09-27-2021, 01:09 PM
Didier/Sasha/Tamotsu
Certamente quando Tamotsu entrou naquela enfermaria, esperava algo muito intenso. Estava pronto para muita coisa, porque já tinha visto muita coisa, mas embora já tenha visto pessoas surtarem de medo, observar o que estava acontecendo com aquele moleque era estranho. O zelador se aproximou o suficiente para estar ao alcance do médico, caso algo acontecesse, porque não sabia exatamente o que podia acontecer. Sentia algo de imprevisível naquelas ações; sentia também que o buraco era bem fundo. Mas embora seu trabalho fosse só fazer a limpeza, parecia bom ficar vigilante pelo que parecia ser a insensatez do doutor de ficar ali tão pertinho do garoto.
Do lado de fora, Sasha apenas observava o par que tinha saído da enfermaria, notando o cansaço dos dois e a espera, um pouco mais desperto, e um pouco mais perto da porta para ouvir o que diabo estava acontecendo lá dentro, conseguindo captar uma série de vozes que lhe fizeram franzir a testa. Esperava ouvir Renaud, mas ao invés disso, abafado o suficiente para que não entendesse as palavras inteiramente, ou talvez só chocado demais para isso, até olhou para ver se Didier estava do seu lado, ou pensando se havia qualquer possibilidade de Lilu estar ali.
Mas foi com o som de um grunhido muito estranho, que parecia passar por vários tons, que Sasha instintivamente estendeu a mão para abrir a porta, e até mesmo Didier que estava cansado e ainda sentado no chão virou o pescoço na direção da porta de uma vez.
Tamotsu não sabia o que fazer, se seria melhor se aproximar do médico, ou se aquele berro, que lhe causou imenso desconforto, seria a hora de segurar o rapaz. Mas notando que não havia nenhum intuito de ferir o médico, ele deu um passo rápido para trás e segurou a porta para que não abrisse, afinal, provavelmente seria o que ele tentaria fazer se algum conhecido estivesse naquela situação: tentaria ajudar, mesmo que isso fodesse tudo.
- Ei…! O que tá acontecendo…!? - Sasha bateu novamente na porta, vendo que não conseguia abri-la. Só parou para pensar se poderia estar sendo um estorvo depois, mas antes que ficasse ainda mais barulhento, foi mais uma vez Didier, que havia se levantado também, quem tinha segurado sua mão e lhe olhado com a cara de quem implorava para que ficasse quieto e esperasse.
Tamotsu, por outro lado, vendo que os moleques pareciam quietos, soltou a porta, e encarou fixamente o rapaz, que depois daquela demonstração muito estranha, tinha parecido sossegar a voz, e sossegar o corpo, de um jeito que podia descrever também como desconfortável. E vendo-o levantar o rosto devagar, o zelador só ficou armado para derrubá-lo caso tentasse atacar o médico, ainda que o moleque parecesse cansado demais e surrado demais pra qualquer coisa. Estava respeitando o espaço para atender o moleque, afinal, provavelmente era por isso que ele mandou todo mundo sair, mas queria que fosse só o trabalho de derrubar e atar aquele garoto na cama. Se aproximou mais, que talvez o doutor pedisse sua ajuda para por ele de volta onde tinha começado.
Duncan
A realidade era que finalmente tinha conseguido apaziguar o caos que tinha se formado ali, muitas emoções fortes num período curto de tempo certamente iriam deixar o pequeno descontente e ainda mais confuso. Não era dia nem hora para chegar naquele ponto, mas estava feito e não tinha como fugir. Pensou em muitas formas de responder a pergunta que o homem à sua frente tinha feito, mas imaginava que se fosse da forma que seu registro descrevia ele perceberia que não era quem dizia ser. Valia a pena mentir?
