecia mais preocupado com sua saúde ao sugerir que cobrisse o rosto. Riu sem graça, colocando outro papel com o nome do assunto em cima de outros documentos.

- Ah, eu não gosto de nada cobrindo meu rosto, me dá agonia, parece que eu não consigo respirar direito. Mas não se preocupe, eu vou ficar bem, eu sempre entro nesse quarto e saio vivo, eu sou mais forte do que pareço! - Julian respondeu, empolgado, parando perto da entrada e apontando para os documentos e livros que já tinha anotado do que se tratavam. - Aqui, podemos começar levando esses que são poucos. Eu te ajudo, aqui, vou levando essas na frente, e a gente deixa tudo lá na sala, tá? Eu não assisto muita TV mesmo, então não vai fazer a menor diferença.

Ele pegou os livros e nem esperou a resposta de George, atropelando todas as instruções sensatas que o bombeiro estava lhe passando. Seguiu descendo as escadas às pressas de novo para deixar a pilha de livros lá e voltar a subir de dois em dois degraus de volta para o quarto.

George

Negou a oferta do escritor sobre conseguir outro pano para cobrir seu rosto sob a justificativa que não queria sujar os panos da casa dele, sua camisa serviria muito bem. Apenas encarou o sujeito ao ser comparado com um traficante de milícia, não sabia que tinha um rosto tão suspeito assim. Analisou os riscos das pilhas de coisas mais instáveis enquanto o menor mencionava sobre o tal cachecol que poderia usar. Tinha que concordar com o editor dele, uma boa máscara contra poeira ajudaria bastante naquele cenário.

- Mas, Julian, eu acho melhor o senho-- fez uma pausa, notando que ele não estava dando a mínima para suas recomendações. Respirou fundo através do tecido da camisa, coçando a cabeça antes de se dedicar a arrumar uma pilha de livros mais pesada que carregaria para o andar de baixo.

Diferente do moreno, não possuía pressa alguma, ainda mais por estar ciente que havia uma escada no caminho para o andar de baixo. Portanto, tratou de descer os degraus com cuidado, trazendo pilhas maiores de livros nos braços e organizando-as na sala para que não ficassem difíceis de serem repostas depois.

Após a quarta descida, fez uma pequena pausa após subir, removendo a camisa do rosto, baixando-a para o pescoço para secar o suor do rosto com o antebraço. O ambiente sem circulação de ar parecia tornar todo aquele trabalho mais exaustivo, então resolveu chamar pelo dono da residência.

- Julian! Posso abrir a janela?! Tá meio abafado aqui em cima! - avisou, esperando uma resposta do moreno a fim de poder abrir a janela do quarto que ainda possuía diversas caixas, livros e papelada que precisava descer para a sala.

Julian

Julian teria continuado a subida e descida de escadas constantemente, mas sempre que ia correr degraus acima, George estava descendo trazendo alguma pilha de livros e anotações que ele indicava onde colocar para conferir do que se tratava, comumente se distraindo com papeis antigos que julgava já ter perdido também, mesmo que vivesse revirando aqueles papeis no escritório.

Mal percebeu quando o bombeiro subiu e desceu quatro vezes, sempre arrumando as coisas que ele trazia e fazendo comentários soltos sobre o que estava achando, às vezes até tirando algumas fotos com o celular que não saíam tão boas quanto queria para poder compartilhar com seu novo amigo posteriormente.

- Ah, George, traz agora aquela pilha que está lá em cima da mesa do lado esquerdo? Ela tem uns livros maiores de história medieval, é que os livros que estão lá são parte desses aqui também, daí eu queria juntar e ver o que eu devo ter enfiado neles de anotações e acabei perdendo no meio do caminho! - pediu ao mais velho quando ele ia subindo as escadas pela quarta vez, tão distraído com as coisas que estava lendo e fazendo que mal percebeu que devia era ter oferecido uma pausa ao outro, ou uma água ou qualquer coisa que uma pessoa sensata como Fleur faria, por exemplo.

Voltou a andar de um lado a outro da sala, mudando os papeis e livros, até ouvir o chamado de George do primeiro andar e estar distraído o suficiente para sequer dar muita atenção ao que ele tinha dito.

- Tá!!! - respondeu num grito de volta, olhando um dos mapas antigos que tinha desdobrado, até demorar alguns segundos e associar o que tinha acabado de dizer. - Espera... a janela? - piscou algumas vezes, com a sensação de que estava esquecendo alguma coisa muito importante. Mas não foi rápido o suficiente para lembrar daquilo, largando o mapa para correr para as escadas alarmado. - AHHHHHH, NÃOOOO, NÃO É PRA ABRIR! - subiu os degraus aos tropeços, mas provavelmente não foi rápido o suficiente para impedir George de abrir a janela como tinha pedido.

George

Estranhou a resposta aos gritos do escritor, mas não reclamou sobre o assunto, focando-se no próprio trabalho, ansiando por uma brisa mais fresca em meio aquele ar abafado e cheio de poeira. Não hesitou em seguir até o fecho na janela para destrancá-la e abrir a mesma. Chegou até a baixar o tecido da camisa em seu rosto para respirar mais aliviado ao sentir a brisa alcançar seu rosto. Não entendia o motivo pelo qual o escritor não deixava aquela janela aberta. Afinal de contas, ela fornecia ventilação e iluminação natural que seria ótima para aquele espaço da casa, inclusive para ele se livrar do acúmulo da poeira.

Contudo, logo as respostas para suas dúvidas chegaram, trazidas por uma lufada de vento que passou por sua figura, acompanhada dos gritos do senhor Julian que parecia desesperado para que não abrisse a janela. Abriu a boca para respondê-lo, mas só teve tempo de olhar para trás, assistindo o vento levantar a poeira e a papelada que o escritor havia organizado da própria forma caótica.

- …! - não teve tempo de responder, logo adiantando-se para impedir que o moreno tropeçasse de novo naquela bagunça enquanto tentava alcançar a janela para fechá-la. Segurou-o pelos braços, ajudando-o a ficar de pé enquanto outra lufada de vento adentrava no quarto, levando, inclusive, alguns papéis para fora. - Ah, d-desculpe, senhor Julian! Espere!

Pediu inquieto enquanto tentava manter a calma para se apressar até a janela para fechá-la de novo, o suor descendo até o queixo. Assistiu uma das folhas ficar presa entre as brechas da janela e praguejou baixo, nervoso por ter conseguido se meter naquele caos. Arrancou a folha da brecha, perdendo um pedaço do papel no processo. Encarou a folha em descrença, culpado por ter destruído o trabalho do escritor. Por outro lado, também se sentia frustrado por ter de fazer aquele serviço em meio a tamanho abafado e bagunça.

- Eu vou… - começou, entregando a folha danificada que havia retirado da janela para o escritor. Aparentemente era uma das folhas de anotações do moreno que havia perdido um pedaço da base inferior. - Vou buscar os papéis.

Avisou apenas, inquieto com toda aquela situação. Respirou fundo antes de se afastar, retirando a camisa do próprio pescoço para poder usar o tecido e secar o próprio suor, deixando a peça na sala de estar junto com os livros para sair da residência e procurar as folhas que haviam sido levadas pelo vento. Pelo menos do lado de fora se sentia menos sufocado por toda aquela bagunça e a própria falta de cuidado do escritor com a própria segurança. Franziu o cenho enquanto procurava pelos papéis, tentando adivinhar em qual dos arbustos e áreas do jardim aquelas folhas poderiam ter caído.

