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Anamnese [Paul; Henrique]
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Estava tentando ser cuidadosa para não incomodar ninguém, olhando para baixo com frequência para não perder a memória do trajeto que estava fazendo enquanto caminhava pelo corredor em seu pijama de seda, puxando o carrinho com o soro ainda pendurado. Ficou surpresa ao ouvir a voz do enfermeiro, lhe repreendendo como as madres no convento faziam quando estava fora do dormitório nos horários em que deveria estar. Ficou quieta enquanto ele se aproximava para lhe ajudar, pronta para se defender e explicar que não queria incomodar mais Henrique, até que, pela proximidade, finalmente pareceu se dar conta da marca no rosto do rapaz.
- O que... foi que aconteceu com seu rosto? - não conteve as próprias palavras, a voz fraca saindo baixa, mas repleta de tristeza. O rapaz era tão jovem e gentil, educado, mas carregava uma marca como aquela que chegava a lhe causar um arrepio na espinha só de imaginar a dor pela qual ele deve ter passado ao ponto de ficar com aquela cicatriz. Encarou o rapaz, os olhos voltando a marejar pela repentina forte vontade de chorar por também se dar conta de que estava tão preocupada com a própria situação que sequer percebeu a marca do outro. - D-Desculpe... eu... estou bem...
Desviou o olhar, culpada por estar sentindo dor por uma mera agulha em seu braço. Ergueu a mão livre até o próprio rosto, tentando esconder o próprio rubor pelo constrangimento após ter causado tantos problemas ao rapaz, além de Henrique.
- B-Banheiro... eu estava procurando... - avisou, evitando encarar novamente o enfermeiro.
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Paul esperava só guiar a mulher de volta a cama em que ela estava, se ela já parecia meio morta deitada, mal parecia conseguir ficar de pé arrastando o suporte do soro. O que ele não esperava, de todas as possíveis respostas, era que ela lhe perguntasse muito diretamente o que tinha acontecido com o rosto, onde havia uma cicatriz bem óbvia de queimadura.
- Não se desculpe, é uma curiosidade natural. - Paul respondeu, sem mudar muito da expressão ou se preocupar com o questionamento direto. - Foi um incêndio na minha casa, quando eu era muito novo, eu nem lembro direito o que aconteceu, mas parece que parte das cinzas da estrutura caíram no meu rosto. Os médicos disseram que eu tinha sorte de não ter perdido a visão. Sinceramente, faz tanto tempo que tenho a cicatriz que nem lembro como era antes. Não me incomoda.
Ele parou no meio do caminho quando ela fez o mesmo, indicando que estava procurando o banheiro. Deu uma olhada no jeito quase arrastado que ela se movia e o incômodo que a agulha do soro causava. Mas depois dela ter recebido o soro e a medicação, Paul já estava indo até o quarto para liberá-la do desconforto também, talvez fosse mais conveniente.
- O banheiro é no meio do corredor, à direita. Na verdade, eu estava a caminho de mais uma ronda. Ia tirar isso pra você. - ele indicou o soro que já estava no final. - Se conseguir esperar, pode sentar numa das cadeiras de espera e eu cuido disso.
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Ouviu o relato com uma expressão apreensiva, imaginando como deveria ter sido difícil para uma criança lidar com uma marca como aquela quando ainda muito jovem. Agradeceu mentalmente a Deus por permitir que ele ainda mantivesse a visão. O enfermeiro parecia um profissional muito capaz e gentil, ainda que tivesse passado por uma situação tão complicada como a que ele lhe narrava.
- Ah, claro, obrigada... - respondeu, desejando não atrapalhar mais o serviço do enfermeiro. Acomodou-se na tal cadeira de espera e baixou o olhar, esperando que ele removesse a agulha de seu braço.
Cerrou os lábios com a sensação desagradável, antecipando o movimento da agulha que conseguia sentir muito bem dentro de seu corpo como algo estranho. Pelo menos, o medicamento que ele havia lhe oferecido era absorvido rapidamente por seu organismo e já se sentia com bem menos incômodo para falar, considerando que não conseguia falar normalmente ainda. Moveu a ponta dos dedos, apreensiva quanto a mover o braço que havia passado horas estirado e tensionado por conta do seu medo em mover a agulha de lugar.
- Isso é... normal... - avisou sobre a marca avermelhada onde a agulha havia sido colocada. Não queria que o enfermeiro pensasse que havia mexido o braço de novo depois de sair da maca. - E-eu nasci... prematura... por isso... ugh... por isso, eu tenho hipersensibilidade... - tentou justificar algo que era natural e o problema com o qual convivia desde quando se entendia por gente. - Se apertar... fica assim... - sorriu, tentando manter o bom humor.
