[Drive] Levels [George; Henrique]
#1
George

Segurou a pasta de documentos com mais força juntamente com a alça da mochila ao correr para conseguir entrar no elevador já lotado. Pediu licença por ser um sujeito mais largo, apesar de não muito alto, os ombros encolhidos para poder dar mais espaço para os outros presentes no pequeno espaço daquele elevador. Conhecia o prédio no centro com a palma de sua mão. A estrutura era antiga, digna de uma área histórica da cidade, e, portanto, toda a estrutura havia sido ajustada para novas tecnologias, porém sem remover detalhes de um dos grandes prédios que ofereciam serviços à prefeitura.

Estava ali mais uma vez para poder ajudar um de seus amigos do trabalho. Como não havia conseguido levar a documentação para o prédio sobre o registro do aluguel do apartamento, o sujeito havia lhe pedido para fazê-lo já que havia saído mais cedo do horário de trabalho para poder chegar em casa e ter tempo de fazer o jantar de seus filhos. Infelizmente, demorou um pouco até que alguns dos presentes deixassem o elevador a ponto de poder mover os braços com mais facilidade, usando a mão livre para coçar a própria nuca. Aproximou-se do painel finalmente para apertar o andar em que precisava descer e observou melhor os outros presentes no recinto.

Não conhecia muito dos funcionários daquele prédio, apenas alguns dos mais antigos que viviam na cidade desde quando era criança. O lugar era cheio de mulheres usando terninhos e homens com suas roupas sociais e um ar mais limpo e executivo. Não gostava muito daquele tipo de sujeito justamente por associar a imagem deles com advogados e coletores de débitos com os quais tinha de lidar todo mês. Notou que ainda faltavam alguns andares para chegar em seu destino e fez o favor de segurar a porta do elevador para uma senhorinha sair do mesmo enquanto estranhava o comportamento mais alheio do estranho mais preocupado com o conteúdo no próprio celular.

Assim que a senhora saiu, manteve-se próximo à porta, contando os minutos em que poderia terminar sua jornada, entregar aqueles documentos para cumprir o favor ao seu amigo do trabalho, e talvez descer pelas escadas, pois imaginava que descer por elas seria mais rápido que esperar um novo elevador. Contudo, como sua sorte costumava ser ausente, não pareceu surpreso quando a luz interna do elevador falhou por um momento e o mesmo sofreu um breve solavanco, suave, mas perceptível para um bombeiro experiente como ele. Levou a mão livre até o próprio rosto, agora barbeado sem o bigode de estimação (graças à conversa com sua velha amiga Lilú), respirando fundo ao encarar a possibilidade do contratempo.

Henrique

Já não bastava trabalhar em uma cidade pequena e mal estruturada, ainda tinha que se locomover no meio do seu tempo de trabalho para levar documentos de compra e venda para um dos clientes. Bom, tinha que fazer aquilo com um sorriso comercial na cara, pelo menos, ao menos tinha conseguido lucrar alguma coisa com uns poucos clientes relevantes. E tinha que fazer aquilo funcionar para dar futuro a sua carreira, ser promovido e sair daquele inferno de lugar.

Demorou a encontrar o prédio com a localização errada que tinham lhe enviado, o que só lhe deixou mais irritado. O cliente demorou numa reunião e ele perdeu tempo também para esperar o homem, o que lhe fez perder outro cliente que tinha horário marcado no seu escritório na área residencial, mas depois de meia hora de atrasos, conseguiu as assinaturas e pagamento que precisava e voltou para o elevador num prédio reestruturado que não tinha mais do que dois elevadores e parava em todos os andares só para encher mais e mais, o que lhe deixou ainda mais irritado. Ainda olhou o celular para tentar responder algumas mensagens e ver redes sociais, mas, obviamente, o sinal da internet dentro do elevador antigo e lento era muito ruim.

Ele suspirou resignado e pelo menos o lugar estava esvaziando e dando espaço para se mover, mas mal algumas pessoas desceram do elevador, a luz falhou e ele sentiu o solavanco de leve. Henrique ajustou o óculos no rosto e olhou para cima, a luz apagou de vez para dar lugar a iluminação de emergência.

- Só pode ser piada. - ele reclamou, notando que o elevador tinha parado mesmo entre os andares e não havia nem uma barra de sinal no seu celular.