Julian

A bagunça no quarto foi completa e só parou de correr entre os papeis porque George o segurou com firmeza pelos braços. Tudo estava bagunçado, alguns papeis tinham descido as escadas, outros tinham saído pela janela antes de George conseguir fechá-la.

- Ahhhhhhhhh, eu tinha esquecido disso!!! Aqui em cima venta muito, mesmo quando não tem vento, arhhhhhhh!!! - Julian levou as mãos à cabeça, bagunçando os cabelos já desalinhados pensando no que fazer com todo aquele caos que tinha se instaurado ali dentro.

Nem prestou atenção direito ao papel rasgado que George tinha lhe entregado. Começou a circular no quarto, pegando o que tinha saído do lugar e colocando sobre as mãos, sem conseguir distinguir a qual pilha cada um pertencia.

- Isso... hmmm... das hierarquias, e esse de cartografia e esse... não, é de astronomia, e esse que é de livro e... - começou a catar os papeis, sem saber exatamente como separá-los e sem prestar muito atenção ao caminho.

Foi seguindo a trilha de papeis que tinha voado para fora do quarto também e não se surpreendeu de espirrar pela primeira vez. Juntou os papeis bagunçados nas mãos e seguiu para a escada, pegando os que estavam ao longo do caminho. Desceu como já estava acostumado, o segundo e o terceiro espirro vindo em seguida. E foi no terceiro espirro que não viu um dos papeis nos últimos degraus da escada e pisou com vontade nele, escorregando no mesmo instante para cair de bunda nos últimos degraus e quicar até o chão.

- Auuuuu-atchim! Atchim! Atchim!!! - espirrou uma série de vezes, os papeis em suas mãos tinham caído de novo, o nariz estava vermelho e a bunda doendo de ter caído sentado e quicado em três degraus antes de alcançar o chão. - Aiaiaiaiaiai!!!! Atchim!

George

Havia descido para tentar recuperar os papéis que haviam sido levados pelo vento para fora da residência do escritor. Passou a mão pela cabeça, tentando manter a calma diante daquela situação. Já havia feito muitos trabalhos de carregamento sob a supervisão e ajuda de pessoas que não tinham muita noção sobre a própria segurança, mas nunca havia realizado aquele tipo de trabalho na companhia de alguém tão inconsequente quanto Julian Holt. O que lhe fazia pensar: conseguiria fazer um bom trabalho naquela casa ou estava apenas seguindo as diretrizes malucas do homem que gostava de colocar em risco a própria saúde?

Suas respostas vieram com o ruído de um estrondo. Deixou o trabalho de procurar pelos papéis para depois, mais preocupado com o que havia causado aquele barulho todo. Correu de volta para procurar por Julian, acabando por encontrá-lo aos pés da escada, caído.

- Julian! - adiantou-se para se abaixar, ajoelhando-se próximo do moreno para notar o nariz vermelho do outro e ouvir os gemidos de dor pela aparente queda que ele havia sofrido da escada. - Eu avisei para tomar cuidado com a escada! Por que não me dá ouvidos?! Olha aí! - estendeu as mãos, segurando o rosto do rapaz entre elas, obrigando-o a virar a face, verificando se o nariz não havia sido machucado na queda. Não se importou com a coriza que continuava a escapar com os espirros. - Não se mexa! Coloque a cabeça para trás!

Não costumava brigar ou discutir com as pessoas, mas Julian parecia precisar de um pouco mais de ordem e menos compreensão. Era pai de dois meninos e apenas Samuel parecia ter apresentado aquele tipo de teimosia e inconsequência na sua presença. O problema era que Julian Holt era um homem adulto já e, ao seu ver, ele já deveria ser mais responsável que aquilo ao lidar com a própria bagunça.

Primeiro, tentou apoiá-lo para que ficasse de pé, mas diante das pancadas que ele deveria ter levado ao cair da escada e a expressão de dor, tomou fôlego, fazendo o favor de carregar o escritor nos braços até a cozinha. Colocou-o sentado em uma das cadeiras, afastando-se brevemente para poder pegar gelo na geladeira e um pano de prato, improvisando uma compressa para onde ele deveria estar sentindo mais dor.

- Fique parado e tente prender a respiração para diminuir os espirros! - repreendeu-o, irritado já com a situação de irresponsabilidade e falta de juízo do moreno. - Aqui, segure isso! Vou limpar seu rosto para diminuir a poeira que deve ter respirado! - apressou-se para molhar um segundo pano de prato na cozinha, usando o tecido molhado para limpar o rosto de Julian. Afastou-se um pouco para observar se ele não havia se machucado de forma visível com a queda. Para alguém magrinho, ele parecia estar com tudo no lugar. - Eu sabia que isso ia acontecer! Que coisa de ficar subindo as escadas correndo! Quem é que sobe as escadas correndo?! - respirou fundo, exasperado. Talvez fosse o calor ou o esforço que estava fazendo para lidar com a teimosia de alguém que supostamente lhe pagaria por um trabalho que não podia fazer sozinho. Pelo que parecia, muita coisa o tal escritor não conseguia fazer sozinho. - Agora me diga, onde é que está mais sentindo dor? Bateu a cabeça? Como foi que você caiu? - perguntou, tentando descartar a ideia de sua cabeça que ele poderia ter hematomas no dia seguinte por conta daquela queda.

Julian

Julian apoiou uma das mãos no último degrau atrás de si, sentindo a bunda latejar com o incômodo da queda. Os papeis que tinha juntado estavam espalhados no corredor e a série de espirros continuou, deixando seu nariz ainda mais vermelho e fazendo os olhos lacrimejarem. Logo George entrou alarmado na casa de novo, por causa do barulho, e ainda reclamou exatamente como Fleur fazia sempre que causava alguma bagunça. Queria até ter rido da resposta imediata do bombeiro, mas a única coisa que conseguia fazer era espirrar e coçar o nariz por conta da alergia que estava atacando.

George ainda tentou lhe ajudar a ficar de pé, mas acabou sendo levado para a cozinha nos braços do outro, tentando seguir as indicações dele.

- Tá bom... atchim! Atchim! Atchim!! - espirrou mais algumas vezes, o que dificultava bastante a sua tentativa de prender o ar. Pegou o pano com gelo que ele tinha trazido, mas não soube exatamente o que fazer, esfregando os olhos e o nariz até ele voltar com um tecido molhado para limpar seu rosto como se fosse uma criança.

Não reclamou, estava até acostumado àquele tipo de tratamento. Os espirros não cessaram, mas diminuíram um pouco de frequência, o suficiente para ouvir o sermão do homem sobre não subir as escadas correndo.

- Mas não foi subindo-atchim! Foi desc-atchi! Descendo. - corrigiu, como se aquilo melhorasse em alguma coisa a sua situação, e com certeza o outro não ia ficar nada feliz com sua resposta. - Ahn... não bati a-atchim! Cabeç-atchim! Foi só a-atchim! A bunda... atchim! - esfregou de novo o nariz ainda mais avermelhado. - Au... tá doend-atchim! - fungou, movendo-se um pouco na cadeira de madeira dura que só deixava sua bunda mais dolorida. - Você achou os outr-atchim! Os outros papeis?

