08-29-2021, 12:05 AM
Renaud
O jovem Blanco já esperava que Isaac pontuasse que era apenas natural que os dois - Renaud e Didier - estivessem juntos, mas arqueou a sobrancelha para o fato dele ter dito que tinha mudado. Não sabia exatamente ao que ele se referia, mas sabia que estava diferente do de sempre, porque estava muito exposto, em seus cansaços, e como ele estava sempre muito próximo, talvez fosse mais fácil para que ele notasse. Mas também, ressaltava o ponto, que se até o sempre denso Isaac estava percebendo, era algo que já estava muito na cara e isso deixava o jovem Blanco com uma sensação amarga na boca.
Tornou a beliscar da entrada, tentando buscar sabor no peixe para esquecer do gosto ruim que trazia falar do assunto, e prestou atenção em todos os comentários postos pelo seu irmão mais velho. Concordou com a cabeça sobre o fato de que “namorados” era só um nome, mas também tinha certo peso emocional na palavra que não conseguia só ignorar: -- imagine só quando você estiver embriagado. -- brincou, sem de fato colocar um tom de brincadeira, em verdade Renaud parecia cansado, embora menos tenso e estressado que antes, pairava aquela aura de quem estava verdadeiramente cansado:
-- Não sei dizer, nunca namorei na vida, não sei como é a sensação propriamente dita, sei apenas o que vejo dos outros, e o que eu sempre senti que faltava era “retorno”. -- ergueu os dedos fazendo o gesto de “entre aspas”: -- Eu sempre demonstrei do meu jeito que o Didier era importante pra mim, mas eu não tinha esse mesmo “retorno”, por vários motivos, de não me ver como pessoa, de me ver como uma coisa descartável e afins, muita coisa conversada em terapia pra conseguir chegar no pensamento que eu tenho hoje sobre quem eu sou. Por isso, não consigo dizer que antes a gente namorava, com certeza éramos muito cúmplices, mas como eu não sentia o “retorno” às vezes eu só ficava triste e frustrado de estar perto do Didier, como se não importasse o nível de dedicação, eu sempre estaria naquele limite de “eu só quero me divertir”. Mas no fim, não era bem assim, no fim das contas o Didier se importa, mas tinha medo de não parecer tão “legal” e eu acabar indo embora. -- suspirou pegando a taça de água para molhar a garganta num gole rápido antes de continuar: -- Mas enfim, eu não sei direito como vamos fazer agora, mas vamos tentar alguma coisa, aos poucos... Porque, como você mesmo notou Isaac, eu estou diferente, mas é porque eu não estou bem e tem muita coisa acontecendo na minha vida além do Didier.
Encarou os dois, como se tivesse chegado num ponto delicado da conversa, e nem tinham chegado no jantar propriamente dito ainda.
Isaac
Isaac começou a se servir dos aperitivos também, só concordando rapidamente com Sasha quando ele falou que estava feliz de voltar a falar com Renaud. E era estranho ouvi-lo chamar o outro de "menino", especialmente porque não tinha nada de "menino" em Renaud Blanco. Mas o comentário seguinte quase passou despercebido aos seus ouvidos porque a atenção foi desviada para o jeito que Sasha segurava a taça de vinho como se fosse um copo de cerveja.
Desviou a atenção para Renaud, porque tinha se disposto a prestar atenção na conversa e na situação e não poderia se deixar distrair por aqueles detalhes incômodos, mas era bem difícil fazer aquilo especialmente quando Sasha falava tanto, segurando a taça do jeito errado e sobre uma gama de sentimentos que ele entendia muito pouco da experiência de seu namoro mais recente. A sua atenção divagou várias vezes entre as explicações dele sobre os tipos de relacionamento que tinha tido e a mão que segurava a taça, ao ponto que ignorou o resto da explicação e só percebeu onde a conversa ia quando ele indicou o próprio coração, desviando a atenção para Renaud de novo porque o comentário veio dele daquela vez. De novo, não dava para acompanhar muito daqueles pensamentos profundos sobre relacionamentos, mas foi a vez de Isaac deixar a taça na mesa por uns instantes.