George

Verificou o sinal do próprio celular assim que a luz de emergência acendeu no elevador e acabou por suspirar conformado. Teria que se desculpar novamente com seus filhos pelo atraso ao buscá-los na escolinha, dessa vez por ter ido ali fazer um favor para seu amigo de trabalho. Ainda segurando a própria pasta, aproximou-se da porta de entrada do elevador, observando o mecanismo de fechamento das portas e a brecha lateral que deveria sinalizar onde estariam parados.

- Bem, pelo menos o elevador parece ser bastante usado. Acho que não vai demorar até notarem que ele parou no lugar errado. - comentou, esperando oferecer algum tipo de conforto para o estranho que dividia o espaço consigo naquele momento de clausura.

Tranquilamente, afastou-se da porta do elevador e se moveu para o canto oposto, livrando-se de sua mochila e pasta para poder usar os objetos de apoio no chão ao se sentar.

- É melhor o senhor se sentar, nesses casos não sabemos quando o elevador pode ter um solavanco novo. - explicou, o tom de voz bastante calmo e compreensivo. - Ah, sou bombeiro, por sinal. Por isso estou dizendo isso para o senhor. - acrescentou, certo de que o fato de ser bombeiro deveria oferecer maior segurança ao outro. Conhecia pessoas que tinham problemas com lugares apertados e crises de ansiedade em situações de perigo, mas devido à postura do outro, esperava que não fosse bem o fato.

Henrique

A primeira coisa que Henrique fez foi tentar mudar o modo do celular para que o sinal voltasse, o que não deu muito certo. Não prestou tanta atenção no homem que estava lhe acompanhando no elevador, mas ele foi conferir alguma coisa perto das portas. Frustrado, o moreno só se aproximou do painel com os números de andares e apertou insistente pelo térreo, depois de apertar o botão de emergência também, esperando que obtivesse alguma resposta rápida. Voltou a atenção para o homem ao seu lado que parecia pouco interessado na situação e ainda comentou que não deveria demorar até notarem que parou no lugar errado.

- Eu não sei se confio na competência das pessoas dessa cidade pra descobrirem que o elevador parou e virem fazer alguma coisa. Essa porcaria de botão de emergência está aqui só de enfeite?! - ele reclamou, apertando o botão e chamando em voz alta do outro lado, para saber se havia alguma resposta da manutenção.

O homem que lhe acompanhava só tirou a mochila das costas e se sentou, ainda parecendo muito tranquilo instruindo sobre o possível solavanco do elevador. Henrique ainda lançou um olhar quase indignado para o outro que teve a audácia de lhe dizer que era bombeiro.

- E você não devia saber fazer alguma coisa mais do que só se sentar? Ou vocês no interior só sabem tirar gato de árvore? - ele reclamou, olhando o celular de novo, ainda sem sinal e sem resposta da manutenção. - Merda.

George

Ouviu o tom inquieto do homem arrumadinho de terno e ergueu o olhar para observá-lo apertar os botões em sequência como se aquilo fosse algum tipo de video game, arcade, que ele podia selecionar todos os andares e a porta magicamente ser aberta. Ergueu o indicador como se fosse falar algo, mas ficou quieto quando ele parecia jogar para fora sua própria inquietude.

- Senhor, muitas pessoas podem ter acidentes graves ao tentarem subir em árvores e caírem. - respondeu ao outro sem nenhum tom de deboche, mantendo a calma como de costume, ainda percebendo que o sujeito não parecia querer seguir suas recomendações. - Senhor, por que não se senta um pouco? Hm? - sugeriu, tentando soar mais amistoso, acostumado a seguir o protocolo de tentar acalmar pessoas presas em lugares como um elevador. - O maquinário do elevador provavelmente vai precisar ser reiniciado. E se estamos entre os andares, não vão abrir a porta para que possamos sair antes que o carro fique encaixado corretamente. - explicou com tranquilidade, escolhendo esconder o fato de que apertar os botões aleatoriamente apenas deveria ter bagunçado mais o sistema.

Fez uma pausa e se ajeitou onde estava, removendo a própria camisa de botões que usava por cima da camiseta cinza. Colocou o tecido da camisa no chão ao lado como se fosse algum tipo de toalha, o que não era difícil por usar roupas de tamanho grande.