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Não era o lugar mais conveniente para tirar a agulha do soro, mas dadas as circunstâncias e o desconforto que ela devia estar sentindo, unindo-se a sensibilidade a dor que já era bem óbvia, ele fez o trabalho bem rápido para tirar a agulha ali mesmo, com a jovem sentada no corredor.
- Prontinho. Está melhor agora? - ele perguntou, enrolando o tubo numa das mãos e tirando o saco do soro do suporte, que já estava vazio, para levar para descarte. - Eu imaginei que tinha uma condição fisiológica para a sensibilidade à dor. O importante é que você sinta o menor desconforto possível. Como eu disse, o médico deve passar para lhe liberar amanhã e indicar uma data para voltar e fazer exames de rotina. Agora... - ele olhou dela para o corredor. - Achei que a senhorita estava apertada para o banheiro? Eu vou continuar minha ronda, se precisar de algo, é só chamar.
Ele se despediu com um aceno rápido e seguiu pelo corredor na direção oposta à de Magali, para continuar a sua ronda verificando os pacientes daquela ala. Ainda havia algumas horas horas de plantão até estar liberado finalmente, mas pelo menos estava sendo uma noite tranquila.
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Agradeceu com um aceno da cabeça, sorrindo educadamente diante da gentileza do jovem enfermeiro. Observou o trabalho dele ao enrolar o fio, distraída com o gesto até ele lhe responder sobre sua condição de uma forma direta, tratando-a como se aquela condição fosse esperada ao invés de abordar o problema como se fosse sua culpa de fato. Concordou com ele, mais aliviada por estar livre daquela agulha em seu braço. Evitou continuar importunando o enfermeiro e foi diretamente ao local indicado por ele onde deveria ficar o banheiro.
Demorou a retornar para o quarto onde estava acomodada pela falta de força que sentia em seu corpo e pela temperatura fria da água ao lavar as mãos ainda lhe incomodar ao deixar o banheiro para procurar por algum cobertor disponível naquela ala hospitalar. Tentou evitar fazer barulho ao se aproximar de Henrique que ainda deveria tentando descansar na cadeira. Aproximou-se, observando se ele havia colocado o próprio celular para carregar em alguma das tomadas daquele quarto.
- Henrique... - chamou pelo outro no limite da própria voz, permanecendo de pé ao lado da cadeira dele. - Henrique... - chamou novamente, olhando ao redor com o cobertor ainda em seus braços.
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Henrique ainda estava fazendo tudo como se estivesse ligado no 220 depois da adrenalina causada pelo incêndio. Depois de acompanhar Magali no hospital, procurar pousada, dar encaminhamento em todas as burocracias desde o hospital, até os bombeiros e acomodação temporária, ele ainda teve que passar também por uma bateria de exames para se certificar de que a fumaça inalada não tinha lhe causado algum dano, mesmo que irrisório. Magali estava mais dormindo do que acordada naquele tempo todo, então ele se ocupou em ficar mexendo no celular por horas a fio durante o fim do dia e a noite, já tinha informado ao dono da pousada que só dariam entrada na manhã seguinte, provavelmente, então ele não precisou se deslocar do hospital para a pousada e deixar Magali sozinha.
Antes que pudesse perceber, o cansaço do dia já tinha sido tanto que ele esqueceu de colocar o celular para carregar e acabou adormecendo na pequena cadeira desconfortável que tinha ao lado da cama de Magali na enfermaria. Ele nem acordou quando Magali se levantou para ir ao banheiro e só reagiu, quase num pulo, quando ouviu o chamado de Magali.
- O que foi? O que aconteceu? - ele se levantou, alarmado, tão rápido que quase derrubou o óculos. Ele tirou os óculos para esfregar os olhos com as costas da mão, colocando o objeto de novo para encarar Magali na pouca iluminação noturna da enfermaria. - Você está em pé. Tirou o soro? Que horas são? O que está fazendo aí? Já recebeu alta? - ele lançou todas as perguntas de uma vez, olhando ao redor para procurar o celular que estava com a bateria quase no fim.
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Segurou o cobertor antes que ele caísse no chão com o levantar repentino de Henrique. Ouviu as perguntas de Henrique enquanto dobrava a peça de tecido com cuidado nos braços, a marca vermelha já com sinais de ficar roxa onde a agulha havia estado anteriormente. Pelo menos o enfermeiro era bonzinho e havia removido aquela agulha com cuidado e lhe tratado com cuidado.
