09-01-2021, 02:14 PM
Renaud
Depois de um sábado prolongado, o jovem Blanco tinha se permitido dormir, o sono foi mais tranquilo com uma sensação de quem não estava carregando um mundo inteiro nas costas. Embora estivesse sozinho no próprio quarto, não se sentia de fato “só”, e talvez por isso, o moreno tinha se permitido dormir pesadamente e “descansar” após dias de estresse constante. Acordou já passando das 08 horas da manhã, se alongou sentindo as câimbras lhe atacarem, e tinha até um pouco de fome, mas nada excepcional, embora só o fato de não sentir enjoo ao acordar fosse uma vitória. Seguia a dieta e seus horários de alimentação à risca, comendo algo rápido, depois voltando para o quarto para tomar seus remédios, talvez só por isso tivesse acordado e não dormido a manhã toda, para não pular os horários estabelecidos pelo Dr. Vlahos.
Tomou um longo banho lavando os cabelos curtos, e em muitos dias sem se cuidar direito, sentiu no próprio rosto sinais de barba. Havia algum tempo desde a última vez que estivera no SPA para fazer a barba na cera, se atentou a quantidade de dias que já tinha se passado naquele caos que estava sua vida apenas naquela manhã de domingo. Mas acabou por decidir deixar os pelos curtos no rosto, resolveria isso na manhã seguinte, quando precisaria estar mais apresentável de fato. A quantos anos não se barbeava? Nem lembrava, mas ainda devia lembrar como se faz. Vestiu uma roupa confortável, calça jeans cinza desbotada, com os pés e os joelhos desgastados – era uma de suas peças mais confortáveis justamente por estar tão detonada -, regata branca porque estavam no alto do verão, e botou um suspensório bege claro, que quase sumiu no branco da regata que usava. As mãos ainda tinham curativos, e no domingo já tinha mais manejo para arrumar as bandagens na própria mão, por conta própria.
Já perto da hora do almoço, seguiu para cozinha novamente, levando celular e sua maleta de facas e demais utensílios pessoais de cozinha, tinha uma prova da eletiva de gastronomia na segunda-feira e o professor Funske já tinha adiantado que iriam cozinhar em um restaurante de verdade. Como não tinha ido a aula nessas duas semanas, tinha perdido as práticas em cozinha de rotação e quem ficaria em qual estação durante os preparos. Por isso iria tirar o domingo para praticar, chamaria Sasha para experimentar, mas o irmão já tinha programa marcado, e ficava feliz que ele estivesse saindo mais do que antes. E Isaac tinha o namorado para dar atenção, afinal a partir de segunda-feira o moreno mais velho voltava para o trabalho na delegacia e por isso, era bom que aproveitasse o fim de semana de folga do lado de Ethan.
O jovem Blanco amarrou o avental na cintura, percebendo como tinha perdido peso nos últimos dias, a peça lhe marcando bem a cintura. Deixou o celular de lado rolando uma playlist de jazz franceses dos quais gostava de ouvir quando estava cozinhando. Pegou a lista de estações que tinha copiado de um colega de turma e estava avaliando os pratos que seriam preparados, separou os alimentos que precisavam ser lavados e descascados, e separou uma a uma das panelas que usaria calmamente. Abriu sua maleta no conjunto de facas e separou uma a uma para lavar a amolar. Lembrou-se de deixar a carne fora da geladeira em um depósito descongelando, e estava repassando cada uma das etapas em voz baixa, estava difícil se concentrar para cozinhar como de costume. Na hora da avaliação não teria música para lhe entreter, apenas barulho e ordens vindas de Funske, então precisava estar com todas as informações bem memorizadas para não errar em nada.
Mas era um pouco triste cozinhar para ninguém já que o próprio Renaud não estava em seu melhor momento de paladar, além de quê, o princípio de pensamento de Funske era: “cozinhar não para si, mas para os outros! ”. Então não faria sentido se não houvesse ninguém para experimentar o que cozinharia. Seus pensamentos foram rápidos na figura da única pessoa livre naquele domingo, e a mera recordação do loiro, fez com que Renaud parasse de lavar e limpar as facas, sentindo o peito acelerar em antecipação. Respirou fundo um par de vezes, levando a mão livre ao peito, e sentindo o próprio batimento rápido e ansioso.
[...]
Não havia motivo para todo aquele nervosismo, havia?
