[Drive] [S]Talking [Ulysses; Charles; Fleur]
#1
Ulysses

Estar recluso em Cerise era certamente entediante. Tinha achado uma ótima saída para o seu estado atual ao conseguir o cargo de técnico de esgrima em St. Clavier, onde tinha estudado por vários anos, mas ainda precisava de umas boas duas semanas para começar a atuar, mesmo antes do início do próximo ano letivo. Por isso o seu dia de consulta tinha sido tão divertido ao encontrar um rapaz que era bem impetuoso mesmo estando numa cadeira de rodas. E claro que confusões à parte, as reações dele lhe deixaram levemente entretido e com muita vontade de continuar provocando. Por isso que, a despeito de todo o caos causado na última visita ao hospital e a provocação de beijar a mão dele para receber aquela reclamação pronta, ainda voltou ao Hospital Geral para conversar e jogar charme para algumas das enfermeiras mais fáceis até descobrir as informações que queria sobre o tal Charles.

Não foi tão difícil, e convenientemente, marcou outra sessão de fisioterapia para o mesmo dia em que sabia que ele estava no hospital. Não teve a sorte de chegar ao local no mesmo horário que ele, mas também não se importou de esperar nas cadeiras da recepção, depois de confirmar com a enfermeira caidinha que Charles tinha iniciado a sua terapia e terminaria em quase uma hora. Teve tempo até de lanchar alguma coisa e voltar até a recepção com um picolé na boca, bem na hora conveniente em que o loiro estava saindo do elevador de novo.

- Charles! Há quanto tempo! Você me abandonou na semana passada e nem conseguimos conversar direito. - anunciou, aproximando-se do loirinho e mantendo só a distância segura para não ser atacado tão logo.

Charles

Charles agora tinha uma rotina mais fixa com o Hospital, tendo que aparecer por lá mais vezes do que gostaria durante um mês, mas se isso indicaria uma possível melhora, poderia suportar por um pouco mais de tempo. O único receio que Charles tinha, seria topar novamente com aquela pessoa. Um adulto que conseguiu tirar sua paciência e invadir seu espaço pessoal mais rápido do que o Gralha. Isso acabou fazendo com que o cadeirante ranzinza prestasse mais atenção ainda nos seus arredores, para evitar ser pego de surpresa por uma companhia tão desagradável como aquela.

Chegou ao hospital, não viu sinal nenhum do desafeto e também não fez questão nenhuma de esperar para ver, pegando o primeiro elevador disponível até o andar onde faria sua hemodiálise, aliviado de não ter a surpresa em cada andar que o elevador parava de encontrar com o sujeito. Se apresentou na parte de hemodiálise e teve de ficar ouvindo conversa de algumas senhorinhas, algumas falando da juventude e outras falando que o loirinho deveria por um “sorriso” no rosto, até mesmo haviam senhorinhas que haviam - de alguma maneira - descoberto seu nome. Charles fazia ao máximo para abstrair toda a situação olhando em seu celular com o fone de ouvido e fingindo não ouvir.

Ao final da longa sessão, Charles pegou o mesmo elevador, um pouco aliviado e anestesiado depois de ouvir conversas de tricô por uma hora, que quase foi pego de surpresa pela voz incrivelmente desagradável que chamou por seu nome assim que saiu do elevador:

- Exatamente por que não tinha o que conversar.- o cadeirante rosnou baixo à figura que segurava um picolé, tão despojado no hospital - Se tentar mais alguma coisa eu ligo pra polícia. - ameaçou, fazendo questão de sair do caminho dele e poder continuar o seu.

Ulysses

Ulysses não conseguiu conter o sorriso ao ouvir a resposta arisca do garoto, menos ainda ao ver a expressão desagradada dele. Na sua condição atual completamente ocioso em Cerise, não tinha muito o que fazer e sobrava bastante tempo para se distrair com figuras como o rapazinho a sua frente. Só deu de ombros de um jeito despretensioso, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça.

- Mas nós acabamos de nos conhecer, claro que há muito para conversar! - ele respondeu, lambendo o picolé e apontando para o cadeirante em seguida. - Quer? Antes que derreta tudo. E o que é que eu poderia tentar pra que você tenha que chamar a polícia? Quanto exagero, garoto.

Ele se colocou ao lado do cadeirante, um passo atrás da linha da cadeira de rodas, assim talvez fosse um pouco mais difícil para que ele lhe acertasse logo atrás. Continuou lambendo o picolé que já estava chegando ao final e não deixou que Charles se afastasse demais.

- Então, como foi a sua sessão hoje? Já está indo para casa? - perguntou, muito casualmente, com o picolé já escorrendo até os dedos.

Charles

Charles apenas se distraiu por um segundo e teve de topar com o dito cujo. Qual era o tipo de Karma que o loirinho possuia para atrair pessoas que gostavam de lhe irritar? Independente do motivo ele estava lá, sacudindo um picolé de um lado para o outro.

- Não. Não tem - o loiro insistiu, apenas encarando o mais velho com a cara de desgosto que havia ficado automaticamente estampada em sua cara - Ficar seguindo os outros é um bom motivo para chamar, e não é exagero não. - bufou. A última coisa que queria era um cara esquisito o seguindo até em casa… E essa era praticamente a mesma situação que havia se encontrado da última vez que teve o azar de topar com o moreno.

E parecia não querer para de segui-lo. Antes de voltar ao seu caminho, fez questão de dar uma pequena ré com a cadeira, quem sabe acidentalmente acertaria o pé do infeliz? Seria bom demais para ser verdade.
- Não é da sua conta como foi, e eu não vou para casa enquanto o senhor fizer o favor de continuar me seguindo. - não estava mentindo, provavelmente iria aproveitar e andar pelas áreas que conhecia de Cerise até que ele se desistisse de segui-lo.

Ulysses

Ulysses ainda acenou para algumas das enfermeiras bem interessadas que tinham lhe contado várias informações além do que precisava e claro que nenhuma delas parecia se preocupar com o fato de que Charles não estava nem um pouco confortável com sua companhia. Bom, aquilo já devia ser da expressão do loirinho também, já que era a mesma expressão da semana anterior quando o encontrara pela primeira vez.

