[Drive] Na Saúde e na Doença [Desirée; Marco; Natalia]
#1
Marco

Separou o frasco de comprimidos com algumas vitaminas que costumava tomar pela manhã quando não estava se sentindo muito bem. Tomou dois e engoliu com o água que havia separado antes de dormir ao lado da cama. O incômodo na garganta pela sensação seca havia lhe perturbado o sono durante toda a madrugada, auxiliado com a expressão mais cansada e menos disposta do homem logo cedo pela manhã. Lavou o rosto com água gelada para tentar diminuir a indisposição e saiu do banheiro com o robe para o closet a fim de se vestir para ir ao escritório. Não se importava em acordar a noiva tão cedo, pois sabia que ela fazia seus próprios horários como diretora e responsável por Limoges até que o período de gestação realmente lhe impedisse de ir ao trabalho como deveria.

Saiu para arrumar os cabelos e a gravata, a camisa de botões bem ajustada por dentro da calça social. Fechou os botões dos pulsos e se aproximou da morena ainda repousando na cama, estendendo a mão para o ombro dela, visto que durante a gestação, a médica dela havia aconselhado que ela começasse a dormir de lado para diminuir a pressão e o desconforto que a barriga lhe causaria nos últimos meses.

- D-Desirée. - chamou a mulher, a voz falhando, a garganta ainda seca até pressionar os lábios, limpando a tosse interna. - Vamos tomar café, meu bem. Preciso ir para o escritório daqui a pouco. - chamou a morena sem diminuir o sorriso com a imagem dela ainda naquela cama, mesmo não se sentindo tão disposto como de costume.

Esperou ela lhe responder enquanto sentava ao lado dela na mesma cama, ocupando-se em colocar a própria gravata, acostumado a fazer o movimento até mesmo sem espelho, devido ao período que havia passado sem o auxílio do próprio sentido da visão.

Desirée

Não importava o quanto convivesse com Marco, era comum implicar com ele todo dia por qualquer menor problema. Mas aquilo começava a parecer apenas natural no relacionamento dos dois. A verdade era que não conseguia mais pensar, depois de tão pouco tempo, em situações sem o homem ao seu lado. Claro, aquilo nunca sairia de seus lábios. Já tinham concordado em casar, já tinham concordado até em mudar para uma casa nova, era até estranho não compartilhar a cama com o advogado.

E era naquele costume que tinha se colocado também para acordar dia após dia no horário de ir para o trabalho. Porque percebia que a cama estava vazia, já que Marco sempre acordava primeiro, e o seu alarme e suas empregadas costumeiras tinham sido substituídas pelos chamados de Marco também para que não se atrasasse para o trabalho ou o café da manhã, cuidados excessivos que tinham ficado bem mais frequentes depois da gravidez. E foi daquele mesmo jeito que foi acordada naquela manhã, virando-se na cama com a preguiça matinal.

- Hm... estou indo. - ela se espreguiçou, a sonolência até deixando o tom costumeiramente irritado mais suave. Marco pegava no trabalho geralmente mais cedo. Embora as aulas em Limoges começassem igualmente cedo, ela tinha se dado ao luxo de chegar ao trabalho um pouco mais tarde depois da gravidez. - Peça pra servirem aqui no quarto...

Marco

Ainda que não se sentisse disposto, ouvir a voz da mulher logo cedo pela manhã, preguiçosa para levar da cama, lhe deixava animado, pois sempre lhe dava novas ideias de como provocá-la. Contudo, não se aproximou novamente com receio que ela pudesse contrair qualquer mal estar pelo qual ele estivesse passando naquela manhã. Portanto, levantou-se da cama e terminou de apertar a gravata, segurando a tosse antes de buscar pela parte superior do seu terno.

- Desse jeito vai chegar um dia que vai dormir por toda a manhã, Desirée. - alertou ainda que não perdesse o sorriso. Respirou fundo e suspirou logo em seguida, terminando de organizar os acessórios como meias, sapatos, relógio e, claro, o anel de noivado, para só então voltar a beirada da cama onde a morena ainda parecia desejar ficar.

Como não se sentia prudente o bastante em se aproximar para beijá-la como de costume, estendeu a mão para lhe segurar por um dos pés, pressionando-a na sola do mesmo.

- Bom dia, querida. Não esqueça de tomar café da manhã e--

Tentou segurar, mas parecia que falar muito no tom de voz que estava acostumado a usar só piorava a sensação desagradável em sua garganta e ainda lhe adicionava uma dose extra de dor de cabeça. Levou a mão livre para a própria boca ao abafar a breve crise de tosse, como se tivesse voltado a ter um paladar de uma criança e engasgado com a própria saliva. Respirou fundo novamente e caminhou para a saída do quarto, decidindo apenas por pegar seu celular antes de se despedir da nova:

- Até o almoço, Desirée. - avisou, pois como finalmente estavam noivos e ela esperava uma dupla de meninos filhos seus, sentia a necessidade de se manter próximo a morena, talvez para compensar o período que havia estado ausente no início da descoberta daquela gestação. Ou talvez pelo sentimento desagradável de ainda sentir como se tivesse falhado como um pai em diversos aspectos do seu primeiro casamento. Obviamente não tocava naquele assunto com Desirée, justamente por saber o quanto a mulher desgostava da lembrança de sua ex-esposa, e sobre isso não podia julgá-la.

Desceu para a cozinha apenas para tomar um copo com água e comer alguma fruta, decidindo seguir diretamente para o escritório a fim de adiantar o trabalho pela manhã e conseguir voltar mais cedo para casa no final da tarde. A verdade era que não sentia apetite para comer muito naquela manhã, por isso se restringiu a frutas e líquidos, esperando que seu conhecimento do que era razoavelmente saudável lhe ajudasse a se recuperar, associado aos remédios, é claro.

Desirée

Era bem verdade que estava tomando gosto pelo descanso prolongado desde que a gravidez tinha ficado segura, já que nos primeiros meses tinha sido tudo um desastre e lhe fazia passar muito mal. Só respondeu com um "humpf" malcriado quando ele disse que provavelmente dormiria pela manhã toda um dia. Marco se afastou e voltou até a cama e mesmo naquele curto espaço de tempo em que ele terminava de se organizar, não criou coragem para se levantar ainda, até sentir o toque no pé e a pressão leve dos dedos. Já ia responder que não ia esquecer do café da manhã, quando ouviu a crise de tosse breve e abriu os olhos para encará-lo melhor, um pouco mais acordada.

- Não vou esquecer. - respondeu de forma birrenta, sobre tomar o café da manhã. Ele parecia tão bem quanto qualquer outro dia, exceto pela dose e pela distância que impunha entre ambos. E nem teve mais tempo de avaliar, quando ele seguiu até a saída do quarto e se despediu.

Apenas criou coragem para se levantar e seguir até o banheiro, para se arrumar para o trabalho enquanto uma de suas empregadas lhe servia o café da manhã no quarto, como tinha pedido para que Marco avisasse. Tomou o café da manhã sozinha, o que era comum algumas vezes em que saía para a academia mais tarde, enquanto Marco tinha que ir cedo para o escritório. Já não tinha o mal estar de antes e o apetite só aumentava, assim como a disposição. Seguiu o dia convencionalmente, cumprindo com os deveres de diretora até o horário do almoço, que tinha combinado com o noivo.

Naquele dia, entretanto, estendeu o trabalho dentro de Limoges com a visita inesperada dos pais de uma das alunas e cancelou o almoço com o noivo, tendo a sua refeição mais rápida ali mesmo, na cafeteria de Limoges e na companhia de outras funcionárias com quem falava há pouco tempo. Só voltou a entrar em contato com Marco ao fim do expediente, por volta das quatro da tarde, enviando uma mensagem perguntando sobre onde ele estava e informando o retorno para casa.

Marco

A manhã se passou como esperada, a não ser pela necessidade de falar menos que o de costume e sempre em um tom mais baixo. Sua secretária particular parecia ter notado logo a princípio seu estado atípico no escritório, alertando-o sobre ir ao médico assim que possível. Ainda que apreciasse a atenção da secretária quanto ao seu bem estar, deixou o comentário de lado e deu continuidade ao trabalho. Durante o horário de almoço, não esperava pelo cancelamento do almoço por um compromisso de Desirée, mas também não manifestou nenhuma objeção, a considerar que de fato não estava com apetite algum para sair. Por isso, tomou apenas um chá de hortelã e metade de um lanche rápido que havia pedido pelo serviço de entregas na cidade.

