Eye Examination [Berthold]
#1
Monique

Havia acabado de chegar na sala de espera do Hospital Geral de Cerise para sua primeira nova consulta com um oftalmologista. Não queria admitir, principalmente para o próprio pai, que estava desconfortável com a dor que acometia sua cabeça todas as vezes que precisava forçar a própria visão para fazer suas costuras à noite e para entender o que estava sendo projetado nos quadros de Limoges. O homem deveria estar muito feliz com seus dois irmãos recém-nascidos. Não valia a pena importuná-lo com aquele problema pequeno.

Estava sentada em uma das cadeiras da sala de espera enquanto folheava uma revista médica, evitando pegar no celular e procurar mais por si mesma sobre sintomas de doenças degenerativas oculares. Sentia um forte frio no estômago, a garganta seca e uma dor de cabeça que não parecia querer lhe deixar toda vez que pensava na mera possibilidade de estar voltando a ficar cega. Se sua situação poderia piorar, além de se sentir solitária novamente, tentando esconder aquele sentimento desagradável com o franzir de seu cenho e o distanciamento social, era assustador a ideia de estar sendo um estorvo na vida do próprio pai mais uma vez, justamente quando ele estava prestes a ser tão feliz com aqueles novos bebês saudáveis. Não queria nem imaginar como a senhora L´mark reagiria se soubesse que sua enteada estava ficando cega de novo.

Cruzou as pernas enquanto usava os shorts jeans e um par de tênis sociais, a blusa cinza por dentro do shorts com outra camisa, de um tecido mais leve, azul marinho, lhe cobria os ombros e trazia alguns broches que ela mesma havia desenhado. O cabelo estava preso em um rabo de cavalo, mas a mecha vermelha de sempre estava fácil de visualizar, desenhando seu rosto com a franja que teimava em crescer.

Tentou ignorar o próprio celular de novo, erguendo o olhar para observar a sinalização do ambiente. Coçou o canto dos olhos, pensando que o ardor neles deveria ser por conta de uma possível cegueira. Respirou fundo de novo, tentando manter a calma, afastada das demais pessoas naquela sala de espera. Não havia muita gente, afinal. Apenas uma senhorinha acompanhada de um rapaz; e um senhor que já usava um par de óculos circulares.

Berthold

Desde que tinha chegado na cidade do interior da França a adaptação estava indo bem, mantendo a dieta e o tempo regular de sono, nem sentia falta de tomar os medicamentos para o humor. Mas foi só cair nos velhos hábito de jogar um pouco, e praticar exercícios com mais frequência que a aquela dor de cabeça bem pontual tinha retornado, fosse pela ansiedade e medo de piora da sua condição, ou de fato da sua condição de saúde naturalmente fragilizada, isso tinha sido o suficiente para a paranoia do alemão levá-lo a clínica para fazer os exames de rotina e checar se estava tudo bem.

Queria em verdade alimentar a esperança que podia ao menos ser um hobbysta sem se preocupar em ficar definitivamente cego, como iria fazer um exame de vista, tinha deixado de lado seu par de lentes de contato, e tinha saído com seus óculos de grau, que tinham as lentes suficientemente espessas para deixa-lo pelo menos 20 anos mais velho, ou era o que sentia quando estava com ele. Naquele dia usava uma camisa de manga longa cinza escuro, e calças ajustadas ao corpo, tênis esportivo confortável, e carregava consigo uma bolsa de lado, com seus documentos, uma garrafa de água e aparelho celular. Tinha anotado no seu sketchbook o nome do médico e o horário da consulta, mas ainda estava com dificuldade se se situar com as placas e indicações em francês, diferente de Paris onde haviam mais placas em inglês para ajudar turistas.

O rapaz de 1,85 chegou ao espaço da clínica, os cabelos loiros longos fazendo pequenas curvinhas, fazendo com que o rapaz constantemente colocasse os fios atrás da orelha, olhou em volta, notoriamente com dificuldade de se situar. E olhou para as pessoas próximas, um senhor de armação redonda que parecia não querer ser incomodado, e uma senhora que estava acompanhada de um neto, que também não queria importunar, e uma jovem adolescente que parecia distraída, nem estava mexendo no celular como a maioria das pessoas da idade dela estariam. Engoliu em seco, e caminhou até perto da garota, pigarregou de leve:

-- Erh… com lincença…?! -- o sotaque era bem forte e o francês era dito sem muito manejo: -- Desculpe incomodar, mas aqui é a clínica ofta-... clínica de olhos? -- o rapaz perguntou baixando mais o tom a medida que ia falando a frase, com receio de está sendo mal compreendido. Como era difícil interação social.

Monique

Estava tão nervosa que quase deixou cair a revista quando um estranho se aproximou. Ergueu o olhar rapidamente e ficou surpresa ao perceber como o sujeito era bonito. Outro aspecto que lhe chamou a atenção foi o tom de voz dele e a dificuldade em especificar alguns termos em francês.

- Clínica de olhos? - arqueou uma sobrancelha, estranhando a escolha de palavras dele, mas logo suspirou, percebendo que o nervosismo alheio se fazia presente, tal como estava nervosa também por estar ali. - Sim, aqui é a clínica de oftalmologia. - observou melhor o garoto bonito, achando curiosa também a escolha dele de roupas, uma linha de costura singular para alguém naquela cidadezinha do interior francês. - Pode falar mais baixo. O senhor não fala francês? Que língua o senhor fala?

Separou a revista de lado e pegou o celular, mas não mexeu no aparelho, apenas guardou o mesmo no bolso. Apesar do garoto ser muito bonito, ele usava uns óculos de lentes grossas que lhe davam uma certa vontade de rir, mas controlou seu impulso em fazer chacota com a situação de outras pessoas, principalmente porque não sabia se em breve estaria em uma situação pior que a dele, precisando de uma bengala de guia ou um cão guia tal como seu pai já tivera usado um dia. O pensamento lhe fez encolher os ombros na cadeira onde estava acomodada, coçando o canto dos olhos de novo, o arder deles ficando mais intenso conforme pensava nas possibilidades de estar voltando a cegueira.

Berthold

O loiro pareceu meio tenso diante da fala da mais nova, será que tinha se feito entender? mas logo ela confirmou que estavam mesmo em uma clínica de oftalmologia, e respirou aliviado. Levou a mão sobre a boca, e se sentou uma cadeira de distância da mais nova, encolhendo os ombros e falando bem mais baixo, com vergonha de ter sido tão inconveniente: -- desculpe.

Arrumou os óculos de grau no rosto, embora não gostasse de estar usando a peça, era o que lhe deixava com a visão mais próxima do “normal” se é que lembrava como era enxergar de forma normal. Ouviu a pergunta da morena mais nova, sobre que idioma falava, ainda tinha de melhorar muito seu francês, tinha tido uma eletiva bem tapa-buraco na antiga escola, e agora tinha de praticar todo dia: -- Eu vim da Alemanha, estou a algumas semanas na França, ainda não me acostumei bem com o idioma, e me perco com facilidade, desculpe pelo inconveniente.

O mais velho, soltou um longo suspiro, passando a mãos pelos fios loiros longos, jogando-os para trás, para só então ajustar a postura e se sentar mais apropriadamente, mas ainda estava notoriamente nervoso: -- é minha primeira revisão com o médico novo, desculpe se eu pareço um pouco nervoso. -- Depois de se ajustar, e sentar cruzando as pernas de forma masculina: -- Eu sou, Berthold Konrad, perdoa a falta de modos em não me apresentar, e tals.

Como era difícil interação social, seja com pessoas mais velhas ou pessoas mais novas, tudo era cansativo naquela nova cidade, isso pelo menos até se acostumar.