- Tudo em você grita exagero, Charles. - Ulysses respondeu de um jeito muito casual como se ele e o loirinho fossem melhores amigos, terminando o picolé para jogar o palito no lixeiro mais próximo e voltar ao lado de Charles bem a tempo de ouvir o comentário dele sobre não ir para casa enquanto continuasse o acompanhando.

O comentário não poderia ter vindo de um jeito melhor colocado e aquilo só fez com que um sorriso se alargasse no rosto de Ulysses. Foi fácil de se desviar da cadeira quando ele tentou lhe acertar numa ré, mas foi melhor ainda poder apoiar as mãos nas alças para ajudá-lo a impulsionar e direcionar a cadeira.

- Que ótimo! Então quer dizer que vai me mostrar a cidade antes de ir para casa?! Você é um garoto melhor do que parece, Charles! - ele fez questão de empurrar a cadeira o que conseguia antes que Charles pensasse em travá-la. - Onde vamos primeiro? A praia é longe, nós poderíamos ir comer torta na Antique, o que acha? Fica mais perto do que o shopping. O que você gosta de fazer, Charles??

Ele certamente não estava muito interessado em dar alternativas a Charles enquanto insistia em empurrar a cadeira para fora dos corredores largos do hospital.

Charles

Cada vez que o mais velho abria a boca, Charles se perguntava se a cara de desafeto poderia ficar mais óbvia. E por algum motivo, apesar de estar claramente reclamando da companhia do outro, as enfermeiras não pareciam se importar nem um pouco, ou no caso, não pareciam estar do seu lado nessa situação.

Ignorou completamente quando o outro disse que tudo nele gritava exagero. Exagero era a quantidade de proximidade não permitida que o infeliz queria ter. Se ao menos ele tivesse o mínimo de noção sobre espaço pessoal, poderia ser um pouco diferente.

Soltou um resmungo frustrado quando deu a ré com a cadeira e não sentiu acertar seu alvo, mas sentiu o leve empurrão em sua cadeira, que continuou seguindo com a intenção de cruzar os corredores do hospital: - Não. Empurre. A. Minha. Cadeira. - Rosnou e puxou a trava assim que pode, já próximo a saída, então virando o rosto para pelo menos ver alguma coisa do infeliz - Não vamos à lugar nenhum-- Charles quase resmungou quando lembrou quem era a dona da Antique. A protetora de Cerise. Não é certeza que poderia se livrar dele lá, mas pelo menos teria certeza que talvez ela ajudasse se ele tentasse alguma gracinha - … Pensando bem, eu queria comprar uma torta da Antique. - comentou, voltando a olhar para frente - Não me empurre e nem pense em encostar nessa cadeira. - reclamou, então destravando a cadeira para poder seguir caminho até a padaria.

Assim como ele havia dito, o caminho não era tão longe, e também já estava mais familiarizado com as ruas. Queria apenas que tivessem ladeiras caso quisesse fugir mais rápido do infeliz. Apesar de Charles ter quase 100% de certeza que ele iria tentar subir na sua cadeira de rodas.

Ulysses

A trava na cadeira e o resmungo intenso já eram esperados de Ulysses quando empurrou o outro para fora do hospital. Ele reclamou com veemência e sabia que não sairiam do lugar com a implicância constante. Ainda assim, foi pego completamente de surpresa e a expressão denunciou aquilo quando ele pareceu mudar completamente de ideia e lhe acompanhar até a Antique.

- Ahhhh! Assim que se fala! As tortas da Antique são as melhores! Sabia que você tinha bom gosto, Charles. - Ulysses se afastou da cadeira que ele determinou que não deveria ser empurrada e passou a mão no topo da cabeça do rapaz, apenas para continuar irritando-o. - Mas como não teria, me tendo como amigo? Vamos lá, qual a sua torta favorita? Eu gosto da de maçã e de nozes...

Não se preocupou em deixar sequer Charles responder no resmungo que estava se tornando recorrente nos poucos encontros dos dois e seguiram pelo caminho já conhecido até a padaria no centro. Acompanhou o ritmo do cadeirante e logo estavam entrando na padaria, onde Ulysses procurou uma mesa mais acessível para se sentar na companhia de Charles. Ele pegou logo o cardápio no suporte no meio da mesa.

- Qual você vai querer? Eu peço uma diferente e aí posso provar da sua. - Ulysses sorriu descarado, sem ao menos pedir autorização para dividir a possível comida dos dois, e mal percebeu a aproximação de uma pessoa que conhecia bem de muitos anos atrás.

- Ora, ora, mas que dupla mais inusitada. - Fleur se aproximou da mesa com os novos clientes depois de avistá-los entrando na padaria. - Não sabia que estava de volta à cidade, Lyss. Como anda a carreira no esgrima?
Charles

Lá no fundo esperava que tivesse sido uma boa ideia ir até a Antique, e não que terminasse de se enforcar. Nem teve tempo de ficar feliz por Lyss se afastar da cadeira que ele teve de passar a mão sobre os cabelos loiros do cadeirante irritado. Se sentia um gato sendo acariciado contra a sua própria vontade.

- Eu não sou touch screen, então não precisa encostar em mim o tempo todo - repreendeu com o tom de voz mimado, e já se adiantou para corrigi-lo - E você não é meu amigo. - resmungou, fazendo então caminho para a padaria Antique - Qualquer uma que não seja muito doce é bom. Não posso comer muito açúcar. - o ponto positivo era que poderia conseguir realmente uma torta, havia gostado bastante da última que levou e não pode comer a torta que havia comprado com Julian, então estava com crédito para comer tortas.

Não demorou para que chegassem até a conhecida padaria, surpreendentemente o outro estava acompanhando no ritmo. O que prontamente fez com que Charles procurasse pela presença de Fleur, afinal se algo desse errado poderia contar com a protetora de Cerise, certo? Viu o mais velho se adiantar para pegar uma mesa, e o acompanhou até a que ele escolheu: - Eu nunca disse que você podia provar da minha torta. - ele lhe enchia a paciência e ainda tinha audácia pra isso?! Antes que pudesse reclamar mais, viu Fleur se aproximar e, novamente para sua surpresa, eles se conheciam. Ainda era algum ponto positivo?

