[Drive] Destruído [Renaud, Isaac, Didier, Aleksei, Tamotsu, Sasha]
#1
Renaud

Depois de uma tarde e noite muito não convencional em casa, Renaud tinha voltado a St. Clavier, e o jovem francês estava estranhamente animado, mais do que estivera nos últimos dias. Mesmo que tivesse passado por bons momentos na companhia de pessoas que tinha muita estima dentro da academia masculina, ainda assim, aquela última noite tinha ascendido em si um tipo de sentimento novo que não se lembrava se já tinha sentido antes, mas que queria muito sentir de novo. O humor estava tão bom que tinha avisado ao secretário que apareceria na sala do conselho estudantil, justificando que arrastaria Didier também para não ser taxado de quem estava indo “atrapalhar” o serviço, sabia que o loiro devia ter pilhas de papéis pra assinar. E claro que depois que o namorado se desocupasse dos primeiranistas desesperados com as provas de final de ano letivo, poderia se juntar aos dois morenos na sala do conselho, estava mais compreensivo com os mais novos, então não se opôs ao fato de Didier dar atenção primeiro aos mais novos, pra depois ter o restante do tempo para ficar com Renaud.

Fez um esforço extra pra se vestir, pondo calça social e blusa de botões, pra não aparecer sem o uniforme ou certamente receberia uma bronca do amigo secretário por estar dando um “mal exemplo”, mas abotoar a camisa já tinha sido o máximo de esforço que conseguia, tentar dar um nó de gravata nunca pareceu um malabarismo tão difícil. No caminho passou na sala do Dr. Vlahos pra saber se ele teria alguma janela pra conversarem, e tinha certeza que se o homem não estivesse prestes a começar um atendimento com um outro aluno, eles conversariam ali mesmo. Mas o psicólogo pelo menos já podia notar que o humor do jovem Blanco estava melhor do que o usual, o que significava que alguma coisa “boa” tinha acontecido e não era uma emergência como das vezes anteriores. Renaud ainda se ocupou de parar um tempo na sala do conselho disciplinar e conversar com seu Frater, claro que não poderia entrar em muitos detalhes de sua vida pessoal considerando que Nataniel estava por lá, mas ainda foi fácil pra seu irmão notar que apesar de ter saído sequestrado da academia masculina, a conversa tinha tido um saldo positivo no final das contas. E tinha prometido de contar-lhe tudo que tinha conversado com sua mãe em detalhes posteriormente quando não tivesse de dar atenção ao seu “namorado enjoado”.

Finalmente ao chegar na sala do conselho estudantil depois de dias sem frequentar o local, era no mínimo “estranho”, tinha dito que apareceria ali, porém tinha falado sem pensar sobre o que de fato significava “voltar ali”, e só naquele momento parado em frente a porta foi que o moreno mais novo se tocou que a última vez que tinha estado naquele lugar tinha sido durante a briga dele e de Didier, que agora parecia ter ocorrido 10 anos no passado. Antes que pudesse seguir divagando, a porta se abriu num solavanco com uma cabeleira ruiva por trás de uma pilha de pastas e papéis, que logo reconheceu sendo o jovem Lukashenko:

– Eu já sei, não vou correr! Não vou!! JURO!!! Nem tô enxergando pra onde eu ando, como posso correr? Ahn-- Ren--...! Quer dizer… Vice-Presidente Blanco! Quanto tempo que não te vejo! WoW!! você ainda tem as mãos! Nossa! E disseram que você estava na pior, sabe, todo mundo falando como as suas mãos tinham derretido e tals... Mas que bom que foi só caó dos terceiranistas, Espero que ‘cê fique melhor! Té mais! – o ruivo desatou a falar e antes que jovem Blanco conseguisse assimilar tudo que ele falava, em verdade estava desacostumado com a velocidade com que o mais novo falava. E logo ele já estava seguindo pelo corredor para o restante das salas do setor administrativo entregar todos os memorandos e demais documentos.