- Eu não sou bom para definir sentimentos em palavras. Eu sei que me importo com o Ethan, e que quero a atenção dele em mim o tempo todo, e eu me preocupo com ele assim como ele se preocupa comigo. Querer estar com ele e querer a atenção dele são "sensações" que só tive com meus relacionamentos "românticos". Eu me importo com ele mais do que me importo com as outras pessoas ao meu redor, e eu sinto necessidade de estar perto dele, tocá-lo, fazer sexo. E é por isso que eu sei distinguir o meu relacionamento com ele do meu relacionamento com você, por exemplo. - explicou de um jeito muito direto, embora sua atenção ainda fosse parcialmente desviada para Sasha, especialmente quando ele pegou a taça de vinho mais uma vez do jeito errado. Daquela vez, fez questão de estender a mão até a dele, segurando a taça e o punho do outro. - É assim que se segura uma taça de vinho. - corrigiu a postura do outro mesmo sem permissão, para poder se concentrar de volta no que estava dizendo a Renaud. - E quando eu disse que você diferente, não foi porque você não está bem. Está diferente para melhor.
E olhou mais uma vez pelo canto do olho para Sasha para confirmar que ele estava segurando a taça direito, para pegar a sua e tomar mais um gole do vinho.
Sasha
Ouvir Renaud falando que o que faltava no relacionamento dele com Didier era reciprocidade dos sentimentos sem saber como se expressar era até adorável, e de certa forma, esperado. Se Callas era tão covarde para não admitir que se importava antes, obviamente não haviam duas mãos naquela via de sentimentos. Até ficou bem calmo ouvindo os disparates do mais novo, exceto talvez pela revirada óbvia de olhos quando ele mencionou que o motivo pelo qual Didier não falava sobre os sentimentos que tinha era porque não seria “legal” e Renaud iria embora.
- Tch. Babaca. – resmungou para si mesmo, escondendo a boca por trás de uma mão e fingindo que por um instante quase tinha espirrado. Já que os dois, Renaud e Didier tinham se acertado, teria que aprender a conviver. Ao menos o resto da conversa do garoto cobriu seu xingamento, embora ele trouxesse uma carga emocional para tudo.
Já Lemont tinha uma abordagem completamente diferente. Ele, assim como Renaud, colocava os sentimentos de uma forma muito direta, mas tudo que ele dizia ali servia muito para ele, apenas. Nem todo mundo que sentia amor dava atenção constante, ou precisava tocar, ou precisava do sexo. Mas se aquilo ficava claro para Renaud, não interferiria no diálogo. Pegou a taça de vinho para tomar mais um gole, mas enquanto segurava o copo sem delicadeza, sentiu uma pressão repentina no pulso e a taça ser arrumada em sua mão. Olhou para Lemont até assustado, levando a mão ao peito.
- Rapaz, com uma pegada dessa, até minha coluna você desentorta. Cuidado que eu gamo, viu? – Sasha falou, franzindo a testa e esperando Isaac lhe soltar apenas para tomar o vinho no ritmo que bebia a cerveja, sem moderação alguma. Mas ao menos estava pegando certo no copo. Podia ao menos ficar feliz que Isaac era mais otimista e reconhecia os pontos positivos da mudança de Renaud. Infelizmente sabia que ele andava passando por algumas broncas, mas no mais, se ele havia pensado que precisava ser amado tanto quanto amava, de fato era uma mudança positiva. – Heh. É verdade, Lemont.
