No Limite da Ilegalidade [Lui; Diodoro]
#1
Mesmo depois de ter passado tanto tempo parado na pequena cidade do interior, Karen ainda recebia pedidos para serviços esporádicos no continente. Desde o início da sua estadia em Cerise, ele não tinha deixado a Europa, e a quantidade de trabalhos era cada vez menor, o que não era de todo mal. Até gostava da tranquilidade de ficar muito tempo em um lugar sem se preocupar com algum tipo de retaliação ou pensar em quando deveria desaparecer de novo. Claro, gostava ainda mais da sensação de ter mais do que só um mesmo lugar para onde voltar e com os acontecimentos mais recentes que aquela estranha cidadezinha tinha lhe trazido, podia até se dar ao luxo de ter uma vida além do alerta constante resultado do trabalho.

Era de certa forma estranho estar encarando o novo aparelho celular descartável para enviar alguma mensagem que não fosse relacionada a algum alvo, ou receber alguma informação também relevante de um cliente importante. Mas a estranheza não superava a sensação que podia talvez definir como confortável em ter, pela primeira vez em uma vida, alguém que lhe responderia sem cobrar a execução de algum serviço específico. Era uma sensação banal, tão banal que chegava a ser uma mudança agradável para o seu cotidiano.

"Estou voltando para a cidade. Posso encontrar você pela manhã."

Ainda parecia uma mensagem de trabalho, para todos os efeitos, e tendo em vista o horário avançado na noite, ele não receberia uma resposta tão cedo, mas com certeza era uma das poucas vezes em que tinha se sentido na expectativa de uma resposta.
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#2
O evento com Oliver demorou um pouco mais do que o esperado, mas era uma mudança na sua rotina ter alguém confiando em se abrir ou nos seus conselhos. Já era estranho para Ludwig ter alguém que durou tanto tempo como seu colega de quarto, mais ainda que ele era seu amigo. Mesmo choramingando muito sobre todo o caso de Qiang, gostava de estar ali por ele. E em troca tinha ganhado uma refeição de fim de noite agradável.

Após longas conversas, um banho e se deitarem para dormir, Ludwig estava pronto para se entregar ao sono. Isso até receber uma mensagem no celular, algo inesperado para aquela hora da noite. Quando olhou na tela, a mensagem direta e sem rodeios não poderia ser de ninguém mais que Karen. Ou melhor, Arsen. Ergueu o corpo da cama em um salto, esperando não acordar Oliver, animado com a possibilidade de não apenas ter feito bem a Oliver naquele dia, ver Karen no dia seguinte.

“Eu vou! ~\(≧▽≦)/~ A gente se encontra naquele parque às 9 e de lá decide, pode ser? (๑•̀ㅂ•́)و✧ E vá descansar, adultos não dormem? O(><;)oo Aliás, eu também estou acordado, né? Tee-hee (*/ω\*) Até amanhã! (✿◡‿◡)”

A alegria de Ludwig era difícil de conter, e os emojis no celular pouco expressavam sua animação. Embora o – agora namorado – não fosse exatamente a pessoa padrão que se esperaria em um relacionamento, considerando que agora podia responder mensagens e não encontra-lo apenas em momentos aleatórios lhe dava uma sensação agradável demais. Foi em meio a enxurrada de pensamentos sobre seu relacionamento que percebeu que seu encontro com Karen no dia seguinte seria oficialmente seu primeiro encontro desde o dia em que ele confessou todos aqueles sentimentos? A ideia de ir ao primeiro encontro lhe deixou ainda mais desperto, os olhos escuros vagueando pelo quarto durante a noite enquanto pensava onde ir e o que vestir.

Quer dizer, podia estar pensando superficialmente, mas seu namorado era um assassino e um criminoso? Será que o colocaria em encrencas usando aquelas roupas que normalmente usava? Será que se parecesse mais com Oliver, que se vestia apropriadamente como um garoto de St. Clavier pareceriam mais normais? Ou um guarda-costas e um menino rico? Ou quem sabe um sequestrador de meninos ricos...!? Não, não, isso era rude de se pensar.

E entre pensamentos mil, Ludwig chegou 15 minutos antes ao parque vestindo as roupas fofas mais normais que tinha no guarda roupa: uma camisa grande preta de estampa com uma gola branca de botões por baixo, amarrada com uma gravata de fita, uma calça rasgada, um sapato de salto tratorado grosso e um chapeuzinho. Não podia ir muito exagerado e nem muito desleixado afinal. Claro, tal pensamento lhe custou a noite inteira acordado, e junto com a roupa, usava também olheiras fundas de acessório que tinham preocupado até Oliver. Mas estava animado. Teria energia para o dia quando encontrasse Karen, com certeza, mesmo que naquele momento, estivesse prestes a tombar de sono naquele saltos altos.
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#3
Para a surpresa de Karen, antes mesmo que pudesse guardar o celular de volta no bolso da calça, a tela se iluminou com uma notificação de mensagem nova. Ele desbloqueou só para ver a resposta aparentemente animada de Lui sobre se encontrarem - aparentemente, porque ele ainda não entendia todos os sinais dentro da mensagem que pareciam mais algum erro de caracteres do que algum conteúdo relevante. Não respondeu nada de volta, só guardou o celular e recostou a cabeça no encosto do banco do trem que estava o levando de volta para a cidade.