Não costumava adoecer e, quando adoecia, não deixava de trabalhar a princípio. Talvez aquele comportamento estivesse ligado ao fato de sua família reproduzir aquele tipo de atitude nas figuras masculinas, mas nunca havia parado para pensar muito sobre o assunto. No meio da tarde já sentia a cabeça pesada e pediu para desligar o ar condicionado de sua sala, alertando que o ressecamento do ar estava lhe incomodando a garganta. Tentou se concentrar em apenas revisar os documentos à sua mesa ao invés de atender seus sócios e clientes locais, a fim de se poupar de continuar falando e tendo crises de tosse. Contudo, ao notar que nem mesmo estava conseguindo se concentrar no conteúdo do computador a sua frente, decidiu informar a sua secretária que cancelasse seus compromissos para o resto do dia enquanto voltava para casa.

No trajeto, ainda parou em uma farmácia para comprar alguns remédios, antipiréticos e analgésicos, para só então dirigir de volta para a casa dos Lamark. Sequer notou as mensagens de Desirée no telefone até adentrar a residência, mais tarde que o horário comum, aproximando-se do início da noite. Havia passado tanto tempo dentro do escritório fechado e de clima artificial tentando ser produtivo com os arquivos que precisava ler que sequer se deu conta do horário do dia. As horas pareciam passar de uma forma cada vez mais perceptível entre imaginar que as dores corporais estavam piorando e a suspeita que talvez estivesse com algum tipo de febre interna.

Ao adentrar na residência, foi direto para a cozinha, ansiando por um copo de água para tomar outro comprimido antipirético. Parou apenas na presença de uma das funcionárias da casa para ser questionado sobre seu próprio estado e questioná-la de volta sobre o paradeiro de sua noiva. Não achava importante lidar com seu estado a princípio, pois julgava estar apenas sofrendo de um breve resfriado e que com o remédio certo ficaria bem, por isso preferiu descobrir onde Desirée estava afinal e se certificar que ela estava bem.

Desirée

Não recebeu nenhuma resposta de Marco ao voltar para casa e só se adiantou em ir tomar um banho quente e relaxante enquanto as empregadas decidiam o que preparar para o jantar que ainda seria mais tarde da noite. Ainda parou no escritório da casa para olhar alguns documentos referente aos negócios da família que sua mãe cuidava, mas só assinou o que precisava e deixou de lado, para voltar ao quarto e se servir de algumas frutas, enquanto Venus lhe fazia companhia deitada ao lado na cama que Marco ocupava geralmente.

Só naquele instante foi que pegou o celular para conferir que ele não tinha ainda respondido suas mensagens, já estava quase na hora do jantar e nem tinha dado notícias. Franziu o cenho em irritação, começando a ponderar se ele estaria com a secretária - de quem tinha começado a desenvolver um leve incômodo - ou resolvendo alguma coisa com a ex-esposa. Antes que pudesse ligar e acusá-lo sem ao menos esperar uma resposta inicial, ouviu a porta se abrindo e finalmente avistou o noivo, que não parecia lá com uma expressão muito disposta.

- Onde estava? Eu mandei mensagem avisando que viria pra casa e não me respondeu. - falou, com um tom levemente irritado, sem sequer se dar ao trabalho de levantar da cama confortável acariciando o pelo de Venus, pelo menos até ela notar a presença de Marco e se levantar para ir abanando o rabo na direção do homem conhecido. - Eu vou para Paris no fim de semana encontrar minha mãe. - adiantou a informação, e embora quisesse que ele fosse com ela, com certeza não ia se passar por pedir a companhia dele.

Marco

Adentrou no quarto e afrouxou a gravata, satisfeito em encontrar a morena já na cama. Não prestou muita atenção no que ela estava falando até se dar conta que havia uma viagem para Paris envolvida. Sorriu discreto para a cadelinha que havia dado a noiva há algum tempo enquanto se aproximava do banheiro, removendo os sapatos, mas não as meias por achar o chão ainda frio demais para pisar ali descalço.

- Eu vou… tomar um banho primeiro… só um minuto… - avisou em tom de pedido, livrando-se da parte superior de seu terno para deixar a peça para ser levada à lavanderia depois. Abriu o chuveiro com água quente enquanto se esforçava para se livrar das peças de roupa e acessórios, colocando-os sobre a bancada do banheiro, repleta de outros itens de uso do casal.

Adentrou o chuveiro para se entregar a agradável sensação da água quente estabilizando sua temperatura corporal. Contudo, não demorou no banho, buscando um roupão e uma toalha extra para seus cabelos, jogando-a sobre a cabeça para se esforçar em secar os fios escuros com o esforço dos próprios braços. Respirou fundo até desistir, usando o secador de cabelo no lugar dos próprios músculos, cansado demais para ignorar a praticidade do item que era mais comumente usado pela noiva.

- O que disse? - perguntou a morena ao deixar o banheiro, sentando-se no seu lado da cama antes de pensar em voltar ao closet para vestir algo mais confortável. Manteve uma distância segura também com a morena, receoso de ser o responsável no caso de qualquer resfriado que ela tivesse. - Uma viagem para… Paris? - repetiu, o tom de voz mais baixo e controlado, os fios escuros secos mais assanhados lhe deixando com um aspecto mais exausto que o normal. Pensou em apenas beber mais um grande copo de água e descansar ali mesmo, pois sentia como se a dor de cabeça e os calafrios fossem retornar a qualquer momento.

Desirée

A morena franziu o cenho diante da resposta pausada dele. A voz estava um pouco rouca e os movimentos dele eram bem lentos também comparado ao costumeiro. Além do que, ele não iria tomar um banho antes de se aproximar e lhe tocar de algum jeito, o que lhe deixou levemente frustrada. Mas a frustração ficou um tanto de lado quando ajustou o óculos no rosto para observá-lo melhor, percebendo o semblante cansado. Provavelmente o trabalho tinha sido puxado, então só esperou que ele terminasse o banho, parando até para secar os cabelos no banheiro antes de voltar para o quarto, sentando-se ao seu lado com uma certa distância, embora fosse bem fácil de notar a expressão cansada.

- Que vou para Paris no fim de semana. - respondeu, sem dar muita importância ao fato e se virando na direção dele. - Você está com uma cara péssima, está doente, Marco?

Aproximou-se do noivo, mesmo que ele tivesse mantido a distância da outra vez, encarando-o mais de perto com aqueles cabelos desalinhados, as olheiras um pouco marcadas e o rosto levemente corado. Levou a mão até o rosto dele, passando pela testa e pela garganta, sentindo a temperatura um pouco elevada.

- Você está quente, o que está sentindo? - Desirée perguntou, num tom preocupado e ao mesmo tempo, impositivo. Podia não ter ninguém de quem cuidar costumeiramente na sua família ou que fosse muito próximo, mas estava bem acostumada com as alunas que ficavam doentes na Academia e faziam todo um drama por causa das dores. - Não foi trabalhar cedo já passando mal, foi? - o questionamento saiu num tom mais acusador, até porque não tinha prestado atenção no estado dele logo cedo, em meio ao sono.

Marco

Arqueou as sobrancelhas como se finalmente entendesse do que ela estava falando acerca de uma viagem. Contudo, não esperava a pergunta direta sobre estar doente, e sequer teve tempo de abrir a boca para responder quando a morena se aproximou para medir sua temperatura. Pensou em se reclinar para evitar o toque a aproximação, principalmente por ela estar grávida e não desejar que ela adoecesse também.

Sorriu com o questionamento dela sobre ter saído doente para trabalhar e segurou a mão que ela havia levado ao seu rosto para afastá-la devagar, até porque não se sentia tão desperto para bons reflexos.

- Eu estou bem, Desirée. Deve ser apenas um resfriado, mas vai passar. Já… estou tomando… - segurou a tosse, virando o rosto e tapando a boca com a mão livre. - … ah… sobre a viagem. - mudou de assunto como se de fato o desconforto que a doença lhe trazia não fosse algo preocupante. Talvez devesse dormir em um quarto separado da morena naquela noite, só para garantir que uma possível tosse noturna não incomodasse o sono da mulher. - Sobre a viagem, vou falar com Julie para agendar meus compromissos. Vou com você e… podemos aproveitar e ver… alguns detalhes do casamento. - sugeriu, pronto para se erguer da cama e ir até o closet para vestir roupas mais quentes, pois sentia que logo os calafrios voltariam.