George

Deveria mesmo haver algo de errado com a cabeça do escritor para ele se preocupar com os malditos papéis enquanto estava sentindo dor. Não fazia ideia do conteúdo daqueles papéis para que fossem tão significativos para o homem, mas certamente deveria envolver o trabalho dele. E trabalho era algo que levava muito a sério, ainda que a irresponsabilidade do outro não lhe deixasse realizar o suposto trabalho que deveria fazer ali de forma adequada e segura.

- Estava indo procurar eles quando o senhor caiu da escada! - respondeu, puxando uma segunda cadeira para improvisar um lugar onde o moreno poderia colocar os pés para cima. - Vire de lado! - disse ao sujeito enquanto arrumava a compressa com gelo improvisada na cadeira para que o outro pudesse sentar em cima. Segurou as pernas dele e as colocou sobre a outra cadeira que trouxe mais para perto, impedindo que o sangue circulasse diretamente na direção das pernas. - Fique aí!

Apontou para o escritor antes de se afastar para abrir a geladeira e os armários até conseguir encontrar um copo grande. Encheu o mesmo com água mineral e estendeu para Julian, segurando-lhe as mãos para que ele não largasse aquele copo e tomasse cuidado.

- Beba água para diminuir a sua alergia e não se mexa daí se não quiser sentir mais dor no corpo! - avisou, sério. Respirou fundo, coçando a nuca antes de olhar o cenário caótico ao seu redor. - Vou procurar seus papéis, mas não saia daí! Não suba as escadas de novo! - apontou na direção do moreno, afastando-se sem dar as costas para ele como se duvidasse que de fato ele fosse lhe obedecer.

Saiu pelo corredor para a sala e então para o jardim, já encontrando alguns papéis virados e alguns poucos presos entre os arbustos. Aquele supostamente deveria ser um trabalho fácil, mas estava sendo tão desafiador quanto tentar fazer Samuel arrumar o próprio quarto quando ele estava chateado consigo. Apenas buscou fôlego e julgou que quanto mais cedo começasse a juntar os papéis, mais cedo conseguiria voltar para o trabalho de mover as pilhas de livros e ir buscar seus filhos na escolinha.
#2
Dieter

O Australiano estava caminhando com sua rotina e seus experimentos sociais, finalmente tinha tido tempo de ir buscar os hardware novos que tinha encomendado da China e tinha instalado em seu laboratório. Tudo corria bem, e logo poderia ligar toda a aparelhagem, claro se não fosse um sujeito paranóico, que ainda fosse conferir tudo umas duas vezes antes de arriscar ligar tudo. Tinha muitos dados colhidos desde o começo do ano letivo que precisava computar e apurar. Dieter usava calça jeans escura, cinto e botas marrom claro, camisa marrom sépia de linho com alguns botões e um colete verde oliva, como o clima estava mais agradável, tinha dispensado o blazer e se pudesse nunca usaria gravatas na vida.

Estava distraído ponderando se iria direto para casa de Fleur, pelo horário ela já estaria em casa, ou se bateria perna pelo bairro residencial para trombar com os amigos que já tinha feito na região, mas antes que pudesse tomar qualquer decisão, uma folha de papel soprou em sua direção. Pelo reflexo pegou ela em mãos e leu um trecho, sua memória não lhe falhava, conhecia aquele tipo de escrita, muito embora estranhasse a temática, mas sabia que o amigo tinha uma queda por criaturas estranhas e mundos fantasiosos. O Australiano apenas olhou na direção da casa do escritor para confirmar que o caos vinha de lá. E mesmo àquela distância conseguia observar folhas de papel presas nos arbustos do jardim que estava ajudando a cuidar.

Com certeza o mais jovem estava com algum problema para lidar, se aproximou em passos ligeiros, deparando-se por outro lado com uma figura que não conhecia ainda, arrumou o par de lentes no rosto antes de falar qualquer coisa: -- Boa hora! Parece que Julian está com algum problema por aqui! Hahahah! Precisam de ajuda? -- comentou em seu bom sotaque australiano, erguendo uma das folhas que estava em mãos na direção do homem que ainda não conhecia:

-- Eu deixo de aparecer uns dias ele já está dando um jeito de bagunçar o jardim e tudo mais. -- comentou em tom de brincadeira já se adiantando em juntar algumas das folhas de papel que estavam largadas próximo a cerca baixa que separava o jardim da casa do passeio público.

George

Estava juntando as folhas consigo como podia, tomando o devido cuidado para não amassar ou danificar as mesmas conforme havia feito com a primeira resgatada ao tentar puxá-la na prensa na janela. Estava agachado próximo aos arbustos, juntando algumas das folhas quando ouviu a voz do estranho que mais parecia familiarizado com o senhor Holt.

Levantou-se de onde estava, reconhecendo a folha que fazia parte daquele conjunto de anotações do escritor na mão do homem maior. Sorriu um tanto sem graça pela situação na qual se encontrava, mas logo tratou de se aproximar para recuperar a folha que o estranho parecia ter resgatado.

- Boa tarde, senhor. Estava tentando ajudar Julian com os livros do escritório, mas terminei abrindo a janela e tudo isso saiu voando. Obrigado por recuperar o papel. - agradeceu, virando-se brevemente, o pescoço ainda suado por toda a correria dentro do espaço abafado sem ventilação e as idas e vindas da escada. - O senhor é amigo dele? Ele acabou de levar uma queda da escada, mas já está na cozinha descansando.

Realmente, esperava que Julian tivesse lhe obedecido pelo menos daquela vez. Não era difícil seguir uma sugestão tão simples que havia dado apenas para que a situação do outro não piorasse.

- Ele ainda deve estar espirrando por conta de toda a poeira nos livros e o lugar é meio fechado, então… - tentou explicar, terminando por voltar a observar os arredores em busca das outras folhas. - Acho que ainda vou tentar encontrar os documentos dele. - referiu-se ao material que voou com o sopro de vento pela janela, observando o sujeito maior vez ou outra, tentando se lembrar se já havia visto o homem em algum lugar por aquela vizinhança.

Dieter

O australiano observou com atenção a figura do homem, parecia mais velho que a si mesmo, mas isso se devia a barba e do jeito mais fechado e formal, mas tinha de se acostumar algum dia, que os franceses não são por natureza animados em um primeiro encontro. Dieter sorriu amplamente, carismático, principalmente depois que o outro lhe disse que Julian tinha caído da escada, aquilo era o tipo de coisa que realmente acontecia com ele:

-- Vindo do Julian eu não estranharia nada disso. A propósito eu me chamo Dieter Rupert, trabalho como professor de biologia em St. Clavier, e nas horas vagas eu ajudo com jardinagem, venho ajudando o Julian com esse jardim desde o começo do ano. -- o moreno se encaminhou até a portinhola que dava acesso a casa e no meio do caminho juntou o restante das folhas que faltavam serem recolhidas, afinal duas mãos a mais auxiliam a tornar o serviço mai ligeiro e simples: -- Eu ainda tenho algum tempo ainda, então posso ajudar aqui, e fazer uma visita ao moribundo. -- Estendeu as demais folhas na direção do amigo de Julian, que agora mais de perto conseguia ver como ele tinha uma estatura mais baixa, estendeu-lhe a mão também para um aperto de mão. Embora a sensação de poeira e suor lhe deixasse incomodado, o outro tinha lhe dito que Julian estava na cozinha, tão logo entrasse poderia lavar as mãos.

