09-22-2021, 03:07 PM
Lucius
A viagem de Paris até Cerise havia sido tranquila. Conseguiu descansar no trajeto apesar de algumas crianças na classe econômica que pareciam animadas demais e sem supervisão dos pais para passarem correndo no corredor a ponto de esbarrarem algumas vezes em seu braço enquanto estava tentando puxar um cochilo. Conseguiu chegar na cidade do interior francês uma semana antes do período de suas aulas começarem. Sabia que ainda precisava se ajustar ao lugar e, antes de mais nada, conseguir se localizar na cidade até chegar na instituição na qual seria bolsista pelo tecnológico em música.
Seguiu até o ponto de ônibus que o aplicativo de localização do celular lhe indicava para aguardar o número de seu transporte. Estava com uma mala pequena de rodas preta, uma bolsa lateral e uma terceira bolsa com o violão nas costas. O clima mais quente do lado de fora da estação era até agradável se comparado a todo o trajeto feito até ali no ar condicionado. Estava usando uma calça bege com a camisa branca e uma segunda camisa mais leve de algodão e botões verde por sobre o tecido claro; o único par de tênis que tinha consigo nos pés.
Pegou o ônibus e acompanhou o trajeto pelo aplicativo do celular, tomando cuidado para manter o aparelho guardado e bloqueado para não consumir demais sua bateria ou sofrer com o ofuscamento pelo sol daquela tarde. Desceu do ônibus pensativo, fazendo uma pausa no que parecia ser um bairro comercial, escolhendo buscar as próximas opções do trajeto em seu celular até perceber a queda de sinal de internet no mesmo. Ergueu o olhar, considerando a ideia de perguntar a algum transeunte sobre a direção que deveria tomar e todo o desconforto que era tentar fazer as pessoas entenderem que a comunicação não era bem o seu forte.
Respirou fundo, escolhendo se mover na direção da rua principal para tentar encontrar alguma melhora no sinal de sua internet pelo pacote de dados. Estava puxando sua mala de rodinhas e com o celular a frente, o olhar abaixado. Acabou que sequer se deu conta do sujeito que vinha na direção oposta ao cruzar a esquina. Esbarrou no sujeito, sua mala de rodinhas vacilando a ponto de precisar se esforçar para não deixá-la cair, diferente do que aconteceu com seu celular. Franziu o cenho, nervoso, abaixando-se prontamente para recuperar o aparelho, ansioso para que não tivesse danificado a tela do mesmo ou acabaria ficando com ele rachado pelo resto de seus estudos ali. Agachado, ergueu o olhar como se tivesse se recordado que precisava se desculpar com o estranho e, por reflexo, levou o punho fechado contra o próprio peito em um movimento circular que indicava desculpas.
Marion
Após mais um dia trabalhando na parte burocrática da ONG, a parte menos excitante de ser professor de dança no projeto do porto, Marion pensou que talvez fosse um bom dia para fazer uma caminhada. Pegou um ônibus para ficar mais próximo à St. Clavier, mas desceu para comprar um pão recheado de chocolate muito bonito que tinha visto no caminho, e com ele na mão, seguiu pelas ruas vestido casualmente em uma calça cáqui, uma regata branca, sandálias com meias, e um boné que tinha comprado no brechó uns dias atrás.
Colocou o fone de ouvido e foi se sacudindo no caminho, distraído com o ritmo da música enquanto mastigava o pão, e estava certo que chegaria cedo no ritmo que caminhava. Porém, enquanto se distraía ainda mais com a música, sequer notou quando trombou com um sujeito de frente, olhando só para o pão no chão com o desengano que tinha sido perder a sua sobremesa. Só depois que se preocupou com o outro, que parecia ser um rapaz jovem, e mais preocupado com o celular, que lhe fez fazer uma careta.