Tinham trocado palavras duras no dia anterior, mas tinha dado permissão para que o loiro fizesse parte de sua vida não era?
Seria um crime tão imperdoável perguntar-lhe se poderia lhe acompanhar na cozinha?
[...]
Podemos chamar, mas ele pode não querer vir... e você vai ter de se contentar com isso...
[...]
A mera ideia de chamar Didier e ele poder recusar, lhe dava uma sensação de negação, de que não era tão importante ou mesmo necessário. Da mesma forma, sentia o coração acelerar na ideia de que ele aceitasse e viesse comer algo que tivesse preparado. Era um misto de sensações que lhe deixavam com dor de cabeça, mas não tinha uma resposta para aquela situação, que não, chamar e ver o que acontecia. Da mesma forma que sabia, que tinha escolha de negar ou aceitar, também tinha de admitir que Didier tinha os mesmos espaços, e que isso não significava que valia menos ou mais. Mas na prática, aquele sentimento era difícil de concretizar.
Digitou a mensagem para o loiro sentindo as mãos suadas por baixo das bandagens, mas não pensou demais e enviou, mesmo que depois sentisse que não deveria ter enviado. Agora era melhor continuar lavando legumes do que mexendo em algo afiado, não queria se causar outro acidente por estar ansioso.
“Estoy cocinando, en verdad practicando para un teste, entonces necesito de un evaluador… ¿Esta libre? ¿Podría ayudarme?
Att. Renaud.”
Didier
A conversa com Renaud tinha sido brutal. Apesar de terem chegado há um consenso de que queriam estar perto um do outro, o fato da briga toda ter acontecido ainda martelava em sua cabeça, e por Deus, não lembrava a última vez que tinha chorado tanto. Sem saber como chegou ao quarto, e sem passar por Isaac para agradecer como queria, voltou para a própria cama e se enrolou em voltas e mais voltas de lençol, amuado, mas esperançoso. Agora não tinha mais que se esconder de Renaud, e podia se preocupar com ele.
Não dormiu bem, mas seus sonhos nada tinham haver com o moreno. Das coisas que tinha dito a ele, algumas não eram nada sobre Renaud. Mas essas coisas resolveria com quem devesse resolver, e o tal do Dr. Vlahos.
Acordou muito cedo, o suficiente para que ainda tivesse escuro, e ao invés de voltar ao dormir, pegou alguns livros do curso para ler e deu adiantamento há alguns trabalhos que andava negligenciando esse tempo todo. Entre longos suspiros, rascunhos rápidos no caderno e escritas rápidas no teclado do computador em seu quarto, conseguiu adiantar boa parte, até quando deu umas 7 da manhã e voltou para a cama, para dormir assistindo os novos clipes dos artistas que acompanhava.
Era pouco mais de 8 da manhã quando acordou no susto com o toque de mensagem. Isso porque não andava recebendo mensagens há muito tempo. Quando olhou o remetente, sentiu que o coração acelerou prontamente,e não tinha sido do susto. Foi só assim que ficou consciente que seu corpo todo doía como se tivesse levado uma surra, mas que a euforia de saber que de fato, Renaud, com quem tinha se acertado há pouco, lhe queria por perto, era bem mais forte que o incômodo no corpo todo.
Mordeu o lábio inferior e se jogou sentado na cama, pronto para responder.
Si, lo puedo. Estaré ahí en un minuto.
Att. Didier
Demorou um pouco para pressionar o botão de enviar, especialmente porque era óbvio que nem ele era “perro” e nem podia ser a “mama” nessas circunstâncias. Essa falta de familiaridade com a situação toda lhe deixou um tanto desconfortável, mas como se fosse só o que tinha, segurou o celular com ambas as mãos e beijou a tela antes de saltar da cama para tomar um banho e se vestir.
Muitas trocas de roupa depois, sem saber se vestia algo para parecer elegante ou se vestia algo para estar vestido, enfim, optou por usar um dos seus shorts confortáveis de jeans, que tinham a barra desfiada um pouco mais longa e uma blusa caída com mangas curtas preta, os cabelos cacheados um pouco bagunçados e cheios por ter passado o dia todo rolando na cama. Deu uma tapeada nas olheiras para não aparecer tão desgraçado, inconscientemente, ainda tentando impressionar um pouco.
Não foi muito tempo depois que apareceu na cozinha, parando próximo quando ouviu o movimento dentro da mesma. Mas com cuidado, colocou a cabeça para observar Renaud que trabalhava na mesma, apertando os lábios um tanto hesitante.