- Inusitada por que ele me encheu o saco no hospital pra vir aqui - reclamou para Fleur, deixando o cardápio de lado, e agora dando atenção para Lyss - Você é esgrimista profissional? - esperava que pessoas que fossem atletas fosse minimamente sérias, ou focadas, ou pelo menos educadas. Julgando por conhecer a protetora da boa ordem de Cerise, poderia cogitar que ele não era totalmente perigoso, ao menos isso.

Ulysses

Ulysses ignorou prontamente a resposta dele de que não lhe deixaria provar da torta. Já estava um passo a frente por ele ter pelo menos dito que não podia comer muito doce, então mesmo com a cara de abuso e os resmungos, conseguia aos poucos ir tirando mais do que reclamações do garoto que lhe divertia. Mas antes de retrucar algo para deixá-lo mais irritado, a conversa dos dois foi interrompida por uma presença que ele já estava bem familiarizado. Levantou os olhos para encarar a dona da padaria que parecia não ter mudado absolutamente nada nos últimos anos que tinha passado fora.

- Madame Fleur! A senhora está linda como estava seis anos atrás! - ele cumprimentou a loira, com um sorriso largo e galanteador. - Nem parece que tem a idade que t- au!!!

O comentário foi interrompido por um cascudo bem dado no topo da sua cabeça, sob um olhar bem reprovador da mais velha.

- O que estava dizendo sobre idade? - a mulher retrucou.

- Que a madame continua maravilhosa. - Ulysses passou a mão no topo da cabeça com uma risada sem graça, mas sentiu um sorriso ainda mais largo surgir no rosto com o questionamento de Charles sobre ser esgrimista. Bom, aos poucos ele estava ficando menos rabugento. - Hmmmm, está interessado na minha carreira agora, Charles? Fico feliz que nossa amizade está crescendo! Eu estou de férias, madame, intervalo entre competições, pensei que seria bom voltar pra Cerise e ajudar os novos alunos de St. Clavier como instrutor de esgrima. Afinal, depois que eu saí, não vi mais nenhum nome que se destacou vindo daqui, não é mesmo?

- Não posso concordar nem discordar, não é como se eu entendesse muito do esporte. - ela disse, voltando-se então para Charles. - Encontrou com o Lyss no hospital? É melhor não dar muita corda para ele, Charles, ele vai te incomodar pelo resto da vida.

- Ei, não é bem assim, madame! - Ulysses devolveu. - E eu e o Charles somos amigos! Saímos duas vezes já! Ele até vai estudar em St. Clavier e entrar no clube de esgrima pra ter aulas comigo.

- Hmmm, não sabia que tinha tanto interesse assim em esgrima, Charles. - Fleur comentou, certa de que a situação toda era completamente oposta ao que Ulysses estava dizendo. Mas não custava nada ouvir a reação de Charles.

Charles

Se existia uma certeza, era que a boa protetora de Cerise sabia colocar qualquer pessoa no seu lugar, inclusive alguém inconveniente como o mais velho. Se sentia como o público pessoal da discussão dos dois, o que não era algo ruim, pelo menos não estavam pegando no seu pé por algum tempo.

- Você me encheu o saco fazendo perguntas invasivas e eu não posso te fazer uma pergunta? E eu já disse que não somos amigos. - cruzou os braços, defensivo e irritadiço tanto com a insistência em serem amigos quanto por ele parecer um idiota apenas por ter feito uma pergunta. Qual era o problema?!

As perguntas que Lyss fez antes tiveram mais sentido quando ele disse ser instrutor de esgrima em St. Clavier. Encarou desconfiado, já esperando uma terceira ou quarta intenção vindo dele: - Ele já está incomodando querendo me seguir de um lado para o outro. - respondeu a mais velha, deixando claro a situação - Ainda insiste em empurrar a minha cadeira.

Olhou para o mais velho quando ele disse que “não era bem assim” com uma expressão enjoada e irritadiça, ainda com os braços cruzados, e praticamente revirou os olhos quando ele teve a ousadia de dizer que Charles iria se juntar ao time de esgrima. Quando havia dito isso?! Sentiu o rosto ficar vermelho de raiva: - E eu não tenho interesse. - respondeu seco à pergunta da mais velha, deixando mais óbvio ainda o descontentamento - Eu nunca disse que iria fazer parte de time algum, então não venha querer me enfiar em um clube que eu nem quero fazer parte. - Pegou o cardápio irritado e já foi olhando as fatias de torta ou bolos que tinham, merecia um doce depois de tanta raiva? Merecia. E bem se lembrou da torta de morango que havia comido da outra vez - Ainda tem aquela de morango agridoce? - perguntou um pouco menos enjoado, estava irritado com Lyss, e não com a protetora. Normalmente seria também grosseiro com ela, mas sabia que ela poderia fazer companhia para Lyss em irrita-lo.

Ulysses

Fleur apenas olhou da cara de abuso de Charles para Ulysses, sabendo que a chegada deles até ali com certeza tinha sido obra do mais velho. Já conhecia Ulysses de algum tempo atrás e embora não fosse tanto quanto outros alunos de St. Clavier, o rapaz era bem famoso na cidade há alguns anos.

- Amigos ou não, é bom que tenha voltado. E se não é amigo do Lyss, volte com um amigo de verdade da próxima vez. - Fleur sugeriu, ao que ouviu um sonoro "Eiii!!" de Ulysses. - Ele pode ser uma pessoa muito invasiva, mas ao menos as habilidades de esgrima parecem ser boas.

- Não são boas, são exímias. - Ulysses fez questão de adicionar. - Por isso que você devia ir para St. Clavier para treinar comigo, Charles. Você seria um ótimo esgrimista.

- Disso eu já não entendo. - Fleur comentou, voltando-se para Charles. - Para sua sorte, a última fatia. Acho que estava lhe esperando. E você, Lyss? Frangipane com pêssego?