- Me desculpe, eu estava distraído...! – Marion falou, abaixando para pegar o pão e vendo o outro também abaixar para pegar o celular. Não queria ver o estado da tela. – Espero que não tenha quebrado... sinto muito por isso. Você tá bem? – perguntou, então notando o outro rapaz levantar o olhar para si. Ele não mentia que tinha cara de estrangeiro. Porém, ao invés de ouvir uma resposta em um idioma desconhecido, viu um sinal que vagamente lembrava “desculpas”. Ergueu as sobrancelhas e levantou a aba do boné, coçando de leve a cabeça ao encarar o rapaz. E então, instantes depois, ergueu a palma para cima e o indicador e o dedo médio, fazendo uma breve cara inchada de ar para indicar que estava bem. Em seguida, apontou uma das mãos para perguntar se o outro também. Pelo menos era assim que lembrava de ser o sinal. Para confirmar fez um sinal rápido do ouvido para a boca para perguntar se ele era surdo. Bom, se tinha sinalizado o pedido de desculpas, provavelmente era o caso.
Lucius
Ouviu o pedido de desculpas do rapaz e a preocupação dele para que seu celular não tivesse sido quebrado. Contudo, foi pego de surpresa quando o sujeito parecia conseguir entender o que havia acabado de sinalizar, respondendo através da linguagem de sinais para transmitir sua preocupação. Demorou alguns segundos antes de olhar para o próprio celular, bloqueando a tela para poder guardar o item no bolso de sua mochila.
Com as mãos livres, apontou o polegar com a mão aberta para si, os dedos arqueados em um sinal de que “estou bem”, logo em seguida levou a palma da mão ao queixo e afastou, agradecendo pela pergunta. Fez uma pequena pausa antes de fechar o punho para poder levar os dedos até seus lábios, batendo antes de utilizar o indicador e o dedo médio, passando eles por sua garganta para fora, sinalizando que seu problema era a mudez e não a falta de audição.
Encarou o sujeito durante um curto espaço de tempo, considerando que talvez ele não fosse assim tão fluente na linguagem de sinais, mas já era um feito se ele conseguisse lhe compreender sem que precisasse do celular para escrever tudo. Apontou para o rapaz mais uma vez, sinalizando um novo pedido de desculpas, antes de erguer a palma da mão como se fosse uma lousa para poder sinalizar datilografando as letras S.A.I.N.T.C.L.A.V.I.E.R. para poder indicar o nome do lugar que precisava encontrar antes de apontar o indicador para cima e movê-lo de um lado a outro, sinalizando que queria saber onde ficava a instituição onde precisava se apresentar.
Baixou o olhar por um instante, notando finalmente o lanche que havia derrubado do outro, acabando por pressionar os lábios antes de pedir desculpas mais uma vez. Continuou observando o outro rapaz, afinal de contas, perder o contato visual não era algo muito bom quando se dependia da linguagem de sinais pra isso. Enquanto esperava a resposta do outro, retirou a sacolinha que usava na viagem para recolher seu lixo e utilizou a mesma para retirar o lanche derrubado da rua, agachando-se com todo o peso de sua bagagem nas costas e sem tirar os olhos do rapaz.
Marion
O sujeito parecia tão preocupado quanto Marion acerca da situação toda. No máximo tinha perdido seu croissant de chocolate. Ele, por outro lado, tinha o celular e as malas para se preocupar. Esperou que ele sinalizasse o que precisava, demorando um pouco para processar que ele era mudo, e não surdo. Ergueu as sobrancelhas, supondo que seria mais fácil se ele pudesse sinalizar um pouco mais devagar e pudesse conversar com ele. Com aquelas malas, certamente um turista perdido ou algo assim. Não faria mal ajudar.
- Ah, então você consegue me ouvir? – perguntou, mas ao mesmo tempo tentou fazer o sinal para o caso dele não ter uma audição tão boa também. Mas estava chegando no limite do que entendia de linguagem de sinais. Porém sabia o suficiente de datilologia para encontrar o nome de St. Clavier no sinal que ele fez. – Você está procurando St. Clavier? – perguntou sem sinalizar, um tanto surpreso. Talvez ele fosse um novo aluno, afinal, ele parecia mais ou menos da idade dos alunos de St. Clavier.