- Aqui, pode sentar. Assim não vai sujar seu terno. Não se assuste se começar a ficar quente de repente, o sistema do maquinário também controla a refrigeração. - explicou, imaginando que talvez ele não se sentisse confortável sendo pego de surpresa pelo clima mais abafado dentro daquela caixa de metal. Apesar do tom de voz irritado do sujeito, não perdia a paciência com facilidade e não havia motivos para ele descontar a raiva em sua figura quando estava apenas tentando ajudar.

Henrique

Henrique voltou a expressão muito mais irritada para o homem tranquilo no elevador, principalmente porque não sabia se era puro deboche ter lhe falado sobre como pessoas podiam ter acidentes por tentar tirar gatos de árvores, mesmo que o tom parecesse inalterado. Não para Henrique no meio de um momento de estresse, claro.

- Por que vai ajudar em muita coisa sentar, não é?! Especialmente perto de uma pessoa que deveria ser mais competente do que isso nesse tipo de situação. - ele fez um aceno na direção do homem, como se fosse uma pessoa completamente irrelevante. - Eu não preciso saber o que vai acontecer, você podia ser mais competente que isso e dar um jeito, não é possível que não dê pra resolver isso de dentro do elevador!

Ele bufou, apoiando as mãos na cintura e a movimentação dentro do pequeno espaço estava lhe deixando com calor também. Precisou tirar o terno e folgar a gravata, além de abrir o colarinho, ainda assim, não fez a menor menção de sentar, nem mesmo quando o outro tirou a camisa de botões para colocar no chão e lhe oferecer pra sentar.

- É tudo o que você pode fazer? Colocar uma camisa no chão pra sentar? Por deus, eu poderia estar pelo menos numa companhia mais decente. - ele reclamou, pegando o celular de novo e reiniciando para poder se certificar de que não havia sinal algum. - Merda!

George

Estava bem habituado a ouvir reclamações de pessoas, mas aquele homem exasperado lhe parecia do tipo mimado e mal educado por natureza. Ouviu as reclamações dele em segundo plano, prestando mais atenção aos ruídos externos ao elevador e a sensação de movimento, ainda que pouco do vagão no qual estavam. Pelo menos estavam apenas os dois presos no elevador, pior seria se algum dos senhores idosos ou senhorinhas que circulavam no prédio estivessem ali também. O comportamento nervoso do sujeito poderia apenas piorar a situação. Perguntou-se mentalmente se ele poderia ter algum tipo de fobia com espaços pequenos.

De repente, percebeu um ruído particular externo ao vagão como o som de metal sendo arranhado. Não pensou duas vezes antes de se levantar na direção do sujeito que parecia mais ocupado com o próprio celular. O elevador pareceu descer rapidamente por um segundo, como se tivesse sido liberado de um dos andares. Não era uma queda drástica, mas o suficiente para um machucado desnecessário para alguém que não soubesse o que fazer naquela situação. Abraçou o sujeito lateralmente para protegê-lo no impacto com a parede do elevador, recebendo a pancada no lugar do homem assim que perderam a estabilidade. Dobrou uma das pernas ao ambos irem para o chão com o movimento do vagão, protegendo-o novamente para que não caísse, batendo as costas contra a parede ao lado no processo.

O ruído de metal arranhado foi diminuindo aos poucos enquanto as luzes de emergência piscavam, denunciando que até elas pareciam ter sofrido com aquela breve queda. Não soltou o sujeito a priori, ele não era difícil de segurar com aquele porte físico mais esguio. Prestou atenção novamente nos ruídos externos, finalmente chegando a ouvir algumas vozes mais alarmadas e preocupadas com o que deveria estar acontecendo naquele poço de elevador. Afastou-se, deixando o estranho livre agora que ambos estavam no chão pela queda repentina do vagão.

- Você está bem? - perguntou ainda com a mão sobre o ombro do sujeito, incerto sobre a existência ou não de alguma fobia a espaços pequenos no homem.

Henrique

Henrique estava concentrado demais no celular e na tentativa de achar um lugar dentro do elevador pifado que o sinal retornasse para que ele conseguisse ao menos trocar algumas mensagens, provavelmente por conta da atenção no aparelho, ele ignorou o ruído externo, que só devia ser esperado de um elevador num prédio antigo, mas foi trazido de volta para a situação complicada quando o elevador despencou de uma vez.

