[Drive] Uma Cadeira no Caminho [Charles; Ulysses]
#1
Ulysses

Sabia exatamente qual era a época em Cerise: preparação para os jogos interescolares de St. Clavier e Limoges-Collet. E sabia daquilo especificamente porque estava muito acostumado às preparações e treinos intensos de três meses para tentar fazer milagre antes de maio, um dos grandes eventos da cidade antes das formaturas no final de junho. Para os que iam para competições nacionais e internacionais, os treinos eram sempre puxados. Para o seu esporte, em particular, os treinos tinham sempre que ser puxados e naquele ano, com o internacional bem no meio do ano, era bom ter bons competidores em mãos. Será que St. Clavier ainda tinha alguém à altura da competição? Estava até bem interessado em descobrir aquilo.

Mas antes de voltar a St. Clavier de fato, antes mesmo do final do semestre letivo, precisava resolver algumas coisas para a sua estadia na cidade, sob recomendação de seu médico na federação francesa. Recebeu o contato de um fisioterapeuta que deveria procurar e a primeira coisa que fez ao chegar à cidade foi ir até o hospital geral. Usava jeans, tênis, camisa básica, blazer cinza e óculos escuros. Não queria que alguém que lhe conhecesse soubesse o que estava indo fazer no hospital, mas quem é que reconheceria sua cara depois de uns bons dez anos longe da pequena cidade pitoresca?

Chegou ao hospital no balcão de atendimento para pedir informações sobre o médico cujo nome tinha anotado num papel. Olhou ao redor uma vez só pra ter certeza de que não havia ninguém que pudesse lhe conhecer - especialmente que não havia câmeras escondidas -, e recebeu a informação sobre ter que seguir até o segundo andar. Agradeceu à recepcionista e virou-se num movimento bem amplo para ir até os elevadores, o que lhe rendeu praticamente chutar algo muito firme que não devia ter estado naquele caminho antes e lhe fazer sentir um choque atravessar dos dedos até o calcanhar e subir para o joelho.

- Ouch! - reclamou do próprio impulso em bater no obstáculo e justo com o pé que não devia, para só então notar que o obstáculo era uma cadeira de rodas. Por isso que não o tinha percebido antes. Baixou o olhar para um rapaz de expressão mau-humorada, cabelos loiros com raízes pretas, tirando então os óculos escuros para encarar o adolescente. - Opa, desculpe, garoto. Você está bem?

Talvez fosse uma pergunta irônica, considerando que ele que tinha sentido o chute na cadeira alheia.

Charles

Existiam vários momentos que faziam o humor de Charles flutuar. Como muitas variáveis. Crianças chatas, pessoas que o olhavam incapacitado, pessoas lentas, pessoas que tentavam empurrar sua cadeira de rodas, algumas enfermeiras, médicos e etc. E qual o lugar que mais reunia esse tipo de gente? Hospitais. E infelizmente, muito infelizmente, era um o dia de realizar sua primeira hemodiálise. Estava satisfeito com a nova médica? Sim, ela até tinha mostrado como seria o procedimento e o que esperar, inclusive que iria doer. O loirinho já estava acostumado com agulhadas, mas isso não quer dizer que ele ficava feliz em recebê-las.

Saiu de casa ainda cedo para poder chegar no local no horário marcado, usava um casaco alguns números maior com a estampa de Dr. Who, por cima de uma regata branca simples, e calças moletom escura, e um tênis rosa neon. Não teve muitos problemas durante o trajeto e depois de alguns bons minutos lá estava o cadeirante, na entrada do hospital, observando toda aquela movimentação com o seu bom olhar felino, julgando todas as pessoas antes de finalmente entrar. Pediu licença para algumas pessoas para conseguir passar e desviou de algumas senhorinhas que caminhavam mais devagar. Mesmo no hospital topava com algumas pessoas mal encaradas que estavam tão imersas nos próprios problemas que o fato de alguém em cadeira de rodas pedir uma licença os deixava com uma cara mais fechada ainda.

Bem fazia questão de bater com o lado da cadeira quando passava por elas.