Desirée

A resposta negativa não foi muito eficaz, considerando que ele mal completou a sentença, começou a tossir. Desirée ainda franziu o cenho, em irritação diante do descaso do outro, rodando os olhos quando ele prosseguiu a conversa naturalmente sobre a sua viagem e ignorou o detalhe da tosse e do mal estar.

- Se estivesse bem, não estaria tossindo nem com febre. - Desirée reclamou de volta. - Falamos da viagem depois. Além do mais, quem disse que pode ficar doente enquanto eu estou grávida?! Humpf.

A morena se levantou da cama, ajustando os óculos e fechando o roupão em volta da camisola para andar na direção da porta do quarto.

- Vou mandar prepararem um chá, e pegar um termômetro pra ver se está mesmo com febre a ponto de precisar me preocupar. E não durma no meio tempo! Não posso dormir com você perto se estiver com algo contagioso para arriscar a saúde dos bebês. - falou com o mesmo tom autoritário que usava com as alunas que lhe davam mais problema em Limoges-Collet, o que era bem irônico de se pensar, considerando que a pessoa com quem estava lidando era o seu noivo.

Seguiu pelos corredores conhecidos da casa, seguida por Venus de perto, até ir à cozinha e especificar para as criadas o que precisava que fosse preparado. Ainda pediu algumas frutas para um lanche leve e que poderiam também ajudar na recuperação do outro. Voltou para o quarto primeiro, enquanto o chá ficava pronto, levando consigo apenas o termômetro para ir até a cama e, dessa vez, sentar-se na beira do colchão bem ao lado de Marco.

- Coloque debaixo do braço. - mandou, sentada ao lado de Marco e levando a mão até a testa dele, para tirar os fios de cabelo desalinhado da frente do rosto. - Se estiver se sentindo muito mal, posso pedir a Natalia para lhe consultar em casa.

Marco

Não estava se sentindo nada disposto para discutir com a noiva, por isso apenas esperou que ela se levantasse e anunciasse a própria saída, acusando-o novamente de não estar preocupado com a saúde dos bebês. Esperou que ela saísse para se levantar de novo e ir até o closet se trocar e vestir um dos conjuntos de pijama para dormir. Podia sentir os pés gelados, então também resolveu calçar um par de meias. Acomodou-se na cama, aguardando o retorno de Desirée, coberto por alguns dos lençóis.

Não respondeu a noiva a princípio, obedecendo-a com o termômetro. Contudo, ergueu o olhar para Desirée, franzindo o cenho com a ideia dela em chamar a amiga médica.

- Eu vou… dormir em outro quarto… amanhã posso ir ao médico sozinho. - avisou, erguendo o braço livre para apoiar o antebraço sobre a testa, tentando diminuir a dor de cabeça que sentia.

Assim que os minutos se passaram, o termômetro acusava a alta temperatura interna, a febre marcando seus 38.5º. Nada que de fato fosse preocupante no momento, mas que, ao se agravar, poderia levar a desidratação e a um quadro mais preocupante. Assim que o termômetro foi removido, o moreno arrumou-se na cama, apoiando-se nos antebraços para poder se sentar.
- Viu? Só preciso tomar um comprimido para febre e ir dormir em outro quarto. - destacou, movendo-se devagar para poder sair da cama do casal.

Desirée

Até para ela, era evidente o desconforto que Marco tinha quando mencionava a sua amiga de longa data. Mas ignorou a resposta natural dele e rodou os olhos para o fato de que ele podia ir ao médico sozinho.

- Não vai sozinho pra lugar nenhum. - Desirée reclamou, esperando apenas o tempo do termômetro para conferir a temperatura em 38.5, o que já era alto demais para alguém que não devia ter nem adoecido. Logo Marco se arrumou na cama, para se levantar e sair da cama de casal, como ele mesmo tinha dito que faria para dormir em outro quarto. Desirée mesmo que o empurrou de volta para a cama pelos ombros, com a mesma expressão irritada. - Fique aí, eu mandei prepararem um chá pra você.

Tão logo ela anunciou aquilo, ouviu as batidas na porta e ela mesma se levantou para ir abrir e deixar que a empregada colocasse a bandeja na mesa do quarto. Logo a mulher saiu e Desirée que adicionou mel ao chá para levar até a cama, estendendo para o noivo.

- E é bom melhorar logo, pra não me deixar doente no processo! - continuou com as colocações irritadiças, mas manteve a curta distância de Marco, o que reforçava a preocupação que estava sentindo. - Você já comprou os remédios? Fique em casa amanhã, senão vai só piorar se for trabalhar o dia todo.

Marco

Tensionou quando a mulher lhe segurou e empurrou pelos ombros, respirando fundo e suspirando baixo com a dor muscular em seu corpo. Levou uma das mãos para segurar a tosse, mas não se desvencilhou do toque, nem da aproximação da morena, pois se sentia tonto demais para qualquer movimento brusco. Ergueu o olhar para Desirée apenas quando ela lhe ofereceu o chá, sequer percebendo quando a mulher havia adicionado mel a bebida.

Sentou-se devagar para beber o chá, sentindo a bebida aquecer sua garganta e diminuir por um breve instante a sensação de calafrios. Deixou a xícara de lado antes de voltar a se deitar na cama, erguendo o olhar de novo apenas quando a morena questionou sobre os remédios.

- Devem estar… no banheiro… esqueci lá… - avisou, buscando os cobertores na cama para poder se cobrir, fechando os olhos para poder se acomodar melhor com a cabeça no travesseiro já que a mulher parecia não desejar que se levantasse para ir para outro quarto. A cabeça estava pesada e sentia como se pudesse adormecer a qualquer instante. Talvez fosse a sensação de ter tomado um banho há pouco tempo e a bebida quente do chá lhe deixando um pouco mais confortável para repousar.

Desirée

Desirée certamente não estava acostumada a encontrar Marco com aquela pouca disposição. Ele parecia sonolento demais, cansado demais e realmente doente. Aquela perspectiva lhe deixou mais incomodada do que gostaria de admitir, mas talvez ele estivesse bem debilitado para sequer perceber suas reações. Deixou que ele tomasse o chá para ir até o banheiro, pegar o comprimido e servir um copo de água na bandeja que a empregada tinha trazido para voltar até a cama.

Marco já estava bem deitado no travesseiro e coberto até o pescoço com os lençóis de sua cama. Deixou o copo de vidro de lado no criado-mudo, suspirando levemente no estado preocupado, mesmo que não fosse nada sério, além de uma gripe, talvez. Devia estar mais preocupada em se manter longe dele para não adoecer, mas o instinto foi maior ao continuar ali.

- Marco, não durma agora, tem que tomar o remédio primeiro. - ela chamou, tocando no ombro dele, daquela vez num tom bem mais suave o que os anteriores, em irritação. - Vou pegar uma toalha molhada pra colocar no seu rosto, logo vai melhorar.

Esperou pela resposta do homem para que ele tomasse o comprimido, entregando o copo de água na mão dele. Logo ele bebeu do copo e, como tinha dito, seguiu até o banheiro para pegar uma das toalhas de rosto e molhar com água fria da torneira, para voltar até o quarto e se sentar na beira da cama bem ao lado dele. Aproveitou que, mais uma vez, ele estava bem deitado debaixo dos cobertores para passar a toalha molhada na testa e no rosto dele, para ajudar a diminuir a temperatura.

O advogado não voltou a acordar, mas ela tomou as providências para deixar o remédio ao lado da cama, colocar um despertador no celular para poder dar a medicação a ele nos horários indicados mesmo no meio da noite, e enxugar o suor no rosto dele. Mesmo com a decisão de que teriam que dormir afastados, ficou ao lado dele ao longo da noite, volta e meia acordando diante da respiração ofegante dele por conta da febre. Acordou bem no meio da madrugada para dar o outro comprimido a ele, voltando a dormir logo em seguida, ao perceber que ao menos ele já estava suando mais.

Marco

Não estava prestando atenção em seus arredores, apenas na própria temperatura e a vontade de conseguir dormir sem que a cabeça doesse horrores. Não discutiu com a morena assim que ela lhe indicou que tomasse o remédio. Sentia a boca seca, então bebeu o conteúdo do copo de água de uma única vez antes de voltar a se deitar na cama, bastante coberto. A expressão de desconforto aliviou apenas quando a mulher se aproximou para tentar diminuir sua febre com aquela compressa improvisada de toalha molhada.