O moreno mais novo respirou fundo sentindo o corpo todo muito estragado daquela vez, diferente de crises anteriores onde ainda conseguia se levantar, imaginava que precisaria se sentir em “perigo” pra poder ter adrenalina o suficiente para poder reagir, e como o pequeno não sentia perigo da pessoa a sua frente não tinha como ter acesso aquilo. Tinha de barganhar? As batidas na porta e a voz conhecida lhe despertaram para o fato de que tinha gente do lado de fora da enfermaria, e mais, que era alguém com quem especialmente não queria ter de encontrar. Embora bem soubesse que o pequeno precisava daquilo.
- Sim, está aqui. - foi a resposta que saiu em um tom mais baixo, seguido de um pigarreado de quem sentia a garganta arranhar. O moreno mais jovem levou as costas da mão contra o corpo fazendo dois toques e uma queimação se estendendo por todo o corpo, parou para encarar as mãos plenamente estragadas depois de tudo, e torceu a expressão de leve num “tsc” de quem estava avaliando o estrago: - eu… não consigo levantar sozinho… estamos… hmmm… estou muito cansado na verdade… se me der um tempo pra respirar: posso conversar melhor…
O último trecho foi dito num tom mais baixo, e o moreno encarou o loiro a sua frente, esperando que ele entendesse a sua “deixa”, estava no registro que ele era inteligente, e o pequeno confiava nele, não sabia se deveria confiar a saúde dos dois a ele, mas iria dar o seu voto de confiança ali. Não estava dando qualquer sinal de que seria violento, estava mais avaliando o nível de estragos do próprio corpo e tentar deixar tudo em ordem pra quando o pequeno acordasse do sono, que não iria durar tanto tempo.
Aleksei
A resposta demorou um pouco para vir e Aleksei sequer piscou enquanto observava a expressão de Renaud, os gestos, desde o ritmo da respiração até o menor dos movimentos, porque sabia que ele estava ali, mas não era exatamente ele ali. Era só uma suposição, mas se confirmou quando ele finalmente respondeu que Renaud “estava ali”. Antes que Aleksei pudesse adicionar algo observou de novo o gesto pontual de tocar com as costas da mão contra o peito em dois toques, então ele pareceu parar para avaliar o estado das mãos e do resto do corpo, tendo consciência de como estava avariado.
Aleksei concordou com um aceno de cabeça quando ele apontou que não conseguia levantar sozinho, e principalmente sobre “estarem” muito cansados, antes de corrigir a si mesmo. Havia ainda a perspectiva de conversarem, o que era bom e que Aleksei nem esperava ouvir de um modo positivo tão logo. Pelo que tinha avaliado de Renaud nos últimos meses e principalmente nas sessões mais recentes, se havia outra personalidade ali decorrente de um processo de dissociação, era para protegê-lo. Podia ser uma pessoa ainda mais agressiva, então a situação parecia ao menos um pouco positiva.
- Pode tomar o tempo que precisar. - Aleksei concordou com um aceno de cabeça leve. E já que ele mesmo tinha apontado que não conseguia levantar, adiantou-se para perguntar antes de fazer qualquer movimento. - Posso lhe ajudar a levantar? Ou prefere que fiquemos os dois no chão?
Renaud já estava acostumado aos dois ficarem sentados no chão em mais de uma ocasião, não sabia se com ele daquele jeito, a resposta seria a mesma. Antes dele decidir se iria continuar onde estava ou se aceitaria voltar para a maca, Aleksei adicionou.
- Como eu devo chamá-lo?
Duncan
Enquanto o homem a sua frente, tomava seu próprio tempo para avaliar o que tinha acabado de falar, olhou em volta para visualizar mais um pessoa, que de fato não conhecia, nem tinha um registro sobre ela, ou se tinha visto tinha sido muito brevemente, suspirou soltando o ar todo, e depois puxou o ar devagar sentindo o peito doer no processo. Quando tinha sido a última vez que tinha ficado tão desgastado físico e mental? Conseguia responder aquela pergunta com tamanha facilidade que lhe amargava lembrar, mas contra fatos não havia escapatória.