Acompanhou o outro para dentro da casa de Julian, e realmente o local estava uma bagunça, certeza que Fleur iria dar broncas no amigo até o ano novo. Mas se ateve a dar dois toques na madeira da casa: -- Oh de casa! é daqui que tem um moribundo alérgico que caiu da escada? -- o australiano comentou com seu típico tom de brincadeira, não sabia dizer se Julian era muito frágil porque vivia alérgico, ou se era muito resistente por não quebrar nenhum osso nessas estripulias em que se metia.

George

Agradeceu mentalmente pelo outro parecer reconhecer o comportamento do escritor e ainda por lhe oferecer ajuda, ainda que ele fosse ainda só um estranho. Ficou menos preocupado quando ele resolveu se apresentar, lhe dando mais detalhes sobre sua identidade e lhe ajudando com aquelas folhas perdidas. De certo que sendo Julian como era, ele precisava de toda a ajuda que pudesse conseguir para viver sozinho em uma casa como aquela. Ajuda com o jardim, ajuda com os móveis e os livros, não ficaria surpreso se ele tivesse algum tipo de diarista na casa também.

- Ah. - fez uma breve pausa, juntando os papéis em uma única mão antes de bater a mão um pouco suja pela poeira e suor no lado da calça antes de corresponder ao cumprimento do sujeito amistoso. - George Blunt, professor.

Acompanhou o moreno mais alto ao terminar com as folhas no jardim, entrando logo atrás do mesmo para fechar a porta e deixar os papéis reunidos até então no sofá perto das pilhas de livros que já havia reunido. Seguiu na direção das escadas pelo corredor, observando ao passar o encontro do professor com o escritor. Buscou observar para ver se Julian ainda estava apoiado nas cadeiras com os quadris no gelo antes de rumar para as escadas.

Queria terminar seu trabalho de carregador, mas ainda havia folhas de anotações pela escada, justamente onde imaginava que o escritor deveria ter escorregado ao subir e descer os degraus correndo. Suspirou conformado, abaixando-se para recolher as folhas ali também, uma a uma pelos degraus, a fim de evitar novos acidentes pelo mais novo.

Julian

Julian se resignou a seguir as indicações de George em meio à série de espirros. Sentou-se sobre a bolsa de gelo improvisada, sentindo o calafrio por causa da temperatura fria atravessando suas roupas, que logo estariam molhadas com o gelo derretido. Ao menos seria um pouco refrescante e diminuiria a dor obtida pelos impactos. Colocou os pés em cima da outra cadeira e pegou o copo de água, bebendo em curtos intervalos, já que ainda parava para espirrar uma ou outra vez. O nariz estava mais vermelho do que o resto do rosto, tomou metade da água e devolveu o copo à mesa, pegando o pano úmido para passar no rosto e pressionar o nariz, na esperança de que diminuísse um pouco a crise alérgica. George apenas lhe deu as ordens no mesmo tom que estava acostumado de Fleur e levantou a mão num sinal de positivo enquanto ele anunciava que ia sair para buscar os outros papeis.

- Sim, sen-atchim! Senhor. - respondeu ao mandado dele. Até teria se levantado para ir terminar o trabalho, mas os quadris estavam doendo e a alergia era muito irritante. No fim das contas, só se ajustou melhor na cadeira, inclinou a cabeça para trás sobre o encosto de madeira e colocou o pano molhado cobrindo o rosto todo para fechar os olhos e relaxar um pouco.

Os espirros diminuíram um pouco de frequência e alguns breves instantes se passaram, em que já estava sentindo a umidade do gelo atravessando suas calças. Seria bem engraçado levantar dali com uma mancha de água na bunda, mas pelo menos estava em casa. Ficou naquela posição por mais um tempo até ouvir uma voz diferente lhe alcançando os ouvidos e a reação foi automática ao quase pular da cadeira, levantando o rosto e tirando os pés do apoio para observar o novo visitante que estava no portal de entrada da cozinha.

- Dieter!! Oi! - inclinou-se na cadeira para cumprimentar o outro e só sentiu a dor nos quadris, colocando uma careta de dor imediatamente. - Ai, ai, ai!!! Arghhh, agora eu to com a bunda tod-atchim! Molhada. - levantou-se da cadeira, passando a mão nos quadris e olhando para as costas para tentar ver o quanto tinha molhado da calça, mas voltou a atenção logo para Dieter, na animação usual. - Eu não esperava que você viesse hoje! Atchim! Eu já baguncei mais coisas no jardim, porque e-atchim! sou péssimo cuidando dele. Mas pelo menos agora o July est-atchim! em Paris, então ele não vai bagunçar as coisas, hein. Atchim! E você? Tá bonitão, vai visitar a Fleur? - prendeu o ar em seguida para evitar os próximos espirros, mas foi inevitável e cobriu o rosto no automático com o pano molhado.

Dieter

O australiano não ficou nada surpreso de encontrar Julian parecendo um corpo no corredor de hospital, jogado com um pano sobre o rosto. Queria poder achar uma explicação para a má sorte do amigo somada a saúde frágil, mas isso ficaria para outro dia, e um outro experimento. Acenou para que o outro levantasse com mais cuidado, e em sua mente, espirrasse em outra direção, que não a sua:

-- Tem dias e dias não é Julian? As vezes estamos com a bunda molhada, às vezes com tudo molhado, olhe pelo lado bom, se fosse uma chuva, você estaria em uma mistura de crise alérgica com gripe. Não parece nada confortável, não acha? Vou usar sua pia. -- Avisou apenas a critério de hábito, embora se sentisse minimamente confortável para caminhar no caos que era a casa do outro: -- E sim, eu já estava avisado que July estaria longe, Fleur me avisou, e disse que você não precisava de um cachorro pra estragar o jardim, você tinha todo o talento necessário para tal. Mas eu boto fé que você consegue aprender a cuidar do jardim, é mais fácil que você se livrar da alergia pelo menos. -- deu de ombros, depois de lavar as mãos, buscando álcool no armário no local que já conhecia para desinfectar as mãos: -- E sim, novamente, vou encontrar com ela, mas tenho tempo ainda, ela ainda deve estar no trabalho. Me diga Julian, porque você não lava o rosto, e toma os antialérgicos? como a crise está forte, você pode tomar dois de uma vez, almoçou ao menos hoje? senão vai ter de tomar com leite ou algo assim pra não afetar tanto seu estômago. Sabia que você não pode misturar antialérgico com antigripal senão você pode causar falência no fígado? Ah, e eu passei o olho em algumas das folhas que saíram voando pelo seu jardim, não sabia que estava fazendo drama sobre dragões, como seria a vida cotidiana de um dragão em crise? Será que eles tem crise de meia idade? hahah! -- o australiano começou a tagarelar era o tipo de efeito que Julian tinha sobre si.

Julian

Julian apenas deu espaço para que ele usasse a pia e o seu álcool, já estava até acostumado com todas as vezes em que Dieter já tinha lhe ajudado com o jardim e algumas em que tinha visto seu péssimo estado de saúde. Procurou uma cadeira enxuta para se sentar e manteve o pano cobrindo o rosto parcialmente para não ter que espirrar demais perto do professor.