Quando já estava no balcão da recepção até sentir um chute na sua cadeira. No mesmo instante franziu as sobrancelhas e encarou a pessoa de cima para baixo. Pela cara que ele havia feito, havia doído, e era bom que doesse: - Não. - respondeu mal humorado, estranhando também a pessoa estar de óculos escuros dentro do lugar - Você devia ter mais cuidado por onde anda, vai acabar perdendo o pé de vez. - resmungou, julgando pela reação dele à topada que nem havia sido tão forte. Estranhou um pouco a face do sujeito, mas talvez fosse apenas mais uma das pessoas que frequentava o hospital.

Ulysses

A resposta do rapaz na cadeira de rodas foi bem direta e bem arisca também, mas não podia culpá-lo, afinal, quem estava na cadeira de rodas era ele. Lyss tinha batido na cadeira dele, então ele não estava mal por alguma coisa que tinha feito por acidente, devia estar se sentindo mal pelo quadro geral, então não se importou tanto com o ímpeto do adolescente em reclamar sobre perder o pé.

- Eu acredito em você. - respondeu, sobre o fato de que era melhor tomar cuidado ou acabaria perdendo o pé. Colocou o óculos escuro de novo, ainda tinha um horário marcado para cumprir e não tinha interesse em perder muito tempo no hospital. - Gostei dos tênis.

Acenou na direção dele e foi até o elevador, para subir até o andar em que faria fisioterapia. Andou a passos mais largos, mesmo que um dos pés ainda incomodasse, mas podia caminhar normalmente sem que as pessoas percebessem que havia algo de errado ali. Não demorou a alcançar o elevador e as portas se abriram logo, para algumas pessoas descerem e ele subir, apertando o botão do andar indicado pela recepcionista. Ficou encostado à parede do elevador e esperou que mais alguém chegasse, mas não subiu nenhuma outra pessoa. Aliás, observou enquanto o garoto na cadeira de rodas se aproximava na intenção de pegar o elevador também, e quando ele estava a uma distância mais curta, as portas começaram a se fechar.

Poderia ter pressionado o botão para impedir que as portas fechassem e esperar o rapazinho, como toda boa pessoa educada. Mas qual a graça naquilo com todo o estresse que ele já estava? Só sorriu para o loiro e levantou a mão, fazendo um aceno de "tchau" enquanto as portas se fechavam quase na cara dele, para subir no elevador sozinho.

Charles

Depois perguntavam por que o loirinho era tão mal-humorado. Oras, estando rodeado de pessoas idiotas acabava com o humor de qualquer um no mesmo instante, em especial quando estava nervoso o suficiente com a ideia do novo tratamento. Talvez fosse a sinceridade em como ele havia respondido Charles ou talvez por ter sido direta, mas isso o irritou. Felizmente ele parecia estar de saída, deixando apenas um elogio sobre o tênis, o que o loiro respondeu apenas o encarando enquanto ele se afastava.

Finalmente pode tirar a dúvida com a atendente da recepção, apenas para confirmar qual seria o andar para a hemodiálise e se virou para ir até os elevadores. Infelizmente o único elevador que estava no térreo também estava com o infeliz dos óculos escuros, mas pelo menos não ficaria tanto tempo com ele dentro do elevador. Quando estava à uma distância um pouco menor, as portas começaram a se fechar, e só viu o outro dentro do elevador lhe dando um “tchauzinho” fechavam. Charles pode sentir o rosto ficar vermelho de raiva, e já que não chegaria mesmo a tempo de pegar o elevador, fez questão de mostrar claramente para ele o dedo do meio, com a cara mais azeda possível até as portas se fecharem.

- Mas é um filho…. - Charles resmungou, torcendo o canto dos lábios em desgosto, enquanto voltava ao caminho de chamar um outro elevador, que acabou demorando mais um pouco mas finalmente pode ir ao andar da hemodiálise. Esperava não ver o homem lá ou sinceramente pensaria em outro uso para as agulhas.

Felizmente ou não, Charles ainda estava tão irritado com o ocorrido que a dor que sentiu com a agulha e o incômodo do tratamento não foi nada. Ficou sentado na cadeira confortável enquanto esperava o tempo de tratamento acabar, pelo menos ficava com a outra mão livre para folhear revistas e fingir não escutar quando as senhorinhas tentavam puxar conversa sobre as fofocas do hospital.

