Uma Prostituta e Um Espelho [Aimée, Otheo]
#1
Giulio

Giulio já estava relativamente acostumado a ir para a casa de Otheo no fim de semana e entrar direto sem ter que esperar pelo moreno. Especialmente porque naquela época do ano mais próximo dos jogos internos e de provas, tinha que ficar na Academia até tarde no sábado para terminar de dar suas aulas de reforço e corrigir trabalhos e provas. Quando alcançava a casa do moreno, já era início de noite e ele devia estar ocupado com o Mary Stigmata. Não que não gostasse do local, mas preferia a tranquilidade e a intimidade da casa de Otheo ao invés de ter que ficar no bar rodeado por estranhos e alguns não-tão-estranhos que vez ou outra lhe lançavam aqueles olhares de julgamento.

De qualquer jeito, desceu do ônibus perto do Mary Stigmata por volta das oito da noite naquele dia que tinha sido um pouco cansativo. Devia ir para o apartamento, preparar alguma comida rápida e quem sabe um chá para descansar enquanto Otheo não saía do bar? O moreno já sabia que iria ficar com ele naquele fim de semana - considerando que o anterior tinha sido, de novo, reservado a uma de suas viagens -, então nem entrou no bar para não dar qualquer incentivo para que ele escapasse e deixasse Joel sozinho.

Estava revirando as chaves depois de tirá-las do bolso ao chegar ao fim da rua e só ergueu o rosto para se deparar com uma figura levemente familiar. Já fazia algum tempo que não esbarrava com a jovem, não era? Desde o natal, talvez? Lembrava dela tentando dar em cima de si naquela época.

- Boa noite… Aimée, certo? Já faz algum tempo que não a vejo. - queria perguntar como ela estava, considerando o trabalho da garota, mas não sabia o quão aquilo era adequado.


Aimée

Naquela noite não havia o show da mais nova atração do Mary Stigmata: Belle Bordeaux, o que significava que era uma noite de lucros para Aimée. Afinal, com menos gays e simpatizantes circulando no bar que já era bem incomum, teria como fisgar mais clientes, especialmente em uma situação tão complicada financeiramente como ela estava. Não que não pudesse dar conta das próprias contas, é claro, mas toda mulher precisa de seus luxos pessoais e eles certamente eram mais caros do que a conta de luz e telefone.

Aimée se arrumou do jeito ousado de sempre, com uma mini-saia colorida em vários tons que lembravam o arco-íris (ou ironicamente, uma bandeira gay, que era do que estava tentando fugir), um cinto largo e uma blusa curta de oncinha, além das suas boas amigas meias sete-oitavos que deixavam a cinta liga aparecer nas laterais da saia, se subisse um pouco demais. Ainda calçou um par de botas que iam até o joelho, de salto alto e camurça, além de uma jaqueta de pele que não cobria em nada o decote exagerado apenas reforçado pelo colar. Deixou os cabelos ruivos soltos e com um bom perfume de toque afrodisíaco, despediu-se de sua colega de quarto para seguir ao trabalho naquela noite.

O caminho conhecido ficou só mais interessante quando chegou perto do bar e avistou, ao longe, a figura conhecida do ex-padre agora famoso por ter deixado a profissão para virar gay. E que desperdício... mas já o tinha encontrado uma vez na festa de natal de Otheo, será que o tinha visto mais vezes? Quem sabe pudesse confessar os pecados? Sorriu com a ideia malandra, para ir na direção do outro e tentar surpreendê-lo antes que ele subisse as escadas para o apartamento de Otheo, mas ele foi mais rápido em notar sua presença ao procurar pelas chaves da casa. Apenas sorriu interesseira, as mãos unidas na frente do corpo de modo que automaticamente, reforçava o decote.

- Hmmm, lembra meu nome, mesmo que só tenha me visto uma vez. Agradeço por lembrar, padre. - o título foi mais uma ironia, já que sabia muito bem que ele não era mais clérigo. Aproximou-se insinuante dele, sem se importar minimamente por estar invadindo o espaço alheio. - É, faz mesmo muito tempo que não nos vemos. Veio passar a noite aqui??


Giulio

Giulio apenas sorriu depois de encontrar a chave de casa e fez um aceno breve com a cabeça. Lembrar nomes e rostos era algo bem comum na sua profissão anterior, e uma habilidade ainda mais conveniente ao se tornar professor.

