09-17-2021, 03:51 PM
Renaud
Tinha sido uma longa terça-feira, talvez a mais longa de toda a sua vida, sabia que tinha conseguido dormir depois de muito cansaço físico e mental do dia anterior, o corpo reclamou descanso, e não sonhou com absolutamente nada, senão como se estivesse flutuando em algo morno, até de fato ser acordado. Não se lembrava da sensação de ser acordado antes, até porque sempre acordava muito cedo. Até se dar conta, que seu corpo não tinha reagido negativamente a ser acordado, apesar do cansaço, das dores dos machucados se recuperando e do enjoo leve que deveria ser fome, não tinha qualquer disposição de ser agressivo, ou como se precisasse se proteger. Aquele fato chamou a atenção do Blanco, tinha muita coisa sobre si mesmo que não sabia reconhecer, se sentia um pouco estranho, por ter essa estranheza latente, como se houvesse partes de si que não conhecia ou não sabia como funcionava. Mas não teve tempo para ficar entregue a pensamentos filosóficos, seu irmão estava lhe chamando porque precisava comer e ele iria se certificar de que iria se alimentar direito de manhã;
Foram até a cafeteria mais cedo do que a maioria dos alunos costumava ir, alguns alunos dos clubes esportivos estavam fazendo refeições apressadas, mas para o Blanco tudo seguia como se estivesse em câmera lenta. Não prestou atenção ao que foi conversado, nem exatamente quanto tempo levou até que um dos funcionários lhe trouxesse uma vitamina escura em um copo de meio litro. Tentou sentir o cheiro, mas ainda estava com o nariz um pouco congestionado da noite passada, em verdade olhar aquela comida lhe deu menos vontade de comer. Mas Sasha insistiu, lhe dando o remédio para enjoo, dessa vez esperando o tempo para que o mesmo fizesse efeito, assistiu seu irmão se alimentar, mas não conversou muito, apenas acenando positivamente ou negativamente. Quando finalmente tomou o líquido o mesmo desceu sua garganta com gosto de fuligem, o sabor áspero sobre sua língua, e a reação imediata do Blanco foi torcer a expressão, mas insistiu, fechou os olhos, e apenas engoliu, gole após gole, até que tivesse terminado. Sasha ainda riu de sua expressão somado a um bigode deixado pela vitamina, fazendo Renaud esquecer-se momentaneamente que estava enjoado, ficando levemente irritado com o mais velho por tratá-lo como criança.
Foi obrigado a levar frutas consigo, para comer em algumas horas, embora soubesse que não teria fome, estava lá “de três em três horas”, qualquer coisa que conseguisse por no estômago seria lucro pelo menos.
Se despediu de Sasha quando voltaram aos dormitórios, não iria para aula naquela manhã, então o mais velho iria pelo menos para mais tarde poder repassar os assuntos com ele. Não tinha esse hábito, mas podia ser algo pra fazer, pra mantê-lo ciente de que dia estava. Quando finalmente Renaud ficou sozinho, em frente a porta do próprio quarto, sentiu uma forte hesitação em entrar, as coisas estariam exatamente do jeito que tinha deixado, e todas as dúvidas que o levaram a deixar as coisas naquele estado. Engoliu em seco, e levou mais tempo do que queria para girar a maçaneta e entrar no ambiente caótico.
Mesmo com o nariz entupido o cheiro de laranja ainda impregnava o ambiente a ponto do ar estar completamente estagnado. O moreno mais novo caminhou pelo espaço com cuidado para não pisar nos cacos de vidro e abriu a janela, deixando que o ar entrasse no quarto. Queria arrumar tudo, mas não sabia se conseguiria, tinha tanta coisa fora do lugar, Renaud se abaixou pegando um dos cacos de vidro, de um dos seus perfumes, conseguia reconhecer o fragmento de vidro colorido, sabia de onde era o pedaço, mas com certeza mesmo que quisesse não conseguiria refazer o frasco do jeito que ele era antes; Assim como ele mesmo, sua memória era como um monte de cacos de vidro colorido, sabia de onde eram, mas não sabia como iria remontar tudo em seu devido lugar, ou se isso seria possível.
Tomou tempo da manhã catando os cacos de vidro, com cuidado para não se cortar ainda mais, não era o que esperava arrumar primeiro no próprio quarto, mas era um começo não era? Pelo menos poderia andar descalço no lugar de novo, sem medo de deixar um rastro de sangue no assoalho. Quando finalmente tinha terminado, o celular apitou.
[...]
Tinham se passado três horas?
Tão rápido assim?
[...]
Pausou o alarme e sentou na mesa da escrivaninha, olhando para a maçã que seria seu lanche. A vontade de comer era inexistente, mas não estava enjoado.
[...]
Precisaria tomar o remédio?
Ele não lhe abriria o apetite de toda forma… então é inútil…!
[...]
Experimentou morder a fruta mesmo sem tomar o remédio. Não tinha sabor algum, era como mastigar papel, sem gosto de absolutamente nada, e aquilo desceu, mas não lhe despertou enjoos ou náuseas suficientes para querer por tudo para fora. Não tentou comer uma segunda fruta, atestando que ter ao menos uma no estômago era um ganho maior, do que tentar comer duas, e vomitar até o café da manhã.
