Curiosidade em Dobro [Daniele]
#1
Daniele

Durante a semana vários boatos e fofocas surgiram na Academia feminina como fogo em palha, geralmente os galpões do porto eram constantemente usado para festas relâmpago, raves de adolescente em geral, mas recentemente a movimentação de pessoas estranhas e suspeitas começou a aumentar e as festas mudaram de lugar. Mas isso não aconteceu uma vez, nem duas, mas várias vezes a ponto de várias pessoas dizerem lugares e locais diferentes sem quem ninguém tenha a certeza absoluta que de fato vai ser ali ou não. E onde há boato tem uma Daniele querendo saber se há verdade ou não.

Durante a semana a loira extrapolou seu número de saídas para checar os locais, tirar fotos e conversar com pessoas, tudo sempre tentando voltar dentro do seu horário limite, mas depois de três dias seguidos, no quarto já tinha esgotado as justificativas para a presidente do Conselho Disciplinar de porque precisava sair. E na quarta noite, a situação ficou pior, pois a polícia acabou aparecendo e Daniele teve de voltar muito tarde, pois teve de se desvencilhar e pegar um caminho mais longo de volta ao internato feminino. Claro que daquela vez não poderia sair sem um castigo, e por isso ficou o final de semana de detenção.

Mas claro, que a loira não passaria o fim de semana trancafiada no próprio quarto, tinha um plano B e C para ocasiões assim e na falta deles, sempre podia improvisar. A loira mais nova tinha vestido uma calça de malha típica de atletas masculinos um tênis esportivo, tinha usado uma faixa para tentar reduzir o volume dos peitos e um moletom. Entrançou o cabelo, pôs uma peruca de cabelo curto e finalizou com um boné, carregava uma bolsa lateral com as roupas que realmente usaria pra sair aquele final de tarde e noite. No máximo em seu disfarce improvisado, parecia um atleta saindo para uma corrida no final do dia. Estava passando pelos corredores dos dormitórios tentando não ser vista em pleno sábado, e estava quase saindo do prédio ao se deparar com a figura de uma certa morena de mecha vermelha vindo na direção de onde precisava ir, e tentou passar despercebida, dando meia volta e caminhando em passos normais para longe dali, esperava mesmo não ter de explicar nada para a morena, e acabar perdendo a oportunidade de escapulir de Limoges-Collet naquele fim de semana.

Monique

Estava com suas roupas de passeio, pensativa sobre o que fazer naquela tarde. Talvez tivesse algo para o grupo de costura do Limoges Collet, alguma sobremesa ou lanchinho; ou talvez comprasse docinhos para as garotas de natação em alguma padaria longe dali. Não se incomodava em dividir comida ou lanchinhos com as meninas e como não era muito boa com suas próprias palavras em tentar ser gentil com outras pessoas, comidinhas sempre eram uma boa pedida. Também não odiava as garotas, apenas não gostava de perder tempo com algumas conversinhas fiadas.

Estava observando no celular para que lugar ir quando uma figura curiosa lhe chamou a atenção. Poderia confundir qualquer pessoa, não possuía uma boa memória para o que não lhe interessasse. Todavia, como tinha amigas que podia simplesmente contar nos dedos de uma mão, não podia confundir aquele volume escondido de seios que a jornalista descarada tentava disfarçar. Arqueou uma sobrancelha para a figura que tentava passar sem ser percebida. Mas ela poderia ser muito descarada mesmo de ir embora sem ao menos olhar na sua cara!

Cruzou os braços inicialmente, esperando que a figura feminina lhe notasse, o que ela pareceu não dar atenção. Contudo, logo depois, pousou as mãos na cintura, apertando o passo para segui-la, baixando o olhar para as pernas da loira.

- Vai para a reunião das vacas leiteiras anônimas e não vai me contar, Elle? - chamou-a pelo apelido com certo deboche. Gostava de provocar a loirinha na mesma medida que ela gostava de lhe ver irritadiça. - Onde é que vai vestida assim? Tá fugindo do colégio tão cedo e nem pra me chamar? - questionou, sentindo-se de fato deixada de lado para a outra considerar abrir fuga sem ao menos considerar sua participação voluntária nisso.