Ele sentiu o corpo ceder com o solavanco forte, e numa reação automática, soltou o celular para procurar algo em que se segurar nas paredes do elevador. No mesmo instante, sentiu o braço firme em volta de si que lhe deu mais sustentação no lugar, até ambos caírem no chão do elevador, ele teria se machucado mais com o susto do impacto, mas o tal bombeiro usou um pouco das habilidades de trabalho dele para lhe ajudar. Quando Henrique se recompôs, teve que ajustar os óculos no rosto para encarar o outro de perto.

- Bom, você serve para alguma coisa no fim das contas. - Henrique comentou, ajustando a postura no elevador para se afatar do bombeiro, ainda sentado no chão, mas pela primeira vez dando uma boa olhada no homem que tinha ficado preso com ele no elevador. - Estou bem. - o olhar de Henrique foi um pouco mais indiscreto daquela vez, observando o outro de cima abaixo e voltando a encará-lo nos olhos. - Você é hétero? Se vamos ficar presos aqui, podemos pelo menos nos distrair. E meu celular está sem sinal, então nem internet eu posso usar.

George

Não se incomodou com o comentário dele sobre suas habilidades ao ajudá-lo, dando espaço para que ele se afastasse e agradeceu mentalmente que pelo menos com o susto, o homem era sensato o bastante para continuar no chão. Entranhou por um momento o olhar direcionado para si, pois não estava nenhum pouco habituado a ser observado daquela maneira. Desviou o olhar por reflexo, tentando se concentrar no que as vozes do lado de fora poderiam estar dizendo quando se deu conta que o celular do sujeito havia caído.

- Ãhn? - foi o que conseguiu perguntar ao ser questionado sobre ser ou não hétero. Esticou o braço para pegar o aparelho do homem, notando que a frágil tela de um modelo mais caro parecia ter sido danificada no impacto com o chão do elevador. - Sinto muito, mas parece que a falta de sinal não será seu único problema. - respondeu, estendendo o aparelho para o estranho com ambas as mãos, tomando cuidado para que a tela não sofresse mais com nenhuma pressão sobre ela. - Meu nome é George, George Blunt, por sinal. O senhor é…? - perguntou, calmo e educado como de costume, esperando que após sua demonstração de gentileza o homem ficasse mais aberto a uma conversa civilizada ao invés de lhe dirigir comentários desagradáveis quando não havia sido em nenhum momento indelicado com ele. Observou a vestimenta alheia, procurando algum tipo de crachá ou identificação.

Henrique

A distração com o homem a sua frente lhe fez esquecer o estado do celular por míseros dois minutos, porque logo o bombeiro lhe estendeu o aparelho, sem responder sua pergunta muito direta, mostrando a tela quebrada, o que lhe deixou ainda mais irritado.

- Tch! Só faltava essa! Uma porcaria de elevador parado no meio dos andares e o celular quebrado e sem sinal! - ele bufou, mexendo na tela pelo menos para ter certeza que o touch ainda funcionava.

Henrique levantou um pouco os óculos para poder pressionar o espaço entre os olhos, tentando manter alguma paciência que ainda tinha. Foi em tempo de ouvir a apresentação do outro, acompanhado da pergunta sobre o seu nome. Em nenhum momento, entretanto, ele respondeu sobre ser hétero ou não. E agora que estava sem sinal e com o celular quebrado, podia mesmo usar de uma distração.

- Henrique Carvalho. - ele respondeu, estendendo a mão e esperando que o outro lhe cumprimentasse de volta. Ele parecia educado, e tinha um corpo bem em forma, o que Henrique só confirmou quando ele apertou a sua mão com firmeza de volta. Aproveitou que ele tinha lhe cumprimentado e não soltou a mão dele. - Não me respondeu se é hétero, George. Você sai com homens? Eu realmente gostaria de relaxar agora.

George

Sorriu por educação, desvencilhando a atenção que estava dando aos ruídos do lado de fora do elevador para prestar atenção no que o homem adulto estava dizendo. Pelo menos ele parecia ter parado de reclamar.