Terminando o tratamento, se sentiu desconfortável no processo e seu pulso incomodava um pouco, mas de todos os processos que já havia passado esse estava sendo o menos pior. Conseguiu pegar o elevadores vazio e quando parou em um dos andares, teve a oportunidade que tanto queria. Lá estava ele, mesmo cenário apenas com as posições invertidas. Charles fez questão de apertar o botão para fechar as portas enquanto novamente lhe mostrava com toda boa vontade do mundo o dedo do meio. Ah, o sabor da vingança seria doce.

Ulysses

Não era a intenção implicar com um rapaz cadeirante no hospital, mas era a sua melhor perspectiva de diversão naquele momento. E não se arrependeu ao ver a cara completamente vermelha do adolescente e o dedo do meio sendo mostrado em sua direção. A diversão foi breve e logo desceu no andar da fisioterapia para encontrar o médico responsável pelo seu tratamento. Era tudo tedioso, precisou fazer toda uma nova avaliação enquanto ele analisava os seus exames e resultados enviados pelo médico da federação. Os exercícios eram chatos e as repetições eram massantes, mas cada exercício lhe fazia sentir uma pontada num local diferente, então era melhor dar um jeito na recuperação para voltar logo às competições. Não ia aguentar ficar muito tempo parado daquele jeito.

Depois de menos de uma hora de sessão inicial, já que estava mais num momento de avaliação, seguiu ao longo do corredor para deixar o hospital. Ia ter que se acostumar com o caminho mesmo, então só colocou os óculos escuros de novo e enfiou as mãos nos bolsos, andando até os elevadores. Qual a sua surpresa ao avistar ao longe o mesmo rapaz abusado de tênis neon agora dentro do elevador enquanto ele observava as portas se fecharem? E claro que ele tinha lhe mostrado o dedo do meio de novo e com uma expressão bem vitoriosa. Ulysses até sentiu o espírito competitivo de volta, e nem era algo dentro do esporte. Sem pensar duas vezes, correu a passos bem largos e ágeis na direção do elevador, colocando as mãos no pequeno espaço da porta impedindo que ela se fechasse. Ignorou a pontada forte que sentiu no tornozelo por causa da corrida impensada, mas sorriu muito mais satisfeito ao entrar no elevador e aí sim, apertar o botão para fechar as portas só com ele e o cadeirante lá dentro.

- Agora, isso não foi muito amigável da sua parte, não foi, garoto? - comentou, com um sorriso descarado no rosto, afinal, ele tinha feito a mesma coisa apenas uma hora antes. - Se fizer essas coisas, vai ganhar carma negativo, hein?

Charles

Charles queria muito poder fazer o mais velho pagar na “mesma moeda”, queria mesmo, especialmente por ainda sentia raiva pela situação de mais cedo. Então quando se viu na situação com os papéis trocados onde o cadeirante estava no elevador… Era uma oportunidade boa demais para se deixar passar.

O que não esperava era que ele, com o maldito pé machucado, fosse inventar de correr. E ele era bem rápido.

A expressão vitoriosa se desfez rapidamente para uma de irritação - na verdade, frustração, por seu plano estar sendo completamente destruído naqueles poucos segundos. Apertou mais duas vezes o botão com a esperança que talvez as portas se fechassem mais rápido… E não. Quando elas estavam quase se fechando o mais velho conseguiu colocar as mãos entre as portas, impedindo que fechassem. “Bem que poderia ter perdido os dedos”, foi o primeiro pensamento de Charles naquele elevador, agora desagradável. Especialmente pela expressão imbecil que ele usava de vitória, se fosse possível, a cara de azedo de Charles provavelmente estava bem maior. As portas então se fecharam e lá estava Charles, sozinho no elevador com outra pessoa desagradável.

Cruzou os braços quando ele começou a falar, franzindo as sobrancelhas enquanto ele entre sorrisos lhe dava uma “bronca”: - Não é como se eu fosse obrigado a ser amigável com alguém que nem olha para onde anda. - bufou, torcendo os lábios. Afinal, ele havia começado com toda essa situação - E de carma negativo eu já tenho o suficiente, não é como se mais um fosse ser um problema. - resmungou com a voz enjoada, fazendo questão de deixar a cadeira bem encostada contra a parede do elevador. Queria evitar o máximo possível de contato.