Tomou um banho, e tentou trocar as bandagens nas mãos, sem muita destreza, notando como estava sem manejo fino para fazer os curativos apropriadamente. Vestiu uma calça jeans escura, camisa xadrez vermelha de botões e mangas cumpridas, suspensório preto liso, e por cima pôs um blazer, não iria para aula, então podia dispensar o uniforme, e usar algo mais fácil de tirar caso o médico precisasse verificar algum de seus machucados.
Caminhou até o prédio administrativo, e novamente sentia como se a academia estivesse deserta, porque não conseguia enxergar ninguém, ou ouvir, ou simplesmente sentir o cheiro de qualquer outra coisa. Não estava muito ciente do tempo, mas seus pés já sabiam fazer o caminho de forma inconsciente, e chegou a porta da sala de aconselhamento estudantil, perto das 10hs da manhã.
[...]
Era o meio do horário de aulas,
Não devia ter qualquer outra pessoa não era?
Queria poder conversar com o outro, mas só tinha ido buscar uma dieta pra se alimentar adequadamente...
[...]
Bateu na porta, dois toques suaves: -- sou eu…! – diferente de vezes anteriores, onde o Blanco simplesmente esperava que o outro lhe desse permissão para entrar, precisou reforçar quem era. Estava um pouco ansioso, em verdade não sabia se o outro estava livre ou disposto a conversar consigo. Renaud jamais teria imaginado, que estaria ansioso para conversar com algum psicólogo qualquer que fosse. Realmente, ainda tinha muita coisa que não sabia sobre si mesmo, afinal.
Aleksei
Aquela terça tinha sido provavelmente um dos dias mais cansativos que tivera desde que chegara a Cerise. Isso se não contasse os transtornos que Stefan tinha lhe causado e que terminaram em sessões com Vivien para lhe dar algum alívio físico e mental. Mas agora estava verdadeiramente cansado apenas por conta de um paciente com um quadro complicado e com a sessão que tiveram no dia inteiro, praticamente. Renaud Blanco já tinha se mostrado um caso especial em suas mãos desde que chegara a St. Clavier. Tinha demorado muito até conseguir arranhar minimamente a superfície do aluno, e depois que a confiança entre os dois tinha sido estabelecida, tinham progredido bastante. Ele tinha lhe mostrado algumas habilidades específicas, a ponto de estudar o suficiente outras pessoas e conseguir assumir outras personalidades, o que era até preocupante num quadro psicológico. Mas tinha mostrado também uma série de fraquezas e inconsistências emocionais com as quais estava lidando naquele momento. As últimas sessões que tivera com Renaud tinham sido bem reveladoras, numa definição bem ideal. A avalanche de sentimentos que uma discussão com Didier tinha causado resultou em reações inominadas e fatos que o próprio Aleksei desconhecia e esperava tirar do aluno depois de longos meses de terapia. E já faziam longos meses, certo?
A noite lhe rendeu longas horas de avaliação das fichas de Renaud, adicionada da sessão do mesmo dia, especialmente porque tinha pedido ao Blanco para voltar ao seu consultório na manhã seguinte para pegar uma dieta nova. Claro que tinha entrado em contato com um colega de profissão para pedir uma dieta com urgência, que ele lhe retornou mais ao fim da noite com os poucos dados que tinha fornecido de seu paciente sem entrar em aspectos confidenciais.
O relógio na antessala do seu quarto já marcava quase meia-noite quando deixou os arquivos de lado. Com os últimos relatos de Renaud e o modo como rele tinha reagido na defensiva, além dos detalhes da vida dele na infância e adolescência – em particular aquele sobre ter sido violentado por três homens –, já tinha uma ideia bem concreta do que estava acontecendo com o aluno. Mas apenas com uma perda de memória recente como aquela que ele tinha relatado do fim de semana, talvez ainda não fosse o caso.
Estava tudo lá: estresse, capacidade dissociativa, falta de compreensão e proteção em situações limítrofes desde a infância. Renaud podia ter se tornado um rapaz bem resistente ao longo da infância e da adolescência com aquela carreira em gangues. Mas psicologicamente… ele tinha acabado de perceber que tinha sentimentos. Talvez algo na mente dele já soubesse, e se aquele algo tivesse se desenvolvido a ponto de protegê-lo dos outros e de si mesmo, a situação poderia ser tão mais complicada. Se Renaud tivesse esquecido daquele dia só por algum choque mental, precisava fazer de tudo para recuperá-lo o quanto antes. Mas se algo tivesse conscientemente tomado o lugar de Renaud ao longo daquele período de perda de memória, nenhuma sessão seria capaz de recuperar a informação tão fácil. Pensar no diagnóstico de Renaud Blanco fez com que Aleksei sentisse um frio no estômago. A possibilidade de haver uma outra personalidade que tomava conta da mente do Blanco e que tinha toda a habilidade física dele ser real era assustadora e nostálgica. De um jeito bem desconfortável.