Renaud
Talvez não fosse tão incrível que o jovem Blanco conseguisse entender os pontos colocados pelos dois, afinal tinha acompanhado uma parte dos namoros de adolescente de Sasha, e embora fosse muito novo pra captar tudo na época, agora conseguia enxergar tudo com outros olhos. Sobre os exemplos de relacionamentos dados por Isaac também não foi difícil de compreender, até porque Renaud já estava muito habituado com o jeito de ser e de falar do amigo. Estava prestes a por outra isca de peixe na boca mas parou no meio do caminho quando Isaac destacou que estava mudado pra melhor? E Sasha ainda concordou com a fala, fazendo com que Renaud ficasse notavelmente confuso, normalmente tinha um rosto muito normal e pouco expressivo, mas naquele momento foi muito fácil de notar a confusão instaurada ali, depois de alguns segundos de delay que levou a comida, e depois de mastigar, tomou dois goles breves de água:
-- Bem… eu nem sei o que dizer sobre isso. Pareço mesmo? -- Pontuou, desviando o olhar por um momento para o restaurante cheio, e suspirando antes de dar de ombros e gesticular com as mãos em frente ao corpo, como se tivesse dando voltas do ar: -- Eu penso sobre, mas não me sinto bem, em quase nenhum momento durante essas semanas…! -- Encarou os dois a sua frente, que de fato eram seus amigos mais próximos, talvez duas das pessoas em que mais confiava atualmente: -- Com exceção de momentos como os de agora, claro, agora não estou tão mal… conversar com vocês é bom, mas todo o resto… todo o resto é péssimo, o que quer dizer que na maior parte do tempo eu me sinto cansado e desorientado. -- Admitiu baixando o tom de voz sem nem perceber, levou a mão sobre os lábios, deslizando o indicador na região, estava inquieto. Porque não conseguia conceber que todo aquele caos que estava passando estava lhe fazendo mudar para algo bom, mas em verdade, talvez até tirasse algo de bom disso tudo, mas agora, no momento em que estava, era difícil ter aquela percepção.
E antes que pudesse acrescentar mais comentários os pratos pedidos chegaram a mesa, o filé chegou, farto de molho, fumegante e com uma coloração bonita, o arroz estava temperado com especiarias que eram perceptíveis pelos pontinhos coloridos em meio ao branco. A salada de vagens fresca contrastava em um verde brilhante em relação aos outros pratos servidos. Os talheres e pratos foram ajustados agora com a chegada do novo prato, a água foi reposta, e então o jovem Blanco dispensou o garçom, ainda não tinham terminado a garrafa de vinho, e dificilmente os dois aguentariam beber duas garrafas inteiras.
Isaac
- Eu não posso "desentortar" sua coluna. - Isaac ainda apontou sobre o comentário dele, como se não fosse algo suficientemente óbvio. Mas ainda franziu as sobrancelhas para o comentário sobre ficar "gamado".
Continuou tomando o vinho enquanto o prato principal não chegava, mas a sua distração foi quando Renaud perguntou se parecia mesmo diferente. Se ele não tivesse perguntado tão diretamente, nem teria notado a diferença na expressão mais surpresa com o comentário. Mas foi o próprio Isaac que ficou com uma fronte confusa ao pensar como explicar objetivamente porque tinha feito aquela escolha de palavras. Foi mais fácil pensar na resposta quando Renaud especificou com não se sentia bem e se sentia cansado e desorientado.
- Isso é culpa da sua alimentação. Você está mais magro e não está fazendo esportes. - Isaac respondeu de um modo muito objetivo, bem a tempo do garçom chegar para servir a comida. Só deu espaço para que o atendente o fizesse e quando estavam sozinhos de novo, voltou a atenção para Renaud. - Eu disse "para melhor" porque... - Isaac parou por uns instantes, tentando achar sentido na própria objetividade. - Você conversa mais comigo. Ajuda mais nas tarefas do conselho. Até ajudou quando eu briguei com o Ethan... é melhor porque não está mais só saindo e assustando os alunos ou dormindo com eles. Eu o conheço melhor agora do que seis meses atrás. E estamos no conselho há anos.
Isaac puxou o prato com o filé que Renaud tinha pedido para começar a se servir, cuidando para que nada estivesse fora do lugar, comendo naturalmente como se não tivesse falado nada demais e que Renaud já não soubesse.