- Por isso que eu sempre volto, madame Fleur. Por favor. - ele pediu a torta com um sorriso largo no rosto.

Fleur só concordou com um aceno de cabeça, sem precisar ao menos anotar os pedidos simples. Mas antes de sair na direção do balcão de atendimento, voltou-se na direção de Charles.

- Se quiser devolver a irritação, é só chamá-lo pelo nome. - confessou a Charles, o que imediatamente gerou um protesto de Ulysses.

- Ei! Isso é golpe baixo, madame! - ele retrucou, antes de Fleur apenas ignorar e sair na direção da vitrine de tortas. - Hm. Mas então, Charles, você não tem interesse em nenhum esporte?
Charles

Achava tanto Lyss quanto Fleur pessoas bastante invasivas que gostavam de lhe encher a paciência de maneiras diferentes porém muito parecidas. Até fazia sentido que eles se conhecessem, mas no momento atual, tinha que concordar com boa parte das coisas que Fleur dizia. Talvez chamasse Yure para ir ali da próxima vez? Dependendo, poderia comprar alguma torta para levar ao time de basquete, quem sabe:

- Eu tenho algumas pessoas em mente - o loirinho comentou em voz baixa, ainda pensando nas pessoas que poderia chamar e ignorando completamente o protesto de Lyss. Teve de se conter para não revirar os olhos quando ele elogiou as próprias habilidades de esgrima - Não. Eu não tenho interesse em esgrima, e não sei nem de onde você tirou que eu seria um bom esgrimista. Isso está baseado em vários nadas.

A resposta para Lyss saiu bem resmungona como de costume, mas para Charles, para dizer que alguém é bom em algo você deveria ao menos ver a pessoa tentando fazer aquilo. O cadeirante tinha plena certeza que existiam muitas outras intenções além de alguém para o clube de esgrima - e só estava acreditando mesmo sobre isso porque Fleur havia dado um voto de confiança.

- Obrigado. - agradeceu a mais velha com um breve aceno, sabia bem que era melhor ter cuidado com os resmungos perto dela. A ideia da fatia de torta era uma boa ajuda nessas horas.

Mas o que realmente chamou atenção das palavras da mais velha não foi apenas a notícia da torta, mas que poderia ter algo para usar contra Lyss. Fazia sentido ele não se apresentar com ele. Pensou em perguntar à Fleur, mas ela saiu antes que pudesse dizer qualquer coisa, e se viu de novo sozinho como esgrimista.

- Eu não tenho interesse em esportes - respondeu, bastante firme na afirmação - Na verdade um ou outro, mas por que eu deveria te contar? - descruzou os braços, os deixando sobre o apoio da cadeira - Se me contar o seu nome mesmo, eu posso pensar no caso. - bem sabia que as chances do moreno falar o nome eram baixas, mas no pior dos cenários teria de aguentar mais alguns minutos dele enchendo a sua paciência.

Exatamente o que havia sido nesses últimos momentos, ao menos teria uma fatia de torta para ajudar a aliviar o azedo.

Ulysses

Lyss apenas riu com a resposta resmungada dele. Apoiou os cotovelos na mesa, o queixo nas costas de uma das mãos quando Fleur se afastou e Charles só continuou retrucando que não tinha motivo para achar que ele seria um bom esgrimista.

- Você está duvidando das minhas habilidades de esgrimista. Devia ver como eu tenho um ótimo olho para isso. Se eu digo que vai ser um bom esgrimista, é porque vai. - respondeu com bastante convicção, como se realmente tivesse visto Charles manusear um sabre. - E você podia ser bonzinho comigo como é com a madame Fleur, não é??

Resmungou ele mesmo daquela vez, já que Charles tinha sido bem mais educado com a dona da padaria. O que não era exatamente uma surpresa considerando toda a sua insistência e irritação até então. Mas fez uma expressão bem vitoriosa quando ele disse que tinha interesse por um ou outro esporte e ainda sugeriu uma troca de informações.

- Ahhhh, se tem interesse em "um ou outro", um deles pode ser esgrima, hm? Você nunca deve ter tentado, não é?? - ele insistiu, com um sorriso largo no rosto. - Meu nome é Lyss Jeannet. Agora me diga qual o esporte que você gosta.

Ele respondeu com uma cara muito convencida, e foi tempo logo de Fleur trazer as tortas que já estavam prontas para servi-los, mas ela nem comentou mais nada, precisando voltar para o balcão para atender novos clientes.

- Hmmmm, estava com saudades da Antique. - Ulysses tirou um pedaço da própria tortinha, sentindo-se muito satisfeito só de comer aquele pedaço. - Me dê um pedaço da sua pra eu provar. - ele já foi esticando o garfo para tentar tirar um pedaço da torta alheia sem ao menos esperar a autorização.

Charles

Achou curioso como ele ficou um pouco mais série quando se tratou de duvidar das habilidades dele. Poderia até dizer dizer que ele estava sendo profissional. Com certeza se agisse mais dessa forma, seria pelo menos 50% mais tolerável.

- Claro que estou duvidando, nunca vi você fazendo nada relacionado à esgrima. - retrucou, por mais que ele parecesse ter bastante firmeza no que dizia, Charles também estava falando a verdade. Nunca diria que alguém é bom em algo se não visse um vídeo ou algo do tipo.

Fez uma expressão um pouco mais confusa quando ele resmungou. Sobre ser bonzinho apenas com a dona da padaria. Na cabeça do loirinho era bem claro o porquê, obviamente não queria duas pessoas enchendo sua paciência, mas não deu essa resposta para Lyss. Apenas alterou a expressão para de irritação de sempre quando ele veio com meias respostas.

- … Não, nunca tentei. Só vi uma coisa ou outra nas olimpíadas - respondeu assumindo uma postura defensiva de novo, cruzando os braços, agora indignado por ele não ter lhe dado o seu nome de verdade completo. Apesar que, nada que um google não resolvesse, afinal, tinha um sobrenome agora - Hmph! - resmungou, suspirando e pensando por alguns segundos na resposta - Um dos esportes é basquete. - se ele lhe deu meias respostas, também poderia dar meias respostas.