Monique

Ficou surpresa com o fato dele vir da Alemanha. Bem, ele parecia com as pessoas que costumava ver caminhando nas ruas da austríacas quando visitava seus avós paternos, mas nunca esperaria encontrar algum alemão em Cerise e justamente em um consultório “de olhos”. Notou também como ele parecia tímido e desconcertado por ter feito perguntas sobre sua origem. Ele ainda fez questão de justificar a causa do próprio nervosismo e, curiosamente, saber que o sujeito chamado Berthold Konrad, com aquelas lentes grossas, estava nervoso também, lhe deixava menos nervosa.

- [Tudo bem, Konrad, eu me chamo Monique Biedermeier, meu pai tem um escritório de advocacia na cidade e eu estudo no Limoges Collet. Eu já moro aqui faz algum tempo, por isso, não fique nervoso em falar alemão, eu entendo muito bem.] - explicou em alemão para o rapaz que estava a uma cadeira de distância com mais calma, esboçando um sorriso discreto depois da sentença mais séria. Pensou melhor em ficar quieta e apenas deixá-lo sozinho contemplando a própria espera, mas ele havia escolhido sentar perto de sua pessoa, e ele estava nervoso, não como se não estivesse também, mas ele parecia bem mais deslocado ali que ela. - [Ãhn… também é a minha primeira consulta aqui no hospital geral… não conheço os médicos aqui, então não posso te ajudar com isso…] - deu de ombros, desviando o olhar com o incômodo dos olhos que ainda teimavam em arder.

Berthold

Estava envergonhado de quem sabe ter incomodado o tempo que a garota tinha, afinal se ela estava em uma clínica oftalmológica ela deveria está ali para alguma consulta, e não deveria está importunando a mesma. Respirou fundo e sentindo mal por aquilo, o rosto levemente corado pela vergonha, até ouvir o som familiar do seu idioma nativo. Olhou para o lado sem esconder a expressão surpresa diante do fato das tantas pessoas que tinha encontrado em Cerise, essa era a segunda que falava seu idioma, talvez fosse o ponto bom de estar em uma cidade turística:

--[Que alívio encontrar outra pessoa que entende o que eu falo, eu ainda vou me acostumar com o francês, vou ter muitas aulas então vou ter tempo. Eu sou bolsista de artes em St. Clavier, sou fotógrafo e pintor, é um prazer conhecer você senhorita Biedermeier, sabia que têm um estilo artístico e arquitetônico baseado no seu sobrenome? Você tem família na Áustria?] -- comentou só depois se dando conta que podia estar sendo inconveniente com seus apontamentos, o loiro arrumou os fios claros e mexeu na armação do óculos que detestava mas tinha de usar:

--[Bem, só de você conversar comigo no meu idioma nativo já é uma grande ajuda, obrigado, e desculpe se eu falei alto, ou soei inconveniente… não é proposital, eu só não sou bom socializando, imagina quando eu não entendo metade do que as pessoas falam e a recíproca também é verdadeira.] -- suspirou, conformado, ouvindo a atendente chamando o nome de uma pessoa que entrou para ser atendida, e aquilo lhe deu a perspectiva de que mais cedo ou mais tarde teria seu nome chamado, então a despeito do idioma saberia quando fosse sua vez.

Monique

A morena ficou satisfeita com o fato do garoto ficar mais confortável por poder conversar com alguém que falasse alemão. Contudo, baixou o olhar, evitando encarar o loiro quando ele falou sobre ser bolsista em St. Clavier. A ideia do rapaz estudar na instituição lhe levava a crer que ele já deveria conhecer Yure Lukashenko. Afinal de contas, que aluno de St. Clavier não conhecia o ruivo?

- [Meu avô.] - respondeu, esboçando um sorriso para disfarçar o desconforto com a memória da presença do rapaz hiperativo. - [Meu avô e minha avó vivem na Áustria. Eu costumo visitá-los no inverno. Meu avô é dono de uma multinacional que produz mobiliário.] - explicou, apesar do rapaz se desculpar por ser inconveniente, o que não julgava que ele estava sendo, afinal de contas ele não tinha como saber de seu relacionamento com o ruivo de St. Clavier.

Analisou melhor o rapaz, arqueando uma sobrancelha ao constatar que era no mínimo curioso como ele poderia ser um bom fotográfico e pintor usando aquelas lentes tão grossas.

- [Ah, me desculpe perguntar, mas como consegue fotografar e pintar…] - fez uma pequena pausa, apontando para os olhos dele, tentando ser discreta. - [Quero dizer… eu sou estilista… então... ] - sorriu, tentando ser mais educada após diversas experiências sendo grosseira com terceiros. - [Desculpe, não é da minha conta.] - pediu, abaixando o olhar para a revista em seu colo de novo, pensando que deveria ter ficado de boca fechada.

Berthold

Talvez não devesse começar a tagarelar com as pessoas porque elas falam em alemão, tinha tido sorte do seu colega de quarto falar, e agora não podia julgar que a garota quisesse conversar consigo só porque os dois falavam o mesmo idioma. No entanto, veio a surpresa quando a mais nova citou o avô, e confirmou que seus parentes eram de fato austríacos e que estavam relacionados ao mercado moveleiro. O loiro fez uma expressão de surpresa, afinal tinha sido um belo chute certeiro, não tinha aquele tipo de sorte todos os dias, era como encontrar com história viva num consultório oftalmológico.

Logo veio perguntas em sua direção também, nada mais justo no final das contas, talvez a mais nova só estivesse tão nervosa quanto ele, o que era bem peculiar, mas considerando que ela era uma estilista, pelo que tinha dito, devia presar bem a própria visão. Sorriu simpático, e fez um gesto com a mão negando o pedido de desculpas:

-- [Não precisa se desculpar, e não está sendo inconveniente, afinal eu que comecei a fazer perguntas do nada.] -- O loiro arrumou o par de lentes de grau no rosto, e ouviu a atendente chamar outro nome, que não era nem o seu e nem o da morena: -- [Eu normalmente saio de lentes, só uso óculos quando estou nos dormitórios ou em dias de consulta, já estou prevendo que o médico vai usar aquele colírio que faz você ficar com as pupilas dilatadas por horas] -- suspirou resignado, mas buscando uma postura melhor na cadeira que estava sentado cruzando as pernas de forma masculina:

-- [Eu também achava que não ia conseguir fazer mais nada depois que comecei a usar óculos, a pessoa fica nervosa porque está sempre com dor de cabeça, depois vem no médico ele usa o colírio do mal, e aí você testa lentes, no meu caso, como a minha é bem espessa e multifocal, então eu tive de testar várias vezes até acertarem, mas é porque o meu caso é mais complicado, quem dera fosse só miopia ou astigmatismo.] -- Riu um pouco desconcertado, sem saber se era exatamente o tipo de conversa que a outra garota precisava, mas nem conseguia esconder que ficava nervoso de estar ali: -- [Eu não tenho problemas pra pintar porque os óculos já ajudam, e fotografar a câmera e as várias opções dela, compensam minha deficiência visual] -- Até poderia dizer onde tinha material seu exposto, mas aí não faria sentido usar um pseudônimo se ele mesmo saísse dizendo quem era: --[ Você é estilista amadora certo? Já participou de algum evento? Onde eu poderia ver seu trabalho?] -- Já que os dois estavam nervosos, talvez falar sobre o que faziam, servisse pra acalmar os ânimos.

Monique

Conseguia ouvir as palavras do loiro ao seu lado, mas não conseguia tirar o olhar da porta do consultório onde a pessoa chamada havia acabado de entrar para fazer a consulta. Sentia um aperto desconfortável no próprio peito com a ideia de ser chamada em seguida. Não queria descobrir que voltaria a ficar cega tal como quando começara quando era criança. Talvez fosse melhor se já tivesse passado algum período cega, assim ficaria mais acostumada com a escuridão como seu pai. Na verdade, sequer fazia ideia do que Marco sentia sendo cego. Não fazia ideia se ele enxergava algum tipo de espectro ou coisa parecida.