- Hm. Está bom. - atestou sobre a comida, servindo-se de vinho e dessa vez prestando atenção em como Sasha seguraria os talheres.
Sasha
Sorriu discretamente com a reação de Renaud a quando dissseram que ele estava “melhor”. Não porque achasse graça na situação, mas porque provavelmente tinha um tempo desde a última vez que tinha visto Renaud ser tão expressivo. Não que o considerasse tão inexpressivo quando Renaud dizia ser – ele era mais fácil de entender que muita gente que conhecia – mas o jeito que ele parou com o peixe na mão foi quase cômico, não fosse o fato dele expor suas frustrações com a situação que passava nas últimas semanas.
A resposta de Isaac, que esperava que fosse menos interessante, acabou se provando no mínimo curiosa. Ainda não conhecia Isaac o suficiente, e aos poucos ele provava ser uma pessoa muito objetiva e simples, muito como Renaud precisava. Talvez por ter passado por uma fase muito similar a do irmão mais novo, soubesse que alguns daqueles sentimentos dele não eram assim tão fáceis de lidar, mas seria mentira se ignorasse como aquela forma simplista de entender tudo não era reconfortante às vezes.
A comida que chegou no meio tempo da conversa de fato parecia deliciosa.
- Bom, eu concordei com o Lemont porque agora a gente se fala. Quantos anos a gente passou estranhados de graça? Não acho que é uma questão de aparência... é de atitude. Mas cê ainda tá bonitinho, se me permite. – comentou, tentando aliviar um pouco a conversa, enquanto se servia de um pouco do bife também, do arroz e algumas vagens. Sasha pensou um instante, supondo que era difícil de explicar mesmo, ou nem o Lemont teria parado pra pensar tanto. – Olha, menino... – então respirou fundo, pensando em como colocar o que queria dizer para Renaud. – Eu sei que é uma merda essa sensação de ficar cansado o tempo todo, e perdido o tempo todo... e que se só comida e exercícios resolvessem, você já tava lá fazendo a dieta do Michael Phelps de macarrão e natação... mas por mais que você não esteja vendo coisas boas, você acabou de dizer que você não tá mal o tempo todo. Com a gente cê não tá tão mal. Então é melhor do que de resto. E a gente pode ver algo que você, porque tá confuso e perdido, não pode. – tentou explicar, supondo que estava complicando ainda mais as coisas pra Renaud.- Se você tem a gente pra se agarrar, se agarra. A gente tá aqui pra fazer você se sentir melhor mesmo. É pra isso que amigos servem. E a comida vai lhe dar mais força física, assim como os exercícios. A soma de tudo vai lhe ajudar aos poucos. - certamente não tinha metade do cuidado de Isaac para servir, mas até não era tão bagunceiro.
Renaud
O Blanco se serviu da comida, pegando uma porção estupidamente pequena, mas que era a média do que estava conseguindo comer em dias comuns. E escutou Isaac com atenção, ele estava certo em dizer que estava mais aberto nesses últimos meses, também em parte porque mesmo sem perceber - ou sem admitir - as conversas com o Dr. Vlahos tinham lhe atentado ao fato de que o secretário era seu amigo, mesmo antes dele por aquilo em palavras. Já tinha evitado bater no secretário, se preocupava com o bem estar de Isaac, e até certo ponto se sentia confortável pra falar sobre um tanto de coisas que normalmente deixaria apenas para si. De fato, tinha mudado, mas nem tinha notado, quando e nem como, isso tinha ocorrido.