Mas Renaud era só um adolescente, mal tinha chegado à maioridade e estava verdadeiramente perdido, verdadeiramente precisando da sua ajuda. A atitude dele era o que mais lhe incentivava a ir mais fundo em cada uma das próprias pesquisas, estudos e pensamentos para ajudá-lo como fosse possível. Ele tinha ido até seu consultório pedir por ajuda e era o que faria, só precisava traçar uma trajetória mental de como começar aquilo e como abordar a situação, se Renaud teria condições mentais para aquilo.
A noite de sono foi curta, mas chegou ao consultório em St. Clavier bem antes do horário, bem disposto, devolvendo suas fichas e anotações para os arquivos e aguardando o retorno de Renaud, como tinha instruído a ele no dia anterior. Talvez o moreno só voltasse no dia seguinte, afinal, tinha especificado que o queria fisicamente recuperado, mas de qualquer jeito, estava preparado para recebê-lo quando fosse mais conveniente.
Sua manhã foi surpreendentemente livre. Não houve consultas sem marcação, nem crises inesperadas. O relógio marcava quase dez da manhã quando as batidas na porta lhe tiraram de sua concentração nas anotações dos pacientes. Colocou o óculos falso de volta, já estava com o jaleco e ia autorizar a entrada do aluno quando ouviu a identificação. Em um par de passos largos, alcançou a porta e abriu para que Renaud entrasse.
– Fique à vontade, Renaud. – deu espaço para ele. – Estava lhe esperando. Como se sente essa manhã?
Podia especificar se queria um relato físico ou psicológico, mas a resposta dele também lhe diria no que ele estava pensando prioritariamente, sem precisar de uma indicação de caminho a seguir.
Renaud
O tempo parecia uma coisa muito relativa, e fazia sentindo a todas as teorias escritas sobre. Afinal, o tempo de caminhar de seu dormitório até o complexo administrativo, com certeza foi maior do que o tempo que levou até que a porta da sala de aconselhamento estudantil se abrisse. No entanto, sentia com mais expectativa a porta se abrir ali, do que o longo trajeto de um prédio ao outro. Apenas naquele momento Renaud se deu conta de que o psicólogo não o chamava mais de Sr. Blanco, o chamava por seu nome e não pelo rótulo, e perceber aquilo, estranhamente lhe deu alguma sensação de segurança. E era estranho perceber que tinha tanta necessidade de segurança assim, e que podia senti-la junto a um psicólogo do qual conhecia a tão pouco tempo.
Adentrou o espaço, fazendo um meneio de cabeça como um cumprimento breve, sem de fato estender a mão machucada, e esperou em pé dentro do espaço da sala. Muito embora ele tivesse lhe dito, que estava esperando, isso era pela dieta, não queria dizer que iriam conversar. Atentou-se a pergunta do mais velho, fazendo uma pausa breve, observando-o longamente, e só então baixando o olhar para as próprias mãos de bandagens frouxas:
-- Bem… Bom dia Dr. Vlahos. – Cumprimentou primeiramente, afinal, no dia anterior tinha chegado com ares de desespero, era bom mostrar que ao menos não estava fora de controle. O loiro tinha lhe alertado que era pra voltar quando estivesse se sentindo melhor. Não estava se sentindo melhor de todos os seus problemas, mas ao menos, não estava se sentindo desesperado e fora de controle.
-- hm… fisicamente eu já estive melhor, alguns machucados novos... como dá pra ver – ergueu as mãos na altura dos olhos para que o loiro pudesse ver os pequenos cortes de vidro, com as bandagens rosadas em alguns pontos de contato com os ferimentos recentes – mentalmente eu consegui dormir, sem sonhos ou pesadelos, acordei ainda cansado, mas estava menos enjoado, consegui comer… -- fez uma breve pausa, finalmente desviando os olhos para observar qualquer outro ponto da sala, como o lugar de onde ele sempre tirava água ou toalhas, ou chá, só não queria encarar o rosto do psicólogo:
-- Emocionalmente eu estou meio dormente, como se estivesse anestesiado... sei lá, ou algo próximo disso…! – franziu as sobrancelhas e acenou negativamente, pondo as mãos de volta nos suspensórios, deixando-as pendentes de forma um pouco mais relaxada. Como se não fosse de todo estranho ter de falar como se sentia para o outro, embora as descrições não fossem muito precisas, ou fizessem muito sentido:
-- vim buscar a dieta… -- o Blanco fez uma pausa breve, como se hesitasse em exteriorizar o pensamento, mudando as mãos um pouco de posição e curvando os ombros em uma postura um pouco tensa e defensiva: -- e conversar… se tiver disposição e horário livre, é claro.
Existia clara hesitação na fala do moreno mais novo, embora ela estivesse direcionada ao fato do outro ter trabalho a cumprir, e não necessariamente por Renaud não ter disposição para querer conversar.
Aleksei
Se Renaud não estava reagindo bem no dia anterior, estava ainda mais anestesiado naquela manhã. Não esperava nada diferente, cada mínima reação dele, cada demora em responder era bem condizente com o estado físico e mental em que ele tinha saído do seu escritório e da enfermaria na noite anterior. Do mesmo modo, era até estranho vê-lo em roupas casuais dentro de St. Clavier, embora os suspensórios estivessem sempre ali. A última vez que o tinha visto daquele jeito tinha sido fora da escola, o que era apenas esperado. Mas não foi especificamente a roupa que lhe chamou a atenção, e sim as bandagens frouxas com algumas manchas bem específicas nas mãos dele. Ele não tinha deixado a enfermaria com aquele machucado, então só podia supor que a noite tinha sido bem conturbada também. Observou-o com o cuidado de sempre enquanto ele atentava para as próprias mãos, anunciando que aquele fazia parte do seu estado físico e mental.