Olhou para o rapaz ao seu lado assim que ele riu, descrevendo sobre o próprio caso como algo mais complicado. Entreabriu os lábios como se quisesse perguntar algo a ele, mas mordeu a língua, julgando que verbalizar aquilo também era assustador, perguntar sobre a ideia de alguém chegar a cegueira.

- Ah, tenho um… - fez uma pequena pausa para procurar nos bolsos por sua carteira e um cartão de visita de formato quadrado bem minimalista com seu nome e o endereço para seu portfólio virtual e mídias sociais. Acabou deixando a carteira cair no nervosismo e se abaixou para pegar o objeto, notando como a própria mão estava tremendo. - Desculpe. Aqui.

Joshua não estava ali, seu pai não estava ali, nem ao menos havia pedido para sua madrasta lhe acompanhar. Não queria assombrar seu pai que havia acabado de ser pai de seus irmãozinhos com a ideia de que a filha imperfeita dele estava ficando cega de novo. Moveu a perna inquieta, pensando que talvez devesse desistir daquela ideia e ir embora do consultório. Poderia voltar ali depois, quando estivesse com Joshua, talvez.

- Eu… vou no banheiro… - avisou, tentando ser mais educada com o recém apresentado artista. Poderia ir ao banheiro, lavar o rosto, lavar a nuca, se acalmar, quem sabe pulassem o seu nome na lista e acabasse tendo que adiantar aquela visita. Seria uma ótima escapatória.

Berthold

Ficou feliz da mais nova ter um cartão para portfólio, poderia acompanhar o trabalho dela a distância, puxou o aparelho celular e já buscou nas próprias redes para poder acompanha-la; Usou seu perfil profissional com seu pseudônimo de Araav, fez isso no automático, esquecendo-se momentaneamente que sua conta tinha um número grande de seguidores, as várias pinturas a óleo hiperrealistas e fotografias de lugares no interior da Alemanha. Não tinha postado nada da França para não dar bandeira de onde estava. Notou quando a mais nova deixou cair a própria carteira ela parecia que iria fazer mais que um exame de rotina, senão porque estaria tão aparentemente nervosa.

Acenou positivamente, quando ela disse que iria ao banheiro, e logo em seguida teve seu nome chamado para ser atendido, não era de todo ruim, afinal significava que ela iria em seguida e poderia esperar pra fazer companhia se ela quisesse é claro. Não queria parecer um tarado aleatório seguindo garotas mais novas.

Seguiu para consulta, e foi atendido sem maiores problemas, não teria de mudar as lentes ainda, e lhe foi passado um colírio pra lidar melhor com o clima e descansar a vista no fim do dia. Antes de sair, avisou para o médico que sua amiga estava nervosa e que iria se consultar também, e que ele fosse compreensivo, o médico respondeu puxando um docinho que destinava a crianças mais novas. No fim das contas era bom o médico que lhe acompanharia pelo tempo naquela cidade ser carismático.

Saiu da sala em tempo de reencontrar a mais nova, e erguer o polegar em sinal positivo, se aproximou: -- [Não passei por nenhum colírio malvado dessa vez.] -- o mais alto sorriu de forma carismática: -- [se não for lhe incomodar, eu posso esperar você sair da sua consulta, podemos tomar um suco, ou algo assim. Se bem que eu nem sei andar direito na cidade, mas não é nada que um google não resolva.]

Monique

Voltou do banheiro quando já estava prestes a ser atendida. O rosto estava pálido como se sua pressão tivesse caído. Encontrou o loiro de boa aparência antes de entrar e foi pega de surpresa pelo sorriso carismático e a oferta de espera. Demorou alguns minutos até concordar com um aceno positivo, adentrando no consultório para ser atendida.

Saiu da consulta algum tempo depois, as bochechas vermelha como se tivesse chorado e um pirulito colorido em mãos. Acenou para o oftalmologista que havia lhe atendido de forma bastante paciente e compreensiva, explicando-lhe todos os detalhes de sua mais nova condição de visão. Usava um lencinho de papel macio que o médico havia lhe oferecido para secar as lágrimas que havia justificado serem por conta do colírio.

- Ah, você esperou mesmo. - disse em francês, só então se recordando que o rapaz falava mais em alemão. - [Desculpe. O colírio irritou meus olhos. Você ainda quer beber um suco?] - olhou para o próprio docinho, oferecendo para o loiro mais alto em sinal de gentileza. - [Você estuda em St. Clavier, não é? Posso te mostrar um lugar que vende sucos e lanches saudáveis na cidade que fica perto de lá. Acho que pode ser mais prático para você.] - ofereceu, sentindo o celular vibrar finalmente no próprio bolso.

Fez uma pequena pausa antes de saírem, aguardando a resposta do rapaz enquanto verificava o número de notificações de seu Instagram. Arqueou uma sobrancelha diante do número alto e dos comentários, desbloqueando o celular para verificar o que havia acontecido rapidamente.

- [Araav é você? Woah.] - abriu a conta do portfólio alheio, verificando o número de visitas da página e de seguidores. - [Você é famoso?] - questionou sem conseguir esconder o próprio sorriso de interesse ao apreciar as obras do outro, reconhecendo alguns cenários da Alemanha nas produções do outro.

Berthold

Era fácil pro alemão notar a diferença entre um colírio pra dilatar as pupilas e choro por nervosismo, e considerando o fato de que a mais nova já parecia mal antes de ir pra consulta em si, tinha pensado bem em esperar que ela saísse. Imaginava se ela estava tão apreensiva com a consulta se ela não deveria ter vindo com os pais ou mesmo com algum amigo, mas não era íntimo o suficiente para perguntar aquelas questões. Sorriu de volta de forma cordial, quando ela retornou a falar em alemão. Concordou com a cabeça quando foi questionado sobre estudar em St. Clavier:

-- [Ah eu agradeço, eu já caminhei pela cidade um pouco registrando alguns lugares legais em fotografia, mas não elenquei nenhum como meu favorito ainda.] -- Negou com a mão sobre o docinho, gesticulando que era dela, manteve a distância da mais nova, deixando que ela guiasse o caminho, para não parecer que estava invadindo o espaço pessoal dela. E teve de dar passadas mais curta, já que era bem mais alto que ela, tinha de se atentar para não parecer grosseiro.

Mas parou de caminhar no lugar quando a mais nova lhe perguntou de forma direta sobre ser “Araav” e a surpresa no rosto foi genuína. Puxando o próprio celular e vendo que tinha seguido o perfil da menor com o seu perfil de trabalho, deseguiu, e não podia simplesmente ir com sua conta pessoal porque isso chamaria ainda mais a atenção. Se virou para a mais nova meio cabisbaixo: -- [Desculpa! Eu devia ter prestado atenção com qual perfil eu estava logado, ai ai… espero que as pessoas não te incomodem muito por causa disso, não vou poder seguir com meu perfil pessoal você, senão eu me delato. ai ai… que confusão].

O loiro coçou os fios claros na nuca e respirou fundo guardando o celular de volta ao bolso, e agora sentindo que devia uma explicação melhor para a mais nova: -- [ Bem, eu não vou dizer que não sou famoso, até que sou, mas eu posso explicar melhor depois da gente sentar, falar as coisas assim no meio da rua é meio desconfortável você não acha?] -- pontuou aquilo, imaginando que realmente seria melhor pro humor dos dois tomar um suco, e ter uma conversa amigável em algum restaurante, além de que Monique não teria de ficar olhando pra cima todo tempo.