- Bem, eu sou viúvo e costumo sair com alguns amigos do trabalho e pessoas que conheço na cidade. - fez uma breve pausa, notando como o sujeito não parecia querer soltar sua mão. Pelas palavras dele, não imaginava que ele fosse do tipo promíscuo que queria “relaxar” de uma forma que não fosse conversando. Na verdade, associou o fato dele não querer soltar sua mão como uma confirmação de que ele deveria ter algum tipo de fobia com elevador. - Mas eu não saio com ninguém… romanticamente, se é isso que o senhor quer saber. Desculpe.

Informou ao tal de Henrique, ainda que não tivesse feito nenhuma menção de soltar a mão dele. Ainda não tinha certeza se ele estava nervoso por conta de estar preso no elevador com um estranho ou se estava mesmo insinuando interesse em sua pessoa. Na verdade, era bem estranho encontrar qualquer pessoa que demonstrasse interesse em sua figura. Ouviu alguns ruídos metálicos mais altos e um burburinho do lado de fora e desviou o olhar novamente, imaginando que já deveriam estar mexendo no maquinário para que o elevador retornasse a um andar seguro em que pudessem descer com segurança.

Henrique

Henrique não recebeu a resposta que queria de imediato, mas quando ele respondeu que não saía com ninguém “romanticamente”, ele rodou os olhos com a interpretação inconveniente.

- Eu certamente não estou procurando um namorado, se é o que está pensando. Não pretendo fazer sexo no elevador, mas outras coisas seriam bem úteis antes de alguém resolver abrir essas portas. - ele finalmente soltou a mão do outro e com o calor que estava aumentando, desabotoou os punhos da camisa social e arregaçou as mangas até a altura dos cotovelos, desabotoando mais um botão da gola da camisa. Ele apoiou os pés no chão e ficou sentado com os joelhos erguidos, apoiando os cotovelos ali. Passou uma mão na nuca, sentindo a fina camada de suor já se formar, só então voltando a encarar o bombeiro. - Bom, nada impede que gostando, podemos continuar depois que sair daqui.

George

Baixou o olhar para a mão do outro que deixava a sua e permaneceu quieto enquanto prestava atenção nos ruídos. Entretanto, observou o movimento do homem ao dobrar as mangas e passar a mão pela própria nuca, aliviando-se do calor. Notou as tatuagens nos braços do sujeito e recordou de seu amigo japonês e mal humorado, Tamotsu. Imaginou se toda pessoa mal humorada gostava de se tatuar.

Estendeu a mão até sua própria mochila, abrindo o zíper da mesma até retirar de dentro dela uma garrafa, típica daquelas de academia com o símbolo do corpo de bombeiros da cidade, para estender o objeto cheio de água para o moreno.

- Ainda bem que consegue pensar em coisas como essas nessa situação, pensei que estava com medo por estar preso em um espaço pequeno com alguém estranho. - admitiu, sacudindo a garrafa na frente dos olhos do sujeito. - Beba. É térmica, ainda deve estar gelada. - voltou a observar as tatuagens, imaginando que ele deveria escondê-las por conta do trabalho. Lembrava muito bem de todos os comentários que sua falecida esposa fazia sobre pessoas com tatuagens serem pecadores, perigosas, sem índole. - Desenho bonito. - comentou brevemente, fazendo menção às tatuagens dele.

Fez uma pausa, retirando do bolso, ainda agachado próximo a parede do elevador, o celular de modelo antigo que carregava consigo. O aparelho ainda estava sem sinal, então guardou o mesmo em sua mochila, ouvindo então um novo ruído de metal sendo puxado.

- Oh, devem estar colocando o vagão no andar correto. - comentou, então ouvindo uma voz distante. - Oi! Tem gente aqui! - avisou, erguendo o tom de voz antes de se voltar novamente para o moreno sentado no chão. - Desculpe por gritar. Está se sentindo melhor? - perguntou, atencioso como de costume, esperando que pelo menos o sujeito tivesse se hidratado.

Henrique

Henrique deu de ombros quando ele falou sobre conseguir pensar em outras coisas, estando preso no elevador que tinha acabado de ceder alguns bons metros e poderia significar um problema mais grave no mecanismo para que ele despencasse e causasse um desastre.