- Hola...! – cumprimentou, revirando os olhos para si mesmo pela naturalidade de seu cumprimento nervoso. – Ah... eu posso entrar ou fico observando daqui? – perguntou, dando uma olhada na figura do moreno de sempre, embora ele estivesse com um conhecido jeans surrado, um suspensório apagado e o avental amarrado na cintura fina. Certamente tudo que tinha acontecido tinha afetado o moreno. Até barba ele tinha. - ... Barba? – repetiu em espanhol da mente para a boca, vendo o que talvez fosse sua primeira e última vez vendo pelos na cara do moreno.
Renaud
O jovem Blanco não estava conseguindo se concentrar em mais nada, estava lavando um repolho a exatos 12 minutos, enquanto a mente divagava se o loiro iria ou não responder sua mensagem, se ele estaria a fim de gastar parte do seu domingo em sua companhia, se ele não tinha nada melhor pra fazer. Não conseguia certamente chegar a qualquer resposta consistente, mas pelo menos, aquele repolho com certeza estava limpo. Quando o celular vibrou sobre a mesa pausando a música que rolava, pegou o aparelho com as mãos ainda molhadas, e a digital úmida não foi reconhecida pelo aparelho, mas a mensagem curta e objetiva de Didier, era possível de ver mesmo com a tela bloqueada. Renaud se pegou rindo sozinho, mesmo que fosse um sorriso singelo, sentia o peito acelerar, e um formigamento que surgia do estômago para o peito, uma expectativa intrigante, aquilo seria um vislumbre de felicidade? Sabia que se contentava com pouco, mas não queria desmerecer suas pequenas vitórias.
Tomou tempo descascando os legumes e demais vegetais que iria usar nas receitas, a mesa de refeição já comportava algumas vasilhas com os alimentos já descascados. Tinha separado os condimentos que iria usar, e tinha separado folhas, talos, flores comestíveis e um punhado de outros arranjos que fossem necessários para montagem de pratos. Estava ciente, que precisaria praticar o corte de carne vermelha e depois trabalhar com montagem de pratos. Cortar era com certeza sua especialidade, montagem era com certeza seu pior defeito. Quando o Blanco escutou o “Hola”, estava acabando de colocar uma panela de ferro com vinho e carne no forno pra cozinhar.
-- Ah! Oi! Estou pondo o Boeuf Bourguignon pra cozinhar, é o primeiro a ir pro fogo e o último que eu vou preparar hoje. -- Acabou explicando mais do que precisava para acompanhar um “olá” acerca do que estava fazendo. Puxou um pano de prato para enxugar as mãos, que não estavam molhadas, mas ajudava a omitir o nervosismo no mover inconstante dos dedos. Ouviu a pergunta de Didier e então se deu conta que estava ocupando espaço demais na mesa e se encaminhou até a mesma, abrindo um espaço onde Didier pudesse sentar e ter visão do que estava fazendo se quisesse é claro. E antes que lançasse qualquer comentário adicional, ouviu o loiro falar de sua barba, e por reflexo levou a mão até o queixo, ficou um pouco desconcertado, e estava sentindo uma tensão muito maior do que esperava daquele encontro:
-- Erh... eu tenho barba também, afinal já tenho 20 anos... - comentou a própria idade se sentindo ainda mais idiota por estar perdendo o rumo da conversa e sendo tomado por nervosismos. O jovem Blanco se encostou na mesa, abrindo um sorriso singelo e respirando fundo, tentando se acalmar daquela pequena confusão emocional. Pausou a playlist no celular e então voltou a atenção completamente para o loiro no espaço: -- Se bem que nem dá pra chamar isso de barba não é? Normalmente eu não tenho que me preocupar porque tiro na cera, mas sendo bem sincero eu tinha esquecido que tinha barba pra fazer hoje de manhã…! -- apontou pro próprio rosto, fazendo alguma graça, agora finalmente lançando um olhar mais atento para Didier e o observando nas roupas casuais, o rosto com alguma maquiagem, será que ele tinha dormido alguma coisa depois de toda aquela conversa? Cansado os dois estavam, mas se o sono tinha sido o suficiente para estar descansado no outro dia, aí era outra conversa:
-- Você parece mais disposto hoje, isso é bom. Conseguiu descansar pelo que dá pra ver -- o moreno mais novo, voltou atenção para o espaço que tinha arrumado: -- E a cozinha é dos dormitórios, você pode ficar onde se sentir mais confortável. -- pontuou o óbvio, não tinha direito de mandar ou desmandar no espaço: -- lhe chamei para pedir ajuda, provando e avaliando o que eu preparar, mas se quiser acompanhar o preparo dos pratos de perto eu não vou reclamar. -- comentou tentando voltar a atenção ao que tinha ido fazer na cozinha, mas achando toda aquela dinâmica um pouco estranha, mas ao mesmo tempo muito reconfortante por poder passar tempo de novo com Didier. A parte mais estranha era certamente manter distância, embora na frase anterior tivesse dito que ele podia se aproximar se quisesse, aquilo certamente era confuso, mas o que não era naquela nova dinâmica? Tinham de reaprender a conviver e respeitar os espaços individuais um do outro.