Monique

Aceitou que o docinho lhe pertencia e abriu o pacote do mesmo, jogando o plástico em uma lixeira no caminho enquanto levava o doce até a própria boca. Ele trabalhava com fotografia, deveria ser um trabalho legal e um rapaz bonito sendo um bom contato para trabalhos futuros também era uma boa ideia. Parou no meio do caminho, chupando seu pirulito e arqueando uma sobrancelha diante da reação assustada do outro.

[- Hm. Claro. ]- concordou com ele, achando melhor não insistir já que não era curiosa e ele poderia não querer falar sobre a própria fama com ela.

Seguiu até o lugar que vendia sucos e escolheu uma das mesas dentro do estabelecimento, imaginando que o sujeito deveria ser um tipo famosinho que não queria tanta atenção de terceiros assistindo. Pegou novamente o próprio celular e abriu o aplicativo do lugar, mostrando a tela para o loiro.

[- Eu sugiro baixar esse aplicativo. Eu conheci esse lugar há um tempo. Ele serve muitas opções veganas e naturais de lanches, então o cardápio você pode encontrar baixando o aplicativo daqui ou indo até o caixa fazer o pedido diretamente.] - deixou o celular sobre a mesa para que ele usasse. - [Vá em frente, tem várias opções de combos. As batatas aqui são orgânicas e bem gostosas assadas. Eu gosto muito do hambúrguer de falafel.]

Explicou para o loiro, cruzando os braços em seguida e se acomodando com no assento da mesa que havia escolhido, piscando algumas vezes, ainda incomodada com a visão desfocada. Ainda conseguia lembrar de todo o desconforto no consultório oftalmológico.

Berthold

Não foi uma caminhada longa até o restaurante sugerido pela morena mais nova, e após se sentarem no local de ambiente agradável, Monique desatou a falar sobre como o local era prático com menu on-line e opções vegetarianas saudáveis. Em verdade ficou surpreso que uma pessoa com menos de 60 anos se preocupe em ter uma alimentação saudável movida a falafel, seria ela uma pessoa com intolerâncias alimentares? Não podia julgar, embora não acreditasse que alguém de bom grado trocaria um bife por um prato de salada.

O loiro se sentou na cadeira a frente, deixando que a mesa ficasse entre os dois para não forçar uma proximidade que não tinha com a recém-conhecida: -- [Obrigado pela paciência em me explicar, eu realmente não sei o que pedir, porque, pra ser bem sincero, eu nem passo perto de uma alimentação saudável, eu vivo de Nuggets e Macarrão Instantâneo.] - Comentou coçando a nuca de um jeito meio desconcertado, pegando um combo padrão, com batata frita e refrigerante:

-- [Bem, antes de mais nada, eu peço desculpas se o meu engano causar algum tipo de situação desconfortável no seu perfil.] -- Puxou o próprio celular, abrindo na sua conta de trabalho, que tinha o nick de Araav: -- [Eu sou pintor e fotógrafo, e faz uns meses que eu venci uma competição em Berlin e tive quadro premiado, e por consequência toda uma exposição, que teve grande repercussão. Até então eu só tinha exposto na Alemanha, e ninguém que me segue sabe quem eu sou, ou que eu estou fora do meu país de origem no caso.] -- comentou tentando ser o mais explicativo possível, embora parecesse que estava só se gabando:

-- [Como ser pintor profissional nunca tinha sido meu primeiro objetivo, afinal eu comecei a pintar como parte de um processo de terapia, então eu sempre assinei com um pseudônimo mesmo, afinal, pensei que não daria em nada, e agora, eu sou tímido demais pra assumir tudo que o nome Araav representa ou significa.] -- Não sabia se admitir que era um covardão era um bom jeito de iniciar uma conversa com uma pessoa recém conhecida, mas como havia a possibilidade de ter causado algum contratempo para a mais nova, se sentia na obrigação de explicar tudo, e o lado bom de estarem conversando em alemão, era que a chance de algum francês aleatório entender o que diziam era mínima.

Monique

Fez o pedido juntamente com o loiro, estranhando o fato dele precisar se explicar sobre a própria alimentação. Não julgava o rapaz, já havia passado pela fase de comer muito mal, principalmente quando estava animada com algum projeto, acabava gastando suas madrugadas costurando ou interagindo pelo celular em suas mídias sociais para divulgar mais de suas produções. Estranhou ainda mais quando ele começou a se gabar da própria fama e premiações, pensando em algum comentário sobre como ele deveria ser muito “humilde” por não revelar o próprio rosto promocional para os fãs dele e que ela conseguia lidar muito bem com a pressão.

Acabou fazendo uma expressão surpresa ao perceber que ele de fato estava se explicando demais por ser tímido, ainda mais quando ele fez questão de destacar que fotografava por conta da terapia. Lembrou por um instante de Viola e de todo o problema causado por sua pessoa ao ponto da garota chegar a tentar suicídio.

- [Meu pai é advogado.] - respondeu logo depois que os lanches dos dois chegarem. Demorou alguns instantes experimentando seu milkshake verde com hortelã e chocolate. - [Não se preocupe comigo. Se algum fã seu vier me encher o saco e eu ficar sem paciência, posso salvar os prints, descobrir de onde a pessoa é, e processá-la.] - explicou como se fosse a coisa mais óbvia e simples do mundo a se fazer.

Ergueu o olhar para observar melhor o rapaz, pensativa sobre o tipo de terapia que ele fazia.

- [É muito difícil…?] - começou, lembrando que quando começou a sair com mais pessoas por conta do ex namorado, ele costumava usar essa tática de sempre se abrir primeiro para que a pessoa se sentisse confortável e menos julgado ao falar dos próprios problemas. - [Quero dizer, eu já tentei fazer terapia uma vez. Na verdade, eu não tentei, eu tive que fazer. Meus pais... ] - fez uma pequena pausa, lembrando do assunto que lhe deixava desconfortável. Franziu o cenho, inquieta. - [... meus pais se separaram quando era muito nova. Daí eu lembro que frequentei algumas sessões com uma psicóloga de crianças. Mas depois, acabou sendo uma perda de tempo.] - deu de ombros, puxando o canudo e fazendo um ruído com as bolhas ao sugar a bebida grossa. - [Sua terapia deve ter dado certo. Suas fotografias são bem legais. Já pensou em fotografar pessoas? Tipo, em passarelas de moda?] - perguntou, interessada.

Berthold

A resposta da morena mais nova as suas preocupações acerca de um possível incômodo nas redes sociais veio de forma pontual na afirmação de que o pai dela era advogado. O que devia ser bom considerando que se de fato chegasse a se tornar uma situação ruim para a mais nova ela estaria respaldada de como se defender. Saber daquilo trouxe alívio a expressão do alemão, e o deixou mais animado para apreciar seu lanche vegano, que parecia ao menos bonito, o que lhe dava uma ideia muito melhor de comida saudável, se todo prato de salada parecesse tão apetitoso talvez tivesse mais disposição pra comer.

Tinha acabado de dar uma boa mordida no hambúrguer de falafel estranhando o gosto, e franzindo as sobrancelhas em estranheza, mas em seguida acenando positivamente, como se aprovasse o sabor. Foi bem em tempo de Monique lhe perguntar se era difícil, e terminou de engolir, para devolver o sanduíche para a bandeja, buscando um guardanapo para limpar a boca, antes de ouvir o complemento da pergunta. E não a interrompeu enquanto ela concluía o próprio raciocínio, falando sobre fazer terapia na infância por causa do divórcio dos pais, era um tema até meio sério pra se tratar com um estranho, e nem sabia se tinha algo de bom pra falar na verdade:

- [Erh, uma pergunta por vez… como eu disse, eu não comecei a fotografar com o intuito de ser profissional, então nunca fotografei nada além daquilo que eu via na rua ou ao meu redor, e eu sou muito tímido pra ir numa passarela ou em qualquer lugar com muita exposição eu certamente iria ficar muito ansioso e não iria conseguir fotografar.] - riu um pouco sem graça, e levou a mão a nuca coçando a área brevemente, e desviando o olhar, sem saber exatamente como responder se fazer terapia era bom ou não.