Karen não tirou mais do que alguns cochilos no caminho de volta, acostumado com o sono leve e em geral, alerta, mesmo que suas últimas viagens tivessem sido relativamente tranquilas. De volta a Cerise, ele se instalou numa pousada esquecida pelo tempo, no bairro mais próximo do porto, e ainda teve algumas boas horas de descanso antes do horário que Lui tinha marcado o encontro deles. Era pouco mais de oito da manhã quando ele saiu da pousada e tomou um café na primeira padaria simples que encontrou aberta no seu longo caminho até o parque.

Usando uma camisa branca básica, calça jeans, os mesmos coturnos desgastados e um boné que cobria parcialmente a cicatriz característica no olho, ele seguiu a um passo regular por uns quarenta minutos, pelo menos, até alcançar o parque que Lui tinha indicado na mensagem. Já era quase nove da manhã quando chegou ao local e avistou, sem dificuldade, a figura de Lui vestido naquelas roupas indiscretas. Embora ele mesmo não fosse alguém de passar despercebido, conseguiu se aproximar do outro quase sem ser notado, inclusive, para apoiar a mão nas costas dele quando o viu pender levemente para o lado, como se estivesse desequilibrado naqueles sapatos altos.

- Parece que vai cair nesses sapatos.
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#4
Ludwig sequer percebeu quando seus olhos começaram a fechar, e mesmo que estivesse ainda acordado e observando o lugar enquanto esperava a chegada de Karen, o corpo foi lentamente pendendo e teria tombado para a frente se não fossem as duas mãos grandes lhe segurando. Ignorante do próprio cansaço, o menino olhou para o rosto com uma cicatriz abaixo do boné e abriu um sorriso que não disfarçou em nada as olheiras fundas.

- Karen-san...! Você chegou... hehe... – comentou em uma voz arrastada, encostando sem esperar no moreno, esticando os braços para agarrá-lo pela cintura e esfregar o rosto, na camisa dele (já que o salto lhe deixava um pouco mais alto que de costume, embora muito longe de tão alto quanto Karen). Fechou os olhos e se deixaria dormir ali mesmo se não lembrasse que tinham um encontro todo a frente, para o qual tinha se preparado a noite toda. A vaga memória disso fez com que Lui abrisse os olhos e bocejasse, se pondo de pé mais animado. – E eu não vou cair... já andei muito com esses sapatos... são confortáveis... – levantou o pé para mostrar a sola, pendendo muito de leve para trás que parecia mesmo que ia cair.

O garoto deu um passo para trás e se esticou inteiro com os braços para o ar antes de estender a mão para a do adulto, segurando-o pelos dedos.

- O que quer fazer hoje? Vamos fazer algo que você goste... você sempre me acompanha quando nos encontramos... também queria saber o que gosta de fazer... – apesar da animação usual, um bocejo com uma lágrima de sono no canto do olho não ajudava a agitação quieta de Ludwig.
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#5
Observando o rapaz de perto, Karen notou logo as olheiras fundas ao redor dos olhos dele, e com a pele clara e o corpo pequeno, Ludwig parecia tão debilitado quanto alguns de seus alvos mais antigos, que tentavam inutilmente se esconder por longos e longos dias sem uma boa alimentação ou uma boa noite de sono sem medo. Assim que o alertou sobre o desequilíbrio, Lui abriu um sorriso em sua direção e usou o seu corpo convenientemente para se apoiar, passando os braços em volta de seu tronco com tamanha naturalidade que foi Karen que se alertou por um décimo de segundo, porque não lembrava de alguém já ter se aproximado tanto assim dele, tão voluntariamente, sem a intenção de lhe machucar.

Num gesto mais automático do que ele tinha previsto, colocou a mão grande no topo da cabeça coberta por um chapéu, que saiu do lugar tanto pela aproximação do abraço, quanto pela mão de Karen.

- Você não parece bem, aconteceu alguma coisa? - Karen perguntou, quando Lui se afastou para lhe encarar de volta, segurando-lhe pelos dedos, o que só evidenciava a diferença de tamanho dos dois. Ele fez um aceno negativo com a cabeça quando Lui perguntou o que gostava de fazer para que pudessem decidir aonde ir. - Eu não tenho muitos gostos. Vamos fazer o que você preferir.
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#6
Ludwig sentiu o corpo de Karen tenso quando o abraçou, mas imaginava que ele não era um sujeito muito acostumado a proximidade. Era muito comum que seus colegas japoneses também não apreciassem abraços, quem sabe ele vinha de uma cultura similar. Porém tinha aprendido o quão legal era aquela proximidade no ocidente, então se fosse cuidadoso, poderia acostumar Karen também.

Mostrou um leve bico quando ele mexeu em seu chapéu. Será que não tinha gostado? A luz do sol nos olhos sonolentos lhe fez estreitar mais as pálpebras pequenas. Coçou os olhos com a mão e sacudiu a cabeça negativamente, dando um longo bocejo.

- Uahh... não, não... só estou com sono. – Ludwig afirmou, então fechando a mão e erguendo o punho de forma determinada. – Mas estou animado para o nosso encontro, hehe. – parou para ponderar onde poderiam ir já que Karen não parecia ter nenhum lugar predileto. – Um lugar legal... a gente pode ir no parque. Tem muitos brinquedos para alguém alto como você, e a comida lá é boa. – falou, então riu nervoso, coçando os cabelos escuros. – Pra falar a verdade, se a gente fosse num cinema, eu acho que iria dormir. – estava segurando a mão de Karen para não tombar para frente também. – Que acha...?
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