Encarou Sasha arqueando uma sobrancelha quando ele lhe disse que ainda era bonitinho, e acenou negativamente com um sorriso simples nos lábios, como quem não acreditava que ele estava lhe tratando como se tivesse 14 anos de novo. Então todo o assunto sobre se alimentar, se exercitar e manter uma rotina veio por Isaac e foi reforçado por Sasha, claro, com o moreno mais velho pondo suas ressalvas. Sabia que tudo aquilo era necessário, mas de fato, era difícil manter a energia e ânimo pra fazer todas aquelas coisas, justamente porque se sentia mal a maior parte do tempo. Cortou a comida e deu uma garfada tímida, apenas pra atestar que não sentia o gosto como se lembrava, mas melhor do que imaginava, sentia gosto de comida, o que era um ganho em alguns dias, em seguida, tornou a tomar um gole de água antes de continuar:
-- Eu fico realmente grato de vocês dois estarem aqui… pode não parecer, mas eu estou menos desesperado porque eu tenho amigos… muito embora o “termo” ainda pareça um pouco estranho de falar. -- suspirou, unido as mãos em frente ao corpo, e apoiando as costas na cadeira, estava um pouco defensivo, mas não porque estava evitando de se abrir, mas justamente, porque estava mais vulnerável do que sempre, acabou tomando aquela posição sem perceber:
-- tudo que vocês comentaram sobre comer, me exercitar, manter a rotina, são coisas que o Dr. Vlahos vem me alertando pra manter, porque bem… eu… -- evitou por um instante o assunto desviando o olhar, antes de tomar coragem pra continuar: -- ...estou num quadro de depressão, e transtorno alimentar também, por isso, acabo ficando sem conseguir comer quando estou em crise, a pressão cai, e acabo terminando na enfermaria como no outro dia. -- comentou sem muito ânimo, principalmente porque estavam jantando e não queria ter entrado num assunto tão indigesto logo de cara: -- Eu não sei exatamente como eu cheguei no ponto que eu estou, sabe... e talvez por isso mesmo que eu fique tão inseguro do que fazer, agir ou mesmo falar, porque… de todas as coisas que estou sentindo sobre mim. Sobre o meu corpo, o que posso dizer é que é tudo muito “novo”, e eu acabo não tendo total controle... e isso me assusta… -- começou a mover os dedos das mãos em um pequeno tique nervoso, mas logo baixou o olhar, cobrindo uma mão com a outra para cessar o movimento: -- mas vamos terminar de comer, antes que o meu assunto acabe com apetite de vocês.
Isaac
Isaac até fez algumas pontuações mentais sobre o comentário de Sasha, que eram bem objetivas também, mas não o interrompeu. O máximo que pensou foi que não podia dizer que sabia o que era a sensação que Renaud estava passando, que eles certamente podiam ver algo além na situação toda e que Renaud já estava acostumado a lhe agarrar na cama enquanto estava lendo. Mas só continuou a refeição, olhando de esguelha para o prato de Sasha que não estava tão bagunçado e o de Renaud que tinha uma porção ridícula de comida.
- Sua língua mãe é francês, não devia ser estranho falar "amigos". - Isaac respondeu como se o problema do estranhamento com a palavra fosse a sua pronúncia e não o significado.
Já tinha se servido de metade da sua refeição quando pausou apenas para tomar o vinho e ouvir o resto da explicação de Renaud sobre estar num quadro de depressão. Aquilo devia explicar o estado físico dele, mas com certeza não tinha a menor compreensão de quadros de depressão e como lidar com problemas psicológicos. Do discurso todo, o mais estranho era ouvir que Renaud estava "assustado".
- Por que eu perderia o apetite por causa de uma conversa? - Isaac colocou, apontando depois o prato de Renaud. - Você que devia comer mais, recomendações médicas, não é? - deixou a taça de vinho de lado e pegou os talheres para terminar a comida, mas parou antes de se servir. - Eu não entendo muito de depressão, é óbvio que eu não sou empático e não vou saber lhe ajudar nisso. Mas se precisar, posso lhe ajudar com rotina, exercícios e refeições, montar um cronograma é fácil. - ele pegou um pedaço da carne, mas antes de levar à boca, apontou de novo para o prato de Renaud. - Posso começar agora, inclusive.