A expressão mais zangada de Charles suavizou quando a torta finalmente chegou, Fleur não fez mais nenhum comentário, mas para quem conhecia bem o loirinho ou que já estava acostumado com a expressão irritadiça de sempre, era bem claro que ele estava feliz com o doce. Charles provou um pedaço da torta com o garfo e a torta estava tão boa quanto da última vez, não sabia o que a protetora de Cerise fazia, mas ela sabia fazer tortas muito bem. Estava bem feliz apreciando a torta quando percebeu uma movimentação estranha se aproximando.

- Não. - o cadeirante fez questão de colocar as duas mãos na frente da sua torta, ainda segurando o talher, como se fosse uma pequena parede - Nem pense nisso. Fique com a sua - avisou ao outro, não gostava de dividir seus doces nem com seus amigos, pudera uma pessoa que mal conhecia.

Ulysses

A sua tentativa de roubo não foi tão bem sucedida, mas também não era como se tivesse usado de toda a sua habilidade e agilidade com as mãos para conseguir pegar o pedaço do garoto. Só riu com o desespero dele, pronunciando um “Owwnn” decepcionado por não ter conseguido provar da torta cujo sabor lembrava muito vagamente.

- Não seja tão mesquinho com seu amigo, Charles. - ele comentou, propositalmente, mas ao menos ele tinha lhe dito um dos esportes pelo qual se interessava. - Hmmm, basquete, não é? Precisaria de agilidade pra jogar basquete também. Você já viu como é que fazem esgrimistas cadeirantes? Devia dar uma olhada.

Ulysses voltou a comer da própria torta, nem se preocupou em oferecer para o garoto quando uma ideia muito interessante lhe surgiu à mente e um sorriso de orelha a orelha denunciou sua maquinação mental. Ele apoiou os cotovelos na mesa, levantando apenas a mão que segurava o garfo para apoiar o queixo nas costas dela.

- Então você não gosta de dividir sua torta, não é? Por que não fazemos um jogo? Você gosta de outros tipos de jogos, Charles? - perguntou, cada vez com um tom mais interesseiro. - A proposta é a seguinte: eu vou tentar, até o final da nossa conversa, pegar um pedaço da sua torta com meu garfo e seu trabalho, como fez muito bem, é me impedir. - claro que para sugerir aquele tipo de coisa, devia haver boas vantagens para ambos os lados. - Se eu conseguir pegar a torta com todas as minhas exímias habilidades de esgrima, você vai fazer uma aula comigo e conhecer o esporte. - apontou para a torta dele com o seu garfo. - Se você conseguir defender com garras e dentes… eu te dou ainda duas opções: posso lhe dizer meu nome ou posso nunca mais lhe incomodar. O que acha?

Charles

Os doces de Charles eram assuntos sérios, seríssimos diria o loirinho. E ver o outro rir da sua proteção à torta, era como se fizesse menos da situação. A expressão que já era de irritação ficou ainda mais carrancuda com o pouco caso de Lyss.

- Não estou sendo mesquinho - insistiu o cadeirante, ainda mantendo as duas mãos em frente à sua preciosa torta, como um gato arisco protegendo sua comida - Não, nunca vi. - respondeu de maneira seca, encarando o outro esperando o menor sinal de gracinha.

Analisou conforme ele voltou a prestar atenção na sua própria torta, para alguns segundos depois voltar a apreciar o seu próprio doce pelo menos no curto período de silêncio que Lyss havia dado. Estava levando um pedaço a boca quando viu o sorriso se formar no rosto do mais velho, o que fez Charles automaticamente estreitar os olhos enquanto terminava de levar o pequeno pedaço até à boca.

- … Hm. - fez um aceno leve quando ele perguntou sobre jogos, ainda desconfiado, porém ouvindo atentamente ao que Lyss dizia. Charles não gostava muito da ideia de apostas, na verdade corria bastante de competições mesmo sendo muito bom em alguns jogos, mas a ideia de competir com outras pessoas não era muito palatável para o cadeirante. Mas com a proposta certa, as coisas poderiam ficar diferentes.

Das duas opções dadas pelo moreno, não precisava saber do nome dele, afinal, tinha um sobrenome. E conhecia uma certa pessoa dentro de St. Clavier que podia descobrir bem rápido quem ele era melhor, inclusive o nome inteiro. Mas a ideia de não ter mais Lyss Jeannet o seguindo pelo hospital era bastante tentador. Ainda manteve o garfo em mãos, já considerando que o pequeno jogo iria começar.

- Aceito. - respondeu com bastante certeza - E eu já digo que quero a segunda opção. - estava bastante decidido a proteger seu doce agora, e não era apenas pelo egoísmo com comida. Tinha um propósito bem maior.

Ulysses

A vontade dele de proteger a torta parecia maior até do que a vontade de lhe evitar, mas aquilo se provou mais quando ele concordou com a sua sugestão e avançou direto para a opção de não ser importunado. Ulysses apenas sorriu vitorioso, ganhando ou perdendo, poderia tirar proveito da situação de certo modo.

- Viu? Você até concordou rápido! Já parece que somos amigos de longa data. - Ulysses comentou, concentrando-se mais na sua torta do que no que tinha acabado de propor. - E se você nunca viu esgrima com cadeirantes, devia dar uma olhada. Diferente do basquete, as cadeiras de roda ficam fixas num local e as categorias de competição são definidas pelo nível de mobilidade do competidor. No esgrima, você precisa acertar o seu oponente com a ponta do sabre, espada ou florete, depende da sua arma de escolha. Temos uma roupa de proteção e as pontas das armas computam os pontos dos competidores. Acontece a mesma coisa na categoria para- ahhh! - ele fez um movimento amplo com a mão, batendo uma fechada na outra mão aberta, de propósito para que Charles achasse que ia se mover para pegar a torta. Mas a vontade dele de proteger a torta ainda estava em alta. - É mais fácil eu te mostrar!

Ele puxou o celular do bolso, deixando o garfo do lado com o resto da sua fatia de torta. Procurou um vídeo rápido no youtube e virou o celular, estendendo-o para Charles.