Levou a mão até a própria boca abafando a tosse no meio da noite algumas vezes enquanto esperava a febre passar. A noite foi desconfortável, imaginava que Desirée havia seguido para outro quarto e se sentia mal por ter de afastar a própria noiva para que ela não adoecesse e para que não prejudicasse a gestação dela. A madrugada foi difícil, mas assim que a febre começou a baixar por conta do remédio, o corpo relaxou e conseguiu dormir algumas horas. Despertou apenas quando o efeito do remédio começou a passar e precisou tomar outro comprimido para a febre e dor. Respirou fundo algumas vezes, notando que a tosse havia diminuído um pouco enquanto que o pijama que usava e parte dos lençóis estavam molhados pelo suor.

Não se recordava de ter tomado outros comprimidos durante a noite, nem sequer da presença da noiva na cama, mas assim que se deparou com ela, dormindo ali, ao seu lado, prendeu a respiração por um instante. Tudo o que menos desejava era que ela terminasse adoecendo também por sua conta, ou que fizesse algum mal para os bebês. Devagar, sentou-se na cama para poder desabotoar a própria camisa do pijama masculino, sentindo o odor não muito agradável devido ao processo de transpiração durante a madrugada. Levantou-se, aproveitando que a febre havia baixado, e caminhou para o banheiro para tomar um banho e se livrar das roupas e lençóis molhados.

Após o banho, foi direto ao closet para vestir uma calça de moletom confortável e uma camisa branca de mangas curtas. Voltou para a cama para procurar o próprio telefone celular, encontrando o de Desirée no processo. Observou a mulher que deveria estar cansada por ter de ouvi-lo tossir durante quase toda a madrugada. Estendeu a mão para a cintura dela ao se sentar na beirada da cama ao lado dela, pensativo.

- Perdoem o pai de vocês por deixar a mamãe sem dormir direito… - falou mais baixo, a voz rouca devido a tosse constante, e afagou a barriga da mulher enquanto tentava lembrar da senha de acesso ao celular de Desirée. Se precisava encontrar a médica desagradável para se livrar daquela doença e não colocar a vida de seus filhos em risco, deixaria seu ciúmes de lado. Afinal de contas, Desirée era mais importante que um resfriado e seu orgulho masculino, não era?

Desirée

Depois que Desirée deu o segundo comprimido na madrugada, ainda ficou inquieta por um tempo até conseguir dormir de verdade, mas com o pouco descanso, foi um sono até profundo pelas horas que se seguiram, até sentir o toque na barriga e ouvir a voz sussurrada que imaginou, por um instante, ser apenas de um sonho. Nem ouviu o que foi dito, mas se virou na cama, percebendo que estava mais fria do que alguns instantes atrás - ou o que pareciam só alguns instantes.

- Hmm... Marco? - a voz saiu um pouco baixa, ainda sonolenta, até ela se dar conta de que ele estivera doente a noite toda. Acordou mais rapidamente, estendendo a mão até a altura do rosto dele para tocar na testa e deslizar a mão até o pescoço. - Está menos quente. O que está fazendo já fora da cama? Continue de repouso ou só vai piorar. - retrucou, seguindo ela mesma para fora da cama, fechando o robe em volta do corpo enquanto abafava um bocejo para ir até o banheiro lavar o rosto.

Voltou para o quarto logo em seguida, ainda sentindo o sono da noite mal dormida, mas só pegou o par de óculos e amarrou os cabelos num coque desleixado para ir até a entrada do quarto.

- Eu vou mandar prepararem um café da manhã mais leve, e um chá. E tome seu remédio enquanto isso. - Desirée se adiantou, no tom autoritário costumeiro.

Marco

Relaxou com a sensação do toque em seu rosto e pescoço, a mão de Desirée lhe parecendo bem quente. Respirou fundo e ouviu as indicações da noiva, escolhendo obedecê-la, ainda que pensasse em dizer outra coisa. Procurou o remédio que deveria tomar e acomodou-se na cama, onde a mulher estava deitada anteriormente. Ainda podia sentir o perfume dela nos lençóis e travesseiro.

Esperou pelo retorno da morena e do seu café da manhã. Havia se esticado na cama para recuperar o próprio celular, enviar algumas mensagens para seus sócios e para sua secretária particular, adiantando que ficaria em casa naquele dia devido à doença. Aproveitou e respondeu às mensagens atrasadas de sua filha, dizendo estar tudo bem. Avisou para Joshua sobre seu estado e lhe pediu que evitasse comunicar a Monique sobre ter faltado do trabalho. Sabia que, apesar da personalidade difícil, a garota não lidava bem com aqueles cenários.

Deixou o aparelho de lado assim que Desirée retornou e voltou a se acomodar, sentado na cama, o travesseiro em suas costas.

- Vai trabalhar hoje? - perguntou, observando seu café da manhã trazido por uma das funcionárias da residência. Não tinha apetite algum, mas sentia que se não comesse algo, ficaria pior e consequentemente acabaria sendo desagradável com Desirée. - Pode chamar a médica que conhece. Ou posso ir ao médico… - fez uma pausa, segurando a tosse e a breve dor de cabeça. - Desculpe por te fazer ficar acordada.

De fato, se sentia culpado por não conseguir cuidar de si mesmo naquele momento. Detestava depender dos outros e ter de aceitar a ajuda de sua noiva naquela situação era desconfortante, principalmente sabendo que ela estava esperando bebês. Pegou o chá preparado mais quente, sentindo a temperatura em seus dedos ao segurar a xícara, sentindo-se melhor com o vapor da bebida.

Desirée

Desirée foi até a cozinha para pedir que as empregadas preparassem o café da manhã para ela e Marco e servi-lo no quarto. Aproveitou estar na cozinha para tomar logo um chá, sendo acompanhada o caminho de volta ao quarto pela cadela de estimação. Voltou a tempo de ver Marco deixando o celular de lado e ainda o encarou com um estreitar de olhos em reprovação, como se aquilo fosse prova de que ele estava longe de ficar descansando.

- Você não pretende ir para o trabalho ainda hoje, não é? - reclamou com ele, sentando-se ao lado na cama de novo, com a xícara de chá numa das mãos enquanto Venus subia na cama muito casualmente para se acomodar no cobertor quente ao lado de Marco. - Está se sentindo mal? Achei que um dia de repouso e uns remédios seriam suficientes, mas se quiser, eu posso pedir para Natalia passar aqui e lhe examinar, além de lhe prescrever medicação mais específica que vitamina C.

Desirée deixou o chá que estava tomando com Marco e seguiu na direção do banheiro, para tomar um banho, escovar os dentes, trocar de roupa. Foi tempo suficiente para que o café da manhã fosse servido e ela retornou para o quarto vestida no roupão felpudo.

- Eu vou trabalhar e você vai ficar em casa até melhorar. E com o celular desligado. - avisou, andando até a mesa para se servir, esperando que Marco tivesse a disposição de se juntar a ela também.

Marco

Notou o ar de reprovação da mulher assim que adentrou no quarto e sorriu discreto com a presença de Venus na cama. Era sempre curioso observar que a cadela que havia presenteado à Desirée quando apenas se prestava a discutir e provocar a mulher era tão bem cuidada naquela casa. Negou quando ela perguntou se pretendia ir para o trabalho e suspirou em conformação quando ela anunciou que poderia sim chamar a tal médica. Bem sabia que a mulher tinha inclinações para a companhia de sua noiva. E esse cenário lhe incomodava, ainda mais quando estava naquele estado adoecido.

Levantou-se da cama devagar para se unir a mulher na pequena mesa do quarto amplo que agora dividia com ela. Ergueu as sobrancelhas em descrença quando ela disse que ficaria com o celular desligado. E se algo acontecesse com sua filha? E se algo acontecesse com seus funcionários? Certamente não se sentia confortável com aquele aviso e certo que desobedeceria.

- Precisa mesmo ir trabalhar hoje? - questionou com o tom e voz mais rouco devido a tosse enquanto se esforçava para comer algumas frutas e alguns pãezinhos para se manter com o estômago satisfeito, ainda que o apetite não acusasse nenhuma fome. - Por que não fica em casa e descansa um pouco também? - encarou a morena, estendendo a mão para tocar a dela durante a refeição.