Renaud pegou a carne descongelada e uma de suas facas, mas antes de começar os cortes, espiou por cima do ombro na direção do loiro: -- A propósito Didier, obrigado por vir. -- sorriu discreto, antes de voltar a atenção ao que tinha de cortar, para não arrancar um pedaço dos dedos no processo por estar distraído.
Didier
O “Oi” de Renaud foi tão natural quanto o de Didier. O nervosismo dele deveria dizer muito de como a interação do dia anterior tinha sido marcante, porém, o próprio Didier estava tão travado ainda que sequer percebeu inicialmente que o moreno estava em pé de igualdade com o nervosismo. Honestamente, nem se preocupava com o que ele estava preparando, porque sabia que a comida de Renaud era gostosa. Era melhor focar na novidade, que era a barba. Isso tinha lhe deixado verdadeiramente intrigado.
Abanou com a mão quando ele disse que obviamente tinha barba, a expressão ainda surpresa.
- Lo sé que você tem barba. Até eu tenho barba. É só que... no la había visto. – respondeu, ouvindo então a narração de como ele tinha chegado naquele estado barbado. O fato de Renaud estar acostumado com a cera e ter esquecido por conta das muitas outras coisas ocorrendo fez Didier inconscientemente levar as mãos até o rosto, tocando a área do queixo, mandíbula e bigode para ter certeza que a sua também não tinha lembrado de crescer enquanto não percebia. Mas estava limpo.
Antes que Didier pudesse comentar qualquer outra coisa sobre a barba, talvez porque ainda estivesse pensando, Renaud disparou a falar sobre sua aparência e o convite, o que fez o loiro olhar para as próprias roupas e depois para o Blanco ainda sem saber completamente o que estava fazendo.
- Você também, Renaud... parece bem e disposto. – comentou, passando pelo moreno para procurar uma cadeira vazia para se sentar, puxando uma, mas não sentando imediatamente. – Não quero te molestar en la cocina. Vou só me sentar. – avisou, então ouvindo o agradecimento dele e abrindo um sorriso inconscientemente. – Gracias por me llamar. – respondeu igualmente, antes de sentar.
Renaud
Era tudo novidade naquela situação, não eram mais os mesmos de antes, mas eram ainda as mesmas pessoas, e essa estraheza somada a euforia momentânea de poder trocar tempo e palavras com o Didier, deixavam o jovem Blanco, inquieto e com um sorrisinho de canto de boca, como se estivesse pensando em algo engraçado. Renaud prosseguiu com o preparo dos pratos, colocando coisas para cozinhar, tentando focar em não ficar olhando para o loiro, para ficar reconfirmando que ele de fato estava ali:
-- Não se preocupe, não vai me incomodar se você acompanhar o preparo de perto. Amanhã durante a avaliação do prof. Funske muito provavelmente a cozinha vai estar lotada de alunos, já que vamos estar no restaurante dele, então eu vou ter pouco espaço pra transitar na estação que eu estiver.-- Espiou por cima do ombro na direção do loiro, não somente para mostrar interesse na conversa, mas porque olhar para ele era muito bom: -- No mais, como vou ficar na cozinha, justamente no preparo e montagem, duvido muito que o professor me deixe entrar com esse protótipo de barba de adolescente, então vou ter de me barbear, nem lembro a última vez que eu fiz isso sozinho. -- riu de forma singela fazendo um pouco de graça.
Os dedos das mãos estavam doloridos, e parou um tempo para massagear as mãos nos nós dos dedos, antes de por luvas plásticas, para manusear as peças de carne agora descongelada. As facas pareciam mais pesadas do que de costume, e cortar os filés estava um pouco mais difícil do que se lembrava. Era algo pra se tomar nota, poderia influenciar no seu tempo de preparo nas estações.