Deixou que ele entrasse na sala e fechou a porta logo depois, dando espaço para que ele circulasse na sala também antes de decidir onde se acomodar, ou se buscaria logo a dieta dele em seus arquivos à mesa. Ainda ficou de olho no aluno em cada resposta dele e reação, recebendo mais informações do que esperaria em meses de consulta, mas que condiziam com o estado em que eles tinham chegado nas últimas semanas. Era notável, principalmente, como ele evitava lhe encarar, e não tirava a razão dele de não querer olhar diretamente à pessoa que sabia tanto do que havia debaixo daquela capa. Qualquer um se sentiria incomodado em ser lido com aquela facilidade.
– É bom saber que conseguiu dormir e comer. – Aleksei respondeu, para não deixá-lo naquele silêncio incômodo entre as próprias palavras. – Anestesiado é uma boa palavra, podemos trabalhar com isso.
Já era um progresso que ele tivesse feito aquilo, que tivesse conseguido dormir e comer, além de tentar lhe especificar como se sentia emocionalmente. O progresso no estado físico poderia lhe abrir as portas aprofundar o seu tratamento… ou para passar o seu diagnóstico. Mas Aleksei não sabia ainda o quanto o estado mental dele poderia suportar uma conversa mais específica focada no que descobrira das últimas sessões. E afinal de contas, Renaud tinha ido ali apenas por uma dieta, embora a inquietude e a inconstância no olhar lhe denunciassem que ele estava buscando mais que aquilo.
Aleksei estava disposto a sugerir uma conversa quando ele falou sobre ir buscar a dieta apenas, mas o próprio Renaud se ocupou em completar a sentença, entrando num estado defensivo que era bem incomum para ele.
– Já estou com sua dieta. E sempre tenho disposição para conversarmos. Com sorte, também estou com o tempo livre. – Aleksei respondeu, andando então na direção do centro da sala onde havia as poltronas em que geralmente consultava os alunos, mas não parou nelas, seguiu até o fundo da sala e pegou um lenço e um copo com água, improvisando, para voltar até a mesa de centro entre as poltronas e colocar os itens ali. Poderia ter deixado o aluno confuso, mas não se sentou de imediato. – Posso ajudá-lo com isso? Não parece que vai durar até o almoço. – indicou as bandagens frouxas nas mãos dele. – Onde prefere se acomodar?
Deixou que ele escolhesse se queria sentar na poltrona ou no chão, como tinham feito nas últimas sessões. O copo de água e o lenço eram o que tinha de improviso para ajudar a limpar os machucados nas mãos dele e refazer as bandagens. Mais do que aquilo, precisaria ir até a enfermaria e não parecia uma boa ideia sair dali ou sequer levar Renaud consigo. Esperou o sinal verde dele para retomar a conversa.
– Então. Quer me contar o que aconteceu? – indicou os machucados das mãos, que se não estavam ali no dia anterior, tinham sido apenas mais uma resposta à intensa crise do aluno no dia anterior.
Renaud
Renaud não sabia que tipo de cara estava fazendo, em dias normais, teria plena certeza de não estar passando nenhuma impressão além de sua neutralidade costumeira. Mas no estado cansado em que estava, sabia bem, que uma pessoa treinada como o outro era, podia notar todas as suas pequenas hesitações e pausas para pensar e refletir, não sabia definir até onde aquilo era desconfortável ou simplesmente aceitável. Em verdade o moreno mais novo estava pouco acostumado aquela situação em que estava, na posição em que estava junto ao médico, e todas as expectativas que tinha em torno daquelas conversas. E por não ter parâmetros suas reações eram um pouco defensivas, embora não estivesse de fato interessado a se manter fechado.
[...]
Ser daquele jeito não tinha lhe ajudado em muita coisa pra lidar com aquele problema;
Então agora tinha de experimentar se abrir e vê se dava certo...
Tinha de acreditar que daria certo…!
[...]
Voltou a encarar o médico quando ele lhe disse que “anestesiado” era um bom estado, e que era algo possível de se trabalhar, e arqueou de leve a sobrancelha, fazendo um meneio de cabeça sutil, como se concordasse com o outro silenciosamente. Mas foi mais notório o relaxamento nos ombros quando o psicólogo atestou que tinha tempo para conversarem. Não se moveu dentro do espaço, mas observou quando o mais velho se afastou para buscar o copo de água e um lenço, deixando na mesa de centro, e observou tudo com um ar de leve confusão. Até que o próprio médico fez sentido em suas ações, perguntando se podia cuidar de seus machucados. E a expressão de surpresa foi mais notória nas sobrancelhas levemente arqueadas, e observou longamente o outro, os olhos escuros estudando as expressões do psicólogo, mas não respondeu a nenhuma pergunta imediatamente.