– Deve ser bem cansativo lidar com toda essa energia que o Lukashenko têm, por todos esses dias, não sei se fico com mais pena dele ou de você Zac. – o moreno mais novo adentrou na sala do conselho, encostando a porta atrás de si: – O Didier vem mais tarde, vamos dizer que ele está envolvido em um aulão de revisão com os primeiranistas, então vai ter de se contentar apenas com a minha companhia aqui, embora eu não consiga assinar papéis. – O mais novo deu um risinho singelo, mas era notório a mudança de humor pra quem tinha passado os últimos dias sumido, ou cabisbaixo e desanimado pra qualquer coisa.

Isaac

Isaac queria que o trabalho no Conselho depois dos jogos internos fosse menor, mas era o completo oposto. Com a formatura em vista nos próximos meses, os campeonatos específicos de verão de alguns clubes e as eleições para a chapa do próximo ano letivo, o trabalho só se acumulava, e muito. Mais ainda porque Renaud estava com problemas para lhe ajudar, Didier era o problema, e tinha Yure para ensinar as coisas. No fim das contas, o ruivo estava se saindo bem melhor do que tinha previsto e estava lhe ajudando mais do que esperava nas últimas semanas com pilhas de trabalho.

Claro que ele ficava com alguns trabalhos mais simples, de organização e contato com os grupos e entender como a mecânica do conselho estudantil funcionava, mas já era muito para Isaac que tinha que trabalhar sempre com previsões orçamentárias e propostas para a administração que beneficiassem os alunos. Naquela sexta, foi surpresa receber uma mensagem de Renaud avisando que iria ao Conselho e que levaria Didier junto para trabalharem, embora tivesse imaginado que Renaud não fosse voltar tão logo para a academia com a mensagem de que tinha ido passar uma noite com a mãe na casa da família. Isaac só respondeu com uma mensagem formal que era esperada e seguiu com o trabalho, enchendo Yure de papeladas para levar para todos os outros grupos e setores da Academia.

Só quando o ruivo saiu pela porta depois de reforçar pela décima vez para ele não correr, que Renaud entrou na sala, e a primeira coisa que Isaac colocou o olho foi a gravata com um nó extremamente mal-executado. O impulso de se levantar e ir consertar foi tanto que ele nem ouviu o primeiro comentário de Renaud, e se aproximou para ajustar a peça de roupa sem nem pedir licença.

- É bom ter você de volta, mesmo sem assinar papeis. - Isaac respondeu, e a expressão fechada só denunciava o desagrado com a roupa torta. Ele não parou no nó da gravata, ajustou os botões, as dobras da roupa, a camisa dentro da calça, as lapelas do terno, as abotoaduras dos punhos e ainda observou as bandagens um tanto mal-feitas. Mas com a roupa toda arrumada, ele finalmente levantou o olhar para Renaud, encarando a expressão mais suave do que tinha visto nos últimos dias e o rosto com um pouco mais de cor. - Você parece melhor. Tomou os remédios na hora certa hoje? E as refeições? Eu vou pegar o kit de primeiros socorros para arrumar isso. - ele apontou para os curativos nas mãos e esperou que Renau lhe acompanhasse enquanto ele se movia para fazer o que tinha dito.

Renaud

Não era surpresa ver o amigo com aquela expressão fechada, afinal ele deveria estar trabalhando triplicado, mas sabia que parte daquela irritação era porque estava profanando o sagrado código de vestimenta da academia, e para alguém com “toc” como o secretário, a sua imagem deveria ser algo de franzir as sobrancelhas. Nem se opôs ao mais velho invadir seu espaço pessoal para arrumar sua gravata, e ergueu um pouco o pescoço para que ele fizesse o nó com mais espaço. Nem conseguia levar aquela situação a sério, e acabou lembrando do que sua mãe tinha comentado de manhã sobre serem “namorados”, não tinha como negar, imagina e alguém visse os dois naquela cena hilária digna de um filme de comédia romântica:

– Sim, e sim. É estranhamente bom estar de volta. Obrigado pelos ajustes.– o mais novo respondeu de forma direta, porque sabia que tinha pedido pro amigo lhe cobrar aquelas questões diariamente, já que não dava pra confiar na própria memória e noção do tempo como antigamente. Porém a situação toda era uma oportunidade boa demais para deixar passar sem fazer alguma brincadeira, e ver que tipo de reação poderia tirar do sempre sério “secretário máscara de ferro”:

– Sabe, é por esse tipo de “interação” que a minha mãe acha que você é quem é meu namorado.– O jovem Blanco acompanhou o amigo até a mesa, esperando que Isaac trouxesse o material de primeiros socorros pra trocar suas bandagens, e aquela altura mesmo que o machucado ardesse e incomodasse, a situação toda contribuia para que Renaud ignorasse aquele ponto, e mantivesse o ar mais leve:

– E pensando bem, depois do almoço onde você insistiu em me dá comida na boca, talvez uma boa parcela de alunos da academia também alimente a hipótese que nós “finalmente” assumimos um relacionamento. Se bem, que não seria uma má ideia, considerando o quanto você é bonito, bom de cama, e com certeza tem o melhor cafuné dessa academia, se eu estivesse solteiro até pensaria seriamente em investir nessa ideia. – o moreno falou com um falso tom sério, mas que certamente seu amigo não perceberia que tudo aquilo era brincadeira, ou pelo menos a uma parte. Já que não tinha mentido sobre nenhum dos atributos do moreno mais alto, muito menos sobre o fato de agora não ser mais um cara solteiro.

Isaac

A roupa arrumada de Renaud colocou uma expressão mais suave no rosto de Isaac, a resposta positiva dele para as suas perguntas e a postura mais segura também deixaram o secretário mais satisfeito com o estado de Renaud. Podia ser péssimo para perceber trejeitos emocionais das pessoas ao redor, mas para alguém que conhecia tão bem quanto Renaud, dava para deduzir que ele estava bem. Melhor do que nos últimos dias e em meio à crise.

Isaac tirou o kit de primeiros socorros de um dos armários e quando estava voltando para a mesa, o comentário sobre a mãe do outro ter achado que eram namorados até lhe fez derrubar a caixa no meio do caminho, com uma expressão de surpresa e de estranhamento.

- Nós não somos namorados. - Isaac apontou o óbvio, abaixando-se para pegar a caixa e levá-la para a mesa como se nada tivesse acontecido, enquanto Renaud apontava todos os outros detalhes que podiam indicar um relacionamento entre os dois, o que era quase perturbador. Ele tirou os materiais da caixa e esperou que Renaud lhe estendesse a mão, enquanto terminava a justificativa com um comentário pontual que não passou despercebido ao secretário. - Você não conseguia comer sozinho, lhe ajudar era só lógico. Eu sou bonito, e bom de cama, e não tenho dados suficientes pra dizer que tenho o melhor cafuné da academia. Mas nunca pensei em você como namorado, sempre achei que você e o Didier já eram isso. Pelo jeito que falou de não estar mais solteiro, agora é verdade?

Isaac tinha tirado as bandagens e jogou no lixo, vendo o estado das mãos machucadas com a pomada para melhorar. Pegou bandagens novas na caixa e fez o trabalho de um modo mais leve do que era costume quando lidava com os machucados de Renaud.

- E como foi a noite com a sua mãe? Ela está bem? - ele perguntou, principalmente porque tivera a oportunidade de conhecer a mulher quando viajaram a Paris.