Daniele

Daniele seguia seu caminho, crendo que tinha despistado a amiga tão curiosa quanto ela, ou ao menos tentava ser curiosa, mas logo ouviu aquelas passadas rápidas, que delatavam como ela, além de lhe seguir, não conseguia ser discreta, tudo que precisava, claro! Alguém que não conseguia ser discreto pra lhe seguir. Se virou com um sorriso cínico no rosto, tão conhecido da amiga, e gesticulou na altura do próprio busto:

– é anônimo por um motivo, mas não é como se servisse pra você. - então gesticulou na altura da falta de busto da amiga morena, já que não tinha como despista-la era hora do plano B - enrolação:

– Então, eu tava saindo, neh, você sabe que eu to de detenção né, logo eu quero sair mesmo assim, pra comprar um... doce! Isso mesmo, um doce! - Daniele levou a mão ao queixo como se estivesse claramente pensando em uma desculpa naquele exato momento, se existia níveis para o descaramento da loira, ela estava extrapolando bem ali, na frente de Monique, sem nenhuma ressalva, então, bateu o punho fechado na própria mão, em sinal de que tinha tido uma ótima ideia:

– Com a Silvia! isso eu vou na padaria! - Daniele riu não tão convencida das próprias palavras, mas era o que tinha para aquele momento. Duvidava muito que a amiga acreditasse naquilo, e de fato lhe deixasse em paz, mas como não estava pensando nela, e sim nas coisas que queria descobrir, ficava difícil dividir os neurônios pra pensar em duas desculpas bem convincentes, já tinha até ensaiado o roteiro pra tentar convencer a presidente do conselho disciplinar, ninguém podia culpa-la por não ter duas boas ideias no mesmo dia.

Monique

- Ah, tudo bem. sorriu para ela, sequer se incomodando com o comentário sobre seus peitos. Não se importava de ter pouco peito naquela idade. Na verdade, gostava muito mais de poder trabalhar em seu espaço pessoal sem nenhum acessório ali ou peça íntima. Obviamente, já havia comprovado que a loira também tinha aquelas tendências. - Só espero que dessa vez esteja usando calcinha dessa vez.

Alfinetou e acabou rindo do próprio comentário, aproximando-se para poder segurar a mão da outra garota, segurando-lhe pelos dedos.

- Vamos, então. Não me importo de fugir. Vai ser mais divertido com você vestida desse jeito, Elle. - sorriu de orelha a orelha para a garota. Danielle era o tipo ardilosa e bem endiabrada. Não que tivesse admitido alguma vez para ela, mas gostava muito mais da companhia da garota cheia de segundas intenções e ideias mirabolantes na cabeça.

Fez uma pausa antes de pensar em puxá-la para algum lugar longe dali. Ela já estava disfarçada, deveria ter um plano melhor para fugir dali então.

- Então, qual é o plano de fuga? Só pular o muro? Atravessar os portões e sairmos correndo? E onde é que a Silvia se meteu? Vai comprar um docinho na padaria onde ela trabalha? Deveria fazer alguma coisa para ela julgar. Ela é muito boa nas aulas de economia doméstica pelo que comentam. - explicou, casualmente, sem soltar a mão da loirinha. Não queria que ela fosse embora e lhe deixasse pra trás. Também queria se divertir longe dali.

Daniele

Daniele ignorou as provocações sobre não estar usando calcinha, a especialista em provocar era a loira, a morena tinha muito que aprender ainda. A loira respirou fundo, acenando positivamente, já que não tinha como fugir de Monique, era o jeito levar a criança pra passear:

– Ok, vamos sim. - a loira usou de um tom mais reservado, porque não queria chamar tanta atenção, não mais do que a Morena sair correndo em sua direção no meio dos corredores do caminho pra saída de Limoges já causava. Por sorte era Sábado, e o fluxo de ir e vir de pessoas, não tornava a conversa tão não usual, naquele espaço.