Acabou apoiando os cotovelos na mesa e se curvando um pouco, e cruzando os braços na frente do corpo, em uma postura até um pouco defensiva: - [Eu não sou o melhor exemplo pra dizer pra alguém fazer terapia, porque o que eu tenho de tímido eu tenho de teimoso, mas não posso negar que a terapia me ajudou a lidar com meus problemas de saúde.] - O loiro levou a mão até a armação com as lentes de grau e as tirou do rosto, o mundo passando a ser um borrão ao redor, exceto pelos óculos que segurava ainda bem próximo do rosto. Sem óculos Berthold era estupidamente mais bonito, a ponto de algumas pessoas nas mesas vizinhas estarem eventualmente espiando os dois adolescentes conversando: - [Eu não sabia que tinha uma doença degenerativa da visão, eu sofri um acidente há um ano e meio que desencadeou a cegueira, eu fiquei cego totalmente, depois com tratamento a minha visão voltou parcialmente, e não tem cirurgia corretiva, embora agora tudo esteja estabilizado.] - O loiro não queria encarar a morena enquanto falava daquelas coisas, porque se ela fizesse uma cara triste era bem capaz de chorar, então apenas baixou a mão que segurava o par de lentes, e guiou o rosto na direção da mais nova e sorriu de forma gentil: - [É muito chocante quando as coisas mudam de uma hora pra outra, seus pais com o divórcio, eu com meu problema de saúde, talvez a Monique criança não conseguisse perceber o benefício da Terapia, e por isso você acha que não serviu, mas talvez o seu eu de agora veja algo de bom pra tirar dela. Mas só quem pode dizer isso é você.]

Se sentia sendo um pouco injusto porque estava até romantizando um pouco do processo de tratamento, no geral, era mais um circuito sofrido de aceitações de realidades duras e de amadurecimento pessoal severo. Mas cada um tinha uma experiência muito particular, e para Berthold no geral as coisas que envolvia seus sentimentos eram sempre muito intensas, não sabia se para os outros era da mesma forma.

Monique

Começou a comer as batatas rústicas de seu lanche, encarando o loiro mais alto com o ar de quem não entendia o que ele queria dizer ao certo com o receio de lidar com eventos de moda. Bem, lembrava que seu padrinho Vivi tinha um certo desgosto por multidões. Podia lembrar ainda de quando foi sua última visita ao parque de diversões da Disney com a filhinha do zelador Tamotsu.

Notou como o sujeito estava evasivo ao remover os óculos e falar sobre como a terapia o tinha ajudado. Os olhos castanhos se abriram um pouco mais e ficou nitidamente surpresa quando ele falou sobre a tal doença degenerativa da visão. Parecia ser muita coincidência para um encontro como aquele. Baixou o olhar, perdendo o apetite por um instante enquanto usava o guardanapos para limpar os dedos e cruzar os braços também, defensiva.

- [Sei como se sente.] - admitiu, levando uma das mãos até o próprio queixo, observando as mãos do sujeito a sua frente enquanto falava. - [Eu fiquei cega quando criança. Mas foi por pouco tempo. Daí meus pais se separaram.]

Respondeu para o garoto, respirando fundo antes de esboçar um sorriso em um misto de conformidade e frustração, arqueando as sobrancelhas diante daquela situação.

- [Hoje eu estava pensando que o médico ia dizer que eu ia voltar a ficar cega.] - admitiu, se sentindo mais confortável do que nunca por poder falar em alemão. Esfregou um dos olhos com as costas das mãos, suspirando resignada. - [Parece que eu vou precisar só de óculos… por enquanto.] - completou, sentindo-se estranhamente confortável com o sujeito que parecia compartilhar de um problema como o seu. Era estranho porque não esperava que em toda Cerise fosse encontrar alguém que pudesse lhe ouvir sobre aquele problema e que se sentisse confortável em falar sobre. Talvez fosse o fato dele ainda ser um estranho para ela. Falar sobre o assunto com os amigos que também eram amigos de seu ex namorado lhe dava um nó no estômago, principalmente por lembrar de como o assunto havia desencadeado toda a situação do término.

Berthold

Não era exatamente a melhor pessoa para servir de apoio emocional, e nem sabia se tinha falado algo útil, naquele momento sentia-se nervoso e meio inútil, no fim, mesmo que fosse uma pessoa recém conhecida devia ser ao menos capaz de manter uma conversa inteligível. A afirmativa da mais nova dizendo que sabia como se sentia, o fez recolocar o par de lentes de grau a fim de ver as expressões, não queria ter feito ela chorar sem querer, e quando notou ela passando as costas da mão no rosto, engoliu em seco imaginando que tinha feito algo muito errado em falar de si mesmo daquela forma leviana sem saber se o assunto poderia ser algum tipo de gatilho pra morena mais nova.

Logo veio uma informação mais séria, que fez com que o sangue do alemão ficasse frio, porque sabia que durante o período que esteve adoentado foi quando seus pais mais brigaram, e a perspectiva deles se divorciarem por sua causa, já tinha lhe ocorrido muitas vezes. Não conseguiu comentar nada imediatamente, porque tinha sua parcela de inseguranças sobre o assunto, nem podia dizer que estava verdadeiramente adaptado a viver daquela forma pela metade, e demorou ainda para organizar os pensamentos e conseguir elaborar uma resposta:

-[No geral acho que a parte mais difícil sempre é a adaptação, porque você entender algo racionalmente é diferente de você aceitar emocionalmente.]- Tentou soar amistoso, tomando um gole de água porque estava um pouco apreensivo: -[Não que sirva de consolo, mas usar óculos não é tão ruim, e você sempre pode substituir por lentes.] - Pareciam palavras duras pra se dizer, mas era verdade que costumava ser duro consigo mesmo na maior parte do tempo: - [Se for usar lentes lembre de por um lembrete no celular pra tirar antes de dormir. É péssimo acordar com os olhos ressecados.] - o loiro riu um pouco sem graça, diante do próprio comentário, mas era como estava lidando, não tinha como oferecer nada melhor, porque não tinha achado um jeito melhor de levar as coisas.

Monique

Voltou a comer ao ouvir as palavras do loiro, evitando encará-lo durante o processo. Era surpreendente já que tivesse falado tanto sobre sua vida pessoal para alguém que havia acabado de conhecer. Talvez ainda estivesse emocionalmente abalada por conta de toda a ansiedade em ir no oftalmologista se consultar por conta da dor de cabeça constante devido a visão.

- [Eu não acho óculos ruins. Meu pai usou óculos por anos, a minha madrasta usa óculos.] - deu de ombros. - [Não vai fazer diferença se eu começar a usar óculos ou não. Exceto quando eu for para as competições de natação e hipismo.] - explicou, pegando seu hambúrguer com falafel.

Fez uma pequena pausa, observando o rapaz em silêncio antes de arquear a cabeça, ponderando sobre a terapia do outro.

- [Por que veio estudar aqui em Cerise? Você parece legal, mas não parece filho de gente rica. Você é bolsista por causa da fotografia? Eles sabem que você é famosinho?] - resolveu perguntar, curiosa.

Berthold

O loiro respirou mais aliviado quando o clima tenso pareceu se dissolver, e aos poucos cada um dos dois voltava para a própria refeição parecendo que o tempo que tinham parado para trocar aquelas notícias e sentimentos ruins fosse um momento de “parada”; Mas que agora as coisas estavam voltando ao seu lugar e cada um podia dar atenção ao seu sanduíche abandonado de falafel. Escutou enquanto a morena mais nova narrava que tanto seu pai, quanto sua nova madrasta usavam óculos e que por isso a imagem mental de se vê usando óculos não causava desconforto, e que aquilo só iria lhe atrapalhar nas competições esportivas.