Renaud

O moreno mais novo nem tentou conter o risinho diante da reação exagerada de Isaac aos seus comentários, ter derrubado a caixinha de primeiros socorros certamente era um clichê, mas um muito bom, e vê-lo no time correto dentro da cena no mundo real, fora de um filme de comédia romântica classe B, era muito melhor. Renaud manteve o ar leve no rosto, embora ainda tivesse as olheiras e traços bem marcados de cansaço, ainda assim, estava sustentando a melhor aparência que tinha em dias, e aquilo até o próprio Isaac podia notar, afinal se conheciam a uns bons anos. O moreno mais novo estendeu as mãos na direção do outro quando foi pedido, e logo percebeu como o secretário estava mais “gentil” no trato dos seus machucados, em verdade, tinha um uns dois oceanos de diferença no tratamento, e aquilo era mais uma pequena prova de que mesmo denso o secretário conseguia perceber algumas coisas ao seu redor, e a prova foi que ele também notou o ponto de que o Vice-presidente não estava mais solteiro em sua fala anterior.

Era o momento de Renaud ser o protagonista do seu próprio filme clichê romântico, e quando perguntado sobre estar de fato namorando com Didier, o moreno mais mais novo sorriu inconscientemente, muito mais feliz do que era possível vê-lo em qualquer outro momento:

– Oficialmente, sim, com direito a pedido formal, e declaração romântica digna do romantismo do séc XVIII, ou quase isso. – Admitiu pondo uma expressão provavelmente inédita para o secretário, afinal, não era “comum” ver o jovem Blanco dando risinhos como um rapaz bobo apaixonado de dezenove anos que de fato ele era. E em seguida, o moreno mais novo esperou que seu amigo cuidasse dos machucados, enquanto pensava em como responder como tinha sido sua noite na companhia de sua mãe:

– Ela está aparentemente bem, pelo menos até quando a gente se despediu de manhã. – Renaud começou o relato pela parte mais fácil que era dizer o óbvio, que a sua mãe estava bem, sobre a estadia em si, não tinha porque dá rodeios, podia ser sincero, só tinha de escolher palavras mais objetivas pra o amigo entender melhor sua situação: – Foi tudo bem inesperado, não sabia que ela viria pra Cerise, quem dirá que eu teria de ir dormir em casa, mas nós conversamos muito, primeiro foi desconfortável, depois tornou-se mais tolerável, e só depois ficou mais confortável. Chegamos a conclusão que nenhum de nós dois é bom em falar como se sente. Ela me pediu desculpas sobre o nosso desentendimento em Paris, e algumas outras coisas.

Renaud parou a própria narrativa e encarou o amigo, talvez parecendo mais normal do que nunca, afinal, nem estava interpretando papel de nada ali, nem estava xavecando, e nem abatido, estava apenas sendo ele, falando sobre problemas da sua própria família em um tom normal: – Eu não esperava por nada do que aconteceu, mas acho que o saldo foi positivo no final das contas.

Isaac

Isaac olhou torto para a expressão sorridente de Renaud que era tão estranha, mas continuou com os curativos com atenção. O que mais captou da informação dele foi algo com que já estava bem familiarizado.

- Espero que não seja romantismo do século XVIII, ou vocês dois vão morrer jovens. - Isaac respondeu, sobre a época literária que ele entendia apenas um pouco. - E acho que já passaram da fase de tentar se matar nas gangues.

Ele terminou de enfaixar as duas mãos, colocando pedaços de esparadrapos para finalizar e guardando os materiais de volta na caixa. Mas não devolveu ao armário, ficando diante de Renaud enquanto ele narrava sobre como a mãe estava e sobre como tinha sido o encontro dos dois. Não podia tirar muitas conclusões das poucas informações, mas Renaud parecia de bom humor, e o relato foi bem conciso.

- Parece que foi um bom encontro. Melhor do que quando estávamos em Paris. - ele disse, e só tinha como parâmetro o que tinha visto de Renaud com a família na viagem breve, e tudo parecia excessivamente formal até para ele, que tinha pais muito atenciosos em contraste. Fez um aceno positivo com a cabeça quando ele disse que o saldo tinha sido positivo. - Isso é bom. Ela vai ficar em Cerise? Se for dormir em casa de novo, lembre dos horários dos remédios e das refeições.
Renaud

Não tinha como evitar achar graça da forma como o amigo destacava justamente o ponto mais trágico do movimento literário que tinha citado, apenas a cargo de hipérbole, mas se fosse de outra forma não seria o bom e velho Isaac. Concordou com um aceno de cabeça de que não queria ter de morrer jovem, agora queria poder viver bastante pra ter tempo de aproveitar coisas com Didier, principalmente quando não estivessem mais presos a instituição masculina, mas aí era um tópico que tinha decidido pensar depois pra não ter que gerar ansiedade com um futuro que embora próximo, não era imediato.