- Aqui, esses são os melhores momentos das paraolimpíadas de 2012 em Londres. Tem todas as categorias, assim você vai ver como funciona melhor. - ele disse, esperando que Charles tivesse interesse em assistir o vídeo para, talvez, ter a sua chance de ouro de distraí-lo ao menos uns segundos.

Charles

Charles estava bastante atento à qualquer possível movimento que Lyss fosse fazer. Pensava em mandar uma mensagem para Yure, mas isso podia aguardar até o final da aposta, assim poderia ter ao menos uma vitória certa nesse jogo.

- Devia parar de insistir nisso - resmungou pela insistência de Lyss em serem amigos. Mesmo atento, estava prestando atenção na conversa, do contrário estaria fora das regras da aposta, que era continuarem a conversar. A explicação sobre os diferentes tipos de espadas usados na modalidade eram interessantes para Charles, não podia mentir. Seu gosto por contos de fantasia medieval falavam mais alto nessas horas.

Mantinha as mãos de frente para o seu prato, formando uma proteção na área ao redor ainda segurando o seu garfo. Estava curioso em como a tecnologia era colocado naquele esporte. Provavelmente era algum tipo de sensor na ponta da arma que ativa o detector? Assim, não haveriam pontos marcados por engano. Estava ponderando sobre as possíveis soluções quando Lyss fez um movimento tão repentino que o loirinho levantou todas as guardas de novo. Sentiu o rosto ficar vermelho de raiva por se sentir traído, estreitando os olhos e esperando a razão daquilo tudo.

- Hm. - fez um breve resmungo, prestando atenção no garfo que o moreno deixou para trás. Achou estranho a música dramática que tocava durante o vídeo. Por um lado, havia todo tipo de cadeirante ali. Era interessante, se tirasse a música exagerada - Huh. São um pouco parecidas com as de basquete - comentou quando conseguiu ter uma visão apropriada da cadeira. As rodas eram mais verticais do que as de basquete que eram feitas para giros rápidos. Provavelmente ajudavam a manter melhor o equilíbrio dessa maneira quando travadas.

Estava assistindo ao video no celular de Lyss, um pouco mais debruçado sobre a mesa mas ainda mantendo a mão ao redor do prato e de sua torta. Estava disposto a não ser pego de surpresa durante toda a conversa.

Ulysses

Ulysses apenas ficou internamente satisfeito quando ele viu a reação exagerada de Charles para o seu ato também exagerado de bater a mão na palma da outra. Claro que era só um pretexto e uma distração para ver como estavam os reflexos do loirinho e deixá-lo mais alerta. Eventualmente, conseguiria que ele abrisse um pouco as defesas. Ao menos ele pareceu um pouco mais interessado quando explicou sobre as armas do esporte e mostrou o vídeo. E mesmo que ele continuasse muito defensivo com o pedaço de torta, estava assistindo com atenção de verdade.

Pegou o próprio garfo num gesto amplo, apenas para que ele achasse que ia atacar de novo, e tirou um pedaço da própria torta que já estava no fim para comer enquanto ele estava concentrado no celular.

- O que achou? Posso te mostrar uma partida inteira. Esse vídeo é bem sensacionalista, claro. - ele respondeu, estendendo a mão para pegar o celular enquanto deixava o garfo preso na própria boca. Mais um movimento que ele fez questão de fazer um pouco rápido, apenas para atiçar um pouco mais a defesa do loirinho. - Eu vi as competições de perto em 2012, mas eu nunca tinha parado para ver de fato como era a categoria, eu só sabia como funcionava na teoria.

Deu uma olhada de novo no celular para procurar outros vídeos e virar para o loirinho, segurando o celular com a mão direita, enquanto o garfo ainda estava pendurado na boca para facilitar o manejo do celular. Apoiou o braço direito na mesa e se inclinou para entregar o aparelho de novo.

- Essa aqui eu gravei! Eu conheci o esgrimista que ganhou a competição, nós treinamos juntos no centro olímpico em Paris no intervalo entre as competições. - ele mostrou, parecendo bem empolgado ou minimamente compenetrado com a conversa sobre seu esporte de especialidade. - Você já viu um centro olímpico de treinamento??

E foi só esperar que Charles segurasse o celular de novo para olhar para a tela que buscou alguma brecha na fortaleza que ele fazia em torno da torta para fazer um movimento rápido ao pegar o garfo da boca e estendê-lo para atacar mesmo com a mão esquerda.

Charles

O último movimento de Lyss quase pegou o cadeirante de surpresa, que fez um movimento brusco para continuar a proteger a seu precioso pedaço de torta. Se perguntava quantas vezes ele iria fazer isso até acabar pegando Charles de surpresa, o que na cabeça do loiro era um tremendo golpe baixo.
Novamente ele fingiu que iria atacar seu bolo enquanto assistia o vídeo, o que prontamente fez com que toda a guarda de Charles ficasse pronta para a defesa… O que acabou sendo um alarme falso.

- Você podia parar de fazer isso - rosnou, antes de responder de fato a pergunta feita pelo mais velho - É… Interessante. Estou curioso com as espadas. - devolveu o celular enquanto ele parecia se divertir com aquilo tudo com a expressão idiota estampada no rosto enquanto estava com o garfo na boca. Estava em posição de defesa, então qualquer outro movimento que ele fizesse não iria pegá-lo desprevenido.

Aproveitou enquanto ele procurava mais vídeos no celular para mandar uma mensagem rápida para o amigo ruivo, para finalmente descobrir qual era o nome de Lyss. Deixou bem claro que estava querendo saber o nome inteiro principalmente, e saber quem ele era na instituição. Enviada a mensagem, retomou a posição de defesa bem a tempo dele se aproximar novamente.

- Uhm… Não. Nunca vi. - demorou um pouco para responder diante da empolgação do outro, estranhando um pouco. E foi no momento que tentou pegar o celular da mão do mais velho que deixou suas defesas fragilizadas.

Foi um movimento tão rápido que Charles até tentou aparar com o garfo que estava em sua outra mão, mas foi tarde demais. Sentiu o rosto ficar vermelho de raiva, por ser pego de surpresa de uma maneira tão estúpida.