Sasha
Talvez não compreendesse inteiramente Renaud pelo fato de não saber qual a dificuldade de entender que fossem “amigos”, pura e simplesmente, mas sabia que algumas palavras deveriam carregar significados mais intensos para outras pessoas. Na verdade, já imaginava que Renaud estava passando por algum problema mais sério. Não era o primeiro nem o último em St. Clavier a lhe aparecer com um quadro como aqueles, inclusive, talvez Sasha tampouco tivesse escapado de ter um longo momento como o de Renaud, porém, ouví-lo por em palavras era o que lhe dava certeza de que ele queria o apoio dos dois.
Isaac, entretanto, era o sujeito mais adequado para lidar com toda a situação, pois era ridiculamente denso. Acabou abrindo um riso largo quando ele considerou que o problema de Renaud era simplesmente a pronúncia da palavra.
As ofertas de Isaac eram bem substanciais e diretas. Não havia nada o que enrolar ali. Era só dizer a Renaud o que eles estavam dispostos a fazer, e também, assegurar ao garoto que independente do que ele falasse, não iria deixá-los decepcionados... ou sem fome.
- Talvez eu seja mais desorganizado que o Lemont nesse ponto, mas também pode contar comigo para o que for, viu, menino? Sabe que a porta do meu quarto está sempre aberta para você. E me cairia bem dividir a cama com alguém quentinho que possa armar minha cadeira de manhã, sempre que precisar. – brincou, levando a mãos aos cabelos escuros de Renaud, deixando-a ali por um instante. – Só peço uma coisa: é que confie na gente, como cê tá confiando agora. Não peça desculpas ou ache que vai nos incomodar por querer nossa ajuda. Você trouxe a gente num restô super gostoso justo pra gente devorar até a borda do prato, então vou fazer jus ao seu dinheiro. E de resto, cuidando de você, faço valer ao quanto eu digo que te adoro, viu? – deu mais uma esfregada nos cabelos escuros, deixando-os completamente bagunçados. – Agora, vai querer que o Lemont te dê carne na boca? Acho que se cê pedir, ele faz.
Renaud
Podia conhecer Isaac a algum tempo, mas era inegável que todas as vezes iria se surpreender com a forma como ele lidava com assuntos, ele era sempre direto e prático, ou nem tanto, já que o tinha acompanhado devastado emocionalmente tentando lidar com a ausência do namorado. Sasha também lhe surpreendia, porque mesmo confiando plenamente nele, sabia que ele também tinha suas próprias batalhas pessoais, e vê-lo tão prontamente lhe auxiliando, lhe fazia sentir-se mimado, até um pouco egoísta, mas estava difícil fazer tudo sozinho, e em verdade estava cansado de ficar sozinho resolvendo tudo da sua própria vida:
-- É, eu vou precisar de ajuda sim, eu estou tomando remédios pra controlar meu humor, eu tenho sono e maior parte do dia, estou desatento nas aulas, e mesmo com os alarmes de celular, eu não tô dando conta de tudo que tenho pra fazer… -- admitiu sem ficar muito feliz com aquilo, e cortou outra pequena porção de comida, se alimentando devagar para não ficar enjoado: -- Eu tento não pular as refeições, porque com o transtorno alimentar eu não tenho apetite nenhum o dia todo, então é a coisa que eu esqueço de fazer com mais facilidade, e justamente o que eu não posso deixar de fazer por causa dos medicamentos…
Tornou a dar atenção a sua porção pequena, quase acabando com ela, era muito medíocre estar pedindo ajuda, tinha se acostumado desde cedo a fazer tudo sozinho, tinha muito auto suficiência, mas lembrava das conversas com o Dr. Vlahos, sobre ter aprendido a se virar muito jovem e isso ter um reflexo na sua forma de convivência com a família e consequentemente com seus amigos. Deixou os talheres de lado, depois de encerrar aquela primeira parte da refeição, tomando um gole breve de água pra limpar a garganta:
-- Eu não sou uma pessoa do tipo que pede ajuda, e estar fazendo isso aqui e agora, é muito desconfortável, mas depois de conversar com o Dr. Vlahos sobre o assunto, não tenho como cuidar de mim se eu estiver sozinho o tempo todo… e nem quero ficar sozinho, em verdade… -- Encarou os dois a sua frente, sem saber se estava sendo claro o suficiente no que dizia: -- O ideal seria que tivesse acompanhamento da minha família, sendo que vocês dois sabem que eu não tenho uma boa relação com eles, não o suficiente pra eles me darem esse tipo de suporte… as únicas pessoas que eu confio a ponto de pedir ajuda são vocês dois que são meus amigos mais próximos…-- pensou em Didier também, mas ainda tinha aquela sombra de pensamento que o loiro tinha seus próprios problemas e não queria ser um problema pra ele também, era um raciocínio inevitável, que tentou afugentar da mente para não perder a linha de raciocínio: -- eu não sou uma companhia agradável do jeito que estou agora, não vou mentir, tem dias que eu não tenho nem força pra levantar da cama e ir seguir com a minha rotina, que eu choro e só quero ficar encolhido em um canto, e que é desolador, faz parecer que nada que eu faça vai ser suficiente... e eu me sinto jogando essa responsabilidade pra vocês…. mas é como eu falei antes… eu não tenho como passar por isso sozinho. Na verdade, eu não aguento mais me cuidar sozinho, eu estou verdadeiramente cansado.
Admitiu um pouco exausto, mas surpreendentemente mais aliviado de ter falado sobre o assunto com os dois, e de saber que eles estavam lhe ajudando por que se importavam. O que era muito difícil era lidar com essa sensação de deterioração que lhe consumia, como se estivesse ruindo aos poucos, e tivesse que pedir pra eles catarem seus pedaços antes que terminasse de se desmanchar de vez.
Isaac
Isaac ainda olhou um pouco torto para Sasha quando ele sugeriu que desse carne na boca de Renaud. Não que fosse algo completamente fora das possibilidades, mas não faria aquilo se ele não precisasse de verdade. Mesmo que fosse muito ruim com sentimentos e coisas emotivas, aos poucos conseguia ter um entendimento melhor do estado de Renaud, afinal, sabia o que era ser uma pessoa independente, não pedir ajuda a ninguém, cuidar de tudo sozinho e evitar preocupar as pessoas ao redor.
- Eu sei que não pede ajuda com frequência. E eu sei como é não pedir ajuda dos outros e tentar resolver tudo sozinho. - Isaac comentou, tinha terminado a refeição em meio à explicação do moreno e deixou o prato vazio de lado, voltando a tomar o vinho. - Mas eu não sou bom em perceber quando algo está errado com alguém, e só consigo fazer isso quando já está errado demais. E eu me preocupo com você, então se disser diretamente que precisa de ajuda, é melhor para mim também.
Ele olhou para a comida de Renaud que estava intocada, e exceto o jeito que Sasha segurava os talheres que também lhe incomodava, o fato de que ele estava comendo muito pouco lhe deixava mais incomodado agora que sabia o motivo e que precisava de solução.
- Nós podemos cuidar de você. - ele olhou para Sasha, como se procurasse uma concordância, mas Sasha já tinha deixado bem claro que aquele era o caso. - E meu quarto vai estar aberto quando precisar descansar.
Sasha
Renaud tinha muito a confessar, fossem os remédios que estava tomando, ou os transtornos alimentares, ou sua incapacidade de lidar com o fato de que agora precisa mesmo da presença dos dois. Sasha até podia entender aquele lado, pois também sempre tinha sido independente, e perder a independência para algo que estava além de seu controle era problemático demais, tanto que sequer falava disso com os amigos. A coragem de Renaud de pedir ajuda daquela forma lhe fez ficar satisfeito pelo progresso dele, afinal, de um moleque arisco para um adulto esquivo, para a figura honesta que via agora... sentia que saber todos esses pequenos lados e segredos mostrava a confiança dele nos dois.
Sasha só franziu a testa quando Renaud mencionou a própria família como suporte. Não podia tirar a experiência dele completamente pela sua, mas algumas situações, era bom não ter esse tipo de suporte. E especialmente no caso dele que a família sempre foi ausente, que diferença fariam agora?