Engoliu em seco, porque lembrar de esportes lhe deixava amargo, e aquilo fez o restante do seu apetite sumiu, deixou o sanduíche de lado com apenas duas mordidas, e deu atenção ao suco tomando um gole para engolir aquela sensação ruim que tinha lhe acometido. Tanto que não conseguiu adicionar qualquer comentário sobre os esportes que a morena mais jovem tinha citado. Apenas quando ela lhe perguntou sobre seus motivos de estar em Cerise que o alemão conseguiu organizar os próprios pensamentos:

- [Eu sou bolsista de Artes, está correto, e o fato de ter conseguido expor contou pontos favoráveis pra minha aceitação, porém está na minha matrícula como requerimento manter isso em sigilo, não quero nenhum professor comentando sobre com outros alunos, pode causar desconforto, muitos deles podem sonham em expor em galerias eu iria parecer metido por já ter conseguido isso. Não quero fazer alguém desistir de seguir seus sonhos por se sentir uma farsa ou um impostor.] - o loiro falou de forma bem pontual, não queria ser exemplo e nem motivo de alguém sentir-se uma farsa ou muito menor do que poderia ser: - [E de fato, se eu não tivesse conseguido essa bolsa jamais estudaria em um local tão fino, até mesmo os meus quadros quando são vendidos, eu tenho de economizar o dinheiro pra comprar outros equipamentos e materiais.] - comentou sem ter vergonha de admitir aquele ponto, no fim das contas era um dinheiro limpo, e lhe fazia depender menos dos pais para manter sua profissão como pintor e fotógrafo.

Monique

Franziu o cenho com o comentário dele e a explicação sobre não querer que ninguém se sentisse uma farsa por ele ter conseguido sucesso tão cedo. Discordava daquele ponto de vista, ainda mais por ele ter um boa aparência e ser educado, seria um artista muito bem aceito e reconhecido pelo meio. Só esperava que ele não fosse tão introspectivo a ponto de permitir que outros tirassem vantagem de sua posição.

- [Se a pessoa desistir do próprio sonho é porque não era tão importante assim para ela.] - respondeu, sem se preocupar dessa vez em ser grossa com as próprias palavras. - [Não está sendo muito pessimista? Talvez outros artistas olhem para você como uma inspiração. Tipo, você já ficou cego e hoje tem essa fama secreta.] - deu de ombros, ajustando-se no assento enquanto dava mais uma mordida no próprio sanduíche. Mastigou e engoliu. - [Além disso, talvez algumas famílias queiram te contratar para trabalhos. Não se sabe.]

Buscou o celular, verificando novamente a conta secreta do loiro e as obras que ele tinha publicadas. Ponderou por um instante, buscando um número para contato ali.

- [Você não gosta muito dos holofotes, não é mesmo? Mas eu posso ter o seu contato? Às vezes eu participo de alguns eventos em Paris. Eventos de moda, desfiles.] - fez uma pausa, parando para observar a reação do loiro. - [Teria disponibilidade para algum trabalho como fotógrafo?] - questionou, imaginando que seria interessante também para seu portfólio trabalhar com um artista tão famoso.

Berthold

Talvez fosse difícil pros outros entenderem seu ponto, afinal, era sim um pessimista de marca maior, e talvez a morena não imaginasse o quanto estava certa naquele ponto, mas preferia não comentar sobre as coisas que desgostava em si mesmo. Abriu a boca pra responder sobre porque evitava ficar em evidência, mas ela engatou na conversa lhe pedindo um número pra contato. Ela parecia uma pessoa “normal” não era nenhum tipo de stalker maluca, e nem parecia uma pessoa mal intencionada, podia estar errado? Mas estava sempre deixando seu lado pessimista falar mais alto, poderia daquela vez dá um voto de confiança, não é mesmo.

- [Não sei se eu sou o profissional mais indicado pra fotografar passarelas, mas se quiser fazer um ensaio conceitual, está mais dentro do que eu costumo trabalhar.] - Respondeu de forma bem sincera, afinal não era sua especialidade lidar com moda diretamente, embora gostasse e achasse muito interessante, era mais um consumidor, do que um estudioso de fato: - [é um misto de coisas, sou tímido, não quero que as pessoas associem minha imagem ao que eu produzo, se elas gostarem dos quadros que seja pelo que eles comunicam, e não necessariamente, por eu ser um “exemplo de superação” eu sei que sou um deficiente, mas se as pessoas começarem a acompanhar meu trabalho pela narrativa do “cego que pinta quadros” isso vai me deixar mais frustrado do que feliz.]

Não sabia se a garota mais nova iria entender, puxou o sketchbook e passou rapidamente nas folhas por vários estudos de rosto e formas que tinha feito desde que tinha chegado, alguns em vermelho por causa do colega de dormitório, e buscou uma folha em branco. Lá anotou seu número pessoal, para o qual ela poderia mandar mensagens, e deixou destacado o e-mail de trabalho que usava, não queria que as pessoas ligassem para si e ouvissem sua voz a menos que fosse estritamente necessário. Fez um desenho ligeiro de uma Monique de busto com pedaços de pão nas bochechas, em um retrato simplificado de poucos traços e estendeu na direção da menor.: -[Pode mandar mensagem sem ser só por trabalho também, não tenho amigos ainda nessa cidade ainda.]

Monique

Sorriu para o rapaz com um ar mais relaxado e tomou o último gole de sua bebida, concordando em silêncio enquanto ele sugeria um ensaio conceitual. Preferia até trabalhar com uma ideia mais conceitual para seus projetos pessoais, para produções comerciais, conseguia fazer o trabalho muito bem com profissionais freelancers já conhecidos por sua avó. Ponderou, todavia, quando ele mencionou que não queria ser associado à premissa de um profissional que era um “cego que pintava quadros”. Respirou fundo, concordando por um momento antes de responder de novo:

- [Bem, o seu público sempre vai tirar as próprias conclusões, mesmo que você se explique. Isso meio que não depende muito de você. Mas eu vou respeitar o seu modo de se posicionar como artista. Alguns artistas não gostam de ter sua imagem associada às obras que produzem. Alguns nem sequer vão aos lançamentos de suas coleções.] - deu de ombros, encarando o loiro. - [O importante é fazer o que você gosta.]

Ficou observando as breves imagens do sketchbook alheio repleto de rascunhos. Ficou ainda mais interessada quando ele acabou fazendo um rascunho seu, o que lhe fez sentir as bochechas aquecendo, corando, ao se sentir animada com a ideia de ganhar um desenho, ainda que fosse só um rascunho, de alguém bonito e com uma habilidade artística invejável.

- [Ah, não se preocupe, Berthold. Eu também não tinha muitos amigos quando vim para cá. Tenho certeza que vai fazer bons amigos em St. Clavier. Tem garotos bem legais por lá. Conhece o Charles? Um loirinho, com cara de enjoado, nessa altura... ] - gesticulou, até animada ao recordar do rapaz. - [Tem o Oliver, ele é bem forte, mas tem cara de fofinho, ele costuma andar com o Lui, que é meio calado, mas todo mundo respeita quando ele abre a boca pra falar, tem um--] - fez uma breve pausa, diminuindo o sorriso ao se recordar do ex. - [... um ruivinho, ele é meio idiota, mas tem bastante energia, sabe? Lukashenko, o nome dele.] - desengasgou, mantendo o sorriso apenas por educação dessa vez, fazendo uma pausa para pegar algumas poucas batatas fritas para comer.