Levantou-se do chão e esperou que ele fizesse o mesmo, mas antes de tudo, o rapaz decidiu pegar o chão o pãozinho estragado e jogar fora, mesmo com a bolsa pesada nas costas. Automaticamente, Marion levou as mãos até a bolsa, aliviando a carga do peso e ajudando o outro a se levantar.
- Obrigado. – agradeceu com um sinal também, então observando o rapaz diretamente. – Olha, se está procurando St. Clavier, eu sou aluno de lá. Posso te levar até a escola. É novo aluno? Meu nome é Marion. – falou um pouco mais devagar que o usual para ser mais entendido, e então estendeu a mão para o outro.
Lucius
Fez uma pausa, escutando a pergunta do outro antes de concordar com um aceno positivo para a pergunta. Logo depois, após utilizar os sinais da datilologia para indicar o nome da instituição onde precisava ir, ouviu a nova pergunta, concordando novamente com um aceno positivo breve sobre sua procura a St. Clavier.
Baixou o olhar para a mão estendida para si e apertou a alça da própria bolsa, pensando se deveria acreditar no que o outro lhe dizia. Bem, ele não deveria ter motivos para mentir para sua figura e ele sabia linguagem de sinais, o que não era tão comum assim entre a população que conhecia.
Aproximou a mão dominante do próprio peito e em seguida cruzou os dedos entre as mãos como se estivesse fazendo a mímica de duas facas com os dedos, cortando-as. Em seguida, sinalizou as letras L.U.C.I.U.S. e parou antes de sinalizar A.M.B.R.O.S.I. Logo depois, passou suas mãos, uma sobre a outra, apontou para o sujeito e para si mesmo, levando o seu indicador para o outro que estava direcionado ao rapaz. Basicamente estava dizendo “Meu nome é Lucius Ambrosi. Prazer em te conhecer.”
Finalmente apertou a mão do sujeito em um aperto breve, evitando passar muito tempo em contato com a pele do tal de Marion. Olhou para o caminho que estava tentando seguir anteriormente e ficou quieto, encarando o rapaz no aguardo de que ele de fato lhe mostrado o caminho que deveria tomar. O que lhe chamava a atenção, todavia, era notar que o outro tinha uma tatuagem. Talvez fosse um bom sinal do destino encontrar um outro rapaz que também se interessasse por gostos semelhantes aos seus e que pudesse entender sua própria comunicação. Ainda assim, não era uma pessoa exatamente acostumada em ter boa sorte na vida, então ainda permaneceu na defensiva quanto à seguir o outro.
Marion
Marion parou para ver o sinal do nome do rapaz, que aparentemente se chamava Lucius Ambrosi, se tinha pego todas as letras certas. Não costumava se apresentar com sobrenome porque todos em St. Clavier faziam questão de apresentar o sobrenome antes do nome, mas supunha que se ele era de fora, não faria diferença para ele se era de uma família tradicional de Cerise.
- Ah, perdão. Marion Limoges. – corrigiu o próprio nome, fazendo a datilologia simultaneamente e devolvendo o sinal de “prazer em conhecê-lo”. – Nome interessante, Lucius... – falou, imitando o sinal do nome dele que parecia bem diferente para si. – Eu não tenho sinal pro meu nome. Fiz um curso rápido de língua de sinais com ouvintes. Desculpe se eu não lembrar muito.
Apertou a mão dele de volta, e então apontou o caminho que deveriam seguir com a mão, indicando a direção de St. Clavier. Lucius parecia ainda um pouco desconfiado, mas não o culpava. Era um completo estranho, e embora fosse aluno de St. Clavier, tinham muitos péssimos alunos lá.
- Ah, você prefere andar até lá? Com essa mala, acho melhor pegar um ônibus. A ladeira pra St. Clavier é longa. A mala vai pesar. – explicou, apontando um ponto de ônibus perto dali onde poderiam ficar esperando transporte. – Espero que não se importe se eu conversar muito. Quero que perca essa desconfiança toda de mim. Sou só grande, mas só mordo se pedir. – brincou, abrindo um sorriso largo muito simpático, e dando uma piscada que em nada ajudava a desconfiança do outro. – Aliás, prefere que te chame de Lucius ou Ambrosi? E... eventualmente tem que me contar o que vai estudar em St. Clavier!