- Seu….! - reclamou bem abertamente, já esperando a comemoração idiota que ele viria a fazer.

Ulysses

- Então você gosta de espadas? Eu posso mostrar as que tenho, mas eu participo das competições na categoria de sabre e florete, eu tenho espada mas não é meu forte. - ele explicou um pouco, ao menos tinha conseguido despertar o interesse do garoto para o esporte.

Charles ainda pegou o próprio celular para mandar alguma mensagem, mas não foi o suficiente para lhe tirar do seu planejamento muito estratégico de como desviar a atenção do rapaz efetivamente da torta. Depois de achar o vídeo com a competição que tinha acontecido nos jogos olímpicos de Londres, esperou apenas uns segundos para identificar uma brecha na fortaleza dele e mesmo com a mão esquerda, o movimento foi rápido o suficiente para roubar um pedaço da torta antes que ele pudesse lhe atingir com o próprio garfo - e ainda bem que era só um garfo, se fosse uma faca, teria perdido um dedo.

Comeu a torta com um sorriso vitorioso, mais ainda por conta do rosto absurdamente vermelho de Charles pela raiva de ter sido pego de surpresa.

- Hahaha! Até que treinar o Isa com a mão esquerda não foi de todo mal. - ele comentou, fazendo questão de saborear a torta com um sorriso enorme. - Hmmmm, delícia, Charles, quer provar da minha? Só tem mais um pedaço. - ainda estendeu o garfo na direção dele, mas não esperou que o rapaz aceitasse, só trouxe de volta para a própria boca. - Não é ótimo dividir torta com seus amigos?! Hm, hm, hmm??

Depois de comer o último pedaço da própria torta, ele deixou o prato de lado, apoiando os cotovelos na mesa e se inclinando na direção de Charles que ainda segurava o seu telefone, embora não estivesse mais tão interessado na disputa agora que tinha perdido a aposta. E ao lembrar da aposta, só ficou ainda mais satisfeito.

- Agora você tem que ir para uma das minhas aulas. - Ulysses respondeu, com ar convencido. - Pode esperar o próximo semestre de St. Clavier, ou posso abrir uma exceção só pra você pra lhe dar uma aula particular integral. O que acha??

Charles

Se pudesse sentir as pernas com mais precisão, diria que sentiu o ódio lhe subir dos pés à cabeça no momento que viu o sorriso estúpido dele. Nem pensou em dar uma resposta a ele sobre ver as espadas. Não queria. Mas aparentemente seria obrigado depois dessa derrota. Apertou o garfo que estava na mão e suspirou, irritado e derrotado.

- Espero que engasgue e tenha uma dor de barriga com a sua torta - rosnou, emburrado enquanto o outro se vangloriava do feito. Se perguntou rapidamente quem seria ‘Isa’ mas a raiva era bem maior do que a ideia de bolar algum plano. Não gostava de perder, mas não era um mal perdedor. - Dá pra parar de insistir que somos amigos? - estendeu o celular do outro de volta, que havia ficado com ele esse tempo todo, e pegou o último pedaço da sua torta levou a boca, assim poderia diminuir o próprio azedume.

Ponderou quando poderia ter a tal aula com Lyss. Evitar o problema e esperar até o início das aulas em St. Clavier eram tentadoras, mas resolver logo o problema também era bom. Não queria começar o semestre na academia já pensando que teria outro motivo para passar raiva. Cruzou os braços, defensivo ao ar convencido do outro e o encarou bem.

- Onde seria essa tal “aula particular”? Tem alguma academia que abra espaço? - perguntou bastante despretensioso. A última coisa que iria querer era ficar sozinho com o infeliz em uma sala. Sendo um lugar público, seria menos pior - E quero saber das condições se eu for ter a aula em St. Clavier. Já digo de antemão que não tenho intenções de me juntar à clube nenhum.

Ulysses

Era impossível não achar os comentários ariscos de Charles divertidos. Ao menos ele tinha um espírito bem determinado para se esforçar para lhe manter longe, bem podia usar aquilo para competições, ele era no mínimo muito competitivo e já dava para perceber de longe.

- Mas nós já somos amigos, olha só a intimidade de dividir uma torta na Antique! - Ulysses insistiu, pegando o celular de volta enquanto o rapaz ponderava sobre onde seria melhor para terem uma aula. De todo jeito, seria uma ótima experiência para ambos, afinal, nunca tinha treinado uma pessoa para competições de paraolímpicas. - Discutimos sobre você entrar ou não num clube quando chegarmos lá. Por enquanto, nós podemos usar o ginásio de St. Clavier para ter uma aula, lá tem estrutura e equipamentos para isso e eu tenho bons contatos na escola. Ou podemos marcar na sua casa, o que acha?

Claro que a ideia de irem para a casa do rapaz praticar esgrima ia fazê-lo ficar ainda mais arisco. Se já não queria estar perto de Ulysses, seria pior ainda denunciar o local onde morava.

- Eu posso levar meus equipamentos, mas aí não teremos nada muito sofisticado para marcar pontos e vamos trabalhar só com a trava da cadeira de rodas. Aliás, eu não sei se o ginásio para treino de esgrima em St. Clavier está atualizado também, vou cuidar disso quando voltar lá e fazer as requisições para estrutura para cadeiras de rodas. - ele já se adiantou, como se o fato de que Charles fosse ser esgrimista já estivesse decidido. - Vai ser ótimo praticar com você, Charles!

Charles

Charles já estava bastante irritado por ter sido enganado, ainda ter que ver o mais velho cutucar suas feridas por dizer que eram realmente tão “amigos” fazia o sangue do loirinho subir a cabeça.

- Eu não divido minha torta com ninguém, nem quem é de fato meu amigo. E se lembre que você roubou um pedaço, esse era o ponto do jogo. - fez questão de lembrar das regras estabelecidas, para dar suporte as suas próprias reclamações.

O loirinho praticamente arregalou os olhos quando ouviu a sugestão dele de lugar, nem se conteve a fazer uma expressão de desgosto enquanto ele discorria a falar dos equipamentos, e de como teria de fazer um provável pedido de autorização do ginásio da academia.