[...]
Ele vai mesmo cuidar das minhas feridas?
Porque ele faria isso? Está além do trabalho dele não é?
Mas ele me perguntar, quer dizer que eu posso escolher aceitar ou negar...não é?!
[...]
Renaud Tirou o Blazer e deixou no encosto da poltrona, e em seguida caminhou para o lugar de sempre, no chão, sentando-se sem muitas cerimônias:
-- eu acho que tive uma crise... não sei que outro nome usar para chamar o que eu tive…
Não tinha chegado a abotoar a camisa xadrez por estar sem manejo fino, por isso não precisou desabotoar a peça, e então apenas dobrou duas vezes para expor melhor as mãos, e as manchas roxas que tinha da briga anterior, que agora estavam menos esverdeadas que no dia anterior: -- Eu tomei um banho, pra tirar o cheiro da enfermaria de mim e fui responder mensagens no telefone, muitas delas do Deodatos, do trabalho, muita coisa que eu precisava pelo menos dar alguma resposta, mesmo que fosse “vaga”... mandei mensagem para Sasha e Isaac e depois disso apenas fiquei lá... sentado no chão...
Estendeu as duas mãos com as palmas para cima na direção do outro, como se esperasse para ver o que ele iria fazer, como trataria ou o que faria. E era possível notar que existia certa curiosidade do Blanco nas atitudes do médico, como se ele quisesse achar sentido no gesto. Mas essa inquietude não impediu que Renaud prosseguisse com sua narrativa:
-- Sasha apareceu, trazendo janta, eu estava “desse jeito” como estou agora, sendo que mais abatido, eu acho... tentei comer mas não deu certo...
Pausou no meio da frase, tirando o olhar do médico e dando de ombros, e focou o olhar em como o outro iria cuidar de seus machucados, porque Sasha costumava ser grosseiro, mas cuidadoso do jeito dele, bandagens desarrumadas mas bem presas. Didier aliviava a dor física com remédios primeiros, pra depois cuidar dos machucados, tudo feito, regado a muitos comentários e conversa para que não desmaiasse enquanto ele tomava conta dos ferimentos. Isaac costumava ser malvado, lhe fazia sentir dor, mas ele se certificava de que estaria tudo em seu devido lugar. Não sabia como era o jeito do outro de tomar conta de seus machucados, mas aquilo lhe trazia um conjunto de sensações estranhamente reconfortantes e por isso, não foi tão penoso falar sobre como foi a noite passada:
-- Eu comecei a ter um enjoo forte, e fiquei desesperado porque eu não queria por tudo pra fora de novo, e de novo e de novo... mas não deu certo, e aquilo me encheu de raiva e frustração e eu comecei a rir... – deu de ombros, acenando negativamente sobre aquele detalhe, não sabia explicar porque tinha rido ou qualquer uma de suas reações ao longo do ocorrido, só estava descrevendo o que tinha acontecido, como se lembrava: -- Porque parecia que não importasse o que eu fizesse, não iria fazer diferença, e pensar assim me deixou com ainda mais raiva... – o moreno mais novo respirou fundo, piscando longamente, como se estivesse buscando as melhores palavras pra descrever como tinha sido a noite passada: -- eu comecei a descontar nas coisas do banheiro, quebrei perfumes, o espelho, depois acabei me desequilibrando, tentei me segurar sobre os cacos de vidro, e foi quando percebi o que estava fazendo... aquilo me deu angústia... nem sei dizer de onde veio... só sei que comecei a chorar…
Voltou a encarar o Dr. Vlahos, os olhos escuros parecendo ainda mais escuros do que de costume, porque tinha um montante de emoções ali, mesmo que o próprio Renaud não soubesse nomear e explicar de uma forma convencional:
-- Não sei se você já mergulhou antes Dr. Vlahos, mas quando você cai na água sem ter segurado o fôlego ou está muito nervoso, você afunda! E muito rápido... não dá pra escutar quem está fora d’água, e se você se debate é pior, parece que se é arrastado pro fundo ainda mais depressa... e a partir daí, eu não estava mais sentindo, nem se eu estava chorando ou não, não sabia se eu estava no meu quarto, em que momento estava, tudo... tudo…! estava vazio! e aquilo foi me engolindo, como se eu fosse me afogar…! – Renaud engoliu em seco, e desviou os olhos novamente para qualquer outro ponto na sala: -- Nessa hora o Sasha me puxou e me chamou, disse que “estava lá”, e eu me agarrei a ele, como se fosse uma boia no meio do oceano, e eu precisasse desesperadamente dele pra sobreviver... então eu voltei a sentir tudo de novo, como se estivesse multiplicado por mil e demorou um bom tempo... até que eu parasse... e me acalmasse…! Foi assim que eu fiquei “assim”!
O moreno mais novo voltou a observar o médico a sua frente e ergueu as mãos levemente, para enfatizar os machucados das mesmas, e a relação com tudo que tinha descrito da noite passada e os ferimentos.