- Hahaha, eu não precisav-atchim! Mesmo de um cachorro pra destruir tudo. - ele respondeu, respirando fundo e sentindo a frequência de espirros diminuir pelo menos um instante. - Meus anti-alérgicos estão lá em cima, to com preg-atchim! Preguiça de subir pra pegar... já já pas-atchim! Passa. Você não devia perder tempo aqui, Dieter, a Fleur deve sair do trabalho da-atchim! Daqui a pouco-atchim!! - suspirou longamente quando teve chance, apoiando o queixo na mesa e deixando o pano molhado enrolado no rosto, os braços jogados sobre a mesa enquanto Dieter ainda mantinha a distância, apoiado à pia. - Eu almocei mais cedo, e trouxe torta também pra comer depois de arrumar as coisas atchim! Sabe que o George veio me ajudar porque eu encont-atchim! Encontrei ele na padaria e ele tá me ajudando a-atchim! Trazer as coisas do primeiro andar... atchim! - esfregou o nariz, e no instante seguinte, já tinha se colocado de pé quando ele disse que tinha achado algumas das suas folhas no jardim. - Ah!!! Você pegou as que fugiram?! Atchim! Obrigado! Atchim! Hahaha, eu não vou fazer um drama de dragões, é uma história de fantasia que eu quero escrever tipo... desde que eu morava na Holanda-atchim! Mas é uma boa pergunta se eles têm crise de meia-idade, hahaha! Você quer ver as minhas anotações?! - ele nem esperou a resposta e andou na direção da sala de estar, para mostrar as poucas pilhas que já estavam ali tomando boa parte do espaço - Eu to trazendo tudo pra sala porque eu tenho um amigo novo que-atchim! Que não pode subir as escadas, ele é cadeirante, e ele gosta dessas coisas de fantasia e eu disse que ia mostrar minhas pesquisas pra ele, daí o George tá me-atchim! Ajudando a trazer tudo... e aí ele abriu a janela e eu esqueci de avisar e ventou e o vento levou tudo pra fora e atchim! Foi aí que eu desci as escadas correndo e escorreguei e caí de bunda, hahah!

Ele parou na entrada da sala, abrindo os braços como se fosse abraçar tudo que já estava lá, mostrando para o australiano a quantidade de informações que tinha.

- Aí… todo o meu trabalho e motivo da minha crise alérgica, hahaha-atchim! - anunciou, com a animação de adolescente com a qual Dieter já estava bem acostumado.

Dieter

Não duvidava que Julian estivesse com preguiça de pegar os anti-alérgicos, mas era um fator a mais ele ter disposição para mexer em tantos livros antigos e empoeirados e não ter pensado que isso tudo lhe deixaria incapacitado de tanto espirrar. Julian era certamente peculiar, mas isso o tornava interessante, embora pudesse dispensar as crises de espirro que não eram nem um pouco higiênicas. Acenou positivamente para a explicação do mais novo acerca da padaria e de como tinha encontrado com o outro homem, e certamente se fosse possível, Julian só se alimentaria de bolo, mas não podia culpá-lo quando tudo que Fleur preparava era tão saboroso.

Ergueu uma das mãos em sinal de negativa de que o outro não precisava lhe agradecer por ter pego as folhas fugitivas, sabia que o moreno mais novo, lhe faria o mesmo favor se tivesse coordenação motora para tal. Riu junto, afinal não tinha como negar que se ele inventasse de fazer um drama sobre crise de meia idade de dragões era bem capaz de virar best seller, Julian era um ótimo escritor sem sombra de dúvidas, e tinha plena confiança que ele podia escrever qualquer coisa, se estivesse interessado e disposto para fazer.

E antes mesmo que pudesse responder o mais novo se levantou num solavanco, nem parecia que estava derrubado a alguns instantes por causa da crise alérgica, acompanhou mantendo uma distância segura caso houvesse qualquer incidência de espirros em sua direção. Então só naquele momento tinha compreendido o tanto de pesquisa que o outro já tinha levantado diante da expectativa de construir seu universo de fantasia:

-- Fascinante Julian! São muitos livros é praticamente uma biblioteca particular, tanta coisa antiga merecia que você digitalizasse para ter sempre como um acervo digital e acessível longe de poeira. Fiz isso com vários dos meus livros mais antigos de botânica, deixo em volume físico apenas aqueles que não de coleção e que eu posso repor com facilidade. Muitos desses livros já podem ser considerados antiguidades não? Já catalogou todos eles? Se precisar de ajuda posso vir em outro dia, melhor preparado e com máscaras e luvas, e lhe ajudo a digitalizar e separar os volumes. Se continuar os armazenando nessa poeira, vai acabar perdendo algum destes exemplares para mofo ou traças. Eu detestaria ver você perdendo pesquisa por problemas de armazenamento. Ainda bem que você encontrou um novo amigo que lhe estimulou a mexer em todas essas coisas guardadas. Mas da próxima vez tem de planejar melhor o começo da faxina, e tomar os anti-alérgicos antes de começar, para não ficar desse jeito! hahah!

O professor bateu palmas e riu, de forma descontraída, não estava zombando de Julian, longe disso, admirava a capacidade dele de acumular coisas e informações. Mas certamente seria uma grande perda se ele não conseguisse manter o bom estado dos próprios livros por sua desorganização crônica:

-- Mas me conte, sobre o que é seu universo fantástico?

Julian

Julian seguiu entre as pilhas que já estavam no chão enquanto George arrumava o que tinha voado no primeiro andar para continuar a trazer as coisas para o térreo. Ainda espirrou algumas vezes, mas esfregou o nariz com vontade, respirando fundo e sentindo a frequência dos espirros diminuir um pouco - a despeito do nariz avermelhado. Evitou tocar nos livros e mapas empoeirados para não piorar tudo.

- Eu não tenho catalogado não, assim, eu jogava tudo de mitologia na mesma pilha, e tudo de mapa na outra, e tudo de história em outra e assim eu me encontro. Não é lá muito organizado, mas se me perguntar alguma coisa específica, eu vou saber em que livro procurar. Não sei se eu ia me encontrar numa organização organizada de verdade, hahahah. - riu, espirrando mais duas vezes antes de parar do outro lado da sala, voltando a atenção para Dieter. - Eu já perdi monte de coisa pra traças e insetos, por isso eu geralmente mexo nos livros pra ver se tem alguma coisa comendo eles, de tempos em tempos. Mas não dá pra revisar tudo sempre, eu bem precisava de umas prateleiras mais organizadas. E minha casa é até grande, podia mudar a sala toda pra ter um monte de estantes de livros, aqui e ali, e com mesas e coisas pra pesquisa, isso ia ser legal! E o Charles ia poder vir aqui pra ver também! - ele disse, tomado pela empolgação da perspectiva, voltando-se para Dieter com um sorriso animado. - Hahaha, tomar os anti-alérgicos é uma ótima ideia!

Voltou para perto dos livros e estava prestes a pegar um deles, até espirrar mais uma vez e desistir no meio do caminho.