Didier
Com o aval de Renaud de que não tinha problemas sentar próximo da cozinha para vê-lo cozinhar, até puxou um pouco mais a cadeira. Gostava da comida do moreno, e assistir enquanto ele fazia as preparações lhe trazia uma boa nostalgia. E claro, podia até ser bem ignorante quanto a tudo que Renaud sentia porque nunca deu muita atenção aos sentimentos alheios, mas sabia que ele apreciava também aquele momento, ou aquele sorriso discreto não lhe saltaria os olhos tão facilmente.
Abriu um sorriso de volta com a brincadeira dele sobre a barba, aos poucos pensando na possibilidade que aqueles tocos de barba lhe possibilitavam. Observou o moreno enquanto ele tentava cortar com menos velocidade do que estava acostumado a ver, mas sem dar muita atenção inicial a isso, hesitou por um instante apenas antes de cuspir as palavras:
- Puedo afeitar la barba? - tentou tomar a oportunidade tão rápido que sequer pensou em falar francês. – Digo... puedo afeitar sua barba, se quiser. Apesar de não parecer, yo afeito mi barba com mais frequência que você. Puedo ayudar. – sugeriu, quase cruzando os dedos na expectativa de que ele aceitasse, afinal, era uma ótima oportunidade para tocar Renaud, e ficar mais um tempo com ele. Então, aos poucos percebeu que havia acabado de dizer que tinha mais pelos na cara que Renaud, o que lhe deixou levemente confuso. – Ahh... será que adianta dizer que tenho pelos en la cara quando não tenho metade da sua masculinidade? – bufou.
Renaud
O jovem Blanco tinha terminado de praticar os cortes de carne que faria no horário da prova, e já tinha deixado uma vasilha para imergi-los em temperos. Já tinha percebido que teria mais trabalho pra cortar do que gostaria, agora tinha de testar a parte de montagem. As coisas cozinhavam e o vapor facilmente tomava conta da cozinha pequena dos dormitórios quando ouviu o comentário em espanhol, entendeu mas não compreendeu, e foi necessário espiar por cima do ombro na direção do loiro.
Quando então ele repetiu a frase fazendo a proposta, sentiu um formigamento no estômago que era estranho, quase uma sensação eufórica da possibilidade de passar mais tempo com Didier. Tornou a voltar a atenção a comida, mas estava com um sorriso singelo no rosto: -- Ah, seria ótimo, com as minhas mãos ruins do jeito que estão, mesmo que eu fosse inventar de fazer sozinho, com certeza isso não daria certo. -- o tom de voz foi mais suave, do que das falas anteriores, o que reforçava que o Blanco estava satisfeito com a proposta. E quando escutou o complemento, então ficou mais notável que Renaud ergueu um sorrisinho diante do comentário de Didier:
-- Partindo do ponto de que, quem vai ao SPA pra fazer a barba e se depilar sou eu, essa questão de masculinidade é ponto totalmente questionável. -- brincou, dessa vez até soando com um pouco de graça. Pegou parte dos molhos que estava preparando e separou em pires diferentes, com uma colher pequena, e deixou sobre a mesa perto de Didier: -- Pode provar, molho branco de ervas, e molho com vinho, pra acompanhar a carne e os legumes cozidos, Eu não tenho como provar, então me diga o que acha. -- Nada muito elaborado, cebola, alho, alecrim fresco, algumas especiarias e pimentas de cheiro para deixar mais suave, e no outro molho, mais encorpado com vinho seco, tomilho, alho poró, louro e outras especiarias mais potentes:
-- Eu estou responsável pela montagem dos pratos com carne, então tirando os cortes e preparação eu fico com montagem para fazer, vou cronometrar o tempo de montagem, depois você prova, eu limpo a cozinha e estou livre para deixar meu protótipo de barba aos seus cuidados. -- comentou, tornando a dar atenção ao preparo dos alimentos, para então pode ir para montagem, as outras coisas já próximas do ponto de serem retiradas, ao menos, no controle geral de tempo, ainda estava dando conta.