- Já chega dessa de ficar sozinho. Isso não deu certo pra mim e nem pra você. E eu bem prefiro você estando ao meu lado para que possa te ajudar. Esse negócio de o “ideal”, pra mim, é balela. O ideal é estar com quem você confia, e quem quer lhe ajudar. E como o Lemont bem colocou, nós podemos cuidar de você, menino. – Sasha terminou de comer rapidamente, e então deixou o prato um pouco de lado. – Agora... deixa pra gente dizer o que é ser uma companhia agradável, ou tomar uma responsabilidade. Se a gente não falar isso pra você, não assuma que é esse o caso. Tanto eu como o Lemont somos sinceros, e não temos tato. Se for o que a gente pensa, a gente vai dizer. Como você mesmo disse, você tá cansado, e cansado de lutar contra isso sozinho... e você faz parecer que é um fardo pra gente... mas real, somos só muletas pra te apoiar, Renaud. Só quem pode andar é você. – Sasha franziu a testa, após uma pausa breve. - Bom, literalmente, você e o Lemont, mas metaforicamente, você é o único que pode superar tudo isso, porque o corpo e a cabeça são seus. – Sasha encostou mais relaxado na cadeira, ainda franzindo a testa. – E olha, é mais leve pra mim te apoiar sabendo o que está acontecendo com você e por onde começar do que se se eu estivesse me preocupando no escuro. Porque você queira ou não, você já me tirou por irmão e já tirou ele por amigo, então já deu pra gente a liberdade de querer se preocupar e cuidar de você. Por isso, obrigado, menino, por abrir o jogo e confiar na gente.
Renaud
Definitivamente era difícil se acostumar com a ideia de que tinha pessoas próximas, apesar de estar passando por parte dos piores dias de sua vida, era estranho, justamente nesse momento, ter a confirmação de que tinha algumas pessoas preciosas em sua vida. E mesmo que pensasse muito sobre, ainda se sentia estranho, e ingrato, nem sabia como tinha chegado naquele ponto, mas não negava que estava aliviado de ter. Talvez fosse algo que não é pra se entender completamente, mas pra se aceitar, e usufruir. O jovem Blanco já tinha terminado sua porção minúscula de comida, mas refeição era refeição, desde que não ficasse enjoado e botasse pra fora, podia considerar uma vitória:
-- Bem, eu sou grato por vocês estarem aqui, comigo, agora… e antes, e durante os próximos dias. -- fez uma pausa respirando fundo e soltando o ar devagar: -- obrigado. -- Sempre que agradecia por qualquer coisa, parecia que as palavras tinham um peso adicional, mas não porque se sentia amarrado por elas, mas justamente, porque eram palavras ditas, valendo todo o significado que tinham. Pegou a taça de água, e bebericou pra molhar a garganta, devolvendo-a para a mesa em seguida, e se recostando na cadeira:
-- Todo o drama atual da minha vida, repassado para os senhores, estamos acordados que vamos ter rotinas próximas, e para a felicidade do Isaac eu uso uma agenda on-line, então é “fácil” de ver o que tem pra fazer e os horários importantes. -- fez o gesto com os dedos de “entre aspas” porque não era como se fácil fosse o melhor adjetivo, tendo um montante de coisas atrasadas requerendo sua atenção, pelos dias que passou em crise: -- Mas de todas as coisas, o que eu mais vou abusar, é dos cochilos nos quartos de vocês. -- Renaud colocou um tom mais leve na fala, no que podia ser facilmente compreendido como uma brincadeira,mas logo voltou atenção ao moreno mais alto:
-- Isaac, lembre de falar com o Ethan, pra evitar mal entendidos, não precisa entrar em detalhes sobre a minha saúde, basta avisar. -- a última coisa que gostaria, seria de lidar com uma crise de pelanca do namorado ciumento do amigo, o que ele tinha de pequeno tinha de possessivo.
[thread encerrada]