Aleksei
Era bem mais fácil acompanhar os trejeitos de Renaud naquele estado, mesmo que não quisesse que o aluno estivesse daquele jeito. Havia alívio à confirmação de disposição para conversar, assim como havia surpresa diante do seu pedido para ajudá-lo. Era uma série de pequenos trejeitos que mostravam como o Blanco não estava acostumado às atitudes mais básicas da convivência entre iguais.
Aleksei esperou que ele se sentasse e o acompanhou, do mesmo modo, sentando-se diante dele. O copo e o lenço na mesa de centro tinham sido colocados ao alcance, mas ainda esperou algo mais em confirmação para cuidar das mãos dele. Ouviu-o dizer que devia ter tido uma crise, mas ao invés de dar alguma definição para o que ele pouco conhecia, observou os gestos até ele arregaçar as mangas, os movimentos nos dedos estavam realmente comprometidos, então imaginou o que haveria debaixo das ataduras e o que tinha acarretado os machucados. Ele mesmo começou a narrar a sua noite, e os detalhes que adicionava só mostravam que o nível de estresse estava realmente nas alturas no dia anterior.
Finalmente ele lhe estendeu as mãos com as bandagens folgadas e entre começar a desatar o tecido e adicionar ao que ele tinha dito, resolveu continuar apenas como ouvinte da narrativa. Segurou uma das mãos dele entre as suas e desenrolou as faixas, mas as deixou de lado, considerando que não havia nada para substituí-las depois. Só ao desfazer as bandagens foi que entendeu a hesitação nos movimentos com as mãos, toda a área cheia de cortes abertos provavelmente causados por vidro ou metal, o que se confirmou como sendo o primeiro depois da narrativa detalhada. Aleksei trouxe o copo com água para si, junto com o lenço e umedeceu o pano limpo para passar pelos ferimentos abertos, tirando o excesso de sangue seco e pressionando um pouco em algumas das feridas que tinham algumas gotas frescas de sangue, provavelmente por algum movimento involuntário dele.
Manteve a atenção principalmente nas mãos cortadas, mas atentou para cada palavra e erguia os olhos com frequência para encará-lo e notar os pequenos trejeitos diante da narrativa, percebendo principalmente como ele tentava dar pouca importância aos acontecimentos com os gestos de dar de ombros, ou especificamente como tentava entender o que tinha acontecido consigo mesmo. Ainda mais indo dos risos à raiva.
Quando ele chegou à angústia, Aleksei já tinha limpado os ferimentos da mão esquerda e a enfaixou de volta, sem apertar demais e deixando a faixa muito mais ajustada do que antes. Devolveu o olhar dele ao revelar que a angústia tinha levado ao choro e antes de interrompê-lo, ouviu uma definição muito específica que comparava a sensação dele com um mergulho. Não precisava ser especialista em mergulho para entender o que Renaud estava lhe descrevendo, e as analogias eram bem convenientes. Mas a melhor parte da analogia era a pessoa que tinha aparecido para puxá-lo do fundo do poço.
- Eu não estou familiarizado com mergulhos, mas posso entender a sua analogia, Renaud. - Aleksei estendeu a mão, num pedido silencioso para que ele lhe estendesse a mão direita para terminar de limpar os machucados e reenfaixá-la. - Você teve sim uma crise. - confirmou a suposição inicial dele de que tivera uma crise naquele dia e talvez aquela tivesse sido uma das poucas vezes em sessões entre os dois em que tinha dado uma resposta tão direta. Não o tinha feito porque não achava que Renaud não conseguiria chegar lá, mas especificamente porque ele tinha chegado na definição e agora faltava a reafirmação. - Estava cansado física e mentalmente, pensando em todos os problemas com os quais tinha de lidar, com a pressão que veio de todos os lados, além do estresse do seu fim de semana incompleto. Foi uma noite difícil, e acho que nós dois sabíamos que seria muito difícil.
Voltou o olhar para a mão dele, limpando os outros ferimentos superficialmente para não causar mais dor, eventualmente molhando o lenço na água que já tinha assumido uma tonalidade mais rosada.
- Você ainda não “pôs pra fora” tudo o que tinha, e é por isso que essas crises surgirão quando menos esperar. É por isso também que além das suas sessões comigo, vou lhe prescrever remédios que vão lhe ajudar a lidar com as situações e ver tudo com um pouco mais de clareza. - Aleksei explicou, agora enfaixando a mão dele de volta para o estado anterior, com as bandagens bem colocadas. Parou no meio do processo e ergueu o olhar para encará-lo de volta, mais direto. - Mas quero que entenda uma coisa, Renaud: você não vai afundar. Seu frater estava lá para você, você tem amigos que estão lá por você. Eu não vou deixar que afunde. Nós estamos sempre aqui. Você não vai conseguir lidar com isso sozinho e não queremos que tente sozinho também. Assim como esses cortes, sua mente vai se recuperar.
Não estava se colocando como um amigo, claro, mas Renaud bem sabia daquela distinção e era o que ele precisava para que pudessem dar seguimento ao tratamento. Voltou a enfaixar a mão alheia e em pouco tempo, finalizou o serviço.