No entanto, quando Monique desembestou a falar, parecendo o próprio namorado ruivo encarnado, a loira tinha que tomar uma providência, ou a mais velha estragaria a saída das duas, e não estava disposta a perder aquela saída de jeito nenhum. Sem hesitar avançou sobre a morena, tampando-lhe a boca, e prensando contra a parede do corredor, algumas pessoas se aproximavam e para despistar, Daniele laçou a cintura da mais velha com o braço, e inclinou o rosto, ficando a mm de distância, o suficiente para que quem passasse, acreditasse que Monique estava dando uns pegas num outro garoto qualquer:

– A gente vai sair! Mas você precisa cooperar! Não pode sair vestida assim, ou vai estragar tudo! Então colabore. - olhou em volta pra conferir que as pessoas já tinha se afastado, e tirou a mão da boca de Monique, depositando um beijo singelo no rosto, próximo da boca, como prêmio por ela ter se comportado, mesmo que forçadamente.

Sem esperar qualquer resposta da mais velha, tirou o casaco, que com certeza era do tal Lukashenko, que ela ostentava na cintura, e indicou que ela vestisse, fechou o zíper até em cima, e sacou o boné para o Plano C que estava dentro de sua bolsa, que era cinza escuro para a loira- mas que na verdade era um roxo de algum time francês de futebol - e colocou nos cabelos morenos de Monique.

– Pronto, agora somos um casal Gay, mas eu sou o ativo ok?! - brincou falando em tom reservado ainda, e indicando que agora ela acompanhasse pra fora da Academia feminina: – Ande como um cara, e eu explico melhor quando a gente estiver longe daqui, agora não dá.

Monique

Danielle parecia de fato preocupada com a saída que teria. Não se importava em ser pega na saída, contanto que a loira também fosse. Se ia ficar presa naquele lugar, que a loira ficasse também enclausurada, assim podia lhe fazer companhia.

Não previu a aproximação da outra, apoiando suas mãos no tronco da loira, as mãos arqueadas pois não era sua intenção necessariamente apertar os peitos de Danielle quando ela enlaçou sua cintura e lhe tapou a boca. Franziu o cenho ao encarar a outra garota, a boca movendo-se irritada para lhe morder os dedos. Ela estava maluca lhe colocando contra a parede daquele jeito?!

Já ia abrir a boca para morder com vontade os dedos da loirinha e repreendê-la quando sentiu o beijo em seu rosto, próximo de seus lábios. Encarou a garota, crispando a boca diante do rubor de irritação que tomava sua face.

- Pra que tudo isso? - reclamou, ainda assim arrumando os cabelos escuros com o boné, arregaçando as mangas do casaco. - É bom explicar mesmo. E pode acreditar que sou um "passivo" bem bravo com você. Tcs. - seguiu a garota, cabeça baixa, disfarçando o andar antes de se afastarem dos portões de Limoges.

Apressou o passo, segurando o braço da loira, envolvendo-a pelo mesmo para andar lado a lado com ela. Mudou o passado dos pés, recordando como o marginal do seu namorado costumava andar com seus snikers e calças.

- Então, quer me contar o que está rolando? - questionou a loira, observando o trajeto que faziam para verificar se não estavam sendo seguidas por nenhuma das pirralhas fofoqueiras de Limoges.

Daniele

Daniele apressou o passo a medida que se afastava dos portões de Limoges, tentou se aproveitar principalmente do fluxo de meninas entrando e saindo por causa do fim de semana e meio que se escorou num grupo de garotas mais velhas e consequentemente mais altas pra poder servir de sombra em parte do trajeto. Queria ter se librado de Monique no processo mais ela agarrou seu braço durante todo o percurso o que de certa forma lhe irritava, estava ficando tarde e tinha demorado mais do que gostaria pra sair da Academia feminina por causa da morena, só esperava que ela não lhe causasse mais atrasos no meio do caminho.

Estava absorta em pensamentos quando ouviu a pergunta de Monique lhe cobrando explicações de para onde iriam. Olhou a mais nova de cima a baixo e deixou escapar um suspiro mais conformado. Olhou em volta, apenas pra conferir que de fato não tinha nenhum passarinho pra dar com a língua nos dentes sobre as duas, e só então voltou atenção pra sua companhia inesperada:

– primeiro de tudo, eu não estou indo ver a Silvia, eu estava mentindo, porque não queria arrastar você junto, mas já que não tem jeito. – Levou as mãos até os bolsos da calça de esporte sacando o celular e conferindo a hora, ainda teria de pegar ônibus e trocar de roupa entre um ponto e outro, antes de chegar onde queria:

– Eu estou indo ver uns “amigos” meus. – começou as explicações deixando claro que “amigos” não queria dizer necessariamente amigos de fato, ou não como a morena ou o namoradinho ruivo dela entendia a palavra: – e é longe daqui, vamos ter de pegar dois ônibus, além de quê… – A loira abriu um sorriso zombeteiro, dando um toque no boné que a amiga usava apenas para lhe torrar o juízo: – Não é o tipo de lugar onde uma mine madame como você costuma andar, então tem sua chance de desistir agora, afinal, eu estou de detenção, não posso sair, e nem deveria sair, mas claro, que eu precisava sair, então se não quiser somar mais problemas pra sua lista, pode pegar caminho de volta pra Limoges.

Monique

Devolveu o olhar descrente para Danielle e ficou surpresa quando ela admitiu que havia mentido. Encarou-a ressentida, franzindo o cenho logo depois que ela continuou a lhe falar, explicando seus próprios planos com os "amigos" e o que precisava fazer, dando-lhe a opção de ir embora ali mesmo. Arrumou o boné e estendeu a mão para o rosto de Danielle, apertando-lhe as bochechas.

- Você vai sozinha ver esses "amigos"? Tá maluca? É claro que eu vou com você! Podia ter me falado o que ia fazer desde o início e não é como se a minha lista de detenções fosse menor que a sua! - declarou para a loira, respondendo-a prontamente com a certeza de que a seguiria onde quer que ela fosse. Não fazia ideia da periculosidade do local que Danielle desejava ir só imaginava que era longe devido ao número de transportes que ela queria pegar, todavia não fazia ideia de que tipo de pessoas eram esses "amigos" de Danielle.

Largou as bochechas de Danielle e verificou se estava com o próprio celular no bolso. Não enxergava como a loira tinha aquele tipo de impulso de sair sozinha para lugares perigosos. Era estranho se importar com alguém e ver aquela pessoa ansiar por se colocar em situações perigosas sozinha. Imaginou por um momento se Joshua e seu pai ficavam preocupados daquele jeito sempre que acabava desaparecendo.

- Quem são esses "amigos", Danielle? Como é que você conhece essas pessoas tão longe de Limoges? - perguntou a garota ao acompanhá-la, buscando apressar o passo para se manter no ritmo da outra.

Daniele

Daniele podia até achar bonitinha a expressão da amiga, claro, se não fosse pelo inconveniente que ela causava, Monique era fofa, sem sombra de dúvidas, mas isso não a tornava menos inconveniente naquele momento. E bem, ela podia ficar irritada, ou ressentida como fosse, ou mesmo curiosa por estar indo falar com "amigos" que ela não conhecia, mas não era como se a opinião dela fosse relevante pra reconsiderar sair sozinha ou não, Daniele nunca prestou contas pra ninguém do que fazia ou deixava de fazer, acreditava tomar as precauções necessárias pra ir atrás das coisas que queria, e bem, não seria uma amiga a lhe cobrar explicações que nunca se prestou a dar a ninguém. Ela era fofinha, mas não era pra tanto, afinal:

– Se você pensar bem Monique, não é como se isso fosse alguma novidade, eu geralmente saio sozinha, e se pensar mais, você não está comigo todo tempo, e se fomos um pouquinho mais além, diria até que você está mais afastada. - lançou um olhar direto para a amiga, mas não havia raiva ou qualquer outro sentimento nocivo, era apenas o jeito direto da loira de falar: – Mas bem, já que você está aqui, é exatamente isso, eu iria sozinha e não me importo nem um pouco de sair só, mesmo que seja longe. - sabia que o lugar era esquisito, conhecia o movimento, e justamente porque sabia, iria cedo e sairia cedo pra evitar confusões desnecessárias.

Agora com a companhia da amiga, além do pequeno atraso, teria de sair um pouco mais cedo, mas também, não sabia dizer se a pessoa que iria encontrar, era do tipo que gostava ou não de atrasos, mas de certo, sabia que ele ficaria curioso por estar "atrasada" já que sempre tinha chegado na hora. Podia até usar essa curiosidade de barganha, porque também não diria quem é a amiga, e ele provavelmente questionaria, mas de certo que não falaria. Até achava engraçado a possível situação, mas não tinha como evitar o leve ar de abuso que tomava sua face, no fim das contas não podia garantir a segurança de Monique, mas aí, era ela que estava escolhendo ir não é?