- Hm, talvez eu devesse mesmo ir buscar os- parou a sugestão de ir buscar os anti-alérgicos quando foi interrompido pela pergunta de Dieter sobre o que era o seu universo fantástico. - AHHHH! É bastante coisa! Eu fiquei pesquisando anos e anos e aí eu criei todo o universo desde que os deuses criaram o mundo, sabe? E aí existiam os dragões que tomavam conta da raça humana e eles viviam em harmonia, mas as coisas saíram do controle e daí eles entraram numa rebelião, e os humanos começaram a caçar os dragões e o mundo entrou no caos e em destruição, ao ponto de que eles despertaram os deuses que estavam adormecidos e ficaram enfurecidos com o que tinha sido feito da humanidade, eles se ergueram e dizimaram quase todos os humanos e os dragões e só quando a terra estava coberta por escuridão e silêncio, eles voltaram a adormecer, e os dragões e humanos que restaram, debilitados, juraram evitar que os deuses antigos despertassem mais uma vez, porque toda a vida conhecida podia acabar de verdade. E aí é que depois de muitos e muitos anos que os dragões começam a se extinguir e os humanos a se multiplicar mais e mais e mais, as pessoas já não acreditam mais nas lendas antigas e daí tem umas últimas raças de dragões que viveram em reclusão e decidem que os humanos não merecem tomar conta do mundo e querem reclamar a terra e despertam a guerra contra os humanos de novo, mas só tem uma pessoa que ainda acredita que as lendas antigas são verdade e que se a guerra não for impedida os deuses vão surgir do chão de novo e destruir o mundo todo de uma vez só e… atchim! - Julian esfregou o nariz, rindo do fato de que tinha falado tudo como se fosse num só fôlego, respirando fundo pra recuperar as energias. - Ah, mas isso é só o que tem antes porque no livro é a história do personagem principal que tem que impedir o despertar os deuses e aí eu estudei um monte de coisa de mitologia e escatologias e várias religiões e culturas e essas coisas de magia e criação do mundo e tal! Tem umas coisas aqui e tem outras também sobre mitologia, ah! Acho que ainda tá lá em cima, eu vou pegar pra te mostrar! Atchim!

George

Terminou de arrumar as folhas que haviam sido levadas pelo vento para fora da casa e continuou a trazer as pilhas e mais pilhas de livros cuidadosamente pela escada, prestando atenção ao diálogo do visitante com o dono da casa todas as vezes que passava perto da cozinha. Não se recordava do sujeito que havia lhe ajudado com as folhas do jardim conhecer o escritor, mas o que havia conseguido ouvir por cima, ele deveria ser algum amigo de Fleur também.

Ouviu a conversa sobre os medicamentos que o escritor deveria tomar e suspirou resignado ao largar uma pilha de livros na sala, concluindo que ele deveria ter tomado aqueles remédios desde o início. Ou melhor, deveria ter ficado com Fleur longe da casa com toda aquela poeira enquanto fazia o trabalho pesado.

Não conseguiu deixar de notar, contudo, como ele falava empolgado sobre o que escrevia em seus livros. Era de uma empolgação tão forte que chegava a imaginar seus filhos ouvindo sobre aquela história e ficando ansiosos para saber sobre o desenrolar dela. Não entendia o que ele queria dizer com dragões e humanos, pois não ouvia muito falar sobre mitologia e coisas fantásticas. Durante sua infância, nunca houve muito tempo para fantasia, de qualquer modo.

- Ah, Julian. - aproximou-se da cozinha, removendo a camisa que havia sido colocada contra o próprio rosto para não respirar a poeira e usou o tecido para secar o suor que lhe escorria pelo pescoço. - Terminei de descer com a maioria das pilhas, só falta mover alguns móveis. Isso moveu muita poeira pela casa. Se posso sugerir, por que o senhor não fica na casa de um amigo enquanto essa bagunça é limpa? Se ficar aqui, mesmo que tome o remédio que o doutor aí falou para tomar, não acho que vá melhorar continuando na poeira. - sugeriu, esperando a decisão do sujeito. Voltou o olhar para o tal Dieter, cumprimentando-o com um aceno de cabeça, esperando que ele concordasse com sua opinião. Ao menos julgava que fosse o mais sensato a se fazer naquele caso.

Dieter

O australiano ouviu com atenção o desenrolar da descrição e narrativa feitos pelo amigo, se parasse de prestar atenção por um instante sequer, certamente perderia algum ponto importante da trama. Não podia subestimar a capacidade de um autor de reter informações acerca de suas obras, embora também não duvidasse da capacidade de Julian de misturar plots e rearrumar os próprios universos com frequência, não era um escritor assíduo de ficção, embora se registrasse metade dos seus delírios teria mais temporadas que o seriado de Supernatural. Sorriu com o fechamento da explicação em torno de um espirro, aquilo era muito a cara do próprio Julian:

-- Estou vendo que está tudo aí, realmente só falta pôr no papel e organizar. -- Comentou em tempo do amigo do escritor adentrar a sala, ele estava realmente com aparência de quem estava fazendo todo o trabalho pesado sozinho. Se tivesse sido avisado com antecedência, teria se prestado a ajudar certamente, mas sabendo como Julian era a ideia deve ter surgido em um momento de impulsividade e decidiu concretizá-la. Estava em verdade surpreso do senhor George ter aceitado tomar partido de um dos momentos impulsivos do escritor, ele devia ser aquele tipo de pessoa muito legal para conseguir dizer “não” para os outros:

-- Dada a situação, o seu montante de coleção de livros e o estado em que a casa se encontra, eu realmente tenho de concordar com o seu amigo Julian. É melhor dormir na casa de outra pessoa enquanto a sua casa é limpa, e certamente você vai precisar de mais ajuda do que o senhor Blunt pode oferecer. -- Arrumou o par de lentes de grau no rosto olhando de George suado e empoeirado, para Julian, empoeirado e molhado: -- E se tivesse me avisado que faria uma faxina eu certamente teria me proposto a ajudar, mas hoje realmente não posso tomar partido no serviço.

Acenou negativamente, estava muito arrumado para sair com Fleur, para se dar ao luxo de cair na brincadeira com Julian, sabia que se aparecesse empoeirado, era capaz de receber um castigo terrível. Não queria testar os limites da criatividade da mulher para castigos, ela tinha um talento nato pra isso, tinha plena certeza, não precisava ser desafiada para mostrar o que tinha de mais obscuro naquele mente. Suava só de imaginar.

Julian

Julian espirrou mais uma vez, mas foi interrompido pela chegada de George também. Ficou empolgado com a resposta de Dieter sobre ter que colocar as coisas no papel, mas logo a empolgação foi sumindo quando George ainda sugeriu que ele fosse dormir na casa de um amigo.

- Mas eu não quero ir dormir em outro lugar, logo agora que tá tudo aqui! E eu posso chamar o Charles pra ver tudo também! E nem é tanta poeira assim, nem abrimos meu quarto, vai que está inte-atchim! Atchim! - virou o rosto para o lado, esfregando o nariz com a proximidade de George que só estava trazendo mais poeira acumulada também. - Eu vou ficar bem, eu vou!

Já tinha esquecido mais uma vez que era para subir as escadas e ir atrás do anti-alérgico, especialmente quando Dieter ainda reforçou que ele poderia dormir na casa de algum amigo e teve que suspirar conformado, inclusive com mais um par de espirros seguidos do suspiro longo.