Entre o mal humor, ódio, e a vontade de passar a roda da cadeira em cima do pé machucado do outro, tinha uma leve certeza que já o tinha visto em algum lugar, não sabia exatamente apontar quando ou onde. Mas também, não era como se Cerise fosse uma cidade muito grande. Ele bem tinha a cara daquelas pessoas idiotas que se acidentam por motivos estúpidos e vem ocupar as filas do hospital por nada.

Ulysses

Ulysses ficou extremamente satisfeito ao ver a expressão satisfeita do rapaz se contorcer numa de raiva tão facilmente. Era tão fácil de lê-lo que era uma diferença de 180° das pessoas com quem estava acostumado a lidar e aquilo era divertido até certo ponto. Mas estava também bem desacostumado a lidar com pessoas tão novas, desde a época em que estudara em St. Clavier. A mudança de ares com certeza seria boa para lhe deixar mais animado com o trabalho temporário na Academia.

Ele andou até o outro lado do elevador, exatamente ao lado de onde o rapaz tinha encostado a cadeira tão relutante e frustrado e ainda deu uma risada sonora da declaração dele de que não devia ser obrigado a ser amigável.

- Ora, ora, não fale assim, o que vamos fazer se você não mexer mais os braços também, hein? Não é bom desejar carma negativo, menino. - o comentário foi seguido de um movimento muito natural de colocar a mão na cabeça do rapaz, como se ele fosse um "bom menino", e não ficou nada surpreso quando a resposta imediata dele foi bater na sua mão para afastá-lo, movendo a mão e balançando-a como se tivesse sido um tapa realmente forte. - Auuuu, tá vendo, o que você faria se não pudesse usar as mãos agora??

Riu da situação e logo o elevador tinha parado no térreo, o que era uma pena porque podia ter tido a oportunidade de parar o elevador no meio do caminho só para irritar mais o rapaz. E claro que o fato do elevador ter finalmente aberto as portas no térreo foi o suficiente para que o adolescente colocasse toda a energia que tinha para levar a cadeira para fora do seu alcance, e obviamente as pessoas sensatas que pretendiam entrar no elevador deram mais passagem a ele do que a Ulysses. Mas aquilo não o impediria de acompanhar o outro, pedindo licença para andar a passos largos até a cadeira de rodas de novo.

- Ei, vai me deixar sozinho depois de tudo isso?! - falou, num tom despretensioso, como se fosse um grave problema. - Aliás, menino, você estuda em St. Clavier?

Charles

Charles estava quase se espremendo naquele cantinho do elevador, a expressão emburrada tão clara quanto as luzes brancas naquele hospital. Esperava que o outro percebesse que não o queria por perto e pelo menos enchesse a paciência do cadeirante do outro lado do elevador… Mas ele obviamente tinha que ficar ao seu lado, fazendo questão de rir.

Até estava acostumado a lidar com pessoas invasivas, o que não queria dizer que gostasse ou que tratasse com 20% a mais de paciência. Tinha a mesma vontade de empurrar essa pessoa no poço do elevador como tinha com todas as outras.

- Eu não preciso de alguém pra me dar lição de moral, você não é a minha mãe. - respondeu ao moreno com o tom enjoado e mimado... Até sentir o toque leve na sua cabeça. Com um movimento rápido como um gato arisco deu um tapa certeiro na mão do mais velho - Se eu não tivesse as mãos eu arrumava outro jeito. Eu não sou touchscreen pra você ficar pondo a mão. - rosnou como um felino acuado, em seguida soprando a ponta dos dedos depois do tapa que havia dado.

Diferente do outro que estava se divertindo muito a situação entre risos, assim que a porta deu sinal de abrir fez questão de colocar a cadeira para frente. O que resultou nas pessoas que estavam esperando as portas se abrirem darem espaço para o cadeirante passar, e logo depois se apressarem para entrar, dando um pouco de tempo para Charles se afastar do mais velho. Mas ele tinha que continuar o seguindo.