Lucius
Ponderou sobre a consideração do outro em continuar fazendo os sinais quando havia revelado a ele que conseguia ouvi-lo, apenas não podia falar com ele. O sujeito parecia bem educado e prestativo para alguém que poderia tentar lhe furtar, mas não era de baixar a guarda para qualquer um. Ainda assim, tinha que dar o braço a torcer, considerando a sorte que estava tendo em encontrar alguém que podia entendê-lo sem que precisasse usar o celular ou um bloquinho para anotar o que queria dizer.
Ouviu a sugestão sobre pegarem um ônibus e considerou a proposta. Um ponto de ônibus deveria ser um lugar movimentado, então não precisava ficar sozinho à mercê do outro. De todo modo, ele permanecia sendo educado e prestativo. Perguntava-se se todas as pessoas no interior francês eram daquela forma. Baixou o olhar, recordando que de fato havia uma ladeira no mapa que havia visualizado online para St. Clavier.
“Não tem problema.” começou a sinalizar novamente, seguindo para o ponto de ônibus indicado na companhia do recém conhecido. Manteve o olhar sobre o sujeito, pensativo sobre o tamanho dele e o discreto comentário sobre morder se pedisse, seguido da piscada indiscreta. Não esboçou nenhuma nova expressão, encarando o sujeito como se ele tivesse lhe falado algo trivial sobre o tempo. “Ambrosi”.
Respondeu sobre como queria ser chamado e apontou para o case do violão em suas costas, ainda neutro em suas expressões, certo de que aquele instrumento indicava sobre o que iria estudar na instituição. Talvez fosse estranho para ele que uma pessoa muda estudasse música, mas já esperava que o sujeito estranhasse seu interesse. Queria mudar de assunto, então voltou a sinalizar na altura da visão do outro para recuperar sua atenção para outro assunto.
“Não se preocupe. Pode falar. Sou bom ouvinte.” - explicou, considerando que era melhor ouvir sobre o outro que ter de falar sobre si mesmo quando era novo na cidade. - “O que você estuda?” - questionou enquanto esperavam o tal ônibus.
Marion
Não sabia se a reação dele para sua investida discreta tinha sido efetiva ou se ele simplesmente não ligava. Ou ele podia ter escolhido lhe ignorar. De todo modo, fazia tempo que não encontrava alguém tão bonito e com tão pouca expressão no rosto. Não que estivesse precisando adicionar a lista de parceiros, mas não lhe custava nada, além do que, era sempre bom flertar casualmente com alguém.
Depois de saber que ele preferia ser chamado de Ambrosi, abriu um sorriso largo, arrumando um lugar no ponto de ônibus onde pudesse apoiar o ombro por pura preguiça.
- Então espero que não se incomode com minha pronúncia francesa, Ambrosi. – falou, embora não tivesse a mínima ideia de como sinalizar isso. Quanto ao que ele ia estudar, expressou uma surpresa agradada ao vê-lo apontar o violão. Achou que era um hobby, mas era bom saber que tinha achado alguém que tocava. – Très bién! Música é rumo maravilhoso. E se é aluno de St. Clavier, deve tocar muito bem! – falou, sinalizando animado o que sabia, especialmente só completamente a expressão de agrado. – Sou aluno de dança. Então de certa forma estamos os dois ligados à música. E nem queria me gabar, mas sou muito bom com o corpo. Se quiser ver qualquer dia desses.
Brincou, se contendo para não mostrar nenhum passo de dança na frente de Lucius e deixá-lo entender como queria sua colocação.
- Suponho que toca música clássica, mas estou sempre procurando gente com talento. Trabalho no porto de Cerise em uma ONG, ensinando atividades culturais a crianças. Se um dia quiser fazer um passeio comigo, posso mostrar a cidade e depois lhe levar lá. – continuou com uma animação contida, embora fosse o tipo bem simpático. Então sinalizou com mais confiança – De onde você é?