- Tá bom, eu vou pra casa de alguém, tem um monte de gente que eu conheço na vizinhança, nem vou precisar ir muito longe. - ele respondeu, o nariz completamente vermelho depois de todos os espirros e esfregadas no rosto. - Ahh, eu não pretendia fazer faxina não, na verdade eu tive a ideia muito recente porque eu fiz um amigo novo! O Charles! E ele gosta dessas coisas que eu escrevo, do mesmo universo e tudo mais, mas ele é cadeirante, e não teve como ir lá no meu escritório ver as anotações, aí eu pensei em trazer tudo pra cá porque ele poderia ver, mas agora eu vou ter que limpar tudo. E encontrei com o George na Antique e ele precisava tamb- ahhh!!! A Antique! Você tá todo arrumado aí, Dieter, não está atrasado pra encontrar com a Fleur?! Ela vai ficar uma fera se você demorar muito. Onde vocês vão?? Vai pra algum lugar na cidade? Perto da praia? Ou no centro, na parte histórica? Ou fora da cidade?!

Começou a lançar as perguntas sem ao menos se preocupar com a discrição, aproveitando enquanto não era interrompido por outra crise de espirros.

George

Teve vontade de levar a própria mão até o espaço entre as sobrancelhas e pressionar a ponte de cartilagem do nariz diante do discurso de Julian Holt sobre não precisar de ajuda. Ele claramente era o que mais precisava de ajuda ali. Ouviu a história de Julian sobre conhecer um novo amigo que era cadeirante e se perguntou mentalmente de onde conhecia algum homem cadeirante com aquelas características. Vivia em Cerise há muito tempo, mas não se lembrava de nenhum sujeito assim.

Acabou indo até a pia da cozinha após verificar a hora da tarde em seu celular. Precisava lavar as mãos e os antebraços antes de sair. Só ergueu a cabeça ao se dar conta da possibilidade do homem mais alto e arrumado ser algum conhecido amigo, namorado, da dona da Antique. Não disse nada, guardou a nota mental sobre a informação para si. Não era de fofocas, e certamente a vida alheia não lhe era de direito para ficar perguntando detalhes. Sabia como a dona da Antique passou boa parte da vida dela ali na cidade em situação desagradável devido ao misto de boatos e fofocas. Ela e o filho que era um homem feito, o tal de Arman.

- Julian, desculpe interromper, mas eu preciso ir buscar meus filhos na escola. Esse trabalho vai levar mais tempo do que eu imaginava. - começou, secando as mãos na própria roupa, tentando ficar minimamente apresentável afora o suor e a poeira. - Eu volto amanhã para continuar o serviço, não se preocupe com isso. Vou deixar meu número e combinamos o horário melhor. Não deixe de se cuidar. - passou pelo escritor, dando-lhe pequenos tapinhas nas costas antes de se dirigir ao recém conhecido professor. - Com licença, professor.

Pediu, fazendo menção de apertar a mão do homem ao se despedir, mas logo voltando a limpar a mesma na própria calça.

- Desculpe, nos falamos melhor da próxima vez. Tenha uma boa tarde, professor. - acenou antes de se dirigir a saída da residência, mais apressado em não perder o horário dos garotos na escola. - Até amanhã, Julian! - despediu-se, dando uma breve olhada para trás ao sair, considerando que ainda não conhecia o professor direito e que ele ficaria a sós com o escritor, mas considerando o fato de que Fleur talvez fosse amiga do homem, não deveria ser uma pessoa suspeita.

Dieter

Deveria achar incrível a forma como Julian não percebia sua tendência a por tudo em caos, mas também, não o conhecia de outra forma, ou a tanto tempo para saber se ele já teve outra forma que não essa: caótica. Ao menos não precisou continuar insistindo até que ele percebesse que era uma má ideia continuar naquela casa bagunçada e empoeirada, não entendia como qualquer ser vivo que não traças gostariam de um espaço desarrumado assim. Arqueou as sobrancelhas quando o mais novo começou a lhe bombardear de perguntas, já supondo que iria sair com Fleur - que era verdade - e para onde iriam como se fosse um jogo de adivinhação:

-- Fiquei de encontrar ela em casa, mas não se preocupe eu sair cedo, nem quero imaginar o que ela faria comigo se eu chegasse atrasado. E desta vez ela quem decidir pra onde vamos, ficamos alternando nas surpresas de locais de encontros -- o australiano riu: -- mas acho que nada vai superar pedalar 10km pro vinhedo, pra amassar uvas com os pés. -- arrumou o par de lentes de grau no rosto, e logo George veio em sua direção, anunciando sua despedida.

Espiou para a mão, não tão limpa, o outro limpa-la na própria calça não ajudou a torna-la mais limpa, olhou da mão do homem para o rosto dele, e levou a mão até a dele com uma leve relutância, em um aperto breve:

-- Em uma próxima vez, vamos conversar mais, de preferência limpos e acompanhados de algo pra beber. -- sorriu de forma carismática ao homem. Tão breve cessou o aperto de mão, foi até a pia da cozinha para higienizar as mãos com sabão adequadamente:

-- Qualquer coisa se quiser, você já arruma as bolsinha de dormir, e vai comigo até a casa de Fleur e já pede teto e comida, ela vai te largar lá sozinho enquanto a gente sai, muito provavelmente.

Julian

- Obrigado pela ajuda, George! Amanhã a gente continua sim! Vou estar melhor dos espir-Atchim! - ele curvou a cabeça de novo e cobriu o nariz, satisfeito que só tinha sido um espirro. - E traga os meninos pra brincar da próxima vez, quando estiver tudo limpo, hahaha. Eu vou arrumar umas roupas pra dormir fora então, eu volto já, Dieter.

Julian seguiu escada acima a passos bem apressados para jogar um par de roupas dentro de uma mochila de carregar de lado, junto com escova de dente e roupa de baixo. Mas foi apenas aquilo que colocou, ignorando toalha e qualquer produto de limpeza. Sabia que tinha tudo na casa de Fleur mesmo e fazia um tempo que não se distraía com a lentidão de Arman. Quem sabe ele estivesse pintando algo novo. Ainda aproveitou para lavar o rosto e pegar os anti-alérgicos, tomando um deles no processo antes de descer as escadas correndo também.

- Pronto, podemos ir! Prometo que não vou atrapalhar o encontro de vocês. - Julian riu largamente e seguiu com Dieter pelo caminho até a casa de Fleur que ficava no mesmo distrito, embora a umas boas quadras de distância.

Mas o tanto que ele conversava e o quanto Dieter lhe respondia fazia com que o caminho parecesse bem mais curto, a ponto de já estarem no jardim de Fleur quando ele percebeu que estava no meio de uma descrição sobre seus livros nunca escritos.

- Ah, chegamos! Fleurrrr!!! Eu vim dormir aqui!!! Minha casa tá uma bagunça cheia de poeira e eu acho que vou morrer de alergia lá, Arman tá em casa?!?! - Julian já chegou correndo pelo caminho da entrada para bater na porta, falando com a própria porta.

- Que barulho é esse na entrada da minha casa, Julian? - Fleur abriu a porta para pousar os olhos primeiro no adulto-criança de quem cuidava com mais frequência do que Arman. - Eu estou ocupada hoje.