– Nossas interações não eram muito mais profundas do que a amostra que você viu em Paris, apenas multiplique aquilo por dezenove anos, muita formalidade pouca pessoalidade. – pontuou muito diretamente até para que o amigo tivesse noção melhor de como aquela noite tinha sido inédita para o jovem Blanco, e mesmo agora, ainda não tinha absorvido tudo que tinha sido dito, tanto por ele próprio, quanto da própria mãe para ele. Quando veio a pergunta mais direta se ela estenderia a permanência na cidade, Renaud fez uma expressão mais neutra, o que já antecipava uma resposta negativa:

– Quem dera, mas ela já disse que tinha de voltar pra Paris, talvez eu tenha de falar com meu pai que tá voltando de viagem sabe-se lá de onde-...! – Antes que Renaud pudesse terminar o relato, seu celular estava tocando e tinha noção que naquele horário não tinha qualquer medicamento ou alimentação pendente, puxou o aparelho com as pontas dos dedos e deixou sobre a mesa, notando que era uma ligação do assessor de seu pai, o que provavelmente queria dizer que o homem já estava de volta ao paí, muito mais cedo do que tinha julgado: – vou atender no viva voz, porque não tenho como segurar o aparelho, mas pode ficar aí, não tem problema não. – avisou para que Isaac não se sentisse invadindo sua privacidade ouvindo uma ligação de telefone, atendeu a chamada, e logo de cara dava pra ouvir o som de vento e de espaço amplo como se o outro estivesse num aeroporto ou coisa assim:

– Renaud? – a voz do homem do outro lado da linha soou com certa urgência, e talvez em dias normais Renaud tivesse desconfiado daquilo logo no primeiro momento, mas sua resposta foi apenas automática em perguntar o óbvio:

– Oi Germand, já chegaram em Paris?

– Onde você está? Está sozinho? – O fato de Germand não tentar esconder que havia urgência na situação deixou o jovem Blanco alerta, de que algo tinha acontecido, mas sequer podia imaginar o que seria:

– Em St. Clavier, onde mais eu estaria? O que houve?

– Tente ficar calmo, o que eu vou falar não é fácil de ouvir. – Pedir pra alguém ficar calmo não é a melhor forma de começar uma conversa, e automaticamente o corpo do Blanco ficou tenso: – A polícia parisiense acabou de nos informar assim que desembarcamos no aeroporto, que a madame Capuccine sofreu um acidente de carro na interestadual entre Cerise e Paris, e que ela não resistiu… quando os paramédicos chegaram lá não tinha mais nada a se fazer.

Embora tudo que tivesse de ser dito, tinha sido dito, as palavras não fizeram sentido na cabeça de Renaud, afinal, tinha conversado com a mulher na manhã daquele mesmo dia:

“como assim não tinha resistido?”

“o que quer dizer não resistir?”

– … – Renaud não sabia o que responder, a expressão estava congelada numa de surpresa, os olhos escuros vidrados na tela do aparelho, o rosto ficou pálido de pronto, era como se tudo estivesse travando ao seu redor e enrijecendo a ponto do ar ser duro como concreto para se respirar.

– Eu e o seu pai estamos cuidando de tudo que envolve a polícia e o translado do corpo[...]

“Translado do corpo?”

[...] principalmente entender como isso tudo aconteceu, um motorista da família deve ir até St. Clavier pra lhe buscar, arrume suas coisas, vai te levar para a casa da família [...]

“Do corpo da minha mãe?”

[...] quando tivermos mais detalhes sobre todo o ocorrido, vamos avisar a todos da família. [...]