Didier
A resposta positiva de Renaud para seu pedido lhe fez discretamente soltar um longo suspiro satisfeito, especialmente porque até o próprio Renaud parecia contente com a perspectiva de passarem mais tempo juntos. Assistiu enquanto ele terminava a preparação, rindo do comentário sobre ele ir ao Spa e fazer depilação, embora ele tivesse a desculpa da natação para isso. Mas de fato, Renaud era quase tão preocupado com a aparência quanto Didier. E os dois tinham momentos bem metrossexuais.
Observou enquanto ele trazia pires com os molhos, tirando uma colherada de um de cada vez, provando cada molho, mas apreciando mais o com sabor de vinho e temperos mais fortes, pois tinham um pouco mais de tempero familiar. Mas tinha achado ambos gostosos.
- Hmm...! Eu adoraria esse molho de vinho por cima de uns vegetais asados a la parrilla. Eles geralmente não tem muito sabor, então ficaria bem sabroso com uma carne. – comentou, bastante satisfeito em passar a colher pelo restinho do molho. – O molho branco também está bem sabroso, mas suave. Tem romero, sí? – Didier então abriu um sorriso largo. – Sua comida ainda está deliciosa.
Ouviu ele contar o que estaria fazendo na cozinha naquela prova e então arqueou a sobrancelha, estreitando os olhos para Renaud em uma provocação.
- E você melhorou la presentación del plato, Renaud? – brincou, pois bem sabia que a comida de Renaud era deliciosa, mas que beleza não era exatamente o forte das comidas do moreno.
Renaud
O jovem Blanco mudou as luvas plásticas que usava para manusear os alimentos crus, observando as bandagens se não estavam muito suadas, em tempo de ouvir os comentários de Didier sobre os molhos que havia preparado. Acenou positivamente, tomando nota de deixar uma poção bem generosa de legumes para o loiro em seu prato. e a ideia de preparar um prato que Didier achasse apetitoso lhe deixou mais empolgado, seria esse tipo de sensação que o prof. Funske estava falando?
-- Que bom, eu acho? Faz tempo que eu não sinto gosto da comida, por isso eu precisava de socorro. -- Ele deu de ombros, com um ar até leve, de quem fazia um gracejo, embora o ar cansado ainda pairasse sobre sua aparência de forma geral: --Sim, é Romero, uma versão que eu mesmo fiz, faz algum tempo, não estava com cabeça pra fazer invenções de temperos, então usei uma mistura que eu já tinha testado, nesse têm: alecrim selvagem, salsinha, alho e flor de sal, peguei uma variação do Marrocos na época pra testar.
Repôs as luvas plásticas, enquanto fatiava a carne recém cozida, expondo o meio avermelhado ao ponto, enquanto a parte externa apresentava uma cor brilhante pelo molho. Fatiou formando um desenho de flor, acrescentou os vegetais em formatos triangulares auxiliando o desenho, acrescentou o molho de vinho sobre a peça formando o desenho todo, e tomates cerejas pré-cortados em pequenas estrelas:
-- Tire suas próprias conclusões. -- Sorriu com o canto dos lábios, demonstrando um pouco de charme ao falar, estava longe do seu usual, muito longe em verdade, mas dava pra perceber o esforço que o jovem Blanco estava fazendo para relaxar e ficar mais confortável naquela conversa.
Montou o segundo prato com carne branca de ave, a faca bem amolada deslizava precisa, formando filés finos como papel, o segundo desenho também inspirado em uma flor, mas com aparência mais delicada nas camadas. Os vegetais estavam cortados em palitos finos, que concordavam com o aspecto do prato. Fechando com o desenho feito com o molho branco. Para acompanhar as duas carnes, tinha salteado arroz, porque gostava do sabor dele em acompanhamento com a carne: -- Eu não fiquei responsável pelos outros pratos, então fiz algo simples até pra não cansar. Minha sugestão de acompanhamento pra beber é água.
Didier
Supunha que quando também estava com um humor mais abatido, a comida não tinha sabor. E Renaud já vinha há algum tempo com esse aspecto mais abatido, dos problemas que ele andava enfrentando. Mas ao menos ainda achava energia para cozinhar e pensar receitas, então já era muito melhor que apenas se entregar ao marasmo.
Didier também tentava ficar menos sem jeito para lidar com Renaud, especialmente depois de tudo, mas ainda sentia que não estava perfeitamente natural. Exceto pelo fato de que fez uma expressão genuína de surpresa ao ver a apresentação do prato de Renaud, observando o moreno e em seguida a apresentação, batendo palmas quase que automaticamente quando ele concluiu o primeiro.