- Eu sei, eu trouxe a sua ocupação. - Julian sorriu largamente e apontou para Dieter logo atrás de si, para que a mulher desviasse o olhar na direção dele com um sorriso discreto. - Hmmmm, você tá toda bonita hoje, Fleur, nem vim atrapalhar o seu encontro.

- Está insinuando que não estou bonita nas outras vezes que me vê, Julian? - a loira arqueou uma sobrancelha com cara de julgamento. Ela usava um macacão de tecido leve, com um laço na cintura e sandálias abertas de salto médio, os cabelos amarrados num coque lateral simples e uma maquiagem leve no rosto.

- É claro que não! Você tá sempre bonita, Fleur. - o outro consertou, rindo sem graça antes que levasse um tapa na nuca.

Dieter

Era sempre muito agradável conversar com Julian mesmo que precisasse manter pelo menos dois metros de distância por causa dos espirros e das reações exageradas do homem, e embora a caminhada dali até a casa de Fleur fosse bem considerável, o caminho foi preenchido com conversas que iam de plots políticos a grandes guerras fantasiosas. Tão logo estavam na frente da casa de Fleur, o moreno mais novo já começava a mostrar sua personalidade infantil peculiar. Mas se distraiu da conversa com Julian quando pos os olhos sobre a mulher, Fleur era sempre encantadora, mas era realidade que qualquer coisa adicional que ela pusesse a fazia ficar várias vezes mais deslumbrante, não cansaria nem tão cedo de apreciar a imagem da mulher a sua frente.

Se aproximou da residência percorrendo o curto caminho da portinhola até a entrada da residência em si, reduzindo a distância entre o australiano e a francesa, para complementá-la com um beijo amistoso nos lábios: -- Desculpe a demora, mas no meio do caminho as anotações do Julian estavam voando pela janela e aquilo foi atípico o suficiente pra me chamar a atenção. -- O homem riu de forma carismática como de costume, pra só então completar: -- Ele realmente precisava de uma ajuda, ainda bem que eu apareci lá, bem capaz dele dormir no meio da poeira e do caos que estava lá e amanhã nós termos um Julian no noticiário da manhã.

Dieter riu mais abertamente, sem qualquer pudor, mesmo que estivesse em certo ponto fazendo graça da situação do amigo que não estava nada boa em meio a alergia que ele mesmo tinha causado bagunçando tudo na própria casa. Mas também, não era como se estivesse mentindo:

-- E então, vamos pra onde? -- O australiano sorriu, empolgado com o local para onde a mulher o levaria, os locais eram sempre surpresa, a única dica era o dresscode da situação pra não ter de pedalar de terno, ou ter de ir em um restaurante fino com moletom de exercício.

Fleur/Julian

Fleur só riu da resposta pronta de Julian para a sua aparência e passou a mão no topo da cabeça dele como se fosse uma criança mesmo. Permitiu a aproximação de Dieter e retribuiu o beijo breve nos lábios dele, ouvindo então a explicação sobre como os dois tinham se encontrado e a demora para voltarem.

- Eu já disse para se cuidar melhor, Julian, você é pior do que uma criança, é impossível. - Fleur rodou os olhos, ficando ao lado de Dieter para dar espaço para que Julian entrasse na casa. - Arman está no quarto, vá lá atormentá-lo.

- E o Arman já se acostumou com vocês dois? - Julian perguntou, com um sorriso arteiro. - Há quanto tempo já estão namorando? Eu acho que vocês são um ótimo casal! Mas Dieter não pode se incomodar quando eu vir roubar seus doces, Fleur.

Fleur até abriu a boca para responder, mas só com a pergunta de Julian foi que ela percebeu um detalhe importante que tinha facilmente deixado de lado só por conta da convivência com o professor de biologia.

- Namorando? Não sei, ainda não fui pedida em namoro. - Fleur respondeu, passando a mão em volta do braço de Dieter como se fossem sair já. - O que acha, Dieter? Quer namorar comigo oficialmente? Podemos matar o Arman do coração com a notícia.

Ela sorriu divertida, e Julian foi até pego de surpresa com o comentário, sentindo-se como se ele não devesse estar ali naquele momento, por mais casual que a conversa parecesse.

Dieter

O australiano sorriu, sabendo que provavelmente Arman estaria ocupado com alguma pesquisa que tinha lhe proposto a fazer a última coisa que ele precisaria para manter a concentração era justamente um Julian espirrando e tagarelando várias informações que o mais novo não tinha como absorver. No entanto, o comentário de Julian sobre a quanto tempo estavam namorando pegou o professor de biologia com razoável surpresa, e encarou a mulher ao seu lado, que tinha enlaçado seu braço e diminuído a distância entre os dois.

E antes que pudesse elaborar qualquer frase que justificasse a situação, Fleur comentou com a maior naturalidade o que seria uma formalização do relacionamento que tinham, sorriu de volta, beijando a mulher na testa:

-- Sim, com certeza, a antecipação da expressão dele já me diverte. -- devolveu a gracinha com o mesmo tom descontraído, afinal, assim como para Fleur, para o australiano era apenas natural que já tinham um relacionamento, tanto que a formalização do mesmo, nem tinha sido necessária, não ao menos até aquele momento: -- E julian, como eu posso fazer surpresas, se você fica antecipando o roteiro? Têm de conter seu lado escritor nessas ocasiões.

Seguiu mantendo o tom divertido e Fleur próxima de si, porque era exatamente assim que se imaginava nesse momento de sua vida, com humor renovado, mas leve, e muito bem acompanhado.

Fleur

Fleur sorriu agradada com o beijo na testa e a resposta positiva. Embora tivesse tratado os encontros dos dois como algo muito casual, sem terem definido nada até então, a constância com que se encontravam e a intimidade crescente bem denunciava que os dois eram mais do que parceiros casuais. E embora Fleur fosse bem adepta da casualidade, não era como se tivesse idade para continuar saindo como uma adolescente. Mas foi Julian que fez uma expressão de surpresa e depois de susto quando Dieter reclamou com ele sobre antecipar o roteiro. A reação do homem foi quase exasperada.

- Ahhhh!!! Desculpe, Dieter, eu não sabia! Eu achei que vocês já tavam juntos de verdade e não que ce ia pedir a Fleur ainda em namoro e…! Você devia ser mais romântica e esperar ele pedir também, Fleur, eu estraguei tudo sem querer!!! - ele falou rápido demais, como se estivesse mesmo preocupado em ter estragado um pedido de namoro entre os dois. O exagero dele só fez com que Fleur desse uma risada breve.

- Não se preocupe, Julian, só entre e vá fazer companhia ao Arman, sim? - ela fez um sinal abanando a mão para ele, como se estivesse enxotando-o para dentro de casa. - E não nos espere acordado!

- Tá bom, tá bom, divirtam-se! - Julian seguiu para dentro da casa e Fleur riu de novo, saindo com Dieter e fechando a porta atrás de si.

Antes mesmo de dar o primeiro passo, a loira se aproximou mais de Dieter, passando as mãos sobre os ombros dele e unindo o corpo ao dele, deixando o rosto perigosamente próximo.

- Se ainda quiser me pedir em namoro, eu prometo que faço uma expressão de surpresa. - ela comentou, aproximando o rosto até selar um beijo intenso com o australiano, sentindo-se estranhamente mais satisfeita só por terem definido o relacionamento dos dois.

[Thread encerrada]


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