- Você espera que eu faça o que? Se veio até o hospital sabe como sair, não precisa de mim. - não fez questão de olhar para a direção dele, ainda sentindo o rosto estampado com desgosto. Mas não pode evitar de olhar para ele com uma expressão entre confuso e irritado quando ele perguntou sobre St. Clavier. - O que é que você quer? - perguntou mais diretamente, agora parando de empurrar a sua própria cadeira e virando para a direção dele - Vai me seguir só pra saber se eu estudo lá? Não. Não estudo. Agora pode fazer o favor de parar de me seguir e parar de falar também? Obrigado. - bufou, girando a cadeira para voltar ao seu caminho. Estava até cogitando pegar um táxi ao invés de um ônibus só para evitar de ter a possibilidade de ver a cara do sujeito por mais tempo.

Ulysses

Quanto mais mexia com o rapaz, mais via a expressão dele se alterar, era divertido conversar com o garoto e não se surpreendeu com o modo arisco e a pressa com que ele saiu do elevador, reclamando que não precisava de lições de moral e que não era a mãe dele. Bom, se fosse, não seria tão divertido, não era? Até deixou uma risada sonora escapar com a reclamação dele de que não era touchscreen para que ficasse sendo cutucado.

Não foi surpresa que ele avançasse para fora do elevador o mais rápido possível e ao som de mais reclamações, claro. Ainda assim, manteve os passos largos para acompanhar a cadeira de rodas e não deixar que ele se afastasse demais de sua implicância.

- Faz tempo que eu não venho em Cerise, posso estar um pouco perdido. Você deve estar mais acostumado com a cidade do que eu, não é? - respondeu, despretensioso. Mas ele pareceu levantar todas as defesas quando perguntou se estudava em St. Clavier e acabou sorrindo com a reação pronta do loirinho. - Eu só quero conversar mais com você, você parece um garoto legal. Mesmo com essa cara de abuso de quem chupou limão. - aproveitou que ele parou a cadeira para apoiar as mãos na cintura e se curvar brevemente na direção do outro. - Eu acho que você devia estudar em St. Clavier, você tem cara de quem seria um ótimo competidor lá. - comentou, levantando o indicador como se estivesse apresentando alguma coisa. - Aliás, eu sou Lyss, muito prazer.

Estendeu a mão na direção do rapaz, esperando alguma resposta dele sobre as proposições e a apresentação.

Charles

Antes Charles só tinha as suspeitas que o mais velho era mais um daqueles que gostavam de encher a sua paciência, e ele com certeza estava fazendo questão rindo alto daquele jeito. O loirinho não sabia por que atraia bastante esse tipo de gente.

Revirou os olhos quando ele começou com a história de estar perdido. Não era possível que Cerise tivesse mudado tanto assim. Cruzou os braços enquanto escutava a ladainha sobre ele apenas querer conversar. Se ele realmente só queria conversar, ficar perseguindo e irritando cadeirantes não era a melhor escolha.

- É a minha cara de sempre. - resmungou sobre “parecer um garoto legal”. Quanto mais ele abria a boca, mais tinha certeza que ele parecia estranho. Charles bem quis se espremer na cadeira quando o moreno se curvou um pouco à sua direção, mas evitou fazer. Mesmo que não estivesse invadindo seu espaço pessoal, o loirinho ranzinza se sentia bastante incomodado em como o outro parecia se divertir com suas reações - Eu vou estudar lá se eu quiser. E eu não tenho interesse em competir em esporte nenhum que tem lá - a única coisa que gostava verdadeiramente de competir era nos board games online que jogava, achava bem difícil se ver em qualquer esporte.

O encarou de cima para baixo com a apresentação, analisando o invasor antes de torcer os lábios: - … Charles. - respondeu irritado, apenas depois apertando a mão do mais velho. Agora só queria que ele lhe deixasse em paz, então se precisasse apertar a mão e trocar cumprimentos, seria melhor que ter um esquisito o seguindo pelos ônibus de Cerise.

Ulysses

Não importava o comentário, o garoto tinha uma resposta pronta e abusada para lhe devolver e aquilo só dava mais vontade de continuar implicando. Ele devia ter consciência daquilo, não devia? Seria divertido se fizesse todas aquelas reações involuntárias para tornar a companhia ainda mais incômoda. E Ulysses bem sabia ser incômodo quando queria. Para uma pessoa entediada que tinha que voltar a Cerise, era exatamente o que precisava para deixar os ânimos melhores.

