Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac]
#10
Sasha sabia que não era a melhor pessoa naquela situação, porque era insensível e tinha dificuldade de compreender os sentimentos alheios. Porém, até a mente pouco empática de Sasha podia ver o quão difícil era aquele momento para Renaud, e pior, o quanto ele ainda tentava se culpar por tudo aquilo que não era culpa dele. Isso lhe deixava com um gosto amargo na boca, afinal, não conseguia entender inteiramente o sentimento do irmão quando não tinha essa necessidade de aprovação da família como ele tinha.

Mas mesmo que não fosse ligado a própria família como ele era, sentiu um arrepio passar pelos braços e pela nuca com as palavras dele, engolindo quadrado qualquer confiança de reclamar ou lançar aquelas palavras honestas e insensíveis ao vento como fazia sempre. Renaud, de todas as pessoas, com todos os eventos no passado, se considerava defeituoso, e por isso estava se culpando, por ser daquele jeito, pela forma como o relacionamento conturbado dele com a mãe aconteceu. Isso lhe deixava tão irado, tão furioso que não tinha sequer reação, afinal, que relacionamento desgraçado ele tinha com a família que conseguia fazer ele sentir tanta culpa de só ser do jeito que ele era?

Era fácil para Sasha pensar o quão fodido era isso, porque tinha sido “perfeito” a vida toda, e agora era defeituoso. Renaud queria não ser defeituoso para ser aceito pela mãe, enquanto Sasha só tinha encontrado qualquer vaga noção de uma família normal por ser defeituoso. Tinham como vencer, nessas circunstâncias? Vencer o egoísmo dos próprios pais? Por isso tinha achado uma família em outro lugar: parte porque é ingrato, parte porque precisava ser aceito por alguém que não lhe tratasse como lixo ou como um projeto de caridade.

Didier, que por outro lado, entendia melhor o relacionamento entre Renaud e a mãe não estava pronto para aquelas palavras. Não porque não as esperasse eventualmente, mas porque já se sentia com imensa dificuldade de não desrespeitar o luto do moreno, mas era impossível se impedir de franzir a testa e morder os dentes, apertando o lençol sobre a maca com toda a força que tinha depois de ouvir aquelas palavras tão significativas. Aquelas não eram só palavras. Eram um soco direto no seu rosto. Respirou fundo, mas não conseguia se sentir nada além de afobado, e a respiração foi ficando cada vez mais curta.

- Seguro, tengo essa certeza por você. – Didier falou com um tom baixo, encarando Renaud e trazendo o rosto dele com as mãos em sua direção. – Que você é um hijo bueno, e que você não é defeituoso... ela é su mamá, Renaud. Ela lhe quis, então ter você é o suficiente para fazê-la feliz. – o loiro falou com muita segurança, apesar da voz tensa e baixa. – Não é uma troca. Você faz ela feliz e ela lhe chama de bom menino. Una madre cuida a su hijo.

O espanhol tinha muito, muito a dizer sobre isso. Estava segurando a língua como podia, controlando-se como podia, porque afinal, não estava descrevendo só o relacionamento conturbado entre Renaud e Beatrice, mas o dele mesmo e de sua mãe. Afinal, quem mais que Didier para perceber que era um filho defeituoso, quebrado, que tinha tentado a vida toda comprar afeição da mãe com favores, e que tinha sido abandonado tal qual Renaud? Sentiu um nó descer a garganta, afinal, o mais injusto era que Renaud tinha perdido a chance de consertar o relacionamento com ela por algo além do controle dos dois; ele tinha recebido uma indicação clara de que Beatrice não o rejeitava, mas estava engolido demais pela culpa e a tristeza para perceber. Didier passou os quatro últimos anos ansiando por qualquer sinal como a visita de Beatrice, mas não sentia inveja alguma, só revolta com o destino tinha agido: dando enfim a presença da mãe de Renaud só para tira-la dele em um instante. Já não bastava o tanto que ele tinha sofrido?

- Se tem algo defeituoso é o relacionamento de vocês, no ella, ni tú. Porque mesmo que você fosse difícil de lidar quando niño... mesmo que ela não soubesse como... ela debia haber estado contigo. Você foi pra rua brigar, e não teve resposta. Você se “consertou”, você praticou suas músicas, você... convertiste em vicepresidente... você se tornou um “estudiante perfecto” e não teve resposta. Has intentado toda la vida, Renaud, que ela olhasse pra você... você não foi um filho ruim, e também não foi um filho bom... porque ella no estaba contigo para ver nenhum dos dois. Pero yo vi. Eu vi você se esforçar. – Didier disparou, como se estivesse vomitando aquelas palavras, do próprio coração, ignorando toda a tristeza de Renaud naquele momento pela perda da mãe, e suas palavras talvez tenham sido tão honestas que Sasha até acordou dos pensamentos para lhe encarar também. Didier não conseguia mais respirar profundamente para se acalmar, e as lágrimas correram pelo seu rosto muito fáceis, como se não tivesse se impedido de chorar na frente dos outros a vida toda. – Se ela não tivesse se afastado, ela não teria causado tanto mal a você. E se ela não se preocupou uma vez com todas las tonterias que a gente se meteu, eu concordo com o Peyrac, ela não merece suas lágrimas.

Didier enxugou os próprios olhos com as mãos, de modo desajeitado, mas eles ainda estavam muito vermelhos, e a expressão muito lívida de raiva, de frustração, que aqueles pensamentos sequer cruzavam a cabeça de Renaud.

- Ella... su mamá... não era perfecta. Ella tambien... E levou esse tempo todo pra ela tentar olhar pra você... e mais que olhar pra você, hablar com você, e você responder. Vocês precisavam tanto hablar. – a voz do loiro subsidiou o tom intenso, os lábios trêmulos denunciando o pouco controle que tinha de si mesmo. Sasha alcançou a perna de Didier, o olhar franzido claramente lhe dizendo que já era o suficiente, que ele estava falando demais, indo longe demais. Mas Didier não sabia como parar. – Renaud, no creo... que ela sequer tentaria falar com você depois de tanto tempo... se ela não estivesse preocupada. Me lo dijo... as coisas que conversaram... eu não acho que su mamá veio procurar um hijo perfecto, ou bueno... ela veio procurar você. Ela veio cuidar de você. Uma vez... uma vez ela deixou a covardia de lado e veio cuidar de você. Isso não é prova... que algo que você fez na vida... fez bem a ela? Por que ela viria por um hijo que não amava? Tonto!– Didier franziu a testa, as lágrimas voltando aos olhos, que enxugou devagar enquanto a garganta se fechava. – Lo sie... lo siento... eu não queria te magoar... no queria hablar tanto... pero no puedo ver você pensar tonterias...

Sasha abaixou o olhar, uma mão sobre o joelho de Renaud a outra sobre o de Didier. Encarou os dois, querendo pelo menos parabenizar Didier por não ter mentido, mas bem verdade, achava que ele tinha falado demais mesmo.


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RE: Juntando os Pedaços [Renaud, Didier, Sasha, Isaac] - by Didier - 10-03-2021, 04:09 AM

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