Aquele cenário também lhe trazia algumas lembranças e acentuava ainda mais o motivo pelo qual não gostava de adoecer e depender de terceiros. A ideia de que estava sendo um estorvo para a noiva lhe assombrava e o fazia recordar daquele tipo de experiência durante o seu primeiro casamento. Sabia que Desirée era diferente, mas não conseguia ignorar a sensação desagradável que crescia em seu estômago com as possibilidades dela lhe culpar depois por ter lhe colocado naquela situação, grávida, e perdendo o sono por conta dele.
#2
Desirée

Desirée começou a se servir das torradas com geleia e do suco fresco de laranja, Marco se juntou a ela logo em seguida, mas cada gesto dele parecia denunciar ainda mais que ele estava longe de melhorar. Levantou-se com a intenção de pegar o celular e ligar para Natalia, mas parou no meio do caminho quando ele perguntou se precisava mesmo ir trabalhar. Não precisava, e até queria ficar em casa para descansar e fazer companhia a ele, mas também não ia se prestar a admitir aquilo.

- É claro que eu preciso trabalhar, não tenho motivo pra ficar faltando ao trabalho. E você que tem que se recuperar logo, então faça um favor a nós dois e fique quieto o resto do dia. - Desirée respondeu, mesmo contra o que estava pensando. - Mas eu vou esperar a Natalia vir lhe examinar pra ter certeza que é só uma gripe e não algo mais sério. E que você também não vai me esperar sair daqui pra começar a trabalhar. Vou mandar Joshua ficar de olho em você, isso sim. Se for teimoso como Monique, já sei no que isso vai dar.

Colocou suco em outro copo e estendeu na direção dele para que ele se servisse também. Pegou o celular para ligar enquanto se servia de algumas mordidas das torradas.

- E tome um banho frio, vai ajudar a diminuir a sua febre. - mandou, bem a tempo de ouvir a resposta do outro lado do telefone. - Ah, bonjour, Natalia, desculpe ligar tão cedo, mon cher, será que poderia me fazer um favor? Marco não está se sentindo bem desde ontem, poderia fazer uma consulta particular?

Esperou a resposta da amiga, sem parar de se servir, considerando o quanto estava começando a comer mais desde que entrara no quarto mês de gravidez.

Marco

Ficou quieto diante das palavras da morena. Se já se sentia mal por saber que estava incomodando a mulher, o humor não melhorava com a personalidade da mulher lhe tratando como se fosse um adolescente, chegando a compará-lo com a própria filha adolescente. Tomou o suco em silêncio e esperou que ela falasse com a médica, ignorando o assunto sobre o banho, pois não fazia muito tempo que já havia ido ao banheiro tomar um.

“Desirée, eu sei que está grávida e os hormônios são difíceis, mas você tem que pegar leve com o seu marido, querida. Deixe e o homem descansar. Eu não posso curar ele se o caso for o seu fogo incontrolável, viu?” - ouviu a médica falando mais alto pelo telefone, ela parecia estar distante, como se estivesse em uma viagem. A médica, por fim, apenas riu, concordando e aceitando visitar Desirée para tomar um café na casa dela antes de ir de fato para o seu trabalho no Hospital Geral de Cerise.

Marco terminou de mastigar uma torrada e beber o resto do suco em seu copo. O homem logo se ergueu para poder ir ao banheiro, escolhendo escovar os dentes antes que a loira chegasse, pois pela tosse, imaginava que ela gostaria olhar sua garganta. Voltou para a cama e não tocou no celular novamente, segurando os travesseiros e ajustando-os para poder se sentar e não deitar logo após a refeição. Aproveitou a presença da cadela ainda na cama, esboçando um sorriso discreto novamente enquanto aguardava o atendimento da médica a domicílio.

Natalia não demorou a aparecer na residência dos L´mark usando uma calça preta de corte fino e uma blusa branca perolada de alcinhas com uma bela visão para o decote da mulher. A própria carregava uma maleta pequena preta em mãos e o jaleco branco sobre o antebraço. A mulher aguardou até ser recepcionada por uma das empregadas da casa que tão pronto chegou, anunciou sua presença ali. Acompanhou a funcionária, atenta aos detalhes do uniforme na criatura feminina apenas por reflexo.

Desirée

Desirée estava levando alguns morangos à boca quando ouviu a resposta de Natalia do outro lado da ligação e sentiu o rosto corar, quase engasgando com o morango e evitando encarar Marco de volta com o constrangimento da colocação da amiga, crente que ele não teria ouvido aquele comentário na ligação.

- Eu não fiz nada! Pare de falar besteiras, Natalia! - retrucou com a amiga, pigarreando logo em seguida para abafar o resto do comentário indecente da amiga. Não teria problema com aquele tipo de comentário, se fosse com alguma mulher com quem já tivesse saído, com qualquer mulher, na verdade. Todo o estranhamento daquele cenário ainda era com o fato de que estava noiva de um homem. - Bom, junte-se à nós para o café da manhã, pelo menos, pelo trabalho. Estaremos esperando, querida.

Desligou a ligação pouco antes de Marco seguir de novo para o banheiro, mas ainda ficou sentada à mesa, comendo boa parte do que estava disposto nas bandejas, com os sucos, frutas e torradas. Marco voltou para se deitar em sua cama e finalmente se levantou da mesa, levando consigo ainda um cacho de uvas para continuar comendo até se sentar na cama ao lado dele de novo.

- Natalia já deve estar chegando. Vai te examinar e logo pode descansar de novo. - falou, em meio às uvas que terminava de comer sem sequer oferecer para o noivo.

Desirée ainda estava apenas com a calcinha e o roupão que usara para sair do banho, a parte da frente da roupa um tanto indiscreta ao mostrar o decote no colo dos seios fartos. Mal se preocupou em ajustar a roupa, na verdade, nem tinha pensado naquela possibilidade, já que estava apenas na companhia de Marco e quem chegaria para a consulta era Natalia, com quem também não precisava se preocupar. E logo ouviu as batidas na porta do quarto, anunciando a chegada da médica, ao que autorizou com um "Pode entrar" sonoro, levantando-se para ir receber a amiga.

- Bonjour, Natalia, obrigada por sair do seu caminho e vir nos atender. - Desirée cumprimentou a amiga com um abraço e um beijo no rosto, dando espaço então para que ela seguisse pelo quarto até a cama, na direção de Marco.

Marco

Franziu o cenho ao notar o tom de voz da noiva com a médica no telefone, mas logo aliviou a expressão com a aproximação de Desirée para a cama. Sentia-se indisposto, mas ainda não havia ficado demente. Encarou o robe da morena e como o corpo dela estava bem vulnerável ao seu toque. Se não estivesse em uma situação desagradável devido a sua saúde, certamente a teria puxado de volta para a cama e mandado a médica para o inferno. Contudo, não queria se sentir pior por representar um risco para seus filhos.

Tão pronto esperava que a mulher se perdesse no caminho para a casa dos L´mark, ela chegou batendo na porta do quarto e teve de assistir a cena dela abraçando sua noiva, o sorriso endiabrado que não deixava o semblante da mulher de toques inconvenientes.

- Você me ofereceu um café da manhã na sua casa em troca de um atendimento a domicílio. Uma refeição a menos no hospital é o paraíso para mim, meu bem. - notou a risada despojada que acompanhava a loira e tensionou assim que ela pareceu notar sua presença no quarto. - Ah, então vamos ao doente. Andaram namorando na chuva, por acaso? Tem que parar com isso, Desirée.

Suspirou, resignado com os comentários desnecessários da médica que se aproximava de sua figura para deixar a maleta ao lado da cama e retirar alguns utensílios de dentro da mesma, inclusive suas luvas transparentes.

- Olá. Marco, não é? - confirmou com um aceno positivo e sério de sua cabeça enquanto a mulher se aproximava para lhe segurar pelo queixo após um pedido breve de “licença”. Arqueou uma sobrancelha antes de franzir o cenho, tentando levar a mulher a sério. - Calma, querido, eu preciso ver o estado das suas mucosas. Estou procurando uma mucosa bem saudável e rosada, mas você parece pálido. Tem se alimentado direito?

Sentiu o toque abaixo de seus olhos enquanto ela pressionava suas olheiras e lhe erguia a cabeça, segurando-o pelo rosto. Não era um toque desagradável, mas invasivo. Notou quando ela buscou um de seus instrumentos antes de lhe pedir para abrir a boca.

- Faça “aaaah”. Vamos investigar sua garganta, Marco. - ela sorriu, parecendo achar tudo aquilo divertido. Certamente ela deveria, pois não era a mulher que estava perdendo o sono com a tosse irritante na madrugada. Contudo, obedeceu a mulher que tão pronto colocou uma tala pequena em sua língua, ajudando a baixá-la para verificar a fundo o conteúdo de sua garganta, estreitando o olhar e usando uma pequena luz de outro aparelho. - Ah, achei. Há um foco de infecção. Perto das amídalas. Ah, está feio. Vai precisar de antibiótico, senhor.