Lucius
Manteve-se no ponto com a postura ereta ainda que carregando suas próprias bagagens, um reflexo dos exercícios de música para conseguir a bolsa para St. Clavier. Baixou o olhar com o comentário dele sobre a pronúncia francesa e esboçou um sorriso educado. Definitivamente o sotaque francês não seria um problema. Voltou a atenção para o rapaz, mais atento ao discurso dele sobre ser um aluno de dança.
Concordou com um aceno positivo sobre o convite de assisti-lo dançar ainda que ele parecesse brincar com a oferta. Gostava de assistir apresentações de dança, música e teatro no celular, ainda que não tivesse a oportunidade de assistir tanto tais festividades pessoalmente - o que esperava que mudaria agora que estava indo estudar em St. Clavier.
Observou o trajeto da rua, esperando o tal ônibus que deveria passar a qualquer momento quando ele supôs sua especialização. Pelo menos ele havia acertado o que havia começado a estudar. Porém, o mais lhe interessou na conversa foi a descoberta sobre o rapaz trabalhar na cidade em uma ONG. Deixou de prestar atenção na rua e encarou o outro, sinalizando mais uma vez com o uso das duas mãos ao responder “Paris.”
Fez uma pequena pausa antes de completar os sinais, considerando que a resposta que havia dado talvez fosse vaga demais. “Eu morava em Paris com a minha mãe.” Apontou o dedo para o outro, indicando que faria uma pergunta sobre ele. “Que atividades você faz nessa ONG?” parou, voltando a segurar as alças da mochila que trazia consigo, dando espaço para ele poder usar o sotaque francês de novo, que ainda não lhe incomodava.
Marion
Certamente pela aparência mais exótica, achou que ele tinha vindo de mais longe. St. Clavier era um ninho de crianças de vários países, não podia lhe culpar por pensar assim. Mas era bom saber que ele estava em Paris. O que queria dizer que não teria problemas com seu francês, embora bem imaginasse que a língua de sinais faria mais efeito naquele caso.
Percebeu que ao menos estava conseguindo abrir o rapaz um pouco mais para conversa quando ele complementou a resposta sinalizando que morava com a mãe em Paris. Abriu um sorriso para a informação nova. E então prestou atenção na indicação de que ele lhe faria uma pergunta. Até viu o que ele queria questionar, mas o ônibus chegou em tempo hábil. Indicou que ele lhe seguisse, e pagou a passagem para os dois, ajudando a colocar a mala antes de chamar para sentarem em dois assentos vazios.
O ônibus para St. Clavier era bem vazio de fato. Exceto por rostos muito jovens que pareciam estar voltando para a academia assim como os dois.
- Ah, sobre sua pergunta, Ambrosi... – falou, chamando a atenção dele enquanto sinalizava da mesma forma. – Eu sou professor de dança na ONG. Ensino hip-hop e outros tipos de street dance. Locking, Shuffle... agora estou tentando melhorar no popping. E trabalho ritmo e consciência corporal também. St. Clavier até tenta me puxar pros ritmos mais clássicos, mas... sem condições. Meu corpo não funciona assim. – riu, apontando na janela. – Já vamos começar a subir para a escola.
De repente, Marion estalou um dos dedos, como quem tinha lembrado de alguma coisa.
- Ah, se quiser aprender a dançar, um tour na cidade ou em St. Clavier, visitar a ONG, um parceiro de cama ou outras informações, a gente pode trocar contatos, viu? – falou, abrindo um sorriso simpático.
Lucius
Agradeceu com um aceno breve com a mão levada ao queixo em um sinal de gratidão assim que o rapaz permitiu a sua passagem para adentrar primeiro no ônibus. Contudo, ficou tenso com o fato do sujeito pagar sua passagem para a viagem. Guardou o próprio desgosto para si mesmo por hora, considerando que estava carregando sua própria bagagem dentro do transporte público. Sentou-se ao lado do outro nos bancos, preferindo ficar do lado do corredor pela quantidade de objetos que trazia consigo. A postura estava bem colocada, os ombros para trás.