“Do corpo…”

[...] Renaud você ainda está aí? Renaud…?[...]

A sala toda derretia e esfarelava ao seu redor, tornando-se uma imagem distorcida como se tudo convergisse para o aparelho celular, e nada mais existisse, os sons se afastaram, a voz de Gemand ficou miúda e distante, as imagens correram pra longe, a respiração fugiu, e tudo ficou em silêncio.

“morto”

– AAAAAAAAAAARRRGHHHHHHH! – O grito rasgou-lhe as entranhas saindo a plenos pulmões, Renaud se levantou de solavanco como um raio, e marretou contra o aparelho celular com a lateral dos punhos, com toda a força que tinha no corpo, fazendo o aparelho em pedaços. Renaud estava completamente fora de si.

Isaac

- Pelo menos vocês tiveram chance de conversar. - Isaac respondeu, para só então pegar a caixa de primeiros socorros e levar de volta até o armário, enquanto o outro dizia que a mãe já tinha que voltar a Paris. Aquilo só lhe levou de novo ao fato de que ele estaria nos dormitórios e podia precisar de ajuda. - Se precisar de alguma coisa mais tarde, mande mensagem. E vou lhe ligar nas horas dos remédios.

Na cabeça de Isaac, se ele estava com a mãe ou a família em casa, certamente eles teriam responsabilidade de lembrar dos horários. Claro que o mesmo não valia para Sasha e Didier, já que não confiava na pontualidade dos dois, por isso no dormitório, se sentia mais na obrigação de lembrar daqueles detalhes. Só concordou com um aceno de cabeça breve quando Renaud disse que ia atender a ligação no viva-voz e seguiu até as prateleiras de arquivos para pegar as pastas de orçamento necessárias pra continuar fazendo as previsões.

Ele não deu muita atenção à conversa de Renaud, embora pudesse ouvir um homem falando do outro lado. Isaac não queria invadir a privacidade do outro de todo modo, então manteve o foco no trabalho para deixar que Renaud conversasse, inclusive, até ficou mais tempo olhando os arquivos de costas para o mais novo.

Até ouvir uma informação muito pontual do outro lado do telefone que lhe fez congelar onde estava. Primeiro foi o aviso do acidente, e então que a mulher não tinha resistido e que os médicos tinham chegado ao local sem ter o que fazer. Isaac engoliu em seco, sentindo as mãos geladas com os arquivos em mãos, e não se virou para Renaud de imediato. As informações continuaram vindo do outro lado e ele não ouviu também uma resposta do mais novo. Isaac se virou só para ver as costas de um Renaud que não tinha se movido um dedo enquanto olhava para o celular sobre a mesa. Ele engoliu em seco, sem saber o que fazer exatamente, não era muito bom naquelas situações. A voz do homem do outro lado chamou pelo nome de Renaud, mas ele não respondeu.

- Renaud? - Isaac tentou chamar por ele também, ainda com as pastas em mãos, mas a resposta veio num grito ensurdecedor que invadiu toda a sala, acompanhado do som seco das batidas intensas das mãos dele contra a mesa e o celular, quebrando o aparelho com muita facilidade.

Isaac demorou mais do que gostaria para reagir, com o choque da notícia somado ao choque de Renaud. Largou a pasta no chão e cobriu o curto espaço na direção do outro, agarrando-o pelo tronco e puxando-o para trás para impedir que ele continuasse batendo na mesa e acabasse machucando ainda mais as mãos queimadas.

- Renaud! Pare com isso! - ele precisou falar mais alto para tentar se fazer ouvir contra o grito, colocando força em volta do corpo do outro para tentar segurá-lo.

Renaud

Renaud estava quase que totalmente desconectado da realidade, os seus olhos estavam vidrados e focados único e exclusivamente na mesa e no celular que estava sobre ela instantes atrás, que agora jazia despedaçado com a tela totalmente trincada no chão. Não havia raciocínio em suas ações, apenas um instinto colérico de pura violência.