Relaxou quando ela soltou seu rosto e já estava pronto para respirar mais aliviado e deitar novamente na cama quando sentiu a loira lhe segurar pela camisa, impedindo-o de se mover para se deitar.

- Quem disse que era para se deitar agora? Já estou aqui, vamos fazer o serviço completo. - abriu a boca para protestar, mas ela foi mais rápida, lhe puxando a camisa para cima, revelando o abdômen e o peitoral masculino, bem trabalhado por seu cuidado em sempre se manter em boa forma. - Nossa, Desirée. Agora eu estou entendendo porque desistiu das mulheres. - a médica riu, divertindo-se em meio às provocações e a irritabilidade do paciente. - Pronto, agora fique firme. Vamos ver se os seus pulmões estão bem.

Apesar do modo invasivo, conseguia perceber que a mulher era uma médica de fato, pois ela parecia preocupada com seus sintomas e o estado de sua saúde. Respirou fundo apenas algumas vezes enquanto ela usava o estetoscópio para averiguar o estado de seus pulmões, seus batimentos e a pulsação. Relaxou em seguida, baixando a camisa enquanto a mulher guardava seus instrumentos, descartando as luvas em uma sacola na maleta.

- Vou deixar uma receita separada e algumas amostras do remédio para que ele comece a tomar hoje. Daqui a uma semana ele já deve estar muito bem, obrigada. - ouviu a explicação da médica e se moveu na cama novamente, encarando-a sério.

- Quer dizer que posso estar bem para viajar no final de semana? - questionou, ciente de que Desirée precisava ir a Paris e não queria deixá-la desacompanhada.

- Bom, pode se sentir mais disposto, sim. Mas eu evitaria chuvas, bebidas geladas, esquecer o horário do antibiótico e, por mais que isso pareça difícil, beijar essa boca maravilhosa da sua noiva. - dessa vez não escondeu seu desgosto com a frase da médica que ainda descaradamente falava dos atributos de sua noiva como se pudesse esquecer que elas já deveriam ter tido algo. Havia alguma forma do dia piorar? Já estava doente, de cama, teria de tomar antibióticos e ainda ser atendido por uma das ex-mulheres na vida de sua noiva.

Desirée

Desirée sorriu para a amiga e a acompanhou até próximo da cama enquanto ela ia examinar Marco. Ainda fechou a expressão na usual irritada quando ela insinuou que tinham feito alguma coisa na chuva.

- Nós não fizemos nada disso, pare com essas ideias, Natalia! - Desirée retrucou, bufando em resposta e cruzando os braços enquanto se mantinha numa curta distância da cama para observar a avaliação médica.

Já sabia que Marco não se sentia exatamente confortável na presença da maioria de suas amigas, mas ao menos ele podia ter um pouco de desconto pelo que ela tinha que passar toda vez que ele tinha que lidar com a secretária e com a ex-mulher. Era bem maldoso da sua parte, mas também não ia mudar o jeito como agia com suas amigas por conta das reclamações dele, afinal, eram só amigas - agora.

A avaliação de Natalia seguiu e logo descobriu que havia algo mais do que o simples resfriado em que os dois estavam apostando. Até mesmo a ponto de precisar tomar antibióticos, o que mostrava um pouco mais da gravidade do problema. A morena ficou um tanto mais apreensiva quando ouviu o diagnóstico, a ponto de nem se importar tanto com a insinuação de Natalia sobre o físico do seu noivo ser o motivo por ter deixado de sair com mulheres.

- É grave? Vai ter até que tomar antibióticos. - Desirée perguntou, enquanto Natalia terminava a avaliação para dar o veredicto de que ele estaria bem dali a uma semana. Foi Marco que perguntou sobre a possibilidade de viajar ainda no fim de semana e Desirée quase revirou os olhos. - Não precisa viajar no fim de semana, podemos marcar pra outro dia.

Nem deu tanta atenção também para a expressão de desgosto de Marco com o comentário mais invasivo de Natalia, estava preocupada com outra situação.

- Tem algum problema, para mim e para os bebês, Natalia? É algo que pode ser transmitido? - ela perguntou, preocupada com o estado dos bebês, considerando que sua gravidez tinha sido bem conturbada no início.

Marco

Ficou surpreso com a sentença de Desirée sobre marcar outro final de semana para viajar a Paris. Não esperava que ela fosse deixar qualquer viagem de lado apenas porque ele estava com uma dor de garganta. Natalia, por sua vez, pareceu pensativa por um instante, recordando que a amiga estava gestante de gêmeos. Por ainda estar quase na metade da gravidez, a barriga não estava tão saliente e era fácil esquecer por alguns instantes que ela esperava filhos.

- Bem, eu evitaria beijar seu noivo. Hm. Comer e beber com os mesmos utensílios. O senhor deve evitar o ar condicionado. Tome algumas bebidas quentes, ajudam a relaxar a garganta. - comentou a médica terminando de fechar sua maleta. - Não é o fim do mundo, querida. Seu marido não está de quarentena, mas eu evitaria o contato muito próximo. Você pode ficar gripada e sua imunidade pode cair, não acredito que seja arriscado para os bebês, mas é melhor evitar o desconforto.

Observou a loira se aproximar de Desirée, estendendo os braços para poder envolvê-la pela cintura, lhe dando um abraço demorado.

- Eu vou pegar meu pagamento na sua cozinha. - anunciou a loira, certa de que seria recompensada com comida.

Marco apenas suspirou, observando as amostras dos antibióticos e os horários dos remédios prescritos pela médica ao lado da cama. Afastou os cobertores para se levantar, mas permaneceu na cama, voltando sua atenção para a morena ainda no recinto.

- Desculpe… por te colocar nessa situação… - falou, segurando a vontade de tossir ao fazê-lo. Poderia sentir ciúmes da mulher encontrando aquela médica com segundas e terceiras intenções, mas era sincero quanto ao sentimento de responsabilidade que tinha com a noiva e seus filhos.

Desirée

Desirée ouviu as recomendações da amiga com cuidado, concordando com acenos de cabeça para as indicações. Bom, era uma inflamação na garganta e embora precisasse tomar alguns cuidados para não ficar doente também, não era nada que pudesse lhe deixar tão preocupada. A última coisa que precisava era ter a imunidade baixa para adoecer e trazer algum risco à própria gravidez.

Sorriu mais amigável quando Natalia se aproximou e estendeu os braços para lhe envolver. Devolveu o abraço e concordou com um aceno de cabeça sobre ela ir buscar o pagamento na cozinha.

- Eu vou num instante. - avisou à amiga enquanto ela saía e fechava a porta ao passar. Voltou-se para Marco, que tinha pegado os remédios com os horários de prescrição e virou-se na intenção de se levantar.

Desirée se aproximou, sentando-se de novo ao lado dele, mas sem impedi-lo de levantar, se era o que queria fazer. Rodou os olhos como se tentasse minimizar a preocupação ou o pedido de desculpas dele.

- É só uma inflamação na garganta, não me colocou em situação nenhuma. - ela reclamou, mas estava com o tom até bem mais suave. - Bom, eu vou acompanhar Natalia e agradecer pela consulta. Vou pedir ao Joshua pra comprar os seus remédios. E você, continue descansando, eu volto num instante. - ela avisou, ajustando o roupão daquela vez, já que teria que sair do quarto.

Marco

Encarou a esposa que mesmo após a noite mal dormida ao seu lado, estava tratando a situação com normalidade, ainda estando gestante. Acompanhou a morena com o olhar enquanto ela ajustava o roupão para sair do quarto e não disse mais nada, concordando com um aceno positivo da cabeça antes de escolher tomar o comprimido com um pouco da jarra de água do café da manhã. Escovou os dentes rapidamente no banheiro para voltar para a cama, puxando os cobertores para poder se acomodar melhor na cama.

A médica, por sua vez, estava aproveitando do delicioso café da manhã na cozinha da amiga enquanto jogava conversa fora com as funcionárias dela. Sempre achava que Desirée tinha bom gosto para contratar mulheres bonitas, então estava bem animada com a consulta a domicílio. Ainda assim, ela não demorou muito para se despedir, anunciando que precisava chegar no hospital para dar início ao atendimento clínico do dia, explicando para Desirée que se o quadro de Marco piorasse, que ela lhe telefonasse e viria para verificar a situação do homem de novo.