- Isso não é melhorar. Cambiaste de manos. – sorriu, embora não era como se Renaud fosse tão ruim assim. Era apenas que a comida dele de fato tinha uma aparência muito inferior ao sabor que apresentava. O segundo prato também ficou bem bonito, e fez Didier sacar o celular para tirar fotos em um ângulo bom. Podia não ser o estrela Arman Johnson, mas sabia como funcionavam fotos de comidas. – Puedo probarlas? – perguntou antes de pensar em tocar nos pratos. – Estão lindos.
Renaud
O fato de ver Didier tão empolgado com algo “simples” como comida era algo até reconfortante, nem sabia dizer de onde estava vindo aquele sentimento, mas como tudo em sua vida atualmente era uma sequência de novidades, apenas evitou de pensar demais sobre o fato, e aproveitou a sensação menos pesada no peito, que lhe permitia respirar sem tanta culpa. Descartou as luvas plásticas, e respondeu a pergunta de Didier com um aceno positivo:
-- Lhe chamei justamente para isso. Fique a vontade. -- Pontuou apenas colocando parte das coisas que tinha usado em seu devido lugar, estava acostumado demais ao modo de trabalhar na cozinha, por isso ia cozinhando, lavando e arrumando, em ponto, que ao terminar o preparo da comida, o local em si estava praticamente todo limpo; Após guardar suas facas de uso pessoal de volta na maleta depois de estarem devidamente higienizadas, acompanhou Didier sentando-se na mesa da cozinha do dormitório. Esperou que ele lhe atestasse se estava bom, ou apenas aceitável, dado as suas circunstâncias atuais não ficaria surpreso se a comida não estivesse tão boa, mas também tinha consciência que era muito mais exigente que a média de pessoas que conhecia:
-- E então? está comestível? -- a pergunta foi feita com genuíno ar de dúvida, como se houvesse a possibilidade da comida está ruim, e não o charminho costumeiro que o moreno mais novo costumava jogar, quando bem sabia que a comida estava impecável.
Didier
Com o aceno positivo de Renaud, Didier pegou o garfo, se perguntando por onde começar a provar os pratos preparados. Enquanto isso, o moreno pelo visto iria terminar de arrumar a cozinha. O loiro deixou de focar no pretenso Chef e começou cortando um pedaço de carne, comendo com o molho e os legumes, levando a boca rapidamente. Como não era surpreendente, considerando que o chef era Renaud, estava gostoso.
Aproveitou para pegar um pouco do outro prato também, tanto do frango quanto do arroz, dando uma garfada generosa. Suspirou feliz com a comida igualmente saborosa, supondo que mesmo que agora estivessem bonitas, Renaud não deixaria de fazer algo bem preparado.
Para se certificar, tirou mais um pedaço de cada prato, e depois mais outro, comendo-os intercalados, até que ouviu a voz do moreno atrás de si, lhe questionando se estavam bons. Levantou os talheres e olhou por cima do ombro para Renaud, encarando-o longamente ao notar que era uma pergunta genuína.
- Não. – respondeu com um quê irônico, deixando ele ver ambos os pratos pela metade enquanto colocava os talheres no lugar. – Están deliciosos.- foi mais honesto, limpando os lábios com o polegar. – Pensé que se aprendesse a arrumar os pratos, esqueceria como cozinhar. Pero me alegro saber que sua comida ainda é boa. Fazia tempo que não comia.
Renaud
O não irônico de Didier foi bem fácil de captar e se pegou desenhando um sorriso simples nos lábios. Vê os pratos pelas metade lhe dava uma sensação de dever cumprido, e era tão curioso tomar ciência dessas pequenas conquistas que se sentia um pouco uma criança por ter de reaprender a lidar com questões básicas de convivência:
-- Se eu lhe disser que eu tinha preguiça de arrumar os pratos você acredita? -- Comentou de forma despretensiosa: -- Eu não gosto tanto de alta gastronomia porque é muito cuidado com a apresentação pra uma comida de gosto duvidoso… mas agora vejo que é divertido assistir as outras pessoas surpresas ou tirando fotos dos pratos “bonitos”. -- comentou em tom de brincadeira, embora houvesse um ar de cansaço pairando sobre o Blanco, ainda assim dava pra notar que ao menos naquele momento o moreno mais novo não estava tenso:
-- Eu vou comer, lavar os pratos e podemos ir… -- ele fez uma pausa breve como se sentisse um leve desconforto em perguntar se ele faria sua barba em seu quarto ou no do loiro: -- Para o seu quarto. Se possível claro, o meu está…. um pouco bagunçado.