- Se eu for morrer, pelo menos que seja fazendo algo que possa aproveitar, não é? - ele acabou aceitando a água que o bombeiro estendeu, tomando uns goles rápidos antes de ouvir o elogio às tatuagens nos braços. Acabou sorrindo insinuante para o outro. - Tem certeza de que não quer ver o resto? Vai achar ainda mais bonito, garanto. - ele fez questão de puxar um pouco mais do tecido do colarinho da camisa, aberto, para mostrar que a tatuagem se estendia até para os ombros e peito, mas o bombeiro não teve muito tempo de apreciar, quando ouviram o som do ruído metálico.

Henrique só fechou a garrafa e colocou ao lado no chão do elevador, pegando o celular para conferir que ainda estavam sem sinal e que mais de dez minutos já tinham se passado desde que o elevador tinha parado naquele andar.

- Estaria melhor se você tivesse aceitado meu convite.

George

Voltou a olhar para o sujeito que aceitava sua água justamente no momento em que ele comentava sobre ver o restante das tatuagens. Não estava acostumado com pessoas se insinuando daquela maneira descarada para sua figura, então foi com um pouco de surpresa que percebeu que havia perdido a própria concentração por um instante ao observar os braços do moreno e processar a ideia de que um outro homem estaria sugerindo algo íntimo consigo.

Ouviu o ruído novamente e se abaixou por reflexo, levando a mão ao ombro do sujeito a fim de o apoiar no lugar para que não perdesse o equilíbrio novamente. Em poucos instantes, sentiu a caixa de metal se mover e virou o rosto, observando a saída com alívio por serem libertos daquele pequeno espaço. Recordou então do fato das tatuagens do sujeito ainda estarem à mostra e associou aquela aparência a ideia de que ele não gostaria que outras pessoas notassem as tatuagens em um ambiente como o de trabalho. Adiantou-se para ajustar o tecido das mangas do homem, partindo para o colarinho logo em seguida quando ouviu as vozes de fora mais próximas e a porta finalmente sendo forçada a abrir.

- Ah, finalmente! Desculpem pela demora! Todo mundo bem por aí?!

Parou o que estava fazendo, olhando por sobre o ombro para se dar conta que não apenas alguns colegas de trabalho pareciam estar observando enquanto ajustava as roupas de um outro homem no chão do elevador, assim como outros funcionários curiosos do prédio pareciam interessados nos resgatados do elevador.

- Desculpe… - pediu ao sujeito antes de se levantar, pegando sua bolsa para poder sair dali o mais rápido possível. Ainda precisava entregar os documentos como um favor para seu amigo de trabalho e queria usar a obrigação como desculpa para escapar daquela situação constrangedora que lhe fez ruborizar de vergonha por um momento ao ser pego em uma situação curiosa com o estranho de óculos. Não era mais nenhum garoto e, além disso, sabia que com a personalidade que tinha, seria alvo de comentários pelos colegas de trabalho que estavam ali para resolver o problema com o elevador.

Henrique

Henrique quase foi pego de surpresa quando, depois do ruído metálico, o bombeiro se aproximou com as mãos na direção dos seus braços, mas ao invés de algum tipo de avanço que o português esperava, ele puxou as mangas para ajustar a sua camisa e ainda levou as mãos até o colarinho, abotoando até a gola de novo para esconder a tatuagem. Henrique só conseguiu arquear as sobrancelhas diante da atitude do outro depois de todas as suas insinuações.

- A minha sugestão era para que tirasse as roupas, não para colocá-las no lugar. - Henrique deixou bem claro, ao que o outro homem só pareceu ruborizar exageradamente depois que ouviram o chamado dos técnicos de manutenção que tinham finalmente aberto as portas do elevador.

A última coisa que Henrique ouviu foi um pedido de desculpas e antes mesmo de ter a chance de pegar o número dele ou entregar o cartão de visita, caso ele tivesse interesse em fazer mais do que lhe ajudar a esconder a tatuagem, ele fugiu como um criminoso com a polícia na cola. Bom, tinham sido dez minutos de vida desperdiçados, mas quem sabe tivesse outra chance de encontrar o bombeiro? Faria valer a pena um segundo encontro.

[Thread Encerrada]


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[Drive] Levels [George; Henrique] - by Lil - 09-22-2021, 04:30 PM

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