– e sobre os meus "amigos", é diferente do seu jeito de fazer amigos, é melhor você não saber... - naquele momento, a loira pôs um rosto sério, algo que nem combinava com a mais nova: – diferente do que possa imaginar, eu sei como "defender", já você, eu não sei, por isso quanto menos você souber, melhor. - completou a frase em tom mais sóbrio, tirando a atenção de Monique apenas para pegar o transporte público, ainda teriam de pegar outro, então não queria perder mais tempo.

Monique

Estava afastada? Certo que fazia outras coisas da sua vida e dividia o quarto com Jackie e não com Daniele, mas também não achava seguro que ela saísse sozinha. Respirou fundo. Quem era ela para falar de segurança? Já havia se aventurado a sair sozinha daquele internato várias vezes, pegando até algumas detenções no processo. Olhou ainda mais desconfiada com a menção de que a outra sabia como se "defender" e que por isso, quanto menos ela soubesse, era mais seguro.

Às vezes tinha a impressão de que ela conversava com seu segurança particular, pois para falar daquele jeito como se fosse uma porta que não pudesse entender nada do perigo ali, só lhe tratando daquela forma mesmo. Suspirou resignada, ainda assim seguindo a loira no ritmo das passadas dela. Não estava acostumada com o ar mais sério da garota, mas imaginava que aquilo teria alguma coisa a ver também com a curiosidade doentia da mesma, sendo uma jornalista e se metendo nas detenções das quais ouvia falar que ela se metia - só não sabia como ela conseguia se livrar.

- E como é que você faz para sair de lá tantas vezes sozinha? Não sabia que as garotas responsáveis estavam aceitando suborno, e acredite, eu já tentei. - comentou enquanto a seguia, já que agora estavam juntas, não costumava nada matar parte da sua curiosidade também. - E falando nisso, eu nunca ouvi da sua família por lá. Seus pais não vivem em Cerise, Daniele? - perguntou, imaginando que logo teriam de deixar de conversar de qualquer forma, a julgar pela periculosidade com a qual ela parecia demonstrar dos tais "amigos" dela.

Daniele

Daniele propositalmente ignorou a primeira pergunta de como fazia para se livrar das situações supostamente perigosas em que se metia. Se era para dar algum “doce” para amiga, era mais fácil, falar sobre sua família, então, enquanto estavam no primeiro transporte público, a loira observou a amiga de perto, e pôs aquele sorriso de sempre na face, como se estivesse falando de algo trivial, que de fato era:

-- A minha família não é daqui, somos todos de Paris, por isso, pra eles, é um grande inconveniente vir até aqui na cidadezinha, só porque eu aprontei alguma coisa. -- Daniele soltou um risinho cínico: -- Ou talvez eu esteja na cidadezinha porque eu apronto algumas coisas. -- Não era mentira, e nem era toda a verdade, mas nada que uma busca no google não resolvesse sobre as curiosidades de Monique.

Puxou a cordinha pra descer no ponto no centro da cidade, e checou no celular o horário do próximo transporte bem a tempo, no fim, talvez não se atrasassem tanto. Antes do segundo ônibus checar, Daniele faz um aceno para a amiga lhe acompanhar, e em uma das ruelas, Daniele começa a tirar a roupa de menino esportista que tinha usado para escapar de Limoges. Por baixo, a loira usava uma bermuda jeans bem ajustada ao corpo, e um top que comprimia o farto busto, jogou as roupas de menino dentro da mochila, e puxou uma blusa de botão para pôr em cima de tudo. Prendeu o cabelo em um coque levemente desarrumado, e pôs um par de brincos longos, pra dar um toque mais feminino: --Vou te dar duas alternativas, ou você continua vestida de menino e calada, ou você se arruma, e arca com as consequências do que você fala, por sua conta e risco. Quem avisa amigo é. -- Daniele falou aquilo com a simplicidade de quem estava prestes a aprontar, mas estava totalmente ciente disso.