Berthold

Aparentemente sua narrativa tinha sido entendida, ao menos dentro do que tinha visto e compreendido da jovem a sua frente, ela conseguia ser ponderada e respeitar suas posições o que era um bom sinal, e realmente aumentava as chances da garota se tornar uma amiga. Terminou de comer sua refeição concordando com um aceno de cabeça que o importante é fazer algo que se gosta no fim das contas. Deixou que ela tomasse tempo olhando seu Sketchbook afinal quem não desenhava costumava ficar mais entretido com rascunhos conceituais.

Voltou a dar atenção para a mais nova quando ela comentou que também tinha demorado para se enturmar logo quando tinha chegado a França, o que era difícil de imaginar, afinal ela parecia uma pessoa muito agradável. Estranhou a altura indicada pela mais nova, porque não lembrava de ter alunos tão crianças na instituição masculina, e assentiu positivamente tentando associar os nomes, mas como eram todos os primeiros nomes não tinha intimidade pra chamar ninguém assim, mas o último nome foi bem fácil de lembrar:

- [Ah, o Presidente do Conselho Estudantil o tal de Lukashenko, eu não o conheço pessoalmente, meu colega de quarto que falou com ele por causa do clube de ciências que ele quer fundar, mas disse que ele era um pouco estranho, deixa lembrar o que ele falou… hmm-...!] - o loiro fez uma pausa, pra pensar, arrumando o par de lentes de grau no rosto: - [Algo como “amigável sem segundas intenções”, tipo, eu sei que eles saíram pra jantar em algum restaurante da orla, mas que o tal de Lukashenko não tentou “tirar nada dele”. Daí eu não sei se ele quis dizer que o garoto não cantou ele, ou se não quis tirar dinheiro dele. Esse meu colega de quarto é meio ruim de se expressar, às vezes ele fala como um “idoso”.] - O loiro sorriu de forma mais descontraída: - [Pelo que eu vi lá do Presidente do Conselho Estudantil, ele é popular, bonito e amigável, mas é linha dura e tá sempre pegando no pé dos alunos do primeiro e segundo ano].

Concluiu o seu ponto, porque como só o tinha visto de longe não tinha como ter uma opinião formada sobre ele, então o loiro pegou o sketchbook de volta e folheou buscando um dos rascunhos que tinha feito do colega de quarto: - [Aqui meu colega de quarto, o nome dele é Evelyn Newell, ele também é da Alemanha pra minha sorte, nosso quarto é chamado de consulado Alemão porque a gente só conversa nesse idioma.] - Nos rascunhos são vários desenhos de rosto de Evelyn sentado a escrivaninha, como se estivesse pensativo, várias expressões, e alguns rascunhos sobrepostos de mudança de posição das pernas, os cabelos marcados em vermelho vivo com marcador.


- [Sobre alguém dessa altura, seria um anão? Porque só uma criança teria essa altura, e eu não lembro de ter visto ninguém com cara de ter menos de catorze anos.] - o loiro concluiu a fala pensativo, afinal, St. Clavier admitia alunos para o ensino médio a partir de 14 anos, bem lembrava do livro de instruções da escola, e ainda bem que ele estava escrito em vários idiomas.

Monique

Ficou levemente surpresa ao descobrir como Berthold enxergava Yure. Baixou o olhar, pensando em quanto ele deveria ter mudado desde quando haviam começado a namorar até o término. Ficou pensativa por um momento. Desde quando havia começado a sair com o ruivinho, sua personalidade havia melhorado, conseguia conversar mais abertamente com seu pai e até mesmo estava conseguindo manter uma boa convivência com algumas garotas em Limoges. Contudo, imaginou que talvez sua convivência com ele não tivesse melhorado a personalidade do outro, apenas causado o efeito reverso. E agora que ele estava livre de sua companhia, poderia voltar a agir como uma pessoa responsável com os amigos. Sabia que ele deveria amadurecer quanto as próprias vontades. Só esperava que ao menos ele tivesse conseguido descobrir o que queria fazer do próprio futuro.

- [Não se preocupe, Lukashenko é bem ruivo. Não tem como confundir ele no meio das pessoas.] - respondeu, tentando soar mais neutra e menos reflexiva. Observou o desenho do colega de quarto do loiro e arqueou uma sobrancelha diante da imagem desenhada. Riu baixinho com a ideia do quarto dos dois ser chamado de “consulado alemão”. - Então eu deveria começar a conversar contigo em francês para que se acostume? - perguntou em francês e, apesar da língua, soou um pouco mais devagar, tomando cuidado com os trejeitos do idioma que já estava habituada a falar. - [Charles é o nome dele. Charles Eadgar. Ele é cadeirante e gosta muito de jogos, video games, ele digita muito rápido também.] - explicou, apoiando os cotovelos sobre a mesa e o queixo nas mãos abertas em formato de conchas, destacando as unhas curtas e o esmalte mais básico que estava usando já que ainda não havia saído para a manicure naquela semana.

Berthold

O loiro ficou pensativo diante da explicação dada sobre o tal ruivo presidente do conselho estudantil, só o tinha visto de longe e ele não parecia feio, mas parecia muito novo pro seu gosto pessoal, ele tinha um rosto bonito, e com certeza ficaria mais bonito em uns dois anos, mas estava fora da sua área de interesse. Berthold arrumou o par de lentes de grau no rosto antes de voltar a encarar a mais nova a sua frente:

-- [Como eu vi de longe e não conversei com ele só posso dizer que ele tem um rosto bonito, mas ainda é muito carinha de criança pro meu gosto pessoal.] - Comentou de forma despretensiosa, sem se incomodar de falar abertamente do seu interesse por outros homens, mas deixando claro que preferia gente mais velha. Prestou atenção no francês falado pausadamente para sua pessoa:

-- Ah eu entendo francês nesse nível, o meu problema é mais com expressões idiomáticas, e contrações de frases, eu consigo assistir aula e ler textos, mas as vezes conversar na rua é difícil. - o loiro sorriu mais animado, falando no seu francês carregado por seu sotaque alemão, afinal estava a pouco tempo naquele país pra ter seu sotaque diluído:

-- [Ah, agora faz mais sentido, eu não lembro de já ter visto, eu sei que o presidente do conselho disciplinar também é cadeirante, e ele é bem bonito. Mas eu não ando aprontando nada pra cair no disciplinar, e nem estou em nenhum clube pra ir no conselho estudantil, sou um aluno que pode ser considerado de mediano pra ruim]. -- O loiro sorriu da sua própria desgraça como estudante: -- [Dos alunos de St. Clavier que eu já conhecia antes de entrar foi o Arman M. Jhonson, que é fotógrafo e pintor e eu já acompanhava o trabalho dele pelas galerias.]

Monique

Ouviu a opinião do outro sobre Yure e concordou em silêncio. O ruivinho tinha uma cara mais jovem mesmo, mas gostava disso nele, deveria ser o sorriso constante que deixava ele com um ar mais jovial.

- [Você pode me mandar mensagem quando quiser saber alguma expressão. Deve ter algum aplicativo que possa te ajudar nisso também.] - sugeriu, acenando brevemente. - [E não se preocupe com o horário, pode me enviar mensagem tarde da noite, eu prefiro trabalhar de madrugada também.] - riu com o comentário dele sobre ser considerado mediano. Estendeu a mão para ele e apertou a dele, cumprimentando-o em silêncio. - [Estamos juntos nesse barco então. Já tive o prazer de ir parar na sala do conselho disciplinar por colecionar advertências, tentar fugir de Limoges no primeiro ano e… outros problemas.] - deu de ombros, lembrando de seu problemático caso com Viola. Encarou o rapaz em silêncio até se recordar do nome do fotográfico. - [Ah! Um moreno alto! Conheço! Já paguei alguns trabalhos dele. Ótima qualidade, ótimo serviço. Ouvi dizer que ele e o namorado terminaram… acho que o namorado dele deixou St. Clavier.] - comentou, observando a reação do outro silenciosamente.