- Eu sou bom com nomes e fisionomias, senhorita. - respondeu, mal notando o modo como a garota se insinuava em sua direção, já que sequer tinha baixado o olhar para o decote feminino. Continuou com a conversa como se fosse apenas um encontro casual, concordando com um aceno de cabeça de novo quando ela perguntou se tinha ido passar a noite no apartamento de Otheo. - Sim, eu pensei em subir e preparar alguma coisa para jantar, um chá talvez. Não sou muito... o estilo que frequenta o Mary Stigmata.

Ele seguiu para perto das escadas de acesso à casa de Otheo, afastando-se inconscientemente da jovem que estava se insinuando como deveria ser bem natural. Mas antes de subir, lembrou da festa de natal e considerando a profissão dela e as vestimentas... com certeza ela estava prestes a trabalhar. Provavelmente seu instinto ainda de clérigo foi mais forte em pensar num motivo qualquer para tirá-la da rua.

- Você gostaria de me acompanhar? Acho que Otheo não vai se importar se eu lhe oferecer um chá, não é?

Aimée

Sorriu para o padre sobre o comentário dele, de ser bom com fisionomia e nomes. Acenou positivamente para o moço a sua frente, o seguindo para onde ele tava indo.

- Hummm! Só um chá, mas isso não é janta. - olhou para ele pensando que a igreja não ensinava um padre a fazer comida e pensou também que as sopas que eles davam na comunidade deviam ser muito ruins. - Mas é claro que ele não se importa, se fosse outra pessoa, mas é você, ele deixa! - nem prestou atenção e o padre falava dela e foi pegando a chave que o homem achou para abrir a porta. - Ele precisa realmente mudar esse local da chave! Entra! Entra! Preparo para você uma coisa boa! - sorriu enquanto deixava uma curta passagem na porta para o padre passa por ela.

Entrou junto ao padre como se já soubesse exatamente onde estava tudo, fazia um bom tempo que não entrava ali, algumas coisas tinham mudado outras não, mas aquele lugar era sua vida! Foi em direção a cozinha para ver o que tinha. -qual a sua preferência, comer ou dormir?? - falou em um tom bem sarcástico!

Giulio

Giulio não teve tempo de escolher a chave para abrir a casa, logo Aimée se adiantou, pegando em sua mão para abrir a porta e praticamente invadir o apartamento como se fosse a casa dela. O ex-padre apenas sorriu um tanto sem graça, seguindo a jovem que já estava bem acostumada com o lugar. Bom, ela devia ter um nível de intimidade bem maior com Otheo, então apenas a acompanhou.

- Posso lhe oferecer mais que chá, não precisa se preocupar, eu preparo o jantar. - Giulio avisou, mas ao entrar no apartamento, parou a alguns passos de distância do sofá na entrada, ao notar a coisa bem incomum na sala.

Ele observou o reflexo num espelho enorme que estava encostado na parede oposta da sala, com uns plásticos tirados do caminho como se tivesse acabado de ser colocado ali. O italiano congelou no lugar, imaginando exatamente por que é que havia um espelho daquele tamanho na casa de Otheo. O rosto assumiu uma tonalidade avermelhada e só piorou quando ouviu a voz de Aimée, sem sequer entender o que ela tinha lhe perguntado.

- Sim! V-vamos à cozinha. Você se importa de ficar na cozinha para fazermos tudo?? - respondeu Giulio, um tanto exasperado, indo até o outro cômodo e esperando que a jovem lhe acompanhasse.

Aimée

A ruiva se sentia bem no ambiente gostava das lembranças, e adorava ainda mais as provocações, a situação de um padre e uma prostituta em um ambiente, onde os dois estão a sós, isso era extremamente hilário, onde a baixinha não iria desperdiçar nada nem uma gota disso.

- Nossa estou surpresa, o que mais o nosso querido Padre sabe fazer? Quero ver essas mãos trabalhando - a garota percebeu que o homem não parava de olhar seu próprio reflexo no espelho - É! Também não tiraria o olho de você, vai que some e não dá notícias. - olha para o padre para ver a reação.

- Não eu não me importo, o que pretende fazer? Alguma coisa no molho branco? Eu sei exatamente onde tem um saco de creme posso ajudar a esvaziar esse saco - desta vez a ruiva se esforçou para não rir, isso foi demais até para ela, mas mesmo assim a moça foi para onde era a dispensa.

Giulio

Giulio chegou à cozinha para procurar tudo o que precisava nos armários, junto com as panelas e acabou tirando coisa demais do caminho só porque ainda estava com o espelho na cabeça. Engoliu em seco, não era como se Aimée fosse descobrir algum motivo só porque ele estava pensando naquilo. E que ideia tinha sido aquela de Otheo? Suspirou um tanto desconsertado ao ver que tinha tirado muitas coisas do armário que nem ia precisar. Foi tirado dos devaneios com a pergunta de Aimée sobre o que sabia fazer e só sorriu compreensivo para a jovem.