Bem queria que ele aparecesse em St. Clavier e lhe daria um motivo para ter um aluno que não ia só olhar para os seus troféus. E com certeza seria engraçado treiná-lo. A despeito de estender a mão para cumprimentá-lo, já esperava outro tapa, negativa ou qualquer resposta ignorante diante da sua apresentação forçada. Surpreendentemente, ele estendeu a mão para lhe cumprimentar de volta, no mesmo tom irritado, embora condescendente. A surpresa ficou estampada no rosto de Ulysses por dois segundos até devolver o aperto com firmeza, e depois de um sorriso descarado, puxou a mão do rapaz o suficiente para que ele mantivesse o braço bem esticado e conseguisse curvar o corpo até beijar as costas da mão alheia.

- Prazer conhecê-lo, Charles. - falou, ainda com os lábios contra os nós dos dedos dele. Soltou a mão alheia finalmente, voltando à postura de antes. - Quando é a sua próxima consulta? Eu vou marcar pra vir no mesmo dia.

A pergunta foi descarada, mais porque sabia que no mínimo, ele tentaria lhe atropelar com a cadeira. Ou quem sabe ficasse muito vermelho e constrangido com o cumprimento antiquado? As duas alternativas eram interessantes.

Charles

Pensando bem, a pergunta tinha sido bem específica. Não sobre St. Clavier, afinal é o que mais chamava a atenção em Cerise, mas sobre Charles ter interesse em competir. “Quem perguntaria à um cadeirante se ele iria competir em alguma coisa?” foi a pergunta que surgiu na cabeça do loirinho logo depois. Normalmente teria achado estranho logo no primeiro momento, mas estava tão mais irritado com as ações do mais velho que não tinha parado para pensar direito.

O encarou confuso quando ele pareceu surpreso por ter apertado a sua mão: - Qual o problema ag - sentiu o aperto na mão com mais firmeza, o que pegou o cadeirante de surpresa, o fazendo parar no meio da frase até ver “Lyss” puxar sua mão para mais perto. Até tentou puxar o braço de volta mas o que não estava funcionando no pé do moreno estava funcionando muito bem nas mãos. A expressão ranzinza de Charles estava em uma mistura de surpresa e muita raiva, o que se tornou muito mais confusa quando o mais velho depositou um beijo em suas mãos.

Charles puxou a mão de volta assim que sentiu que o outro havia folgado a pega em sua mão, a expressão de desgosto completamente estampada no rosto: - Qual é o seu problema?! - reforçou o que queria dizer antes em um tom um pouco mais alto, sentindo o rosto ficar completamente vermelho de raiva, abanando a mão como se tentar limpar sem que encostasse no casaco - Você… Você não simplesmente faz algo assim!! - o loirinho rosnou para o mais velho, a postura muito mais retraída mas ao mesmo tempo muito disposto a reclamar - Pro inferno você, não apareça mais na minha frente.

Charles afastou a cadeira, e então percebeu dois seguranças se aproximando para perguntar se podiam fazer algo, por conta da comoção que estava fazendo ali. O loirinho ignorou completamente a presença do moreno e focou a raiva da vez nos seguranças: - Agora vocês perguntam?! Pro inferno vocês também! EU já resolvi!! - esbravejou com os dois, apontando bem o dedo na cara dos seguranças. Deu finalmente as costas para o mais velho, mas não sem antes alerta-lo: - Se você encostar em mim de novo eu chamo a polícia, tá ouvindo?! - rosnou, ainda sentindo o rosto queimar de raiva. E saiu com pressa, deixando os dois seguranças e o homem estranho lá, esperava que fizessem algo mas com certeza aquele infeliz iria se sair de alguma forma.

Fez questão de esperar o ônibus dois pontos depois, apenas pra ter certeza. Ainda sentia incômodo na mão pela invasão de privacidade, ainda no ponto puxou o celular e lotou o celular de um certo amigo com mensagens de reclamação. Preferia encarar o celular enfurecido do que ter que olhar para a cara azeda das outras pessoas.


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