Observou o rapaz com um semblante neutro, fazendo uma nota mental para a preocupação dele em continuar sinalizando para sua figura, apesar de já ter avisado que conseguia escutá-lo. Conseguia recordar que sua terapeuta já havia comentado sobre a terapia através da dança e da própria consciência corporal para estimular o processo de melhora na auto estima.
Virou o rosto para acompanhar o trajeto apresentado pelo moreno e concordou com um aceno positivo da cabeça, interessado em aprender o cenário que levava para St. Clavier. Era bom aprender a usar o transporte público daquele lugar o mais cedo possível, assim não precisaria incomodar ninguém com pedidos de informação desnecessários. Ficou surpreso com o estalo repentino, mas ainda mais pelo fato do sujeito parecer ter lido seus pensamentos sobre a necessidade de conhecer melhor a cidade.
Arqueou uma sobrancelha com a sugestão dele sobre um parceiro de cama. Esperava que ele estivesse tentando se referir a possibilidade de ser seu colega de quarto. Como ele não estava tentando se aproximar de sua figura através de toques desnecessários e aquilo já lhe fazia se sentir mais confortável com a presteza do recém conhecido colega. Baixou o olhar e começou a buscar o próprio aparelho celular no bolso.
“Aqui.” - sinalizou, mostrando o próprio celular com a lista de contatos reduzida que possuía. Indicou para que ele gravasse o próprio contato em seu aparelho, assim poderia entrar em contato com ele caso precisasse. Fez uma pequena pausa antes de voltar a sinalizar, virando-se para o colega. - “Você tem vídeos dançando?”
Marion
Pelo visto suas investidas em Lucius não estavam dando muito certo. Independente de como flertasse com ele, o moreno permanecia com a expressão impassível e ignorando todos os seus comentários. Não havia sinal de que ele estava dando qualquer atenção as investidas: nenhuma reação negativa, tampouco um pouco de rubor. Basicamente, assumiu que ele era denso. Ou hétero.
Pelo menos podiam trocar contatos. Pegou o celular dele e registrou seu número para que trocassem mensagens por aplicativo. Aproveitou e deu um toque para seu celular, registrando também o número dele como “Ambrosi”, mas diferente da lista de contatos de Lucius, a de Marion era bem extensa.
Observou a pergunta dele com atenção e abriu um sorriso largo. Gostava de falar sobre dança, especialmente sobre seu projeto pessoal.
- Sim! Tenho vários! Na verdade eu tenho um canal no Youtube onde coloco 30 segundos de uma coreografia própria toda semana. – falou, abrindo o celular no próprio canal do youtube e enviando o link através do celular para Lucius. – Minha meta é monetizar bastante os vídeos, faço todo mundo assistir e curtir, então, por favor. E se tiver qualquer feedback, só deixar um comentário ou me mandar mensagem. E caso queira tenho outras mídias sociais, mas não são profissionais. – explicou com muita empolgação, mandando outros links no celular e apontando que eram seus vídeos favoritos do canal que ele mesmo tinha gravado. – E você? Grava tutoriais de violão? Posta nas mídias sociais? Se os alunos de St. Clavier soubesse expor os próprios talentos... Ah, chegamos!
O ônibus parou em frente ao portão da escola e alguns jovens que vinham no veículo desceram devagar. Esperou Lucius sair, pedindo licença para ajudá-lo a descer as malas e finalmente poderem caminhar na escola.
Lucius
Ouviu atenciosamente sobre o projeto pessoal do outro, considerando o planejamento financeiro dele para poder arrecadar fundos com a própria habilidade de dançar. Observou os links no próprio celular e abriu as mídias sociais do outro para receber notificações para que criasse algumas contas. Não possuía muitas contas em mídias sociais, tinha um e-mail e alguns vídeos guardados no próprio celular, mas nunca havia postado nada.
Fez uma pequena pausa para poder enviar um de seus vídeos de treino enquanto tocava violão na casa de sua mãe quando o outro anunciou que haviam chegado. Agradeceu com um aceno positivo quando ele terminou por lhe auxiliar com a bagagem ao descerem do ônibus.