- Eu aprendi a fazer várias coisas na Igreja. E eu sempre vivi sozinho, então uma pessoa sabe como se virar. - ele disse, pegando a chaleira para colocar água para esquentar e fazer o chá que tinha prometido.

Ele só pode sorrir sem graça quando ela disse que não tiraria o olho dele, já estava acostumado àquele tipo de comentário até mesmo na Igreja, mas não era como se visse algo mais na jovem do que uma garota que precisava de ajuda. Claro que só poderia oferecer se ela quisesse. Era uma boa garota, de todo jeito.

- Hm, posso fazer algo com molho branco. Mas acho que tem os ingredientes aqui, não precisamos usar nada pronto, eu acho que fica mais saboroso do que os industrializados. - Giulio respondeu, completamente alheio a qualquer insinuação dela. - O que acha de risoto? Mas pode demorar um pouco para ficar pronto. E do que gostaria o chá?

Aimée

A Aimée, estava se controlando para não rir, tinha que deixar o homem mais encabulado, mas não sabia como. Não queria partir para algo físico. A baixinha não sabia se o ex-padre se fazia de desentendido ou realmente não entendia as conotações sexuais da ruiva.
- Humm, gostaria muito de ver todos os seus dotes. - fez uma pequena pausa para ver como ele reagia olhando bem provocante para o rapaz - poderia me mostrar? Serei sua, para ver tudo o que você faz! - A ruiva afastou umas coisas da bancada para subir olhando diretamente para o ex-padre.

A Aimée continuava provocando o Giulio, sentada em cima da bancada, a prostituta tem uma visão igualitária do rapaz que estava a sua frente. estava fazendo o que podia para provocar o rapaz, deixando cair uma alça do ombro e fazia pequenos sinais provocativos com seu corpo.

- Que bom, que vai ser feito na hora esse molho branco, posso ajudar sou ótima com as mãos. - A moça puxava com as mãos os cabelos longos para trás fazendo um coque, amarrado com o próprio cabelo, deixando uma pequena mecha cair para frente. - Adoraria provar seu risoto, que bom que demora quando mais demorar, mais gostoso fica. - quanto mais o moço alto falava mas parecia que era de propósito, porém as expressões dizia o contrário. - O que está fazendo agora já que não tá na igreja?

Giulio

Embora Giulio não fosse completamente alheio às insinuações de terceiros, principalmente depois que tinha saído da Igreja, não tinha como olhar para uma garota como Aimée - que ele ainda via como uma criança - e sequer assimilar que ela estava dando em cima dele. Por isso se preocupou em pegar os itens na geladeira e nos armários enquanto Aimée achava um lugar muito confortável para se sentar exatamente no meio da bancada, diminuindo a sua área de preparo em muito. Giulio só deu uma risada um tanto sem graça, usando o pouco espaço que tinha sobrado para começar a preparar as coisas.

- Você sabe cozinhar? Pode picar a cebola ou o presunto. - ele indicou, empurrando os ingredientes para a garota ainda sobre a bancada. - Vou colocar a água no fogo, melhor não ficar tão perto do fogo para não se machucar. E acho que não vai ser muito bom cortar as coisas sentada aí em cima. - ele comentou, com uma risada breve, estendendo a mão para ajudar Aimée a descer da bancada para preparar os itens para o risoto.

Logo ele voltou para separar os ingredientes, pegando um vinho branco no caminho para adicionar à receita, ouvindo a pergunta sobre o que estava fazendo fora da Igreja.

- Ah, agora eu sou professor de filosofia em St. Clavier, mas faço alguns trabalhos voluntários com ONGs em países e cidades carentes.

Aimée

A ruiva queria muito ver um outro lado do Giulio, mas as cartadas da garota estavam acabando, já não sabia mais como lidar com o ex-padre que pudesse provocá-lo e não fosse muito chata, só se a garota imitasse o Otheo, porém a mais nova sabia que isso era muito ofensivo e poderia acabar muito mal. A Aimée acenou positivo para as perguntas do Giulio, segurou a mão do mais alto, e se apoiou no ombro do mesmo que estava a sua frente.