Não havia qualquer sentido lógico em porquê estava fazendo aquilo, o corpo estava apenas reagindo a explosão de ira que tinha dentro de si. E o que estivesse em sua frente iria sentir toda sua fúria. O moreno ignorou completamente que havia outra pessoa na sala, e seguiu castigando a superfície da mesa em marretadas repetidas sobre a mesma. Tanto que na foi surpresa o móvel ceder sobre a raiva que o mais novo despejava sobre a mesma.

Mesmo que Isaac o chamasse por seu nome, as palavras não chegaram aos ouvidos de Renaud, e seguiria gritando e destruindo as coisas à sua frente, no entanto, o moreno mais novo percebeu quando foi puxado para trás e impedindo de continuar golpeando as coisas a sua frente. E a reação instintiva foi se debater para se soltar sem entender o que, ou quem exatamente o estava puxando.

Ser impedido de descontar toda aquele caos que sentia nos objetos à sua frente, deixava Renaud ainda mais e mais inquieto, e isso era perceptível pelo quanto ele se mexia, e botava força no sentido de seguir para frente. A ponto do mais novo firmar os pés no chão, e girar os braços com violência para tentar se soltar.

Isaac

Renaud não lhe ouviu com os primeiros chamados, como Isaac até tinha previsto, e segurou-o com a força que tinha para que ele pelo menos parasse de se machucar. Claro que não adiantou muita coisa, Renaud podia estar sob efeito de medicamentos pesados, mas ainda era muito forte, e imaginou que com uma descarga de adrenalina, ele teria bastante força para revidar até se ver bem exausto.

Isaac até conseguiu puxá-lo para longe da mesa que já estava cedendo com os golpes, mas ele se debateu ainda mais intensamente, continuando a gritar e empregar força ao ponto em que nem adiantou que Isaac desse um impulso para trás, sentiu quando Renaud travou os pés no chão e fez força no sentido contrário, puxando-os para frente com mais facilidade do que o secretário conseguia se manter firme no chão. Os braços em volta do moreno cederam um pouco e devia ter colocado mais força, porque foi fácil para Renaud girar o corpo e se debater, acertando-lhe na altura do ombro para que o largasse de vez. Isaac sentiu a dor da cotovelada no ombro e foi jogado um passo para o lado, mas isso lhe fez dar uma boa olhada na reação do mais novo, em busca de descarregar de novo a irritação, a despeito dos machucados nas mãos, e daquela vez, ele precisou calcular melhor como tentaria contê-lo. Obviamente, gritar pelo nome dele e pedir para parar não daria certo.

Isaac não deu muito tempo para que Renaud conseguisse destruir mais coisas na sala do conselho, e precisou dar uns passos para trás quando ele pegou até uma das cadeiras pesadas. Mas deu a volta pelo mais novo e, já que ele não estava interessado em lhe acertar, mas acertar os móveis na sala, se aproximou por trás de novo, passando os braços por cima dos de Renaud e puxando-os para trás, para fazer uma trava e impedir que ele continuasse acertando as coisas.

- Renaud! Me escute!! - ele insistiu, falando mais próximo do outro, os braços firmes em volta dos de Renaud para impedir que ele se mexesse, mas certamente não funcionaria.

Renaud

A sensação de estar livre foi mais intensa para Renaud do que se preocupar com o que tinha tentado lhe segurar. O corpo se movia apenas guiado pelo impulso de extravasar a turbulência que residia dentro de si, por todo corpo a sensação de calor e febre se alastrava, a respiração fervia nos pulmões e os grunhidos de pura raiva rasgavam de dentro para fora. Pegou o objeto mais próximo, que era uma cadeira da mesa de reuniões e a ergueu com as duas mãos acima da cabeça, quase acertando as luminárias do teto, e acertou contra a mesa com toda força, entortando o metal, e fazendo ranger as articulações da cadeira, golpeou repetidas vezes, até que o próprio objeto escorregou da mão do Blanco.