Marco terminou pegando no sono novamente, tossindo um pouco menos que durante toda a manhã enquanto a mulher não retornava para o quarto. Era curioso como um homem do seu tamanho conseguia adoecer e ficar na cama após anos ignorando situações como aquela. Talvez fosse algo de família, pois não se recordava de cenários em que seu próprio pai havia aparentado estar doente. Se recordava que apenas visitava o hospital para seu tratamento ocular e nos atentados que havia sofrido devido ao tipo de pessoa para quem trabalhava quando vivia em Paris. Era estranho, inclusive, depender dos cuidados de sua noiva que, diferente também do que esperava, estava sendo bastante compreensiva e atenciosa.

Desirée

Desirée seguiu até a cozinha para sentar com Natalia e conversar um pouco com a amiga, enquanto ela se ocupava em dar em cima de suas empregadas descaradamente. Não tinha problema com a atitude e era até refrescante conversar com a outra. Ainda se serviu de algumas coisas na companhia de Natalia e recebeu recomendações novas sobre a gravidez que estava finalmente estabilizada. Mas a loira precisou sair o quanto antes para cumprir o horário no hospital e só se despediu com um abraço e um beijo no rosto rapidamente.

A morena ainda deu instruções às empregadas sobre o que preparar no almoço para Marco e também entrou em contato especificamente com Joshua para que ele comprasse os remédios que Natalia tinha prescrito. Voltou para o quarto para encontrar Marco adormecido de novo. Aproximou-se do noivo para se certificar que ele estava dormindo e ainda ajustou o cobertor sobre ele, observando-o por uns instantes antes de se levantar. Trocou de roupa, colocando um vestido leve de usar em casa e saiu até o escritório para fazer ligações e resolver os trabalhos de Limoges-Collet ali mesmo.

Ainda ligou para a própria mãe para avisar que não teria como viajar no fim de semana por conta do estado de Marco e ficou imersa no trabalho até uma das empregadas voltar para lhe servir um chá com biscoitos por conta do horário do lanche em sua alimentação e depois anunciar a chegada de Joshua com os remédios que tinha pedido.

Marco

Durante sua estadia no quarto de casal, dormiu a maior parte do tempo. Não tinha apetite ou disposição para se levantar e sair do quarto. Conseguiu apenas sentir em alguns momentos uma outra presença no ambiente, mas logo julgou que seria sua esposa. Para um homem acostumado em estar sempre alinhado e disposto, aquele cenário era bem atípico. Estava assanhado na cama, o rosto pálido e o suor vez ou outra lhe tomava a pele. Em alguns momentos em que despertava para ir ao banheiro, sentia o desejo de tomar um novo banho e foi justamente o que fez próximo do horário no final da tarde, quando a febre parecia não voltar mais e a fraqueza no próprio corpo ter dado um intervalo. Quem diria que um problema de garganta lhe deixaria assim tão fraco?

Joshua, por sua vez, não demorou a chegar na casa dos L´mark, solicitando que uma das empregadas avisasse a dona da casa de sua presença. Não desejando incomodar a mulher e ao mesmo tempo preocupado com o chefe, perguntou às mulheres sobre o estado do homem e deixou os medicamentos para que fossem entregue diretamente a morena. Apesar de ter passado boa parte do seu tempo servindo aquela família e cuidando da senhorita Biedermeier, era estranho não se sentir como um membro da família. Incerto do que fazer, o loiro resolveu aguardar no hall de entrada durante alguns instantes, esperando que a mulher conferisse os medicamentos e, se fosse necessário, lhe desse alguma nova ordem sobre o que fazer naquela situação. Também detestava a ideia da filha do homem não saber de nada daquilo. Sabia o quanto a menina se preocupava com o próprio pai, ainda que ela não admitisse isso.

Ficou de pé ao lado de uma das janelas no hall de entrada, observando o jardim da mansão dos L´mark enquanto aguardava, os braços à frente do próprio corpo. Era sempre estranho visitar aquela residência pelo fato de apenas encontrar mulheres ali trabalhando, e pelo constante sentimento de que a noiva de Marco Biedermeier não tolerava sua companhia muito bem. Ao menos ela não fazia questão de esconder as próprias impressões que tinha, diferentemente da ex-esposa do homem, sempre sorridente e carismática, mas que não lhe tolerava da mesma forma ou pior.

Desirée

Desirée começou a tomar conta do próprio trabalho no escritório, já que não podia ficar fazendo companhia a Marco e ele estava descansando. Foi ao quarto algumas vezes, apenas para conferir o estado do noivo e se ele tinha voltado a ter febre, mas parecia tudo em ordem, até Joshua chegar na sua casa para entregar as medicações que tinha pedido. Logo uma das empregadas lhe avisou da chegada do segurança. Já tinha trocado de roupa para um vestido leve e folgado, com o corte ajustado apenas no busto, para seguir até o hall de entrada e recepcionar o segurança com o qual já estava até começando a se acostumar.

- Conseguiu comprar todos os remédios? Marco está dormindo e não quer que Monique saiba que ele está doente. Mas eu não vejo motivo pra isso, já que é só uma inflamação na garganta. - Desirée avisou, pegando os remédios que o segurança lhe passou. - Se eu precisar de outra coisa, eu ligo. Se quiser alguma coisa, peça às empregadas.

Acenou na direção de uma das empregadas que estava cuidando da arrumação do Hall e ela só concordou com um aceno de cabeça. Seguiu pelas escadas para o primeiro andar, sequer considerando a possibilidade de perguntar a Joshua se ele queria ver o patrão. Levou os remédios até o quarto e parou ao lado do noivo, sentando-se no canto da cama para acordá-lo e dar a medicação de acordo com as especificações de Natalia.

- Marco, acorde, precisa tomar o remédio. - ela avisou.

Marco

Joshua apenas concordou com a noiva de seu patrão, entregando-lhe os medicamentos e confirmando que havia seguido a receita que lhe foi repassada. E fez exatamente como ela havia dito, procurou as empregadas para saber do atual estado de Marco e de como estava se recuperando. Apesar de ter conseguido algumas inimizades no trabalho, o homem também era querido por muitas pessoas no escritório e sabia que ainda que Monique não precisasse saber daquele momento dele adoecido, era bom dar um pouco de satisfação para alguns colegas de trabalho. Sabia que não era nada grave pela receita e o atendimento farmacêutico que havia recebido, portanto não era difícil manter a calma e a compostura de sempre. Deixou a residência assim que conversou com uma das empregadas, partindo sob o aviso de que se fosse necessário, poderia ser contato a qualquer hora.

Marco, por sua vez, ainda estava descansando em um agradável sono após a febre não ter mais retornado até sentir a pressão extra na cama e a voz familiar que lhe chamava. Entreabriu os olhos escuros antes de se apoiar no antebraço para se erguer parcialmente, notando a proximidade com a morena que parecia tentar lhe informar de algo novo. Buscou o ar e estendeu a mão para a perna da mulher, aproximando-se até conseguir deitar com a cabeça ali na coxa dela, ainda sonolento.

- Hmm... remédio agora? - balbuciou, esfregando um dos olhos antes de notar que de fato precisava tomar o medicamento. Apoiou-se com as mãos na cama, sentando-se ali para poder esperar que a morena lhe indicasse o que precisava tomar. O semblante ainda era de quem estava dormindo e os fios escuros assanhados não ajudavam a melhorar a habitual imagem do homem saudável e bem disposto de todos os dias.

Desirée

Desirée mal pegou a água e o remédio, Marco tateou o local buscando pela sua presença até deitar a cabeça em sua coxa. A morena arqueou as sobrancelhas, mas acabou sorrindo discreta, considerando que ele não conseguia nem lhe ver naquele estado. Parecia mais uma criança mimada por causa da doença, mas não o afastou da sua perna, deixou que ele mesmo se levantasse para encará-lo com a expressão irritadiça de sempre

- Vocês homens são todos muito mimados, é só uma garganta inflamada e você já nem consegue ficar acordado sozinho. - ela reclamou, entregando o copo com o comprimido que ele precisava tomar.

Deixou que ele tomasse a medicação e pegou o copo da mão alheia mais uma vez, para deixá-lo no criado-mudo antes que o advogado acabasse derrubando. Empurrou-o de leve pelos ombros para que ele pudesse se deitar de novo, ajustando os travesseiros atrás dele. Ainda passou uma das mãos pelos cabelos alheios desalinhados e só então, se curvou na direção dele, apoiando uma das mãos ao lado do rosto dele enquanto mantinha o próprio rosto a uma distância segura, encarando-o de cima.