Berthold

O loiro não sabia exatamente o que tinha deixado Monique desanimada, mas pelo visto já tinha passado, não era exatamente bom em fazer leituras do estado de humor dos outros, até porque se começasse a tentar pensar o que tinha causado aquilo, nem saberia dizer, não a conhecia a tempo suficiente pra poder prospectar. Mas ao menos o rumo da conversa estava melhor, e finalmente parecia que tinham achado um assunto confortável para tratar:

-- [Eu também trabalho até tarde, então podemos ficar trocando mensagens sobre aleatoriedades, e eu realmente não sei se tem algum aplicativo pra isso, mas se você achar eu agradeço.] -- o loiro brincou, mas foi surpreendido com a mão estendida de sua direção, entendendo o gesto apenas depois, com o complemento da explicação, e apertou de volta, notando a diferença do tamanho entre as mãos, afinal tinha sido jogador de basquete por muitos anos então era natural que houvesse certa diferença: -- [Ainda bem que eles não consideraram o meu histórico de advertências da outra escola em que estudei, senão eu certamente começaria mal meu novo ano letivo.]

E não foi surpresa que a mais nova conhecesse também o pintor, descrevendo-o com facilidade, no entanto, a mais nova destacou um ponto que não tinha conhecimento, ou melhor vários pontos: 1, que ele era gay, ou pelo menos Bi, 2, que ele tinha um namorado, 3, que eles terminaram e por consequência ele estava solteiro. O loiro piscou um par de vezes e a armação das lentes de grau escorregaram na linha do nariz até quase a ponta. Até o próprio Berthold ficou levemente corado, e ajustou o par de lentes do rosto, apoiando o queixo na palma da mão e desviando o olhar para qualquer outro ponto:

[-- Ele é “vassoura quente” com certeza. Ai ai…! ]-- Não tinha nem o que acrescentar ali de comentário adicional, quem sabe poderia chamá-lo pra sair? Tirar umas fotos por aí? Fazer cumprir aquele ensaio de fotos que ele tinha lhe convidado? Se perdeu brevemente em pensamentos distraído com as possibilidades, até se dar conta que tinha ficado muito tempo calado retornando a atenção a menor: -- [Mas assim términos são sempre ruins, mas se foi em maio quando acabou o ano letivo, estamos em setembro agora, acho que deu tempo dele tomar um fôlego ao menos. ]

Monique

Ficou contente em ouvir do outro que ele também tinha hábitos noturnos. Algumas pessoas que havia conhecido nos últimos meses possuíam hábitos saudáveis demais para perder noites de sono e gostar de acordar tarde como ela. Riu baixo com a ideia daquele rapaz com ar de gentil e certinho ser algum tipo de “bad boy”. Definitivamente, seria uma surpresa descobrir sobre quais advertências ele teria conseguido, mas achou que tudo fosse piada da parte dele. Não conseguia visualizá-lo quebrando alguma regra.

Notou o leve corar no rosto do rapaz e arqueou uma sobrancelha, sem entender ao certo que tipo de reação era aquela. Baixou o olhar por um momento, pensando sobre a lembrança de quando havia discutido com Lukashenko e sido a culpada pelo término do relacionamento dos dois. Balançou os pés por debaixo da mesa e resolveu não tocar no assunto do término novamente. Encarou o loiro com um ar de curiosidade e estreitou o olhar.

- [Eu diria que ele é bonito sim. Sabia que ele costuma praticar corrida?] - questionou, entretida, batendo a unha do indicador sobre a mesa antes de perguntar finalmente: - [Mas o que quer dizer com “vassoura quente”? É uma gíria de onde você veio?] - encarou o rapaz, imaginando se ele ficaria mais constrangido com a pergunta.

Berthold

O loiro estava entretido com a ideia de poder chamar Arman pra sair com mais intenções do que só um ensaio de fotos ou conversas sobre exposições e burocracia de galerias, até que foi surpreendido com o comentário direto de Monique sobre a gíria que tinha acabado de falar. O alemão ficou corado e desviou o olhar brevemente, tentando tapiar, porque tinha deixado o comentário escapar sem ter noção se a mais nova tinha idade pra saber o que era aquilo, e tentou buscar a explicação mais plausível que poderia ser dita em horário comercial em que estavam:

-- [Bem, é uma gíria gay pra dizer que algum outro homem é muito atraente, muito mesmo!] - o loiro sorriu diante da própria incapacidade de explicar uma coisa que seria tão simples se estivesse conversando com outro homem gay, mas fazia parte da vida, imaginava que uma jovem estilista não teria problema em ter um novo amigo homossexual: -- [E depois desse meu comentário ficou evidente meu interesse em caras, espero que não tenha problema com isso.] -- o loiro sorriu meio sem graça e constrangido, porque não é necessariamente o tipo de assunto que se tem numa primeira conversa com alguém que acabou de se conhecer.

-- [Como eu acabei de chegar na França eu não sei onde outras gays andam, e como abordar outras pessoas, imagina a minha dificuldade pra flertar se eu mal sei falar francês.] -- O loiro riu tentando descontrair dentro da sua própria situação.

Monique

Ouviu a explicação acompanhada do pedido de que o outro esperava que não tivesse problemas com homossexuais. Acabou rindo, era bem óbvio que estava acostumada com pessoas com diferentes inclinações sexuais no mundo da moda. Na verdade, em um internato só de meninas, já havia ouvido e visto muita coisa. Até pensava que Silvia e Danielle faziam um bonitinho casal, a amiga de cabelo verde super preocupada e certinha com a criatura sem rumo e sem cabeça que era Danielle.

- [Eu não me preocuparia com isso se fosse você. St. Clavier é um internato para garotos, o que mais vai achar por lá são… homens “vassoura quente”.] - respondeu, sequer dando atenção ao tempo em que estava ali conversando com o loiro. - [O antigo diretor é meu padrinho. E a diretora de Limoges é minha atual madrasta, então se quiser me chamar de sua fada madrinha, eu posso te oferecer um tour pelas duas escolas... ] - ofereceu, convencida e até bastante amigável. Talvez o tempo vivendo em Cerise tivesse lhe feito bem, afinal. Estava feliz por alguns motivos, seu pai estava enxergando de novo, era a irmã mais velha de dois bebês gêmeos super fofos, e em algum tempo estaria formada e pronta para começar sua carreira como uma estilista europeia. - [Se quiser, posso te mostrar o clube de corte e costura. Ou natação. Ou… hipismo. Gosta de cavalos?] - perguntou interessada. Não costumava encontrar muitas pessoas interessadas em cavalos. Na verdade, essa era uma das poucas coisas em comum que tinha com a senhora L´mark.
Reply


Messages In This Thread
Eye Examination [Berthold] - by Monique - 09-28-2021, 03:29 PM

Forum Jump:


Users browsing this thread:
[-]
Cerise News
Dia xx/xx/xxxx
População de Cerise come mais Patchdonald's que a média nacional de comedores de McDonald's, diz jornal Le Monde.

[-]
Birthdays
Today's Birthdays
No birthdays today.
Upcoming Birthdays
avatar (37)Skurai

[-]
Latest Threads
Trouble in Paradise [Carbella]
Last Post: Natalia
09-27-2023 04:34 PM
» Replies: 6
» Views: 28
Julgando a vida alheia [Diodoro]
Last Post: Natalia
09-08-2023 11:08 PM
» Replies: 16
» Views: 42
Run Boy Run [Daniel]
Last Post: Qiang
09-07-2023 06:32 PM
» Replies: 6
» Views: 32

[-]
Recent Posts
Trouble in Paradise [Carbella]
Ao terminar de consu...Natalia — 04:34 PM
Trouble in Paradise [Carbella]
Carbella queria dize...Carbella — 10:02 PM
Julgando a vida alheia [Diodoro]
Voltou o olhar quase...Natalia — 11:08 PM