Claro que se sentiria um pouco estranho no quarto de Didier, mas tão pior seria se o loiro fosse no seu próprio quarto pra ver o espelho quebrado, os remédios em cima da bancada, papéis de trabalho e pilhas de atividades acumuladas. Não sabia se queria dividir aquela bagunça toda com o loiro ainda, talvez se sentisse muito invadido e forçado a explicar cada coisa, o que não queria naquele momento.
Pegou uma porção da própria comida, e tratou de se alimentar, da que não tinha álcool, embora não houvesse qualquer gosto na comida, decidiu confiar no que o loiro tinha lhe dito, se estava bom, então confiaria, mesmo que seu paladar estivesse lhe traindo nos últimos dias.
Didier
Didier arqueou a sobrancelha quando Renaud falou que a única coisa que o impedia de fazer pratos bem decorados era preguiça.
- No, señor. Não venha me decir ahora depois de anos fazendo pratos mal montados, só porque aprendeu a fazer todos bonitos que antes só tinha preguiça. No, no. – brincou, apertado os lábios, esperando Renaud também ter sua chance de comer. – E deixe que eu lavo os pratos. Comi metade da comida, poupe sus manos para a prova.
Antes que Renaud tivesse a chance de reclamar, pegou tudo que estava sujo. Tirou alguns depósitos de uso comum e etiquetas dos armários da cozinha comunitária do dormitório para guardar os poucos que sobraram para perguntar a Renaud se poderia petiscar depois com os filhos e rapidamente começou a lavar panelas. Só deu uma pausa quando ouviu o moreno falar sobre onde iriam fazer a barba dele.
Didier olhou por cima do ombro, lembrando que seu quarto estava genuínamente bagunçado também, já que desde a briga com o moreno, não tinha tido energia para nada. Tinha projetos de trabalho e livros marcados na mesa e no chão, suas roupas estavam em todo lugar, seus sapatos fora de ordem e sua cama ainda nem tinha sido feita. Mas sabendo que Renaud deveria ter também suas ressalvas quanto a lhe deixar entrar no quarto, supunha que não podia mais ficar omitindo esse lado de si.
- Si... desde que não se importe com mi desorden tambíen. – comentou, terminando de lavar todos os pratos e aproveitando para pegar os que Renaud já tinha comido. – Vamonos?
Renaud
Comeu um pouco ansioso de ter comentado algo que chateasse Didier, mesmo que estivessem agora em pé de igualdade, e não existisse uma obrigação de agradar o outro, não queria deliberadamente fazer algo que o chateasse. Mas para sua surpresa, as reações do loiro foram bem suaves, e aquilo lhe deixou menos tenso com toda a ideia de ir ao quarto do loiro. Terminou sua refeição e deixou que Didier tomasse conta das arrumações da cozinha, antes de rumarem de volta aos quartos dos dormitórios:
Poderia começar aquela frase com um pedido de desculpas por estar invadindo o espaço pessoal do outro, ou pedir desculpas por não ter deixado seu quarto disponível para a atividade em si, mas no fim, não falou nada imediatamente, tentando afastar aquela confusão mental: -- certamente não vou me incomodar.
Chegou ao quarto do loiro, e novamente, foi acometido pela recordação do dia que foi tentar falar com ele, e não conseguiu nem caminhar aquele curto espaço, no entanto com o próprio loiro, abrindo caminho, se sentiu mais impelido a seguir. Parecia fazer uma eternidade desde a última vez que estivera naquele ambiente, as roupas fora do lugar, os livros amontoados, a cama mal forrada, eram geralmente sinais de quando Didier estava chateado com sua mãe, ou cansado demais depois das vadiagens de rua, mas daquela vez sabia que não era por nenhum daqueles motivos, tinha sido ele que tinha causado aquela confusão toda. E isso lhe fez ficar estático no meio do caminho, com as mãos nos bolsos da calça de moletom, como se realmente não soubesse para onde se guiar dentro daquele ambiente:
-- Por onde quer começar? -- perguntou porque realmente não sabia como prosseguir ali, queria se sentir mais bem vindo, mas era notório que existia aqueles mesmos cacuetes de quando era criança, e não tinha permissão de estar nos lugares e simplesmente não queria incomodar ou fazer algo errado de propósito.