- Se não melhorar logo, eu vou ter que me distrair com os meus brinquedos, Marco. - comentou, num tom bem sugestivo, para só então se levantar e voltar a falar num tom mais alto. - Eu volto no horário do outro remédio.

Marco

Estava indisposto demais para dizer qualquer coisa em resposta ao comentário da morena sobre ser um homem mimado. Talvez até fosse, mas só deixava aquilo claro quando se sentia indisposto devido a uma situação como aquela de doença. Sentiu o leve empurrão e tão pronto a mulher lhe deu o medicamento e lhe acomodou na cama, ergueu o olhar para encará-la, ouvindo o comentário sugestivo sobre a condições de sua melhora. Esperava que a mulher de fato não se cansasse dele naquele estado e se frustrasse por ter de cuidar de um homem adulto.

Deixou que ela partisse do quarto, entregando-se a mais algumas horas de descanso. A febre finalmente não deu mais sinal até o ponto em que despertou novamente, sentindo-se cansado por estar o tempo todo na cama. Não esperou o retorno da morena, levantando-se para ir ao banheiro tomar um novo banho. Tinha um certo tique nervoso com a ideia de passar o dia todo na cama, aquilo lhe recordava do tempo que havia ficado no hospital enquanto se recuperava de seu acidente com o atentado por arma de fogo.

Despiu-se no cômodo, ligando o chuveiro para tomar um demorado banho antes de encher a banheira com a água morna para poder relaxar alguns instantes. Não sabia quantos dias ficaria longe do trabalho e se recuperando. Na verdade, após o uso do antibiótico, já se sentia até melhor. Contudo, tinha certeza que se fosse trabalhar no dia seguinte ainda fazendo uso da medicação, acabaria preocupando Desirée. Ainda havia muito receio ali de que a morena estivesse sendo importunada por sua doença.

Ergueu o olhar, recordando que havia esquecido de separar a toalha do armário, terminando por dar de ombros, alguns minutos a mais naquela banheira de água morna não poderia lhe fazer tão mal assim. A temperatura estava tão agradável que poderia ficar ali o restante do dia inteiro - mas não adormeceu, tinha ciência do perigo que era acabar dormindo ali dentro.

Desirée

Desirée só voltou para checar o estado do noivo quando a tarde já ia alta. Não o encontrou na cama, mas a porta entreaberta do banheiro mostrou facilmente onde ele deveria estar. Seguiu até o cômodo e arqueou as sobrancelhas em irritação ao ver que ele estava muito confortável na banheira e quase adormecendo. Aproximou-se até se sentar na beira da banheira, puxando o outro pelos ombros para chamar a atenção dele.

- O que pensa que está fazendo na banheira, Marco? Com os remédios e no estado em que está, a última coisa que eu preciso é que você durma aí dentro. - ela reclamou com o outro. - Está na hora do outro remédio.

Levantou-se para pegar uma toalha e um roupão para ele, esperando que Marco criasse coragem para se levantar e voltar para o quarto. Trouxe a toalha quando ele se colocou de pé e ainda o ajudou a vestir o roupão, ainda no banheiro. Passou as mãos pela cintura dele, notando como ainda estava grogue por causa da doença e do remédio, para amarrar a faixa do roupão. Levantou as mãos para segurar o rosto dele entre as suas, aproximando a testa até encostar na dele.

- Hm. Não está com febre, vai acordar melhor amanhã, então me faça o favor de só deitar e dormir. - ela avisou, passando uma das mãos pelos cabelos molhados para colocá-los para trás. - Eu vou estar por perto.

Não teria admitido aquilo se ele estivesse nos plenos sentidos, menos ainda se estivesse saudável, então só o empurrou na direção do quarto.

Marco

Entreabriu os olhos, demorando a se dar conta de que Desirée estava ali, apoiada na banheira e lhe dando mais uma bronca por estar fora na cama e quase adormecendo na água. Levou uma das mãos até a próprio rosto, esfregando-o antes de assistir a mulher se afastar novamente. O tempo de se levantar foi o bastante para que ela lhe trouxesse uma toalha, lhe ajudando a deixar a banheira e ainda lhe colocar no roupão. Sentiu um breve arrepio quando ele passou as mãos pela região de sua cintura para fechar a peça do roupão. Baixou o olhar para a morena que lhe segurava a face e afastava seus cabelos molhados, anunciando que estaria por perto.

Sorriu discreto em resposta, crente que deveria ter entendido errado o que a mulher dizia. Apesar da indicação para que voltasse para a cama, inclinou-se, apoiando a cabeça no ombro da mulher para poder abraçá-la, inspirando o perfume que já reconhecia como dela.

- Não queria… te dar todo esse trabalho. Desculpe por isso… - pediu, ciente que ela deveria estar se esforçando, além do próprio trabalho para estar ali por ele. Sabia que Desirée era uma mulher diferente e atenciosa da maneira dela, mas não estava acostumado ainda com a ideia de ser cuidado por ela e não o oposto. Talvez fossem os anos que havia passado sem enxergar que tivessem lhe forçado aquela independência e o incômodo com a ajuda de terceiros, ainda quando de fato precisasse.

Afastou-se alguns centímetros para poder encará-la, sorrindo ainda com a ideia de que ela ainda estava ali para ele. Finalmente soltou a mulher para fazer como ela havia dito, indo para o quarto para tomar a outra dose do medicamento e comer alguma coisa para poder voltar para a cama. Sem o retorno da febre, já se sentia muito melhor, mas não podia vacilar e voltar para o trabalho logo no dia seguinte, então procurou o celular para avisar a Joshua de sua situação.

Não tinha mais vontade de dormir tanto, mas queria esperar a morena para dividir a cama com ela. Ainda não havia dito a morena, mas havia se habituado a ideia de dividir sua vida com ela e dormir ao lado dela a ponto de esperar que ela sempre saísse do escritório na residência para dormir com ele.

Desirée

- Você já está é delirando. Que paranoia pra ficar se desculpando, só melhore de uma vez! - Desirée retrucou e deixou que ele voltasse para a cama.

Ela mesma tomou um banho rápido e à noite, pediu para prepararem um jantar mais leve para ela e Marco, que tiveram no quarto. Com o trabalho finalizado e o estado adoentado do noivo, não precisou sair de casa e ficou mais confortável o dia todo se dando ao luxo de relaxar também. Apenas quando a noite já ia alta foi que seguiu para a cama, no horário do último remédio de Marco naquele dia, ele já estava melhor e a febre não tinha voltado, então foi mais fácil para que ele se medicasse. Ela só colocou uma das camisolas e antes de ficar tarde demais, se recolheu até a cama na companhia do noivo, mesmo que ele estivesse apenas se recuperando.

- Durma bem ou vou te expulsar da cama hoje, entendeu? - reclamou com o noivo, no tom que já lhe era tão comum. Ainda assim, aproximou-se sorrateira para usar o braço dele como apoio e dormir próxima dele, a verdade era que tinha se acostumado a dormir com a companhia e não conseguia dormir em locais diferentes mesmo que fizesse aquela ameaça. No fim das contas, era até interessante e diferente ter que tomar conta de Marco como se ele fosse só uma criança que tinha feito algo errado.

Marco

Era complicado associar que com Desirée as coisas de fato eram diferentes. Ela, apesar das ameaças, parecia constantemente preocupada com seu estado e com sua recuperação. Assim que a morena se ocupou com seus próprios afazeres, tratou de obedecê-la para se recuperar da melhor forma possível. Trocou de roupa e se acomodou na cama após gastar alguns minutos secando o próprio cabelo.

Não fez ideia de quanto tempo passou adormecido, mas dormiu o bastante para acordar algumas vezes para ir ao banheiro, jantar e logo depois tomar uma última dose de seu remédio. Imaginava se quando os gêmeos nascessem, se a mulher teria aquele mesmo tipo de cuidado com os meninos. Imaginava que sim, a julgar pelos anos dela lidando com tantas meninas e adolescentes em Limoges.

Adormeceu tempo o bastante para poder acordar no meio da madrugada com a sensação de peso sobre seu braço. Despertou por um breve momento para acomodar a morena mais próxima de si, enquanto voltava a dormir. Poucos eram os momentos em que se encontrava adoecido, contudo, não via mais porque ter receio de se encontrar naquele estado quando agora havia Desirée para lhe ajudar. Se continuasse naquele ritmo, se tornaria um marido muito mal acostumado.

[thread encerrada]


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09-07-2023 06:32 PM
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