Ouvir do loiro a sua frente a confirmação de que poderia tomar tempo para descansar confirmava o que tinha registrado na memória, e por conseguinte, confirmava que a pessoa a sua frente era o senhor Vlahos. Arqueou de leve uma das sobrancelhas, mas não alterou a expressão muito além daquilo, e acenou em concordância diante da possibilidade de ter tempo para administrar aquela situação, estaria muito mais irritado por ter pouco controle sobre tudo que ocorria, mas lá no fundo da sua cabeça tinha plena consciência da tristeza que o pequeno sentia e isso não lhe deixava ficar com raiva. Estreitou os olhos diante da possibilidade do outro lhe ajudar a levantar, porque bem, ele não parecia forte, mas era fato que precisava de ajuda para aquilo. Concordou com um aceno de cabeça e pigarreou mais um par de vezes sentindo a garganta queimar pelo esforço recente.
E permaneceria muito mais preocupado consigo mesmo se o outro não tivesse lhe lançado uma pergunta muito direta sobre qual era o seu nome. Não estava necessariamente bem disposto a dizer quem era, embora aquilo fosse parte do processo de “negociação” talvez?
- “Que homem sangrento é este? Ele pode nos trazer pela sua aparência, da revolta, a mais recente informação”. Rei da Escócia, Duncan I, Macbeth, Shakespeare. - o moreno mais jovem comentou, e bem, bastava juntar a fala e ao personagem, e o loiro saberia por qual nome responderia: - normalmente o chão, mas estando assim, precisam-... preciso de mais cuidados do que o simples chão têm pra me oferecer.
Soltou o ar pelo nariz, embora não sentisse cheiro de nada, e era mais uma de suas ferramentas que tinha “a menos”, precisava cuidar do corpo, cuidar dos machucados, estar calmo, e quem sabe com alguma parcela de sorte [e detestava ter de contar com a aleatoriedade dos fatos] o pequeno estaria “melhor” para lidar com tudo que tinha fora o aguardando:
- melhor avisar aos que nos esperam, que podem se acalmar por agora, embora não seja apropriado que tenhamos qualquer conversa, estou indisposto demais pra isso. Toda a minha escassa energia vai ser investida pra tentar minimizar estes estragos. - completou dando ênfase ao próprio corpo desgraçado, parecendo apenas cansado e parcialmente aborrecido de estar tão “vulnerável” e machucado.
Aleksei
A resposta de renaud sobre como chamá-lo veio num trecho de um conto de Shakespeare. Havia três nomes ali, mas Aleksei imaginou que o nome dele seria a quem a fala pertencia. mas não o usou de pronto, com a permissão dele para ser ajudado, Aleksei ofereceu o suporte no ombro, passando o braço dele por ali para ajudá-lo a levantar, sequer considerando chamar Tamotsu para fazê-lo. Renaud podia conhecer o zelador, mas duvidava que ele fizesse parte do círculo de pessoas em que o rapaz confiava, então era melhor que ele continuasse mantendo a distância e o alerta que tinha mantido até então.
De volta à maca, ele avisou que era melhor avisar aos outros que não era necessário esperar, e talvez ele não tivesse a mesma ideia de Renaud e que os amigos provavelmente se negariam a sair dali sem vê-lo - uma noção, inclusive, que o próprio Renaud ainda não entendia por completo. Mas não entrou naqueles detalhes, concordou com um aceno de cabeça sobre a intenção dele de direcionar a energia para se recuperar física e mentalmente, mas ainda pegou os materiais na enfermaria para trazer perto da cama.
- Eles serão avisados, não se preocupe com eles. - Aleksei separou os itens para refazer os curativos e passar a pomada cicatrizante, e estendeu uma das mãos, em um gesto que também já tinha feito com Renaud mais de uma vez, esperando que ele escolhesse lhe estender as mãos machucadas ou não. - Eu preciso cuidar dos machucados nas mãos, para evitar infecções agora.