Esperou apenas uma decisão da morena, pra só então, voltar ao ponto de ônibus, bem em tempo de pegar o próximo transporte que era intermunicipal e por isso se perdesse esse teria perdido a viagem do dia. Assim que senta nas cadeiras junto com a amiga, Daniele sorrir com ar maldoso: -- Será que 30 minutos de atraso é suficiente pra deixar alguém muito curioso?

Monique

Franziu o cenho quando ela não deixou claro como se livrava de suas enrascadas, mas aliviou a expressão quando ela lhe revelou como a família era tão preocupada com ela a ponto de não viver ali ou dar broncas nela pelo que fazia. Sempre tomava broncas por suas atitudes inconsequentes e talvez por isso não fosse pior do que já era.

- Você é muito dissimulada, isso sim. - disse em tom de reclamação com a loira, mas não deixou de continuar a viagem, estranhando o quão distante parecia que estavam indo. Além do fato de alguém de uma família rica como a da loira se dar ao trabalho de andar de transporte público. Não sabia como lidar com a situação, principalmente porque o transporte público não era tão negativamente impressionante como imaginava que poderia ser.

Encarou a mudança de vestimenta da amiga loira e arqueou uma sobrancelha, descrente que ela estava de fato trocando de roupa ali como se fosse algum tipo de investigadora secreta. Talvez Danielle tivesse uns 20 anos já e não soubesse como no filme “Nunca fui beijada”, um romance barato, mas com uma de suas atrizes favoritas, Drew Barrymore.

- Ah, então é com isso que você esconde seus peitos. - disse em um tom não muito impressionado, mais sarcástico pelo fato de ter de assistir ela trocando de roupa despreocupadamente naquele ambiente em público. Cruzou os braços, dando-lhe as costas e olhando ao redor para ver se ao menos não vinha ninguém. - Como assim? Não trouxe outra fantasia de investigadora secreta para mim, Sherlock? “Quem avisa, amigo é”? Daniele, eu não faço ideia pra onde a gente está indo e você ainda quer que eu fique calada? - reclamou de novo, pensando em como Silvia de fato deveria se sentir perto da loira inconsequente. Também era uma menina irresponsável, mas ao menos gostava de saber no que estava se metendo.

Manteve, todavia, o disfarce de um menino, apesar do requisito para que ficasse calada. Acompanhou a loira até o ponto de ônibus intermunicipal e entortou os lábios, desconfiada do destino que tomariam. Aproximou-se da loira assim que se sentaram no ônibus e falou ao ouvido dela, já que não podia responder de fato ou chamaria a atenção por sua voz.

- Diga você. 30 minutos de atraso te deixaria curiosa? Onde diabos a gente está se metendo, Daniele? - manteve os braços cruzados, observando-a lateralmente, sem deixar de prestar atenção nos outros transeuntes do ônibus, desejando por um momento que Joshua estivesse ali.
Daniele

A loira se conteve durante todo o caminho pra simplesmente não começar a rir em alto e bom som das coisas que Monique dizia. Não tinha motivo pra ela estar tão preocupada, sabia exatamente o que tinha de fazer, se ela não tinha um plano B não era problema seu. Não tava nos meus planos levar uma “mala” extra.

Com alguns minutos e sem trânsito logo se afastaram do centro da cidade, e deixou Monique com as próprias ideias, não respondendo nada durante todo o caminho. Assim que entraram na interestadual, deu um toque no ombro da morena, indicando que iam descer, puxou a cordinha e foi sorridente pro começo do ônibus esperar pra descer na parada.

O ponto era próximo de um posto de gasolina com restaurante pra caminhoneiros, assim que desceram, podiam ver, grupo de motoqueiros, preguiçosos, fumando e conversando alto. Caminhoneiros tirando seus cochilos de final de tarde junto as carretas, e o local, pouco movimentado, dando a ideia realmente de que estavam distante da cidade. O lugar era conhecido da loira, da vinda anterior, e seguiu sem pressa, caminhando devagar, já estava atrasada mesmo, o que eram uns minutinhos a mais.