St. Clavier era enorme, podia dizer pelo tamanho os muros e pela extensão dos prédios. O lugar parecia bem agradável e amistoso com jardins e árvores pelo campus da instituição de ensino. Precisou se identificar na entrada da instituição e logo foi instruído para ir ao prédio administrativo para ser alojado em um dos quartos dos alunos antes de conhecer melhor o lugar.
“Obrigado por me ajudar a chegar aqui.” - sinalizou para o moreno, entendo que precisava ir ao prédio administrativo primeiro. - “Pode me dizer onde fica o Prédio Administrativo?” - questionou novamente através de sinais, movendo as mãos mais devagar para que ele pudesse compreender todos os seus sinais. Não esperava que o outro pudesse lhe ajudar mais do que já havia lhe auxiliado, então se recebesse as informações corretas, certamente poderia se virar sozinho. A ideia de incomodar terceiros e tomar o tempo deles desnecessariamente lhe incomodava. E também não estava familiarizado com a ideia de ter amigos.
Marion
Abriu um sorriso largo quando recebeu uma mensagem no celular com o vídeo do outro treinando, mas como tinham acabado de chegar, não teve tempo de responder mesmo do lado dele. Supunha que ele ficaria impressionado com a escola – todos ficavam – mas a entrada era apenas a entrada, e St. Clavier daria algum trabalho para ele enquanto tentava se adaptar a rotina de aulas.
Até queria acompanhá-lo, mas supôs que se ficasse seguindo Lucius para todo lugar, ele começaria a achar que sua simpatia era pura condescendência. Ele teria que se virar sozinho na escola, então agora que estava fora do perigo de se perder em Cerise, tinha todo o terreno de St. Clavier para explorar por conta própria. Ajudou-o pelo menos nas introduções com o porteiro, e logo que entraram, o moreno questionou sobre onde era o prédio para alguma coisa, e embora não soubesse mesmo o sinal para administração, ao menos podia entender pelo contexto.
- Hm. O prédio administrativo fica seguindo em frente aqui, passando do prédio principal e caminhando pra esquerda. – explicou calmamente, fazendo questão de sinalizar. – Eu vou ter que lhe deixar ir sozinho daqui, mas olha, vou pedir para algum professor ou funcionário que saiba língua de sinais ir para o prédio administrativo para lhe ensinar tudo. E se precisar mais tarde, tem meu número. Prazer em te conhecer, Ambrose!
Fez uma continência relaxada para Lucius e então deu meia volta, andando em direção ao prédio principal para deixar que o outro resolvesse seus problemas. Aproveitou e mandou uma mensagem para ele, pelo vídeo que ele enviou e não teve tempo de responder. Mandou uma carinha dando uma piscada, e acenou ao longe antes de sumir no prédio principal.
Lucius
Observou a direção indicada pelo outro e agradeceu mais uma vez com um aceno positivo de sua cabeça. Com certeza, havia tido muita sorte em encontrar o outro e dele ter lhe ajudado até ali. Se não prestasse atenção nas cantadas do sujeito, ele até era uma companhia bem agradável. Contudo, não conseguia não se sentir incomodado pelo fato dele agir como se fosse uma pessoa surda ao invés de só mudo.
Acenou para o rapaz, despedindo-se de forma educada. Apesar dele continuar sinalizando como se não pudesse ouvi-lo, o moreno tinha boa intenção e havia lhe sido de grande ajuda. Lembraria depois de ver os vídeos de dança do outro em seu tempo livre. No momento, ainda precisava se habituar ao campus da instituição que parecia de luxo. Se algum funcionário pudesse lhe auxiliar, apresentando-lhe a instituição pelo menos no que era o mínimo que precisava saber sobre os prédios, dormitórios, cantina, quadra de esportes, sala de música, os lugares que de fato lhe interessavam, seria de grande ajuda.
No caminho para o prédio administrativo, tirou algumas fotos do lugar com a câmera do próprio celular. Enviou algumas das imagens tiradas, as melhores em que não havia tremido por estar carregando tanto peso, para sua mãe e para a psicóloga, contando no caminho sobre o garoto novo que havia conhecido ao chegar em Cerise.
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