Tamotsu
Observando o desenrolar da cena na enfermaria, Tamotsu certamente não estava inteiramente bem. E nem o doutor. E muito menos o outro sujeito. Porém quando toda a bagunça acabou, notou que alguma coisa ali tinha mudado, como se o rapaz caído no chão tivesse colocado algo para fora, e já não passava a mesma impressão de antes. Aliás, quando ele começou a falar, até mesmo o jeito dele falar parecia ter mudado. Tinha pego ele fazendo uma tonelada de vozes, num surto, aquela certamente parecia mais dele, mas a sensação era diferente.
E na real, não entendia nada do que ele estava dizendo.
Tentou até prestar atenção, e se perguntou se deveria ficar ali para ajudar a pôr o rapaz de volta na maca, porém o médico não quis sua ajuda e levou o outro garoto sozinho. Daquela conversa, uma das poucas coisas que entendeu foi que seria bom avisar aos moleques do lado de fora que o pior tinha passado. Tamotsu olhou para o doutor, apontou para o próprio queixo e depois para a porta, querendo alguma confirmação de que era para ele sair e ir. Mas já que tudo parecia sob controle, e o próprio doutor reforçou que eles seriam avisados, tomou isso como uma ordem. Só não era o melhor em repassar notícias.
Subitamente, o zelador abriu a porta da enfermaria, alarmando Sasha e Didier. Ele fechou a porta atrás de si em seguida, não permitindo os garotos entrarem.
- Ei! O que aconteceu? Você saiu por que?? Tá tudo bem lá dentro?? – Sasha perguntou, um pouco mas afobado. O zelador sabia porque, afinal, entendia bem desses laços de amizade. Moleques ou não, imaginava que eles deveriam estar sentido bastante pelo amigo surtado do lado de dentro.
- Ele tá mais calmo e o doutor colocou ele na maca. Mas ele não quer conversar. Então vocês vão esperar aqui fora até que ele queira. – Tamotsu colocou de modo muito pontual.
- ... Fácil pra você falar...! Mas estamos preocupados! E como ele está!? Fale algo além do que te mandaram falar! – Didier rebateu, gradualmente recuperando alguma energia do corpo, ainda que estivesse sentado. Quase se pôs de joelhos, as mãos a frente esperando alguma notícia mais concreta.
- Ele tá na maca. E respirando. E calmo. E sendo atendido. O que mais vocês precisam além disso? Deixa o moleque descansar, e deixa o doutor fazer o trabalho dele. Três moleques lá dentro fazendo barulho e perguntas demais, não é bom. – Tamotsu disparou, e então estalou a língua no céu da boca e coçou a nuca, porque sabia que não era o melhor jeito de dar uma notícia. – Olha... só tô dizendo pra ter paciência, tá...? O amigo de vocês precisa do doutor agora. Mas fiquem por aqui. Ele vai precisar dos amigos depois.
Sasha até queria responder o outro, mas sabia que era verdade. Bateu com a lateral do punho na roda da cadeira, irritado, e Didier também só mordeu os dentes. Só podiam esperar pacientemente até ser a vez deles de entrar. Tamotsu decidiu ficar na porta também. Os garotos pareciam que provavelmente invadiriam a sala se deixasse.
Duncan
Nada naquela situação era confortável para o moreno, era como estar acuado com pessoas que não confiava, e a quem normalmente sequer abriria a boca para pedir qualquer coisa. Mas não estava em posição de ser exigente, e seu corpo não sentia a situação em conformidade com sua mente, a sensação de perigo era apenas a sua percepção da realidade, já seu físico era apenas a realização do cansaço de toda aquela situação. Era possível perceber que Duncan encarava com intensidade o loiro a sua frente, na mesma medida, dava pra notar também que a respiração do moreno ia se ajustando a cada suspiro dado, como se ele estivesse a todo custo tentando por em ordem o caos que tinha sido imposto no próprio corpo.