Renaud
Renaud estava sim, surpreso com a própria capacidade de narrar os fatos, das vezes anteriores tinha sido muito mais difícil, quando tinha brigado com Didier tinha passado um tempo falando em espanhol pelo choque. Ontem estava tão abalado que sequer sabia organizar os acontecimentos em sua cabeça, não que no momento em que se encontrava, o moreno mais novo pudesse organizar os fatos em uma sequência temporal concisa. Mas já tinha admitido pra si mesmo, depois da conversa com Sasha, que essa situação, era algo de que não tinha mais “controle” completamente, e precisava achar um jeito de “reaver esse controle”. E a única pessoa que sabia que poderia lhe ajudar, estava ali, a sua frente arrumando suas bandagens.
Se atentou ao fato de que o psicólogo já tinha terminado de cuidar de uma de suas mãos, apenas quando ele fez o gesto indicando que lhe estendesse a outra. Sequer tinha sentido diferença no toque dele, no passar do pano úmido sobre os cortes e sangue seco. Tudo pareceu desenhado de um jeito tão discreto, que passou despercebido para o jovem Blanco, e a reação imediata foi de surpresa. Mas não teve tempo para se apegar aquele sentimento, logo após terminar sua narrativa dos acontecimentos recentes, obviamente o Dr. Vlahos tinha seus próprios comentários para acrescentar do ponto de vista dele sobre a situação. E para a surpresa de Renaud veio uma confirmação.
“Você teve sim uma crise.”
O jovem Blanco estendeu a mão direita, dando permissão para que ele cuidasse da mesma, mas a atenção estava mais direcionada as palavras do psicólogo diante de sua situação. Quando o mesmo destacou que ambos sabiam que ia ser uma “noite difícil”; o moreno mais novo deixou escapar um breve suspiro de conformidade.
Não sabia exatamente ao que ele se referia sobre “por para fora”, estava se referindo a exteriorizar sentimentos mais profundos de forma intencional? Como os que tinha recém- percebido sobre Didier, para o próprio? Ou era um comentário direcionado aos dias perdidos do fim de semana, que precisava dar um jeito de “por para fora”. Aquilo lhe causou uma leve confusão, que foi perceptível no calafrio que perpassou todo o corpo do Blanco, e alcançou a ponta de seus dedos em um tremor suave. Principalmente quando ele lhe destacou que precisaria tomar ‘remédios’ para lidar com aquilo. Chegar ao ponto de precisar de medicamentos, de precisar de um psiquiatra, para além de um psicólogo, lhe deixava apreensivo sobre o quão ruim estava a própria situação.
Mas como se fosse capaz de ler os pensamentos de Renaud, e ler a sequência de raciocínio auto depreciativo, o Dr. Vlahos, fez questão de destacar os apoios que tinha. E que mesmo estando bem na sua cara, não tinha percebido, ou mesmo dado atenção devida.
[...]
Tinha seu frater, sua verdadeira família;
Tinha amigos próximos, surpreendentemente mais próximos do que podia imaginar;
E tinha pedido ajuda ao psicólogo e ele tinha aceitado lhe ajudar.
[...]
Dr. Vlahos tinha escolhido deixar de lado todas as outras seções onde o moreno mais novo se ocupava apenas de brincar com ele, sem de fato levar a sério nada daquilo. Para no momento em que o Blanco tinha mudado de postura, o outro mudou também. O psicólogo não tinha qualquer obrigação de aceitar, poderia ter assumido que pelo fato do moreno mais novo, ter sido um delinquente, não merecia aquele nível de profissionalismo. Mas na contramão do senso comum, estava sim sendo tratado, bastava apenas do lado de Renaud aceitar de forma mais consciente que realmente estava em processo de terapia.
[...]
E que isso significava que estava doente.
[...]
-- Eu-…! -- fez uma pausa reorganizando os pensamentos, e desviou o olhar por um momento, voltando a atenção para as próprias mãos, e movendo os dedos brevemente para sentir a diferença entre os tipos de curativos feitos, mas não se demorou em voltar a falar: -- ...eu estou grato…! -- ergueu as mãos um pouco, sentindo desconforto, não exatamente por estar agradecendo ajuda, mas por não ser exatamente sobre as bandagens o motivo de se sentir grato, e talvez por isso, não tivesse parado a frase apenas naquilo: -- ...por me ajudar a não afundar... já que estamos usando esse termo para a situação…!
Renaud passou a mão brevemente sobre os fios curtos pondo-os para trás, e depois mudou de posição, cruzando as pernas, em uma postura mais confortável, repousando as mãos sobre o colo com as palmas viradas para baixo, uma sobre a outra:
-- e … eu tenho algumas dúvidas, não sei até onde o senhor pode me responder Dr. Vlahos, mas o que puder explicar eu já fico satisfeito, da mesma forma, o que precisar saber... você pode me perguntar, vou tentar responder, na medida do que eu conseguir…! – Pigarreou de leve, focando nas próprias dúvidas, antes de dar espaço para que o outro lhe perguntasse o que ele precisava saber sobre si, que ainda não sabia: -- primeiro, se, eu vou precisar de medicação, isso quer dizer que eu estou doente, certo? Segundo, admitindo que eu estou em “tratamento”, isso vai mudar a lógica das nossas conversas, como vai ser a partir de agora?