- São quase quatro da manhã. - respondeu o que julgava ser a resposta para a pergunta mais importante para o homem. - Fui ao banheiro, o enfermeiro me ajudou e tirou o soro... - explicou com calma enquanto ele procurava pelo próprio celular. - Não quis te acordar. Ele disse que o médico deve passar amanhã, ou hoje, acho que é hoje porque já já vai amanhecer... ele deve me liberar e marcar uma data para que eu volte para fazer outros exames.
Sentou-se na maca, levando uma das mãos até o próprio pescoço, pensativa ainda sobre a ideia de conseguir dar suas aulas com aquela garganta depois de ter respirado a fumaça no incêndio. Meneou a cabeça negativamente, tentando afastar os pensamentos negativos antes de voltar a observar o que Henrique estava fazendo. Ele parecia bem menos nervoso e grosso do que esperava para aquele tipo de situação, pelo menos parecia diferente para alguém que estava acostumada a levar broncas quase que diárias sobre o que costumava fazer de errado, fosse pela falta de aptidão com a tecnologia mais recente ou por suas tentativas de tentar estabelecer um convívio mais amistoso. Ainda assim, ele não havia lhe abandonado ali no hospital e isso já lhe deixava bem menos ansiosa com o que poderia acontecer dali para frente.
- Você tinha falado que a seguradora tem como cobrir parte do custo com a reforma da casa antes. E que enquanto isso, a gente poderia ficar em uma pousada. Como fazemos para poder recuperar nossas roupas? - resolveu perguntar, esperançosa que nem tudo tivesse queimado no incêndio. - Meus óculos... também ficaram lá... - suspirou, conformada.
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Henrique ajustou a postura na cadeira de acompanhante e esfregou os olhos mais uma vez, colocando os cabelos para trás enquanto Magali explicava o que tinha acontecido e que ainda eram quatro da manhã. Ele voltou a atenção para o celular com a bateria acabando, talvez fizesse bem em pegar um carregador com alguma das enfermeiras ou pacientes antes que pudesse recuperar suas coisas na casa depois da avaliação dos bombeiros.
Arrumou os óculos de novo e conferiu as informações no celular enquanto Magali se acomodava de novo na cama, só voltou a atenção para a colega de quarto quando ela perguntou sobre a seguradora e os pertences pessoais dele. Ele deixou o celular bloqueado no colo e empurrou o óculos no nariz com o dedo.
- O fogo só foi na cozinha, não danificou nada dos quartos nem do resto da casa, foi controlado rápido. Quando os bombeiros derem o relatório do que causou o incêndio, a seguradora vai entrar em ação. - Henrique explicou, levantando-se para se alongar um pouco. - Volte a dormir, de manhã eu vou passar em casa pra ver a situação e pegar nossos pertences pra ir pra pousada. Deve ser o tempo do médico passar pra dar alta pra você e podemos seguir caminho.
Ele colocou o celular no bolso e arregaçou as mangas da camisa antes de dar alguns passos em volta da cama.
- Eu vou no banheiro e ver se alguém me empresta um carregador. Volte a descansar. - ele indicou com um aceno de mão.
Depois da longa aventura, só podia imaginar todo o protocolo na manhã seguinte para conseguir pegar os pertences dos dois e ir se cadastrar na pousada da qual ele tinha péssimas lembranças. Pelo menos era o que tinham para aqueles próximos dias.
[pode encerrar, Jana :v]
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Ficou mais tranquila de ouvir que não haviam perdido tudo no incêndio. Como tudo aconteceu muito rápido e em certo ponto do incêndio, havia perdido os sentidos, não fazia ideia de que como estariam as coisas na residência após a ação dos bombeiros também. Concordou com um aceno positivo sobre o plano que Henrique havia traçado, parecia tudo muito sensato em sua opinião.
- Tudo bem. - respondeu verbalmente para que ele pudesse ter certeza de que concordava com aquele plano. Respirou fundo, ainda sentindo um pouco de incômodo na garganta, mas nada que lhe incomodasse a ponto de chorar novamente. Era bem mais confortável estar deitada que em pé enquanto esperava o médico vir lhe dar alta.
Não havia ideia de que teria aquele tipo de apoio vindo de Henrique, principalmente por ele ser muito severo com seus deslizes. Em sua cabeça, tinha certeza que havia feito alguma coisa de errado na cozinha antes de ir dormir e por isso o incêndio havia acontecido. No momento, apenas se sentia agradecida por Henrique não ir embora para alguma hospedagem e lhe deixar ali sozinha no hospital.
Fechou os olhos para descansar, imaginando se teria ainda a sorte de recuperar seus óculos.
[Thread encerrada~]
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