- Não. Nem pensar. - respondeu bastante assertivo, inclusive gesticulando um pequeno X com as mãos - Eu não tenho problema de esperar até o início das aulas, ou o ginásio ser arrumado, ou que construam um inteiro novo só para isso. Mas nada da minha casa. - afinal, havia feito todo esse trabalho de vir até a Antique para exatamente evitar que ele soubesse onde morava. Aceitar que ele fosse dar aulas lá seria o mesmo que jogar tudo o que havia feito, fora.

Ulysses

O ímpeto dele em negar ir treinar em casa foi tão exagerado que fez Ulysses apenas ter vontade de segui-lo mesmo contra a vontade. Certeza que podia conquistar a mãe dele, ou uma irmã, quem sabe até o pai dele dependendo dos gostos do homem e tudo aquilo só para continuar com a diversão de irritar o rapazinho, era mais divertido do que tinha calculado em seu tédio mortal ao voltar a Cerise nas condições em que estava.

- Não sei porque todo esse nervosismo com a ideia de treinarmos na sua casa. Está com vergonha da bagunça no quarto e das revistas pornô debaixo da cama, Charles? - ele perguntou, o queixo apoiado na mão e o cotovelo na mesa. - Mas já que ainda não quer me apresentar aos seus pais, vamos treinar em St. Clavier então.

Lyss se encostou à cadeira e fez um sinal para uma das atendentes para lhe trazer a conta da mesa.

- Mas não vamos esperar até o início das aulas nem a reforma. Vou dar um jeito de treinarmos nessa semana! - ele falou, animado, pegando a conta da mão da garçonete para estender uma nota em euros para pagar. - Isso significa que você vai precisar me passar o seu número de celular para que eu possa lhe avisar o dia e o horário do nosso treino, não é??

Charles podia até ter se livrado de não lhe ter em casa, mas certamente não ia se livrar de todas as mensagens inconvenientes no celular dali em diante.

Charles

Estava em completa posição de defesa ao mais velho. Nem queria imaginar ele perto da sua casa, principalmente por que teria de responder às perguntas da própria mãe sobre quem era a figura. Antes que conseguisse explicar a situação, sentia que Lyss iria conseguir convencer sua mãe com muito mais facilidade com a sua história.

Não havia se irritado tanto até ele perguntar e supor o por quê do seu nervosismo. Sentiu a vermelhidão subir até o topo de sua cabeça com a pergunta desbocada.

- Eu não tenho revistas pornô - quase rosnou como resposta para o outro, falando o mais baixo possível - E o estado do meu quarto não é do seu interesse, então pare de imaginar coisas! - suspirou irritado, ainda imaginando que o rosto estaria vermelho de raiva depois da audácia do outro.

Nem se importou em corrigi-lo sobre seus pais, não era da sua conta que vivia só com sua mãe ou com qualquer outra pessoa. Torceu os lábios quando ele disse que teria de passar seu número de telefone, mas ao menos poderia bloquear o número do infeliz logo depois que o acordo fosse cumprido.

- Tá, me dê o seu telefone de novo. - estendeu a mão, só precisava salvar seu número no telefone do outro e saberia que era ele logo na primeira mensagem irritante que recebesse - E já digo, se for floodar minha caixa de mensagens eu vou te colocar no silencioso até o ano que vem.

Ulysses

Ulysses até esperava mais reações às suas provocações, mas o vermelho que tomou conta do rosto de Charles com a menção de revistas pornô foi impagável. Se ele tinha ficado vermelho de vergonha, Ulysses ficou vermelho na tentativa de conter a risada alta, que não foi nada bem-sucedida e chamou atenção de todos os clientes da Antique. Ele teve até que fazer um sinal com pedido de desculpas para Fleur que lhe olhou feio pela comoção desnecessária.

- Agora você só me deu mais motivo para imaginar que tipo de pornô estranho tem embaixo da cama. - Ulysses fez questão de provocar, ao se inclinar de novo sobre a mesa com o cotovelo apoiado nela.

Estendeu o celular para que Charles pudesse colocar o número e só sorriu descarado quando ele já colocou os critérios de que não poderia enchê-lo de mensagens.

- Bom, com muitas mensagens ou não, você vai ter que me responder pra marcarmos a aula, não é?? - ele disse, pegando o celular de volta para já fazer uma ligação para Charles e confirmar o número. Mas só precisou ver o celuar tocando e se levantou. - Foi bom sair pra passear com você, Charles, vamos marcar outras vezes, viu? Ainda preciso ser apresentado aos seus pais.

Ainda fez questão de passar a mão no topo da cabeça dele - ou ao menos tentar, já que Charles já estava acostumado às suas aproximações inconvenientes. Seria um resto de férias muito interessante na companhia do cadeirante.


Messages In This Thread
[Drive] [S]Talking [Ulysses; Charles; Fleur] - by Lil - 09-21-2021, 01:01 PM

Forum Jump:


Users browsing this thread:
[-]
Cerise News
Dia xx/xx/xxxx
População de Cerise come mais Patchdonald's que a média nacional de comedores de McDonald's, diz jornal Le Monde.

[-]
Birthdays
Today's Birthdays
No birthdays today.
Upcoming Birthdays
avatar (37)Skurai

[-]
Latest Threads
Trouble in Paradise [Carbella]
Last Post: Natalia
09-27-2023 04:34 PM
» Replies: 6
» Views: 28
Julgando a vida alheia [Diodoro]
Last Post: Natalia
09-08-2023 11:08 PM
» Replies: 16
» Views: 42
Run Boy Run [Daniel]
Last Post: Qiang
09-07-2023 06:32 PM
» Replies: 6
» Views: 32

[-]
Recent Posts
Trouble in Paradise [Carbella]
Ao terminar de consu...Natalia — 04:34 PM
Trouble in Paradise [Carbella]
Carbella queria dize...Carbella — 10:02 PM
Julgando a vida alheia [Diodoro]
Voltou o olhar quase...Natalia — 11:08 PM