Era notório que existia certa hesitação em admitir que estava em “tratamento”, a própria ideia era tão inédita para o jovem Blanco, que ele sequer sabia como proceder naquela situação. Nunca tinha levado terapia a sério o suficiente, para conversar sobre o que é: “fazer terapia de fato”. Nunca tinha realmente se preocupado em querer saber como aquilo funcionava. Mas agora, naquele momento, Renaud tinha muita necessidade de entender o que ele podia fazer, e o que o outro podia fazer, para que não tivesse que ter outras “noites difíceis”, como as que estava tendo.
Aleksei
Renaud tomou um certo tempo para assimilar tudo o que estava dizendo e Aleksei conseguia notar nos pequenos trejeitos dos movimentos involuntários do corpo dele, como na reação a um calafrio, ou no olhar surpreso e desconfiado diante de uma série de informações bem diretas. As sessões dos dois, até então, tinham um caminho bem diferente, considerando o modo como Renaud era sempre evasivo e como Aleksei se esforçava para não ser convencional como o que ele estava acostumado. Mas com um paciente disposto a se abrir, que tinha pedido tão diretamente por ajuda, podia se dar ao luxo de ser direto e de ser invasivo até, ao ponto de conseguir tirar as informações que precisava para um diagnóstico adequado.
Mas revelar a Renaud que ele estava num estado que necessitava de medicação pareceu pegá-lo bem desprevenido. Ele demorou a responder, mas a primeira reação veio num agradecimento. Não pelos curativos bem ajustados, como teria imaginado de início, mas pelo fato de que estava ali por ele e para ajudá-lo. Aleksei apenas afastou o copo e o lenço para a mesa de centro de novo e respondeu ao agradecimento dele com um aceno de cabeça discreto.
Se comparado ao Renaud que tinha entrado em sua sala mais de seis meses atrás, no início do ano letivo, jamais teria imaginado que conseguiria ir tão fundo nas sessões com o rapaz esquivo e com perfil de sociopatia. Mas ele estava fraco, vulnerável, estava pedindo por ajuda desesperadamente... e a cada pedido sincero, Aleksei tinha mais certeza de que poderia fazê-lo se recuperar bem melhor do que o próprio Renaud teria perspectiva. Deixou que ele alinhasse os pensamentos e fizesse os questionamentos primeiro, antes de fazer a sua parte em se aprofundar mais nas questões que desconhecia do Blanco. A recusa dele em perceber que já estava em tratamento era notável no modo como o corpo se retraía e como as próprias palavras se destacavam no discurso em um tom de estranhamento e hesitação.
- Primeiro, eu deveria lhe dizer que esteve em tratamento desde o primeiro momento que entrou na minha sala, Renaud. Pode parecer estranho pensar nisso, ou sequer admitir, e o tipo de tratamento que temos aqui é muito diferente do que você está acostumado quando se machuca. A diferença, em nosso caso, é que um tratamento só é eficaz quando o próprio paciente decide que precisa dele. E não posso demandar que um paciente se sinta à vontade conversando com um completo estranho, não é mesmo? - Aleksei começou a explicar, e sabia que era o suficiente para que Renaud entendesse parcialmente o processo pelo qual tinham passado até haver uma confiança estabelecida ali. Afinal, o pedido de ajuda tinha vindo de Renaud, mesmo que Aleksei sempre estivesse disposto a ajudar. - A lógica de nossas conversas vai mudar de acordo com o que você se sentir confortável em me dizer. Nessa parte, não há alterações.
Precisava, claro, reafirmar que Renaud ainda tinha o controle do que queria e do que não queria compartilhar com ele, dentro daquela sala. Aleksei poderia perguntar o que achava pertinente, mas ele podia escolher não responder. Podia escolher voltar aos muros tão fortes em que todas as respostas eram evasivas, mas ele já sabia que aquilo não lhe ajudaria. Tratou daquela resposta primeiro porque lhe parecia de fácil compreensão, para só então voltar aos remédios.
- Sobre os remédios, entenda-os como os analgésicos que você usa para aliviar as dores de hematomas e cortes de brigas. A diferença é que estes vão aliviar as confusões de sentimentos em sua mente. - Aleksei seguiu com a explicação. - Sua mente está ferida. É por isso que você teve uma crise, é por isso que todos os sentimentos e sensações saem do seu controle e precisam ser extravasados. Com a medicação, você terá uma verdadeira sensação de anestesia. Eles servem para que você evite essas crises, esses momentos de intensidade, até que aprenda melhor como seus próprios sentimentos funcionam e possa lidar com eles. Ter tantas emoções à flor da pele pode ser perigoso, principalmente para você mesmo, Renaud. - indicou as mãos dele, para mostrar como aquela crise, que ele mesmo tinha definido, tinha o machucado fisicamente também. E como aquilo podia ir além dos limites.
Não sabia se aquela explicação seria suficiente para ele, mas esperou, em silêncio, que ele não questionasse sobre a perda de memória. Se seu diagnóstico estivesse certo, aquele tipo de situação talvez não pudesse mais ser evitado com medicações fortes. Eventualmente, os dois chegariam àquele assunto, mas o psicólogo sabia que Renaud não poderia, naquele momento, se aprofundar demais nele.