A ruiva tentava pensar no plano para fazer o ex padre ficar encabulado até que a faca acidentalmente rasga um pedaço da unha da garota, ela contrai a mão fazendo um pequeno barulho de agonia, esconde a mão parando de cortar os presuntos - Nossa que massa, esse é aquele colégio de granfino só para homens? - A garota está olhando para o homem consignado, onde o serviço dela ainda está inacabado, faltando pouco, realmente pouco, mas a unha ainda pinturada a incomodava a ponto de escondê-la a qualquer custo - pode falar um pouco mais?

Giulio

Aimée desceu da bancada finalmente, se apoiando em sua mão e seu ombro, para pegar a faca e começar a cortar os itens que ele tinha indicado, mas ela não demorou muito, e olhando pelo canto do olho, Giulio percebeu que ela podia ter se machucado com a faca, até ignorou o comentário dela perguntando sobre St. Clavier.

- Você se machucou com a faca? Deixe-me ver. - Giulio pediu para que ela estendesse a mão, mas ela escondeu nas costas, pedindo para falar um pouco mais de St. Clavier. - Eu falo mais se me deixar ver se está com corte. - ele sorriu, amigável, nem um pouco incomodado com a proximidade da ruiva.

Aimée

A garota, realmente não queria que o ex padre visse a unha rasgada dela, ela sabia que não tava cortado, nem estava doendo, era mas um incômodo pessoal da ruiva do que qualquer coisa. Ela estendeu ao máximo sua mão, para que o mais alto não pudesse ver nada. Nessa aproximação sua boca passou no rosto no mais alto

- Não, e melhor nós paramos, o Otheo deve está chegando! - falou em um tom mais alto só para o homem prestar atenção, no mesmo instante a ruiva aponta com a mão que não está cortada para a comida - Vamos continuar?! Depois! - a moça volta a falar em um tom mais baixo - não foi nada sério. - a Aimée olha para o rosto do Giulio manchado de batom. - Espera, ta manchado de batom aqui, deixa eu tira? - passa a mão na mancha de batom.

Otheo

Otheo até teve uma noite ocupada no bar, mas quando o show da Belle Bordeaux começava, até tinha um momento mais tranquilo. Conversou com Joel e descobriram que estavam sem algumas garrafas de licor. Talvez fosse uma boa hora para reabastecer, enquanto os clientes não estavam pedindo muitos drinks, então saiu para passar em casa e buscar algumas garrafas.

Estranhou, claro, a luz ligada na porta, e quando abriu a mesma, pensou em chamar Giulio, mas logo ouviu uma voz de mulher muito conhecida, praticamente gritando que ela e alguém estavam de casinho ali dentro. Se não conhecesse Aimée, até ficaria bravo. Mas antes que notasse, tinha marchado em toda velocidade para dentro da cozinha.

- Essa é a minha deixa do teatrinho de traição de vocês dois? – Otheo perguntou, franzindo a testa para a cena de Aimée limpando batom do rosto de Giulio. – Você ainda tirou casquinha dele, sua safada! Eu deveria arrumar um rolo de macarrão para bater na sua cabeça! – Otheo brincou, dando um cascudo em Aimée. – E você deveria ter a guarda mais alta, Giulio! Se eu não conhecesse você E ela, eu estaria me roendo de ciúmes, viu??

Giulio

Giulio só arqueou as sobrancelhas quando ela disse para pararem porque Otheo podia estar chegando. Não era como se estivesse fazendo algo de errado em tentar cuidar do machucado que ela insistia em esconder.

- Não se preocupe com o Otheo, deixe-me ver. - ele ainda insistiu com a mão que ela continuava escondendo às costas. E só então, ela sugeriu que os dois voltassem a preparar a comida e ainda insistiu que não tinha sido nada demais, parando para limpar a mancha de batom que tinha ficado em seu rosto. Giulio só sorriu amigável do mesmo jeito, sem se preocupar com a aproximação da jovem, até ouvir a voz quase estridente de Otheo na entrada da cozinha.

Ele se virou para ouvir as acusações enfáticas de Otheo e colocou uma expressão um pouco surpresa e confusa para o moreno, afinal, o que exatamente ele queria dizer com “teatrinho de traição”?

- Otheo, do que você… - ele só interrompeu o próprio comentário quando viu o cascudo firme que ele deu na jovem. - Por Deus, você vai machucá-la desse jeito, Otheo. - ele reclamou com o namorado, voltando-se para Aimée como se o cascudo tivesse realmente machucado. - Você está bem, Aimée? Do que está falando, Otheo? Ciúmes de quê? - ele perguntou, o tom confuso, e mais preocupado com o estado da garota.
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Uma Prostituta e Um Espelho [Aimée, Otheo] - by Giulio - 09-27-2021, 03:34 PM

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