Estava prestes a erguer os braços novamente para golpear mesmo com as mãos nuas, mas foi impedido de prosseguir pelos braços sendo presos. O corpo fervia por cada centímetro, e sua reação imediata o fez aplicar ainda mais força para se livrar, cerrando os dentes, e soltando o ar pelo nariz bufando, jogando o peso do corpo para frente com violência, mas sem sucesso daquela vez para se soltar. A voz de Isaac não chegou aos ouvidos do jovem Blanco de forma inteligível, mas a presença dele finalmente surgiu na compreensão, como algo no seu caminho, algo que precisava sumir.

Renaud grunhiu de forma ameaçadora o som vindo do fundo de sua garganta num som rouco, longo e arrastado, espiando por cima do ombro, o olhar escuro sem brilho, as veias dilatadas que deixava sua esclera vermelha. Naquele ponto viu que existia alguém ali, mas não reconheceu como sendo o secretário seu amigo.

Por isso, o rapaz se debateu, intensamente, jogando a cabeça para trás com o intuito de cabecear o rosto do outro, e se livrar do aperto dele. A intensidade com que jogava o corpo para trás era tamanha, que sequer estava prestando atenção no próprio equilíbrio. Queria apenas se livrar de sua prisão e tornar a descarregar toda a dor que perpassava o seu corpo para fora.

Isaac

A nova tentativa de segurar Renaud foi mais eficaz ao impedi-lo de mover os braços, desse jeito ele tinha pouca liberdade para se mover e não podia machucar as mãos ainda mais feridas. Àquela altura, as bandagens já estavam frouxas e vermelhas do sangue das feridas de queimaduras, e Isaac realmente queria que ele parasse de se machucar. Mas mesmo que a nova chave de braço tivesse funcionado melhor, sentiu o peso de Renaud para frente e depois para trás, quando ele jogou a cabeça para tentar lhe acertar. Reagiu ao mesmo tempo, jogando a cabeça e o corpo para trás e se livrando do golpe, embora a intensidade dos movimentos dele já estivesse colocando muito esforço em seus braços e lhe fazendo suar.

Isaac nem tentou se fazer ouvir de novo, o olhar injetado de Renaud quando virou a cabeça para trás já mostrava que ele não conseguia distinguir absolutamente nada nem racionalizar. O secretário sabia que ia ter dificuldade de segurá-lo ainda em pé, e com os puxões e empurrões intensos, podiam bater em mais móveis ou cair. E foi a breve noção de que os dois cairiam que deu uma ideia a Isaac: era melhor prendê-lo usando o corpo todo contra o chão. Com um dos impulsos de Renaud para tentar se livrar, indo para o lado, Isaac só ajustou o pé no chão e ao invés de fazer força contrária, ele se jogou na mesma direção que Renaud, e com a força combinada dos dois e o desequilíbrio, foi fácil cair no chão com um baque forte contra o ombro, tanto seu quanto de Renaud, e a perspectiva da queda lhe colocou num modo de tensão, incapaz de tentar se amparar da queda com os braços, ele colocou mais força na trava que prendia os braços de Renaud e o outro não conseguiu se soltar no processo.

Isaac ignorou a dor que assolou o ombro e o corpo todo tensionado, aproveitou que estavam no chão e antes que Renaud continuasse se debatendo, ele se virou sobre o corpo do mais novo, pressionando-o contra o chão usando os braços travados em volta dos dele, o próprio tronco empurrando-o para baixo, os quadris sobre os dele, e os pés buscando travar as pernas dele no chão também - embora fosse difícil empregar muita força com as pernas naquela posição. Naquela postura, sentindo a dor nos braços por estarem travados em volta dos de Renaud, ele ainda encarou o outro de cima, numa distância segura para que ele não jogasse a cabeça para trás para tentar lhe acertar de novo, e de novo, tentou se fazer ouvir.

- Renaud, pare com isso! Você precisa me ouvir!


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[Drive] Destruído [Renaud, Isaac, Didier, Aleksei, Tamotsu, Sasha] - by Lil - 09-27-2021, 01:05 PM

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