Quando o Senhor Vlahos destacou o fato de que precisava cuidar das mãos para evitar infecções, o moreno mais novo sequer pensou duas vezes, e estendeu as mãos na direção do outro, afinal não tinha como fazer curativos em si mesmo, e os próprios machucados magoados precisavam de ainda mais cuidado. E era capaz de distinguir todas aquelas sensações de dor, e queria ter evitado que chegasse naquele ponto, afinal não gostava de quando o “pequeno” tinha de passar por dor desnecessariamente. Porém naquele cenário não tinha escolha senão deixar que outro fizesse o que costumava fazer.
Quando o outro estranho saiu da enfermaria e foi conversar com as pessoas do lado de fora, ouviu novamente a voz do Frater, porém, escutou a voz de Didier, e aquilo lhe fez desviar o olhar do loiro a sua frente por um momento e depois retornar ao psiquiatra a sua frente.
- Agora estamos sozinhos. - o moreno mais novo destacou o óbvio, usando de um tom mais baixo e reservado, a expressão que não demonstrava nada muito além de cansaço físico: - se tem algo em especial que queira saber, esta é a sua oportunidade. - não que de fato quisesse falar ou revelar algo seu, mas estava no meio de uma negociação ali, e tinha de colocar tudo em termos claros e diretos. E embora não tivesse tomado nenhuma postura mais defensiva, ou mesmo agressiva, Duncan certamente não queria fazer rodeios ali, e esperava que o outro percebesse suas intenções de encurtar o diálogo, muito embora, como estava em seu registro mental, sabia que o homem a sua frente gostava de conversar, então tinham de chegar ao menos num meio termo bom para os dois.
Aleksei
O olhar intenso de Renaud - ou pelo menos do corpo dele, já que tinham chegado à conclusão de que a personalidade tinha até outro nome - não passou despercebido a Aleksei, mas ele não se incomodou de ser observado tão intensamente. Considerando que já tinha cuidado de Renaud por muito tempo, quem quer que fosse aquela pessoa que estava ali agora, sabia que o seu trabalho com Renaud era importante, no mínimo, ou já teria reagido para a sua proximidade de forma bem negativa. Ao contrário de uma reação negativa, o fato dele lhe estender as mãos para ser tratado quase automaticamente reforçou que ele podia lembrar das vezes em que tinha cuidado de Renaud, ou no mínimo ter um instinto de autopreservação e que não seria ferido ali.
Aleksei mal desviou o olhar quando Tamotsu deixou a sala, e pegou a pomada cicatrizante para passar na carne viva das mãos do aluno e espalhar do modo mais suave possível, para não incitar mais dor desnecessária. O psicólogo notou ainda pelo canto do olho quando as vozes soaram altas do lado de fora e ele reagiu com um olhar rápido para a porta quando a voz de Didier soou. Mas aquilo era um detalhe que ele podia guardar na memória para depois. Por hora, Aleksei se preocupou em cuidar dos ferimentos que tinham se tornado bem graves por causa da insistência em se machucar, decorrente da reação negativa com a notícia da morte da mãe.
O silêncio da sala foi quebrado pela voz de Renaud, ou algo perto daquilo, e Aleksei ergueu o olhar de uma das mãos que tinha começado a enfaixar quando ele lhe deu o aval para perguntar algo, apontando aquela como uma boa oportunidade. Aleksei só parou de enfaixar a mão machucada por não estar olhando o processo ao encarar Renaud de volta, ou melhor, Duncan, não era?
- Como o Renaud está? - Aleksei nem tinha dúvidas sobre o que perguntar ao outro. E uma pergunta simples como aquela podia lhe dar muitas luzes sobre o tipo de consciência que era o tal Duncan.