Ao entrar no restaurante, entre as várias mesas, ocupadas, por pessoas diferentes, uma pessoa gigante no balcão chamava a atenção, porque no ínfimo tempo de abrir a porta e entrar no local, ele tinha erguido e baixado a caneca de café cinco vezes, como se estivesse muito, muito, muito ansioso por alguma coisa. Quando o maior notou a presença da loira no recinto, ele de forma muito clara, mudou de expressão, mudou de posição no banco alto, fez uma expressão de surpresa, e então ficou de pé, mostrando todo o esplendor de ter 2,10m e mais de 100kg, abrindo os braços em sinal claro de que era pra loira:

-- FINALMENTE NÉ! -- falou em tom contrariado, parecendo assustador ao falar: -- 43 minutos de atraso, você acha que eu não tenho mais nada o que fazer? -- em seguida caminhou na direção da menor, com a expressão ainda fechada, de poucos amigos, olhou para o acompanhante com o olhar ainda ameaçador:

-- Só foi um pouquinho! Quase nada! -- A loira sorriu de volta pro maior, fazendo sinal de pequeno com os dois dedos. O maior encarou os jovens, em seguida, abriu um largo sorriso descontraído:

-- Mas venham! Deixei uma mesa pra gente conversar em paz!

-- Esse aqui é… Como é seu nome mesmo? -- Daniele riu com ar de que tudo era totalmente normal ali.

Caminhou até o fim do restaurante em uma mesa já próximo da cozinha, vasos de planta ficavam em parte na frente, e dava visão média da entrada, e dos banheiros, era um local bom pra conversas discretas, embora nada ficasse discreto perto de um cara de dois metros de altura.

Monique

Durante todo o trajeto não calou a boca, resmungando às vezes para a amiga, às vezes para si mesma sobre como toda aquela ideia de saírem de Limoges sozinhas, vestidas como meninos era absurda. Parecia até estar brigando consigo mesma quando havia acabado de entrar na instituição e costumava fugir daquela forma inconsequente. Inconsequente sim, pois não fazia ideia alguma dos planos da loira com aquele cenário de suspense urbano.

Olhou ao redor assim que desceram do transporte, observou os sujeitos suspeitos e suas motos, tão diferente das pessoas com as quais estava habituada a lidar. Ricos não era as pessoas mais agradáveis da face da Terra, mas ao menos os ambientes que costumava circular estavam sempre cheios de pessoas que não representavam a priori nenhuma ameaça a sua figura. Contudo, naquele ambiente próximo da estadual, as pessoas que pareciam frequentar aquele lugar lhe deixavam tensa, como se o dinheiro não fosse suficiente para convencê-las a não lhe atacarem. Pela primeira vez, durante muito tempo, desejou poder estar com o segurança particular ao seu lado.

Na verdade, o que mais lhe dava nos nervos era como Danielle parecia calma e tranquila, como se tudo ali estivesse dentro de seus planos. Em contraste, sua expressão fechada e irritadiça de poucos amigos só aumentava, tal como o desejo de estapear a amiga e arrancá-la dali de uma vez. Seus planos foram por água abaixo assim que o sujeito enorme entrou em cena. Ergueu a cabeça para que a aba do boné não lhe impedisse de ver a figura do homem de mais de dois metros de altura. Era um troglodita, só podia. Contraiu os ombros e tensionou assim que ouviu a voz do sujeito, parecendo irritado com o atraso.

Olhou descrente para Danielle quando ela ainda respondeu o homem daquela forma displicente e não implorando misericórdia para que ele não lhe sequestrasse e vendesse seus órgãos no mercado negro. Por 43 minutos de atraso, tinha certeza que algumas professoras em Limoges fariam muito mais que aquilo - malditas bruxas fantasiadas de madames.

- Ah… - balbuciou com o timbre de voz feminino, logo em seguida tossindo forçadamente antes de cobrir a boca, baixando o olhar de novo, o boné lhe cobrindo parcialmente a face. - … Mnn… Unik.

Respondeu, logo abrindo a mão para esfregar a própria testa, fazendo uma careta de desgosto com a própria resposta naquele momento. “Unik?! Quem se chamaria Unik!? Que inferno de nome é Unik?!” - pensou, frustrada consigo mesmo. Estava nervosa, era verdade, mas também preocupada com as escolhas de Danielle. A loira era maluquinha mesmo se achava que ir sozinha para um lugar como aquele era um boa ideia.
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Curiosidade em Dobro [Daniele] - by Monique - 09-25-2021, 11:00 PM

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