Duncan
O moreno não desviou o olhar das ações do psiquiatra a sua frente, avaliando os gestos e observando os trejeitos, ele não estava fazendo nada além do que tinha se proposto a fazer o que era bom. E talvez por isso a reação imediata que perpassou seu corpo, além dos arrepios pela dor dos machucados recentes foi uma sensação de alívio momentâneo. E era estranho que o “pequeno” tivesse depositado tanta confiança em uma pessoa que não conhecia a tanto tempo. Não via exatamente como um problema, mas era estranho dado ao histórico deles de vida.
O Senhor Vlahos não parecia se importar com o fato de estar sendo fortemente observado, talvez porque ele tivesse plena certeza que não era uma ameaça para sua figura, tanto por estar cansado, tanto por ser em parte o próprio “pequeno”. A pergunta que se seguiu foi bem pontual também, o que era bom. Afinal, se ele estava colocando a preocupação com seu paciente acima da própria curiosidade sobre os fatos era algo que valia destacar. Mas se era sincero, ou apenas para ganhar sua confiança, ainda teria de julgar por conta própria.
- Agora o pequeno está dormindo. - Respondeu secamente, e de forma direta, mas seguiu com outro forte suspiro, sentindo a queimação incômoda no peito, antes de dar mais detalhes: - E ele não está nem perto de acordar. - afirmou aquilo sem desviar o olhar do outro, encarando-o nos olhos: - provavelmente só vai voltar em uma hora ou um pouco mais… - no entanto, parou no meio da frase, descendo o olhar para as mãos machucadas, avaliando-as longamente, para só então voltar a atenção para o senhor Vlahos novamente: - o corpo está muito cansado e dolorido, nessas situações ele têm por hábito de dormir sem ter hora pra acordar, é o jeito que ele aprendeu pra se recuperar.
Explicou aquele ponto, mesmo que o psiquiatra já soubesse daquela informação, ainda valia reforçar, e como não sentia sinal de dor de cabeça ou enxaqueca, sabia que o “pequeno” estava em sono profundo, então precisaria de tempo de descanso antes que ele acordasse.
Aleksei
A mão direita dele enfaixada pela metade descansava na palma aberta de sua mão enquanto dava atenção à resposta de Duncan. Queria continuar o trabalho para terminar os curativos nas mãos de Renaud, mas sabia que também seria um bom indicativo de um fim de conversa. Ao menos ele podia descobrir algo mais sobre aquela personalidade, além do fato de que, em momentos pontuais, tinha percebido que ele servia como um tipo de proteção. O que era em parte bom. Como ele se referia a Renaud como “pequeno” também lhe dava uma boa margem de quando é que ela tinha se formado na mente do aluno a sua frente, era algo que vinha de muito tempo e de situações extenuantes que um Renaud criança não tinha sido capaz de enfrentar sozinho. Podia até pontuar muito bem aqueles momentos das conversas que tiveram.
Aleksei concordou com acenos de cabeça quando ele explicou que Renaud não ia acordar tão logo e que demoraria um pouco mais de uma hora. Não deixou de notar como ele suspirava ou tinha reações no corpo como se não estivesse inteiramente confortável na situação. Mas não pontuou nada mais. Ele olhou para as mãos e depois lhe encarou de volta, especificando como Renaud apagava quando o corpo estava fisicamente exausto, o que, de novo, lhe remeteu a memória de um ponto recente muito específico no tratamento do rapaz sobre ele ter perdido dias inteiros.
- Você sabe tudo sobre o Renaud? Quando ele está acordado tanto quanto ele está dormindo? - Aleksei voltou a olhar para as mãos, terminando de enfaixar com cuidado uma das mãos dele para ir para a segunda, passando de novo a pomada nas áreas mais machucadas antes de pegar mais bandagens. Queria saber também o quanto ele tinha de consciência da vida de Renaud, já que o contrário certamente não acontecia. Renaud não fazia ideia de que havia uma segunda pessoa em sua mente, daquilo, Aleksei estava bem certo.

